Ela colocava um passo e depois pensava no seguinte, escutando o rasto simétrico das sapatilhas raspar na terra. O cabelo estava preso por uma mola amarelada com dentes finos, escapando desordenado em pequenos tufos. Nos ouvidos, um par de auscultadores modernos acentuava a curvatura da sua postura, dobrada sobre o peito, dando-lhe um aspecto masculino e forte. Maria João era assim…linda.
No dia seguinte, pela noite, havia uma festa, para a qual fora convidada, onde iria sem vergonha, para ver dançar. Olhou-se um pouco ao espelho, antes de se deitar, espreitando a ausência de beleza, ainda de auscultadores colocados. Pensou se deveria mudar alguma coisa, se poderia embelezar-se, recorrendo a truques e mais cremes. Por fim troçou das dúvidas ao vidro espelhado.
- Vou mesmo assim. Que me importa?
E foi dormir. Sonhou que procurava um hotel perfeito, procurando em cenários diferentes. Só ponderava em função do toque das campainhas de recepção, que em alguns já não existiam.
Joaquim olhava em frente, para um espelho que reflectia outro, nas suas costas, para que as visse. A partir dos cinco anos de idade, começou a desenvolver uma corcunda, que só estabilizara já em adulto. De passar tantas horas a vê-la, à corcunda, descobriu que já não a estranhava, que fazia parte de si. Sentia a pele esticada no dorso, como uma presença constante sem dor, teimosa sem enrugar.
Vestia-se com facilidade, preparando-se para a festa. Divertia-o a novidade que causaria, o espanto explodindo nas expressões. Chegara à vila há pouco mais de uma semana, para dar aulas de literatura num externato de bom nome. Durante esse tempo não saiu de casa, uma antiga e cinzenta moradia no cimo da rua principal. Adorava em êxtase a criação de uma imagem misteriosa e às vezes assustadora de si próprio. Isto até falar, até que o conhecessem. Então revelava a normalidade extrema, contrariando a curva nas costas e a encenação do início.
A Maria João chegou quinze minutos depois da hora, de auscultadores, de mola e cabelo despenteado. Endireitara-se um pouco, na única concessão permitida, saindo de um xaile em lã branca, tricotado em dois dias. Tinha ouvido falar do novo habitante da vila, recolhido e invulgar, que aparecera numa noite de nevoeiro, com uma longa capa curvada.
Olhou para o centro da sala e descobriu-o a conversar alegremente. O negro do fato atenuava a corcunda indisfarçável, parecendo que se esticava em esforço doce, contrariando o hábito.
Ele reparou nela, no mesmo instante que os auscultadores caíram em sincronia, baloiçando na cintura. A sala parou ao vê-los caminharem a um encontro de mãos, cumprimentando-se com gentileza.
Invejou-se a nobreza da primeira dança, deslizando em graça no reflexo do chão. Comoveram-se as velhinhas ao vê-los sentados lado a lado, conversando com simpatia. – Que exemplo! Exclamavam.
Maria e Joaquim falavam muito baixinho, em simplicidade.
- Achas que alguém reparou? Perguntou ele.
- Tenho a certeza que não. Estão convencidos que não nos conhecemos, que foi amor à primeira vista.
Os dois esforçavam-se muito por não rir, envolvendo a alegria na sua representação, misturando-a com outras coisas.
Ela estava em delírio, adorando o tempo e os olhares.
- O que pensarão que estamos a conversar?
Joaquim colocou um ar grave e solene.
- Imaginam uma estória de contos…e de fadas. Um soneto dedicado em improviso, a beleza das palavras nos lábios de um monstro, encantando estranha donzela.
E continuou a dissertar.
- Reconhecem conversas eruditas e complexas, afinal capazes pelos menos afortunados, prova de um intelecto superior, compensador da condição menor. Que nobres. Que nobres!
A música que começou a ouvir-se, valseava por entre a curiosidade de um orgulho estampado. Maria João e o corcunda conversavam, felizes.
- O que estavas a ouvir, quando entraste?
- Aquilo que me gravaste na última vez. Não consigo parar.
sábado, fevereiro 11, 2006
terça-feira, fevereiro 07, 2006
O alpendre...
