quarta-feira, fevereiro 19, 2014

A confissão...

Às vezes não conseguimos explicar. Detesto escrever sobre mim. Sentir-me uma adolescente de quinze ou dezasseis anos, a trocar papelinhos na aula de geografia. É exagerado e assusta o efeito catártico de peneirar a mente e deixar sair por palavras o que reprimimos no pensamento. Que horror. Sensação de medo, do feminino em mim, de que já me tinha livrado, do medo pois claro, que o feminino é para manter.

Padre Arménio espera no casúlo em madeira escura. Veio do Brasil há séculos, o móvel antigo. Ficou por ali sem ser preciso envernizar. Nem rangia o coitado, nem envelhecia ou envergonhava de tantas lágrimas e pedidos de desculpa. Da Noélia e seus vapores, de Maria e seus amores. Só esbranquiçava um pouco perto da almofada para os joelhos, onde a cascata de lágrimas acabava por aterrar. Haveria de lavá-la um dia, o sanguíneo Arménio, que masturbava a mente com tantas rendas e tules que lhe pediam perdão. Ai o perdão.
Espreitou cá para fora o rapaz, para ver quem faltava. Para se preparar. Remexendo nos sinais contrários que o corpo e o zelo lhe ofereciam e encarniçavam o rosto e as partes.

- Fernandinha. Ai Fernandinha que me trocas os dias e a vocação.

A Fernanda dos tombos, que desmaiava todos os domingos. Que lhe emprestava odor e vício à igreja matriz. Com um terço novinho, com menos contas, que queria apressar o rezar. Lá se ajoelhou a rapariga. Vinte e tantos anos a parecerem menos, nucas arrepiadas, a dela e a dele, o sinal da cruz a fazer ângulos no ar.

- Perdoe-me padre, porque pequei.

Meu deus, com minúscula para não ofender. Que pecado Fernanda? Que maldade ou sina podia provocar? Nada meu deus, ainda mais pequeno. Nada.
De branco a moça, de peito fechado, ondulando a renda do colo. Ai Fernandinha. Desse-lhe as mãos e veria. Sem pecados, sem profunda confusão.

- Boa tarde Dª Gertrudes. Então hoje veio sozinha?
- Vim sim, senhor padre. A Fernanda já abalou para Lisboa.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

O bosque...

Pareciam-se mais com grades, as árvores tão chegadas umas às outras, com os ramos de cima de braço dado. Em baixo não acabara de crescer uma camada de ervas daninhas, acastanhadas por falta de sol.
Olhei um pouco e sentei-me perto. Nem conseguia ver por onde entrar. Esperei que a luz fosse deslocando as sombras horizontalmente, desfazendo e transformando as texturas na superfície dos troncos. Mas cada vez pareciam mais juntos, inexpugnáveis.
Ao pensar percebi que só entraria através do som, que à força de músculos não poderia ser. Mas que som? Que música, canção ou melodia, para afastar ou amolecer a madeira antiga e com ar robusto?
Atirei-lhe com música clássica. Embrulhei um monte de notas complexas, muito densas, pesadas e com arestas aguçadas. As árvores nem tremeram. Era melodia errada, cheia de falhas por ser difícil de interpretar.
Voltei a sentar-me. Esperei de novo. Olhei em redor, procurando outros tons. Mas o dia estava silencioso e as notas não vinham ter comigo.
Estaria a ser brando, feminino? Precisaria de entregar brutalidade, raiva, para romper a barreira irritante de natureza à minha frente. Puta que pariu as árvores, delgadas mas fortes, potentes e nada elegantes. Filhas da puta.
Calma. Tinha de me acalmar. E o ombro doía-me do encontrão que embalou a língua e o calão.
Meti as mãos nos bolsos, à procura. O blusão tinha tecido em excesso e perdia-me os pertences, enrolados uns nos outros. Mesmo no fundo senti uma forma alaranjada, com arestas que a faziam recordar. Um transístor. Um pequeno rádio a pilhas, esquecido no bolso interior esquerdo desde os meus catorze anos.
Já devia ter derretido, com o ácido das pilhas que sempre escorria ao fim de um tempo. Mas não. Brilhou na cor original, só um pouco mais pálido, com menos fulgor, só um pouco menos.
Seria possível? Não custava tentar. E lá girei a roda em plástico preto, serrilhada para melhor tração, devagar. Bem devagar.
Um clique e ligou, fez barulho, arranhou umas coisas à procura de som. E eu esperei.
Num nível médio a melodia entrou a meio, mas já completamente sintonizada, afinada. Alguém como tu, dizia ela, a menina arruivada, com voz de garganta. Adele entoava Someone Like You, pela segunda vez, porque já ia no segundo refrão. E continuou.
E eu olhei para o bosque, agora quase negro, expulsando a última luz que se atrevera a entrar. Olhei por simpatia, que não acreditei. Mas olhei.
Os troncos começaram a ondular. Sim, a ondular. A mexerem-se para os lados, ora sincronizados, ora a chocar sem muita força. Abrindo clareiras e arcos por onde a música e alguém não teriam dificuldade em entrar. Poisei o rádio no chão e apressei-me que os aparelhos antigos não repetem.
Enfiei a cabeça e o pescoço entre dois troncos mais grossos, volumosos até. E depois os ombros. Fiquei ali quase a cair ou a recuar, hesitando. Putas das árvores que cedem ao mundo moderno, comercial. Mas a melodia fica gravada, é verdade. E nem desgosto. Vicia e encanta como um qualquer bosque para onde queremos avançar, não sabendo o que guarda, o que nos aguarda.
De olhar lateral, torcendo o pescoço, já não consegui ver o rádio a cores. E deixei-me engolir pelos ramos e folhagens. É provável que não tenha ouvido mais nada…

