quarta-feira, fevereiro 19, 2014
A confissão...
quinta-feira, janeiro 02, 2014
O bosque...
De olhar lateral, torcendo o pescoço, já não consegui ver o rádio a cores. E deixei-me engolir pelos ramos e folhagens. É provável que não tenha ouvido mais nada…
domingo, outubro 20, 2013
Under the moon.
quinta-feira, agosto 08, 2013
Peter Pan e o outro lado do muro.
terça-feira, julho 12, 2011
A serenidade...

Ele já me tinha dito uma vez a má sorte que o perseguia. Acho até que já o contei. Enviuvou prematuramente. Imagino que da mulher certa, de quem devia acompanhá-lo em noites estreladas e mantas multicolores. Mas a sorte não quis assim. Levou-lhe a companheira para noites mais escuras porque já não existem. Ele, em hábito antigo, pouco pensado, voltou a casar. Os olhos tremem quando admite o azar que desde então o acompanha. Estranhei na altura, ver aparecerem rugas numa face normalmente amigável. A dor devia ser imensa. Não podia estar a exagerar. Mas guardei uma ínfima parte de ignorância, por não conhecer o objecto de tanta raiva. Até há uns dias atrás. Entrei no estabelecimento onde ele trabalha e logo notei uma tensão no ar. Normalmente ficamos um pouco à conversa. A diferença de idades esbate-se na vida de bairro e até numa espécie de amizade de vizinhos. Mas dessa vez não. Estava nervoso, apressando-me, como se quisesse afastar-me da tormenta. Percebi ser a sua mulher. E de ínfima, a ignorância desapareceu por completo. A mulher era do mais irritante que podemos reconhecer. Baixinha, com uma permanente de cabeleireiro de esquina, boca arqueda para baixo, em birra constante. Entendi a sua dor. Um dia ou dois depois voltei a encontrá-la, espalhando de novo o clima de incómodo que parecia ser a sua sombra. Gritava de forma abrutalhada com uma criança, filha de uma cliente. Fazia-lhe ameaças e dizia coisas de que nem me lembro. Depois sairam todos, deixando-nos sós. O ambiente voltou rapidamente ao normal. Parece que o espaço ficou mais claro e o oxigénio ganhou coragem para regressar. Os músculos da cara voltaram ao normal e olhou para mim com uma expressão de desistência e desânimo. Como quem pergunta – Que fazer? E sentou-se no degrau da entrada a brincar com um par de nozes. Eu sentei-me ao seu lado, mas em silêncio.
sexta-feira, junho 24, 2011
Em barras que ajudam...

Tudo o que sentia era a dificuldade enorme em conseguir um sorriso de domingo. O tempo deixava-lhe opressões e uma angústia impossível de controlar. Todos os dias lutava com o tempo que nunca parecia abrandar. Já em pequeno ia sempre a correr para a escola e para todo o lado, por não aguentar o passar dos minutos que tentava encurtar, assim desejava, se acelerasse. Encore... conseguia um breve alívio, mas não total, por ter então que correr cada vez mais depressa e não resolver o problema, fechado nuns músculos das pernas cada vez maiores.
Tudo o que existia e demorava, mesmo em relatividade, o atormentava na espera e lhe oferecia desejos e planos para apressar a vida. Não conseguia apreciar qualquer momento pela precepção de que acabaria rapidamente. Achava-se em situações que eram felizes, mas em sofrimento profundo por senti-las fugir e avançar para o fim. Só havia pequenas exepções. Se algo era muito mau, parecia que demorava um pouco mais. Nos obrigatórios lanches da tia Rita, acalmava um pouquinho. A tortura de ouvir as mesmas três estórias, não entrava em conflito com a mania de apressar o tempo e não saber respeitá-lo. A missa era outro momento de relativa paz. Aborrecia-o profundamente o dogma e os gestos e deixava o impeto para correr sem tentativa de controlo. Para que tudo passasse depressa. Não eram perfeitas, mas ajudavam, estas exepções, a serenar o galopar que lhe cansava o músculo púrpura.
Até que um dia sonhou com a solução. Na secção de desporto do shopping havia uma loja de armas com um revólver que imitava em perfeição os de antigamente. O vendedor nem teve tempo de reagir. Antes de poder confirmar a licença que tinha forjado, já gritava com uma bala alojada numa das coxas. Ele chegou-se ao ouvido do pobre homem e segredou – Desculpe, sinceramente. Mas ajudou-me imenso.
A recusa em ter advogado, o constante despeite e uma inesperada tentativa de agressão do juiz, determinaram a setença. Vinte anos, com medidas de segurança especiais. Pediu para ser confinado a uma cela, sem direito a visitas e principalmente com a eliminação de relógios ou qualquer outro tipo de informação sobre o tempo. Já tarde, a horas que não podia identificar, deitou-se para trás na cama estreita alinhada com a janela de barras. E sentiu a ansiedade desaparecer.
sexta-feira, abril 10, 2009
O reencontro...
Depois mudei um pouco o estilo. Abri um pouco mais do meu mundo real (embora sempre muito imaginado), mas continuei a ter muito prazer em escrever para mim e para vós e em partilhar este espaço ao mesmo tempo que recebia os vossos e encontrava conforto na certeza de que não estava sozinho.
Agora, passado todo este tempo, chegou a altura de parar. Porque não tenho sentido o apelo da escrita, porque a vida nos leva por diferentes caminhos, em que crescemos e mudamos e tentamos por fim nos encontrar. Deixo todos os textos publicados e acessíveis para quem tenha saudades e porque não se fecham partes da nossa vida, mesmo que em versão "virtual". Vou tentar ir espreitando os vossos espaços, mas sem prometer a regularidade de outros tempos. Se alguma vez voltarei? Não sei. Estou a tentar viver o presente o melhor que sei e que posso. Esforçando-me por ser melhor, por não errar tanto, por no fundo perceber tudo o que me aconteceu na vida e me fez a pessoa que sou hoje. Se o conseguir, talvez possa encontrar a paz que todos procuramos. Pelo menos vou tentar fazê-lo com todas as minhas forças.
Obrigado, pela companhia, pela amizade, pelos comentários, pela importância que todos tiveram para este espaço que tanto significou e ainda significa para mim. Agora vou "ali" tentar ser feliz. Desejo-vos o mesmo.
Beijos e abraços. Até logo...
domingo, dezembro 14, 2008
O Duende de Natal...

