
terça-feira, agosto 05, 2008
O odor a pão...

terça-feira, julho 29, 2008
A escola...

- Eu daqui vejo a minha escola!
Depois comeu mais um biscoito e não pensou mais no assunto. Simples não é?
quinta-feira, junho 26, 2008
O arco e flechas...

Ele levava cerca de cem metros de avanço que prudentemente diminui, para que o pudesse seguir em segurança mas sem o perder. Atravessou a estrada e subiu para a passagem aérea que aqui perto atravessa a linha do comboio. Deixei que fizesse a travessia, para então passar eu em passo de corrida para recuperar o atraso. No outro lado fica a mata de Benfica, na parte baixa de Monsanto. Percebi que era para lá que se dirigia. Conheço bem a zona pois costumava ir para lá correr e ganhei coragem para continuar. O desconhecido começou então a caminhar em grande velocidade atirando-se para dentro da mata. Fiquei parado por uns segundos sem saber o que fazer, ofegando entre o medo e a dúvida. Então, afastando o pânico mergulhei no meio das árvores para logo parar. Tentem correr num emaranhado de ramos com um breu que nos deixa sem saber para onde ir. A isso juntem a ideia de um louco que nos espera armado com um arco e flechas. Foi o suficiente para voltar para trás. Mais três horas na varanda não serviram para que visse mais algo de surpreendente. Mas acalmaram-me. Quem seria ele?
quarta-feira, junho 18, 2008
Cool depois dos trinta...

Na prática já lá vão trinta e cinco e devagarinho vou percebendo, embora combatendo, porque é que os mais velhos adquirem hábitos com menos “estilo”. Eu até tenho a certeza que não aparento a minha idade verdadeira, principalmente se nos ficarmos pela parte mental, onde ainda estou pelos dezasseis. Mas há sinais preocupantes. O pior é que agora muda tudo muito rápido e não é fácil acompanhar o passo. Por tal descobri a causa de os nossos pais e avós irem perdendo o seu sentido de coolness. Eles simplesmente ficam cansados e já não se importam. Mas vamos a alguns exemplos. O primeiro é a mania de caminhar com as mãos entrelaçadas atrás das costas. Adoro fazê-lo, mesmo sabendo que me dá pelo menos mais uns vinte anos. O meu pai caminha assim e boa parte dos homens da sua geração também. Sabem que mais? Gosto mesmo de fazê-lo. Depois vem a roupa. Para quem detesta esta ocupação é uma verdadeira tortura. Vemos uma peça que gostamos numa loja e decidimos passar lá no fim de semana para a comprar com mais calma. Não dá. Por essa altura já mudou tudo, às vezes até a posição dos balcões e estantes. A camisola ou t-shirt já passou de moda. Depois há a dificuldade de escolher um estilo. Eu gosto de andar confortável, meio street, mas sem exageros. Mas até que idade é que o posso fazer até que fique ridículo? A minha preferida é a questão das meias. De repente passou a ser muito má onda andar com calções e meias compridas ou mesmo médias. Têm que ser daquelas que nem se mostram, escondidas dentro do calçado. Nos ginásios é a ditadura total. Confesso que já comprei das curtinhas e achei super desconfortáveis, mas ainda tenho uma atitude meio rebelde de ser o único na sala que não está na moda. Que me importa. Também, devo ter mais de dez anos de diferença daquela gente toda. E o casaco pelo ombros. Um dia destes coloquei-o assim e uma menina de oito anos disse-me de imediato – Estás a pôr o casaco como os velhos! Até ela já sabia. Mas estava calor para o ter vestido e um pouco de frio para o levar no braço. Apenas isso. Por último a famosa situação dos lenços. Dos gigantes utilizados para “espirrar” rapé, os amigos de pano estão quase banidos. E eu, de renite alérgica sempre a espreitar, finco pé na tradição, ou andaria com vinte ou trinta embalagens dos pouco nobres quadrados de papel. Estou a ficar velho? Who cares? E sabem que mais? No meu leitor de Cds do carro está neste momento a banda sonora do Música no Coração. Edelweiss... lá, lá, lá... Afinal, se um dia espero ser avô, tenho que ir treinando, certo?
domingo, maio 25, 2008
Atrás da desconcertante coluna...

