quarta-feira, outubro 29, 2008
E porque não há coerência alguma na minha mente...
Porque me assusto com facilidade.
Porque tenho medo dos dias seguintes.
Porque de vez em quando me apaixono por músicas que não confessaria noutros tempos.
Porque é doce o sentir em tristeza consentida.
Porque amanhã vou ter de puxar novamente pelos sorrisos...
quinta-feira, outubro 23, 2008
João, o sexo e as strippers...
João era assim. Caminhava e corria de carro as ruas para ver as prostitutas de perna arqueada em hábito, mas sem nada querer com elas. Eram as strippers que o fascinavam. Mesmo as que são coxas, escondidas em semi-nudez descomprometida numa falsa e aparente facilidade.Nunca bebia mais do que três Pizangs, verde escuro e demasiado doces. Não queria arriscar. Foi Noémia que naquele dia o abordou, emprestando-lhe o perfume que logo se agarrou à pele e por lá ficou até ao próximo banho. De pele pendurada e peito falso, esmagava esforço no pescoço do rapaz, segredando sotaques incompreensíveis.
No fim da noite rodava quatro vezes a chave de um lar a dois, fechado por medo e metáfora que insistia em por lá viver. Pensava por dois segundos no desejo de o poder fazer e depois desistia, esgotado.
P.S. – As casas de striptease são um marco no imaginário masculino. Interligadas em surdina com o mercado do sexo, deixaram na minha geração uma sensação de curioso afastamento pela educação que nos dizia, diminuindo, que não precisamos destas muletas. Hoje em dia dificilmente se admite a sua oportunidade ou fascínio. É coisa para os outros!!
segunda-feira, outubro 13, 2008
As velhotas e a catequese...

Quis assustá-las por despeito, por ter tempo. Fui dar a volta ao quarteirão e comecei a caminhar na sua direcção. Coloquei ar despreocupado e esperei pela artimanha. Ao aproximar-me vi que mantinham as suas posições. Uma levantou-se e encostou-se ao candeeiro verde da rua deixando um espaço pequeno para eu passar. Sorri para dentro e avancei. Na altura que passei pela velhota que estava de pé só senti um perfume forte que não condizia com a sua idade. Pareceu-me também que me soprou na nuca. Arrepiado, desviei o olhar por uns momentos, mas para logo recuperar a atenção julgando-me já embrulhado na bengala. Mas não! A segunda velhota ficou quieta, talvez só com um esgar, quem sabe imaginado, de gozo e serenidade. Enquanto me afastava, forçaram-me a virar-me com a expressão quase cantada.
- Vai em paz rapaz. Mas não penses que percebeste. Disse a velhota sentada.
A outra ainda murmurou.
- Ele não percebeu.
P.S. – Andei muitos anos na catequese. Não me lembro de muito. Lembro-me de uma catequista que não era freira e tinha muito jeito. Lembro que tinha uma casa muito grande com um enorme terreno. Nós tínhamos catequese num anexo lá no fundo. Um dia o Pedro, que viria a ser actor sem grande sucesso, ficou com um pedaço de folha dentro do olho esquerdo. Devíamos ser quatro ou cinco de volta dele, com o globo ocular a ficar cada vez mais vermelho e fechado. Lá conseguimos tirá-lo. Mas a estória que recordo mais foi noutra ocasião. Nem sei quem era a catequista. E muito pouco consigo visualizar. Uns sofás bejes e uma rapariga que nem conhecíamos muito bem, eu e o meu irmão. O meu irmão gémeo vinha sempre comigo às aulas de catequese. Um dia, no final, veio ter comigo e confessou.
- Eu apalpei-a!
Ia desmaiando de susto. Apalpou-a? Quem? Como?
Pois é. O senhor meu irmão, que não devia ter mais que doze ou treze anos, durante a aula de catequese, resolveu fazer das suas. Não sei porque sinais ou impulsos distorcidos, começou a avançar com a mão pelo sofá até tocar na perna da rapariga. Depois, lá arranjou forma de colocá-la por baixo do seu rabiosque... e apalpou. A pobre rapariga não esboçou qualquer reacção. Nunca soubemos se por ter paralisado ou porque a química, a estranha química da catequese funcionou nos dois sentidos.
segunda-feira, setembro 22, 2008
A rapariga...

Não podia deixá-la partir sem perguntar. Fui direito ao assunto.
- Como fizeste essa cicatriz?
Dois olhos enormes questionaram a minha petulância. Depois responderam.
- Um dia tropecei e mergulhei em direcção a um gradeamento. Pareceu uma eternidade. Não consegui decidir para que lado pender.
- Porquê?
- Eram diferentes os destinos que me esperavam. De um lado um velhinho parecia poder apanhar-me. No outro uma senhora gorda vendia fruta. Nem olhou para mim.
Pensei um pouco e continuei.
- Eu escolhia a senhora gorda. Mesmo não olhando, amparava melhor a queda.
- Eu escolhi cair para o lado do senhor.
- Então como fizeste a cicatriz?
- No último momento a vendedora de fruta gritou. Fui direita a um ferro aguçado.
Agora tinha que esperar um pouco até terminar. Mas lá perguntei.
- Arrependes-te de não ter decidido mais rápido.
Ela sorriu.
- Não me arrependo. Não estava bem certa do que fazer.
quarta-feira, setembro 17, 2008
Ontem...
Queria trazer ao espirito a lembrança da cor
Fixando plantas de chá num fumo que escorrega
Que me entorna contas e beliscões e amores imperfeitos.
Amarrei-me de Ulisses mascarado,
Para não mais ouvir e me sentir tentado
Querendo assumir um ar que roubava
Enquanto empurrava tudo o que era meu.
Saltei entre suspiros e choros, entre pés
Estranhando os cúmplices e a avidez
Armei de raiva e depois sono
Até que pudesse esperar outra vez.
terça-feira, setembro 16, 2008
Pushing daisies...

segunda-feira, setembro 15, 2008
quinta-feira, setembro 11, 2008
A certeza...
O mundo pode andar de pernas para o ar. Podem haver (e há) dias em que não me apetece levantar. Pode o trabalho ser desmotivante, perante a quase impossibilidade de se ganhar o Euromilhões e se mandar tudo à fava. Pode-se olhar para o interior de uma livraria e pensar – “Hoje em dia qualquer pessoa escreve um livro” – ameaçando o valor de uma conquista que me deu trabalho e emoção. Pode o acelerador de partículas na Suíça comprometer de forma trágico-cómica o futuro do planeta. Podem os Verões serem frios e sem fins de tarde com Melros a cantar o tempo ameno...
Mas encho-me de sorrisos e certezas. Afinal... a mercearia em frente a minha casa ainda vende nougat. É preciso mais?
P.S. – Porquê este video? Porque tem a banda sonora (e não só) que materializa de forma perfeita este pensamento!
quinta-feira, setembro 04, 2008
O rapaz bonito...

Mariana entrou à meia-noite em ponto. Era um dos mais antigos bares da pequena aldeia junto ao mar e de Inverno reunia as poucas pessoas que se aventuravam na noite húmida. Chegou perto do balcão e reparou nele de imediato. Era um rapaz muito bonito, de olhar claro e confiante e cabelo castanho muito curto. Sorriu quando a viu, mas afastou o olhar timidamente. Percebendo que teria de dar o primeiro passo foi ter com ele.
- Olá. O meu nome é Mariana.
- Boa noite. Eu sou o Pedro. Fico feliz por teres falado comigo.
Não estava habituada a abordagens tão directas e lá ficaram os dois corados em poucos segundos de silêncio e ansiedade.
Conversaram depois durante vinte minutos até que ela fez a pergunta que condicionaria tudo o resto.
- Então e onde trabalhas?
Ele nem hesitou na resposta firme e natural.
- Sou motorista.
Bebeu um golo da sua bebida antes de concretizar mais um pouco.
- Transporto animais vivos. Normalmente porcos.
Mariana não conseguiu responder logo. Queria muito falar. Dizer que não fazia mal, mas ao mesmo tempo sem dar muita importância, para que ele não percebesse o desconforto. Só conseguiu dizer.
- Que interessante. Mas só os transportas?
- Transporto, carrego, ajudo a descarregar. Faço de tudo um pouco.
Agora ela ficou em silêncio. Ele levantou-lhe o queixo com gentileza e falou calmamente.
- Não precisas ficar constrangida. Sei que não é a profissão mais sofisticada que existe, mas é o que faço. Também não te posso dizer que sou um intelectual rebelde, que trocou a faculdade por um ideal de vida mais simples. Sou apenas assim. Tenho apenas o décimo ano, gosto de ler moderadamente e colecciono miniaturas de porcos. Pouco original, eu sei.
A cabeça dela lutava contra o peso do preconceito, enquanto as pernas tremiam ao sentir o seu perfume suave. Estava paralisada. Então ele levantou-se e disse-lhe.
- Não fiques assim. Eu também me sinto desconfortável e ainda nem sei o que fazes.
- Sou advogada.
(Mariana é advogada, com um doutoramento completo e a meio caminho de terminar o seu pós-doutoramento)
- Pois então. Os porcos não costumam precisar de advogados. Disse Pedro a rir.
Mas ela não riu. Tinha olhos tristes e perdidos, brilhando em lágrimas que queriam saltar. Voltou-se de repente e saiu porta fora.
Esta não foi uma estória de final feliz, com um daqueles enredos cinematográficos. Mas não deixei de lhe perguntar se alguma vez se arrependeu de não ter ficado. Ela respondeu de cabeça baixa.
- Todas as noites. Todas as noites!
terça-feira, agosto 26, 2008
O aniversário...