Pensa que não foi um ano fácil, de adulto mascarado, confuso com tantos labirintos. E imagina que neste Natal cumprirá o seu papel de verde ajudante, para os sorrisos ver nascer. Depois, já sereno, agradece em silêncio as palavras que lhe ofereceram e ajudaram a continuar.
Obrigado a todos. Festas felizes!
segunda-feira, novembro 10, 2008
Lágrimas...
quarta-feira, outubro 29, 2008
E porque não há coerência alguma na minha mente...
Porque me assusto com facilidade.
Porque tenho medo dos dias seguintes.
Porque de vez em quando me apaixono por músicas que não confessaria noutros tempos.
Porque é doce o sentir em tristeza consentida.
Porque amanhã vou ter de puxar novamente pelos sorrisos...
quinta-feira, outubro 23, 2008
João, o sexo e as strippers...
João era assim. Caminhava e corria de carro as ruas para ver as prostitutas de perna arqueada em hábito, mas sem nada querer com elas. Eram as strippers que o fascinavam. Mesmo as que são coxas, escondidas em semi-nudez descomprometida numa falsa e aparente facilidade.Nunca bebia mais do que três Pizangs, verde escuro e demasiado doces. Não queria arriscar. Foi Noémia que naquele dia o abordou, emprestando-lhe o perfume que logo se agarrou à pele e por lá ficou até ao próximo banho. De pele pendurada e peito falso, esmagava esforço no pescoço do rapaz, segredando sotaques incompreensíveis.
No fim da noite rodava quatro vezes a chave de um lar a dois, fechado por medo e metáfora que insistia em por lá viver. Pensava por dois segundos no desejo de o poder fazer e depois desistia, esgotado.
P.S. – As casas de striptease são um marco no imaginário masculino. Interligadas em surdina com o mercado do sexo, deixaram na minha geração uma sensação de curioso afastamento pela educação que nos dizia, diminuindo, que não precisamos destas muletas. Hoje em dia dificilmente se admite a sua oportunidade ou fascínio. É coisa para os outros!!
segunda-feira, outubro 13, 2008
As velhotas e a catequese...

