sábado, agosto 30, 2014

Übermensch...

Se me levantasse agora de um salto e corresse para a varanda, se saltasse para o espaço apenas de ar, por certo me esborracharia na calçada lá em baixo, dois andares percorridos em queda livre. Por certo, quase certo, que nem Schrödinger me valia (não sejam preguiçosos).
Übermensch, por rigor, por não ser totalmente consensual a tradução. Em português talvez “além do humano”. Em inglês é “Superman”, que contagiou a partir de si (da língua e da cultura) as restantes traduções. Super-homem precisaria de ser então, para sobreviver sem males a uma queda da minha varanda, ou a um voo tentado se preferirem. Mais por influência da banda desenhada, que da filosofia, assim como na maior parte dos casos, pois também ela, a banda desenhada, condicionou a tradução e entendimento do conceito original. É normal. São mais simples, aparentemente, as histórias de super-heróis. Na verdade encerram enorme complexidade, densidade, pensamentos filosóficos tão potentes. Talvez sejam as cores, a ação, as lutas e os super-poderes que nos distraem, julgando-nos perante maior simplicidade e talvez seja assim mesmo. Quando reduzida a emoção não refletida (não é sempre?), a mais complexa das ideias parece um sopro, um pequeno sopro. Podemos senti-lo ou não, percebê-lo, às vezes entranhar sem nos darmos conta. E ele fica cá.
É assim com o super-homem, que deliciosa versão do que podia ser, arquétipo perfeito de tudo. Quais são os poderes? São os nossos, as nossas forças medianas num terráqueo, exponenciadas se viermos de Krypton. Mas são as mesmas. Temos força, ele (o ou um super-homem) tem mais. Vemos, ouvimos, cheiramos e ele também, mas mais, muito mais. Saltamos meio-metro, um metro e vinte, ele pula por cima de um prédio. E voa. Mas nós não voamos! Porque não? E o nosso maior salto, aquele que durou mais tempo. Talvez tenha sido um voo, apenas durou pouco. O dele parece não terminar.
Baralhou-nos, aos rapazes depois homens (um dia homens) o conceito, a ilusão do sobre-humano, perdão, do além do humano? Talvez, mas no fundo sabíamo-nos incapazes. Funcionava, funciona como um estímulo, uma motivação. Às vezes ainda sonhamos em poder voar, acordados ou a dormir. Não nos preocupamos muito com o conceito filosófico. Nem o conhecemos bem. Transcender-me? Ser superior? Queria era voar, ter força sobre-humana (aqui sim), visão raio-x. Sim, visão raio-x era ótimo. Quando muito ajuda (em sentido negativo), a lidar com o presente unisexo, onde perdemos orientação, sem papéis definidos, cada vez menos super, mesmo que fosse apenas uma ilusão. E era?
As raparigas, depois mulheres, mais cedo mulheres (muito mais cedo), não sonhavam em ser super, de poderes especiais e capa encarnada, bem entendido seja. Não sei se sonhavam, não posso dizê-lo. Em lugares-comuns fá-lo-iam, com príncipes e vidas perfeitas, ignorando os super-heróis, os super-homens, destinadas à desilusão, se esperassem demais, demais no sentido de irreal, não por desmerecimento. Isso dependeria de cada caso, delas e deles. Não sabiam que queríamos ser super-homens, nem sabem que às vezes ainda pensamos poder voar, alguns de nós, quando toda a casa já dorme, num último instante antes de abandonarmos a consciência. Por um momento perfeito, que para o ser também precisaria de imperfeições (como as fragilidades e vulnerabilidades a que todos os super-heróis estão sujeitos), sairia disparado da minha varanda, a cruzar os céus, a rasar oceanos e prados ainda frescos. Salvaria o mundo, salvar-nos-íamos a nós próprios, satisfeitos com a ilusão, a certeza, a sensação que não se pode explicar de ser, de sermos – Super-Homem.

terça-feira, agosto 19, 2014

Mondego...

Desta vez o título não é importante, ou pelo menos não espelha a escrita. É o nome da canção que estou a ouvir, porque é isso que faço para escrever. Não tenho qualquer ligação especial a Coimbra ou ao rio Mondego. Contaram-me uma vez uma história passada na semana da Queima, de um estudante demasiado embriagado que caiu ao rio no recinto onde se faziam as festas, ao longo do Mondego. Passou-se nos anos noventa, que foram um pouco descaraterizados, mas mesmo assim tomei como verdadeiro o que me contaram. Ao que parece uma rapariga atirou-se à água e salvou o jovem de se afogar sem brilho nem glória. E no final, em forma do mais bizarro dos agradecimentos invertidos, fez-lhe sexo oral. Sim, ela a ele, salvadora a salvado, credora a devedor.
Mas desvio-me e ainda por cima com histórias menores. Serão? Dizia que não tenho uma ligação a Coimbra. A minha irmã estudou lá, mas sem deixar marcas, para mim claro está. Bem, na verdade há uma ligação. Provavelmente não a vou esquecer. Mas faz parte daquelas histórias que não escrevo. Ficam de memória.

Tem-me acontecido isto ultimamente. Demora a chegar, demoram os temas a surgir, pelo menos neste registo. E mudo, mudo a meio o que pode ser irritante para quem lê, reconheço. Como posso compensar? Como?
Com uma história, claro, mas de futuro por uma vez, pela primeira vez? Quando for bem mais velho, já perto de fazer cinquenta e cinco anos.

Deixei crescer um fino bigode negro, forçado no tom com uma tinta própria que encontrei nas coisas do meu avô. Sim, porque a barba nos  homens começa a ficar branca muito cedo. O cabelo não precisa de tanto cuidado. Como que por milagre parou de cair e puxado para trás, brilhante a gel ou espuma, esconde o topo, a auréola que aos vinte e tal se anunciou, irritante, para ficar. Abandonei as tshirts e as gangas e comecei a andar sempre de fato, na maior parte do ano em cores escuras, em negro e cinza. Só quando os emigrantes começam a chegar me permito a mudar, por duas ou três semanas, vestindo as camisas largas daquele tecido especial que se usava no ultramar. Foi um tio-avô que me deixou uma dúzia em testamento, cremes, cinzentas e uma de um branco sujo, quase pérola. Cantava bem o meu tio, agora consigo perceber. Na altura fartávamos-nos de rir com a cantoria, no verão, quando a família se juntava na aldeia do interior algarvio. Havia um ribeiro artificial, guiado pelos muros baixos de pedra. Da pequena ponte saltavam uns rapazes, para pouco mais que um palmo de água. Que medo. Eu não seria capaz de o fazer. O meu tio aplaudia e depois largava a cantar. E nós torcíamos a vergonha e aproveitávamos para nos inclinarmos por cima das raparigas. Inspirávamos forte que as camisas eram demasiado fechadas, mesmo de verão e alguma coisa queríamos recordar. Acho que a M. gostava de mim. Talvez gostar seja forte demais, mas olhava de uma forma especial, com um brilho. Mas eu estraguei tudo. Numa tarde, resolvi espremer de uma só vez todas as borbulhas ou projetos de borbulha, que me apareciam na face. Que burrice. Fiquei com sangue pisado de tanto apertar. Ai se pudesse voltar atrás. Depois desisti de vez, por não saber ainda que para elas não é assim tão importante.
Tinha voltado a essa mesma aldeia, para dar um concerto. Conseguia ouvir o público do outro lado da cortina improvisada, nas festas da Nossa Senhora de qualquer coisa. Também eu canto bem, é o que dizem, talvez pela influência do meu tio-avô, que até o fino bigode de aparência italiana lhe copiei. Chamam-me, está na hora. Entro em passo firme no palco que até tem bom aspeto e sou recebido como um filho pródigo, uma celebridade da terra. Na fila da frente estão as duas únicas tias que ainda enganam a morte. Atiram-me palmas e beijinhos com as mãos e uns pequeninos lenços brancos. Ao lado, os filhos, os netos, tantos primos que não lhe fixo os nomes a todos e o presidente da junta, também familiar, inchado, orgulhoso, quase choroso, gritando o meu nome e logo a seguir a mandar calar.
O silêncio chegou, deixando a banda transformada em orquestra começar a tocar. Uma introdução média que me dava tempo para respirar e para olhar. Tentei esquivar-me dos dois holofotes e à pressa procurei no meio dos espetadores. Queria vê-la, saber se ali estava para me ouvir e ver. Estiquei os segundos, atrasando a realidade e tornado-a lenta, vasculhando face a face a multidão, à procura. O tempo apanhou-me e tive que soltar a voz, o timbre antigo muito parecido com o do meu tio. O equilíbrio era perfeito, até os grilos pareciam ter-se calado, para me honrar numa noite tão doce. Só ela faltou. E eu ali, tão definido e elegante, bem barbeado e sem marcas nem borbulhas. E eu ali tão só, cantando o Mondego.

sábado, agosto 16, 2014

A noite, o banco e o futuro...