No terceiro dia não resisti. Saí do carro e fui até ela. Rodei três vezes em volta da coluna, enquanto me fugia rodopiando, com uma encharpe vermelha de rasto perfumado. Por lógica parei e abri os braços para amparar o seu encontro. Ela chocou com o meu peito num sorrisinho de quem tinha sido amparada.
- Quem és tu?
- Sou uma preta que se esconde atrás das colunas.
- Mas ficas aqui só por mim?
- Hoje sim. Não há mais alguém.
Agastei-me um pouco e reconheci um curvar de deferência que não pedi.
- Não esperes mais por mim, mulher.
- Desculpa, mas aqui vou ficar, até precisares.
segunda-feira, abril 21, 2008
O sonho...

Daí a pouco caminhávamos por aquelas escadas pequenas que uniam as ruelas e onde se continuavam a ouvir os sons de festa e de papelitos a esvoaçar.
Fomos dar a uma zona pobre e pouco cuidada perto de um edifício com a fachada em muito mau estado. Entrámos por um portão lateral que não se sabia bem onde ia dar e descobrimos outro prédio ainda mais sujo. Havia um grupo de homens de rua a dormir pelos cantos, escondendo-se do frio que não deveria existir. Nós descobrimos um colchão azul daqueles antigos, com pó e a superfície muito ondulada. Dos que se encontram nos sótãos onde ninguém vai. Depois não me recordo de mais nada...
P.S. – Conheço um senhor que fez algo delicioso estranho. Após muitos anos conseguiu realizar o sonho de ter uma casa no campo. Escolheu cuidadosamente o lugar. Não era completamente isolado pois tinha medo de precisar de ajuda a meio da noite e não ter quem lhe acudisse. Por isso escolheu uma casa perto de outras duas ou três, mas não mais do que isso para que pudesse disfrutar. À noite cumpria o mesmo hábito. Quando não havia Lua vinha cá para fora, respirava fundo algumas vezes e deitava-se numa esperguiçadeira com riscas roxas, brancas e azuis. Então olhava para cima e contemplava o maravilhoso céu estrelado. Sorria como tolo pela quantidade de pontinhos que cintilavam. Mas sabia que faltava algo. Mandou construir no meio do quintal uma parede. Apenas uma parede, com uma enorme janela de caixilhos brancos e vidros aos quadrados. Depois deitou-se de novo.
segunda-feira, abril 14, 2008
Os Cinco e o olhar de sangue...

P.S.- Esta semana lembrei-me também de uma colega que tive na escola secundária. Não me recordo do seu nome. Não era alguém que fizesse parte do meu círculo mais próximo de amigos. Mas recordo-me perfeitamente da sua cara. Era gordinha e alta, ou pelo menos acho que era. Mas foi outro pormenor que me ficou bem marcado na memória. Ela chorava sangue. A sério! Já não sei bem porquê, mas acho que tinha um problema nos olhos e por vezes lacrimejava pequenas gotinhas de sangue. Não eram lágrimas espessas e muito encarnadas. Nem sequer eram suficientes para que fizesse impressão. E de qualquer forma naquela idade as coisas eram bem mais simples.
sexta-feira, abril 04, 2008
My blueberry nights…
A rapariga invisível e as gémeas…

No meu emprego existe uma rapariga invisível. Não é muito bonita. Deixa-se estar num intervalo entre a beleza e normalidade que acaba por transformá-la numa pequena nuvem que luta pela visibilidade. É muito branca, agarrando-se uma pele desmaiada que nunca se destaca no mobiliário cor de laranja. E depois as roupas são também muito claras, misturando a sensação etérea com um piscar de olhos em que nos momentos intercalados não a conseguimos ver. O cabelo loiro coroa um véu de luz sem graça que nem encandeia. Passeia-se pelos corredores como que procurando por um olhar. Não gosto das rendas e dos pequenos bordados a que insiste em esgueirar-se.
