segunda-feira, fevereiro 04, 2008

A palete e as três chinesas...


Na sexta-feira passada regressei tarde a casa, depois de demasiadas horas frente ao computador. Faço tantas vezes este caminho que já nem penso enquanto desço a rua que termina num semáforo onde invariavelmente tenho de parar. O que aconteceu a seguir vou tentar contar-vos, se conseguir lembrar-me de todos os pormenores.
Tenho um carro demasiado caro para o que ganho e completamente desadequado à minha condição de rapaz com trinta e cinco anos. Uma das coisas que faz é travar electronicamente premindo-se para tal um simples botão. O problema é quando o computador se baralha. Então fico eu imobilizado até que ele se resolva a deixar-me prosseguir. Mesmo na minha frente estava uma loja dos chineses, velha, com um nome que nem sequer traduzem. Cá fora uma enorme palete reunia em sua volta três chinesas muito parecidas. Tinha um plástico grosso em volta e devia pesar muito, o que desesperava as raparigas orientais. Não percebia bem se riam ou choravam ao mesmo tempo que andavam depressa ao redor da palete, fazendo gestos e apontando para o interior da loja. Percebi que discutiam uma estratégia para tirar o volume do meio do passeio. Nessa altura passou uma senhora já idosa com dois sacos de supermercado. Aproximou-se delas e começaram a conversar. Depois trocou os sacos entre as duas mãos e seguir rua a fora. As chinesas explodiram a rir, debruçando-se sobre o plástico da palete ao mesmo tempo que simulavam bater-lhe. Uma delas correu para dentro da loja e voltou com uma tesoura que utilizou para cortar o invólucro. Rapidamente começaram a levar as caixas que continha para dentro, às três de cada vez. Como que satisfeito o meu carro lá desbloqueou o travão e pude seguir caminho.

P.S. – Quando tinha os meus doze anos tive uma professora de português e francês por quem todos os rapazes da turma tiveram uma paixão. Lembro-me que certa vez encenámos um diálogo em francês em que representei o papel de tentar seduzi-la. Noutra ocasião trouxe-nos os slides das férias em França, que projectou durante a aula. Por lapso esqueceu-se de tirar da máquina uma foto em que aparecia de fato de banho a sair de uma piscina. Foi um dos momentos altos da escola secundária. Agora que recordo, chego à conclusão que ela devia ter mais ou menos a idade que tenho hoje.

terça-feira, janeiro 22, 2008

A conversa...

Eram duas e trinta e cinco da manhã quando comecei a conversar com o “Fernando”. Ele é um homem interessante, com uma madeixa de cabelo que lhe baloiça em frente ao olhar de um verde contagiante e uma simpatia muito pouco urbana. Tem vinte e nove anos acabados de fazer, mas parece um pouco mais velho, pela intensidade e a voz colocada. Roda um cigarro nos dedos sem nunca o acender e só de vez em quando se entende uma pequena ruga que lhe vai nascendo na testa, denunciando-o.

miak - Houve um dia em que disseste para ti próprio? – Eu sou homossexual.
Fernando – Tu entras logo a matar! Não sei se foi assim uma coisa tão definida. Isto não se acorda um dia e damos um grito de rendição.
miak - Mas deve ter havido um momento em que te apercebeste. Em que reconheceste os sinais.
Fernando - No cinema talvez. Na vida real é diferente. É algo que vamos construindo desde muito cedo. Pelo menos comigo foi assim. É claro que pensamos sobre isso, que questionamos o porquê de sentirmos algo diferente do que nos ensinam e do que nos rodeia. Mas acho que tudo começou ainda eu não tinha uma capacidade de reflexão tão desenvolvida.
miak - Na escola sentias-te melhor perto dos rapazes?
Fernando - Acho que não. Tinha bons amigos nos rapazes e nas raparigas. Até tive uma namorada aos sete anos. Tinha canudos castanho claros e queria andar de mão dada. Mas acho que foi a única.
miak - Quando tiveste o teu primeiro namorado?
Fernando - Namorados só muito mais tarde. Mas aos doze tive uma enorme paixão por um colega da minha sala. Nem me passava pela cabeça contar-lhe.
miak - Então foi aí que percebeste?
Fernando - Eu não fiquei um dia assim. É um processo contínuo. Quando tinha idade para o questionar (se o quisesse fazer) já sentia o que sinto hoje. Mas não é o que me define como pessoa. Sou muito igual a toda a gente. Sabes isso porque já somos amigos há muitos anos. Tenho coisas que me caracterizam, defeitos, virtudes, manias... E só me apaixono por homens. Just that.
miak - Mas nunca te questionaste? Nunca te sentiste à parte?
Fernando- Neste país? Claro que sim! Muitas vezes. Somos praticamente obrigados a isso. Desde cedo que nos querem convencer que é uma doença. Que pode ser curado.
miak - Isso incomodava-te?
Fernando - Incomodava-me a ignorância e a estupidez. Mas nunca me senti doente. Nem a precisar de uma cura milagrosa. Aos quinze anos tinha um amigo que não sabia da minha opção e que desabafava comigo que tinha medo de ficar homossexual. Perguntava-se como seria se um dia descobrisse que gostava de homens e achava que seria insuportável. Era de morrer a rir.
miak - O que é que lhe dizias?
Fernando - Uma vez disse-lhe que se por algum acaso cósmico se tornasse homossexual, ia ser um processo indolor. Que se verdadeiramente gostasse de homens não ia achá-lo insuportável. Que ia tirar prazer disso.
miak - E ele?
Fernando - Ia morrendo. Quase que lhe saltavam os olhos. A homofobia era verdadeiramente assustadora no seu caso.
miak - Alguma vez lhe disseste?
Fernando - Ele viu-me uma vez com um namorado. Talvez tenha percebido. Não sei. Nunca mais falámos.
miak - É verdade que hoje em dia os homossexuais querem todos ser “o homem da relação”?
Fernando - Há de tudo. Também há heteros que batem nas mulheres. Mas admito que em determinados meios exista quem se assuma como forma última de excentricidade. E depois não vêm a relação como algo em que também têm de dar. Se vires bem não é muito diferente dos casamentos de antigamente ou até dos de hoje.
miak - Estás a falar da questão sexual?
Fernando - Também. A mulher era muitas vezes um veículo para se ter prazer. E logo elas que não eram preparadas para o dar ou ter. Era um mundo estranho. Connosco às vezes é parecido.
miak - Já te aconteceu?
Fernando- Já me deparei com pessoas assim, mas afasto-me de imediato. Mas é normal. Porque se há de querer estar numa relação com alguém que quer controlar. Nesta parte é tudo igual. Não é algo exclusivo das relações homossexuais.
miak - Gostavas que os casamentos fossem possíveis?
Fernando- Acho que sim. Mas não é o mais importante. Tornou-se num cavalo de batalha, por estar em causa uma instituição muito conservadora e de base religiosa. Acho que existem outras conquistas mais importantes.
miak - Quais?
Fernando- A principal é a das pessoas olharem para isto como algo normal. Sem prejudicarem e tratarem com diferença quem não fez nada de mal. Apenas isso. Também não preciso que andem por aí com cartazes a dizer que são a favor da homossexualidade. Não há nada para ser a favor.
miak - Qual é o teu maior desejo?
Fernando - Que um dia não exista nada para conversar sobre o assunto. Também não se discute se um homem ou uma mulher gostam mais de azul ou de amarelo. É assim e pronto.
miak - É verdade que existe um dispositivo electrónico que se implanta debaixo da pele e que serve para que os homossexuais se possam reconhecer?
Fernando - É mesmo parvo. Estavas doido por perguntar isso. É verdade, é! Compra-se em Amsterdão e existem vinte e três modelos diferentes. O mais caro também serve para identificar idiotas e pessoas que gostam de filmes da Meg Ryan.
miak - Obrigado pela conversa.
Fernando - De nada. Vá. Não é preciso ficarmos sentimentais.
miak - Queres que coloque alguma música, quando publicar isto no blog?
Fernando – Surpreende-me com um maravilhoso estereótipo.
miak - Está combinado.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

O queixume e as batatas...


Não quero parecer dramático em demasia. Afinal não sofro de um mal raro e que não seja preocupação de muitos outros. Mas preciso queixar-me um pouco. É o trabalho, sempre o trabalho. Costumo dizer que gosto do que faço, que tenho a sorte (também procurada) de fazer das poucas coisas que dentro de uma empresa ainda vão tendo alguma ligação à criatividade. Mas o que gosto é contido, pelas regras que restringem, pela opinião que nem sempre vinga, pelas demasiadas horas gastas e claro, pela retribuição insuficiente. Não quero fazer papel de coitadinho. Tenho bem a noção das dificuldades com que muitos lutam, até pelo mais básico. Mas desabafo na mesma, pela falta de adequação do esforço e qualidade do que faço, ao que isso representa no fim do mês. Cresci a pensar que se uma pessoa se esforçasse mesmo a sério, se dedicasse de alma e coração, sacrificando até um pouco do seu mundo pessoal, o resto aparecia naturalmente. Mas não. O esforço esbarra numa aleatoriedade sem rosto, desmentida apenas por mecanismos pouco claros e injustos.
Bem. Vou ter que lutar ainda mais. É que nem pensem que me param.
A esperança encontro-a nas ideias que vou tendo e que talvez algum dia se convertam em algo mais do que a satisfação intelectual. Essa pelo menos ninguém me tira.

P.S. – Na minha rua existe uma casa de frangos. Não se pesam. O preço é feito, desconfio, à medida do que vai na vontade do dono. Nada das mariquices dos hipermercados. Tem muito artigos expostos e uma extensa lista de grelhados, mas só vejo sair três produtos. Frangos, batatas fritas caseiras e pão de Mafra. Quase todos os dias vejo um vizinho meu a ir a este estabelecimento. Anda sempre com as mesmas calças, de um cor-de-rosa esbatido muito feio. Costuma estar a fumar na porta do seu prédio, com altivez desadequada à indumentária. Estranho é o que compra nos frangos. Um saco enorme da Habitat, cheio a rebentar com pacotes de batatas fritas. Mas porquê?

segunda-feira, janeiro 14, 2008

O fumo...


Vou passar por cima das discussões e de outras filosofias. De argumentos técnicos que mascaram emoções e vício e até costumes de décadas e mais. Vou ignorar acusações de quem já atacou com nuvens densas e agora se assume como vítima de uma qualquer perseguição.
Reconheço e adoro esta nova modalidade tabaco free. Para depois ficam as análises complexas sobre um autoritarismo para o qual estou atento e também preocupado. Mas por agora deixem-me saborear por um momento a realidade. Não entendo o fumo na sua vertente saturada, queimada, irritando peles e olhares. Percebo sim o aroma, mas em espaço calmos, sem agredir companheiros e sorrisos. Subindo em espiral aleatória, como que desenhando letras a preto e branco. E afinal, quem não se preocupou durante anos, terá no presente dificuldade em se sentir discriminado.
No sábado à noite foi o exame final, em ambiente fechado com Jazz e conversa, estereótipos encontrados em média luz. Não vi ataques de ansiedade, nem tristezas, nem sequer um vái-vem constante para o ar mais livre e sem proibição. Vi conversa, boa disposição e uma sala onde respirámos música numa atmosfera límpida e sem odores... Sem fumo...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

O machismo...