Quis assustá-las por despeito, por ter tempo. Fui dar a volta ao quarteirão e comecei a caminhar na sua direcção. Coloquei ar despreocupado e esperei pela artimanha. Ao aproximar-me vi que mantinham as suas posições. Uma levantou-se e encostou-se ao candeeiro verde da rua deixando um espaço pequeno para eu passar. Sorri para dentro e avancei. Na altura que passei pela velhota que estava de pé só senti um perfume forte que não condizia com a sua idade. Pareceu-me também que me soprou na nuca. Arrepiado, desviei o olhar por uns momentos, mas para logo recuperar a atenção julgando-me já embrulhado na bengala. Mas não! A segunda velhota ficou quieta, talvez só com um esgar, quem sabe imaginado, de gozo e serenidade. Enquanto me afastava, forçaram-me a virar-me com a expressão quase cantada.
- Vai em paz rapaz. Mas não penses que percebeste. Disse a velhota sentada.
A outra ainda murmurou.
- Ele não percebeu.
P.S. – Andei muitos anos na catequese. Não me lembro de muito. Lembro-me de uma catequista que não era freira e tinha muito jeito. Lembro que tinha uma casa muito grande com um enorme terreno. Nós tínhamos catequese num anexo lá no fundo. Um dia o Pedro, que viria a ser actor sem grande sucesso, ficou com um pedaço de folha dentro do olho esquerdo. Devíamos ser quatro ou cinco de volta dele, com o globo ocular a ficar cada vez mais vermelho e fechado. Lá conseguimos tirá-lo. Mas a estória que recordo mais foi noutra ocasião. Nem sei quem era a catequista. E muito pouco consigo visualizar. Uns sofás bejes e uma rapariga que nem conhecíamos muito bem, eu e o meu irmão. O meu irmão gémeo vinha sempre comigo às aulas de catequese. Um dia, no final, veio ter comigo e confessou.
- Eu apalpei-a!
Ia desmaiando de susto. Apalpou-a? Quem? Como?
Pois é. O senhor meu irmão, que não devia ter mais que doze ou treze anos, durante a aula de catequese, resolveu fazer das suas. Não sei porque sinais ou impulsos distorcidos, começou a avançar com a mão pelo sofá até tocar na perna da rapariga. Depois, lá arranjou forma de colocá-la por baixo do seu rabiosque... e apalpou. A pobre rapariga não esboçou qualquer reacção. Nunca soubemos se por ter paralisado ou porque a química, a estranha química da catequese funcionou nos dois sentidos.
segunda-feira, setembro 22, 2008
A rapariga...

Não podia deixá-la partir sem perguntar. Fui direito ao assunto.
- Como fizeste essa cicatriz?
Dois olhos enormes questionaram a minha petulância. Depois responderam.
- Um dia tropecei e mergulhei em direcção a um gradeamento. Pareceu uma eternidade. Não consegui decidir para que lado pender.
- Porquê?
- Eram diferentes os destinos que me esperavam. De um lado um velhinho parecia poder apanhar-me. No outro uma senhora gorda vendia fruta. Nem olhou para mim.
Pensei um pouco e continuei.
- Eu escolhia a senhora gorda. Mesmo não olhando, amparava melhor a queda.
- Eu escolhi cair para o lado do senhor.
- Então como fizeste a cicatriz?
- No último momento a vendedora de fruta gritou. Fui direita a um ferro aguçado.
Agora tinha que esperar um pouco até terminar. Mas lá perguntei.
- Arrependes-te de não ter decidido mais rápido.
Ela sorriu.
- Não me arrependo. Não estava bem certa do que fazer.
quarta-feira, setembro 17, 2008
Ontem...
Queria trazer ao espirito a lembrança da cor
Fixando plantas de chá num fumo que escorrega
Que me entorna contas e beliscões e amores imperfeitos.
Amarrei-me de Ulisses mascarado,
Para não mais ouvir e me sentir tentado
Querendo assumir um ar que roubava
Enquanto empurrava tudo o que era meu.
Saltei entre suspiros e choros, entre pés
Estranhando os cúmplices e a avidez
Armei de raiva e depois sono
Até que pudesse esperar outra vez.
terça-feira, setembro 16, 2008
Pushing daisies...

segunda-feira, setembro 15, 2008
quinta-feira, setembro 11, 2008
A certeza...
O mundo pode andar de pernas para o ar. Podem haver (e há) dias em que não me apetece levantar. Pode o trabalho ser desmotivante, perante a quase impossibilidade de se ganhar o Euromilhões e se mandar tudo à fava. Pode-se olhar para o interior de uma livraria e pensar – “Hoje em dia qualquer pessoa escreve um livro” – ameaçando o valor de uma conquista que me deu trabalho e emoção. Pode o acelerador de partículas na Suíça comprometer de forma trágico-cómica o futuro do planeta. Podem os Verões serem frios e sem fins de tarde com Melros a cantar o tempo ameno...
Mas encho-me de sorrisos e certezas. Afinal... a mercearia em frente a minha casa ainda vende nougat. É preciso mais?
P.S. – Porquê este video? Porque tem a banda sonora (e não só) que materializa de forma perfeita este pensamento!
quinta-feira, setembro 04, 2008
O rapaz bonito...