P.S. – Há muitos anos conheci duas irmãs gémeas. Eram muito diferentes e originais na forma como apareciam. As roupas, compradas em segunda mão, lembravam hippies, com vestidos de Verão e botas da tropa. Tinham pouco dinheiro e assumiam de verdade o desejo de mudar a vida, enquanto escarneciam de Bon Jovi juntando meia dúzia de melodias num único medlley a um só tom. Depois fizeram algo de estranho. Separaram-se, em rotas de destinos diferentes. A de cabelo mais comprido encontrei em serão de ébrio com um abraço sentido, mas desadequado. Estava a estudar em Inglaterra e não escondia sorrisos. Pouco tempo depois encontrei a irmã, que continuava a ser a mais bonita. Disse-me que estava bem, que tinha encontrado o amor. Foi engraçado ouvi-la, enquanto segurava o copo com muitos graus e a noite ia despertando…
segunda-feira, março 10, 2008
1967 a preto e branco e a Catedral no horizonte...

Desde que me lembro sou fascinado pelos programas de música de antigamente. Em Portugal e no resto do mundo os cenários eram muito parecidos, com o glamour de um cinza muito certo e uma aura que já não se consegue sequer imitar. As orquestras de homens muito iguais e fatos bem alinhados, balançavam instrumentos de sopro que brilhavam em metal, desafiando os violinos numa harmonia de muitos tons. Foram uma vez mais os meus avós responsáveis por mais um imaginário que guardo com carinho. Sempre soube os nomes e as canções, ouvindo ainda pequenino as gravações de gira-discos e leitores de cassetes negro e prata. A tecnologia de hoje leva-me ao passado reconhecendo estórias, momentos e tantos nomes. Nas minhas pesquisas descobri um ano especial. Estávamos em 1967 e o preto e branco não era questionado na sua elegância. Comecei a reconhecer os intérpretes que desfilavam numa passadeira estreita terminando num pequeno palco. Artur Garcia cantava por uma porta secreta, enquanto Mª de Lurdes Resende afirmava não querer o mundo. O duo Ouro Negro embalava um livro sem fim, mas o vento mudava verdadeiramente para Eduardo Nascimento que acabaria por vencer o concurso. No meio de estrelas mais naturais fora da cor, descobri uma que só associava a outros tempos. Com apenas 22 anos surgia com a naturalidade segura de voz fantástica que antevia uma carreira de sonho. Vestia um paletó muito elegante numa altura em que os botões eram todos apertados. A camisa branca de longos colarinhos iluminava este homem muito alto e de beleza tradicional. O seu nome era Marco Paulo e foi só por azar que os anos 70 trouxeram o fim de uma época inesquecível. Onde as vozes eram rainhas e as melodias, quase sempre escritas por outros, vincavam o vinil negro e brilhante. Marco ainda apanhou o final dessa era. Ainda cantou com a Madalena Iglésias e a Simone, divas incontestáveis que competiam entre si. Depois teve que se adaptar a gostos diferentes e com menos encantamento. Mas mesmo assim construiu uma carreira grandiosa. Ele é da idade do meu pai que o conheceu na tropa e de quem lembra a voz, a simpatia e forma como a todos cativava. É mais do que consigo dizer de grande parte das pessoas que conheço.
Para os que não perceberam nada deste post, não se desculpem com a idade, pois também eu não era nascido. Mas a memória foi-me emprestada.
P.S. – Trabalho num 11º andar com uma longa vista sobre Lisboa. Não costumo olhar muito lá para fora, embrenhado nos afazeres que não me deixam mais tempo para observar. Na semana passada parei por um momento e olhei para o horizonte, para me espantar. Quase no final, cortando a linha final imaginária, erguia-se uma Catedral. Na verdade apenas conseguia ver a sua silhueta, mas não tenho dívidas do que vi. Naquela zona da cidade não existem estruturas ou edifícios com aquela altura e silhueta. Portanto, apesar do que me possam argumentar, era mesmo uma Catedral. Ali ficou durante todo o dia, por vezes mais escondida na neblina, que depois se espalhava esborratando a paisagem. De repente pareceu-me ainda maior, como que se as suas torres se esticassem em direcção ao céu em que quase tocavam. No dia seguinte continuava no mesmo local e será sempre a minha inspiração e o refúgio de dias demasiado normais.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Sessenta e cinco cêntimos e Tá Stop...