P.S. – Nas minhas férias aconteceu uma pitoresca e humilhante situação que me motivaram a escrever este texto. Eu tinha a mania de dar saltos mortais para dentro da piscina. Em terra firme não me atrevia, mas com a água não me safava mal. Tem sido assim todos os anos. Ora, apesar de não estar no meu melhor, resolvi tentar também este ano. Na primeira vez aterrei quase de costas, mas sem estragos de maior. Foi então que notei que a piscina tinha uma zona de rocha elevada que me permitiria saltar como se de um trampolim se tratasse. Não sei o que me passou pela cabeça. Pensei que a altura me daria tempo para rodar completamente e aterrar de pés. Mas não! Não só caí de costas, como a altura fez com que tal acontecesse com estrondo e uma dor profunda nas costas, que quase rasgavam com o chapão. A estupidez e o despeito impulsionaram-me para repetir o feito, com os mesmíssimos resultados. Acho que me ri, para não chorar de tantas dores. Para o ano há mais.
segunda-feira, agosto 11, 2008
Decotes e a natação...

P.S. – Após muitos anos a fazer desporto fui atacado por uma inesperada dor de costas que, depois de tentar os canais tradicionais, me levou ao conhecimento de um médico que me torce e aperta e faz estalar tudo o que é vértebra. É fantástico! Mas ao que parece o corpo tem memória e para que os músculos não forcem a coluna para maus caminhos, tenho que passar a fazer natação. Tal obrigação aborrece-me pela repetição de movimentos e a infindável contagem de azulejos, capazes de me desmoralizar. Um dia destes, andava eu literalmente a fazer piscinas, quando parei para descansar um pouco numa das pontas (note-se que eu nado nos horários livres sem direito a aulas). Senti então alguém bater-me no ombro para me chamar. Tirei os óculos e olhei para cima, para uma professora vestida de cor de laranja. Sem grandes avisos disparou.
- Tu não nadas nada!
Fiquei um pouco atordoado e só consegui responder.
- Não estou nos meus dias.
terça-feira, agosto 05, 2008
O odor a pão...

terça-feira, julho 29, 2008
A escola...

- Eu daqui vejo a minha escola!
Depois comeu mais um biscoito e não pensou mais no assunto. Simples não é?
quinta-feira, junho 26, 2008
O arco e flechas...

Ele levava cerca de cem metros de avanço que prudentemente diminui, para que o pudesse seguir em segurança mas sem o perder. Atravessou a estrada e subiu para a passagem aérea que aqui perto atravessa a linha do comboio. Deixei que fizesse a travessia, para então passar eu em passo de corrida para recuperar o atraso. No outro lado fica a mata de Benfica, na parte baixa de Monsanto. Percebi que era para lá que se dirigia. Conheço bem a zona pois costumava ir para lá correr e ganhei coragem para continuar. O desconhecido começou então a caminhar em grande velocidade atirando-se para dentro da mata. Fiquei parado por uns segundos sem saber o que fazer, ofegando entre o medo e a dúvida. Então, afastando o pânico mergulhei no meio das árvores para logo parar. Tentem correr num emaranhado de ramos com um breu que nos deixa sem saber para onde ir. A isso juntem a ideia de um louco que nos espera armado com um arco e flechas. Foi o suficiente para voltar para trás. Mais três horas na varanda não serviram para que visse mais algo de surpreendente. Mas acalmaram-me. Quem seria ele?
quarta-feira, junho 18, 2008
Cool depois dos trinta...

Na prática já lá vão trinta e cinco e devagarinho vou percebendo, embora combatendo, porque é que os mais velhos adquirem hábitos com menos “estilo”. Eu até tenho a certeza que não aparento a minha idade verdadeira, principalmente se nos ficarmos pela parte mental, onde ainda estou pelos dezasseis. Mas há sinais preocupantes. O pior é que agora muda tudo muito rápido e não é fácil acompanhar o passo. Por tal descobri a causa de os nossos pais e avós irem perdendo o seu sentido de coolness. Eles simplesmente ficam cansados e já não se importam. Mas vamos a alguns exemplos. O primeiro é a mania de caminhar com as mãos entrelaçadas atrás das costas. Adoro fazê-lo, mesmo sabendo que me dá pelo menos mais uns vinte anos. O meu pai caminha assim e boa parte dos homens da sua geração também. Sabem que mais? Gosto mesmo de fazê-lo. Depois vem a roupa. Para quem detesta esta ocupação é uma verdadeira tortura. Vemos uma peça que gostamos numa loja e decidimos passar lá no fim de semana para a comprar com mais calma. Não dá. Por essa altura já mudou tudo, às vezes até a posição dos balcões e estantes. A camisola ou t-shirt já passou de moda. Depois há a dificuldade de escolher um estilo. Eu gosto de andar confortável, meio street, mas sem exageros. Mas até que idade é que o posso fazer até que fique ridículo? A minha preferida é a questão das meias. De repente passou a ser muito má onda andar com calções e meias compridas ou mesmo médias. Têm que ser daquelas que nem se mostram, escondidas dentro do calçado. Nos ginásios é a ditadura total. Confesso que já comprei das curtinhas e achei super desconfortáveis, mas ainda tenho uma atitude meio rebelde de ser o único na sala que não está na moda. Que me importa. Também, devo ter mais de dez anos de diferença daquela gente toda. E o casaco pelo ombros. Um dia destes coloquei-o assim e uma menina de oito anos disse-me de imediato – Estás a pôr o casaco como os velhos! Até ela já sabia. Mas estava calor para o ter vestido e um pouco de frio para o levar no braço. Apenas isso. Por último a famosa situação dos lenços. Dos gigantes utilizados para “espirrar” rapé, os amigos de pano estão quase banidos. E eu, de renite alérgica sempre a espreitar, finco pé na tradição, ou andaria com vinte ou trinta embalagens dos pouco nobres quadrados de papel. Estou a ficar velho? Who cares? E sabem que mais? No meu leitor de Cds do carro está neste momento a banda sonora do Música no Coração. Edelweiss... lá, lá, lá... Afinal, se um dia espero ser avô, tenho que ir treinando, certo?
domingo, maio 25, 2008
Atrás da desconcertante coluna...

No terceiro dia não resisti. Saí do carro e fui até ela. Rodei três vezes em volta da coluna, enquanto me fugia rodopiando, com uma encharpe vermelha de rasto perfumado. Por lógica parei e abri os braços para amparar o seu encontro. Ela chocou com o meu peito num sorrisinho de quem tinha sido amparada.
- Quem és tu?
- Sou uma preta que se esconde atrás das colunas.
- Mas ficas aqui só por mim?
- Hoje sim. Não há mais alguém.
Agastei-me um pouco e reconheci um curvar de deferência que não pedi.
- Não esperes mais por mim, mulher.
- Desculpa, mas aqui vou ficar, até precisares.
segunda-feira, abril 21, 2008
O sonho...

