sábado, agosto 30, 2014
Übermensch...
terça-feira, agosto 19, 2014
Mondego...
sábado, agosto 16, 2014
A noite, o banco e o futuro...
quinta-feira, agosto 07, 2014
Chances are...
terça-feira, agosto 05, 2014
O banco II...
sexta-feira, agosto 01, 2014
O banco...
terça-feira, julho 29, 2014
(Des)larguem-me... II ou não...
domingo, julho 27, 2014
(Des)larguem-me...
quarta-feira, julho 23, 2014
Virginia...
segunda-feira, julho 14, 2014
... (de um silêncio)
sábado, julho 12, 2014
O regresso...
Mas claro que tenho. E agora é tempo de regressar.
quarta-feira, fevereiro 19, 2014
A confissão...
quinta-feira, janeiro 02, 2014
O bosque...
De olhar lateral, torcendo o pescoço, já não consegui ver o rádio a cores. E deixei-me engolir pelos ramos e folhagens. É provável que não tenha ouvido mais nada…
domingo, outubro 20, 2013
Under the moon.
quinta-feira, agosto 08, 2013
Peter Pan e o outro lado do muro.
terça-feira, julho 12, 2011
A serenidade...

Ele já me tinha dito uma vez a má sorte que o perseguia. Acho até que já o contei. Enviuvou prematuramente. Imagino que da mulher certa, de quem devia acompanhá-lo em noites estreladas e mantas multicolores. Mas a sorte não quis assim. Levou-lhe a companheira para noites mais escuras porque já não existem. Ele, em hábito antigo, pouco pensado, voltou a casar. Os olhos tremem quando admite o azar que desde então o acompanha. Estranhei na altura, ver aparecerem rugas numa face normalmente amigável. A dor devia ser imensa. Não podia estar a exagerar. Mas guardei uma ínfima parte de ignorância, por não conhecer o objecto de tanta raiva. Até há uns dias atrás. Entrei no estabelecimento onde ele trabalha e logo notei uma tensão no ar. Normalmente ficamos um pouco à conversa. A diferença de idades esbate-se na vida de bairro e até numa espécie de amizade de vizinhos. Mas dessa vez não. Estava nervoso, apressando-me, como se quisesse afastar-me da tormenta. Percebi ser a sua mulher. E de ínfima, a ignorância desapareceu por completo. A mulher era do mais irritante que podemos reconhecer. Baixinha, com uma permanente de cabeleireiro de esquina, boca arqueda para baixo, em birra constante. Entendi a sua dor. Um dia ou dois depois voltei a encontrá-la, espalhando de novo o clima de incómodo que parecia ser a sua sombra. Gritava de forma abrutalhada com uma criança, filha de uma cliente. Fazia-lhe ameaças e dizia coisas de que nem me lembro. Depois sairam todos, deixando-nos sós. O ambiente voltou rapidamente ao normal. Parece que o espaço ficou mais claro e o oxigénio ganhou coragem para regressar. Os músculos da cara voltaram ao normal e olhou para mim com uma expressão de desistência e desânimo. Como quem pergunta – Que fazer? E sentou-se no degrau da entrada a brincar com um par de nozes. Eu sentei-me ao seu lado, mas em silêncio.
sexta-feira, junho 24, 2011
Em barras que ajudam...