Pertenço a um grupo de homens que não gostam de ser identificados como machistas. Excluem-se aqueles que ainda pensam que a assunção de uma masculinidade exagerada os torna mais atraentes e irresistíveis aos olhos do feminino.
Enquanto crescemos vamo-nos tornando mais cerebrais e respeitadores do outro sexo, empurrados pelo que julgamos ser mais correcto. Mas no fundo não somos assim. No que as atitudes têm de mais básico e sem mácula de influência, a minha geração é, talvez irremediavelmente, muito machista. E a melhor parte, é que não temos a culpa. Anos consecutivos de observação fazem destas coisas. Sim, estou a falar dos nossos pais. Por muito que queiramos ser lógicos e dizer que os tempos são de igualdade, a verdade é que crescemos com um exemplo diferente. Teimamos em querer “ajudar” em casa (só a expressão já diz tudo), mas se conhecemos alguém que nos traz o jantar com um sorriso nem questionamos o status quo.
Conheço uma médica, já com décadas de prática que defende uma teoria simples. As mulheres quiseram tudo. Empregos, carreiras, poder, mas sem abdicar do resto. A senhora continua ter prioridade nas portas, as jóias naqueles dias e as flores, sempre as flores. E nós lá ficamos baralhados, sem referências nem norte, com crises de meia idade cada vez mais prematuras. Afinal qual é o nosso papel? Já não mandamos, nem sequer parece que o fazemos. Mas o problema é maior. As mulheres foram o esteio das famílias desde sempre, até agora. Mas para tal é preciso que estejam presentes. Que não cheguem já de noite a casa, com os filhos a serem criados pelas empregadas e as avós.
É claro que então aparecem as questões racionais. Não merecem elas ter as mesmas oportunidades? Sou obrigado a dizer que sim. Não devem os homens ter o mesmo dever de chegar cedo a casa e cuidar dos filhos. Tenho que acenar afirmativamente. Os casamentos dos nossos pais, de fórmulas tradicionais funcionaram? Consigo dar exemplos de alguns que estão a terminar ao fim de vinte e mesmo trinta anos.
Então qual é a solução? Não faço a mínima ideia!

Quanto ao machismo... critiquem livremente. Mas quem não o pratica, tem pelo menos a honesta liberdade de reconhecer a sua presença indelével.

domingo, janeiro 06, 2008

A mudança...

Ao escrevermos aqui não deixamos de construir uma imagem sobre nós próprios. Por vezes sem consciência aspiramos a que pensem bem do que somos e transparecemos. Ao prazer de bem escrever ou à originalidade da mensagem partilhada, soma-se a satisfação com que reconhecemos ter tocado na sensibilidade de alguém. Com estes elementos se faz a blogosfera que, na realidade que me é próxima, não favorece o insulto e a discórdia. Normalmente não lemos comentários deselegantes. Se comentamos é porque de alguma forma nos identificamos com outros.
E se a lógica se invertesse? Se eu começasse a dividir o que de menos nobre me vai na cabeça? A primeira mudança é voltar ao meu antigo nome.
Não se acanhem nas criticas (e elogios?). Divirtam-se.


Britney...

Tenho pena da Britney Spears. Hospitalizada, à beira de perder o direito a visitar os filhos (cuja custódia já havia perdido). Que desgraça!
Ela é o tipo de mulher que se admira. Se me perguntassem há dez anos diria que não tem qualidade, que a sua “música” é apenas uma fórmula testada para cativar adolescentes americanos e idiotas. Mas depois dos trinta já não temos este tipo de inseguranças. Bem vistas bem as coisas ela entregava um produto com muita qualidade. Podemos criticar quem faz a felicidade de milhões? Dizer mal de quem é realmente competente no que faz, independentemente do que faz? Tenho pena da Britney... mas só um bocadinho.






segunda-feira, dezembro 31, 2007

Um segredo...


Deixem-me partilhar um pedacinho de mim. Se não existisse este senhor o Duende não seria tão feliz. Se não conhecesse esta música as palavras não teriam nascido da mesma forma. Com versos emprestados, levou-me a uma magia que ainda hoje me arrepia. Queria ter mais tempo para a ela voltar. Para continuar a fugir dos demónios pela música e pela escrita. Mas o novo ano está a chegar…

Feliz 2008!!






segunda-feira, dezembro 17, 2007

Está presa ao chão...

Há dias cheguei à mais óbvia e inútil das conclusões. A minha avózinha não consegue saltar! Não lhe perguntei, nem sequer tenho coragem de lhe pedir que tente. Mas tenho a certeza que, mesmo que se esforçasse, não conseguiria saltar. Nem por um breve instante, seria capaz de se afastar do solo. Felizmente que nunca se deve ter dado conta disso. Provavelmente não salta há quarenta ou cinquenta anos. Melhor assim. Deve ser muito triste chegar a essa conclusão. Imaginem que um dia querem saltar e não podem. Que estão presos ao chão para sempre, incapazes de um voo improvisado… Será inquietante.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Cuba 1965


Gosto de t-shirts, mas raramente me encanto pelo que têm escrito. O que primeiro me prende a atenção é a sua cor e os padrões que aparecem desenhados. Foi dessa forma que comprei uma encarnada, onde está escrito “Cuba 1965”. Não sei o que se passou em Cuba nesse ano (a Revolução é anterior). Antes de terminar este texto tenho de investigar e corrigir a falha histórica.
Nunca fui dos que abracei a causa Cubana, enquanto ícone emprestado para quem não teve de lutar pela liberdade. A assunção de uma alma livre não obriga a que busquemos ideais de outras partes. Não coleccionei figuras de Che, nem advoguei um anti-imperialismo que não conheço. Tenho uma visão histórica, emocionalmente distante, que reconhece a necessidade de expulsar um Batista totalitário e que insistia numa ilha-bordel, estância privada para uma América de dinheiros fáceis, essa sim imperialista. Enquanto Fidel discursava, rodeado pela multidão em alegria pura, uma pomba branca desceu em em voo de paz e poisou no seu ombro verde tropa, símbolo do que este homem oferecia. Onde, desde então até hoje, se perderam os ideais, as causas e a liberdade, ainda está por explicar. O fio que separa uma incondicional defesa da Revolução, até ao perpetuar de poderes e interesses demasiado pessoais, há muito que se quebrou, deixando o povo, materialização opaca de todas as motivações, no limiar de uma enorme pobreza “heróica”.
De bordel americano, Cuba transformou-se em parte numa “casa de alterne” europeia, explorada no seu pitoresco e na alegada felicidade simples. Experimentem viver de senhas de compras e rações controladas, de ter casas, carros e estradas a cair de podre, de olhar para as necessidades mais básicas e compará-las, à beira do choro, com um rendimento ínfimo. Tentem viver num regime de rolhas e mordaças constantes, onde a democracia é uma ilusão, para quem não pode sequer sonhar em dizer (ou escrever) o que pensa sem risco de ir parar a uma prisão ou pior. E no meio de uma hipocrisia não menos imperial, aturo os que me dizem que adoraram visitar Cuba, nos seus costumes e tradições. Mas atenção, previnem, “tem que se ir antes de Fidel morrer”. Querem eles dizer que depois voltaremos a um jugo americano e a um desvirtuar insuportável da “verdade de uma ilha”. Claro! Não são eles que têm de ficar horas em filas para comprar comida ou esperar por um simples transporte. Tal não existe numa Europa confortável. E assim podem viajar duas semanas para Cuba, para verem como vivem os “tradicionalistas”. Melhor será chamá-los de pobres, que é o que são. Pobres, oprimidos e prisioneiros do senhor de barbas, por quem algum mundo civilizado até sente simpatia. As férias em Cuba assemelham-se a uma visita a um laboratório, com ratinhos brancos procurando queijo num labirinto onde tudo falta. E onde há bem pouco tempo o tal senhor barbudo ainda mandou fuzilar quem se atreveu a contrariá-lo.
Nem os estranhos exemplos dos sistemas de saúde e educação gratuitos atenuam ou sequer convencem. Perguntem-nos se preferimos esses benefícios em troca da liberdade. Se assim fosse, se não elegêssemos este bem como a maior conquista de um povo, o mês de Abril não se destacaria no calendário do nosso país.
Nunca fui um “revolucionário”. Por vezes intriguei-me porquê. Será fascista quem questiona os excessos de uma revolução? É complicado não se ser de esquerda e falar de liberdade, pela arrogância com que essa mesma esquerda se apropria das causas e das lutas, mascarando os exemplos (como o de Cuba) em que ela própria se tornou totalitária.
Para mim é fácil perceber que para lidar com Fidel, enquanto os anos não o fizerem, só com outro barbudo, mas um verdadeiro, dos que acreditam, que se mantêm fiéis. Mas isto sou apenas eu, que não sou revolucionário.
Por isso talvez um dia vá a Cuba, mas quando ali existir liberdade. E aos que temem pela perca da pureza e da tradição, que imaginem um lugar onde tanta beleza, cultura e genuína alegria, poderão crescer sem espartilhos. Imaginem por um momento…
Quanto ao ano de 1965, dois factos de destaque apareceram na minha pesquisa. É criado o Partido Comunista de Cuba e Che Guevara renuncia aos cargos no poder, para promover guerras de libertação no estrangeiro. De qualquer forma vou manter a t-shirt (sim, eu sei que é um pouco incoerente...).

quinta-feira, julho 12, 2007

Três estórias e palavrões…

Ela apareceu a correr de repente e virou-se para a senhora da limpeza.
- Tu, preta. Viste bem o que fizeste?
A senhora de cor ficou estática. Nem sabia o que responder. Quase de imediato soltou uma pequena lágrima humilhada, que devia estar quente, e caiu na alcatifa sem um único som.
A minha primeira reacção foi colocar os phones e esconder-me da situação. No meu emprego existem dezenas de mulheres da limpeza, que só encontro quando chego muito cedo. Umas cumprimentam-me por detrás de diferentes sotaques, enquanto outras desprezam presenças e o próprio ofício, que não mantêm por muito tempo.
Mas não consegui alhear-me. Sem perguntar a razão da gritaria fui direito à agressora e disse.
- Sabe. Você é uma puta!
Ela ainda balbuciou alguma coisa nas minhas costas, mas nem ouvi.

(…)

Na semana passada tive uma noite quase irreal. Uma amiga de há muito convidou-me para jantar em casa dela. Queria apresentar-me o namorado novo!
Não sei porque se chama “namorado novo”. Dá-lhe um carácter finito. É quase como se fosse carimbado.
Perguntei-lhe se podia levar uma amiga para equilibrar o ambiente, ao que me respondeu que sim. Perguntou-me inevitavelmente se era apenas uma amiga, mas depressa abandonou o sonho do jantarzinho de casais. Era mesmo “só” isso.
Chegámos três ou quatro minutos depois da hora e começamos a subir para o terceiro andar sem elevador. A Margarida ainda reclamou um pouco.
- Só tu é que me trazes para estas coisas.
Sorri sem ter uma frase que a consolasse. Apenas sorri.
Ao chegarmos bati levemente na madeira da porta, recebendo um estridente – Já vou!
A Raquel abriu a porta muito corada e a distribuir beijinhos. Aceitou os casacos e começou a dar ordens.
- Venham! Venham conhecer o João!
Ela foi direita à sala, sem perguntar ou fazer cerimónia. Percebia-se a ansiedade.
- Meninos, este é o meu amor. O João!
O meu coração ia saltando. O João era o João Miguel, meu colega de trabalho, com quem almoço pelo menos duas vezes por semana e, para meu pânico, casado há cinco anos e com uma filha de dois. Por impulso e estranha sintonia escolhemos a mesma táctica. Aceitámos a mentira para o resto da noite. Eu, de nó que ardia na garganta, fingi o melhor que pude e evitei que falássemos sobre o meu emprego.
Na única altura em que ficámos sós, quando elas foram à cozinha preparar o café, ele disse-me com olhos sem alma.
- Bem me saíste um grande cabrão. Que filha da puta de situação.
Enquanto recebia um abraço asqueroso de agradecimento, só consegui responder.
- É verdade. Que grande cabrão.

(…)

Ontem ao parar num sinal encarnado segui um hábito antigo. Olhar para o carro ao meu lado. Nele descobri uma rapariga que não era bonita nem feia. Olhou para mim de forma rápida e concentrou-se no espaço à sua frente.
Não resisti e olhei de novo, para me deparar com pormenor inesperado. Talvez por causa do cinto de segurança, a camisa que vestia tinha soltado os botões e descobria por completo um seio. Começaram a escorrer-me gotinhas nervosas antes que ganhasse coragem para me virar outra vez. O que devia fazer? Parar de olhar? Aproveitar e deixar que as hormonas controlassem a situação?
Da indecisão nasceu a mais bizarra das atitudes. Queria avisá-la.
Abri a janela e com um pequeno toque buzinei para a chamar. Ao meu sinal de que queria falar-lhe ela baixou o vidro e debruçou-se na minha direcção. Nessa altura a camisa abriu por completo mostrando ambos os seios. Dominei as tais hormonas e recusei olhar apesar de querer. Por certo que ela percebera.
Esperei uns segundos antes de levantar o olhar, para a encontrar sentada muito direita, com um sorriso envergonhado. Com um aceno de expressão agradeceu o meu gesto. O sinal ficou verde, mas não arrancámos de imediato. Então ela começou a avançar muito devagarinho. E contrariando a força que a puxava para diante ainda conseguiu gritar.
- Que merda de situação.
Pareceu-me que queria dizer algo mais.

quarta-feira, junho 27, 2007

Saiu...