Daí a pouco caminhávamos por aquelas escadas pequenas que uniam as ruelas e onde se continuavam a ouvir os sons de festa e de papelitos a esvoaçar.
Fomos dar a uma zona pobre e pouco cuidada perto de um edifício com a fachada em muito mau estado. Entrámos por um portão lateral que não se sabia bem onde ia dar e descobrimos outro prédio ainda mais sujo. Havia um grupo de homens de rua a dormir pelos cantos, escondendo-se do frio que não deveria existir. Nós descobrimos um colchão azul daqueles antigos, com pó e a superfície muito ondulada. Dos que se encontram nos sótãos onde ninguém vai. Depois não me recordo de mais nada...
P.S. – Conheço um senhor que fez algo delicioso estranho. Após muitos anos conseguiu realizar o sonho de ter uma casa no campo. Escolheu cuidadosamente o lugar. Não era completamente isolado pois tinha medo de precisar de ajuda a meio da noite e não ter quem lhe acudisse. Por isso escolheu uma casa perto de outras duas ou três, mas não mais do que isso para que pudesse disfrutar. À noite cumpria o mesmo hábito. Quando não havia Lua vinha cá para fora, respirava fundo algumas vezes e deitava-se numa esperguiçadeira com riscas roxas, brancas e azuis. Então olhava para cima e contemplava o maravilhoso céu estrelado. Sorria como tolo pela quantidade de pontinhos que cintilavam. Mas sabia que faltava algo. Mandou construir no meio do quintal uma parede. Apenas uma parede, com uma enorme janela de caixilhos brancos e vidros aos quadrados. Depois deitou-se de novo.
segunda-feira, abril 14, 2008
Os Cinco e o olhar de sangue...

P.S.- Esta semana lembrei-me também de uma colega que tive na escola secundária. Não me recordo do seu nome. Não era alguém que fizesse parte do meu círculo mais próximo de amigos. Mas recordo-me perfeitamente da sua cara. Era gordinha e alta, ou pelo menos acho que era. Mas foi outro pormenor que me ficou bem marcado na memória. Ela chorava sangue. A sério! Já não sei bem porquê, mas acho que tinha um problema nos olhos e por vezes lacrimejava pequenas gotinhas de sangue. Não eram lágrimas espessas e muito encarnadas. Nem sequer eram suficientes para que fizesse impressão. E de qualquer forma naquela idade as coisas eram bem mais simples.
sexta-feira, abril 04, 2008
My blueberry nights…
A rapariga invisível e as gémeas…

No meu emprego existe uma rapariga invisível. Não é muito bonita. Deixa-se estar num intervalo entre a beleza e normalidade que acaba por transformá-la numa pequena nuvem que luta pela visibilidade. É muito branca, agarrando-se uma pele desmaiada que nunca se destaca no mobiliário cor de laranja. E depois as roupas são também muito claras, misturando a sensação etérea com um piscar de olhos em que nos momentos intercalados não a conseguimos ver. O cabelo loiro coroa um véu de luz sem graça que nem encandeia. Passeia-se pelos corredores como que procurando por um olhar. Não gosto das rendas e dos pequenos bordados a que insiste em esgueirar-se.
P.S. – Há muitos anos conheci duas irmãs gémeas. Eram muito diferentes e originais na forma como apareciam. As roupas, compradas em segunda mão, lembravam hippies, com vestidos de Verão e botas da tropa. Tinham pouco dinheiro e assumiam de verdade o desejo de mudar a vida, enquanto escarneciam de Bon Jovi juntando meia dúzia de melodias num único medlley a um só tom. Depois fizeram algo de estranho. Separaram-se, em rotas de destinos diferentes. A de cabelo mais comprido encontrei em serão de ébrio com um abraço sentido, mas desadequado. Estava a estudar em Inglaterra e não escondia sorrisos. Pouco tempo depois encontrei a irmã, que continuava a ser a mais bonita. Disse-me que estava bem, que tinha encontrado o amor. Foi engraçado ouvi-la, enquanto segurava o copo com muitos graus e a noite ia despertando…
segunda-feira, março 10, 2008
1967 a preto e branco e a Catedral no horizonte...

Desde que me lembro sou fascinado pelos programas de música de antigamente. Em Portugal e no resto do mundo os cenários eram muito parecidos, com o glamour de um cinza muito certo e uma aura que já não se consegue sequer imitar. As orquestras de homens muito iguais e fatos bem alinhados, balançavam instrumentos de sopro que brilhavam em metal, desafiando os violinos numa harmonia de muitos tons. Foram uma vez mais os meus avós responsáveis por mais um imaginário que guardo com carinho. Sempre soube os nomes e as canções, ouvindo ainda pequenino as gravações de gira-discos e leitores de cassetes negro e prata. A tecnologia de hoje leva-me ao passado reconhecendo estórias, momentos e tantos nomes. Nas minhas pesquisas descobri um ano especial. Estávamos em 1967 e o preto e branco não era questionado na sua elegância. Comecei a reconhecer os intérpretes que desfilavam numa passadeira estreita terminando num pequeno palco. Artur Garcia cantava por uma porta secreta, enquanto Mª de Lurdes Resende afirmava não querer o mundo. O duo Ouro Negro embalava um livro sem fim, mas o vento mudava verdadeiramente para Eduardo Nascimento que acabaria por vencer o concurso. No meio de estrelas mais naturais fora da cor, descobri uma que só associava a outros tempos. Com apenas 22 anos surgia com a naturalidade segura de voz fantástica que antevia uma carreira de sonho. Vestia um paletó muito elegante numa altura em que os botões eram todos apertados. A camisa branca de longos colarinhos iluminava este homem muito alto e de beleza tradicional. O seu nome era Marco Paulo e foi só por azar que os anos 70 trouxeram o fim de uma época inesquecível. Onde as vozes eram rainhas e as melodias, quase sempre escritas por outros, vincavam o vinil negro e brilhante. Marco ainda apanhou o final dessa era. Ainda cantou com a Madalena Iglésias e a Simone, divas incontestáveis que competiam entre si. Depois teve que se adaptar a gostos diferentes e com menos encantamento. Mas mesmo assim construiu uma carreira grandiosa. Ele é da idade do meu pai que o conheceu na tropa e de quem lembra a voz, a simpatia e forma como a todos cativava. É mais do que consigo dizer de grande parte das pessoas que conheço.
Para os que não perceberam nada deste post, não se desculpem com a idade, pois também eu não era nascido. Mas a memória foi-me emprestada.
P.S. – Trabalho num 11º andar com uma longa vista sobre Lisboa. Não costumo olhar muito lá para fora, embrenhado nos afazeres que não me deixam mais tempo para observar. Na semana passada parei por um momento e olhei para o horizonte, para me espantar. Quase no final, cortando a linha final imaginária, erguia-se uma Catedral. Na verdade apenas conseguia ver a sua silhueta, mas não tenho dívidas do que vi. Naquela zona da cidade não existem estruturas ou edifícios com aquela altura e silhueta. Portanto, apesar do que me possam argumentar, era mesmo uma Catedral. Ali ficou durante todo o dia, por vezes mais escondida na neblina, que depois se espalhava esborratando a paisagem. De repente pareceu-me ainda maior, como que se as suas torres se esticassem em direcção ao céu em que quase tocavam. No dia seguinte continuava no mesmo local e será sempre a minha inspiração e o refúgio de dias demasiado normais.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Sessenta e cinco cêntimos e Tá Stop...
Achei sessenta e cinco cêntimos. Estavam num passeio perto do meu emprego. Primeiro vi uma moeda de cinquenta a brilhar e de princípio até pensei em não a apanhar. Sabe-se lá por onde andou. Mas depois considerei. Afinal os trocos que nos dão por aí também andam por mãos alheias e a vida está cara. Quando olhei melhor estavam mais três moedas de cinco cêntimos espalhadas em redor. Ainda olhei para a zona circundante, mas não havia mais nada. Lembrei-me do meu avô que passava a vida a olhar para o chão e fartava-se de encontrar coisas perdidas. Moedas, canetas e mil e uma outras surpresas. Uma vez até trouxe uma máquina fotográfica para casa. Contou que estava na rua quando passou um carro e a deixou cair. Era uma história estranha. Um truque ele me ensinou foi de olhar sempre para perto das portas dos carros, porque as pessoas quando saem deixam cair coisas dos bolsos. Uma vez encontrou uma caneta de ouro assim. Tinha sorte o meu avô. Eu tenho andado muito de cabeça no ar. Tenho que voltar a prestar mais atenção.
P.S. – Uma das muitas maravilhas do mundo das crianças é a forma prática como lidam com a realidade e estabelecem regras simples, para a mais difícil das situações. Um desses exemplos sobrevive há décadas e continua a ser uma forma fantástica de resolver problemas. Quando estão a brincar e de repente há algo que os incomoda, limitam-se a dizer uma simples, mas poderosa frase – Tá Stop! É fantástico. Duas pequenas palavras com tanto poder. Tá Stop, e tudo pára. De repente já não vale nada. Já não estão a brincar e quaisquer actos menos desejados ficam de imediato congelados. Não era bom que pudéssemos continuar a utilizar esta frase? O chefe vinha ter connosco para nos dar um trabalho aborrecido e nós apenas tínhamos de dizer – Tá Stop!
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
A palete e as três chinesas...