Tudo o que sentia era a dificuldade enorme em conseguir um sorriso de domingo. O tempo deixava-lhe opressões e uma angústia impossível de controlar. Todos os dias lutava com o tempo que nunca parecia abrandar. Já em pequeno ia sempre a correr para a escola e para todo o lado, por não aguentar o passar dos minutos que tentava encurtar, assim desejava, se acelerasse. Encore... conseguia um breve alívio, mas não total, por ter então que correr cada vez mais depressa e não resolver o problema, fechado nuns músculos das pernas cada vez maiores.
Tudo o que existia e demorava, mesmo em relatividade, o atormentava na espera e lhe oferecia desejos e planos para apressar a vida. Não conseguia apreciar qualquer momento pela precepção de que acabaria rapidamente. Achava-se em situações que eram felizes, mas em sofrimento profundo por senti-las fugir e avançar para o fim. Só havia pequenas exepções. Se algo era muito mau, parecia que demorava um pouco mais. Nos obrigatórios lanches da tia Rita, acalmava um pouquinho. A tortura de ouvir as mesmas três estórias, não entrava em conflito com a mania de apressar o tempo e não saber respeitá-lo. A missa era outro momento de relativa paz. Aborrecia-o profundamente o dogma e os gestos e deixava o impeto para correr sem tentativa de controlo. Para que tudo passasse depressa. Não eram perfeitas, mas ajudavam, estas exepções, a serenar o galopar que lhe cansava o músculo púrpura.
Até que um dia sonhou com a solução. Na secção de desporto do shopping havia uma loja de armas com um revólver que imitava em perfeição os de antigamente. O vendedor nem teve tempo de reagir. Antes de poder confirmar a licença que tinha forjado, já gritava com uma bala alojada numa das coxas. Ele chegou-se ao ouvido do pobre homem e segredou – Desculpe, sinceramente. Mas ajudou-me imenso.
A recusa em ter advogado, o constante despeite e uma inesperada tentativa de agressão do juiz, determinaram a setença. Vinte anos, com medidas de segurança especiais. Pediu para ser confinado a uma cela, sem direito a visitas e principalmente com a eliminação de relógios ou qualquer outro tipo de informação sobre o tempo. Já tarde, a horas que não podia identificar, deitou-se para trás na cama estreita alinhada com a janela de barras. E sentiu a ansiedade desaparecer.
sexta-feira, abril 10, 2009
O reencontro...
Depois mudei um pouco o estilo. Abri um pouco mais do meu mundo real (embora sempre muito imaginado), mas continuei a ter muito prazer em escrever para mim e para vós e em partilhar este espaço ao mesmo tempo que recebia os vossos e encontrava conforto na certeza de que não estava sozinho.
Agora, passado todo este tempo, chegou a altura de parar. Porque não tenho sentido o apelo da escrita, porque a vida nos leva por diferentes caminhos, em que crescemos e mudamos e tentamos por fim nos encontrar. Deixo todos os textos publicados e acessíveis para quem tenha saudades e porque não se fecham partes da nossa vida, mesmo que em versão "virtual". Vou tentar ir espreitando os vossos espaços, mas sem prometer a regularidade de outros tempos. Se alguma vez voltarei? Não sei. Estou a tentar viver o presente o melhor que sei e que posso. Esforçando-me por ser melhor, por não errar tanto, por no fundo perceber tudo o que me aconteceu na vida e me fez a pessoa que sou hoje. Se o conseguir, talvez possa encontrar a paz que todos procuramos. Pelo menos vou tentar fazê-lo com todas as minhas forças.
Obrigado, pela companhia, pela amizade, pelos comentários, pela importância que todos tiveram para este espaço que tanto significou e ainda significa para mim. Agora vou "ali" tentar ser feliz. Desejo-vos o mesmo.
Beijos e abraços. Até logo...
domingo, dezembro 14, 2008
O Duende de Natal...

Pensa que não foi um ano fácil, de adulto mascarado, confuso com tantos labirintos. E imagina que neste Natal cumprirá o seu papel de verde ajudante, para os sorrisos ver nascer. Depois, já sereno, agradece em silêncio as palavras que lhe ofereceram e ajudaram a continuar.
Obrigado a todos. Festas felizes!
segunda-feira, novembro 10, 2008
Lágrimas...
quarta-feira, outubro 29, 2008
E porque não há coerência alguma na minha mente...
Porque me assusto com facilidade.
Porque tenho medo dos dias seguintes.
Porque de vez em quando me apaixono por músicas que não confessaria noutros tempos.
Porque é doce o sentir em tristeza consentida.
Porque amanhã vou ter de puxar novamente pelos sorrisos...
quinta-feira, outubro 23, 2008
João, o sexo e as strippers...
João era assim. Caminhava e corria de carro as ruas para ver as prostitutas de perna arqueada em hábito, mas sem nada querer com elas. Eram as strippers que o fascinavam. Mesmo as que são coxas, escondidas em semi-nudez descomprometida numa falsa e aparente facilidade.Nunca bebia mais do que três Pizangs, verde escuro e demasiado doces. Não queria arriscar. Foi Noémia que naquele dia o abordou, emprestando-lhe o perfume que logo se agarrou à pele e por lá ficou até ao próximo banho. De pele pendurada e peito falso, esmagava esforço no pescoço do rapaz, segredando sotaques incompreensíveis.
No fim da noite rodava quatro vezes a chave de um lar a dois, fechado por medo e metáfora que insistia em por lá viver. Pensava por dois segundos no desejo de o poder fazer e depois desistia, esgotado.
P.S. – As casas de striptease são um marco no imaginário masculino. Interligadas em surdina com o mercado do sexo, deixaram na minha geração uma sensação de curioso afastamento pela educação que nos dizia, diminuindo, que não precisamos destas muletas. Hoje em dia dificilmente se admite a sua oportunidade ou fascínio. É coisa para os outros!!
segunda-feira, outubro 13, 2008
As velhotas e a catequese...