Passei quase o dia inteiro a dormir. Ontem foi o meu último dia de trabalho, daquele trabalho. Devia doer-me o corpo por isso, acumulando dores de dezoito anos fechado em paredes, às vezes quatro. O jantar deixou-me com sensação de peso, apesar de não ter sido muito. Rebolei pelo sofá e pela outra cama até perto das onze da noite e de um pulo me decidi. Ia dar uma volta.
A noite estava fresca, com ares de beira-mar, boa para caminhar. Ainda pensei no carro, para ir mais longe, mas estava sem telemóvel e sem chave de mudar rodas. Ia lá ser hoje que tinha um furo, é pouco provável, mas a prudência empurrou-me para a rua do costume, legitimando o que já havia decidido. Poucos andavam por ali. Nem sei que feriado foi este, mas teve dons de desaparecimentos. E andei, pensei na recente decisão, na mudança mais profunda dos últimos tempos. Tornar-me escritor a tempo inteiro, que medo miak!? Não, claro que não. Alívio, orgulho na força, não exagerada, contida, com alguma dose de racionalidade. Menos heróica sim, mas de heroísmo ainda assim. De alguma coragem, pois então.
O medo só virá, se vier, lá mais para a frente, se não resultar, se não for o que pensei, se, se, se...
Que se lixe o se. Não vou ter medo. O primeiro passo é esse. Pô-lo de lado, como a morte. Porque falo nela. Porque não? É fascinante, não vos parece? Domina a vida e o nosso pensamento. É questão que marca e condiciona. Mas, na palavras da filosofia, não tem nada de mal. A não ser pela coisa que vem antes dela – o medo da mesma. É verdade e para um ateu ajuda tê-lo bem presente. Antero de Quental suicidou-se. Como Camilo Castelo Branco e Florbela Espanca. Como Woolf, Hemingway e Wallace. Como um senhor de uma aldeia perto de Viseu, que tinha uma padaria. Um dia deixou de querer viver. Olhava a massa de pão a ser enrolada pela máquina brilhante em inox e ficou triste. Já não era preciso ali. E foi enfiar a cabeça no forno, que esse sim ainda era antigo.
Sentei-me no banco, no mesmo dos namorados adolescentes, dos beijos que invejo. Agora já não há beijos assim, para mim. Tenho saudades. Mas enfim, também os tive, em verões à séria, em bancos e muros, onde era eu que me sentava. Ela anichava-se entre as minhas pernas, de pé.

Hoje mudo mais uma vez. Amanhã serei o mesmo e alguém novo. Serei eu...

quinta-feira, agosto 07, 2014

Chances are...

Não se deve escrever depois das duas da manhã. É difícil, quase impossível controlar o que dizemos. Às três chega a hora do diabo. Sim, ouvi num filme a preto e branco e nunca esqueci. Isso e que não se podem comer maçãs à noite. A meia-noite das bruxas pareceu-me doce então, pouco capaz de me fazer mal.
Há meia-hora atrás estava mais instável, parecia-me que ia escrever qualquer coisa de genial. E depois acalmei. Agora só revelo intimidades, mesmo que na puta da abstração, se quiser, porque a emoção não está cá. E será que consigo, será que quero? Vamos lá que preciso desentropecer os dedos.
Qual é o sentido, de amar (tinha que ser o amor?), qual o sentido de procurar? É tarde e estou baralhado com os verbos. Desculpem. Vale mais um sorriso ou um enorme caderno de encargos, de requisitos que de início nos parecem suficientes para dar segurança, não percebendo que o documento vai engrossando com os anos? Será que vale pena? Fomos feitos para uma pessoa só? Fuck it. Não me apetece escrever sobre isto. Estava a forçar o tema. Que digo então?
Vá, não tenhas medo de ser simples, de abandonar o negro, a sombra que parece ajudar a arte. Pensa no quarto de adolescente, no gira-discos que parecia uma nave espacial. Que deitava uma luz verde com capacidades curativas, que me acalmavam. Se olhar para dentro, consigo sentir a mesma, a perfeita e exacta paz naquele, num daqueles verões ribatejanos, onde o vento não se atrevia a passar. Com ela, mesmo sozinho, ficava no escuro a ouvir o disco vezes sem conta. Tinha que me levantar de vez em quando, mas não me importava. Não sentia a falta de uma tecnologia que ainda não existia. Só a simplicidade dos sonhos de rapaz bem acordado. Queria aventura. Não. Nessa altura acho que ainda não, queria coisas simples e pouco ambiciosas e talvez fosse mais feliz assim. Mesmo de janela fechada, podia imaginar o ar quente, o seu cheiro lá fora. Se não o sentiram aos dezasseis, talvez já não seja a mesma coisa. Eu senti, eu lembro-me. Ainda me enchia as narinas quando regressava aos fins de semana. Agora já não. É estranho. É mais presente na memória. Será que o ar mudou por lá? Não faz mal. Eu ainda me lembro.

Vês? Eu não te disse? Fixa esse sorriso duende, para poderes sempre recordar-te, voltar a ele...

terça-feira, agosto 05, 2014

O banco II...

Às vezes, mesmo que só às vezes, a magia aparece. E no meu bairro, o tempo pode mesmo voltar para trás...


sexta-feira, agosto 01, 2014

O banco...


Assim vejo da minha varanda, se me inclinar para baixo, arriscando-me a ficar sem óculos. Mas vale a pena, porque me inspira. Há alguns bancos na praceta, parecendo mais velhos do que são na realidade. Deve ter faltado verniz ou outra forma de os preservar. Mas disperso-me. Quase contava a vez que ia partindo as duas rótulas na madeira, porque olhava para uma rapariga carteira.
Desta vez não corri riscos, a não ser o dos óculos. Eles lá estavam sentados, mas isso podem ver. Ficaram quietos, acho que falavam baixinho. Não conseguia perceber o que diziam. Concentrei-me na distância, a que mantinham entre eles. Seria reveladora do que se passava, do seu estado de espírito? Estaria a imaginar coisas? Mas isso estou sempre.
Pensei que estavam zangados, sem gritaria nem algazarra, com respeito. É assim que se deve discutir e conversar. Mas por outro lado havia amargura, faltava som, falhava o toque. Estaria o momento perdido? A vida, uma vida inteira a caminhar para o fim sem sal nem sentido? Não podia ser. Preferiria gritos, abanões, recuos e avanços na madeira sem verniz, mas que lhes trouxesse de novo a dúvida e depois a certeza, um abraço ou um beijo na face. Mexam-se por favor!

Não se mexeram. Não saíram dos milímetros definidos para cada um e a voz continuou baixinho, impercetível. Depois a Dna. Lourdes tocou à minha porta e tive que ir abri-la. Não sei se continuou, se continuaram...

terça-feira, julho 29, 2014

(Des)larguem-me... II ou não...

É muito raro comentar o que escrevi. Assumo alguma falta de simplicidade na forma e dou-lhe liberdade, à "pena", para falar. Mas tenho consciência que por vezes exegero e por isso abro uma exceção.
No meu último post, pode não ter ficado claro, mas a minha (vá lá) irritação era com outras redes, principalmente o Facebook. É verdade que os conteúdos e as partilhas podem ser bons ou maus, seja qual for o meio. E mesmo o conceito de bom e mau pode ser alvo de alguma subjetividade. Mas a experiência (a minha experiência) diz-me que em média os blogs são melhores que o Facebook. Pelo que lá se coloca, claro está, mas também muito pelo ambiente, pelo registo, pela própria natureza dos mesmos, que se prestam a uma realidade mais verdadeira mesmo, como já referi, quando nos deixamos ir pela imaginação.

Por isso, à medida que cresce o meu desancanto pelo Facebook e outros, renasce a satisfação por voltar a este meu cantinho e aos vossos, que vou reecontrando ou descobrindo.

domingo, julho 27, 2014

(Des)larguem-me...

Não vos aguento. (Des)larguem-me! Não quero saber das vossas férias, dos vossos gatos, do que foi o jantar, do que foi o almoço, dos vossos gatos, dos vossos filhos, das citações, dos jantares, do artesanato, das opiniões, das banalidades, sim das banalidades de tudo e nada que colam no ecrã, que só tem “vida” porque existem uma e outra rede que permitem essa existência sem substância.
Chamam-lhes redes sociais pela capilaridade, acho eu, pela possibilidade de nos ligarmos uns aos outros. Mas isso não acontece. Acontece? Um indivíduo médio não se liga a quem já conhece, mesmo que de raspão? A brutalidade de uma aparente transparência torna a realidade lenta, “emperrada”, incapaz de se mostrar nua, de arriscar. E como alguém notava um dia destes, em plena e constante felicidade, como atestam as fotos e as línguas de fora e as fotos com as línguas de fora. Não é estranho? Onde estão as mensagens de desespero, de medo, de tristeza? Onde está um post onde alguém mostra uma foto com cara de choro e confessa uma qualquer desgraça? Nada. Ou quase nada, num mar de perfeição maquilhada e cirurgias plásticas da psique.

E os blogs? Sim, os blogs. Por tudo isto as saudades, a preferência. Posso generalizar? Posso, com os riscos assumidos de tal opção. Sim, tinha saudades. Porque a verdade é outra. A densidade também. Num mundo que parece escondido, sem fotos e até nomes de identidade. Num território perfeito para a maior das mentiras (e talvez por isso mesmo), nasce a sinceridade mais profunda, a coerência com o que se sente, com o que se pensa, com a realidade, mesmo que imaginada. Sim, há pertença e empatias e zangas, desilusões e risos, ilusões e fascínio. Há vida.

quarta-feira, julho 23, 2014

Virginia...

Já era fascinado por ela antes de a conhecer, a sua história claro. A sua escrita. Parecia-me um quadro escuro, daqueles que nos puxam e afastam o olhar. Como seria Virginia Woolf na realidade, ouvida, vista, sentida? O seu fim é um pedaço de poesia, uma metáfora imensa, de cores outonais e água fria. Entendem?
Início de julho. Um dia acinzentado, o calor que não chega na sua plenitude. A esplanada é sobranceira ao mar, à pequena praia quase sem areia. Por meio de conversa e uma bebida quase não reparo nela. Eram poucos os que se descalçavam para esmagar grãos de areia que nem deviam estar muito quentes. Ela sentou-se perto da água, muito perto do limite médio das ondas, do espaço que iam molhando. Tudo isto eu não via de forma muito consciente. Devia ir notando pelo canto do olho, memorizando a cena, como se esperasse algo. De repente, a rapariga deita-se para trás, pernas estendidas para a frente, braços esticados ao lado do corpo, os pés a meros centímetros da última onda. Estava vestida. Tinha umas calças escuras e uma camisola sem mangas, descobrindo os ombros e o colo. Ali ficou, sem se importar, nem com a primeira água que a encharcou até meio do corpo e a segunda que se estendeu como um lençol onde parecia estar deitada. A estranheza invadiu a praia. Os nadadores salvadores esboçaram uma reação, hesitaram. Nós olhámos, comentámos, até rimos. Ela não estava ali. Demorou mais um pouco até se levantar e avançar mar a dentro, só um pouco, até à cintura. Veio-me de novo Virginia, enquanto ela fazia meias-luas com os dedos na água, como se dançasse.