domingo, outubro 20, 2013

Under the moon.

Se nunca viste um peito adolescente, prateado pela luz da lua... volta para trás. Se não te recordas do cheiro dela, do aroma que ainda hoje parece colado às tuas mãos, de um creme primaveril, misturado com os dezasseis anos... tenta viver de novo, porque nada terá valido a pena. Como a recordação das aventuras com os amigos, os joelhos rasgados, as feridas a arderem com o pó e o suor, a memória dela nunca te abandonará. Se não a tiveres, talvez não estejas a fazer cá mais nada. A tua vida podia acabar agora, porque nunca vais saber como é, nunca vais entender. Eu tive sorte. Ainda me lembro de subir a rua inclinada, com ela ao meu lado, de mãos dadas. Tinha um vestido fresco, quando vocês só usavam calças e camisas fechadas até cima. Cheirava bem, adormecia-me os sentidos, simplificava a vida, obrigava-a a passar mais devagar. Não havia mais nada do que aquele dia, aquela semana. Se pudesse ter cristalizado a sensação tão primária, sem procura de significados... E do cheiro claro, que passou das mãos dela para as minhas, que à noite ainda sentia, que hoje ainda percebo na memória. Não sei se era o vestido às flores ou o azul claro. Esse nem tenho a certeza de existir. Só guardei o aroma. Hoje vocês já não cheiram assim. Desculpem, mas é verdade. São demasiadas fórmulas, químicas sofisticadas, com mil e uma funções, mas incapazes de guardar uma essência, de gerar uma memória. Como a minha. Voltem para trás!

quinta-feira, agosto 08, 2013

Peter Pan e o outro lado do muro.

O Pedro Mexia escreveu que a sua geração, que anda agora pelos quarenta (como eu), é “obcecada com a infância e a adolescência, uma geração de nostalgias precoces, de revivalismos patéticos” e que os homens, em particular, vivem um complexo de Peter Pan.
É verdade, ou pelo menos eu revejo-me nas palavras do Pedro. Suponho que também as outras gerações tenham estado expostas a este fenómeno, atendendo até à idade da obra de James Matthew Barrie. Mas seguramente com menos expressão, em homens muitas vezes obrigados a crescer prematuramente, ao contrário de nós que, em atraso legitimado pelas licenciaturas, pelas carreiras, pelo medo, vamos adiando o momento em que nos assumimos como adultos.
Ter filhos ajuda, não pela assunção da responsabilidade, mas pela consciência das diferentes perceções. Sim, somos em média mais próximos deles, do que aquilo que recordamos da nossa experiência pessoal enquanto filhos. Mas não na perceção, que no caso deles significa ver-nos, principalmente a partir da adolescência, como aquilo que afinal já somos há muito – adultos.
Mas então e as vantagens de um eterno espírito jovem? O meu avô morreu com oitenta e dois anos, mas cheio de juventude, de meninice saudável. E o medo? Temos medo de coisas que assustam. É normal. E crescer é do mais assustador que há. No meu caso, que preciso do mundo das ideias e dos sonhos, é também por aí que andam os meus medos. E se deixo de criar? Ai!
Mas recordo a minha visão da criatividade para serenar. Da desmistificação que defendo do processo criativo, confortável tanto num espírito atormentado e suicidário, como num indivíduo médio, aborrecido, sem existencialismos exagerados. Ou da convivência com a loucura, corrijo, da vivência paredes meias com ela, porque a sentimos na divisão ao lado quando, para criar, nos aventuramos a sair da realidade que conhecemos. Vejo a criatividade como um exercício de equilíbrio. Acompanhem-me, por favor! Imaginem que subimos para um muro. Do nosso lado está o mundo normal, aquilo que sabemos ser real. No outro é uma terra imaginada, de sonhos, de medos, de ideias. É lá que elas vivem, as ideias, e para podermos apanhar uma temos que nos inclinar. O problema é que as melhores estão mais afastadas do muro e obrigam-nos a inclinarmo-nos mais, a esticarmos o risco de cair ao limite da nossa coragem ou determinação. Sabemos, temos noção da queda eminente, ao tentar apanhar aquela (a ideia), tão longe, mas tão “perfeita”.
Permito-me olhar para o medo de crescer desta forma, porventura instável, mas pelo menos definida, de quem sabe que pode subir para um muro estreito, talvez mesmo colocar um pé do lado de lá, dos adultos, mas sem perder a magia dos momentos que nos trouxeram até aqui. Até porque, como nos ensina Peter Pan, “Cada vez que uma criança diz "Eu não acredito em fadas" em algum lugar uma pequenina fada cai morta no chão.” – É de evitar, não vos parece?