A menina tropeçava muito. Tinha caracóis em avelã e uns tótós presos com fitinhas, uma amarela e outra verde. O vestido mostrava uma renda de pouco uso que se lhe embaraçava nas pernas fininhas e a fazia cair, mais uma vez. Primeiro chorava um pouco, vendo as gotas pularem junto de pedrinhas empoeiradas. Em seguida, sorria até poder rir, desenhando palavras na terra, encontrando forças para se levantar. Estava farta de tanta tolice.
Rodou em volta e achou um alpendre muito novo. Vivia preso a uma morada antiga, com mais de muitas ervas, já daninhas, a indicar e apontar – É aqui a entrada. E ela entrou.
A casa tinha uma escada branda que curvava para o primeiro andar, impondo respeito e altura. No seu lado esquerdo descobriu uma porta pequena e um quarto muito escuro, de que teve medo. À entrada, numa moldura de madeira talhada, repousava um punhal em cor de prata, com uma etiqueta noutra língua. Pegou nele e avançou na escuridão.
Ao entrar ouviu um ruído cadenciado, como algo rodando, mostrando luzinhas brancas a alternar. À sua frente era projectado um filme a preto e branco, igual aos que o seu avô via todas as sextas-feiras, sempre sozinho, com o seu copo de vinho branco. Conhecia-os de cor, aos filmes, esgueirando-se para perto dele, arrastando os joelhos para não tropeçar. Um dia perguntou-lhe porque gostava de estar só. Ele fez-lhe uma festa, mimando a pequenina sem responder.
A arma não lhe assentava bem na doçura e obrigava a um andar em desalinho, arrastando frieza que lhe abria o olhar. Poisou-a numa mesa baixa, com um tampo cheio de desenhos. Reparou então no filme, onde um carro seguia devagar, por uma estrada ladeada de árvores e cercas. Era um Vauxall antigo, palmilhando léguas e alcatrão recente. O plano iniciou a descida para identificar um homem elegante a conduzir. Estava sozinho e apesar do vento o cabelo, muito penteado, parmanecia no seu lugar. Os colarinhos brancos, em goma perfeita, anichavam uma gravata escura de um nó triangular. Era bonito o seu avô. Não tinha ainda os brancos ou a careca luzidia, mas era bonito.
O carro parou e ele saiu com jeito galante, mudo por obrigação, de gestos perfeitos que se ouviam. O olhar enorme deixou-se apanhar pela lente e num cigarro desfez a cena incompleta, em turbulência. Re-apareceu em cor, com voz cristalina, já de grisalhos orgulhosos e uma menina pela mão, com os mesmos caracóis. A menina já mulher rebentou em lágrimas e fugiu, de novo a tropeçar. Parou no alpendre para respirar. Sentou-se na beirinha com o Sol de Inverno muito forte, bom para pensar. Tirou um caderno rosa do bolso mais pequeno, com um lápis a condizer. Leu três linhas para se lembrar, humedeceu o carvão e recomeçou a escrever. Daí a pouco podia dormir.
Rodou em volta e achou um alpendre muito novo. Vivia preso a uma morada antiga, com mais de muitas ervas, já daninhas, a indicar e apontar – É aqui a entrada. E ela entrou.
A casa tinha uma escada branda que curvava para o primeiro andar, impondo respeito e altura. No seu lado esquerdo descobriu uma porta pequena e um quarto muito escuro, de que teve medo. À entrada, numa moldura de madeira talhada, repousava um punhal em cor de prata, com uma etiqueta noutra língua. Pegou nele e avançou na escuridão.
Ao entrar ouviu um ruído cadenciado, como algo rodando, mostrando luzinhas brancas a alternar. À sua frente era projectado um filme a preto e branco, igual aos que o seu avô via todas as sextas-feiras, sempre sozinho, com o seu copo de vinho branco. Conhecia-os de cor, aos filmes, esgueirando-se para perto dele, arrastando os joelhos para não tropeçar. Um dia perguntou-lhe porque gostava de estar só. Ele fez-lhe uma festa, mimando a pequenina sem responder.