Achei sessenta e cinco cêntimos. Estavam num passeio perto do meu emprego. Primeiro vi uma moeda de cinquenta a brilhar e de princípio até pensei em não a apanhar. Sabe-se lá por onde andou. Mas depois considerei. Afinal os trocos que nos dão por aí também andam por mãos alheias e a vida está cara. Quando olhei melhor estavam mais três moedas de cinco cêntimos espalhadas em redor. Ainda olhei para a zona circundante, mas não havia mais nada. Lembrei-me do meu avô que passava a vida a olhar para o chão e fartava-se de encontrar coisas perdidas. Moedas, canetas e mil e uma outras surpresas. Uma vez até trouxe uma máquina fotográfica para casa. Contou que estava na rua quando passou um carro e a deixou cair. Era uma história estranha. Um truque ele me ensinou foi de olhar sempre para perto das portas dos carros, porque as pessoas quando saem deixam cair coisas dos bolsos. Uma vez encontrou uma caneta de ouro assim. Tinha sorte o meu avô. Eu tenho andado muito de cabeça no ar. Tenho que voltar a prestar mais atenção.
P.S. – Uma das muitas maravilhas do mundo das crianças é a forma prática como lidam com a realidade e estabelecem regras simples, para a mais difícil das situações. Um desses exemplos sobrevive há décadas e continua a ser uma forma fantástica de resolver problemas. Quando estão a brincar e de repente há algo que os incomoda, limitam-se a dizer uma simples, mas poderosa frase – Tá Stop! É fantástico. Duas pequenas palavras com tanto poder. Tá Stop, e tudo pára. De repente já não vale nada. Já não estão a brincar e quaisquer actos menos desejados ficam de imediato congelados. Não era bom que pudéssemos continuar a utilizar esta frase? O chefe vinha ter connosco para nos dar um trabalho aborrecido e nós apenas tínhamos de dizer – Tá Stop!
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
A palete e as três chinesas...

Tenho um carro demasiado caro para o que ganho e completamente desadequado à minha condição de rapaz com trinta e cinco anos. Uma das coisas que faz é travar electronicamente premindo-se para tal um simples botão. O problema é quando o computador se baralha. Então fico eu imobilizado até que ele se resolva a deixar-me prosseguir. Mesmo na minha frente estava uma loja dos chineses, velha, com um nome que nem sequer traduzem. Cá fora uma enorme palete reunia em sua volta três chinesas muito parecidas. Tinha um plástico grosso em volta e devia pesar muito, o que desesperava as raparigas orientais. Não percebia bem se riam ou choravam ao mesmo tempo que andavam depressa ao redor da palete, fazendo gestos e apontando para o interior da loja. Percebi que discutiam uma estratégia para tirar o volume do meio do passeio. Nessa altura passou uma senhora já idosa com dois sacos de supermercado. Aproximou-se delas e começaram a conversar. Depois trocou os sacos entre as duas mãos e seguir rua a fora. As chinesas explodiram a rir, debruçando-se sobre o plástico da palete ao mesmo tempo que simulavam bater-lhe. Uma delas correu para dentro da loja e voltou com uma tesoura que utilizou para cortar o invólucro. Rapidamente começaram a levar as caixas que continha para dentro, às três de cada vez. Como que satisfeito o meu carro lá desbloqueou o travão e pude seguir caminho.
P.S. – Quando tinha os meus doze anos tive uma professora de português e francês por quem todos os rapazes da turma tiveram uma paixão. Lembro-me que certa vez encenámos um diálogo em francês em que representei o papel de tentar seduzi-la. Noutra ocasião trouxe-nos os slides das férias em França, que projectou durante a aula. Por lapso esqueceu-se de tirar da máquina uma foto em que aparecia de fato de banho a sair de uma piscina. Foi um dos momentos altos da escola secundária. Agora que recordo, chego à conclusão que ela devia ter mais ou menos a idade que tenho hoje.
terça-feira, janeiro 22, 2008
A conversa...
miak - Houve um dia em que disseste para ti próprio? – Eu sou homossexual.