Finalmente, muitos dias e dores depois, tudo o que restava da “doce” pedrinha abandonou o meu corpo. As palavras do senhor doutor foram mágicas – está curado!
É claro que nos rins ainda se alojam mais cinco, mas com um pouco de sorte por lá ficarão uns tempos para que descanse e daqui a uns meses, quando já não me lembrar tanto da tortura, talvez me dedique a fazer qualquer coisa em relação a elas. Por agora vou aproveitando esta bonança. A sensação de voltar a ter uma vida normal. De pensar e escrever algo que não tenhas as palavras pedra ou hospital incluídas. E afinal nem foram precisos “disparos” nem nada. A senhora pedra encontrou o seu caminho sozinha.

Obrigado pelas vossas melhoras e mensagens simpáticas. Estou curado!

quarta-feira, junho 06, 2007

A pedra e Deus no meio de nós...

Não tenho a certeza de que o pesadelo já tenha acabado. A cada dia espreito a esperança, atento a uma nova crise que me conduza às batas que já são familiares. No pensamento de um mês muito difícil, esforço-me por relativisar e encontrar nos bocadinhos de paz uma serenidade merecida, mesmo que não duradoura. Pergunto-me se tantos analgésicos e veias de pintinhas vermelhas não estarão já a adulterar um descernimento que à partida já não arrancava nas primeiras posições.
Às quatro e meia da manhã, consegui finalmente estacionar o carro perto de casa, ainda meio zonzo de mais uma dose intravenosa de uma qualquer droga que não chegou a enrolar-me a língua. Ao caminhar reparei numa folha colada a um poste em madeira. Podia ler-se o seguinte – Deus chega amanhã. Durante todo o dia vai passear pela cidade, misturado com todos nós.
Nos dois parágrafos em baixo era explicado que Deus viria, em matéria, até nós e andaria pelas ruas como qualquer outra pessoa. Cabia-nos a capacidade de o reconhecer.
Contrariei o desejo de arrancar o papel, para que outros o pudessem ler, e fui dormir anestesiado.
No dia seguinte os químicos ainda produzem o seu efeito. As cores e cheiros são mais fortes, enquanto os sons e imagens se diluem e mesclam em névoas para decifrar.
Não fui trabalhar e comecei bem cedo a deambular pelas ruas. Preferia o bucólico dos sonhos, mas esquina após esquina iniciei a minha busca por Ele.
A primeira tentativa era até a mais óbvia. Um senhor que costuma estar a pintar almas numa rua estreita de comércio antiquado. Aproximei-me devagar e fiquei a ponderar. Ele tinha longas barbas brancas e um franzir de testa omnipotente, de quem percebe o que vamos dizer. Dirigi-lhe a palavra na esperança de que sorrisse e assumisse a sua condição. Houve sorriso, mas apenas de orgulho pela última pintura. O senhor de barbas não era Deus.
Não demorei a enfrentar o extremo. Porque haveria de ser um homem? O estereótipo foi criado por alguém, quando ninguém sabe...
No meio de uma pequena multidão vi a senhora negra de longas saias e ancas muito largas. Parecia-se com Deus. Dançava a troco de moedas demasiado escuras, enquanto as pilhas da telefonia cor de laranja ameaçavam fraquejar. A saia era verde com uma faixa amarelada e não parava de rodar. Poderia Deus dançar assim?
Nas horas seguintes enfiei-me dentro dos autocarros a saltar de cara em cara. Em cada olhar perguntava pela Sua presença, ao mesmo tempo que ia conhecendo muitas expressões.
Era inevitável. Foi o senhor de só uma perna que me prendeu a atenção. Nas muletas em madeira tinha desenhos a canivete e equilibrava com dificuldade um livro com as folhas presas por um cordel com ar resistente. Deviam ser nomes... de nós.
Sentei-me na paragem, mesmo ao seu lado. Não demorei a perguntar.
- O senhor tem dores?
Ele olhou para o espaço onde faltava o membro e encolheu os ombros.
- Só quando chove.
- Doem-lhe os ossos? Perguntei a medo.
Ele riu-se.
- Não. Mas não tenho mais mãos para o chapéu de chuva.
Era uma graça, que me arrancou um pequenino riso.
- Posso fazer-lhe mais uma pergunta.
- Claro que sim!
- O senhor é Deus?
Deixou que entrasse no azul gasto mas profundo dos seus olhos e devolveu-me uma questão.
- Tem tido dores?
- Sim. Neste último mês bastantes.
Suspirando acabou por concluir.

- Já tinha percebido.

quinta-feira, maio 17, 2007

Pretty Woman e o cálculo…

- Você tem um cálculo renal. Disse a médica de forma até gentil.
Porque lhe chamarão cálculo? É uma pedra, isso sim. Uma pedra que nasce num qualquer rim que a decide criar, para que um dia a expulse e envie em dolorosa viagem.
Eu sabia o que tinha. Apesar de um doce intervalo de três anos, a dor voltou. Felizmente não foi muito forte, mas suficiente para passar uma tarde entre senhoras de batas brancas e azuis. Elas agora espetam a agulha e depois deixam lá preso o tubinho, não vá ser preciso mais tarde. Uma dose certa de fármacos e a dor que passou a moínha, transformou-se num torpor que por pouco não me fazia dormir.
Os dias agora são de espera. Para que o senhor cálculo desça sozinho… quando lhe apetecer.
Aproveito este momento de maior fragilidade física para justificar o que não necessita de o ser. Ao ligar a televisão aparece-me o par inesperado, que gera empatias de igualdades. Júlia, a Roberts sorri e sonha com um cavaleiro que a salve do alto de uma torre imaginada. Seria do cálculo? Estaria a minha sensibilidade exponenciada pela antevisão e receio constante da dor? Acho que não. Apenas um desejo seguro de sorrir com pequenas tolices. E depois? Alguém tem problemas com isso? Humppff...

Que me importa. E se me irritam ainda me ponho a recitar os versos de uma antiga melodia. E não é que vou mesmo.


Eu era triste e sozinha,
jamais tinha amado ninguém,
só vivia para a dor…

Perdida em longo caminho,
sem mais ter encontrado alguém,
por quem sentisse amor.

Um dia depois de muito penar,
a tua voz me chamou infeliz.
Vi então a luz do teu doce olhar
e foi assim que eu comecei a ser feliz.

domingo, maio 13, 2007

O rapaz que não conseguia travar...

Ontem não conseguia travar! Por mais que tentasse sentia o chão a fugir-me, deliciando-se na falta de atrito, rindo em bandeja ao ver-me chocar.
Logo ao levantar os calcanhares voaram com o branco dos lençóis da semana e a nuca explodiu numa esquina que apenas ali existia.
Na rua era muito pior. Quando tentava caminhar mais depressa começava logo a deslizar. Inclinava o corpo para um dos lados na esperança de conseguir pelo menos virar. Mas só parava de encontro a uma parede, cadeiras de esplanada ou a um secular fontanário. Para poder deslocar-me traçava caminhos rectos, como se planasse no espaço, à deriva na ausência de gravidade. De obstáculo em obstáculo, acumulando dores e nódoas muito negras lá ia avançado, em ricochetes estranhos que me desesperavam.
Quando parei ainda não tinha a certeza. Pensava em cada recanto onde batera. Em todas as arestas que, depois de me ferirem, me empurraram noutra direcção. No final de uma viagem de encontrões respirava fundo para analisar. Olhei em volta percebendo onde chegara, cheirando e sentindo o presente. Sentado de pernas cruzadas na melhor das posições, fiquei a fechar conclusões. Ainda vou lembrar os choques, talvez ainda escorregue numa qualquer noite em que o empedrado esteja muito molhado. Só com essa memória posso aprender a travar...

quarta-feira, abril 25, 2007

Noite em B(e)leza…

Há coisas que nos faltam. O toque é uma delas, afastando-nos e impedindo que o abraço da pele nos faça perceber. Remetemo-nos a uma química observada, por vezes insuficiente para que os arrepios nos tragam quase certezas, que nos encoragem a continuar. É certo que em tempos idos também o não havia, ao toque, mas a sua ausência era compensada por um reconhecer de empatias naturais. Os meus avós apaixonaram-se enquanto olhavam a mesma montra. Ele sorriu e ela sorriu em troca. Não foi preciso mais nada.
Connosco é diferente. A última oportunidade que tivemos foram os saudosos slows, agora quase esquecidos. Trancados em espaços reduzidos, em ambiente escurecido, balançavamos de um lado para o outro, ousando apertar devagarinho, encostar o rosto a quem enlaçava os braços em volta do nosso pescoço. Eram momentos de verdadeira magia e que largámos ao ver a idade adulta chegar, impondo regras e a falta de outras emoções.
E num qualquer dia... sem que o tivessemos pleneado, encontramos de novo a emoção de um abraço de dança. Reconhecemos o calor que nunca se afastou, apertamos e repetimos o balançar que afinal não esquecemos. Permitimos mesmo a liberdade prudente do tacto, procurando novos espaços e o sentir. Ao receber as mãos fechando-se nas nossas costas, sorrimos por tudo ainda existir...
Quando é que decidimos afastarmo-nos do toque? Porque passámos a ignorar a sua serenidade agitada, saltando como tolos, a poucos cêntimetros do que deviamos segurar?
Em que momento deixámos de perceber?

quarta-feira, abril 18, 2007

An affair to remember…


Desculpem-me que vos traga o passado uma vez mais. Não por viver virado para trás, mas porque a memória de sensações me encanta, ao reconhecer uma simplicidade mágica que se vai perdendo. Gostava que cada um de vós pudesse ver o filme que partilha o nome com este post – An affair to remember. Penso que apareceu em 1957, no auge da carreira de um incontornável Cary Grant, acompanhado pela lindíssima Deborah Kerr, talvez com uma beleza mais discreta que algumas das estrelas da altura, mas de uma intensidade serena que nos desarma por completo. Tenho ideia de o ter visto por mais que uma vez em criança, recordando o pormenor do encontro marcado para o último andar do Empire State Building.
Já perto da idade adulta vi-o novamente, numa noite de canal dois, então com outros olhos, outro entendimento, por fim o sentir de cada cena com a magia que delas nascia.
Mais tarde consegui finalmente encontrar o DVD e trazê-lo para casa, bem seguro contra o peito, ainda sem acreditar. Ontem por acaso, enquanto trocava de canais, encontrei-o já na fase final. E ali fiquei enamorado a ver, perdido em sorrisos.
Fico sempre fascinado pelos diálogos, aparentemente simples e no fundo tão cheios de emoções, por vezes sem serem faladas. Cada expressão, baixar de olhos, para depois seguirem com intenção, são oferecidos com uma cumplicidade e exemplo supremo de uma empatia a que só podemos aspirar. Há uns anos realizaram um remake que me recuso a ver, por respeito e fidelidade à obra original.
Gostava que me fizessem companhia nesta descoberta, sonhando com um amor assim...

domingo, abril 08, 2007

A foto...

Basta estar com atenção. Ou então sou eu! É comigo que os momentos mágicos continuam a acontecer. Em qualquer início de noite sereno, sinto que há imagens que nasceram apenas para mim. Esta foto foi tirada em Lisboa, perto de Sete Rios, enquanto conduzia. Só tive um segundo…



domingo, abril 01, 2007

Aconteceu numa sexta-feira…

Não sou a pessoa mais concentrada que existe. Sou muito distraído e pateta, o que encanta as crianças e por vezes me envergonha. Noutras alturas apenas me faz sorrir.