Quis assustá-las por despeito, por ter tempo. Fui dar a volta ao quarteirão e comecei a caminhar na sua direcção. Coloquei ar despreocupado e esperei pela artimanha. Ao aproximar-me vi que mantinham as suas posições. Uma levantou-se e encostou-se ao candeeiro verde da rua deixando um espaço pequeno para eu passar. Sorri para dentro e avancei. Na altura que passei pela velhota que estava de pé só senti um perfume forte que não condizia com a sua idade. Pareceu-me também que me soprou na nuca. Arrepiado, desviei o olhar por uns momentos, mas para logo recuperar a atenção julgando-me já embrulhado na bengala. Mas não! A segunda velhota ficou quieta, talvez só com um esgar, quem sabe imaginado, de gozo e serenidade. Enquanto me afastava, forçaram-me a virar-me com a expressão quase cantada.
- Vai em paz rapaz. Mas não penses que percebeste. Disse a velhota sentada.
A outra ainda murmurou.
- Ele não percebeu.
P.S. – Andei muitos anos na catequese. Não me lembro de muito. Lembro-me de uma catequista que não era freira e tinha muito jeito. Lembro que tinha uma casa muito grande com um enorme terreno. Nós tínhamos catequese num anexo lá no fundo. Um dia o Pedro, que viria a ser actor sem grande sucesso, ficou com um pedaço de folha dentro do olho esquerdo. Devíamos ser quatro ou cinco de volta dele, com o globo ocular a ficar cada vez mais vermelho e fechado. Lá conseguimos tirá-lo. Mas a estória que recordo mais foi noutra ocasião. Nem sei quem era a catequista. E muito pouco consigo visualizar. Uns sofás bejes e uma rapariga que nem conhecíamos muito bem, eu e o meu irmão. O meu irmão gémeo vinha sempre comigo às aulas de catequese. Um dia, no final, veio ter comigo e confessou.
- Eu apalpei-a!
Ia desmaiando de susto. Apalpou-a? Quem? Como?
Pois é. O senhor meu irmão, que não devia ter mais que doze ou treze anos, durante a aula de catequese, resolveu fazer das suas. Não sei porque sinais ou impulsos distorcidos, começou a avançar com a mão pelo sofá até tocar na perna da rapariga. Depois, lá arranjou forma de colocá-la por baixo do seu rabiosque... e apalpou. A pobre rapariga não esboçou qualquer reacção. Nunca soubemos se por ter paralisado ou porque a química, a estranha química da catequese funcionou nos dois sentidos.
segunda-feira, setembro 22, 2008
A rapariga...