Por fim voltou à areia, renovada, cheia de água e sal, calma, com movimentos lentos. Pegou na pequena mala e nos sapatos, que deixara a salvo um pouco mais a cima. Nunca olhou para o lado e abandonou a praia. Só me ocorre o rio, a coragem de terminar a história. Só me ocorre Virginia.


segunda-feira, julho 14, 2014

... (de um silêncio)

Por onde é que eu começo? Pela anarquia do pensamento, ainda sem ideia formada? Pela metodologia recente, a que me obrigo a aderir, que me afasta (talvez) de um mundo demasiado estranho até para mim?
Hoje sonhei e acordei e voltei a fazê-lo. Um a seguir ao outro, cada vez mais escuros, mas não perigosos, quero acreditar. Acordo com a sensação de limpeza, de que o cérebro lavou as ligações e empurrou para o lixo o inconsciente que de dia não quis nem poderia entender. E cansado mas limpo acordei. Recebi sol e água fria. Conversa e reencontros.

Ainda falta. Ainda não volto em plenitude de técnica e conteúdo. Mas é um início. Honesto, com boas possibilidades de ser dedicado. E sem me importar (por enquanto), com o que vai sair. São letras...?

sábado, julho 12, 2014

O regresso...

Perguntaram-me - Tens um blog? Parecia antiga, a questão. Já não se ouve como antes. Respondi que sim, quer dizer, que tinha, ou vou tendo...

Mas claro que tenho. E agora é tempo de regressar.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

A confissão...

Às vezes não conseguimos explicar. Detesto escrever sobre mim. Sentir-me uma adolescente de quinze ou dezasseis anos, a trocar papelinhos na aula de geografia. É exagerado e assusta o efeito catártico de peneirar a mente e deixar sair por palavras o que reprimimos no pensamento. Que horror. Sensação de medo, do feminino em mim, de que já me tinha livrado, do medo pois claro, que o feminino é para manter.

Padre Arménio espera no casúlo em madeira escura. Veio do Brasil há séculos, o móvel antigo. Ficou por ali sem ser preciso envernizar. Nem rangia o coitado, nem envelhecia ou envergonhava de tantas lágrimas e pedidos de desculpa. Da Noélia e seus vapores, de Maria e seus amores. Só esbranquiçava um pouco perto da almofada para os joelhos, onde a cascata de lágrimas acabava por aterrar. Haveria de lavá-la um dia, o sanguíneo Arménio, que masturbava a mente com tantas rendas e tules que lhe pediam perdão. Ai o perdão.
Espreitou cá para fora o rapaz, para ver quem faltava. Para se preparar. Remexendo nos sinais contrários que o corpo e o zelo lhe ofereciam e encarniçavam o rosto e as partes.

- Fernandinha. Ai Fernandinha que me trocas os dias e a vocação.

A Fernanda dos tombos, que desmaiava todos os domingos. Que lhe emprestava odor e vício à igreja matriz. Com um terço novinho, com menos contas, que queria apressar o rezar. Lá se ajoelhou a rapariga. Vinte e tantos anos a parecerem menos, nucas arrepiadas, a dela e a dele, o sinal da cruz a fazer ângulos no ar.

- Perdoe-me padre, porque pequei.

Meu deus, com minúscula para não ofender. Que pecado Fernanda? Que maldade ou sina podia provocar? Nada meu deus, ainda mais pequeno. Nada.
De branco a moça, de peito fechado, ondulando a renda do colo. Ai Fernandinha. Desse-lhe as mãos e veria. Sem pecados, sem profunda confusão.

- Boa tarde Dª Gertrudes. Então hoje veio sozinha?
- Vim sim, senhor padre. A Fernanda já abalou para Lisboa.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

O bosque...

Pareciam-se mais com grades, as árvores tão chegadas umas às outras, com os ramos de cima de braço dado. Em baixo não acabara de crescer uma camada de ervas daninhas, acastanhadas por falta de sol.
Olhei um pouco e sentei-me perto. Nem conseguia ver por onde entrar. Esperei que a luz fosse deslocando as sombras horizontalmente, desfazendo e transformando as texturas na superfície dos troncos. Mas cada vez pareciam mais juntos, inexpugnáveis.
Ao pensar percebi que só entraria através do som, que à força de músculos não poderia ser. Mas que som? Que música, canção ou melodia, para afastar ou amolecer a madeira antiga e com ar robusto?
Atirei-lhe com música clássica. Embrulhei um monte de notas complexas, muito densas, pesadas e com arestas aguçadas. As árvores nem tremeram. Era melodia errada, cheia de falhas por ser difícil de interpretar.
Voltei a sentar-me. Esperei de novo. Olhei em redor, procurando outros tons. Mas o dia estava silencioso e as notas não vinham ter comigo.
Estaria a ser brando, feminino? Precisaria de entregar brutalidade, raiva, para romper a barreira irritante de natureza à minha frente. Puta que pariu as árvores, delgadas mas fortes, potentes e nada elegantes. Filhas da puta.
Calma. Tinha de me acalmar. E o ombro doía-me do encontrão que embalou a língua e o calão.
Meti as mãos nos bolsos, à procura. O blusão tinha tecido em excesso e perdia-me os pertences, enrolados uns nos outros. Mesmo no fundo senti uma forma alaranjada, com arestas que a faziam recordar. Um transístor. Um pequeno rádio a pilhas, esquecido no bolso interior esquerdo desde os meus catorze anos.
Já devia ter derretido, com o ácido das pilhas que sempre escorria ao fim de um tempo. Mas não. Brilhou na cor original, só um pouco mais pálido, com menos fulgor, só um pouco menos.
Seria possível? Não custava tentar. E lá girei a roda em plástico preto, serrilhada para melhor tração, devagar. Bem devagar.
Um clique e ligou, fez barulho, arranhou umas coisas à procura de som. E eu esperei.
Num nível médio a melodia entrou a meio, mas já completamente sintonizada, afinada. Alguém como tu, dizia ela, a menina arruivada, com voz de garganta. Adele entoava Someone Like You, pela segunda vez, porque já ia no segundo refrão. E continuou.
E eu olhei para o bosque, agora quase negro, expulsando a última luz que se atrevera a entrar. Olhei por simpatia, que não acreditei. Mas olhei.
Os troncos começaram a ondular. Sim, a ondular. A mexerem-se para os lados, ora sincronizados, ora a chocar sem muita força. Abrindo clareiras e arcos por onde a música e alguém não teriam dificuldade em entrar. Poisei o rádio no chão e apressei-me que os aparelhos antigos não repetem.
Enfiei a cabeça e o pescoço entre dois troncos mais grossos, volumosos até. E depois os ombros. Fiquei ali quase a cair ou a recuar, hesitando. Putas das árvores que cedem ao mundo moderno, comercial. Mas a melodia fica gravada, é verdade. E nem desgosto. Vicia e encanta como um qualquer bosque para onde queremos avançar, não sabendo o que guarda, o que nos aguarda.
De olhar lateral, torcendo o pescoço, já não consegui ver o rádio a cores. E deixei-me engolir pelos ramos e folhagens. É provável que não tenha ouvido mais nada…

domingo, outubro 20, 2013

Under the moon.

Se nunca viste um peito adolescente, prateado pela luz da lua... volta para trás. Se não te recordas do cheiro dela, do aroma que ainda hoje parece colado às tuas mãos, de um creme primaveril, misturado com os dezasseis anos... tenta viver de novo, porque nada terá valido a pena. Como a recordação das aventuras com os amigos, os joelhos rasgados, as feridas a arderem com o pó e o suor, a memória dela nunca te abandonará. Se não a tiveres, talvez não estejas a fazer cá mais nada. A tua vida podia acabar agora, porque nunca vais saber como é, nunca vais entender. Eu tive sorte. Ainda me lembro de subir a rua inclinada, com ela ao meu lado, de mãos dadas. Tinha um vestido fresco, quando vocês só usavam calças e camisas fechadas até cima. Cheirava bem, adormecia-me os sentidos, simplificava a vida, obrigava-a a passar mais devagar. Não havia mais nada do que aquele dia, aquela semana. Se pudesse ter cristalizado a sensação tão primária, sem procura de significados... E do cheiro claro, que passou das mãos dela para as minhas, que à noite ainda sentia, que hoje ainda percebo na memória. Não sei se era o vestido às flores ou o azul claro. Esse nem tenho a certeza de existir. Só guardei o aroma. Hoje vocês já não cheiram assim. Desculpem, mas é verdade. São demasiadas fórmulas, químicas sofisticadas, com mil e uma funções, mas incapazes de guardar uma essência, de gerar uma memória. Como a minha. Voltem para trás!

quinta-feira, agosto 08, 2013

Peter Pan e o outro lado do muro.