terça-feira, julho 12, 2011

A serenidade...


Ele já me tinha dito uma vez a má sorte que o perseguia. Acho até que já o contei. Enviuvou prematuramente. Imagino que da mulher certa, de quem devia acompanhá-lo em noites estreladas e mantas multicolores. Mas a sorte não quis assim. Levou-lhe a companheira para noites mais escuras porque já não existem. Ele, em hábito antigo, pouco pensado, voltou a casar. Os olhos tremem quando admite o azar que desde então o acompanha. Estranhei na altura, ver aparecerem rugas numa face normalmente amigável. A dor devia ser imensa. Não podia estar a exagerar. Mas guardei uma ínfima parte de ignorância, por não conhecer o objecto de tanta raiva. Até há uns dias atrás. Entrei no estabelecimento onde ele trabalha e logo notei uma tensão no ar. Normalmente ficamos um pouco à conversa. A diferença de idades esbate-se na vida de bairro e até numa espécie de amizade de vizinhos. Mas dessa vez não. Estava nervoso, apressando-me, como se quisesse afastar-me da tormenta. Percebi ser a sua mulher. E de ínfima, a ignorância desapareceu por completo. A mulher era do mais irritante que podemos reconhecer. Baixinha, com uma permanente de cabeleireiro de esquina, boca arqueda para baixo, em birra constante. Entendi a sua dor. Um dia ou dois depois voltei a encontrá-la, espalhando de novo o clima de incómodo que parecia ser a sua sombra. Gritava de forma abrutalhada com uma criança, filha de uma cliente. Fazia-lhe ameaças e dizia coisas de que nem me lembro. Depois sairam todos, deixando-nos sós. O ambiente voltou rapidamente ao normal. Parece que o espaço ficou mais claro e o oxigénio ganhou coragem para regressar. Os músculos da cara voltaram ao normal e olhou para mim com uma expressão de desistência e desânimo. Como quem pergunta – Que fazer? E sentou-se no degrau da entrada a brincar com um par de nozes. Eu sentei-me ao seu lado, mas em silêncio.
- Fui mesmo burro. Confessou.
- E agora não há nada a fazer.
Nessa altura não pude deixar de falar, em pergunta incerta.
- Mas porque é que não se separa dela? Você assim não pode continuar.
Nem respondeu. Eram demasiado óbvias as razões e os medos. Então, de forma natural e plena de sentido, perguntei-lhe.
- E se a matássemos?
Acho que parou de respirar por uns segundos, mas sem esgar de dúvida ou espanto. Olhou-me uma e duas vezes para confirmar que não se tratava de uma brincadeira. Não havia maldade e por isso não a reconheceu, enfim reconhecendo uma saída.
- E como é que o podíamos fazer? Perguntou com dificuldade em esconder o entusiasmo.
- Acho que com uma pancada na cabeça. Ainda tem aquela marreta que me emprestou no mês passado?
- Tenho, tenho. Está ali guardada na cave. E saiu a coxear, para regressar com o objecto.
Era uma marreta das antigas. Dificilmente se percebe a função para a qual foi construída. Era demasiado pesada, com pouco equilibrio e até pouco prática para bater em alguém.
- Não sei... Não sei se consigo. Importava-se de ser o vizinho?
- Claro que não. Se lhe segurar bem nos braços, não demora mais que um segundo.
Ele ficou a olhar para a parte de metal já em ferrugem, acariciando o seu futuro.
- Acha que a devemos limpar? Questionou.
- Agora não vale a pena. Depois é melhor, para não deixar memórias.
A tarde ia terminando e ficámos em silêncio, observando os que passavam. Entre pensamentos encontrámos a serenidade.

sexta-feira, junho 24, 2011

Em barras que ajudam...




Une fois... Quando chegou foi nas barras que reparou. Até aí eram apenas imaginadas, como os quadrados que lhes filtrariam o nascer do sol. Não pensou que fossem tão reais e ferrugentas, pedindo uma serra que as libertasse de serem prisão.