Não podia deixá-la partir sem perguntar. Fui direito ao assunto.
- Como fizeste essa cicatriz?
Dois olhos enormes questionaram a minha petulância. Depois responderam.
- Um dia tropecei e mergulhei em direcção a um gradeamento. Pareceu uma eternidade. Não consegui decidir para que lado pender.
- Porquê?
- Eram diferentes os destinos que me esperavam. De um lado um velhinho parecia poder apanhar-me. No outro uma senhora gorda vendia fruta. Nem olhou para mim.
Pensei um pouco e continuei.
- Eu escolhia a senhora gorda. Mesmo não olhando, amparava melhor a queda.
- Eu escolhi cair para o lado do senhor.
- Então como fizeste a cicatriz?
- No último momento a vendedora de fruta gritou. Fui direita a um ferro aguçado.
Agora tinha que esperar um pouco até terminar. Mas lá perguntei.
- Arrependes-te de não ter decidido mais rápido.
Ela sorriu.
- Não me arrependo. Não estava bem certa do que fazer.
quarta-feira, setembro 17, 2008
Ontem...
Queria trazer ao espirito a lembrança da cor
Fixando plantas de chá num fumo que escorrega
Que me entorna contas e beliscões e amores imperfeitos.
Amarrei-me de Ulisses mascarado,
Para não mais ouvir e me sentir tentado
Querendo assumir um ar que roubava
Enquanto empurrava tudo o que era meu.
Saltei entre suspiros e choros, entre pés
Estranhando os cúmplices e a avidez
Armei de raiva e depois sono
Até que pudesse esperar outra vez.
terça-feira, setembro 16, 2008
Pushing daisies...

segunda-feira, setembro 15, 2008
quinta-feira, setembro 11, 2008
A certeza...
O mundo pode andar de pernas para o ar. Podem haver (e há) dias em que não me apetece levantar. Pode o trabalho ser desmotivante, perante a quase impossibilidade de se ganhar o Euromilhões e se mandar tudo à fava. Pode-se olhar para o interior de uma livraria e pensar – “Hoje em dia qualquer pessoa escreve um livro” – ameaçando o valor de uma conquista que me deu trabalho e emoção. Pode o acelerador de partículas na Suíça comprometer de forma trágico-cómica o futuro do planeta. Podem os Verões serem frios e sem fins de tarde com Melros a cantar o tempo ameno...
Mas encho-me de sorrisos e certezas. Afinal... a mercearia em frente a minha casa ainda vende nougat. É preciso mais?
P.S. – Porquê este video? Porque tem a banda sonora (e não só) que materializa de forma perfeita este pensamento!
quinta-feira, setembro 04, 2008
O rapaz bonito...

Mariana entrou à meia-noite em ponto. Era um dos mais antigos bares da pequena aldeia junto ao mar e de Inverno reunia as poucas pessoas que se aventuravam na noite húmida. Chegou perto do balcão e reparou nele de imediato. Era um rapaz muito bonito, de olhar claro e confiante e cabelo castanho muito curto. Sorriu quando a viu, mas afastou o olhar timidamente. Percebendo que teria de dar o primeiro passo foi ter com ele.
- Olá. O meu nome é Mariana.
- Boa noite. Eu sou o Pedro. Fico feliz por teres falado comigo.
Não estava habituada a abordagens tão directas e lá ficaram os dois corados em poucos segundos de silêncio e ansiedade.
Conversaram depois durante vinte minutos até que ela fez a pergunta que condicionaria tudo o resto.
- Então e onde trabalhas?
Ele nem hesitou na resposta firme e natural.
- Sou motorista.
Bebeu um golo da sua bebida antes de concretizar mais um pouco.
- Transporto animais vivos. Normalmente porcos.
Mariana não conseguiu responder logo. Queria muito falar. Dizer que não fazia mal, mas ao mesmo tempo sem dar muita importância, para que ele não percebesse o desconforto. Só conseguiu dizer.
- Que interessante. Mas só os transportas?
- Transporto, carrego, ajudo a descarregar. Faço de tudo um pouco.
Agora ela ficou em silêncio. Ele levantou-lhe o queixo com gentileza e falou calmamente.
- Não precisas ficar constrangida. Sei que não é a profissão mais sofisticada que existe, mas é o que faço. Também não te posso dizer que sou um intelectual rebelde, que trocou a faculdade por um ideal de vida mais simples. Sou apenas assim. Tenho apenas o décimo ano, gosto de ler moderadamente e colecciono miniaturas de porcos. Pouco original, eu sei.
A cabeça dela lutava contra o peso do preconceito, enquanto as pernas tremiam ao sentir o seu perfume suave. Estava paralisada. Então ele levantou-se e disse-lhe.
- Não fiques assim. Eu também me sinto desconfortável e ainda nem sei o que fazes.
- Sou advogada.
(Mariana é advogada, com um doutoramento completo e a meio caminho de terminar o seu pós-doutoramento)
- Pois então. Os porcos não costumam precisar de advogados. Disse Pedro a rir.
Mas ela não riu. Tinha olhos tristes e perdidos, brilhando em lágrimas que queriam saltar. Voltou-se de repente e saiu porta fora.
Esta não foi uma estória de final feliz, com um daqueles enredos cinematográficos. Mas não deixei de lhe perguntar se alguma vez se arrependeu de não ter ficado. Ela respondeu de cabeça baixa.
- Todas as noites. Todas as noites!
terça-feira, agosto 26, 2008
O aniversário...

