miak - Houve um dia em que disseste para ti próprio? – Eu sou homossexual.
Fernando – Tu entras logo a matar! Não sei se foi assim uma coisa tão definida. Isto não se acorda um dia e damos um grito de rendição.
miak - Mas deve ter havido um momento em que te apercebeste. Em que reconheceste os sinais.
Fernando - No cinema talvez. Na vida real é diferente. É algo que vamos construindo desde muito cedo. Pelo menos comigo foi assim. É claro que pensamos sobre isso, que questionamos o porquê de sentirmos algo diferente do que nos ensinam e do que nos rodeia. Mas acho que tudo começou ainda eu não tinha uma capacidade de reflexão tão desenvolvida.
miak - Na escola sentias-te melhor perto dos rapazes?
Fernando - Acho que não. Tinha bons amigos nos rapazes e nas raparigas. Até tive uma namorada aos sete anos. Tinha canudos castanho claros e queria andar de mão dada. Mas acho que foi a única.
miak - Quando tiveste o teu primeiro namorado?
Fernando - Namorados só muito mais tarde. Mas aos doze tive uma enorme paixão por um colega da minha sala. Nem me passava pela cabeça contar-lhe.
miak - Então foi aí que percebeste?
Fernando - Eu não fiquei um dia assim. É um processo contínuo. Quando tinha idade para o questionar (se o quisesse fazer) já sentia o que sinto hoje. Mas não é o que me define como pessoa. Sou muito igual a toda a gente. Sabes isso porque já somos amigos há muitos anos. Tenho coisas que me caracterizam, defeitos, virtudes, manias... E só me apaixono por homens. Just that.
miak - Mas nunca te questionaste? Nunca te sentiste à parte?
Fernando- Neste país? Claro que sim! Muitas vezes. Somos praticamente obrigados a isso. Desde cedo que nos querem convencer que é uma doença. Que pode ser curado.
miak - Isso incomodava-te?
Fernando - Incomodava-me a ignorância e a estupidez. Mas nunca me senti doente. Nem a precisar de uma cura milagrosa. Aos quinze anos tinha um amigo que não sabia da minha opção e que desabafava comigo que tinha medo de ficar homossexual. Perguntava-se como seria se um dia descobrisse que gostava de homens e achava que seria insuportável. Era de morrer a rir.
miak - O que é que lhe dizias?
Fernando - Uma vez disse-lhe que se por algum acaso cósmico se tornasse homossexual, ia ser um processo indolor. Que se verdadeiramente gostasse de homens não ia achá-lo insuportável. Que ia tirar prazer disso.
miak - E ele?
Fernando - Ia morrendo. Quase que lhe saltavam os olhos. A homofobia era verdadeiramente assustadora no seu caso.
miak - Alguma vez lhe disseste?
Fernando - Ele viu-me uma vez com um namorado. Talvez tenha percebido. Não sei. Nunca mais falámos.
miak - É verdade que hoje em dia os homossexuais querem todos ser “o homem da relação”?
Fernando - Há de tudo. Também há heteros que batem nas mulheres. Mas admito que em determinados meios exista quem se assuma como forma última de excentricidade. E depois não vêm a relação como algo em que também têm de dar. Se vires bem não é muito diferente dos casamentos de antigamente ou até dos de hoje.
miak - Estás a falar da questão sexual?
Fernando - Também. A mulher era muitas vezes um veículo para se ter prazer. E logo elas que não eram preparadas para o dar ou ter. Era um mundo estranho. Connosco às vezes é parecido.
miak - Já te aconteceu?
Fernando- Já me deparei com pessoas assim, mas afasto-me de imediato. Mas é normal. Porque se há de querer estar numa relação com alguém que quer controlar. Nesta parte é tudo igual. Não é algo exclusivo das relações homossexuais.
miak - Gostavas que os casamentos fossem possíveis?
Fernando- Acho que sim. Mas não é o mais importante. Tornou-se num cavalo de batalha, por estar em causa uma instituição muito conservadora e de base religiosa. Acho que existem outras conquistas mais importantes.
miak - Quais?
Fernando- A principal é a das pessoas olharem para isto como algo normal. Sem prejudicarem e tratarem com diferença quem não fez nada de mal. Apenas isso. Também não preciso que andem por aí com cartazes a dizer que são a favor da homossexualidade. Não há nada para ser a favor.
miak - Qual é o teu maior desejo?
Fernando - Que um dia não exista nada para conversar sobre o assunto. Também não se discute se um homem ou uma mulher gostam mais de azul ou de amarelo. É assim e pronto.
miak - É verdade que existe um dispositivo electrónico que se implanta debaixo da pele e que serve para que os homossexuais se possam reconhecer?
Fernando - É mesmo parvo. Estavas doido por perguntar isso. É verdade, é! Compra-se em Amsterdão e existem vinte e três modelos diferentes. O mais caro também serve para identificar idiotas e pessoas que gostam de filmes da Meg Ryan.
miak - Obrigado pela conversa.
Fernando - De nada. Vá. Não é preciso ficarmos sentimentais.
miak - Queres que coloque alguma música, quando publicar isto no blog?
Fernando – Surpreende-me com um maravilhoso estereótipo.
miak - Está combinado.