Tudo o que sentia era a dificuldade enorme em conseguir um sorriso de domingo. O tempo deixava-lhe opressões e uma angústia impossível de controlar. Todos os dias lutava com o tempo que nunca parecia abrandar. Já em pequeno ia sempre a correr para a escola e para todo o lado, por não aguentar o passar dos minutos que tentava encurtar, assim desejava, se acelerasse. Encore... conseguia um breve alívio, mas não total, por ter então que correr cada vez mais depressa e não resolver o problema, fechado nuns músculos das pernas cada vez maiores.

Tudo o que existia e demorava, mesmo em relatividade, o atormentava na espera e lhe oferecia desejos e planos para apressar a vida. Não conseguia apreciar qualquer momento pela precepção de que acabaria rapidamente. Achava-se em situações que eram felizes, mas em sofrimento profundo por senti-las fugir e avançar para o fim. Só havia pequenas exepções. Se algo era muito mau, parecia que demorava um pouco mais. Nos obrigatórios lanches da tia Rita, acalmava um pouquinho. A tortura de ouvir as mesmas três estórias, não entrava em conflito com a mania de apressar o tempo e não saber respeitá-lo. A missa era outro momento de relativa paz. Aborrecia-o profundamente o dogma e os gestos e deixava o impeto para correr sem tentativa de controlo. Para que tudo passasse depressa. Não eram perfeitas, mas ajudavam, estas exepções, a serenar o galopar que lhe cansava o músculo púrpura.

Até que um dia sonhou com a solução. Na secção de desporto do shopping havia uma loja de armas com um revólver que imitava em perfeição os de antigamente. O vendedor nem teve tempo de reagir. Antes de poder confirmar a licença que tinha forjado, já gritava com uma bala alojada numa das coxas. Ele chegou-se ao ouvido do pobre homem e segredou – Desculpe, sinceramente. Mas ajudou-me imenso.

A recusa em ter advogado, o constante despeite e uma inesperada tentativa de agressão do juiz, determinaram a setença. Vinte anos, com medidas de segurança especiais. Pediu para ser confinado a uma cela, sem direito a visitas e principalmente com a eliminação de relógios ou qualquer outro tipo de informação sobre o tempo. Já tarde, a horas que não podia identificar, deitou-se para trás na cama estreita alinhada com a janela de barras. E sentiu a ansiedade desaparecer.

sexta-feira, abril 10, 2009

O reencontro...

Pela primeira vez escrevo um post directamente, sem primeiro o preparar e reler antes de entregar a outros olhos. Já passaram quase quatro anos desde que comecei o Duende Feliz, por influência de tantos outros que me fizeram despertar curiosidade neste mundo. Foi então que comecei a escrever, primeiro para poucos, que depois foram aumentando e mudando, mas que me trouxeram uma nova experiência, a de não criar apenas para mim. De ter a noção das emoções que emprestava a outros, que comentavam o que aqui deixava e me faziam sentir acompanhado. De quase um ano de "pequenas" estórias nasceu a vontade e a sorte de cumprir um sonho de sempre e o Duende tomou forma de livro, deixando-me em sorriso eterno pela conquista.
Depois mudei um pouco o estilo. Abri um pouco mais do meu mundo real (embora sempre muito imaginado), mas continuei a ter muito prazer em escrever para mim e para vós e em partilhar este espaço ao mesmo tempo que recebia os vossos e encontrava conforto na certeza de que não estava sozinho.

Agora, passado todo este tempo, chegou a altura de parar. Porque não tenho sentido o apelo da escrita, porque a vida nos leva por diferentes caminhos, em que crescemos e mudamos e tentamos por fim nos encontrar. Deixo todos os textos publicados e acessíveis para quem tenha saudades e porque não se fecham partes da nossa vida, mesmo que em versão "virtual". Vou tentar ir espreitando os vossos espaços, mas sem prometer a regularidade de outros tempos. Se alguma vez voltarei? Não sei. Estou a tentar viver o presente o melhor que sei e que posso. Esforçando-me por ser melhor, por não errar tanto, por no fundo perceber tudo o que me aconteceu na vida e me fez a pessoa que sou hoje. Se o conseguir, talvez possa encontrar a paz que todos procuramos. Pelo menos vou tentar fazê-lo com todas as minhas forças.

Obrigado, pela companhia, pela amizade, pelos comentários, pela importância que todos tiveram para este espaço que tanto significou e ainda significa para mim. Agora vou "ali" tentar ser feliz. Desejo-vos o mesmo.

Beijos e abraços. Até logo...

domingo, dezembro 14, 2008

O Duende de Natal...