O Pedro Mexia escreveu que a sua geração, que anda agora pelos quarenta (como eu), é “obcecada com a infância e a adolescência, uma geração de nostalgias precoces, de revivalismos patéticos” e que os homens, em particular, vivem um complexo de Peter Pan.
É verdade, ou pelo menos eu revejo-me nas palavras do Pedro. Suponho que também as outras gerações tenham estado expostas a este fenómeno, atendendo até à idade da obra de James Matthew Barrie. Mas seguramente com menos expressão, em homens muitas vezes obrigados a crescer prematuramente, ao contrário de nós que, em atraso legitimado pelas licenciaturas, pelas carreiras, pelo medo, vamos adiando o momento em que nos assumimos como adultos.
Ter filhos ajuda, não pela assunção da responsabilidade, mas pela consciência das diferentes perceções. Sim, somos em média mais próximos deles, do que aquilo que recordamos da nossa experiência pessoal enquanto filhos. Mas não na perceção, que no caso deles significa ver-nos, principalmente a partir da adolescência, como aquilo que afinal já somos há muito – adultos.
Mas então e as vantagens de um eterno espírito jovem? O meu avô morreu com oitenta e dois anos, mas cheio de juventude, de meninice saudável. E o medo? Temos medo de coisas que assustam. É normal. E crescer é do mais assustador que há. No meu caso, que preciso do mundo das ideias e dos sonhos, é também por aí que andam os meus medos. E se deixo de criar? Ai!
Mas recordo a minha visão da criatividade para serenar. Da desmistificação que defendo do processo criativo, confortável tanto num espírito atormentado e suicidário, como num indivíduo médio, aborrecido, sem existencialismos exagerados. Ou da convivência com a loucura, corrijo, da vivência paredes meias com ela, porque a sentimos na divisão ao lado quando, para criar, nos aventuramos a sair da realidade que conhecemos. Vejo a criatividade como um exercício de equilíbrio. Acompanhem-me, por favor! Imaginem que subimos para um muro. Do nosso lado está o mundo normal, aquilo que sabemos ser real. No outro é uma terra imaginada, de sonhos, de medos, de ideias. É lá que elas vivem, as ideias, e para podermos apanhar uma temos que nos inclinar. O problema é que as melhores estão mais afastadas do muro e obrigam-nos a inclinarmo-nos mais, a esticarmos o risco de cair ao limite da nossa coragem ou determinação. Sabemos, temos noção da queda eminente, ao tentar apanhar aquela (a ideia), tão longe, mas tão “perfeita”.
Permito-me olhar para o medo de crescer desta forma, porventura instável, mas pelo menos definida, de quem sabe que pode subir para um muro estreito, talvez mesmo colocar um pé do lado de lá, dos adultos, mas sem perder a magia dos momentos que nos trouxeram até aqui. Até porque, como nos ensina Peter Pan, “Cada vez que uma criança diz "Eu não acredito em fadas" em algum lugar uma pequenina fada cai morta no chão.” – É de evitar, não vos parece?

terça-feira, julho 12, 2011

A serenidade...


Ele já me tinha dito uma vez a má sorte que o perseguia. Acho até que já o contei. Enviuvou prematuramente. Imagino que da mulher certa, de quem devia acompanhá-lo em noites estreladas e mantas multicolores. Mas a sorte não quis assim. Levou-lhe a companheira para noites mais escuras porque já não existem. Ele, em hábito antigo, pouco pensado, voltou a casar. Os olhos tremem quando admite o azar que desde então o acompanha. Estranhei na altura, ver aparecerem rugas numa face normalmente amigável. A dor devia ser imensa. Não podia estar a exagerar. Mas guardei uma ínfima parte de ignorância, por não conhecer o objecto de tanta raiva. Até há uns dias atrás. Entrei no estabelecimento onde ele trabalha e logo notei uma tensão no ar. Normalmente ficamos um pouco à conversa. A diferença de idades esbate-se na vida de bairro e até numa espécie de amizade de vizinhos. Mas dessa vez não. Estava nervoso, apressando-me, como se quisesse afastar-me da tormenta. Percebi ser a sua mulher. E de ínfima, a ignorância desapareceu por completo. A mulher era do mais irritante que podemos reconhecer. Baixinha, com uma permanente de cabeleireiro de esquina, boca arqueda para baixo, em birra constante. Entendi a sua dor. Um dia ou dois depois voltei a encontrá-la, espalhando de novo o clima de incómodo que parecia ser a sua sombra. Gritava de forma abrutalhada com uma criança, filha de uma cliente. Fazia-lhe ameaças e dizia coisas de que nem me lembro. Depois sairam todos, deixando-nos sós. O ambiente voltou rapidamente ao normal. Parece que o espaço ficou mais claro e o oxigénio ganhou coragem para regressar. Os músculos da cara voltaram ao normal e olhou para mim com uma expressão de desistência e desânimo. Como quem pergunta – Que fazer? E sentou-se no degrau da entrada a brincar com um par de nozes. Eu sentei-me ao seu lado, mas em silêncio.
- Fui mesmo burro. Confessou.
- E agora não há nada a fazer.
Nessa altura não pude deixar de falar, em pergunta incerta.
- Mas porque é que não se separa dela? Você assim não pode continuar.
Nem respondeu. Eram demasiado óbvias as razões e os medos. Então, de forma natural e plena de sentido, perguntei-lhe.
- E se a matássemos?
Acho que parou de respirar por uns segundos, mas sem esgar de dúvida ou espanto. Olhou-me uma e duas vezes para confirmar que não se tratava de uma brincadeira. Não havia maldade e por isso não a reconheceu, enfim reconhecendo uma saída.
- E como é que o podíamos fazer? Perguntou com dificuldade em esconder o entusiasmo.
- Acho que com uma pancada na cabeça. Ainda tem aquela marreta que me emprestou no mês passado?
- Tenho, tenho. Está ali guardada na cave. E saiu a coxear, para regressar com o objecto.
Era uma marreta das antigas. Dificilmente se percebe a função para a qual foi construída. Era demasiado pesada, com pouco equilibrio e até pouco prática para bater em alguém.
- Não sei... Não sei se consigo. Importava-se de ser o vizinho?
- Claro que não. Se lhe segurar bem nos braços, não demora mais que um segundo.
Ele ficou a olhar para a parte de metal já em ferrugem, acariciando o seu futuro.
- Acha que a devemos limpar? Questionou.
- Agora não vale a pena. Depois é melhor, para não deixar memórias.
A tarde ia terminando e ficámos em silêncio, observando os que passavam. Entre pensamentos encontrámos a serenidade.

sexta-feira, junho 24, 2011

Em barras que ajudam...




Une fois... Quando chegou foi nas barras que reparou. Até aí eram apenas imaginadas, como os quadrados que lhes filtrariam o nascer do sol. Não pensou que fossem tão reais e ferrugentas, pedindo uma serra que as libertasse de serem prisão.

Tudo o que sentia era a dificuldade enorme em conseguir um sorriso de domingo. O tempo deixava-lhe opressões e uma angústia impossível de controlar. Todos os dias lutava com o tempo que nunca parecia abrandar. Já em pequeno ia sempre a correr para a escola e para todo o lado, por não aguentar o passar dos minutos que tentava encurtar, assim desejava, se acelerasse. Encore... conseguia um breve alívio, mas não total, por ter então que correr cada vez mais depressa e não resolver o problema, fechado nuns músculos das pernas cada vez maiores.

Tudo o que existia e demorava, mesmo em relatividade, o atormentava na espera e lhe oferecia desejos e planos para apressar a vida. Não conseguia apreciar qualquer momento pela precepção de que acabaria rapidamente. Achava-se em situações que eram felizes, mas em sofrimento profundo por senti-las fugir e avançar para o fim. Só havia pequenas exepções. Se algo era muito mau, parecia que demorava um pouco mais. Nos obrigatórios lanches da tia Rita, acalmava um pouquinho. A tortura de ouvir as mesmas três estórias, não entrava em conflito com a mania de apressar o tempo e não saber respeitá-lo. A missa era outro momento de relativa paz. Aborrecia-o profundamente o dogma e os gestos e deixava o impeto para correr sem tentativa de controlo. Para que tudo passasse depressa. Não eram perfeitas, mas ajudavam, estas exepções, a serenar o galopar que lhe cansava o músculo púrpura.

Até que um dia sonhou com a solução. Na secção de desporto do shopping havia uma loja de armas com um revólver que imitava em perfeição os de antigamente. O vendedor nem teve tempo de reagir. Antes de poder confirmar a licença que tinha forjado, já gritava com uma bala alojada numa das coxas. Ele chegou-se ao ouvido do pobre homem e segredou – Desculpe, sinceramente. Mas ajudou-me imenso.

A recusa em ter advogado, o constante despeite e uma inesperada tentativa de agressão do juiz, determinaram a setença. Vinte anos, com medidas de segurança especiais. Pediu para ser confinado a uma cela, sem direito a visitas e principalmente com a eliminação de relógios ou qualquer outro tipo de informação sobre o tempo. Já tarde, a horas que não podia identificar, deitou-se para trás na cama estreita alinhada com a janela de barras. E sentiu a ansiedade desaparecer.

sexta-feira, abril 10, 2009

O reencontro...

Pela primeira vez escrevo um post directamente, sem primeiro o preparar e reler antes de entregar a outros olhos. Já passaram quase quatro anos desde que comecei o Duende Feliz, por influência de tantos outros que me fizeram despertar curiosidade neste mundo. Foi então que comecei a escrever, primeiro para poucos, que depois foram aumentando e mudando, mas que me trouxeram uma nova experiência, a de não criar apenas para mim. De ter a noção das emoções que emprestava a outros, que comentavam o que aqui deixava e me faziam sentir acompanhado. De quase um ano de "pequenas" estórias nasceu a vontade e a sorte de cumprir um sonho de sempre e o Duende tomou forma de livro, deixando-me em sorriso eterno pela conquista.
Depois mudei um pouco o estilo. Abri um pouco mais do meu mundo real (embora sempre muito imaginado), mas continuei a ter muito prazer em escrever para mim e para vós e em partilhar este espaço ao mesmo tempo que recebia os vossos e encontrava conforto na certeza de que não estava sozinho.