A arma não lhe assentava bem na doçura e obrigava a um andar em desalinho, arrastando frieza que lhe abria o olhar. Poisou-a numa mesa baixa, com um tampo cheio de desenhos. Reparou então no filme, onde um carro seguia devagar, por uma estrada ladeada de árvores e cercas. Era um Vauxall antigo, palmilhando léguas e alcatrão recente. O plano iniciou a descida para identificar um homem elegante a conduzir. Estava sozinho e apesar do vento o cabelo, muito penteado, parmanecia no seu lugar. Os colarinhos brancos, em goma perfeita, anichavam uma gravata escura de um nó triangular. Era bonito o seu avô. Não tinha ainda os brancos ou a careca luzidia, mas era bonito.
O carro parou e ele saiu com jeito galante, mudo por obrigação, de gestos perfeitos que se ouviam. O olhar enorme deixou-se apanhar pela lente e num cigarro desfez a cena incompleta, em turbulência. Re-apareceu em cor, com voz cristalina, já de grisalhos orgulhosos e uma menina pela mão, com os mesmos caracóis. A menina já mulher rebentou em lágrimas e fugiu, de novo a tropeçar. Parou no alpendre para respirar. Sentou-se na beirinha com o Sol de Inverno muito forte, bom para pensar. Tirou um caderno rosa do bolso mais pequeno, com um lápis a condizer. Leu três linhas para se lembrar, humedeceu o carvão e recomeçou a escrever. Daí a pouco podia dormir.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
A resposta...
A Teresa tinha seis anos, acabados de fazer e acordava nervosa todos os dias antes de ir para a escola. Imaginava como seria encontrá-lo no pátio antes de entrarem no edifício antigo. Prometera a si mesma que desta semana não passava. Tinha que lhe dizer.
Apesar de criança, percebia e via para além das batas em azul escuro e gostava dele. Não lhe chamava ainda amor ou paixão. Só queria ficar perto, sentada no banco, sem chegar ao chão com os pés. Abanando os joelhitos em cadência, à espera…
Miguel era dois dias mais velho, com um sorriso contagiante e muito calmo. Tinha uma lucidez estranha e reparava em tudo, observando.
Quando chegou à escola, ela já lá estava, sentadinha no banco, com o cabelo louro solto, muito brilhante. Aproximou-se e disse.
- Bom dia Teresa. Vou sentar-me aqui ao pé de ti.
Ela afastou uma madeixa de cabelo e sorriu muito doce.
- Sabes se falta muito para começar a aula?
Miguel encolheu os ombros ao mesmo tempo que exibia o seu relógio novo. Tinha uma bracelete pequenina encarnada e os ponteiros eram duas espadas. Ele ainda não sabia ver as horas!
- A professora chama sempre.
- Pois chama.
A manhã estava temperada de Primavera e os dois pequenitos partilhavam o silêncio. Os colegas iam chegando em algazarra, gritando e correndo, atirando com as malas. Eles riam e iam-se aproximando. Quando a professora Tina chamou, estavam tão juntos.
Um enorme banco abundava espaço nos lados e no meio duas batas pequeninas pareciam uma só.
No dia seguinte o Miguel chegou primeiro e foi a correr para o banco. Estavam lá sentadas duas meninas ruivas um pouco mais velhas. Ficaram a olhar para ele de nariz esticado à espera de algo. Mas o rapazinho nada disse. Não sabia o que fazer.
- Vamos embora Joana. Estes miúdos da primeira são estranhos.
O Miguel trepou para o banco na mesma altura que a Teresa chegava. Ficou à sua espera. Mas ela estava diferente, com o cabelo apanhado numa bandolete branca com uns risquinhos amarelos. E não se sentou. Veio até muito perto para perguntar.
- Miguel, queres namorar comigo?
O rapaz ficou muito corado, mas não impediu a resposta de sair.
- Mas eu só gosto de ti com o cabelo solto!
Teresa não tinha a resposta, que encontraria daí a muito anos. Pulou para o seu lado e sentou-se a abanar os pezinhos, um depois do outro. Ajeitou a bandolete e cantarolou um bocadinho. Depois, com a mãozinha procurou a dele, escondida e envergonhada a brincar com o fecho do casaco. Devagarinho, entrelaçou os dedos pequeninos nos seus e apertou um pouco.