Nesta altura o Duende fica de novo menino. De olhar perdido no céu, como que esperando que as repostas apareçam em magia. Cansado de tentar e perseguir brilhozinhos, tenta descansar, embrulhado num soninho doce.
Pensa que não foi um ano fácil, de adulto mascarado, confuso com tantos labirintos. E imagina que neste Natal cumprirá o seu papel de verde ajudante, para os sorrisos ver nascer. Depois, já sereno, agradece em silêncio as palavras que lhe ofereceram e ajudaram a continuar.

Obrigado a todos. Festas felizes!

segunda-feira, novembro 10, 2008

Lágrimas...


Nunca vos dá vontade de chorar? Nos últimos tempos raramente choro. Nem tristeza, nem uma música, nem um filme. Pouco ou nada me faz saltar as lágrimas. E logo eu que era um chorão. Saía à minha mãe e desatava a chorar por pouco. Até tinha um pouco de vergonha por tal. Já o meu pai nunca chora. Acho que nunca aconteceu. E os ataques de choro? Vinte minutos em que abandonamos o estigma da masculinidade e nos perdemos em águas, sem conseguir parar de soluçar. Lembro-me um dia, em que estava muito nervoso e fui almoçar com uns amigos. Fartei-me de falar, compulsivamente e quando voltava para o emprego tive um ataque de choro a ouvir uma música de Michael Bolton no rádio. Já não me envergonho de contar estas coisas. Na altura tinha muitos motivos e culpas para chorar. Não me portava bem, qual criança traquina, mas com acessos de escrúpulos que infelizmente duravam pouco. Passaram mais uns anos até que me emendasse um pouco. Hoje apetecia-me chorar, mas sem os motivos para tal. Só porque precisava de aliviar os olhos verdes e inchados de há tanto tempo conterem o líquido. Mas não vai acontecer. E é isso que me assusta. Tenho medo, que quando rebentar, seja com demasiada força. Logo eu que colecciono medos...

quarta-feira, outubro 29, 2008

E porque não há coerência alguma na minha mente...


Porque me assusto com facilidade.
Porque tenho medo dos dias seguintes.
Porque de vez em quando me apaixono por músicas que não confessaria noutros tempos.
Porque é doce o sentir em tristeza consentida.
Porque amanhã vou ter de puxar novamente pelos sorrisos...

quinta-feira, outubro 23, 2008

João, o sexo e as strippers...

João era assim. Caminhava e corria de carro as ruas para ver as prostitutas de perna arqueada em hábito, mas sem nada querer com elas. Eram as strippers que o fascinavam. Mesmo as que são coxas, escondidas em semi-nudez descomprometida numa falsa e aparente facilidade.
Nunca bebia mais do que três Pizangs, verde escuro e demasiado doces. Não queria arriscar. Foi Noémia que naquele dia o abordou, emprestando-lhe o perfume que logo se agarrou à pele e por lá ficou até ao próximo banho. De pele pendurada e peito falso, esmagava esforço no pescoço do rapaz, segredando sotaques incompreensíveis.
No fim da noite rodava quatro vezes a chave de um lar a dois, fechado por medo e metáfora que insistia em por lá viver. Pensava por dois segundos no desejo de o poder fazer e depois desistia, esgotado.

P.S. – As casas de striptease são um marco no imaginário masculino. Interligadas em surdina com o mercado do sexo, deixaram na minha geração uma sensação de curioso afastamento pela educação que nos dizia, diminuindo, que não precisamos destas muletas. Hoje em dia dificilmente se admite a sua oportunidade ou fascínio. É coisa para os outros!!

segunda-feira, outubro 13, 2008

As velhotas e a catequese...


Estava parado, sentado num muro branco de manchas amareladas, com muitas partes velhas e rachas. Na rua iam passando as almas e as pessoas mais apressadas, fugindo das outras. Do outro lado da rua duas velhotas estavam sentadas num banco de jardim. Como o tempo passava devagar ao mesmo tempo que lhes sussurrava que um dia as vinha buscar, preferiam usar aparelhos auditivos desligados e fazer partidas de meninas. Quando se aproximava alguém lá começavam elas. A ideia era simples. Uma levantava-se e colocava-se de forma a que as pessoas tivessem de passar muito perto do banco. Na precisa altura em que o faziam, a outra fingia um ataque de tosse debilitado e estendia a bengala retorcida. A maior parte das vítimas caíam estateladas. Tinham um taxa de sucesso de mais de oitenta por cento.
Quis assustá-las por despeito, por ter tempo. Fui dar a volta ao quarteirão e comecei a caminhar na sua direcção. Coloquei ar despreocupado e esperei pela artimanha. Ao aproximar-me vi que mantinham as suas posições. Uma levantou-se e encostou-se ao candeeiro verde da rua deixando um espaço pequeno para eu passar. Sorri para dentro e avancei. Na altura que passei pela velhota que estava de pé só senti um perfume forte que não condizia com a sua idade. Pareceu-me também que me soprou na nuca. Arrepiado, desviei o olhar por uns momentos, mas para logo recuperar a atenção julgando-me já embrulhado na bengala. Mas não! A segunda velhota ficou quieta, talvez só com um esgar, quem sabe imaginado, de gozo e serenidade. Enquanto me afastava, forçaram-me a virar-me com a expressão quase cantada.
- Vai em paz rapaz. Mas não penses que percebeste. Disse a velhota sentada.
A outra ainda murmurou.
- Ele não percebeu.