P.S. – Nas minhas férias aconteceu uma pitoresca e humilhante situação que me motivaram a escrever este texto. Eu tinha a mania de dar saltos mortais para dentro da piscina. Em terra firme não me atrevia, mas com a água não me safava mal. Tem sido assim todos os anos. Ora, apesar de não estar no meu melhor, resolvi tentar também este ano. Na primeira vez aterrei quase de costas, mas sem estragos de maior. Foi então que notei que a piscina tinha uma zona de rocha elevada que me permitiria saltar como se de um trampolim se tratasse. Não sei o que me passou pela cabeça. Pensei que a altura me daria tempo para rodar completamente e aterrar de pés. Mas não! Não só caí de costas, como a altura fez com que tal acontecesse com estrondo e uma dor profunda nas costas, que quase rasgavam com o chapão. A estupidez e o despeito impulsionaram-me para repetir o feito, com os mesmíssimos resultados. Acho que me ri, para não chorar de tantas dores. Para o ano há mais.
segunda-feira, agosto 11, 2008
Decotes e a natação...

P.S. – Após muitos anos a fazer desporto fui atacado por uma inesperada dor de costas que, depois de tentar os canais tradicionais, me levou ao conhecimento de um médico que me torce e aperta e faz estalar tudo o que é vértebra. É fantástico! Mas ao que parece o corpo tem memória e para que os músculos não forcem a coluna para maus caminhos, tenho que passar a fazer natação. Tal obrigação aborrece-me pela repetição de movimentos e a infindável contagem de azulejos, capazes de me desmoralizar. Um dia destes, andava eu literalmente a fazer piscinas, quando parei para descansar um pouco numa das pontas (note-se que eu nado nos horários livres sem direito a aulas). Senti então alguém bater-me no ombro para me chamar. Tirei os óculos e olhei para cima, para uma professora vestida de cor de laranja. Sem grandes avisos disparou.
- Tu não nadas nada!
Fiquei um pouco atordoado e só consegui responder.
- Não estou nos meus dias.
terça-feira, agosto 05, 2008
O odor a pão...

terça-feira, julho 29, 2008
A escola...

- Eu daqui vejo a minha escola!
Depois comeu mais um biscoito e não pensou mais no assunto. Simples não é?
quinta-feira, junho 26, 2008
O arco e flechas...

Ele levava cerca de cem metros de avanço que prudentemente diminui, para que o pudesse seguir em segurança mas sem o perder. Atravessou a estrada e subiu para a passagem aérea que aqui perto atravessa a linha do comboio. Deixei que fizesse a travessia, para então passar eu em passo de corrida para recuperar o atraso. No outro lado fica a mata de Benfica, na parte baixa de Monsanto. Percebi que era para lá que se dirigia. Conheço bem a zona pois costumava ir para lá correr e ganhei coragem para continuar. O desconhecido começou então a caminhar em grande velocidade atirando-se para dentro da mata. Fiquei parado por uns segundos sem saber o que fazer, ofegando entre o medo e a dúvida. Então, afastando o pânico mergulhei no meio das árvores para logo parar. Tentem correr num emaranhado de ramos com um breu que nos deixa sem saber para onde ir. A isso juntem a ideia de um louco que nos espera armado com um arco e flechas. Foi o suficiente para voltar para trás. Mais três horas na varanda não serviram para que visse mais algo de surpreendente. Mas acalmaram-me. Quem seria ele?
quarta-feira, junho 18, 2008
Cool depois dos trinta...