Miguel ainda tentou escutar o coraçãozinho, que parecia ter falado. Depois sentiu-se feliz e deixou-se estar.
- Tens a mão quentinha.
- Tu também.
Apesar de criança, percebia e via para além das batas em azul escuro e gostava dele. Não lhe chamava ainda amor ou paixão. Só queria ficar perto, sentada no banco, sem chegar ao chão com os pés. Abanando os joelhitos em cadência, à espera…
Miguel era dois dias mais velho, com um sorriso contagiante e muito calmo. Tinha uma lucidez estranha e reparava em tudo, observando.
Quando chegou à escola, ela já lá estava, sentadinha no banco, com o cabelo louro solto, muito brilhante. Aproximou-se e disse.
- Bom dia Teresa. Vou sentar-me aqui ao pé de ti.
Ela afastou uma madeixa de cabelo e sorriu muito doce.
- Sabes se falta muito para começar a aula?
Miguel encolheu os ombros ao mesmo tempo que exibia o seu relógio novo. Tinha uma bracelete pequenina encarnada e os ponteiros eram duas espadas. Ele ainda não sabia ver as horas!
- A professora chama sempre.
- Pois chama.
A manhã estava temperada de Primavera e os dois pequenitos partilhavam o silêncio. Os colegas iam chegando em algazarra, gritando e correndo, atirando com as malas. Eles riam e iam-se aproximando. Quando a professora Tina chamou, estavam tão juntos.
Um enorme banco abundava espaço nos lados e no meio duas batas pequeninas pareciam uma só.
No dia seguinte o Miguel chegou primeiro e foi a correr para o banco. Estavam lá sentadas duas meninas ruivas um pouco mais velhas. Ficaram a olhar para ele de nariz esticado à espera de algo. Mas o rapazinho nada disse. Não sabia o que fazer.
- Vamos embora Joana. Estes miúdos da primeira são estranhos.
O Miguel trepou para o banco na mesma altura que a Teresa chegava. Ficou à sua espera. Mas ela estava diferente, com o cabelo apanhado numa bandolete branca com uns risquinhos amarelos. E não se sentou. Veio até muito perto para perguntar.
- Miguel, queres namorar comigo?
O rapaz ficou muito corado, mas não impediu a resposta de sair.
- Mas eu só gosto de ti com o cabelo solto!
Teresa não tinha a resposta, que encontraria daí a muito anos. Pulou para o seu lado e sentou-se a abanar os pezinhos, um depois do outro. Ajeitou a bandolete e cantarolou um bocadinho. Depois, com a mãozinha procurou a dele, escondida e envergonhada a brincar com o fecho do casaco. Devagarinho, entrelaçou os dedos pequeninos nos seus e apertou um pouco.
Miguel ainda tentou escutar o coraçãozinho, que parecia ter falado. Depois sentiu-se feliz e deixou-se estar.
- Tens a mão quentinha.
- Tu também.
sábado, janeiro 28, 2006
O reencontro...
Já era tarde e as luzes de toda a casa estavam apagadas. Era um Lar de um só piso, de paredes pré-fabricadas, sustidas pelas camadas de tinta branca. Havia um longo corredor entre a sala grande e a cozinha, onde ficavam os quartos, de um lado e do outro. Eram cinco os que lá viviam desde há muito tempo, todos viúvos menos a Maria, a mais nova e única que ainda não chegara aos setenta anos. Era linda a Maria, tinha ainda porções de cabelo negro, que alternavam com as manchas brancas, dando-lhe um ar engraçado.
O Júlio era o mais velho, de quase oitenta poderosos anos. Tinha os olhos muito claros e os ombros teimavam em não descair. De tão alto impunha muito respeito, escondendo por vezes a seu carinho pela Maria.
Ana e David andavam sempre juntos. Viam televisão no quarto dela até muito tarde, até dormitarem por cima um do outro. Depois acordavam muito despertos de madrugada. Conversavam um pouco, de chá quente nas mãos, antes de irem para a cama.