Quando chegou a hora do almoço desci traquilamente para a rua. Enquanto caminhava para o restaurante fui ultrapassado por uma rapariga apressada. Ela continuou em passos rápidos mesmo na minha frente. Sem perceber imitei-lhe a velocidade e porque tinha os passos maiores fiquei mais perto dela.
De repente, como por se lembrar de alguma coisa, ela parou de andar. Apanhado desprevenido com a sua imobilização não consegui travar a tempo. Mas não choquei! Num último esforço tentei reduzir ao máximo o embate e acabei por me aconchegar nas suas costas. Senti-lhe o perfume forte ao mesmo tempo que respirava um cabelo cor de amêndoa. Tinha tentado esticar os braços para não a magoar, mas a cintura estreita conduzi-os para a frente, envolvendo-a num abraço involuntário.
Não podem ter passado mais que dois segundos, mas foram sentidos como uma eternidade. Depois ela voltou-se para mim, mas por estar muito próximo tocou com os lábios nos meus, suavemente, para então recuar um pequenino espaço. Consegui ver os olhos de uma cor indefinida e o rubor de face que partilhava comigo…
Finalmente articulei um pedido de desculpas, recebendo a mais estranha das respostas.
- Não faz mal. Acredita que não faz mesmo mal.
Então afastou-se caminhando devagar, enquanto eu fiquei parado no mesmo lugar. Difícil de acreditar foi um último olhar, quando se virou, como que para confirmar que eu existia.

Para quem se interrogue, não corri atrás dela… E sim, acho que estes momentos de magia podem acontecer na vida real. Este foi completo assim mesmo…

quarta-feira, março 28, 2007

Mais um dia…

Hoje dói-me um pouco a cabeça. Sem perceber deve ter sido a tensão de uma reunião importante. Ou então a gravata! Ai a gravata...
Demorei anos a conseguir largar o fato e gravata. A convencer, sem ter que falar nisso, chefe após chefe, que a minha inteligência não depende daquele uniforme que me aperta. Aliás não seria estranho que tivesse dificuldade em pensar, com o pescoço apertado e o sangue com dificuldade em subir.
Mas aos poucos consegui. E agora só o visto em ocasiões especiais. Hoje foi uma delas e o dia virou-se para mim. A todos causei espanto. Aos homens uma expressão de surpresa, seguida de perto por uma tentativa falhada de fazer humor. Com as mulheres foi diferente. Começaram cedo os elogios e os piropos sucediam-se com fotos roubadas à mistura. Não sabia onde me esconder. Então fico melhor de fato? É frustante!

E o vencedor é…

Tinha imaginado um grande discurso. Mas depois pensei um pouco e percebi que a escolha do video que mais me tocou, por si só explica o que sinto ao escrever neste preciso momento. A vontade de abraçar a todos. Obrigado pelos momentos.




segunda-feira, março 19, 2007

O carro antigo e um beijo…

Há muitos anos o meu avô ofereceu-me um carro. Era velhinho, pequenino, mas de confiança. Daqueles que nunca nos deixam ficar mal. Que não param a meio da auto-estrada a acender luzes e avisos electrónicos. Este não! Quando tive que o levar ao mecânico, também antigo, ele perguntou-me se costumava andar sozinho no carro. Em resposta ao meu sim, anunciou que ia deixar a suspensão do meu lado um pouco mais levantada para compensar o peso. Andou inclinado para o lado direito durante meses. Era assim o meu carro.
Parecia-me que existia uma relação de partilha entre nós e as aventuras que vivemos nunca deixarão que o esqueça. Um dia partimos na maior delas todas, respondendo ao coração que ansiava pelo encontro. Ela era tão linda que parecia inatingível, cercada de olhares e desejos que me faziam recuar a uma condição de menino, que não se atreve a tentar.
Mas sem perceber, as palavras tinham chegado, mostrando e encantando e fazendo nascer um futuro pouco provável.
Depois de muito conduzir, parei numa estação, muito nervoso e esperei por um dos comboios da tarde. Os lugares comuns tornavam a cena ainda mais ansiosa, aguardando pela recordação de uns lábios que ofuscavam...
Ao chegar um sorriso, seguido de um abraço enrroscado. Depois um pedido em múrmurio.
- Vamos sair daqui.
O mesmo carro levou-nos para perto do mar, empurrados por uma brisa que ia falando coisas baixinho. Estacionei em frente das ondas e ali fiquei sem saber muito bem o que dizer. Então lembrei-me do que tinha planeado de forma tosca, uns dias antes. A vida devia ter banda sonora e fiel a este desejo tonto, levei comigo um discman e um CD previamente escolhido. A certa altura, tinha pensado, convidaria-a a ouvir “aquela” música e num momento de intensidade inigualável...
Bom... Perdido num beco sem aparente saída lembrei-me do CD que puxei para junto de mim. Ia a começar a falar da música quando ela olhou para mim de forma muito directa. Tirou-me o discman das mãos e atirou-o para o banco de trás... Depois segurou-me na cara de forma doce e beijou-me com paixão...

sábado, março 17, 2007

Se escrevesse...

Se escrevesse agora algo, seria profundamente depressivo. E como disso fujo...
Vou voar baixinho de mota e ver o mar, para ver se me acalmo...para que me acalme...

sexta-feira, março 16, 2007

O pequeno Tom...

Não tenho por hábito desejar que o passado volte. Gosto apenas de recordá-lo no que teve de bom. No que me fez sonhar, nas memórias que guardo com carinho. Ao fazê-lo espero recordar alguma da minha essência e se conseguir, resgatá-la para o presente.
Tinha pensado em fazer um post para uma das séries mais antigas de que me lembro. Uns bonecos animados lindos que se chamavam ‘Franjinhas e o Carrossel Mágico’. Mas para ser justo, a escrever tinha de ser sobre aquele que até hoje é de longe o meu preferido. Que revi vezes sem conta e cujo DVD não comprei porque a dobragem não é a original. Ao que parece, entre a RTP e mais alguém, houve quem se encarregasse de deixar perder talvez a melhor dobragem de todos os tempos. Ainda me lembro com orgulho de consegui imitar na perfeição o Joe Índio, vilão de enigmas e presença assustadora.
Os pés descalços, a pureza de uma infância vivida com intensidade, mas sem a consciência de que pudesse um dia acabar. A eterna visão de aventura perante os mais insignificants pormenores... O sentido da amizade sem porquês, confortável numa corrida junto ao rio ou no observar das estrelas, mordiscando uma palhinha.
Já quase adulto, durante a universidade, lembro que uma amiga me telefonava para avisar que estava a começar na televisão... Para que durante uns vinte minutos ficasse de olhos esbugalhados, sem me atrever a piscá-los e quantas vezes largando lágrimas de criança que se reconhece. Que saudades, pequeno Tom.





Elvis...

Aos 14 admirava o Elvis. O mais novo, ainda sem golas. Sem a decadência sedutora de Vegas e dos brilhos. Só hoje a entendo, percebendo a sua razão. Deixo-me empurrar para um sono estranho, com tons que me apetece partilhar. À melodia ouvia-a pela primeira vez na Radar, há uns tempos...
Estranho? Podia parecer, para um qualquer candidato a melómano e irritante pseudo intelectual. Mas não! Ouvida com atenção encaixa em perfeição...em alternativa...





quarta-feira, março 14, 2007

Pizza, lágrimas e risos…

Uma festa de crianças! A experiência mais incrível que alguém já adulto pode viver. Aos sete anos a energia é maior que nunca, mostrada em cada brilho de olhar que pergunta e observa sem parar.
A ansiedade começou ainda na escola, com os parabéns, o bolo, o desejo pedido debaixo da mesa, mordiscando a vela... em ritual que desconhecia.
No recreio as perguntas sucediam-se.
- Quando é que vamos? Quando começa a festa?
Depois lá se formou a fila, de vinte pequenitos, e felicidade antecipada, até à pizzaria. Cada um deles ia fazer a sua própria pizza, que depois comeria em alegria pura. Mas antes, descobriram o pequeno espaço de brincadeiras, com bolinhas às cores, colchões e túneis imaginados, como numa grande aventura, em que procuravam um tesouro.
Depressa a exitação ultrapassou a nossa compreensão, com risos largos, gritos, jogos de protecção e estratégia. Juntos rebolavam, caíam, puxavam uns pelos outros enquanto resolviam pequenos conflitos de maneira engraçada. De vez em quando chorava um, a Maria, o Manuel, a Inês, a Carolina várias vezes, alvo de dez boladas certeiras, nas suas próprias palavras confessadas em soluço. Até a aniversariante experimentaria o sal de uma lágrima, por uma vez mais fruto das tais bolas às cores. Depois voltavam a entrar, esquecendo os precalços, não se importando com a possibilidade de se magoarem novamente. Afinal a alegria era maior que tudo, visível nos cabelos transpirados, na vontade interminável de brincar.

terça-feira, março 13, 2007

Um dia tinha de acontecer...

Ao fim de tantos anos, finalmente aconteceu. Pela primeira vez na minha vida fui ao cinema sozinho! Mas não me estou a referir à experiência de ir ver um filme sem companhia. Quando digo sozinho, é sozinho mesmo! Não havia mais ninguém na sala!
Eu bem estranhei logo no momento em que comprei o bilhete. Estou habituado a ir ao cinema sem companhia, por fazê-lo de impulso, normalmente em tardes serenas, em que não tenho nada programado. Quando ia escolher o lugar, a senhora que o vendia interrompeu-me.
- É livre. Pode escolher o que quiser.
Como sei que aquelas salas têm lugares marcados, comecei a desconfiar. Depois, quando tive de abrir as portas e sentar-me sem se quer mostrar o bilhete a alguém, percebi que tinha chegado o momento que tanto aguardara. Estava só. Tinha a sala só para mim!
Existe um misto de excitação pela sensação de importância e de receio de ninguém se procupar com a qualidade da exibição do filme. Afinal era só um ali dentro.
Depois vamos-nos habituando a uma realidade nova e sorrimos pela oferta de duas horas de pura exclusividade. A fantasia do filme foi saindo do ecran, envolvendo um Duende Feliz, observando outros seres de magia.
Quem vive sozinho... quem se habitua a encontrar serenidade na solidão... descobre em pedacinhos, a singularidade e alegria destes momentos.







segunda-feira, março 12, 2007

O começo...

Aos catorze anos dei o meu primeiro beijo! Pelo menos um beijo a sério. Já tinha encostado lábios, mas em demasiada inocência para que o considerasse um verdadeiro beijo. O primeiro terá sido ainda antes dos seis, pelo que me contam os meus pais, numa das nossas frequentes viagens a Espanha. Ter-me-ei então enamorado por uma pequenina sevilhana de loiros caracóis, chamada Mercedes. Eu, ela e o meu irmão costumávamos brincar tentando dar cambalhotas num sofá. Ao que parece eu era o único que não conseguia a proeza e talvez tenha sido isso que encantou a menina que, embora não lembre, me concedeu um beijo.
O outro, o dos catorze anos, foi diferente, de coração descontrolado, pulando. Cheguei a casa em extâse. O meu primeiro e “verdadeiro” beijo!
Ela era mais velha, com dezassete anos, aparentando mais de vinte, capaz de me fazer tremer as pernas e constantemente interrogar – Porquê eu? O que ela veria em mim?
Os meus colegas acotevelavam-se por um lugar perto dela, tentando espreitar para um decote um pouco mais largo. Não controlavam as hormonas que lhe nasciam e rebentavam na cara, sem disfarçar o descontrolo. E eu, sem que fizesse algo de especial, porque nem saberia como, era pela primeira vez amado.
Devo ter andado nas nuvens por um tempo, sentindo-me diferente de todos. Algum tempo mais tarde, como em muitas estórias de amor, algo impediria a nossa relação, de forma abrupta e triste. Mas antes os meus olhos brilharam verdes em cada momento que passámos juntos.
Um dia, eu e o meu irmão convidámos um conjunto de colegas para ir a nossa casa numa tarde sem aulas. Ela também foi, de vestido azul, segurando o meu braço para caminhar, como gostava de fazer. As luzes fecharam-se e a música começou. Demorou anos até que conseguisse ouvi-la sem sentir fortes arrepios de saudade...







domingo, março 04, 2007

Entre o fumo e ela...