Fernando – Tu entras logo a matar! Não sei se foi assim uma coisa tão definida. Isto não se acorda um dia e damos um grito de rendição.
miak - Mas deve ter havido um momento em que te apercebeste. Em que reconheceste os sinais.
Fernando - No cinema talvez. Na vida real é diferente. É algo que vamos construindo desde muito cedo. Pelo menos comigo foi assim. É claro que pensamos sobre isso, que questionamos o porquê de sentirmos algo diferente do que nos ensinam e do que nos rodeia. Mas acho que tudo começou ainda eu não tinha uma capacidade de reflexão tão desenvolvida.
miak - Na escola sentias-te melhor perto dos rapazes?
Fernando - Acho que não. Tinha bons amigos nos rapazes e nas raparigas. Até tive uma namorada aos sete anos. Tinha canudos castanho claros e queria andar de mão dada. Mas acho que foi a única.
miak - Quando tiveste o teu primeiro namorado?
Fernando - Namorados só muito mais tarde. Mas aos doze tive uma enorme paixão por um colega da minha sala. Nem me passava pela cabeça contar-lhe.
miak - Então foi aí que percebeste?
Fernando - Eu não fiquei um dia assim. É um processo contínuo. Quando tinha idade para o questionar (se o quisesse fazer) já sentia o que sinto hoje. Mas não é o que me define como pessoa. Sou muito igual a toda a gente. Sabes isso porque já somos amigos há muitos anos. Tenho coisas que me caracterizam, defeitos, virtudes, manias... E só me apaixono por homens. Just that.
miak - Mas nunca te questionaste? Nunca te sentiste à parte?
Fernando- Neste país? Claro que sim! Muitas vezes. Somos praticamente obrigados a isso. Desde cedo que nos querem convencer que é uma doença. Que pode ser curado.
miak - Isso incomodava-te?
Fernando - Incomodava-me a ignorância e a estupidez. Mas nunca me senti doente. Nem a precisar de uma cura milagrosa. Aos quinze anos tinha um amigo que não sabia da minha opção e que desabafava comigo que tinha medo de ficar homossexual. Perguntava-se como seria se um dia descobrisse que gostava de homens e achava que seria insuportável. Era de morrer a rir.
miak - O que é que lhe dizias?
Fernando - Uma vez disse-lhe que se por algum acaso cósmico se tornasse homossexual, ia ser um processo indolor. Que se verdadeiramente gostasse de homens não ia achá-lo insuportável. Que ia tirar prazer disso.
miak - E ele?
Fernando - Ia morrendo. Quase que lhe saltavam os olhos. A homofobia era verdadeiramente assustadora no seu caso.
miak - Alguma vez lhe disseste?
Fernando - Ele viu-me uma vez com um namorado. Talvez tenha percebido. Não sei. Nunca mais falámos.
miak - É verdade que hoje em dia os homossexuais querem todos ser “o homem da relação”?
Fernando - Há de tudo. Também há heteros que batem nas mulheres. Mas admito que em determinados meios exista quem se assuma como forma última de excentricidade. E depois não vêm a relação como algo em que também têm de dar. Se vires bem não é muito diferente dos casamentos de antigamente ou até dos de hoje.
miak - Estás a falar da questão sexual?
Fernando - Também. A mulher era muitas vezes um veículo para se ter prazer. E logo elas que não eram preparadas para o dar ou ter. Era um mundo estranho. Connosco às vezes é parecido.
miak - Já te aconteceu?
Fernando- Já me deparei com pessoas assim, mas afasto-me de imediato. Mas é normal. Porque se há de querer estar numa relação com alguém que quer controlar. Nesta parte é tudo igual. Não é algo exclusivo das relações homossexuais.
miak - Gostavas que os casamentos fossem possíveis?