Tenho um carro demasiado caro para o que ganho e completamente desadequado à minha condição de rapaz com trinta e cinco anos. Uma das coisas que faz é travar electronicamente premindo-se para tal um simples botão. O problema é quando o computador se baralha. Então fico eu imobilizado até que ele se resolva a deixar-me prosseguir. Mesmo na minha frente estava uma loja dos chineses, velha, com um nome que nem sequer traduzem. Cá fora uma enorme palete reunia em sua volta três chinesas muito parecidas. Tinha um plástico grosso em volta e devia pesar muito, o que desesperava as raparigas orientais. Não percebia bem se riam ou choravam ao mesmo tempo que andavam depressa ao redor da palete, fazendo gestos e apontando para o interior da loja. Percebi que discutiam uma estratégia para tirar o volume do meio do passeio. Nessa altura passou uma senhora já idosa com dois sacos de supermercado. Aproximou-se delas e começaram a conversar. Depois trocou os sacos entre as duas mãos e seguir rua a fora. As chinesas explodiram a rir, debruçando-se sobre o plástico da palete ao mesmo tempo que simulavam bater-lhe. Uma delas correu para dentro da loja e voltou com uma tesoura que utilizou para cortar o invólucro. Rapidamente começaram a levar as caixas que continha para dentro, às três de cada vez. Como que satisfeito o meu carro lá desbloqueou o travão e pude seguir caminho.
P.S. – Quando tinha os meus doze anos tive uma professora de português e francês por quem todos os rapazes da turma tiveram uma paixão. Lembro-me que certa vez encenámos um diálogo em francês em que representei o papel de tentar seduzi-la. Noutra ocasião trouxe-nos os slides das férias em França, que projectou durante a aula. Por lapso esqueceu-se de tirar da máquina uma foto em que aparecia de fato de banho a sair de uma piscina. Foi um dos momentos altos da escola secundária. Agora que recordo, chego à conclusão que ela devia ter mais ou menos a idade que tenho hoje.
terça-feira, janeiro 22, 2008
A conversa...
miak - Houve um dia em que disseste para ti próprio? – Eu sou homossexual.
Fernando – Tu entras logo a matar! Não sei se foi assim uma coisa tão definida. Isto não se acorda um dia e damos um grito de rendição.
miak - Mas deve ter havido um momento em que te apercebeste. Em que reconheceste os sinais.
Fernando - No cinema talvez. Na vida real é diferente. É algo que vamos construindo desde muito cedo. Pelo menos comigo foi assim. É claro que pensamos sobre isso, que questionamos o porquê de sentirmos algo diferente do que nos ensinam e do que nos rodeia. Mas acho que tudo começou ainda eu não tinha uma capacidade de reflexão tão desenvolvida.
miak - Na escola sentias-te melhor perto dos rapazes?
Fernando - Acho que não. Tinha bons amigos nos rapazes e nas raparigas. Até tive uma namorada aos sete anos. Tinha canudos castanho claros e queria andar de mão dada. Mas acho que foi a única.
miak - Quando tiveste o teu primeiro namorado?
Fernando - Namorados só muito mais tarde. Mas aos doze tive uma enorme paixão por um colega da minha sala. Nem me passava pela cabeça contar-lhe.
miak - Então foi aí que percebeste?
Fernando - Eu não fiquei um dia assim. É um processo contínuo. Quando tinha idade para o questionar (se o quisesse fazer) já sentia o que sinto hoje. Mas não é o que me define como pessoa. Sou muito igual a toda a gente. Sabes isso porque já somos amigos há muitos anos. Tenho coisas que me caracterizam, defeitos, virtudes, manias... E só me apaixono por homens. Just that.
miak - Mas nunca te questionaste? Nunca te sentiste à parte?
Fernando- Neste país? Claro que sim! Muitas vezes. Somos praticamente obrigados a isso. Desde cedo que nos querem convencer que é uma doença. Que pode ser curado.
miak - Isso incomodava-te?
Fernando - Incomodava-me a ignorância e a estupidez. Mas nunca me senti doente. Nem a precisar de uma cura milagrosa. Aos quinze anos tinha um amigo que não sabia da minha opção e que desabafava comigo que tinha medo de ficar homossexual. Perguntava-se como seria se um dia descobrisse que gostava de homens e achava que seria insuportável. Era de morrer a rir.
miak - O que é que lhe dizias?
Fernando - Uma vez disse-lhe que se por algum acaso cósmico se tornasse homossexual, ia ser um processo indolor. Que se verdadeiramente gostasse de homens não ia achá-lo insuportável. Que ia tirar prazer disso.
miak - E ele?
Fernando - Ia morrendo. Quase que lhe saltavam os olhos. A homofobia era verdadeiramente assustadora no seu caso.
miak - Alguma vez lhe disseste?
Fernando - Ele viu-me uma vez com um namorado. Talvez tenha percebido. Não sei. Nunca mais falámos.
miak - É verdade que hoje em dia os homossexuais querem todos ser “o homem da relação”?
Fernando - Há de tudo. Também há heteros que batem nas mulheres. Mas admito que em determinados meios exista quem se assuma como forma última de excentricidade. E depois não vêm a relação como algo em que também têm de dar. Se vires bem não é muito diferente dos casamentos de antigamente ou até dos de hoje.
miak - Estás a falar da questão sexual?
Fernando - Também. A mulher era muitas vezes um veículo para se ter prazer. E logo elas que não eram preparadas para o dar ou ter. Era um mundo estranho. Connosco às vezes é parecido.
miak - Já te aconteceu?
Fernando- Já me deparei com pessoas assim, mas afasto-me de imediato. Mas é normal. Porque se há de querer estar numa relação com alguém que quer controlar. Nesta parte é tudo igual. Não é algo exclusivo das relações homossexuais.
miak - Gostavas que os casamentos fossem possíveis?
Fernando- Acho que sim. Mas não é o mais importante. Tornou-se num cavalo de batalha, por estar em causa uma instituição muito conservadora e de base religiosa. Acho que existem outras conquistas mais importantes.
miak - Quais?
Fernando- A principal é a das pessoas olharem para isto como algo normal. Sem prejudicarem e tratarem com diferença quem não fez nada de mal. Apenas isso. Também não preciso que andem por aí com cartazes a dizer que são a favor da homossexualidade. Não há nada para ser a favor.
miak - Qual é o teu maior desejo?
Fernando - Que um dia não exista nada para conversar sobre o assunto. Também não se discute se um homem ou uma mulher gostam mais de azul ou de amarelo. É assim e pronto.
miak - É verdade que existe um dispositivo electrónico que se implanta debaixo da pele e que serve para que os homossexuais se possam reconhecer?
Fernando - É mesmo parvo. Estavas doido por perguntar isso. É verdade, é! Compra-se em Amsterdão e existem vinte e três modelos diferentes. O mais caro também serve para identificar idiotas e pessoas que gostam de filmes da Meg Ryan.
miak - Obrigado pela conversa.
Fernando - De nada. Vá. Não é preciso ficarmos sentimentais.
miak - Queres que coloque alguma música, quando publicar isto no blog?
Fernando – Surpreende-me com um maravilhoso estereótipo.
miak - Está combinado.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
O queixume e as batatas...

Não quero parecer dramático em demasia. Afinal não sofro de um mal raro e que não seja preocupação de muitos outros. Mas preciso queixar-me um pouco. É o trabalho, sempre o trabalho. Costumo dizer que gosto do que faço, que tenho a sorte (também procurada) de fazer das poucas coisas que dentro de uma empresa ainda vão tendo alguma ligação à criatividade. Mas o que gosto é contido, pelas regras que restringem, pela opinião que nem sempre vinga, pelas demasiadas horas gastas e claro, pela retribuição insuficiente. Não quero fazer papel de coitadinho. Tenho bem a noção das dificuldades com que muitos lutam, até pelo mais básico. Mas desabafo na mesma, pela falta de adequação do esforço e qualidade do que faço, ao que isso representa no fim do mês. Cresci a pensar que se uma pessoa se esforçasse mesmo a sério, se dedicasse de alma e coração, sacrificando até um pouco do seu mundo pessoal, o resto aparecia naturalmente. Mas não. O esforço esbarra numa aleatoriedade sem rosto, desmentida apenas por mecanismos pouco claros e injustos.
Bem. Vou ter que lutar ainda mais. É que nem pensem que me param.
A esperança encontro-a nas ideias que vou tendo e que talvez algum dia se convertam em algo mais do que a satisfação intelectual. Essa pelo menos ninguém me tira.
P.S. – Na minha rua existe uma casa de frangos. Não se pesam. O preço é feito, desconfio, à medida do que vai na vontade do dono. Nada das mariquices dos hipermercados. Tem muito artigos expostos e uma extensa lista de grelhados, mas só vejo sair três produtos. Frangos, batatas fritas caseiras e pão de Mafra. Quase todos os dias vejo um vizinho meu a ir a este estabelecimento. Anda sempre com as mesmas calças, de um cor-de-rosa esbatido muito feio. Costuma estar a fumar na porta do seu prédio, com altivez desadequada à indumentária. Estranho é o que compra nos frangos. Um saco enorme da Habitat, cheio a rebentar com pacotes de batatas fritas. Mas porquê?
segunda-feira, janeiro 14, 2008
O fumo...