Agora, passado todo este tempo, chegou a altura de parar. Porque não tenho sentido o apelo da escrita, porque a vida nos leva por diferentes caminhos, em que crescemos e mudamos e tentamos por fim nos encontrar. Deixo todos os textos publicados e acessíveis para quem tenha saudades e porque não se fecham partes da nossa vida, mesmo que em versão "virtual". Vou tentar ir espreitando os vossos espaços, mas sem prometer a regularidade de outros tempos. Se alguma vez voltarei? Não sei. Estou a tentar viver o presente o melhor que sei e que posso. Esforçando-me por ser melhor, por não errar tanto, por no fundo perceber tudo o que me aconteceu na vida e me fez a pessoa que sou hoje. Se o conseguir, talvez possa encontrar a paz que todos procuramos. Pelo menos vou tentar fazê-lo com todas as minhas forças.

Obrigado, pela companhia, pela amizade, pelos comentários, pela importância que todos tiveram para este espaço que tanto significou e ainda significa para mim. Agora vou "ali" tentar ser feliz. Desejo-vos o mesmo.

Beijos e abraços. Até logo...

domingo, dezembro 14, 2008

O Duende de Natal...


Nesta altura o Duende fica de novo menino. De olhar perdido no céu, como que esperando que as repostas apareçam em magia. Cansado de tentar e perseguir brilhozinhos, tenta descansar, embrulhado num soninho doce.
Pensa que não foi um ano fácil, de adulto mascarado, confuso com tantos labirintos. E imagina que neste Natal cumprirá o seu papel de verde ajudante, para os sorrisos ver nascer. Depois, já sereno, agradece em silêncio as palavras que lhe ofereceram e ajudaram a continuar.

Obrigado a todos. Festas felizes!

segunda-feira, novembro 10, 2008

Lágrimas...


Nunca vos dá vontade de chorar? Nos últimos tempos raramente choro. Nem tristeza, nem uma música, nem um filme. Pouco ou nada me faz saltar as lágrimas. E logo eu que era um chorão. Saía à minha mãe e desatava a chorar por pouco. Até tinha um pouco de vergonha por tal. Já o meu pai nunca chora. Acho que nunca aconteceu. E os ataques de choro? Vinte minutos em que abandonamos o estigma da masculinidade e nos perdemos em águas, sem conseguir parar de soluçar. Lembro-me um dia, em que estava muito nervoso e fui almoçar com uns amigos. Fartei-me de falar, compulsivamente e quando voltava para o emprego tive um ataque de choro a ouvir uma música de Michael Bolton no rádio. Já não me envergonho de contar estas coisas. Na altura tinha muitos motivos e culpas para chorar. Não me portava bem, qual criança traquina, mas com acessos de escrúpulos que infelizmente duravam pouco. Passaram mais uns anos até que me emendasse um pouco. Hoje apetecia-me chorar, mas sem os motivos para tal. Só porque precisava de aliviar os olhos verdes e inchados de há tanto tempo conterem o líquido. Mas não vai acontecer. E é isso que me assusta. Tenho medo, que quando rebentar, seja com demasiada força. Logo eu que colecciono medos...

quarta-feira, outubro 29, 2008

E porque não há coerência alguma na minha mente...


Porque me assusto com facilidade.
Porque tenho medo dos dias seguintes.
Porque de vez em quando me apaixono por músicas que não confessaria noutros tempos.
Porque é doce o sentir em tristeza consentida.
Porque amanhã vou ter de puxar novamente pelos sorrisos...

quinta-feira, outubro 23, 2008

João, o sexo e as strippers...

João era assim. Caminhava e corria de carro as ruas para ver as prostitutas de perna arqueada em hábito, mas sem nada querer com elas. Eram as strippers que o fascinavam. Mesmo as que são coxas, escondidas em semi-nudez descomprometida numa falsa e aparente facilidade.
Nunca bebia mais do que três Pizangs, verde escuro e demasiado doces. Não queria arriscar. Foi Noémia que naquele dia o abordou, emprestando-lhe o perfume que logo se agarrou à pele e por lá ficou até ao próximo banho. De pele pendurada e peito falso, esmagava esforço no pescoço do rapaz, segredando sotaques incompreensíveis.
No fim da noite rodava quatro vezes a chave de um lar a dois, fechado por medo e metáfora que insistia em por lá viver. Pensava por dois segundos no desejo de o poder fazer e depois desistia, esgotado.

P.S. – As casas de striptease são um marco no imaginário masculino. Interligadas em surdina com o mercado do sexo, deixaram na minha geração uma sensação de curioso afastamento pela educação que nos dizia, diminuindo, que não precisamos destas muletas. Hoje em dia dificilmente se admite a sua oportunidade ou fascínio. É coisa para os outros!!

segunda-feira, outubro 13, 2008

As velhotas e a catequese...


Estava parado, sentado num muro branco de manchas amareladas, com muitas partes velhas e rachas. Na rua iam passando as almas e as pessoas mais apressadas, fugindo das outras. Do outro lado da rua duas velhotas estavam sentadas num banco de jardim. Como o tempo passava devagar ao mesmo tempo que lhes sussurrava que um dia as vinha buscar, preferiam usar aparelhos auditivos desligados e fazer partidas de meninas. Quando se aproximava alguém lá começavam elas. A ideia era simples. Uma levantava-se e colocava-se de forma a que as pessoas tivessem de passar muito perto do banco. Na precisa altura em que o faziam, a outra fingia um ataque de tosse debilitado e estendia a bengala retorcida. A maior parte das vítimas caíam estateladas. Tinham um taxa de sucesso de mais de oitenta por cento.
Quis assustá-las por despeito, por ter tempo. Fui dar a volta ao quarteirão e comecei a caminhar na sua direcção. Coloquei ar despreocupado e esperei pela artimanha. Ao aproximar-me vi que mantinham as suas posições. Uma levantou-se e encostou-se ao candeeiro verde da rua deixando um espaço pequeno para eu passar. Sorri para dentro e avancei. Na altura que passei pela velhota que estava de pé só senti um perfume forte que não condizia com a sua idade. Pareceu-me também que me soprou na nuca. Arrepiado, desviei o olhar por uns momentos, mas para logo recuperar a atenção julgando-me já embrulhado na bengala. Mas não! A segunda velhota ficou quieta, talvez só com um esgar, quem sabe imaginado, de gozo e serenidade. Enquanto me afastava, forçaram-me a virar-me com a expressão quase cantada.
- Vai em paz rapaz. Mas não penses que percebeste. Disse a velhota sentada.
A outra ainda murmurou.
- Ele não percebeu.

P.S. – Andei muitos anos na catequese. Não me lembro de muito. Lembro-me de uma catequista que não era freira e tinha muito jeito. Lembro que tinha uma casa muito grande com um enorme terreno. Nós tínhamos catequese num anexo lá no fundo. Um dia o Pedro, que viria a ser actor sem grande sucesso, ficou com um pedaço de folha dentro do olho esquerdo. Devíamos ser quatro ou cinco de volta dele, com o globo ocular a ficar cada vez mais vermelho e fechado. Lá conseguimos tirá-lo. Mas a estória que recordo mais foi noutra ocasião. Nem sei quem era a catequista. E muito pouco consigo visualizar. Uns sofás bejes e uma rapariga que nem conhecíamos muito bem, eu e o meu irmão. O meu irmão gémeo vinha sempre comigo às aulas de catequese. Um dia, no final, veio ter comigo e confessou.
- Eu apalpei-a!
Ia desmaiando de susto. Apalpou-a? Quem? Como?
Pois é. O senhor meu irmão, que não devia ter mais que doze ou treze anos, durante a aula de catequese, resolveu fazer das suas. Não sei porque sinais ou impulsos distorcidos, começou a avançar com a mão pelo sofá até tocar na perna da rapariga. Depois, lá arranjou forma de colocá-la por baixo do seu rabiosque... e apalpou. A pobre rapariga não esboçou qualquer reacção. Nunca soubemos se por ter paralisado ou porque a química, a estranha química da catequese funcionou nos dois sentidos.

segunda-feira, setembro 22, 2008

A rapariga...


Nunca tinha visto uma cicatriz assim. Começava no meio da testa e descia até à ponta do nariz. Era profunda, mas recta sem distracções. Bem marcada em rosa púrpura, como que separando lados diferentes de uma só face. De um lado a verdade, simples, imaculada, espremendo o que se diz e pensa e às vezes magoa. A outra mais desconfiada, por vezes mentirosa, entoando ruídos e cegas perguntas.
Não podia deixá-la partir sem perguntar. Fui direito ao assunto.
- Como fizeste essa cicatriz?
Dois olhos enormes questionaram a minha petulância. Depois responderam.
- Um dia tropecei e mergulhei em direcção a um gradeamento. Pareceu uma eternidade. Não consegui decidir para que lado pender.
- Porquê?
- Eram diferentes os destinos que me esperavam. De um lado um velhinho parecia poder apanhar-me. No outro uma senhora gorda vendia fruta. Nem olhou para mim.
Pensei um pouco e continuei.
- Eu escolhia a senhora gorda. Mesmo não olhando, amparava melhor a queda.
- Eu escolhi cair para o lado do senhor.
- Então como fizeste a cicatriz?
- No último momento a vendedora de fruta gritou. Fui direita a um ferro aguçado.
Agora tinha que esperar um pouco até terminar. Mas lá perguntei.
- Arrependes-te de não ter decidido mais rápido.
Ela sorriu.
- Não me arrependo. Não estava bem certa do que fazer.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Ontem...

Queria amar...
Queria trazer ao espirito a lembrança da cor
Fixando plantas de chá num fumo que escorrega
Que me entorna contas e beliscões e amores imperfeitos.

Amarrei-me de Ulisses mascarado,
Para não mais ouvir e me sentir tentado
Querendo assumir um ar que roubava
Enquanto empurrava tudo o que era meu.

Saltei entre suspiros e choros, entre pés
Estranhando os cúmplices e a avidez
Armei de raiva e depois sono
Até que pudesse esperar outra vez.

terça-feira, setembro 16, 2008

Pushing daisies...