Fernando- Acho que sim. Mas não é o mais importante. Tornou-se num cavalo de batalha, por estar em causa uma instituição muito conservadora e de base religiosa. Acho que existem outras conquistas mais importantes.
miak - Quais?
Fernando- A principal é a das pessoas olharem para isto como algo normal. Sem prejudicarem e tratarem com diferença quem não fez nada de mal. Apenas isso. Também não preciso que andem por aí com cartazes a dizer que são a favor da homossexualidade. Não há nada para ser a favor.
miak - Qual é o teu maior desejo?
Fernando - Que um dia não exista nada para conversar sobre o assunto. Também não se discute se um homem ou uma mulher gostam mais de azul ou de amarelo. É assim e pronto.
miak - É verdade que existe um dispositivo electrónico que se implanta debaixo da pele e que serve para que os homossexuais se possam reconhecer?
Fernando - É mesmo parvo. Estavas doido por perguntar isso. É verdade, é! Compra-se em Amsterdão e existem vinte e três modelos diferentes. O mais caro também serve para identificar idiotas e pessoas que gostam de filmes da Meg Ryan.
miak - Obrigado pela conversa.
Fernando - De nada. Vá. Não é preciso ficarmos sentimentais.
miak - Queres que coloque alguma música, quando publicar isto no blog?
Fernando – Surpreende-me com um maravilhoso estereótipo.
miak - Está combinado.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
O queixume e as batatas...

Não quero parecer dramático em demasia. Afinal não sofro de um mal raro e que não seja preocupação de muitos outros. Mas preciso queixar-me um pouco. É o trabalho, sempre o trabalho. Costumo dizer que gosto do que faço, que tenho a sorte (também procurada) de fazer das poucas coisas que dentro de uma empresa ainda vão tendo alguma ligação à criatividade. Mas o que gosto é contido, pelas regras que restringem, pela opinião que nem sempre vinga, pelas demasiadas horas gastas e claro, pela retribuição insuficiente. Não quero fazer papel de coitadinho. Tenho bem a noção das dificuldades com que muitos lutam, até pelo mais básico. Mas desabafo na mesma, pela falta de adequação do esforço e qualidade do que faço, ao que isso representa no fim do mês. Cresci a pensar que se uma pessoa se esforçasse mesmo a sério, se dedicasse de alma e coração, sacrificando até um pouco do seu mundo pessoal, o resto aparecia naturalmente. Mas não. O esforço esbarra numa aleatoriedade sem rosto, desmentida apenas por mecanismos pouco claros e injustos.
Bem. Vou ter que lutar ainda mais. É que nem pensem que me param.
A esperança encontro-a nas ideias que vou tendo e que talvez algum dia se convertam em algo mais do que a satisfação intelectual. Essa pelo menos ninguém me tira.
P.S. – Na minha rua existe uma casa de frangos. Não se pesam. O preço é feito, desconfio, à medida do que vai na vontade do dono. Nada das mariquices dos hipermercados. Tem muito artigos expostos e uma extensa lista de grelhados, mas só vejo sair três produtos. Frangos, batatas fritas caseiras e pão de Mafra. Quase todos os dias vejo um vizinho meu a ir a este estabelecimento. Anda sempre com as mesmas calças, de um cor-de-rosa esbatido muito feio. Costuma estar a fumar na porta do seu prédio, com altivez desadequada à indumentária. Estranho é o que compra nos frangos. Um saco enorme da Habitat, cheio a rebentar com pacotes de batatas fritas. Mas porquê?
segunda-feira, janeiro 14, 2008
O fumo...

Reconheço e adoro esta nova modalidade tabaco free. Para depois ficam as análises complexas sobre um autoritarismo para o qual estou atento e também preocupado. Mas por agora deixem-me saborear por um momento a realidade. Não entendo o fumo na sua vertente saturada, queimada, irritando peles e olhares. Percebo sim o aroma, mas em espaço calmos, sem agredir companheiros e sorrisos. Subindo em espiral aleatória, como que desenhando letras a preto e branco. E afinal, quem não se preocupou durante anos, terá no presente dificuldade em se sentir discriminado.