Reconheço e adoro esta nova modalidade tabaco free. Para depois ficam as análises complexas sobre um autoritarismo para o qual estou atento e também preocupado. Mas por agora deixem-me saborear por um momento a realidade. Não entendo o fumo na sua vertente saturada, queimada, irritando peles e olhares. Percebo sim o aroma, mas em espaço calmos, sem agredir companheiros e sorrisos. Subindo em espiral aleatória, como que desenhando letras a preto e branco. E afinal, quem não se preocupou durante anos, terá no presente dificuldade em se sentir discriminado.
No sábado à noite foi o exame final, em ambiente fechado com Jazz e conversa, estereótipos encontrados em média luz. Não vi ataques de ansiedade, nem tristezas, nem sequer um vái-vem constante para o ar mais livre e sem proibição. Vi conversa, boa disposição e uma sala onde respirámos música numa atmosfera límpida e sem odores... Sem fumo...
quarta-feira, janeiro 09, 2008
O machismo...

Enquanto crescemos vamo-nos tornando mais cerebrais e respeitadores do outro sexo, empurrados pelo que julgamos ser mais correcto. Mas no fundo não somos assim. No que as atitudes têm de mais básico e sem mácula de influência, a minha geração é, talvez irremediavelmente, muito machista. E a melhor parte, é que não temos a culpa. Anos consecutivos de observação fazem destas coisas. Sim, estou a falar dos nossos pais. Por muito que queiramos ser lógicos e dizer que os tempos são de igualdade, a verdade é que crescemos com um exemplo diferente. Teimamos em querer “ajudar” em casa (só a expressão já diz tudo), mas se conhecemos alguém que nos traz o jantar com um sorriso nem questionamos o status quo.
Conheço uma médica, já com décadas de prática que defende uma teoria simples. As mulheres quiseram tudo. Empregos, carreiras, poder, mas sem abdicar do resto. A senhora continua ter prioridade nas portas, as jóias naqueles dias e as flores, sempre as flores. E nós lá ficamos baralhados, sem referências nem norte, com crises de meia idade cada vez mais prematuras. Afinal qual é o nosso papel? Já não mandamos, nem sequer parece que o fazemos. Mas o problema é maior. As mulheres foram o esteio das famílias desde sempre, até agora. Mas para tal é preciso que estejam presentes. Que não cheguem já de noite a casa, com os filhos a serem criados pelas empregadas e as avós.
É claro que então aparecem as questões racionais. Não merecem elas ter as mesmas oportunidades? Sou obrigado a dizer que sim. Não devem os homens ter o mesmo dever de chegar cedo a casa e cuidar dos filhos. Tenho que acenar afirmativamente. Os casamentos dos nossos pais, de fórmulas tradicionais funcionaram? Consigo dar exemplos de alguns que estão a terminar ao fim de vinte e mesmo trinta anos.
Então qual é a solução? Não faço a mínima ideia!
Quanto ao machismo... critiquem livremente. Mas quem não o pratica, tem pelo menos a honesta liberdade de reconhecer a sua presença indelével.
domingo, janeiro 06, 2008
A mudança...
E se a lógica se invertesse? Se eu começasse a dividir o que de menos nobre me vai na cabeça? A primeira mudança é voltar ao meu antigo nome.
Não se acanhem nas criticas (e elogios?). Divirtam-se.
Britney...
Tenho pena da Britney Spears. Hospitalizada, à beira de perder o direito a visitar os filhos (cuja custódia já havia perdido). Que desgraça!
Ela é o tipo de mulher que se admira. Se me perguntassem há dez anos diria que não tem qualidade, que a sua “música” é apenas uma fórmula testada para cativar adolescentes americanos e idiotas. Mas depois dos trinta já não temos este tipo de inseguranças. Bem vistas bem as coisas ela entregava um produto com muita qualidade. Podemos criticar quem faz a felicidade de milhões? Dizer mal de quem é realmente competente no que faz, independentemente do que faz? Tenho pena da Britney... mas só um bocadinho.
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Um segredo...
Deixem-me partilhar um pedacinho de mim. Se não existisse este senhor o Duende não seria tão feliz. Se não conhecesse esta música as palavras não teriam nascido da mesma forma. Com versos emprestados, levou-me a uma magia que ainda hoje me arrepia. Queria ter mais tempo para a ela voltar. Para continuar a fugir dos demónios pela música e pela escrita. Mas o novo ano está a chegar…
Feliz 2008!!
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Está presa ao chão...
segunda-feira, agosto 06, 2007
Cuba 1965