A Zé completava o quinteto, de cabelo branco cheio de brilhos, muito curtinho cortado como se fosse um rapaz. Tinha um delicado mau feitio e discutia muito, mas de coração enorme.
No silêncio, rasgou um ranger de porta e passitos apressados. Um suave bater antecipou o chamar.
- Júlio, estás pronto? Já são horas.
- Já vou, Maria. Já vou.
Ele demorava sempre um pouco mais para arranjar o cabelo. Achava que ela reparava.
- Vamos chamar os outros!
Sem barulho, os cinco encontraram-se no corredor, com enorme vontade de rir, contida na prudência. As enfermeiras tinham o sono leve e era preciso ter muito cuidado.
O Júlio sussurrou em tom delicado.
- Estamos todos. Vamos embora.
A Zé resmungou qualquer coisa e seguiu em último lugar. Sabia que ele era o líder e até gostava disso, mas a sua natureza obrigava-a a protestar.
A noite estava fria e calma, com metade de uma Lua esbranquiçada. No bairro não se via alguém, e os cinco velhinhos, caminhavam esfregando as mãos. Entraram num Ford Cortina muito antigo, que tinha as portas da frente empenadas.
- Já era tempo de comprarmos outro carro. Protestou a Zé.
- Eu cá gosto. Tem história, meus amigos. Tem história.
A Ana concordou com um sorriso e segurou a Zé pela mão. Ficava sempre um pouco nervosa nas noites em que saíam. Sentia-se com arrepiozinhos na barriga, de sensações com mais de cinquenta anos. Assim que arrancavam, esqueciam os anos e transformavam-se num grupo de adolescentes, em busca de aventuras.
A viagem daquela noite era especial. Depois de muito tempo voltariam à Casa Grande, onde foram proibidos de ir. Há uns anos, por uma única vez, tinham sido descobertos na sua fuga. Os enfermeiros chamaram as famílias e fizeram um enorme alarido da situação. Ameaçados de expulsão, em profundo embaraço, prometeram nunca mais fugir e principalmente não voltar à Casa Grande. Todos cruzaram os dedos atrás das costas, ao prometer, mas temiam que na velhice este truque não funcionasse.
A gravilha rangia de som característico ao chegarem ao portão. A ferrugem oferecia-lhe respeito e embaraçava quem lhe tocasse, desprevenido.
- Tens a chave, Júlio? Perguntou a Maria.
Ele sorriu sem falar, ao mesmo tempo que a retirava do bolso esquerdo do colete. Uma satisfação de medo sem par, encheu-lhes a alma quando o viram a rodar e a rodar, com estalidos metálicos a abrirem o portão. Entreolharam-se concordando e decidiram entrar.
Tinham passado muitos anos mas sabiam de memória cada recanto daquele lugar. Ana gostava de arrastar os passos até à entrada da casa, desenhando formas na terra escura. David ia arrancando teias de aranha abandonadas, com pequenas gotas de humidade. Júlio e Maria caminhavam lado a lado, de mãos muito perto. Ela sentia o seu perfume de pele e jurava que lhe lia os pensamentos. Não havia pressa, dizia para dentro, e sonhando sentia o seu toque.
A porta principal era estranhamente pequena, como se pedisse para que não a abrissem, para que repousasse em cor de madeira.
Nesta altura a Zé passou para a frente. Empurrou a porta sem barulho e entrou com passo firme. Os outros seguiram-na.
Cada um prendia as lágrimas do reencontro com aquele espaço de tanto pó. Lembravam a entrada alta, com o chão em xadrez de mármore e a escada que inclinava para cima, de estatuetas alternadas com grandes vasos. Não avançaram! Faltava o som. Era naquele instante que o ouviam, fazendo tremer as pesadas cortinas, peneirando o pó amarelado. Mas nada, desta vez não ouviram nada.
- Não estou a gostar disto. Suspirou o David.
A Ana concordou.
- Já o devíamos ter ouvido.
O som que esperavam, fazia-os temer, na sua ausência. O que outrora os assustara, irrompendo-lhes no espírito, agora fazia falta, deixando o quadro incompleto.