P.S. – Andei muitos anos na catequese. Não me lembro de muito. Lembro-me de uma catequista que não era freira e tinha muito jeito. Lembro que tinha uma casa muito grande com um enorme terreno. Nós tínhamos catequese num anexo lá no fundo. Um dia o Pedro, que viria a ser actor sem grande sucesso, ficou com um pedaço de folha dentro do olho esquerdo. Devíamos ser quatro ou cinco de volta dele, com o globo ocular a ficar cada vez mais vermelho e fechado. Lá conseguimos tirá-lo. Mas a estória que recordo mais foi noutra ocasião. Nem sei quem era a catequista. E muito pouco consigo visualizar. Uns sofás bejes e uma rapariga que nem conhecíamos muito bem, eu e o meu irmão. O meu irmão gémeo vinha sempre comigo às aulas de catequese. Um dia, no final, veio ter comigo e confessou.
- Eu apalpei-a!
Ia desmaiando de susto. Apalpou-a? Quem? Como?
Pois é. O senhor meu irmão, que não devia ter mais que doze ou treze anos, durante a aula de catequese, resolveu fazer das suas. Não sei porque sinais ou impulsos distorcidos, começou a avançar com a mão pelo sofá até tocar na perna da rapariga. Depois, lá arranjou forma de colocá-la por baixo do seu rabiosque... e apalpou. A pobre rapariga não esboçou qualquer reacção. Nunca soubemos se por ter paralisado ou porque a química, a estranha química da catequese funcionou nos dois sentidos.

segunda-feira, setembro 22, 2008

A rapariga...


Nunca tinha visto uma cicatriz assim. Começava no meio da testa e descia até à ponta do nariz. Era profunda, mas recta sem distracções. Bem marcada em rosa púrpura, como que separando lados diferentes de uma só face. De um lado a verdade, simples, imaculada, espremendo o que se diz e pensa e às vezes magoa. A outra mais desconfiada, por vezes mentirosa, entoando ruídos e cegas perguntas.
Não podia deixá-la partir sem perguntar. Fui direito ao assunto.
- Como fizeste essa cicatriz?
Dois olhos enormes questionaram a minha petulância. Depois responderam.
- Um dia tropecei e mergulhei em direcção a um gradeamento. Pareceu uma eternidade. Não consegui decidir para que lado pender.
- Porquê?
- Eram diferentes os destinos que me esperavam. De um lado um velhinho parecia poder apanhar-me. No outro uma senhora gorda vendia fruta. Nem olhou para mim.
Pensei um pouco e continuei.
- Eu escolhia a senhora gorda. Mesmo não olhando, amparava melhor a queda.
- Eu escolhi cair para o lado do senhor.
- Então como fizeste a cicatriz?
- No último momento a vendedora de fruta gritou. Fui direita a um ferro aguçado.
Agora tinha que esperar um pouco até terminar. Mas lá perguntei.
- Arrependes-te de não ter decidido mais rápido.
Ela sorriu.
- Não me arrependo. Não estava bem certa do que fazer.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Ontem...

Queria amar...
Queria trazer ao espirito a lembrança da cor
Fixando plantas de chá num fumo que escorrega
Que me entorna contas e beliscões e amores imperfeitos.

Amarrei-me de Ulisses mascarado,
Para não mais ouvir e me sentir tentado
Querendo assumir um ar que roubava
Enquanto empurrava tudo o que era meu.

Saltei entre suspiros e choros, entre pés
Estranhando os cúmplices e a avidez
Armei de raiva e depois sono
Até que pudesse esperar outra vez.

terça-feira, setembro 16, 2008

Pushing daisies...


Existem sempre momentos e segredos e pequeninas sensações que nos põem de sorriso tolo e a sonhar, percebendo que na falta de genialidade na primeira pessoa, podemos sempre deliciarmo-nos com a dos aoutros. Assim é esta série. De uma sensibilidade linda e estranha, de protagonistas que não podendo tocar-se se enamoram com a maior pureza e verdade que já existiu. Mistura sonho com uma rapidez de enrendo que nos obriga a não tirar os olhos nem por um momento. E fico a sorrir de forma calma, como poucas coisas me fazem sentir.

segunda-feira, setembro 15, 2008

I hate mondays...