1986 passava devagar, porque nessa altura o tempo não tinha tanta pressa. Aos 13 anos experimentava as primeiras rebeldias num 8º ano que me diziam ser mesmo assim. Tinhamos descoberto os cigarros e faziamos do fumo um verdadeiro culto, misto de segredo com a experiência de pulmões cheios. Dizia que não fumava por estilo ou qualquer necessidade de emancipação. E acho que era verdade, porque o fazia apenas entre um pequeno grupo de amigos. Um dia, fomos comprar 2 ou 3 maços e rumámos a casa do Pedro, habitual refúgio das nossas aventuras. Devo ter fumado com demasiada ansiedade, em falta de jeito, porque passado pouco tempo comecei a sentir-me mal. Tive que me ir deitar numa cama a comer uma maçã verde para ver se melhorava. Mas a cada segundo me sentia pior. Tinha tonturas, suores frios, não pensava com clareza...
Segundo alguns entendidos de então estaria a passar por uma experiência a que chamavam qualquer coisa de grande ciência como “apanhar uma moca com tabaco”.
Não consegui ir à escola e fui para casa, para ver se me passava. Devia ser a primeira vez que não ia a uma aula. Deitei-me no sofá da sala, verde escuro, depois de colocar um disco na aparelhagem. Era uma colectânea que ainda hoje tenho em casa dos meus pais, mas cujas músicas já não recordo bem. Sei que uma me tocou em especial porque desatei a chorar ao mesmo tempo que gritava uma jura de não voltar a fumar.
Melhorei aos poucos, até me sentir com forças para ir para a escola que ficava perto. Entrei numa aula já a meio, ainda meio ressacado e sem conseguir pensar bem. Antes de me sentar fui direito a ela, mais uma rapariga feia, mas por quem sentia uma atracção.
Baixei-me junto a ela e segredei uma pergunta.
- Queres andar comigo?
Estava ainda debaixo do efeito da minha “moca”, pois ao contrário não teria tido coragem para tanto. Ela quase caiu da cadeira, mas aceitou...
Não durou muito. Já não me lembro porquê, mas ainda recordo o seu nome. Vou lembrar-me sempre...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Uma estória de amor...

Normalmente evito conversas que não desejo. Das que nos fazem desejar desaparecer em vez de envergonhar, numa atenção que nos vai escapando...
Cheguei cedo ao cinema Londres no último fim-de-semana, por ter visto mal as horas. Esperava encostado a uma parede, semi-sentado por baixo de um cartaz com luzes, quando a vi a descer. Uma senhora muito bem arranjada e de alguma idade descia as escadas com dificuldade. Não consegui ficar parado sem ir em seu auxílio. Os braços cruzaram-se num obrigado de alívio.
- Obrigado meu jovem. Eu tenho dificuldade em ver...
No final, desembaraçada dos degraus, dirigiu-se à bilheteira e voltou em seguida para perto de mim. Deve ter adivinhado o meu espanto porque explicou com um sorriso.
- Vejo mal ao perto. Mas consigo acompanhar bem os filmes. Às vezes lá escapa uma legenda ou outra, mas vou percebendo... vou percebendo.
Antes que percebesse, o seu braço já estava de novo poisado no meu.
- Sabe, antes vinha sempre com o meu marido. Foi assim que nos conhecemos.
- No cinema?
- Sim. Um dia, enquanto espreitava para ver que filme tinha estreado, demorei-me a ler um panfleto de muitas cores, desenhado à mão... Então, um rapaz muito alto começou a andar na minha direcção. Falou com a voz a tremer.
- Peço desculpa, mas tenho um bilhete a mais para o filme. Posso convidá-la a fazer-me companhia?
- Depois corou um pouco. Corámos os dois. Eu disse que disse que sim baixando um pouco o olhar. Tremia tanto.
Entrámos na sala que estava quase vazia e ele convidou-me a sentar. Antes que as luzes se apagassem perguntei-lhe.
- Porque tem dois bilhetes?
Ele olhou para mim de forma sincera e respondeu sem medo.
- Porque os comprei...

Tinhamos bilhetes para salas diferentes e o meu filme estava prestes a começar. Despedi-me com um aperto de mão e afastei-me um pouco.
Olhei para trás e vi a senhora a abrir a carteira, procurando algo. Não resisti e voltei para trás. Quando me viu, pediu-me a mão para me mostrar um pedaço de papel muito antigo. Era um bilhete de cinema onde ainda se lia com facilidade um nome – "Rome Adventure".

Demorei dois dias e muitas horas frente ao ecran... Isto foi o que encontrei. Espero que gostem.







domingo, fevereiro 25, 2007

A conclusão II...

Afinal não percebi nada. E por estranho que pareça é o aceitar desta incapacidade de prever que me tranquiliza. Porque tudo pode acontecer. Porque tudo ainda vai acontecer (mesmo que não aconteça). Eu disse que gostava de raparigas bonitas!!! Tolo, absurdamente tolo, é como me vejo. A beleza é tão impossível de definir. E quando uns olhos ternos que escapam a qualquer classificação me derretem... Então entendo o que espero. Aguardo apenas o que me estiver destinado. Um abraço que me dê a certeza de que são aqueles os braços que me envolverão até ao fim. E vou ter forças para não me contentar com menos que isso! Vou mesmo!


Escrito sob a influência de álcool (embora pouco) e a ouvir Bob Marley...

Cheguei a casa! A noite foi agradável, embora curta, por cansaço dos meus pares, pouco motivados para ver o sol nascer. Havia quem estivesse nostálgico, apagando em memórias que lhe fazem mal, sem capacidade para largar o passado (doloroso). Havia quem não se afastasse de um registo sempre constante, que não manifesta muito, mas é simpático e por tal não motiva comportamentos de grande intensidade. Alguém também estava normal, amigo e leal, como sempre. De comportamentos onde crescem as grandes amizades. E depois os dedos... Não consegui deixar de reparar como os dedos dela são compridos, elegantes e chamando o toque. Humm... Não me posso deixar levar apenas por singulares pormenores... Terei que alicerçar melhor as minhas observações. Quem sabe...

Até o descobrir...”Give thanks and praises...”

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

A confissão...

Gosto da novela “Páginas da Vida”! Pronto, está dito. Tenho 34 anos e reconheço a paz de não ter que fingir. Na adolescência temos que seguir as modas, escondendo preferências que nos embaraçavam. Depois dos 30 é diferente. Já não importa.
Podia dizer que oiço música alternativa, que vejo cinema independente... Podia mas não o faço. Pode ser que sim...ou não. Pode até ser que passe as minhas tardes de Sábado a sorrir na companhia de comédias românticas. Não importa mesmo.
Gosto desta novela, porque gosto! É como quando nos sentimos atraidos por alguém. Existe sempre algo de pouco racional na forma como nos enamoramos. Só depois pensamos nas razões.

Neste caso na forma serena e despretensiosa como cada episódio troca emoções com a vida. No doce reconhecer de quem apenas parece diferente, escolhendo uma pedagogia suave, normal, para abordar temas que custam a entrar no que abraçamos. Pela minha parte vou tentando ensinar a uma pequenita o que aprendi por mim, lentamente. Se cada um de nós o for tentando...
Talvez me farte, se a narrativa tropeçar nas exigências comerciais. Até lá vai-me fazendo companhia...

«É boa a sensação de partilhar o que me vem à cabeça. Experimentem!»

quarta-feira, abril 05, 2006

Burried...(o fim)

"Termino este blog com o desvendar de um nome que, durante uns meses, foi meu...
Termino com um sorriso...

miak


Se fosse enterrado gostava que fosse no meio de um pântano. Flores de lotus por certo encontrariam o meu gritar, para que pudesse libertar-me...

Há já muito tempo que esperava por este dia. Quando acordaria sem tremer de medo. Deixaria tantos receios em partir e viver só para ti...

Era uma vez um rapaz...mas não um rapaz qualquer! Este era lindo e bravo, capaz de encantar uma bruxa horrorosa.
Ele vivia ignorante sem saber o que fazia, porque teimava em não encontrar tesouros. Sabia que a vida não era assim tão longa, mas que fazer perante um destino em que não se acredita?
Um dia, acordou cedo, bem mais cedo que o Sol, por capricho poético que de tão usado já nem fica bem.
A música era a mesma de sempre por ser imaginada e o banho podia esperar, por preguiça e mais caprichos.
Seu nome era miak, invenção suprema de uma mãe analfabeta abandonada por senhor Oriental, porco frequentador de prostitutas. Que linda ela continuava a ser, sexual e escandalosamente apetitosa em seis punhados de décadas tristes mas bem embaladas.
Margarida era nome bem mais apropriado para a flor escolhida, agora já a murchar mas sempre sorrindo.

- Até logo querida mãe. Como sempre não venho jantar.
- Adeus lindo. Porta-te bem meu querido...ou pelo menos como quiseres.

Correr pela rua continuava a ser um prazer tolo e sem sentido...Vinte anos a fazê-lo formam hábito aplaudido pela vizinhança.
Hoje era dia de ir ter com a bruxa que se aquartelava em albergue distante. Era para ter sido há uma semana, mas outra prostituta levara a melhor. A minha campa podia também ter fotos delas...centenas de meninas comerciantes de sexo que me ensinaram a amar.
A meio da cidade o folêgo já não era brilhante...Não era fumo nem crack, nem o que impedia outros a meu lado de ganhar esta corrida. Era só cansaço. Tinha de parar, e olhar a linda rapariga de olhos negros que dançava junto a mim...
Deviam ser mais sonhos...daqueles que me deixam sorrir, mas não ouso tocar, por medo que desapareçam.
Há ossos mais brancos, mas já sem vida e ela escurecera a pele bem viva para me enfeitiçar. Não posso mais esconder a primeira pessoa de uma confissão que nem dói...apenas vai cortando.
E quando parecia que podia continuar, não o fiz. Agarrei devolvendo abraços. Beijo-te forte para que não esqueças como é o meu sabor. Um leve aroma de loucura crescente que te deixa caída e a murmurar pedidos...
Passam horas até que o horrível Sol se despeça e caia aos trambolhões pelas colinas aí atrás.
Agora sim podia correr de novo. E assim foi.
Saiu fora do corpo e voou até à Bruxa...
Ela estava à espera de negro, o que raramente acontecia. As Bruxas hoje são claras, ruivas ou loiras e pintam muito as unhas...
Talvez fossem cinquenta ou cem pessoas que deixou para trás no final da tarde. Mas era ela que mandava ali e lhe ordenava que entrasse...
O espectro da mãe já adivinhando a morte ia tomando forma rindo, obrigada, numa cadeira muito nova.
O pai mantinha-se prudentemente distante e sem rosto.
- Vieste para morrer não foi?
- Vim para acabar esta vida...
Talvez o incenso ajudasse um pouco, porque a cena nada brilhante seguia com dificuldade. A incerteza de mais razões precipitaram o fim e jaz agora em podre alcatifa...a lenda de miak, amante apaixonado, terminando pior estória mas com olhos serenos...E as flores com medo de pântanos, por aqui ficariam não deixando que fossem enterrados...

quarta-feira, março 15, 2006

A velha paixão...

Joana já passava dos setenta. E parecia-o bem, com longas rugas sulcadas, dançando ao pé dos olhos de muito azul, os únicos que permaneciam jovens. A pele não era seca e retinha um odor agradável, mas muito velha. Não era muito alta, mas contrariara a curvatura de hábitos, mantendo a postura e o orgulho. Andava sempre de saltos altos, ignorando as três varizes e uma leve pontada na terceira vértebra. O andar era perfeito, mas coxeava.
Chegou perto da esplanada e logo o viu. Na única mesa ocupada, segurava um copo distraído, brincando com o seu reflexo, em pleno êxtase na ausência do pensar.
Fernando devia ter pouco mais de vinte anos e roubara logo à nascença uma beleza fora do normal, com olhos de um esverdeado normal e o cabelo castanho que lhe balançava na sua frente.
Joana encheu o velho peito com algum ar e perguntou.
- Posso sentar-me aqui ao pé de ti, meu rapaz?
Ele acenou que sim, enquanto se revirava para confirmar que haviam muitas mesas disponíveis. Reparou logo nas rugas, na velhice, nas mãos com manchas por explicar, admitindo pouco, pelo cuidar e apresentação.
- Meu querido, tu és absolutamente lindo. E eu adorava um beijo teu.
Até tentou, mas não repudiou. Encontrou os tendões ou músculos que precisava de morder para ocultar o riso e tropeçou na resposta.
- Beijá-la? Está bem. É até um prazer.
Fernando só reparou então nos lábios, muito finos e encarniçados. Estavam pintados numa cor garrida que transbordava do seu rebordo. Não ia ser capaz.
- Desculpe, mas é melhor não.
- Que foi? Tens medo de te apaixonar por mim?
Ele riu de leve, nervoso, enquanto a ouvia.
- Olha, eu sei bem o que sou, mas no interior não me conheces. Sou jovem e bela como desejas. Só tens que acreditar. Conheces a estória do príncipe transformado em sapo? Bastou um pequeno beijo, para que o feitiço se quebrasse. Comigo é igual.
Ele demorou o olhar novamente, respirando cada traço de uma velhice tranquila mas profunda. Que tinha a perder? Podia ser que ela falasse a verdade. Estaria escondida uma bela jovem, em manto e feitiço?
Aproximou a face da dela, num sussurro sincero.
- Eu acredito.
Devagar, os dois lábios foram-se aproximando. Os dele, cheios de cor, de grossura ideal, mesmo para homem, procurando os outros. Ao de leve tocaram-se primeiro, para depois apertar, envolvendo-se, revelando uma paixão antiga que libertava pequenas faíscas e muitas sensações.
Ao afastarem-se, Fernando manteve os olhos fechados por um momento, permitindo à memória o decorar daqueles segundos.
Depois, muito devagar olhou para ela, esperando…
Teve dificuldade em saber, em perceber o que via. As rugas continuavam lá, profundas. O cabelo grisalho chamando o branco, a altivez antiga de anciã. Joana perecia igual, mas sorria.
Com um gesto simples esticou os dedos e seguiu o contorno da sua face. Foi abrindo uma expressão de ternura, finalmente a reconhecer. Olhou para a idade, inalterada, sem falsa juventude. Escutou a velhinha de olhos nos dela, sentindo o toque da sua mão.
- Caminhas comigo, por um momento?
- Claro que sim.

domingo, março 12, 2006

Junto ao cimo...