No sábado à noite foi o exame final, em ambiente fechado com Jazz e conversa, estereótipos encontrados em média luz. Não vi ataques de ansiedade, nem tristezas, nem sequer um vái-vem constante para o ar mais livre e sem proibição. Vi conversa, boa disposição e uma sala onde respirámos música numa atmosfera límpida e sem odores... Sem fumo...
quarta-feira, janeiro 09, 2008
O machismo...

Enquanto crescemos vamo-nos tornando mais cerebrais e respeitadores do outro sexo, empurrados pelo que julgamos ser mais correcto. Mas no fundo não somos assim. No que as atitudes têm de mais básico e sem mácula de influência, a minha geração é, talvez irremediavelmente, muito machista. E a melhor parte, é que não temos a culpa. Anos consecutivos de observação fazem destas coisas. Sim, estou a falar dos nossos pais. Por muito que queiramos ser lógicos e dizer que os tempos são de igualdade, a verdade é que crescemos com um exemplo diferente. Teimamos em querer “ajudar” em casa (só a expressão já diz tudo), mas se conhecemos alguém que nos traz o jantar com um sorriso nem questionamos o status quo.
Conheço uma médica, já com décadas de prática que defende uma teoria simples. As mulheres quiseram tudo. Empregos, carreiras, poder, mas sem abdicar do resto. A senhora continua ter prioridade nas portas, as jóias naqueles dias e as flores, sempre as flores. E nós lá ficamos baralhados, sem referências nem norte, com crises de meia idade cada vez mais prematuras. Afinal qual é o nosso papel? Já não mandamos, nem sequer parece que o fazemos. Mas o problema é maior. As mulheres foram o esteio das famílias desde sempre, até agora. Mas para tal é preciso que estejam presentes. Que não cheguem já de noite a casa, com os filhos a serem criados pelas empregadas e as avós.
É claro que então aparecem as questões racionais. Não merecem elas ter as mesmas oportunidades? Sou obrigado a dizer que sim. Não devem os homens ter o mesmo dever de chegar cedo a casa e cuidar dos filhos. Tenho que acenar afirmativamente. Os casamentos dos nossos pais, de fórmulas tradicionais funcionaram? Consigo dar exemplos de alguns que estão a terminar ao fim de vinte e mesmo trinta anos.
Então qual é a solução? Não faço a mínima ideia!
Quanto ao machismo... critiquem livremente. Mas quem não o pratica, tem pelo menos a honesta liberdade de reconhecer a sua presença indelével.
domingo, janeiro 06, 2008
A mudança...
E se a lógica se invertesse? Se eu começasse a dividir o que de menos nobre me vai na cabeça? A primeira mudança é voltar ao meu antigo nome.
Não se acanhem nas criticas (e elogios?). Divirtam-se.
Britney...
Tenho pena da Britney Spears. Hospitalizada, à beira de perder o direito a visitar os filhos (cuja custódia já havia perdido). Que desgraça!
Ela é o tipo de mulher que se admira. Se me perguntassem há dez anos diria que não tem qualidade, que a sua “música” é apenas uma fórmula testada para cativar adolescentes americanos e idiotas. Mas depois dos trinta já não temos este tipo de inseguranças. Bem vistas bem as coisas ela entregava um produto com muita qualidade. Podemos criticar quem faz a felicidade de milhões? Dizer mal de quem é realmente competente no que faz, independentemente do que faz? Tenho pena da Britney... mas só um bocadinho.
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Um segredo...
Deixem-me partilhar um pedacinho de mim. Se não existisse este senhor o Duende não seria tão feliz. Se não conhecesse esta música as palavras não teriam nascido da mesma forma. Com versos emprestados, levou-me a uma magia que ainda hoje me arrepia. Queria ter mais tempo para a ela voltar. Para continuar a fugir dos demónios pela música e pela escrita. Mas o novo ano está a chegar…
Feliz 2008!!