Existem sempre momentos e segredos e pequeninas sensações que nos põem de sorriso tolo e a sonhar, percebendo que na falta de genialidade na primeira pessoa, podemos sempre deliciarmo-nos com a dos aoutros. Assim é esta série. De uma sensibilidade linda e estranha, de protagonistas que não podendo tocar-se se enamoram com a maior pureza e verdade que já existiu. Mistura sonho com uma rapidez de enrendo que nos obriga a não tirar os olhos nem por um momento. E fico a sorrir de forma calma, como poucas coisas me fazem sentir.

segunda-feira, setembro 15, 2008

I hate mondays...


Vocês entendem-me, certo? Coragem!

quinta-feira, setembro 11, 2008

A certeza...


O mundo pode andar de pernas para o ar. Podem haver (e há) dias em que não me apetece levantar. Pode o trabalho ser desmotivante, perante a quase impossibilidade de se ganhar o Euromilhões e se mandar tudo à fava. Pode-se olhar para o interior de uma livraria e pensar – “Hoje em dia qualquer pessoa escreve um livro” – ameaçando o valor de uma conquista que me deu trabalho e emoção. Pode o acelerador de partículas na Suíça comprometer de forma trágico-cómica o futuro do planeta. Podem os Verões serem frios e sem fins de tarde com Melros a cantar o tempo ameno...

Mas encho-me de sorrisos e certezas. Afinal... a mercearia em frente a minha casa ainda vende nougat. É preciso mais?

P.S. – Porquê este video? Porque tem a banda sonora (e não só) que materializa de forma perfeita este pensamento!

quinta-feira, setembro 04, 2008

O rapaz bonito...


Tenho uma amiga que me confessou a sua estória mais secreta, passada no último Inverno. Pedi-lhe autorização para a contar aqui no blog, alterando os nomes verdadeiros. Aqui fica.

Mariana entrou à meia-noite em ponto. Era um dos mais antigos bares da pequena aldeia junto ao mar e de Inverno reunia as poucas pessoas que se aventuravam na noite húmida. Chegou perto do balcão e reparou nele de imediato. Era um rapaz muito bonito, de olhar claro e confiante e cabelo castanho muito curto. Sorriu quando a viu, mas afastou o olhar timidamente. Percebendo que teria de dar o primeiro passo foi ter com ele.
- Olá. O meu nome é Mariana.
- Boa noite. Eu sou o Pedro. Fico feliz por teres falado comigo.
Não estava habituada a abordagens tão directas e lá ficaram os dois corados em poucos segundos de silêncio e ansiedade.
Conversaram depois durante vinte minutos até que ela fez a pergunta que condicionaria tudo o resto.
- Então e onde trabalhas?
Ele nem hesitou na resposta firme e natural.
- Sou motorista.
Bebeu um golo da sua bebida antes de concretizar mais um pouco.
- Transporto animais vivos. Normalmente porcos.
Mariana não conseguiu responder logo. Queria muito falar. Dizer que não fazia mal, mas ao mesmo tempo sem dar muita importância, para que ele não percebesse o desconforto. Só conseguiu dizer.
- Que interessante. Mas só os transportas?
- Transporto, carrego, ajudo a descarregar. Faço de tudo um pouco.
Agora ela ficou em silêncio. Ele levantou-lhe o queixo com gentileza e falou calmamente.
- Não precisas ficar constrangida. Sei que não é a profissão mais sofisticada que existe, mas é o que faço. Também não te posso dizer que sou um intelectual rebelde, que trocou a faculdade por um ideal de vida mais simples. Sou apenas assim. Tenho apenas o décimo ano, gosto de ler moderadamente e colecciono miniaturas de porcos. Pouco original, eu sei.
A cabeça dela lutava contra o peso do preconceito, enquanto as pernas tremiam ao sentir o seu perfume suave. Estava paralisada. Então ele levantou-se e disse-lhe.
- Não fiques assim. Eu também me sinto desconfortável e ainda nem sei o que fazes.
- Sou advogada.
(Mariana é advogada, com um doutoramento completo e a meio caminho de terminar o seu pós-doutoramento)
- Pois então. Os porcos não costumam precisar de advogados. Disse Pedro a rir.
Mas ela não riu. Tinha olhos tristes e perdidos, brilhando em lágrimas que queriam saltar. Voltou-se de repente e saiu porta fora.

Esta não foi uma estória de final feliz, com um daqueles enredos cinematográficos. Mas não deixei de lhe perguntar se alguma vez se arrependeu de não ter ficado. Ela respondeu de cabeça baixa.
- Todas as noites. Todas as noites!

terça-feira, agosto 26, 2008

O aniversário...


Vou fazer trinta e seis anos no final do mês de Setembro! Não que me incomode o facto por si. Não me sinto com essa idade, não aparento essa idade e a cima de tudo não me importo com esse facto. Passam quase vinte anos dos meus dezasseis, ano inesquecível pela felicidade que representou e a paz que voltaria muito tempo a voltar a alcançar. Sei que vou ser um miúdo até morrer, um velhinho de espirito muito jovem, se lá chegar. Mas tenho pensado mais na idade do que é normal. Não foi um ano fácil. Em alguns aspectos fui-me abaixo e apesar das felicidades que me ajudaram a recuperar, senti literalmente no físico as dificuldades. Quando não estamos bem, não temos a disponibilidade do costume, e lá perdemos um pouco da forma. Comecei a notar isso em pequenos pormenores. Na perca de alguma massa muscular, no maior cansaço e vontade de dormir. No olhar desconfiado, quando uma rapariga do ginásio consegue fazer mais flexões que eu! Eu bem sei que elas andam por lá todos os dias e eu tenho uma profissão exigente que não me deixa tempo para tal. Bem sei que estou em melhor forma que a maioria dos meus amigos. Mas não deixo de ficar ligeiramente frustado. Mas por pouco tempo. Porque sei que no fundo não são estas coisas as mais importantes. E por ser apenas uma fase que vou ultrapassar. No início de Setembro volto a treinar com mais empenho. Tenho que nadar por causa das costas, mas de resto vou recuperar a forma antiga, tonificar músculos e espirito como se voltasse aos tais dezasseis. E no fundo esperar que o ano seja calmo, cheio de conquistas, com a maior delas materializada na serenidade que procuro e anseio. E quando a fase descendente das capacidades físicas chegar, quando não tiver dúvidas que já não consigo melhorar o meu corpo, aceitarei com normalidade essa inevitabilidade. E remeto para a mente o crescimento que poderei sempre desejar.

P.S. – Nas minhas férias aconteceu uma pitoresca e humilhante situação que me motivaram a escrever este texto. Eu tinha a mania de dar saltos mortais para dentro da piscina. Em terra firme não me atrevia, mas com a água não me safava mal. Tem sido assim todos os anos. Ora, apesar de não estar no meu melhor, resolvi tentar também este ano. Na primeira vez aterrei quase de costas, mas sem estragos de maior. Foi então que notei que a piscina tinha uma zona de rocha elevada que me permitiria saltar como se de um trampolim se tratasse. Não sei o que me passou pela cabeça. Pensei que a altura me daria tempo para rodar completamente e aterrar de pés. Mas não! Não só caí de costas, como a altura fez com que tal acontecesse com estrondo e uma dor profunda nas costas, que quase rasgavam com o chapão. A estupidez e o despeito impulsionaram-me para repetir o feito, com os mesmíssimos resultados. Acho que me ri, para não chorar de tantas dores. Para o ano há mais.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Decotes e a natação...


Será provavelmente um post carregado de símbolos de índole masculina e acusações de algum machismo, que talvez o registo de memórias possa atenuar. Então aqui vai (isto vai arruinar a minha reputação). Após uma casual análise, descontraída e desprovida de qualquer ciência, concluí que hoje em dia as raparigas usam mais soutien do que quando eu era adolescente. Naqueles tempos, porventura ainda em ressaca dos anos de emancipação, muitas mulheres optavam por não espartilhar o seu corpo, dando largas à liberdade e à imaginação do sexo oposto. E como é que eu sei isto? Porque o meu irmão era o maior especialista mundial em observar os seios alheios. A sua técnica era fabulosa. Esperava por instantes de oportunidade, aproveitando decotes e mangas cavas e, para minha grande inveja, vislumbrava o prémio materializado na visão tanto desejada. E eu ali ficava a ver passar intenções nada nobres e não conseguidas. Lembro-me de uma situação particularmente hilariante, vista à distância. Com catorze anos tive uma namorada com dezassete. Ela era alta, vistosa e parecia ainda mais velha, sendo até hoje um mistério o que ela viu em mim de tão tenra idade. Um dia, enquanto esperavamos pelo início da aula de ginástica, enquanto eu conversava com a minha namorada, o meu irmão e os amigos manobravam em nosso redor, com um único objectivo. Espreitar para dentro do seu decote. Mais tarde confessou-me que tiveram sucesso. Confesso eu que conseguiram mais do que eu que era o namorado.

P.S. – Após muitos anos a fazer desporto fui atacado por uma inesperada dor de costas que, depois de tentar os canais tradicionais, me levou ao conhecimento de um médico que me torce e aperta e faz estalar tudo o que é vértebra. É fantástico! Mas ao que parece o corpo tem memória e para que os músculos não forcem a coluna para maus caminhos, tenho que passar a fazer natação. Tal obrigação aborrece-me pela repetição de movimentos e a infindável contagem de azulejos, capazes de me desmoralizar. Um dia destes, andava eu literalmente a fazer piscinas, quando parei para descansar um pouco numa das pontas (note-se que eu nado nos horários livres sem direito a aulas). Senti então alguém bater-me no ombro para me chamar. Tirei os óculos e olhei para cima, para uma professora vestida de cor de laranja. Sem grandes avisos disparou.
- Tu não nadas nada!
Fiquei um pouco atordoado e só consegui responder.
- Não estou nos meus dias.



terça-feira, agosto 05, 2008

O odor a pão...