Vocês entendem-me, certo? Coragem!

quinta-feira, setembro 11, 2008

A certeza...


O mundo pode andar de pernas para o ar. Podem haver (e há) dias em que não me apetece levantar. Pode o trabalho ser desmotivante, perante a quase impossibilidade de se ganhar o Euromilhões e se mandar tudo à fava. Pode-se olhar para o interior de uma livraria e pensar – “Hoje em dia qualquer pessoa escreve um livro” – ameaçando o valor de uma conquista que me deu trabalho e emoção. Pode o acelerador de partículas na Suíça comprometer de forma trágico-cómica o futuro do planeta. Podem os Verões serem frios e sem fins de tarde com Melros a cantar o tempo ameno...

Mas encho-me de sorrisos e certezas. Afinal... a mercearia em frente a minha casa ainda vende nougat. É preciso mais?

P.S. – Porquê este video? Porque tem a banda sonora (e não só) que materializa de forma perfeita este pensamento!

quinta-feira, setembro 04, 2008

O rapaz bonito...


Tenho uma amiga que me confessou a sua estória mais secreta, passada no último Inverno. Pedi-lhe autorização para a contar aqui no blog, alterando os nomes verdadeiros. Aqui fica.

Mariana entrou à meia-noite em ponto. Era um dos mais antigos bares da pequena aldeia junto ao mar e de Inverno reunia as poucas pessoas que se aventuravam na noite húmida. Chegou perto do balcão e reparou nele de imediato. Era um rapaz muito bonito, de olhar claro e confiante e cabelo castanho muito curto. Sorriu quando a viu, mas afastou o olhar timidamente. Percebendo que teria de dar o primeiro passo foi ter com ele.
- Olá. O meu nome é Mariana.
- Boa noite. Eu sou o Pedro. Fico feliz por teres falado comigo.
Não estava habituada a abordagens tão directas e lá ficaram os dois corados em poucos segundos de silêncio e ansiedade.
Conversaram depois durante vinte minutos até que ela fez a pergunta que condicionaria tudo o resto.
- Então e onde trabalhas?
Ele nem hesitou na resposta firme e natural.
- Sou motorista.
Bebeu um golo da sua bebida antes de concretizar mais um pouco.
- Transporto animais vivos. Normalmente porcos.
Mariana não conseguiu responder logo. Queria muito falar. Dizer que não fazia mal, mas ao mesmo tempo sem dar muita importância, para que ele não percebesse o desconforto. Só conseguiu dizer.
- Que interessante. Mas só os transportas?
- Transporto, carrego, ajudo a descarregar. Faço de tudo um pouco.
Agora ela ficou em silêncio. Ele levantou-lhe o queixo com gentileza e falou calmamente.
- Não precisas ficar constrangida. Sei que não é a profissão mais sofisticada que existe, mas é o que faço. Também não te posso dizer que sou um intelectual rebelde, que trocou a faculdade por um ideal de vida mais simples. Sou apenas assim. Tenho apenas o décimo ano, gosto de ler moderadamente e colecciono miniaturas de porcos. Pouco original, eu sei.
A cabeça dela lutava contra o peso do preconceito, enquanto as pernas tremiam ao sentir o seu perfume suave. Estava paralisada. Então ele levantou-se e disse-lhe.
- Não fiques assim. Eu também me sinto desconfortável e ainda nem sei o que fazes.
- Sou advogada.
(Mariana é advogada, com um doutoramento completo e a meio caminho de terminar o seu pós-doutoramento)
- Pois então. Os porcos não costumam precisar de advogados. Disse Pedro a rir.
Mas ela não riu. Tinha olhos tristes e perdidos, brilhando em lágrimas que queriam saltar. Voltou-se de repente e saiu porta fora.

Esta não foi uma estória de final feliz, com um daqueles enredos cinematográficos. Mas não deixei de lhe perguntar se alguma vez se arrependeu de não ter ficado. Ela respondeu de cabeça baixa.
- Todas as noites. Todas as noites!

terça-feira, agosto 26, 2008

O aniversário...