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Está presa ao chão...
segunda-feira, agosto 06, 2007
Cuba 1965

Nunca fui dos que abracei a causa Cubana, enquanto ícone emprestado para quem não teve de lutar pela liberdade. A assunção de uma alma livre não obriga a que busquemos ideais de outras partes. Não coleccionei figuras de Che, nem advoguei um anti-imperialismo que não conheço. Tenho uma visão histórica, emocionalmente distante, que reconhece a necessidade de expulsar um Batista totalitário e que insistia numa ilha-bordel, estância privada para uma América de dinheiros fáceis, essa sim imperialista. Enquanto Fidel discursava, rodeado pela multidão em alegria pura, uma pomba branca desceu em em voo de paz e poisou no seu ombro verde tropa, símbolo do que este homem oferecia. Onde, desde então até hoje, se perderam os ideais, as causas e a liberdade, ainda está por explicar. O fio que separa uma incondicional defesa da Revolução, até ao perpetuar de poderes e interesses demasiado pessoais, há muito que se quebrou, deixando o povo, materialização opaca de todas as motivações, no limiar de uma enorme pobreza “heróica”.
De bordel americano, Cuba transformou-se em parte numa “casa de alterne” europeia, explorada no seu pitoresco e na alegada felicidade simples. Experimentem viver de senhas de compras e rações controladas, de ter casas, carros e estradas a cair de podre, de olhar para as necessidades mais básicas e compará-las, à beira do choro, com um rendimento ínfimo. Tentem viver num regime de rolhas e mordaças constantes, onde a democracia é uma ilusão, para quem não pode sequer sonhar em dizer (ou escrever) o que pensa sem risco de ir parar a uma prisão ou pior. E no meio de uma hipocrisia não menos imperial, aturo os que me dizem que adoraram visitar Cuba, nos seus costumes e tradições. Mas atenção, previnem, “tem que se ir antes de Fidel morrer”. Querem eles dizer que depois voltaremos a um jugo americano e a um desvirtuar insuportável da “verdade de uma ilha”. Claro! Não são eles que têm de ficar horas em filas para comprar comida ou esperar por um simples transporte. Tal não existe numa Europa confortável. E assim podem viajar duas semanas para Cuba, para verem como vivem os “tradicionalistas”. Melhor será chamá-los de pobres, que é o que são. Pobres, oprimidos e prisioneiros do senhor de barbas, por quem algum mundo civilizado até sente simpatia. As férias em Cuba assemelham-se a uma visita a um laboratório, com ratinhos brancos procurando queijo num labirinto onde tudo falta. E onde há bem pouco tempo o tal senhor barbudo ainda mandou fuzilar quem se atreveu a contrariá-lo.
Nem os estranhos exemplos dos sistemas de saúde e educação gratuitos atenuam ou sequer convencem. Perguntem-nos se preferimos esses benefícios em troca da liberdade. Se assim fosse, se não elegêssemos este bem como a maior conquista de um povo, o mês de Abril não se destacaria no calendário do nosso país.
Nunca fui um “revolucionário”. Por vezes intriguei-me porquê. Será fascista quem questiona os excessos de uma revolução? É complicado não se ser de esquerda e falar de liberdade, pela arrogância com que essa mesma esquerda se apropria das causas e das lutas, mascarando os exemplos (como o de Cuba) em que ela própria se tornou totalitária.
Para mim é fácil perceber que para lidar com Fidel, enquanto os anos não o fizerem, só com outro barbudo, mas um verdadeiro, dos que acreditam, que se mantêm fiéis. Mas isto sou apenas eu, que não sou revolucionário.
Por isso talvez um dia vá a Cuba, mas quando ali existir liberdade. E aos que temem pela perca da pureza e da tradição, que imaginem um lugar onde tanta beleza, cultura e genuína alegria, poderão crescer sem espartilhos. Imaginem por um momento…
Quanto ao ano de 1965, dois factos de destaque apareceram na minha pesquisa. É criado o Partido Comunista de Cuba e Che Guevara renuncia aos cargos no poder, para promover guerras de libertação no estrangeiro. De qualquer forma vou manter a t-shirt (sim, eu sei que é um pouco incoerente...).