De repente cheirava-me a pão. Começou logo de manhã mal pus um pé na rua. Acabado de fazer preenchia-me de impulso e sensações, mas não me podia acalmar. Em condição de Duende a renascer sentia o corte no braço, auto-inflingido com adaga de fio torto e ferrugento. Nem sei porque o fiz. Percebia que tinha de sangrar, de me tornar horrível e dificil de se olhar. Tinha de voltar atrás a um registo onde não passara, saltando directamente para o brilho e a paz. Roubei as armas a um miúdo que passava por ali. Vinha da escola a rir, como se eu não o pudesse afrontar. Era muito mais pequeno que eu, esforçando-se nos pontapés e gritos de raiva. De nada lhe valeu. Tirei-lhe tudo, enquanto a amiguinha fugia para trás de uma árvore e senhora de cabelo pintado abria a boca de espanto. Afinal não percebia nada. Depois desatei a correr em desalinho, arrumando outra lâmina que cortava mal, bastante pior. Não havia era ninguém para combater, por enquanto. Mas vou estar atento. Continuava a cheirar a pão.

terça-feira, julho 29, 2008

A escola...


Não resisto a contar-vos. Hoje veio aqui ao meu emprego o filho de um colega meu. Correu, recebeu subornos de todas as mulheres para dar beijinhos, brincou, desenhou e finalmente sentou-se frente a uma colega minha numa cadeira. Enquanto comia um biscoito com tranquilidade começou a olhar para a janela, para o lado de fora (nós trabalhamos num 11º andar e temos uma vista grande sobre Lisboa, mas longe da casa dele e numa zona que não conhece). Aos poucos começou cada vez mais interessado na paisagem, até que se pôs de joelhos para ver melhor. Em seguida deliciei-me com o que disse, com uma segurança impar, apesar da impossibilidade de estar correcto.
- Eu daqui vejo a minha escola!
Depois comeu mais um biscoito e não pensou mais no assunto. Simples não é?

quinta-feira, junho 26, 2008

O arco e flechas...


A minha casa é pequenina. Principalmente a sala, que me acolhe a escrita, sem espaço para olhar ao longe. Na parte de trás tenho uma marquise, mas escondida num canto entre dois prédios, que traz sossego e muito silêncio. Tenho árvores nos dois lados e cantares de pequenos seres com asas. Tenho também varandas. A parte da frente é toda rodeada por um espaço que ocupo menos do que podia. Mas ontem, com uma noite de algum vento, levei uma cadeira para espreitar as poucas estrelas que a luz da cidade deixa ver. Quase nunca fumo, mas tinha levado um cigarro que ainda rodava entre os dedos, quando vi algo que me deixou quase sem reacção. Passando rapidamente por baixo da minha varanda vi um vulto de movimento estranho e furtivo. Estava vestido com uma camisola verde escura e calças cinzentas. A tiracolo trazia o que mais me intrigou e preocupou. Um arco e flechas negro e assustador, encostado a uma bolsa com meia dúzia de setas. Reagi por impulso, verifiquei as chaves e corri para a rua.
Ele levava cerca de cem metros de avanço que prudentemente diminui, para que o pudesse seguir em segurança mas sem o perder. Atravessou a estrada e subiu para a passagem aérea que aqui perto atravessa a linha do comboio. Deixei que fizesse a travessia, para então passar eu em passo de corrida para recuperar o atraso. No outro lado fica a mata de Benfica, na parte baixa de Monsanto. Percebi que era para lá que se dirigia. Conheço bem a zona pois costumava ir para lá correr e ganhei coragem para continuar. O desconhecido começou então a caminhar em grande velocidade atirando-se para dentro da mata. Fiquei parado por uns segundos sem saber o que fazer, ofegando entre o medo e a dúvida. Então, afastando o pânico mergulhei no meio das árvores para logo parar. Tentem correr num emaranhado de ramos com um breu que nos deixa sem saber para onde ir. A isso juntem a ideia de um louco que nos espera armado com um arco e flechas. Foi o suficiente para voltar para trás. Mais três horas na varanda não serviram para que visse mais algo de surpreendente. Mas acalmaram-me. Quem seria ele?

quarta-feira, junho 18, 2008

Cool depois dos trinta...


Na prática já lá vão trinta e cinco e devagarinho vou percebendo, embora combatendo, porque é que os mais velhos adquirem hábitos com menos “estilo”. Eu até tenho a certeza que não aparento a minha idade verdadeira, principalmente se nos ficarmos pela parte mental, onde ainda estou pelos dezasseis. Mas há sinais preocupantes. O pior é que agora muda tudo muito rápido e não é fácil acompanhar o passo. Por tal descobri a causa de os nossos pais e avós irem perdendo o seu sentido de coolness. Eles simplesmente ficam cansados e já não se importam. Mas vamos a alguns exemplos. O primeiro é a mania de caminhar com as mãos entrelaçadas atrás das costas. Adoro fazê-lo, mesmo sabendo que me dá pelo menos mais uns vinte anos. O meu pai caminha assim e boa parte dos homens da sua geração também. Sabem que mais? Gosto mesmo de fazê-lo. Depois vem a roupa. Para quem detesta esta ocupação é uma verdadeira tortura. Vemos uma peça que gostamos numa loja e decidimos passar lá no fim de semana para a comprar com mais calma. Não dá. Por essa altura já mudou tudo, às vezes até a posição dos balcões e estantes. A camisola ou t-shirt já passou de moda. Depois há a dificuldade de escolher um estilo. Eu gosto de andar confortável, meio street, mas sem exageros. Mas até que idade é que o posso fazer até que fique ridículo? A minha preferida é a questão das meias. De repente passou a ser muito má onda andar com calções e meias compridas ou mesmo médias. Têm que ser daquelas que nem se mostram, escondidas dentro do calçado. Nos ginásios é a ditadura total. Confesso que já comprei das curtinhas e achei super desconfortáveis, mas ainda tenho uma atitude meio rebelde de ser o único na sala que não está na moda. Que me importa. Também, devo ter mais de dez anos de diferença daquela gente toda. E o casaco pelo ombros. Um dia destes coloquei-o assim e uma menina de oito anos disse-me de imediato – Estás a pôr o casaco como os velhos! Até ela já sabia. Mas estava calor para o ter vestido e um pouco de frio para o levar no braço. Apenas isso. Por último a famosa situação dos lenços. Dos gigantes utilizados para “espirrar” rapé, os amigos de pano estão quase banidos. E eu, de renite alérgica sempre a espreitar, finco pé na tradição, ou andaria com vinte ou trinta embalagens dos pouco nobres quadrados de papel. Estou a ficar velho? Who cares? E sabem que mais? No meu leitor de Cds do carro está neste momento a banda sonora do Música no Coração. Edelweiss... lá, lá, lá... Afinal, se um dia espero ser avô, tenho que ir treinando, certo?

domingo, maio 25, 2008

Atrás da desconcertante coluna...


À terceira vez comecei a desconfiar. Nesse mítico local de intensa aura de magia e mistério que é o parque de estacionamento do Colombo. Vou sempre para a mesma zona e comecei a achar estranho pela estranha coincidência. Atrás de uma coluna cor de laranja estava uma senhora preta. Já de grisalhos, parecia esconder-se mas espreitava com argúcia e pitadas de assombro. Inclinava-se também para um sorriso que inspecciona e vai procurando o olhar que entretanto se perdeu.
No terceiro dia não resisti. Saí do carro e fui até ela. Rodei três vezes em volta da coluna, enquanto me fugia rodopiando, com uma encharpe vermelha de rasto perfumado. Por lógica parei e abri os braços para amparar o seu encontro. Ela chocou com o meu peito num sorrisinho de quem tinha sido amparada.
- Quem és tu?
- Sou uma preta que se esconde atrás das colunas.
- Mas ficas aqui só por mim?
- Hoje sim. Não há mais alguém.
Agastei-me um pouco e reconheci um curvar de deferência que não pedi.
- Não esperes mais por mim, mulher.
- Desculpa, mas aqui vou ficar, até precisares.

segunda-feira, abril 21, 2008

O sonho...


Numa dessas noites sonhei muito. De novo em abstracção para que a lembrança viesse lenta e a precisar de uma chave que pudesse desentrelaçar as partes que compunham aquele mosaico. Começava numa sala branca bastante alta onde, mesmo no centro, um estranho carrossel continuava a girar. Parece-me agora na memória um carril suspenso onde objectos de cores estavam presos por cordas e davam voltas até serem recolhidos. Num dos ganchos ia eu pendurado, meio e mal sentado, às voltas até que me escolhessem. Lá fora era Carnaval, com a música que não respeitava as paredes e entrava por ali a dentro. Estava muito calor naquela cidade que não perecia o que imaginava ser. Ao olhar para baixo via uma mulher morena de cabelos compridos e odor intenso. Ela esticou os braços parando o mecanismo. Reclamou-me de imediato reconhecendo o trofeu...
Daí a pouco caminhávamos por aquelas escadas pequenas que uniam as ruelas e onde se continuavam a ouvir os sons de festa e de papelitos a esvoaçar.
Fomos dar a uma zona pobre e pouco cuidada perto de um edifício com a fachada em muito mau estado. Entrámos por um portão lateral que não se sabia bem onde ia dar e descobrimos outro prédio ainda mais sujo. Havia um grupo de homens de rua a dormir pelos cantos, escondendo-se do frio que não deveria existir. Nós descobrimos um colchão azul daqueles antigos, com pó e a superfície muito ondulada. Dos que se encontram nos sótãos onde ninguém vai. Depois não me recordo de mais nada...