Na prática já lá vão trinta e cinco e devagarinho vou percebendo, embora combatendo, porque é que os mais velhos adquirem hábitos com menos “estilo”. Eu até tenho a certeza que não aparento a minha idade verdadeira, principalmente se nos ficarmos pela parte mental, onde ainda estou pelos dezasseis. Mas há sinais preocupantes. O pior é que agora muda tudo muito rápido e não é fácil acompanhar o passo. Por tal descobri a causa de os nossos pais e avós irem perdendo o seu sentido de coolness. Eles simplesmente ficam cansados e já não se importam. Mas vamos a alguns exemplos. O primeiro é a mania de caminhar com as mãos entrelaçadas atrás das costas. Adoro fazê-lo, mesmo sabendo que me dá pelo menos mais uns vinte anos. O meu pai caminha assim e boa parte dos homens da sua geração também. Sabem que mais? Gosto mesmo de fazê-lo. Depois vem a roupa. Para quem detesta esta ocupação é uma verdadeira tortura. Vemos uma peça que gostamos numa loja e decidimos passar lá no fim de semana para a comprar com mais calma. Não dá. Por essa altura já mudou tudo, às vezes até a posição dos balcões e estantes. A camisola ou t-shirt já passou de moda. Depois há a dificuldade de escolher um estilo. Eu gosto de andar confortável, meio street, mas sem exageros. Mas até que idade é que o posso fazer até que fique ridículo? A minha preferida é a questão das meias. De repente passou a ser muito má onda andar com calções e meias compridas ou mesmo médias. Têm que ser daquelas que nem se mostram, escondidas dentro do calçado. Nos ginásios é a ditadura total. Confesso que já comprei das curtinhas e achei super desconfortáveis, mas ainda tenho uma atitude meio rebelde de ser o único na sala que não está na moda. Que me importa. Também, devo ter mais de dez anos de diferença daquela gente toda. E o casaco pelo ombros. Um dia destes coloquei-o assim e uma menina de oito anos disse-me de imediato – Estás a pôr o casaco como os velhos! Até ela já sabia. Mas estava calor para o ter vestido e um pouco de frio para o levar no braço. Apenas isso. Por último a famosa situação dos lenços. Dos gigantes utilizados para “espirrar” rapé, os amigos de pano estão quase banidos. E eu, de renite alérgica sempre a espreitar, finco pé na tradição, ou andaria com vinte ou trinta embalagens dos pouco nobres quadrados de papel. Estou a ficar velho? Who cares? E sabem que mais? No meu leitor de Cds do carro está neste momento a banda sonora do Música no Coração. Edelweiss... lá, lá, lá... Afinal, se um dia espero ser avô, tenho que ir treinando, certo?
domingo, maio 25, 2008
Atrás da desconcertante coluna...

No terceiro dia não resisti. Saí do carro e fui até ela. Rodei três vezes em volta da coluna, enquanto me fugia rodopiando, com uma encharpe vermelha de rasto perfumado. Por lógica parei e abri os braços para amparar o seu encontro. Ela chocou com o meu peito num sorrisinho de quem tinha sido amparada.
- Quem és tu?
- Sou uma preta que se esconde atrás das colunas.
- Mas ficas aqui só por mim?
- Hoje sim. Não há mais alguém.
Agastei-me um pouco e reconheci um curvar de deferência que não pedi.
- Não esperes mais por mim, mulher.
- Desculpa, mas aqui vou ficar, até precisares.
segunda-feira, abril 21, 2008
O sonho...

Daí a pouco caminhávamos por aquelas escadas pequenas que uniam as ruelas e onde se continuavam a ouvir os sons de festa e de papelitos a esvoaçar.
Fomos dar a uma zona pobre e pouco cuidada perto de um edifício com a fachada em muito mau estado. Entrámos por um portão lateral que não se sabia bem onde ia dar e descobrimos outro prédio ainda mais sujo. Havia um grupo de homens de rua a dormir pelos cantos, escondendo-se do frio que não deveria existir. Nós descobrimos um colchão azul daqueles antigos, com pó e a superfície muito ondulada. Dos que se encontram nos sótãos onde ninguém vai. Depois não me recordo de mais nada...
P.S. – Conheço um senhor que fez algo delicioso estranho. Após muitos anos conseguiu realizar o sonho de ter uma casa no campo. Escolheu cuidadosamente o lugar. Não era completamente isolado pois tinha medo de precisar de ajuda a meio da noite e não ter quem lhe acudisse. Por isso escolheu uma casa perto de outras duas ou três, mas não mais do que isso para que pudesse disfrutar. À noite cumpria o mesmo hábito. Quando não havia Lua vinha cá para fora, respirava fundo algumas vezes e deitava-se numa esperguiçadeira com riscas roxas, brancas e azuis. Então olhava para cima e contemplava o maravilhoso céu estrelado. Sorria como tolo pela quantidade de pontinhos que cintilavam. Mas sabia que faltava algo. Mandou construir no meio do quintal uma parede. Apenas uma parede, com uma enorme janela de caixilhos brancos e vidros aos quadrados. Depois deitou-se de novo.
segunda-feira, abril 14, 2008
Os Cinco e o olhar de sangue...