Mariana entrou à meia-noite em ponto. Era um dos mais antigos bares da pequena aldeia junto ao mar e de Inverno reunia as poucas pessoas que se aventuravam na noite húmida. Chegou perto do balcão e reparou nele de imediato. Era um rapaz muito bonito, de olhar claro e confiante e cabelo castanho muito curto. Sorriu quando a viu, mas afastou o olhar timidamente. Percebendo que teria de dar o primeiro passo foi ter com ele.
- Olá. O meu nome é Mariana.
- Boa noite. Eu sou o Pedro. Fico feliz por teres falado comigo.
Não estava habituada a abordagens tão directas e lá ficaram os dois corados em poucos segundos de silêncio e ansiedade.
Conversaram depois durante vinte minutos até que ela fez a pergunta que condicionaria tudo o resto.
- Então e onde trabalhas?
Ele nem hesitou na resposta firme e natural.
- Sou motorista.
Bebeu um golo da sua bebida antes de concretizar mais um pouco.
- Transporto animais vivos. Normalmente porcos.
Mariana não conseguiu responder logo. Queria muito falar. Dizer que não fazia mal, mas ao mesmo tempo sem dar muita importância, para que ele não percebesse o desconforto. Só conseguiu dizer.
- Que interessante. Mas só os transportas?
- Transporto, carrego, ajudo a descarregar. Faço de tudo um pouco.
Agora ela ficou em silêncio. Ele levantou-lhe o queixo com gentileza e falou calmamente.
- Não precisas ficar constrangida. Sei que não é a profissão mais sofisticada que existe, mas é o que faço. Também não te posso dizer que sou um intelectual rebelde, que trocou a faculdade por um ideal de vida mais simples. Sou apenas assim. Tenho apenas o décimo ano, gosto de ler moderadamente e colecciono miniaturas de porcos. Pouco original, eu sei.
A cabeça dela lutava contra o peso do preconceito, enquanto as pernas tremiam ao sentir o seu perfume suave. Estava paralisada. Então ele levantou-se e disse-lhe.
- Não fiques assim. Eu também me sinto desconfortável e ainda nem sei o que fazes.
- Sou advogada.
(Mariana é advogada, com um doutoramento completo e a meio caminho de terminar o seu pós-doutoramento)
- Pois então. Os porcos não costumam precisar de advogados. Disse Pedro a rir.
Mas ela não riu. Tinha olhos tristes e perdidos, brilhando em lágrimas que queriam saltar. Voltou-se de repente e saiu porta fora.
Esta não foi uma estória de final feliz, com um daqueles enredos cinematográficos. Mas não deixei de lhe perguntar se alguma vez se arrependeu de não ter ficado. Ela respondeu de cabeça baixa.
- Todas as noites. Todas as noites!
terça-feira, agosto 26, 2008
O aniversário...

P.S. – Nas minhas férias aconteceu uma pitoresca e humilhante situação que me motivaram a escrever este texto. Eu tinha a mania de dar saltos mortais para dentro da piscina. Em terra firme não me atrevia, mas com a água não me safava mal. Tem sido assim todos os anos. Ora, apesar de não estar no meu melhor, resolvi tentar também este ano. Na primeira vez aterrei quase de costas, mas sem estragos de maior. Foi então que notei que a piscina tinha uma zona de rocha elevada que me permitiria saltar como se de um trampolim se tratasse. Não sei o que me passou pela cabeça. Pensei que a altura me daria tempo para rodar completamente e aterrar de pés. Mas não! Não só caí de costas, como a altura fez com que tal acontecesse com estrondo e uma dor profunda nas costas, que quase rasgavam com o chapão. A estupidez e o despeito impulsionaram-me para repetir o feito, com os mesmíssimos resultados. Acho que me ri, para não chorar de tantas dores. Para o ano há mais.
segunda-feira, agosto 11, 2008
Decotes e a natação...

P.S. – Após muitos anos a fazer desporto fui atacado por uma inesperada dor de costas que, depois de tentar os canais tradicionais, me levou ao conhecimento de um médico que me torce e aperta e faz estalar tudo o que é vértebra. É fantástico! Mas ao que parece o corpo tem memória e para que os músculos não forcem a coluna para maus caminhos, tenho que passar a fazer natação. Tal obrigação aborrece-me pela repetição de movimentos e a infindável contagem de azulejos, capazes de me desmoralizar. Um dia destes, andava eu literalmente a fazer piscinas, quando parei para descansar um pouco numa das pontas (note-se que eu nado nos horários livres sem direito a aulas). Senti então alguém bater-me no ombro para me chamar. Tirei os óculos e olhei para cima, para uma professora vestida de cor de laranja. Sem grandes avisos disparou.
- Tu não nadas nada!
Fiquei um pouco atordoado e só consegui responder.
- Não estou nos meus dias.