Da primeira vez foi estranho. Era de dia e estava num espaço amplo, como um deserto pouco árido e onde se podia chegar de carro. Nem precisei de impulso. Subi em súbito disparo, rumo a um azul e ao horizonte, que era tanto. De repente tomei consciência. De onde estava, do que estava, de tudo o que acontecia. Reconhecia e dominava o sonho, no que era possível, no máximo de controlo que poderia ter. Voei como nunca, sabendo que o corpo dormia, mas de alma solta, elevada pelo vento. Acordei de brilhos, com alegria contida, percebendo e sentido a conquista, o triunfo.
Passou um tempo e desta vez era de noite. Sem saber porquê, vi-me na casa desabitada dos meus avós. Pleno de sorte, percebi novamente o sonho, sentindo o seu controlo. Estava de novo a acontecer.
No terraço de infância voei outra vez, abraçando a escuridão. Subi para ver as luzinhas de janelas e prédios, aprendendo a virar, esticando os braços ao vento, sustentando um equilíbrio nem sempre perfeito. É difícil voar. Lembrei-me de procurar a casa de alguém, tentando orientar-me por entre os edifícios acinzentados e escuros. Perdi-me rapidamente e cheguei perto do mar. A amplitude do seu espaço impelem à velocidade, mas o exagero fez-me perder. Olhando para os lados só via o contorno de uma ponte e não conseguia voltar. Então descobri outra habilidade. Perante o desconforto podia voltar, acordando em calma, terminando a aventura em regresso terno.
As bochechas ficavam rosa ao perceber tamanha proeza. Eu dominava os sonhos!
Umas noites mais tarde “acordei” novamente na casa de avós, no local onde cresci. Segundos bastaram para de novo entender e antes que outros passassem já eu subia. Desta vez queria fazer algo diferente, mas não era fácil. O controlo do voo era complicado e nem sempre vamos para onde queremos, quando sonhamos. Acabei por encontrar uma janela aberta. Era um apartamento de família, onde todos dormiam. Entrei em silêncio, espreitando as curvas dos edredons, caminhando por passos no corredor com alcatifa. Senti o erro da invasão e fiz a escolha que posso e uso. Acordei de novo.
Durante o dia analisei este estranho poder. Porquê voar, porque escolher o ar, perante o controlo do sonho? A resposta não vinha cheia de razões, de quem escolhe o que nunca poderia ter, de olhos bem abertos. Mas depois lembrei-me do que também me falta…e sorri. Na próxima vez pediria outra coisa.
Não passou muito tampo. Afinal sonho quase todas as noites. Mal o sono caiu no meu sentido, percebi que chegara a hora. Com um simples piscar, de olhos fechados, fiz com que ela aparecesse. Era bonita, de cabelos loiros encaracolados, mas como quase sempre não consigo recordar a cara. Acho sem certezas que vestia uma longa camisa de dormir de puro branco. Com gentileza tomei a sua mão direita. Pelo canto do olhar, ouvi o peito a ansiar…e voei. Voámos de mãos dadas, parando em sustentação mágica um pouco mais a cima. Então tudo se quebrou. O rapaz homem deixou instintos sem magia tomarem controlo, e os pozinhos caíram com o tremer. Talvez reconhecendo o erro, talvez imaginando inconsciente a queda eminente, acordei, desta vez sem escolha.
Na próxima vez quero ver os traços, deixar o tacto apenas a um instante, sem invadir. No próximo sonho, quero apenas o rapaz assustado…

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

O néon...

Todas as tardes ela acordava, devagarinho e assustada. Vivia de uma tranquila enfermidade, digna no olhar, sempre de cores e do peito, sedutor, em contraste com a figura. Antónia era outra das feias, de um arrepio de ninfas, escondidas, com medo do agouro ou das rugas.
As pernas começaram a tremer a partir dos sessenta e permaneciam a vibrar em constância, para lhe lembrar. Tantos eram os estalos que duvidava da sobrevivência das frágeis articulações. Mas lá ia conseguindo andar. Sempre à mesma hora, de sacola branca, com uns rabiscos a caneta, saía de casa.
Ao fundo da rua lá estava ele, desafiando a sua crença e paciência, a vontade de ainda descobrir. Por cima de uma casa pequena estava uma placa em ferro gasto, ostentando um néon encarnado que acendia e apagava. Ao longe era impossível ler o que dizia, mas parecia uma pequena palavra. Estranho era quando Antónia se aproximava. A luz ia desaparecendo, até se extinguir por completo. À beira da estrutura o néon desaparecia, sem luz. Era composto por um emaranhado de fios e metal retorcido, tornando impossível a sua leitura.
Mais tarde ao voltar, já de sacola cheia ia-se voltando para trás, esperando o cintilar da luz. Aos pouco ela ia voltando, piscando primeiro, até se fixar na expressão distante, incapaz e destorcida, sem leitura e percepção.
Repetia-se o costume, ficando hábito e a Antónia ia resmungando.
- Maldito! Andas a troçar de mim.
Quando voltava, sentava-se na sacola e suspirava, imaginando o que não podia ver.
- Que escreves tu, que tanto escondes?
Um dia saiu mais cedo e percebeu logo a mudança. Junto do néon, dois homens andavam atarefados. Puxavam e dobravam, e faziam barulho com as ferramentas que caíam. Ainda leve, aproximou-se depressa da curiosidade. Descobriu a estrutura, quase desmantelada, com pontas de arames fazendo nós muito complicados. Não resistiu a perguntar.
- Desculpem meus senhores? Posso perguntar o que estão a fazer?
- Boa tarde minha senhora. Estamos só a desmontar este traste velho. Amanhã instalamos um ecrã novinho em folha. Até passa filmes!
Arrastada pelo inevitável continuou.
Não queria incomodar, mas podiam dizer-me o que lá estava escrito?
- A senhora nunca viu? Pois…estava sempre a apagar-se. Como o novo já não há problema.
Ela impacientou-se.
- Mas o que dizia?
- Pertencia a uma Igreja que existiu aqui. O senhor padre adorava néons. Mandou escrever – “LOUVAI A DEUS”.
O outro homem esfregava as mãos num pedaço de pano muito sujo, ao mesmo tempo que falava. Não teve sorte o pobre homem. Avariou-se ao fim de uma semana. As primeiras letras fundiram-se. As restantes, quando acendiam, escreviam um simples – “A DEUS”.
Antónia cumprimentou e seguiu caminho. Ainda tinha muito que fazer, naquela tarde.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O rapaz de binóculos...

Havia um pequeno rapaz que andava sempre de binóculos ao peito. Devia ter uns dez anitos e vestia muitas vezes uma camisola de lã verde com uma risca amarela no peito. Os binóculos pendiam-lhe, enormes, pretos, de umas tiras em couro gasto com um cheiro imaginado muito característico. De tempos a tempos ele apontava-os a alguém que passava, seguindo o seu caminhar. Era vê-los fugir ladeira a baixo, protegendo a face com as mãos, cobrindo-a com casacos ou com as malas. Tinham medo.
A Mariana passava sempre devagar, deixando-se ver, sem proteger, descendo a rua com um saquinho em serapilheira. Ela conhecia o segredo, mas não o temia, ousando reflectir nas lentes azuladas.
O rapaz não apontava, deixando-a seguir em paz. Preferia assustar os medrosos, aos trambolhões passeio a baixo, derrubando latas do lixo. A sua preferida era a Dona Micaela, que saía de casa sempre à mesma hora. Usava um lenço que caía do chapéu de aba larga. Cosera-lhe uma prata fina que reflectia e brilhava muito. Passava temerária frente ao rapaz, de salto alto fazendo ruído, ciente da sua invulnerabilidade. Ele achava-lhe piada, deixando-a continuar, abundando-lhe a inclinação do nariz.
De vez em quando aparecia alguém que não sabia, que ignorava o rapazito e os seus binóculos pretos. Nessa altura todos paravam. Viam-no destapar as lentes, uma de cada vez, e apontar na direcção de quem chegava, sem alguma pressa. Ao princípio nada acontecia. A pessoa até se sentia bem, refrescada, num torpor de banho morno, quase feliz. Aos poucos mudava, secando os lábios até ao roxo, crescendo olheiras em negritude. A roupa amarrotava um pouco, pedindo alinhavos de mãos com habilidade e paciência.
A tarde ia alta quando apareceu mais um estranho. Procurava e perguntava, em busca de uma orientação. A Micaela suspirou-lhe para cima, e os outros recuaram.
Ficou no meio da estrada, descobrindo o rapaz, de binóculos tapados, que viu o homem, já grisalho, atirar os passos na sua direcção. Sem se mover, aguardou.
- Oh menino, sabes onde fica a Rua Celeste?
Enquanto destapava apenas uma das lentes, por precaução, respondeu.
- É já ali no cimo, virando à direita.
- Obrigado. Estava a ver que não.
A tampa voltou para o seu lugar com delicadeza, enquanto via o homem começar a subir. Depois sentou-se em dois degraus empoeirados. A Mariana chegou perto dele. Sem largar o seu saco anichou-se sentada a seu lado. Pensou na lenda dos binóculos negros. De como podiam roubar a alma dos que ele descobria. Dos que fugiam por temer…sem entender.
Tirou um pedacinho de pano encarnado do seu saco e esticou-o para o sol. A luz passava escarlate pelos pequenos poros do tecido. Amarrotou-o antes de falar.
- Olha…porque nunca me viste com os binóculos?
- Eu vi…desde o início.

sábado, fevereiro 11, 2006

Maria João e o corcunda...

Ela colocava um passo e depois pensava no seguinte, escutando o rasto simétrico das sapatilhas raspar na terra. O cabelo estava preso por uma mola amarelada com dentes finos, escapando desordenado em pequenos tufos. Nos ouvidos, um par de auscultadores modernos acentuava a curvatura da sua postura, dobrada sobre o peito, dando-lhe um aspecto masculino e forte. Maria João era assim…linda.
No dia seguinte, pela noite, havia uma festa, para a qual fora convidada, onde iria sem vergonha, para ver dançar. Olhou-se um pouco ao espelho, antes de se deitar, espreitando a ausência de beleza, ainda de auscultadores colocados. Pensou se deveria mudar alguma coisa, se poderia embelezar-se, recorrendo a truques e mais cremes. Por fim troçou das dúvidas ao vidro espelhado.
- Vou mesmo assim. Que me importa?
E foi dormir. Sonhou que procurava um hotel perfeito, procurando em cenários diferentes. Só ponderava em função do toque das campainhas de recepção, que em alguns já não existiam.