P.S.- Esta semana lembrei-me também de uma colega que tive na escola secundária. Não me recordo do seu nome. Não era alguém que fizesse parte do meu círculo mais próximo de amigos. Mas recordo-me perfeitamente da sua cara. Era gordinha e alta, ou pelo menos acho que era. Mas foi outro pormenor que me ficou bem marcado na memória. Ela chorava sangue. A sério! Já não sei bem porquê, mas acho que tinha um problema nos olhos e por vezes lacrimejava pequenas gotinhas de sangue. Não eram lágrimas espessas e muito encarnadas. Nem sequer eram suficientes para que fizesse impressão. E de qualquer forma naquela idade as coisas eram bem mais simples.
sexta-feira, abril 04, 2008
My blueberry nights…
A rapariga invisível e as gémeas…

No meu emprego existe uma rapariga invisível. Não é muito bonita. Deixa-se estar num intervalo entre a beleza e normalidade que acaba por transformá-la numa pequena nuvem que luta pela visibilidade. É muito branca, agarrando-se uma pele desmaiada que nunca se destaca no mobiliário cor de laranja. E depois as roupas são também muito claras, misturando a sensação etérea com um piscar de olhos em que nos momentos intercalados não a conseguimos ver. O cabelo loiro coroa um véu de luz sem graça que nem encandeia. Passeia-se pelos corredores como que procurando por um olhar. Não gosto das rendas e dos pequenos bordados a que insiste em esgueirar-se.
P.S. – Há muitos anos conheci duas irmãs gémeas. Eram muito diferentes e originais na forma como apareciam. As roupas, compradas em segunda mão, lembravam hippies, com vestidos de Verão e botas da tropa. Tinham pouco dinheiro e assumiam de verdade o desejo de mudar a vida, enquanto escarneciam de Bon Jovi juntando meia dúzia de melodias num único medlley a um só tom. Depois fizeram algo de estranho. Separaram-se, em rotas de destinos diferentes. A de cabelo mais comprido encontrei em serão de ébrio com um abraço sentido, mas desadequado. Estava a estudar em Inglaterra e não escondia sorrisos. Pouco tempo depois encontrei a irmã, que continuava a ser a mais bonita. Disse-me que estava bem, que tinha encontrado o amor. Foi engraçado ouvi-la, enquanto segurava o copo com muitos graus e a noite ia despertando…
segunda-feira, março 10, 2008
1967 a preto e branco e a Catedral no horizonte...