Nunca fui dos que abracei a causa Cubana, enquanto ícone emprestado para quem não teve de lutar pela liberdade. A assunção de uma alma livre não obriga a que busquemos ideais de outras partes. Não coleccionei figuras de Che, nem advoguei um anti-imperialismo que não conheço. Tenho uma visão histórica, emocionalmente distante, que reconhece a necessidade de expulsar um Batista totalitário e que insistia numa ilha-bordel, estância privada para uma América de dinheiros fáceis, essa sim imperialista. Enquanto Fidel discursava, rodeado pela multidão em alegria pura, uma pomba branca desceu em em voo de paz e poisou no seu ombro verde tropa, símbolo do que este homem oferecia. Onde, desde então até hoje, se perderam os ideais, as causas e a liberdade, ainda está por explicar. O fio que separa uma incondicional defesa da Revolução, até ao perpetuar de poderes e interesses demasiado pessoais, há muito que se quebrou, deixando o povo, materialização opaca de todas as motivações, no limiar de uma enorme pobreza “heróica”.
De bordel americano, Cuba transformou-se em parte numa “casa de alterne” europeia, explorada no seu pitoresco e na alegada felicidade simples. Experimentem viver de senhas de compras e rações controladas, de ter casas, carros e estradas a cair de podre, de olhar para as necessidades mais básicas e compará-las, à beira do choro, com um rendimento ínfimo. Tentem viver num regime de rolhas e mordaças constantes, onde a democracia é uma ilusão, para quem não pode sequer sonhar em dizer (ou escrever) o que pensa sem risco de ir parar a uma prisão ou pior. E no meio de uma hipocrisia não menos imperial, aturo os que me dizem que adoraram visitar Cuba, nos seus costumes e tradições. Mas atenção, previnem, “tem que se ir antes de Fidel morrer”. Querem eles dizer que depois voltaremos a um jugo americano e a um desvirtuar insuportável da “verdade de uma ilha”. Claro! Não são eles que têm de ficar horas em filas para comprar comida ou esperar por um simples transporte. Tal não existe numa Europa confortável. E assim podem viajar duas semanas para Cuba, para verem como vivem os “tradicionalistas”. Melhor será chamá-los de pobres, que é o que são. Pobres, oprimidos e prisioneiros do senhor de barbas, por quem algum mundo civilizado até sente simpatia. As férias em Cuba assemelham-se a uma visita a um laboratório, com ratinhos brancos procurando queijo num labirinto onde tudo falta. E onde há bem pouco tempo o tal senhor barbudo ainda mandou fuzilar quem se atreveu a contrariá-lo.
Nem os estranhos exemplos dos sistemas de saúde e educação gratuitos atenuam ou sequer convencem. Perguntem-nos se preferimos esses benefícios em troca da liberdade. Se assim fosse, se não elegêssemos este bem como a maior conquista de um povo, o mês de Abril não se destacaria no calendário do nosso país.
Nunca fui um “revolucionário”. Por vezes intriguei-me porquê. Será fascista quem questiona os excessos de uma revolução? É complicado não se ser de esquerda e falar de liberdade, pela arrogância com que essa mesma esquerda se apropria das causas e das lutas, mascarando os exemplos (como o de Cuba) em que ela própria se tornou totalitária.
Para mim é fácil perceber que para lidar com Fidel, enquanto os anos não o fizerem, só com outro barbudo, mas um verdadeiro, dos que acreditam, que se mantêm fiéis. Mas isto sou apenas eu, que não sou revolucionário.
Por isso talvez um dia vá a Cuba, mas quando ali existir liberdade. E aos que temem pela perca da pureza e da tradição, que imaginem um lugar onde tanta beleza, cultura e genuína alegria, poderão crescer sem espartilhos. Imaginem por um momento…
Quanto ao ano de 1965, dois factos de destaque apareceram na minha pesquisa. É criado o Partido Comunista de Cuba e Che Guevara renuncia aos cargos no poder, para promover guerras de libertação no estrangeiro. De qualquer forma vou manter a t-shirt (sim, eu sei que é um pouco incoerente...).
quinta-feira, julho 12, 2007
Três estórias e palavrões…
- Tu, preta. Viste bem o que fizeste?
A senhora de cor ficou estática. Nem sabia o que responder. Quase de imediato soltou uma pequena lágrima humilhada, que devia estar quente, e caiu na alcatifa sem um único som.
A minha primeira reacção foi colocar os phones e esconder-me da situação. No meu emprego existem dezenas de mulheres da limpeza, que só encontro quando chego muito cedo. Umas cumprimentam-me por detrás de diferentes sotaques, enquanto outras desprezam presenças e o próprio ofício, que não mantêm por muito tempo.
Mas não consegui alhear-me. Sem perguntar a razão da gritaria fui direito à agressora e disse.
- Sabe. Você é uma puta!
Ela ainda balbuciou alguma coisa nas minhas costas, mas nem ouvi.
(…)
Na semana passada tive uma noite quase irreal. Uma amiga de há muito convidou-me para jantar em casa dela. Queria apresentar-me o namorado novo!
Não sei porque se chama “namorado novo”. Dá-lhe um carácter finito. É quase como se fosse carimbado.
Perguntei-lhe se podia levar uma amiga para equilibrar o ambiente, ao que me respondeu que sim. Perguntou-me inevitavelmente se era apenas uma amiga, mas depressa abandonou o sonho do jantarzinho de casais. Era mesmo “só” isso.
Chegámos três ou quatro minutos depois da hora e começamos a subir para o terceiro andar sem elevador. A Margarida ainda reclamou um pouco.
- Só tu é que me trazes para estas coisas.
Sorri sem ter uma frase que a consolasse. Apenas sorri.
Ao chegarmos bati levemente na madeira da porta, recebendo um estridente – Já vou!
A Raquel abriu a porta muito corada e a distribuir beijinhos. Aceitou os casacos e começou a dar ordens.
- Venham! Venham conhecer o João!
Ela foi direita à sala, sem perguntar ou fazer cerimónia. Percebia-se a ansiedade.
- Meninos, este é o meu amor. O João!
O meu coração ia saltando. O João era o João Miguel, meu colega de trabalho, com quem almoço pelo menos duas vezes por semana e, para meu pânico, casado há cinco anos e com uma filha de dois. Por impulso e estranha sintonia escolhemos a mesma táctica. Aceitámos a mentira para o resto da noite. Eu, de nó que ardia na garganta, fingi o melhor que pude e evitei que falássemos sobre o meu emprego.
Na única altura em que ficámos sós, quando elas foram à cozinha preparar o café, ele disse-me com olhos sem alma.
- Bem me saíste um grande cabrão. Que filha da puta de situação.
Enquanto recebia um abraço asqueroso de agradecimento, só consegui responder.
- É verdade. Que grande cabrão.
(…)
Ontem ao parar num sinal encarnado segui um hábito antigo. Olhar para o carro ao meu lado. Nele descobri uma rapariga que não era bonita nem feia. Olhou para mim de forma rápida e concentrou-se no espaço à sua frente.
Não resisti e olhei de novo, para me deparar com pormenor inesperado. Talvez por causa do cinto de segurança, a camisa que vestia tinha soltado os botões e descobria por completo um seio. Começaram a escorrer-me gotinhas nervosas antes que ganhasse coragem para me virar outra vez. O que devia fazer? Parar de olhar? Aproveitar e deixar que as hormonas controlassem a situação?
Da indecisão nasceu a mais bizarra das atitudes. Queria avisá-la.
Abri a janela e com um pequeno toque buzinei para a chamar. Ao meu sinal de que queria falar-lhe ela baixou o vidro e debruçou-se na minha direcção. Nessa altura a camisa abriu por completo mostrando ambos os seios. Dominei as tais hormonas e recusei olhar apesar de querer. Por certo que ela percebera.
Esperei uns segundos antes de levantar o olhar, para a encontrar sentada muito direita, com um sorriso envergonhado. Com um aceno de expressão agradeceu o meu gesto. O sinal ficou verde, mas não arrancámos de imediato. Então ela começou a avançar muito devagarinho. E contrariando a força que a puxava para diante ainda conseguiu gritar.