Joaquim olhava em frente, para um espelho que reflectia outro, nas suas costas, para que as visse. A partir dos cinco anos de idade, começou a desenvolver uma corcunda, que só estabilizara já em adulto. De passar tantas horas a vê-la, à corcunda, descobriu que já não a estranhava, que fazia parte de si. Sentia a pele esticada no dorso, como uma presença constante sem dor, teimosa sem enrugar.
Vestia-se com facilidade, preparando-se para a festa. Divertia-o a novidade que causaria, o espanto explodindo nas expressões. Chegara à vila há pouco mais de uma semana, para dar aulas de literatura num externato de bom nome. Durante esse tempo não saiu de casa, uma antiga e cinzenta moradia no cimo da rua principal. Adorava em êxtase a criação de uma imagem misteriosa e às vezes assustadora de si próprio. Isto até falar, até que o conhecessem. Então revelava a normalidade extrema, contrariando a curva nas costas e a encenação do início.

A Maria João chegou quinze minutos depois da hora, de auscultadores, de mola e cabelo despenteado. Endireitara-se um pouco, na única concessão permitida, saindo de um xaile em lã branca, tricotado em dois dias. Tinha ouvido falar do novo habitante da vila, recolhido e invulgar, que aparecera numa noite de nevoeiro, com uma longa capa curvada.
Olhou para o centro da sala e descobriu-o a conversar alegremente. O negro do fato atenuava a corcunda indisfarçável, parecendo que se esticava em esforço doce, contrariando o hábito.
Ele reparou nela, no mesmo instante que os auscultadores caíram em sincronia, baloiçando na cintura. A sala parou ao vê-los caminharem a um encontro de mãos, cumprimentando-se com gentileza.
Invejou-se a nobreza da primeira dança, deslizando em graça no reflexo do chão. Comoveram-se as velhinhas ao vê-los sentados lado a lado, conversando com simpatia. – Que exemplo! Exclamavam.
Maria e Joaquim falavam muito baixinho, em simplicidade.
- Achas que alguém reparou? Perguntou ele.
- Tenho a certeza que não. Estão convencidos que não nos conhecemos, que foi amor à primeira vista.
Os dois esforçavam-se muito por não rir, envolvendo a alegria na sua representação, misturando-a com outras coisas.
Ela estava em delírio, adorando o tempo e os olhares.
- O que pensarão que estamos a conversar?
Joaquim colocou um ar grave e solene.
- Imaginam uma estória de contos…e de fadas. Um soneto dedicado em improviso, a beleza das palavras nos lábios de um monstro, encantando estranha donzela.
E continuou a dissertar.
- Reconhecem conversas eruditas e complexas, afinal capazes pelos menos afortunados, prova de um intelecto superior, compensador da condição menor. Que nobres. Que nobres!
A música que começou a ouvir-se, valseava por entre a curiosidade de um orgulho estampado. Maria João e o corcunda conversavam, felizes.
- O que estavas a ouvir, quando entraste?
- Aquilo que me gravaste na última vez. Não consigo parar.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

O alpendre...

A menina tropeçava muito. Tinha caracóis em avelã e uns tótós presos com fitinhas, uma amarela e outra verde. O vestido mostrava uma renda de pouco uso que se lhe embaraçava nas pernas fininhas e a fazia cair, mais uma vez. Primeiro chorava um pouco, vendo as gotas pularem junto de pedrinhas empoeiradas. Em seguida, sorria até poder rir, desenhando palavras na terra, encontrando forças para se levantar. Estava farta de tanta tolice.
Rodou em volta e achou um alpendre muito novo. Vivia preso a uma morada antiga, com mais de muitas ervas, já daninhas, a indicar e apontar – É aqui a entrada. E ela entrou.
A casa tinha uma escada branda que curvava para o primeiro andar, impondo respeito e altura. No seu lado esquerdo descobriu uma porta pequena e um quarto muito escuro, de que teve medo. À entrada, numa moldura de madeira talhada, repousava um punhal em cor de prata, com uma etiqueta noutra língua. Pegou nele e avançou na escuridão.
Ao entrar ouviu um ruído cadenciado, como algo rodando, mostrando luzinhas brancas a alternar. À sua frente era projectado um filme a preto e branco, igual aos que o seu avô via todas as sextas-feiras, sempre sozinho, com o seu copo de vinho branco. Conhecia-os de cor, aos filmes, esgueirando-se para perto dele, arrastando os joelhos para não tropeçar. Um dia perguntou-lhe porque gostava de estar só. Ele fez-lhe uma festa, mimando a pequenina sem responder.
A arma não lhe assentava bem na doçura e obrigava a um andar em desalinho, arrastando frieza que lhe abria o olhar. Poisou-a numa mesa baixa, com um tampo cheio de desenhos. Reparou então no filme, onde um carro seguia devagar, por uma estrada ladeada de árvores e cercas. Era um Vauxall antigo, palmilhando léguas e alcatrão recente. O plano iniciou a descida para identificar um homem elegante a conduzir. Estava sozinho e apesar do vento o cabelo, muito penteado, parmanecia no seu lugar. Os colarinhos brancos, em goma perfeita, anichavam uma gravata escura de um nó triangular. Era bonito o seu avô. Não tinha ainda os brancos ou a careca luzidia, mas era bonito.
O carro parou e ele saiu com jeito galante, mudo por obrigação, de gestos perfeitos que se ouviam. O olhar enorme deixou-se apanhar pela lente e num cigarro desfez a cena incompleta, em turbulência. Re-apareceu em cor, com voz cristalina, já de grisalhos orgulhosos e uma menina pela mão, com os mesmos caracóis. A menina já mulher rebentou em lágrimas e fugiu, de novo a tropeçar. Parou no alpendre para respirar. Sentou-se na beirinha com o Sol de Inverno muito forte, bom para pensar. Tirou um caderno rosa do bolso mais pequeno, com um lápis a condizer. Leu três linhas para se lembrar, humedeceu o carvão e recomeçou a escrever. Daí a pouco podia dormir.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A resposta...

A Teresa tinha seis anos, acabados de fazer e acordava nervosa todos os dias antes de ir para a escola. Imaginava como seria encontrá-lo no pátio antes de entrarem no edifício antigo. Prometera a si mesma que desta semana não passava. Tinha que lhe dizer.
Apesar de criança, percebia e via para além das batas em azul escuro e gostava dele. Não lhe chamava ainda amor ou paixão. Só queria ficar perto, sentada no banco, sem chegar ao chão com os pés. Abanando os joelhitos em cadência, à espera…
Miguel era dois dias mais velho, com um sorriso contagiante e muito calmo. Tinha uma lucidez estranha e reparava em tudo, observando.
Quando chegou à escola, ela já lá estava, sentadinha no banco, com o cabelo louro solto, muito brilhante. Aproximou-se e disse.
- Bom dia Teresa. Vou sentar-me aqui ao pé de ti.
Ela afastou uma madeixa de cabelo e sorriu muito doce.
- Sabes se falta muito para começar a aula?
Miguel encolheu os ombros ao mesmo tempo que exibia o seu relógio novo. Tinha uma bracelete pequenina encarnada e os ponteiros eram duas espadas. Ele ainda não sabia ver as horas!
- A professora chama sempre.
- Pois chama.
A manhã estava temperada de Primavera e os dois pequenitos partilhavam o silêncio. Os colegas iam chegando em algazarra, gritando e correndo, atirando com as malas. Eles riam e iam-se aproximando. Quando a professora Tina chamou, estavam tão juntos.
Um enorme banco abundava espaço nos lados e no meio duas batas pequeninas pareciam uma só.
No dia seguinte o Miguel chegou primeiro e foi a correr para o banco. Estavam lá sentadas duas meninas ruivas um pouco mais velhas. Ficaram a olhar para ele de nariz esticado à espera de algo. Mas o rapazinho nada disse. Não sabia o que fazer.
- Vamos embora Joana. Estes miúdos da primeira são estranhos.
O Miguel trepou para o banco na mesma altura que a Teresa chegava. Ficou à sua espera. Mas ela estava diferente, com o cabelo apanhado numa bandolete branca com uns risquinhos amarelos. E não se sentou. Veio até muito perto para perguntar.
- Miguel, queres namorar comigo?
O rapaz ficou muito corado, mas não impediu a resposta de sair.
- Mas eu só gosto de ti com o cabelo solto!
Teresa não tinha a resposta, que encontraria daí a muito anos. Pulou para o seu lado e sentou-se a abanar os pezinhos, um depois do outro. Ajeitou a bandolete e cantarolou um bocadinho. Depois, com a mãozinha procurou a dele, escondida e envergonhada a brincar com o fecho do casaco. Devagarinho, entrelaçou os dedos pequeninos nos seus e apertou um pouco.
Miguel ainda tentou escutar o coraçãozinho, que parecia ter falado. Depois sentiu-se feliz e deixou-se estar.
- Tens a mão quentinha.
- Tu também.

sábado, janeiro 28, 2006

O reencontro...