Desde que me lembro sou fascinado pelos programas de música de antigamente. Em Portugal e no resto do mundo os cenários eram muito parecidos, com o glamour de um cinza muito certo e uma aura que já não se consegue sequer imitar. As orquestras de homens muito iguais e fatos bem alinhados, balançavam instrumentos de sopro que brilhavam em metal, desafiando os violinos numa harmonia de muitos tons. Foram uma vez mais os meus avós responsáveis por mais um imaginário que guardo com carinho. Sempre soube os nomes e as canções, ouvindo ainda pequenino as gravações de gira-discos e leitores de cassetes negro e prata. A tecnologia de hoje leva-me ao passado reconhecendo estórias, momentos e tantos nomes. Nas minhas pesquisas descobri um ano especial. Estávamos em 1967 e o preto e branco não era questionado na sua elegância. Comecei a reconhecer os intérpretes que desfilavam numa passadeira estreita terminando num pequeno palco. Artur Garcia cantava por uma porta secreta, enquanto Mª de Lurdes Resende afirmava não querer o mundo. O duo Ouro Negro embalava um livro sem fim, mas o vento mudava verdadeiramente para Eduardo Nascimento que acabaria por vencer o concurso. No meio de estrelas mais naturais fora da cor, descobri uma que só associava a outros tempos. Com apenas 22 anos surgia com a naturalidade segura de voz fantástica que antevia uma carreira de sonho. Vestia um paletó muito elegante numa altura em que os botões eram todos apertados. A camisa branca de longos colarinhos iluminava este homem muito alto e de beleza tradicional. O seu nome era Marco Paulo e foi só por azar que os anos 70 trouxeram o fim de uma época inesquecível. Onde as vozes eram rainhas e as melodias, quase sempre escritas por outros, vincavam o vinil negro e brilhante. Marco ainda apanhou o final dessa era. Ainda cantou com a Madalena Iglésias e a Simone, divas incontestáveis que competiam entre si. Depois teve que se adaptar a gostos diferentes e com menos encantamento. Mas mesmo assim construiu uma carreira grandiosa. Ele é da idade do meu pai que o conheceu na tropa e de quem lembra a voz, a simpatia e forma como a todos cativava. É mais do que consigo dizer de grande parte das pessoas que conheço.
Para os que não perceberam nada deste post, não se desculpem com a idade, pois também eu não era nascido. Mas a memória foi-me emprestada.
P.S. – Trabalho num 11º andar com uma longa vista sobre Lisboa. Não costumo olhar muito lá para fora, embrenhado nos afazeres que não me deixam mais tempo para observar. Na semana passada parei por um momento e olhei para o horizonte, para me espantar. Quase no final, cortando a linha final imaginária, erguia-se uma Catedral. Na verdade apenas conseguia ver a sua silhueta, mas não tenho dívidas do que vi. Naquela zona da cidade não existem estruturas ou edifícios com aquela altura e silhueta. Portanto, apesar do que me possam argumentar, era mesmo uma Catedral. Ali ficou durante todo o dia, por vezes mais escondida na neblina, que depois se espalhava esborratando a paisagem. De repente pareceu-me ainda maior, como que se as suas torres se esticassem em direcção ao céu em que quase tocavam. No dia seguinte continuava no mesmo local e será sempre a minha inspiração e o refúgio de dias demasiado normais.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Sessenta e cinco cêntimos e Tá Stop...
Achei sessenta e cinco cêntimos. Estavam num passeio perto do meu emprego. Primeiro vi uma moeda de cinquenta a brilhar e de princípio até pensei em não a apanhar. Sabe-se lá por onde andou. Mas depois considerei. Afinal os trocos que nos dão por aí também andam por mãos alheias e a vida está cara. Quando olhei melhor estavam mais três moedas de cinco cêntimos espalhadas em redor. Ainda olhei para a zona circundante, mas não havia mais nada. Lembrei-me do meu avô que passava a vida a olhar para o chão e fartava-se de encontrar coisas perdidas. Moedas, canetas e mil e uma outras surpresas. Uma vez até trouxe uma máquina fotográfica para casa. Contou que estava na rua quando passou um carro e a deixou cair. Era uma história estranha. Um truque ele me ensinou foi de olhar sempre para perto das portas dos carros, porque as pessoas quando saem deixam cair coisas dos bolsos. Uma vez encontrou uma caneta de ouro assim. Tinha sorte o meu avô. Eu tenho andado muito de cabeça no ar. Tenho que voltar a prestar mais atenção.
P.S. – Uma das muitas maravilhas do mundo das crianças é a forma prática como lidam com a realidade e estabelecem regras simples, para a mais difícil das situações. Um desses exemplos sobrevive há décadas e continua a ser uma forma fantástica de resolver problemas. Quando estão a brincar e de repente há algo que os incomoda, limitam-se a dizer uma simples, mas poderosa frase – Tá Stop! É fantástico. Duas pequenas palavras com tanto poder. Tá Stop, e tudo pára. De repente já não vale nada. Já não estão a brincar e quaisquer actos menos desejados ficam de imediato congelados. Não era bom que pudéssemos continuar a utilizar esta frase? O chefe vinha ter connosco para nos dar um trabalho aborrecido e nós apenas tínhamos de dizer – Tá Stop!