- Que merda de situação.
Pareceu-me que queria dizer algo mais.
quarta-feira, junho 27, 2007
Saiu...
É claro que nos rins ainda se alojam mais cinco, mas com um pouco de sorte por lá ficarão uns tempos para que descanse e daqui a uns meses, quando já não me lembrar tanto da tortura, talvez me dedique a fazer qualquer coisa em relação a elas. Por agora vou aproveitando esta bonança. A sensação de voltar a ter uma vida normal. De pensar e escrever algo que não tenhas as palavras pedra ou hospital incluídas. E afinal nem foram precisos “disparos” nem nada. A senhora pedra encontrou o seu caminho sozinha.
Obrigado pelas vossas melhoras e mensagens simpáticas. Estou curado!
quarta-feira, junho 06, 2007
A pedra e Deus no meio de nós...
Às quatro e meia da manhã, consegui finalmente estacionar o carro perto de casa, ainda meio zonzo de mais uma dose intravenosa de uma qualquer droga que não chegou a enrolar-me a língua. Ao caminhar reparei numa folha colada a um poste em madeira. Podia ler-se o seguinte – Deus chega amanhã. Durante todo o dia vai passear pela cidade, misturado com todos nós.
Nos dois parágrafos em baixo era explicado que Deus viria, em matéria, até nós e andaria pelas ruas como qualquer outra pessoa. Cabia-nos a capacidade de o reconhecer.
Contrariei o desejo de arrancar o papel, para que outros o pudessem ler, e fui dormir anestesiado.
No dia seguinte os químicos ainda produzem o seu efeito. As cores e cheiros são mais fortes, enquanto os sons e imagens se diluem e mesclam em névoas para decifrar.
Não fui trabalhar e comecei bem cedo a deambular pelas ruas. Preferia o bucólico dos sonhos, mas esquina após esquina iniciei a minha busca por Ele.
A primeira tentativa era até a mais óbvia. Um senhor que costuma estar a pintar almas numa rua estreita de comércio antiquado. Aproximei-me devagar e fiquei a ponderar. Ele tinha longas barbas brancas e um franzir de testa omnipotente, de quem percebe o que vamos dizer. Dirigi-lhe a palavra na esperança de que sorrisse e assumisse a sua condição. Houve sorriso, mas apenas de orgulho pela última pintura. O senhor de barbas não era Deus.
Não demorei a enfrentar o extremo. Porque haveria de ser um homem? O estereótipo foi criado por alguém, quando ninguém sabe...
No meio de uma pequena multidão vi a senhora negra de longas saias e ancas muito largas. Parecia-se com Deus. Dançava a troco de moedas demasiado escuras, enquanto as pilhas da telefonia cor de laranja ameaçavam fraquejar. A saia era verde com uma faixa amarelada e não parava de rodar. Poderia Deus dançar assim?
Nas horas seguintes enfiei-me dentro dos autocarros a saltar de cara em cara. Em cada olhar perguntava pela Sua presença, ao mesmo tempo que ia conhecendo muitas expressões.
Era inevitável. Foi o senhor de só uma perna que me prendeu a atenção. Nas muletas em madeira tinha desenhos a canivete e equilibrava com dificuldade um livro com as folhas presas por um cordel com ar resistente. Deviam ser nomes... de nós.
Sentei-me na paragem, mesmo ao seu lado. Não demorei a perguntar.
- O senhor tem dores?
Ele olhou para o espaço onde faltava o membro e encolheu os ombros.
- Só quando chove.
- Doem-lhe os ossos? Perguntei a medo.
Ele riu-se.
- Não. Mas não tenho mais mãos para o chapéu de chuva.
Era uma graça, que me arrancou um pequenino riso.
- Posso fazer-lhe mais uma pergunta.
- Claro que sim!
- O senhor é Deus?
Deixou que entrasse no azul gasto mas profundo dos seus olhos e devolveu-me uma questão.
- Tem tido dores?
- Sim. Neste último mês bastantes.
Suspirando acabou por concluir.
- Já tinha percebido.
quinta-feira, maio 17, 2007
Pretty Woman e o cálculo…
Porque lhe chamarão cálculo? É uma pedra, isso sim. Uma pedra que nasce num qualquer rim que a decide criar, para que um dia a expulse e envie em dolorosa viagem.
Eu sabia o que tinha. Apesar de um doce intervalo de três anos, a dor voltou. Felizmente não foi muito forte, mas suficiente para passar uma tarde entre senhoras de batas brancas e azuis. Elas agora espetam a agulha e depois deixam lá preso o tubinho, não vá ser preciso mais tarde. Uma dose certa de fármacos e a dor que passou a moínha, transformou-se num torpor que por pouco não me fazia dormir.
Os dias agora são de espera. Para que o senhor cálculo desça sozinho… quando lhe apetecer.
Aproveito este momento de maior fragilidade física para justificar o que não necessita de o ser. Ao ligar a televisão aparece-me o par inesperado, que gera empatias de igualdades. Júlia, a Roberts sorri e sonha com um cavaleiro que a salve do alto de uma torre imaginada. Seria do cálculo? Estaria a minha sensibilidade exponenciada pela antevisão e receio constante da dor? Acho que não. Apenas um desejo seguro de sorrir com pequenas tolices. E depois? Alguém tem problemas com isso? Humppff...
Que me importa. E se me irritam ainda me ponho a recitar os versos de uma antiga melodia. E não é que vou mesmo.
Eu era triste e sozinha,
jamais tinha amado ninguém,
só vivia para a dor…
Perdida em longo caminho,
sem mais ter encontrado alguém,
por quem sentisse amor.
Um dia depois de muito penar,
a tua voz me chamou infeliz.
Vi então a luz do teu doce olhar
e foi assim que eu comecei a ser feliz.
domingo, maio 13, 2007
O rapaz que não conseguia travar...
Logo ao levantar os calcanhares voaram com o branco dos lençóis da semana e a nuca explodiu numa esquina que apenas ali existia.
Na rua era muito pior. Quando tentava caminhar mais depressa começava logo a deslizar. Inclinava o corpo para um dos lados na esperança de conseguir pelo menos virar. Mas só parava de encontro a uma parede, cadeiras de esplanada ou a um secular fontanário. Para poder deslocar-me traçava caminhos rectos, como se planasse no espaço, à deriva na ausência de gravidade. De obstáculo em obstáculo, acumulando dores e nódoas muito negras lá ia avançado, em ricochetes estranhos que me desesperavam.
Quando parei ainda não tinha a certeza. Pensava em cada recanto onde batera. Em todas as arestas que, depois de me ferirem, me empurraram noutra direcção. No final de uma viagem de encontrões respirava fundo para analisar. Olhei em volta percebendo onde chegara, cheirando e sentindo o presente. Sentado de pernas cruzadas na melhor das posições, fiquei a fechar conclusões. Ainda vou lembrar os choques, talvez ainda escorregue numa qualquer noite em que o empedrado esteja muito molhado. Só com essa memória posso aprender a travar...
quarta-feira, abril 25, 2007
Noite em B(e)leza…
Connosco é diferente. A última oportunidade que tivemos foram os saudosos slows, agora quase esquecidos. Trancados em espaços reduzidos, em ambiente escurecido, balançavamos de um lado para o outro, ousando apertar devagarinho, encostar o rosto a quem enlaçava os braços em volta do nosso pescoço. Eram momentos de verdadeira magia e que largámos ao ver a idade adulta chegar, impondo regras e a falta de outras emoções.
E num qualquer dia... sem que o tivessemos pleneado, encontramos de novo a emoção de um abraço de dança. Reconhecemos o calor que nunca se afastou, apertamos e repetimos o balançar que afinal não esquecemos. Permitimos mesmo a liberdade prudente do tacto, procurando novos espaços e o sentir. Ao receber as mãos fechando-se nas nossas costas, sorrimos por tudo ainda existir...
Quando é que decidimos afastarmo-nos do toque? Porque passámos a ignorar a sua serenidade agitada, saltando como tolos, a poucos cêntimetros do que deviamos segurar?
Em que momento deixámos de perceber?
quarta-feira, abril 18, 2007
An affair to remember…