P.S. – Conheço um senhor que fez algo delicioso estranho. Após muitos anos conseguiu realizar o sonho de ter uma casa no campo. Escolheu cuidadosamente o lugar. Não era completamente isolado pois tinha medo de precisar de ajuda a meio da noite e não ter quem lhe acudisse. Por isso escolheu uma casa perto de outras duas ou três, mas não mais do que isso para que pudesse disfrutar. À noite cumpria o mesmo hábito. Quando não havia Lua vinha cá para fora, respirava fundo algumas vezes e deitava-se numa esperguiçadeira com riscas roxas, brancas e azuis. Então olhava para cima e contemplava o maravilhoso céu estrelado. Sorria como tolo pela quantidade de pontinhos que cintilavam. Mas sabia que faltava algo. Mandou construir no meio do quintal uma parede. Apenas uma parede, com uma enorme janela de caixilhos brancos e vidros aos quadrados. Depois deitou-se de novo.

segunda-feira, abril 14, 2008

Os Cinco e o olhar de sangue...


Durante muitos anos, quando era um miúdo, cumpria um estranho costume. Todos os anos, suponho que por alturas Invernais, ficava doente. A minha mãe tentava proteger-me, talvez demais e encasacava-me até que transpirasse naqueles dias de chuva, húmidos e abafados. Então vinham as diferenças de temperatura e lá tinha que ficar uma semana em casa, na maior parte das vezes com problemas de garganta. Os dois primeiros dias eram maus, com febre e dores ao engolir. Mas depois as coisas começavam a mudar. Aos poucos o antibiótico começava a fazer efeito, até que me começava a sentir melhor. O médico, que era sempre o mesmo, lá recomendava que ficasse mais uns dias para que recuperasse completamente. E era então que renascia. Deitado no sofá creme da sala pequena da casa dos meus pais, passava dias maravilhosos. Deixava para trás os dias em que me forçava a transpirar, para baixar a febre, desmontando e voltando a montar um cubo mágico que nunca consegui terminar de forma legítima. Adorava estar em casa, empilhando dezenas de livros ao meu lado que lia vorazmente. No topo estavam as estórias dos Cinco que me transportavam para aventuras emocionantes, misturadas com lanches descritos de forma a que os pudesse saborear. Hoje detesto estar doente. Tenho sempre que melhorar a correr e quantas vezes voltar para a rua ainda com febre. Que saudades dos Cinco.

P.S.- Esta semana lembrei-me também de uma colega que tive na escola secundária. Não me recordo do seu nome. Não era alguém que fizesse parte do meu círculo mais próximo de amigos. Mas recordo-me perfeitamente da sua cara. Era gordinha e alta, ou pelo menos acho que era. Mas foi outro pormenor que me ficou bem marcado na memória. Ela chorava sangue. A sério! Já não sei bem porquê, mas acho que tinha um problema nos olhos e por vezes lacrimejava pequenas gotinhas de sangue. Não eram lágrimas espessas e muito encarnadas. Nem sequer eram suficientes para que fizesse impressão. E de qualquer forma naquela idade as coisas eram bem mais simples.

sexta-feira, abril 04, 2008

My blueberry nights…

Quando começamos a deslizar, teimando quase sem forças contra o que nos puxa para temer. Quando, porque passou algum tempo, não respiramos mais fundo de sentir que faz sentido. Nessa altura percebemos que falta pouco… para mais um momento de magia… E esperamos serenamente… Não percam este filme!





A rapariga invisível e as gémeas…


No meu emprego existe uma rapariga invisível. Não é muito bonita. Deixa-se estar num intervalo entre a beleza e normalidade que acaba por transformá-la numa pequena nuvem que luta pela visibilidade. É muito branca, agarrando-se uma pele desmaiada que nunca se destaca no mobiliário cor de laranja. E depois as roupas são também muito claras, misturando a sensação etérea com um piscar de olhos em que nos momentos intercalados não a conseguimos ver. O cabelo loiro coroa um véu de luz sem graça que nem encandeia. Passeia-se pelos corredores como que procurando por um olhar. Não gosto das rendas e dos pequenos bordados a que insiste em esgueirar-se.

P.S. – Há muitos anos conheci duas irmãs gémeas. Eram muito diferentes e originais na forma como apareciam. As roupas, compradas em segunda mão, lembravam hippies, com vestidos de Verão e botas da tropa. Tinham pouco dinheiro e assumiam de verdade o desejo de mudar a vida, enquanto escarneciam de Bon Jovi juntando meia dúzia de melodias num único medlley a um só tom. Depois fizeram algo de estranho. Separaram-se, em rotas de destinos diferentes. A de cabelo mais comprido encontrei em serão de ébrio com um abraço sentido, mas desadequado. Estava a estudar em Inglaterra e não escondia sorrisos. Pouco tempo depois encontrei a irmã, que continuava a ser a mais bonita. Disse-me que estava bem, que tinha encontrado o amor. Foi engraçado ouvi-la, enquanto segurava o copo com muitos graus e a noite ia despertando…

segunda-feira, março 10, 2008

1967 a preto e branco e a Catedral no horizonte...


Desde que me lembro sou fascinado pelos programas de música de antigamente. Em Portugal e no resto do mundo os cenários eram muito parecidos, com o glamour de um cinza muito certo e uma aura que já não se consegue sequer imitar. As orquestras de homens muito iguais e fatos bem alinhados, balançavam instrumentos de sopro que brilhavam em metal, desafiando os violinos numa harmonia de muitos tons. Foram uma vez mais os meus avós responsáveis por mais um imaginário que guardo com carinho. Sempre soube os nomes e as canções, ouvindo ainda pequenino as gravações de gira-discos e leitores de cassetes negro e prata. A tecnologia de hoje leva-me ao passado reconhecendo estórias, momentos e tantos nomes. Nas minhas pesquisas descobri um ano especial. Estávamos em 1967 e o preto e branco não era questionado na sua elegância. Comecei a reconhecer os intérpretes que desfilavam numa passadeira estreita terminando num pequeno palco. Artur Garcia cantava por uma porta secreta, enquanto Mª de Lurdes Resende afirmava não querer o mundo. O duo Ouro Negro embalava um livro sem fim, mas o vento mudava verdadeiramente para Eduardo Nascimento que acabaria por vencer o concurso. No meio de estrelas mais naturais fora da cor, descobri uma que só associava a outros tempos. Com apenas 22 anos surgia com a naturalidade segura de voz fantástica que antevia uma carreira de sonho. Vestia um paletó muito elegante numa altura em que os botões eram todos apertados. A camisa branca de longos colarinhos iluminava este homem muito alto e de beleza tradicional. O seu nome era Marco Paulo e foi só por azar que os anos 70 trouxeram o fim de uma época inesquecível. Onde as vozes eram rainhas e as melodias, quase sempre escritas por outros, vincavam o vinil negro e brilhante. Marco ainda apanhou o final dessa era. Ainda cantou com a Madalena Iglésias e a Simone, divas incontestáveis que competiam entre si. Depois teve que se adaptar a gostos diferentes e com menos encantamento. Mas mesmo assim construiu uma carreira grandiosa. Ele é da idade do meu pai que o conheceu na tropa e de quem lembra a voz, a simpatia e forma como a todos cativava. É mais do que consigo dizer de grande parte das pessoas que conheço.
Para os que não perceberam nada deste post, não se desculpem com a idade, pois também eu não era nascido. Mas a memória foi-me emprestada.


P.S. – Trabalho num 11º andar com uma longa vista sobre Lisboa. Não costumo olhar muito lá para fora, embrenhado nos afazeres que não me deixam mais tempo para observar. Na semana passada parei por um momento e olhei para o horizonte, para me espantar. Quase no final, cortando a linha final imaginária, erguia-se uma Catedral. Na verdade apenas conseguia ver a sua silhueta, mas não tenho dívidas do que vi. Naquela zona da cidade não existem estruturas ou edifícios com aquela altura e silhueta. Portanto, apesar do que me possam argumentar, era mesmo uma Catedral. Ali ficou durante todo o dia, por vezes mais escondida na neblina, que depois se espalhava esborratando a paisagem. De repente pareceu-me ainda maior, como que se as suas torres se esticassem em direcção ao céu em que quase tocavam. No dia seguinte continuava no mesmo local e será sempre a minha inspiração e o refúgio de dias demasiado normais.





quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Sessenta e cinco cêntimos e Tá Stop...


Achei sessenta e cinco cêntimos. Estavam num passeio perto do meu emprego. Primeiro vi uma moeda de cinquenta a brilhar e de princípio até pensei em não a apanhar. Sabe-se lá por onde andou. Mas depois considerei. Afinal os trocos que nos dão por aí também andam por mãos alheias e a vida está cara. Quando olhei melhor estavam mais três moedas de cinco cêntimos espalhadas em redor. Ainda olhei para a zona circundante, mas não havia mais nada. Lembrei-me do meu avô que passava a vida a olhar para o chão e fartava-se de encontrar coisas perdidas. Moedas, canetas e mil e uma outras surpresas. Uma vez até trouxe uma máquina fotográfica para casa. Contou que estava na rua quando passou um carro e a deixou cair. Era uma história estranha. Um truque ele me ensinou foi de olhar sempre para perto das portas dos carros, porque as pessoas quando saem deixam cair coisas dos bolsos. Uma vez encontrou uma caneta de ouro assim. Tinha sorte o meu avô. Eu tenho andado muito de cabeça no ar. Tenho que voltar a prestar mais atenção.

P.S. – Uma das muitas maravilhas do mundo das crianças é a forma prática como lidam com a realidade e estabelecem regras simples, para a mais difícil das situações. Um desses exemplos sobrevive há décadas e continua a ser uma forma fantástica de resolver problemas. Quando estão a brincar e de repente há algo que os incomoda, limitam-se a dizer uma simples, mas poderosa frase – Tá Stop! É fantástico. Duas pequenas palavras com tanto poder. Tá Stop, e tudo pára. De repente já não vale nada. Já não estão a brincar e quaisquer actos menos desejados ficam de imediato congelados. Não era bom que pudéssemos continuar a utilizar esta frase? O chefe vinha ter connosco para nos dar um trabalho aborrecido e nós apenas tínhamos de dizer – Tá Stop!