Vou fazer trinta e seis anos no final do mês de Setembro! Não que me incomode o facto por si. Não me sinto com essa idade, não aparento essa idade e a cima de tudo não me importo com esse facto. Passam quase vinte anos dos meus dezasseis, ano inesquecível pela felicidade que representou e a paz que voltaria muito tempo a voltar a alcançar. Sei que vou ser um miúdo até morrer, um velhinho de espirito muito jovem, se lá chegar. Mas tenho pensado mais na idade do que é normal. Não foi um ano fácil. Em alguns aspectos fui-me abaixo e apesar das felicidades que me ajudaram a recuperar, senti literalmente no físico as dificuldades. Quando não estamos bem, não temos a disponibilidade do costume, e lá perdemos um pouco da forma. Comecei a notar isso em pequenos pormenores. Na perca de alguma massa muscular, no maior cansaço e vontade de dormir. No olhar desconfiado, quando uma rapariga do ginásio consegue fazer mais flexões que eu! Eu bem sei que elas andam por lá todos os dias e eu tenho uma profissão exigente que não me deixa tempo para tal. Bem sei que estou em melhor forma que a maioria dos meus amigos. Mas não deixo de ficar ligeiramente frustado. Mas por pouco tempo. Porque sei que no fundo não são estas coisas as mais importantes. E por ser apenas uma fase que vou ultrapassar. No início de Setembro volto a treinar com mais empenho. Tenho que nadar por causa das costas, mas de resto vou recuperar a forma antiga, tonificar músculos e espirito como se voltasse aos tais dezasseis. E no fundo esperar que o ano seja calmo, cheio de conquistas, com a maior delas materializada na serenidade que procuro e anseio. E quando a fase descendente das capacidades físicas chegar, quando não tiver dúvidas que já não consigo melhorar o meu corpo, aceitarei com normalidade essa inevitabilidade. E remeto para a mente o crescimento que poderei sempre desejar.

P.S. – Nas minhas férias aconteceu uma pitoresca e humilhante situação que me motivaram a escrever este texto. Eu tinha a mania de dar saltos mortais para dentro da piscina. Em terra firme não me atrevia, mas com a água não me safava mal. Tem sido assim todos os anos. Ora, apesar de não estar no meu melhor, resolvi tentar também este ano. Na primeira vez aterrei quase de costas, mas sem estragos de maior. Foi então que notei que a piscina tinha uma zona de rocha elevada que me permitiria saltar como se de um trampolim se tratasse. Não sei o que me passou pela cabeça. Pensei que a altura me daria tempo para rodar completamente e aterrar de pés. Mas não! Não só caí de costas, como a altura fez com que tal acontecesse com estrondo e uma dor profunda nas costas, que quase rasgavam com o chapão. A estupidez e o despeito impulsionaram-me para repetir o feito, com os mesmíssimos resultados. Acho que me ri, para não chorar de tantas dores. Para o ano há mais.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Decotes e a natação...


Será provavelmente um post carregado de símbolos de índole masculina e acusações de algum machismo, que talvez o registo de memórias possa atenuar. Então aqui vai (isto vai arruinar a minha reputação). Após uma casual análise, descontraída e desprovida de qualquer ciência, concluí que hoje em dia as raparigas usam mais soutien do que quando eu era adolescente. Naqueles tempos, porventura ainda em ressaca dos anos de emancipação, muitas mulheres optavam por não espartilhar o seu corpo, dando largas à liberdade e à imaginação do sexo oposto. E como é que eu sei isto? Porque o meu irmão era o maior especialista mundial em observar os seios alheios. A sua técnica era fabulosa. Esperava por instantes de oportunidade, aproveitando decotes e mangas cavas e, para minha grande inveja, vislumbrava o prémio materializado na visão tanto desejada. E eu ali ficava a ver passar intenções nada nobres e não conseguidas. Lembro-me de uma situação particularmente hilariante, vista à distância. Com catorze anos tive uma namorada com dezassete. Ela era alta, vistosa e parecia ainda mais velha, sendo até hoje um mistério o que ela viu em mim de tão tenra idade. Um dia, enquanto esperavamos pelo início da aula de ginástica, enquanto eu conversava com a minha namorada, o meu irmão e os amigos manobravam em nosso redor, com um único objectivo. Espreitar para dentro do seu decote. Mais tarde confessou-me que tiveram sucesso. Confesso eu que conseguiram mais do que eu que era o namorado.

P.S. – Após muitos anos a fazer desporto fui atacado por uma inesperada dor de costas que, depois de tentar os canais tradicionais, me levou ao conhecimento de um médico que me torce e aperta e faz estalar tudo o que é vértebra. É fantástico! Mas ao que parece o corpo tem memória e para que os músculos não forcem a coluna para maus caminhos, tenho que passar a fazer natação. Tal obrigação aborrece-me pela repetição de movimentos e a infindável contagem de azulejos, capazes de me desmoralizar. Um dia destes, andava eu literalmente a fazer piscinas, quando parei para descansar um pouco numa das pontas (note-se que eu nado nos horários livres sem direito a aulas). Senti então alguém bater-me no ombro para me chamar. Tirei os óculos e olhei para cima, para uma professora vestida de cor de laranja. Sem grandes avisos disparou.
- Tu não nadas nada!
Fiquei um pouco atordoado e só consegui responder.
- Não estou nos meus dias.