Desculpem-me que vos traga o passado uma vez mais. Não por viver virado para trás, mas porque a memória de sensações me encanta, ao reconhecer uma simplicidade mágica que se vai perdendo. Gostava que cada um de vós pudesse ver o filme que partilha o nome com este post – An affair to remember. Penso que apareceu em 1957, no auge da carreira de um incontornável Cary Grant, acompanhado pela lindíssima Deborah Kerr, talvez com uma beleza mais discreta que algumas das estrelas da altura, mas de uma intensidade serena que nos desarma por completo. Tenho ideia de o ter visto por mais que uma vez em criança, recordando o pormenor do encontro marcado para o último andar do Empire State Building.
Já perto da idade adulta vi-o novamente, numa noite de canal dois, então com outros olhos, outro entendimento, por fim o sentir de cada cena com a magia que delas nascia.
Mais tarde consegui finalmente encontrar o DVD e trazê-lo para casa, bem seguro contra o peito, ainda sem acreditar. Ontem por acaso, enquanto trocava de canais, encontrei-o já na fase final. E ali fiquei enamorado a ver, perdido em sorrisos.
Fico sempre fascinado pelos diálogos, aparentemente simples e no fundo tão cheios de emoções, por vezes sem serem faladas. Cada expressão, baixar de olhos, para depois seguirem com intenção, são oferecidos com uma cumplicidade e exemplo supremo de uma empatia a que só podemos aspirar. Há uns anos realizaram um remake que me recuso a ver, por respeito e fidelidade à obra original.
Gostava que me fizessem companhia nesta descoberta, sonhando com um amor assim...
domingo, abril 08, 2007
A foto...
Basta estar com atenção. Ou então sou eu! É comigo que os momentos mágicos continuam a acontecer. Em qualquer início de noite sereno, sinto que há imagens que nasceram apenas para mim. Esta foto foi tirada em Lisboa, perto de Sete Rios, enquanto conduzia. Só tive um segundo…
domingo, abril 01, 2007
Aconteceu numa sexta-feira…
Quando chegou a hora do almoço desci traquilamente para a rua. Enquanto caminhava para o restaurante fui ultrapassado por uma rapariga apressada. Ela continuou em passos rápidos mesmo na minha frente. Sem perceber imitei-lhe a velocidade e porque tinha os passos maiores fiquei mais perto dela.
De repente, como por se lembrar de alguma coisa, ela parou de andar. Apanhado desprevenido com a sua imobilização não consegui travar a tempo. Mas não choquei! Num último esforço tentei reduzir ao máximo o embate e acabei por me aconchegar nas suas costas. Senti-lhe o perfume forte ao mesmo tempo que respirava um cabelo cor de amêndoa. Tinha tentado esticar os braços para não a magoar, mas a cintura estreita conduzi-os para a frente, envolvendo-a num abraço involuntário.
Não podem ter passado mais que dois segundos, mas foram sentidos como uma eternidade. Depois ela voltou-se para mim, mas por estar muito próximo tocou com os lábios nos meus, suavemente, para então recuar um pequenino espaço. Consegui ver os olhos de uma cor indefinida e o rubor de face que partilhava comigo…
Finalmente articulei um pedido de desculpas, recebendo a mais estranha das respostas.
- Não faz mal. Acredita que não faz mesmo mal.
Então afastou-se caminhando devagar, enquanto eu fiquei parado no mesmo lugar. Difícil de acreditar foi um último olhar, quando se virou, como que para confirmar que eu existia.
Para quem se interrogue, não corri atrás dela… E sim, acho que estes momentos de magia podem acontecer na vida real. Este foi completo assim mesmo…
quarta-feira, março 28, 2007
Mais um dia…
Demorei anos a conseguir largar o fato e gravata. A convencer, sem ter que falar nisso, chefe após chefe, que a minha inteligência não depende daquele uniforme que me aperta. Aliás não seria estranho que tivesse dificuldade em pensar, com o pescoço apertado e o sangue com dificuldade em subir.
Mas aos poucos consegui. E agora só o visto em ocasiões especiais. Hoje foi uma delas e o dia virou-se para mim. A todos causei espanto. Aos homens uma expressão de surpresa, seguida de perto por uma tentativa falhada de fazer humor. Com as mulheres foi diferente. Começaram cedo os elogios e os piropos sucediam-se com fotos roubadas à mistura. Não sabia onde me esconder. Então fico melhor de fato? É frustante!
E o vencedor é…
segunda-feira, março 19, 2007
O carro antigo e um beijo…
Parecia-me que existia uma relação de partilha entre nós e as aventuras que vivemos nunca deixarão que o esqueça. Um dia partimos na maior delas todas, respondendo ao coração que ansiava pelo encontro. Ela era tão linda que parecia inatingível, cercada de olhares e desejos que me faziam recuar a uma condição de menino, que não se atreve a tentar.
Mas sem perceber, as palavras tinham chegado, mostrando e encantando e fazendo nascer um futuro pouco provável.
Depois de muito conduzir, parei numa estação, muito nervoso e esperei por um dos comboios da tarde. Os lugares comuns tornavam a cena ainda mais ansiosa, aguardando pela recordação de uns lábios que ofuscavam...
Ao chegar um sorriso, seguido de um abraço enrroscado. Depois um pedido em múrmurio.
- Vamos sair daqui.
O mesmo carro levou-nos para perto do mar, empurrados por uma brisa que ia falando coisas baixinho. Estacionei em frente das ondas e ali fiquei sem saber muito bem o que dizer. Então lembrei-me do que tinha planeado de forma tosca, uns dias antes. A vida devia ter banda sonora e fiel a este desejo tonto, levei comigo um discman e um CD previamente escolhido. A certa altura, tinha pensado, convidaria-a a ouvir “aquela” música e num momento de intensidade inigualável...
Bom... Perdido num beco sem aparente saída lembrei-me do CD que puxei para junto de mim. Ia a começar a falar da música quando ela olhou para mim de forma muito directa. Tirou-me o discman das mãos e atirou-o para o banco de trás... Depois segurou-me na cara de forma doce e beijou-me com paixão...
sábado, março 17, 2007
Se escrevesse...
Vou voar baixinho de mota e ver o mar, para ver se me acalmo...para que me acalme...
sexta-feira, março 16, 2007
O pequeno Tom...
Tinha pensado em fazer um post para uma das séries mais antigas de que me lembro. Uns bonecos animados lindos que se chamavam ‘Franjinhas e o Carrossel Mágico’. Mas para ser justo, a escrever tinha de ser sobre aquele que até hoje é de longe o meu preferido. Que revi vezes sem conta e cujo DVD não comprei porque a dobragem não é a original. Ao que parece, entre a RTP e mais alguém, houve quem se encarregasse de deixar perder talvez a melhor dobragem de todos os tempos. Ainda me lembro com orgulho de consegui imitar na perfeição o Joe Índio, vilão de enigmas e presença assustadora.
Os pés descalços, a pureza de uma infância vivida com intensidade, mas sem a consciência de que pudesse um dia acabar. A eterna visão de aventura perante os mais insignificants pormenores... O sentido da amizade sem porquês, confortável numa corrida junto ao rio ou no observar das estrelas, mordiscando uma palhinha.
Já quase adulto, durante a universidade, lembro que uma amiga me telefonava para avisar que estava a começar na televisão... Para que durante uns vinte minutos ficasse de olhos esbugalhados, sem me atrever a piscá-los e quantas vezes largando lágrimas de criança que se reconhece. Que saudades, pequeno Tom.
Elvis...
Estranho? Podia parecer, para um qualquer candidato a melómano e irritante pseudo intelectual. Mas não! Ouvida com atenção encaixa em perfeição...em alternativa...
quarta-feira, março 14, 2007
Pizza, lágrimas e risos…
A ansiedade começou ainda na escola, com os parabéns, o bolo, o desejo pedido debaixo da mesa, mordiscando a vela... em ritual que desconhecia.
No recreio as perguntas sucediam-se.
- Quando é que vamos? Quando começa a festa?
Depois lá se formou a fila, de vinte pequenitos, e felicidade antecipada, até à pizzaria. Cada um deles ia fazer a sua própria pizza, que depois comeria em alegria pura. Mas antes, descobriram o pequeno espaço de brincadeiras, com bolinhas às cores, colchões e túneis imaginados, como numa grande aventura, em que procuravam um tesouro.
Depressa a exitação ultrapassou a nossa compreensão, com risos largos, gritos, jogos de protecção e estratégia. Juntos rebolavam, caíam, puxavam uns pelos outros enquanto resolviam pequenos conflitos de maneira engraçada. De vez em quando chorava um, a Maria, o Manuel, a Inês, a Carolina várias vezes, alvo de dez boladas certeiras, nas suas próprias palavras confessadas em soluço. Até a aniversariante experimentaria o sal de uma lágrima, por uma vez mais fruto das tais bolas às cores. Depois voltavam a entrar, esquecendo os precalços, não se importando com a possibilidade de se magoarem novamente. Afinal a alegria era maior que tudo, visível nos cabelos transpirados, na vontade interminável de brincar.
terça-feira, março 13, 2007
Um dia tinha de acontecer...
Eu bem estranhei logo no momento em que comprei o bilhete. Estou habituado a ir ao cinema sem companhia, por fazê-lo de impulso, normalmente em tardes serenas, em que não tenho nada programado. Quando ia escolher o lugar, a senhora que o vendia interrompeu-me.
- É livre. Pode escolher o que quiser.
Como sei que aquelas salas têm lugares marcados, comecei a desconfiar. Depois, quando tive de abrir as portas e sentar-me sem se quer mostrar o bilhete a alguém, percebi que tinha chegado o momento que tanto aguardara. Estava só. Tinha a sala só para mim!
Existe um misto de excitação pela sensação de importância e de receio de ninguém se procupar com a qualidade da exibição do filme. Afinal era só um ali dentro.
Depois vamos-nos habituando a uma realidade nova e sorrimos pela oferta de duas horas de pura exclusividade. A fantasia do filme foi saindo do ecran, envolvendo um Duende Feliz, observando outros seres de magia.
Quem vive sozinho... quem se habitua a encontrar serenidade na solidão... descobre em pedacinhos, a singularidade e alegria destes momentos.
segunda-feira, março 12, 2007
O começo...
O outro, o dos catorze anos, foi diferente, de coração descontrolado, pulando. Cheguei a casa em extâse. O meu primeiro e “verdadeiro” beijo!
Ela era mais velha, com dezassete anos, aparentando mais de vinte, capaz de me fazer tremer as pernas e constantemente interrogar – Porquê eu? O que ela veria em mim?
Os meus colegas acotevelavam-se por um lugar perto dela, tentando espreitar para um decote um pouco mais largo. Não controlavam as hormonas que lhe nasciam e rebentavam na cara, sem disfarçar o descontrolo. E eu, sem que fizesse algo de especial, porque nem saberia como, era pela primeira vez amado.
Devo ter andado nas nuvens por um tempo, sentindo-me diferente de todos. Algum tempo mais tarde, como em muitas estórias de amor, algo impediria a nossa relação, de forma abrupta e triste. Mas antes os meus olhos brilharam verdes em cada momento que passámos juntos.
Um dia, eu e o meu irmão convidámos um conjunto de colegas para ir a nossa casa numa tarde sem aulas. Ela também foi, de vestido azul, segurando o meu braço para caminhar, como gostava de fazer. As luzes fecharam-se e a música começou. Demorou anos até que conseguisse ouvi-la sem sentir fortes arrepios de saudade...
domingo, março 04, 2007
Entre o fumo e ela...
Segundo alguns entendidos de então estaria a passar por uma experiência a que chamavam qualquer coisa de grande ciência como “apanhar uma moca com tabaco”.
Não consegui ir à escola e fui para casa, para ver se me passava. Devia ser a primeira vez que não ia a uma aula. Deitei-me no sofá da sala, verde escuro, depois de colocar um disco na aparelhagem. Era uma colectânea que ainda hoje tenho em casa dos meus pais, mas cujas músicas já não recordo bem. Sei que uma me tocou em especial porque desatei a chorar ao mesmo tempo que gritava uma jura de não voltar a fumar.
Melhorei aos poucos, até me sentir com forças para ir para a escola que ficava perto. Entrei numa aula já a meio, ainda meio ressacado e sem conseguir pensar bem. Antes de me sentar fui direito a ela, mais uma rapariga feia, mas por quem sentia uma atracção.
Baixei-me junto a ela e segredei uma pergunta.
- Queres andar comigo?
Estava ainda debaixo do efeito da minha “moca”, pois ao contrário não teria tido coragem para tanto. Ela quase caiu da cadeira, mas aceitou...
Não durou muito. Já não me lembro porquê, mas ainda recordo o seu nome. Vou lembrar-me sempre...