Já era tarde e as luzes de toda a casa estavam apagadas. Era um Lar de um só piso, de paredes pré-fabricadas, sustidas pelas camadas de tinta branca. Havia um longo corredor entre a sala grande e a cozinha, onde ficavam os quartos, de um lado e do outro. Eram cinco os que lá viviam desde há muito tempo, todos viúvos menos a Maria, a mais nova e única que ainda não chegara aos setenta anos. Era linda a Maria, tinha ainda porções de cabelo negro, que alternavam com as manchas brancas, dando-lhe um ar engraçado.
O Júlio era o mais velho, de quase oitenta poderosos anos. Tinha os olhos muito claros e os ombros teimavam em não descair. De tão alto impunha muito respeito, escondendo por vezes a seu carinho pela Maria.
Ana e David andavam sempre juntos. Viam televisão no quarto dela até muito tarde, até dormitarem por cima um do outro. Depois acordavam muito despertos de madrugada. Conversavam um pouco, de chá quente nas mãos, antes de irem para a cama.
A Zé completava o quinteto, de cabelo branco cheio de brilhos, muito curtinho cortado como se fosse um rapaz. Tinha um delicado mau feitio e discutia muito, mas de coração enorme.
No silêncio, rasgou um ranger de porta e passitos apressados. Um suave bater antecipou o chamar.
- Júlio, estás pronto? Já são horas.
- Já vou, Maria. Já vou.
Ele demorava sempre um pouco mais para arranjar o cabelo. Achava que ela reparava.
- Vamos chamar os outros!
Sem barulho, os cinco encontraram-se no corredor, com enorme vontade de rir, contida na prudência. As enfermeiras tinham o sono leve e era preciso ter muito cuidado.
O Júlio sussurrou em tom delicado.
- Estamos todos. Vamos embora.
A Zé resmungou qualquer coisa e seguiu em último lugar. Sabia que ele era o líder e até gostava disso, mas a sua natureza obrigava-a a protestar.
A noite estava fria e calma, com metade de uma Lua esbranquiçada. No bairro não se via alguém, e os cinco velhinhos, caminhavam esfregando as mãos. Entraram num Ford Cortina muito antigo, que tinha as portas da frente empenadas.
- Já era tempo de comprarmos outro carro. Protestou a Zé.
- Eu cá gosto. Tem história, meus amigos. Tem história.
A Ana concordou com um sorriso e segurou a Zé pela mão. Ficava sempre um pouco nervosa nas noites em que saíam. Sentia-se com arrepiozinhos na barriga, de sensações com mais de cinquenta anos. Assim que arrancavam, esqueciam os anos e transformavam-se num grupo de adolescentes, em busca de aventuras.
A viagem daquela noite era especial. Depois de muito tempo voltariam à Casa Grande, onde foram proibidos de ir. Há uns anos, por uma única vez, tinham sido descobertos na sua fuga. Os enfermeiros chamaram as famílias e fizeram um enorme alarido da situação. Ameaçados de expulsão, em profundo embaraço, prometeram nunca mais fugir e principalmente não voltar à Casa Grande. Todos cruzaram os dedos atrás das costas, ao prometer, mas temiam que na velhice este truque não funcionasse.
A gravilha rangia de som característico ao chegarem ao portão. A ferrugem oferecia-lhe respeito e embaraçava quem lhe tocasse, desprevenido.
- Tens a chave, Júlio? Perguntou a Maria.
Ele sorriu sem falar, ao mesmo tempo que a retirava do bolso esquerdo do colete. Uma satisfação de medo sem par, encheu-lhes a alma quando o viram a rodar e a rodar, com estalidos metálicos a abrirem o portão. Entreolharam-se concordando e decidiram entrar.
Tinham passado muitos anos mas sabiam de memória cada recanto daquele lugar. Ana gostava de arrastar os passos até à entrada da casa, desenhando formas na terra escura. David ia arrancando teias de aranha abandonadas, com pequenas gotas de humidade. Júlio e Maria caminhavam lado a lado, de mãos muito perto. Ela sentia o seu perfume de pele e jurava que lhe lia os pensamentos. Não havia pressa, dizia para dentro, e sonhando sentia o seu toque.
A porta principal era estranhamente pequena, como se pedisse para que não a abrissem, para que repousasse em cor de madeira.
Nesta altura a Zé passou para a frente. Empurrou a porta sem barulho e entrou com passo firme. Os outros seguiram-na.
Cada um prendia as lágrimas do reencontro com aquele espaço de tanto pó. Lembravam a entrada alta, com o chão em xadrez de mármore e a escada que inclinava para cima, de estatuetas alternadas com grandes vasos. Não avançaram! Faltava o som. Era naquele instante que o ouviam, fazendo tremer as pesadas cortinas, peneirando o pó amarelado. Mas nada, desta vez não ouviram nada.
- Não estou a gostar disto. Suspirou o David.
A Ana concordou.
- Já o devíamos ter ouvido.
O som que esperavam, fazia-os temer, na sua ausência. O que outrora os assustara, irrompendo-lhes no espírito, agora fazia falta, deixando o quadro incompleto.
Júlio forçou o maxilar, para pensar. Sem o fazer segurou na mão de Maria e avançou para a escada.
- Fiquem calmos. Vamos subir.
Tudo parou naquele momento para a Maria. Sentia-se a esvoaçar escada acima, levada em carinho, degrau a degrau. Não conseguia tirar os olhos do braço esticado, terminando nas mãos juntas. Desviou um pouco para ver a expressão dele, para perceber a intenção. Júlio virou-se por um instante para trás, acenando um sorriso. Ela não se enganara.
No último degrau, pararam de repente. Um grito fraco rugiu pelo silêncio, misturando as emoções no peito dos cinco, até da Maria. Na verdade, ela nunca ali tinha estado. Chegara ao Lar pouco tempo depois da última visita, mas os anos e a repetição da estória emprestaram-lhe as memórias. Pouco depois recomeçaram as saídas, mas não mais voltaram à Casa Grande, até aquela noite.
A Zé suspirou nervosa.
- Parece ele. Mas um grito?
- Calma! Pediu o Júlio.
- Vamos continuar.
Em frente viram o corredor muito estreito, com as molduras vazias e velas gordas já gastas. Apenas uma estava acesa, dirigindo a luz…para o fundo.
Então, descolando-se das sombras de um recanto, apareceu uma figura pequena e curvada de monstro. Arrastava um bengala de talha perfeita, e cobria-se num manto cinzento, com apenas dois botões, de ouro e mel. No olhar o mesmo sentimento de choro, de saudade e riso.
O tempo parou na chama que os guiava até ao pequeno ser, para que percebessem o passar dos anos. Depois, a Ana voou para os braços dele, largando gotinhas com sal no tapete verde escuro.
- Ramet! Soluçou.
- És mesmo tu!
E abraçou o monstro dando-lhe beijos na cara esguia, cheia de lágrimas e fendas delicadas. Os outros precipitaram-se em cima deles, caindo todos no chão, rebolando a alegria e os abraços, apertando com força as orelhas grandes e espetadas.
- Uma bengala, Ramet? E um grito? Por um momento tememos o pior. Gracejou David.
Júlio também ria muito, e perguntava em provocação.
- Que é feito do teu rosnar assustador?
Ramet falava com dificuldade, tropeçando no choro.
- Está mais fraco, meus amigos. Embaraça-me um pouco.
A Zé não dizia nada. Ficava só abraçada, a apertar com muita força, a pegar nas mãos dele. O monstro afagava-lhe o cabelo, com as mãos fortes.
- Pronto menina. Eu estou aqui.
Júlio, que não largara a mão da Maria, soluçou-lhe as palavras.
- Maria, este é o Ramet.
Ela inclinou-se para o seu nariz largo de monstro e deu-lhe um beijo terno. Sentiu um bafo quente com odor adocicado e uma voz melodiosa.
- Bem vinda a minha casa, linda Maria.

Estavam sentados em redor da lareira acesa em fogo, partilhando risos e estórias antigas. A Zé abria muito os olhos, para contar um dia distante, saltando partes, tropeçando no espaço. David e Ana acenavam em sincronia, habituados ao calor e à madrugada. Em duas cadeiras muito juntas, Júlio e Maria brilhavam com o crepitar das brasas, olhando-se em segundos alternados, ela com a cabeça deitada no seu braço. As mãos continuavam juntas.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

De onde apareceste...

Quando olhei, ele ali estava. Um monstro na esquina que esconde uma máquina de café, descoordenado, não pertencia ali. Jamais se endireitaria com aquela corcunda, docemente entrapada. O ser aguardava, baralhado, de mãos compridas a interrogar o espaço, como se não entendesse. Os pés estavam presos em botas de atilhos, com pedaços de relva agarrados nos lados. Prendiam umas calças cremes com um único bolso, aberto, e uma fita de outra cor que lhe pendia. De tronco forte, disfarçando o incómodo, apertava um casaco de malha cinzenta, com três botões dourados e uma pequena gola. As mãos esfregaram-lhe a cara, cheia de cicatrizes simétricas, desenhadas, mostrando um mapa em que acreditava. Fiquei de medos em riste, com passinhos pequenos até à sua sombra. Já muito perto, descolei o lábio inferior, que tremia, e disse.
- De onde apareceste?

Há uma semana atrás, a velhinha não quis responder-me. Fui ter com ela, a Maria Fernanda, porque me disseram que sabia a resposta. Há um mês que me apareciam de todo o lado. Podia ser um carro, de onde nada havia, uma pessoa que me esbarrava, um som que levava guardado. Fui à repartição à sua procura.
- Bom dia. Eu queria falar com a Maria Fernanda. Perguntei a uma senhora baixinha.
- Espere um momento, por favor.
Torceu o pescoço em redor e pôs-se a gritar.
- Fernanda, anda cá a este senhor.
Apareceu-me uma rapariga jovem, com uma placazinha amarelada, com dois nomes a verde – Maria Fernanda.
- Desculpe, mas deve haver um engano. A pessoa que procuro deve ter para cima de sessenta anos.
Antecipando o meu susto, ela falou devagar.
- Eu sou a Maria Fernanda.
Amarrotei os pensamentos e lancei-me.
- De onde é que apareceste?

Ela tinha falado de forma simples.
- Por desequilíbrio, fazemos estranhas viagens. Cada um de nós desaparece do seu plano, para acordar noutro local, sem o perceber, na maior parte das vezes. Quando estranhamos uma presença súbita, é porque na verdade, ninguém lá estava.

Ninguém pode terminar esta estória, continuava Maria Fernanda pois a cada estranha viagem que percorremos temos sempre ao nosso alcance os carris que pretendemos seguir, tal qual aquele comboio a vapor que perdeste, por sorte ou azar de teres gasto indevidamente estes momentos à minha procura.E vi de seguida, que o tempo perdido na semana que ora terminara poderiam muito bem ter sido quarenta anos da minha vida! De onde apareceste? Já não era importante, porque os nossos pesadelos tem a importância que só nós lhes queremos dar.


(com a colaboração de bluesY)

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A planta amarga...

“Duas pessoas muito diferentes podem caminhar lado a lado. O problema é quando se cruzam…”

- João, segura-me! Assim não consigo.
- Deixa de ser parva. Sobe, vá. Sobe agora!
Maria trespassou com o olhar, levantando a popa com o soprar. Tudo nela era um novelo, deslindando a pequenas pontas, muito apertadas e em espiga.
Gritava com desprezo pelo companheiro que não entendia na simplicidade. Que queria ele do campo? Que bebia ele na tarde de fogo?
João só sorria. Pôs uma perna à frente da outra, para caminhar. Enchia os pulmões de memórias, observando o manto amarelado na sua frente.
- Já chegámos, descansa. Bem me parecia ter visto isto quando passámos de carro.
Dobrou-se com delicadeza para apertar nos dedos um caulezinho de planta, amarela no alto. Depois de o arrancar, virou-o ao contrário e levou-o à boca. Começou a mordiscar, quase de brilho nos olhos. À medida que o suco amargo se espalhava na boca, arrepiava-se em felicidade absoluta.
Maria, estática, sem entender, perdeu um som incrédulo.
- João, o que é que tu estás a fazer?
Ela não sabia e não valia a pena contar…

domingo, janeiro 22, 2006

O rapaz que sofria...

Era uma vez um rapaz que sofria. Sofria porque não tinha, porque abundava, porque tudo e porque nada. Pela falta de tranquilidade, pela ausência de turbulência, por não sentir ou por demais.
Porque não tinha namorada, porque não encontrava o seu colo, porque a tinha e não mantinha e não conseguia lidar.
Pelas horas de angústia ao volante pregado, pela solidão permitida e ao temor recém-chegado. Por saber que não era real, mas tão forte ao aparecer.

Farto de sofrer virava-se para os momentos. Em que descansava, em que pensava, em que na música sentia felicidades e arestazinhas arredondadas.
Inalava uma devoção sincera e punha-se a questionar. Electricidades subiam na sua linha de olhar, empurrando e esticando.
Saiu de sua casa, que era rasa e sentou-se na beira do passeio. No outro lado da rua passava outro rapaz, familiar, que dificilmente reconheceria, e que o olhou. Virou logo e veio até ele. Falou-lhe.
- Sentado aí não consegues nada. Nada! E sentou-se ao seu lado.
Não disseram futilidades para perceber o outro, lançando perspicazes olharzinhos a cada movimento.
- Quem és tu? Porque vieste perturbar o meu silêncio? Ele é tão raro.
- Queres que me vá embora?
- Não sei.
O rapaz, que não sofria levantou-se e partiu, deixando auras esfarrapadas, mas cosidas entre si.
Depois apareceu uma linda rapariga, mais nova, com um narizito corado e um cachecol de muitas cores, menos o verde. Trazia um gatinho branco e preto e andava aos saltinhos.
- Posso sentar-me aqui ao pé de ti?
O rapaz que sofria detestava gatos, como tudo o que não controlava e lhe fazia perder.
- Podes. Queres namorar comigo?
- Mas tu não gostas de gatos? Como iria ser?
- Sei lá. Acho que não dava.
Ela cantarolou. Ele acompanhou. Deitaram-se para trás com o gatinho entre os dois.
- Lá, lá, lá, lá. Ainda estás a pensar nisso rapaz? Não devias.
- Eu sei. Mas o que posso fazer?
- Podes viver. Mesmo que não gostes de gatos. Não é um drama.
E depois foi-se embora. E ele continuou sentado.
Veio um velhinho, de avô, de barbas branquinhas e cabelo em brilho.
- Não há por aí um banquinho? Que chatice. Sentado no chão!
- O sofredor entrou de novo em casa. Voltou com dois bancos, com tecido sarapilhado em muitas cores, esticadas em linhas iguais.
- Aqui tem. Pode sentar-se.
- Obrigado rapaz. E desculpa por não me sentar no chão. Não sofras também por isso.
Os dois riram um pouco.
- Estou velho demais, sabias?
- E eu muito novo. A vida nunca mais chega.
- Tens que ter paciência, e pedir mais devagar.
- Eu sei…eu sei. Mas como o faço?
- Essa parte é contigo. Podes até nunca conseguir.
O rapaz torceu-se muito. Segurava no cachecol que a rapariga lhe oferecera sem som.
- Não era isso que precisava ouvir. Não me vai dar algum conselho melhor?
- Que conselho?
- Sei lá. Que pare de sofrer. Que agarre a vida, que siga por determinado caminho…
- Não. Não tenho conselhos desses. Resta-te esperar. A vida demora. Soluções tens até demais.
O sol ia baixando, desenhando as suas sombras na parede perto do branco. No cinzento-escuro que projectavam, era difícil distinguir a mais nova. O rapaz, mais calmo, ia falando, enrolando o cachecol, respirando o mesmo ar que o seu companheiro.
- Achas que devia ter ido atrás dela?

- Não. Tu não gostas de gatos.