Júlio forçou o maxilar, para pensar. Sem o fazer segurou na mão de Maria e avançou para a escada.
- Fiquem calmos. Vamos subir.
Tudo parou naquele momento para a Maria. Sentia-se a esvoaçar escada acima, levada em carinho, degrau a degrau. Não conseguia tirar os olhos do braço esticado, terminando nas mãos juntas. Desviou um pouco para ver a expressão dele, para perceber a intenção. Júlio virou-se por um instante para trás, acenando um sorriso. Ela não se enganara.
No último degrau, pararam de repente. Um grito fraco rugiu pelo silêncio, misturando as emoções no peito dos cinco, até da Maria. Na verdade, ela nunca ali tinha estado. Chegara ao Lar pouco tempo depois da última visita, mas os anos e a repetição da estória emprestaram-lhe as memórias. Pouco depois recomeçaram as saídas, mas não mais voltaram à Casa Grande, até aquela noite.
A Zé suspirou nervosa.
- Parece ele. Mas um grito?
- Calma! Pediu o Júlio.
- Vamos continuar.
Em frente viram o corredor muito estreito, com as molduras vazias e velas gordas já gastas. Apenas uma estava acesa, dirigindo a luz…para o fundo.
Então, descolando-se das sombras de um recanto, apareceu uma figura pequena e curvada de monstro. Arrastava um bengala de talha perfeita, e cobria-se num manto cinzento, com apenas dois botões, de ouro e mel. No olhar o mesmo sentimento de choro, de saudade e riso.
O tempo parou na chama que os guiava até ao pequeno ser, para que percebessem o passar dos anos. Depois, a Ana voou para os braços dele, largando gotinhas com sal no tapete verde escuro.
- Ramet! Soluçou.
- És mesmo tu!
E abraçou o monstro dando-lhe beijos na cara esguia, cheia de lágrimas e fendas delicadas. Os outros precipitaram-se em cima deles, caindo todos no chão, rebolando a alegria e os abraços, apertando com força as orelhas grandes e espetadas.
- Uma bengala, Ramet? E um grito? Por um momento tememos o pior. Gracejou David.
Júlio também ria muito, e perguntava em provocação.
- Que é feito do teu rosnar assustador?
Ramet falava com dificuldade, tropeçando no choro.
- Está mais fraco, meus amigos. Embaraça-me um pouco.
A Zé não dizia nada. Ficava só abraçada, a apertar com muita força, a pegar nas mãos dele. O monstro afagava-lhe o cabelo, com as mãos fortes.
- Pronto menina. Eu estou aqui.
Júlio, que não largara a mão da Maria, soluçou-lhe as palavras.
- Maria, este é o Ramet.
Ela inclinou-se para o seu nariz largo de monstro e deu-lhe um beijo terno. Sentiu um bafo quente com odor adocicado e uma voz melodiosa.
- Bem vinda a minha casa, linda Maria.
Estavam sentados em redor da lareira acesa em fogo, partilhando risos e estórias antigas. A Zé abria muito os olhos, para contar um dia distante, saltando partes, tropeçando no espaço. David e Ana acenavam em sincronia, habituados ao calor e à madrugada. Em duas cadeiras muito juntas, Júlio e Maria brilhavam com o crepitar das brasas, olhando-se em segundos alternados, ela com a cabeça deitada no seu braço. As mãos continuavam juntas.
O Júlio era o mais velho, de quase oitenta poderosos anos. Tinha os olhos muito claros e os ombros teimavam em não descair. De tão alto impunha muito respeito, escondendo por vezes a seu carinho pela Maria.
Ana e David andavam sempre juntos. Viam televisão no quarto dela até muito tarde, até dormitarem por cima um do outro. Depois acordavam muito despertos de madrugada. Conversavam um pouco, de chá quente nas mãos, antes de irem para a cama.
A Zé completava o quinteto, de cabelo branco cheio de brilhos, muito curtinho cortado como se fosse um rapaz. Tinha um delicado mau feitio e discutia muito, mas de coração enorme.
No silêncio, rasgou um ranger de porta e passitos apressados. Um suave bater antecipou o chamar.
- Júlio, estás pronto? Já são horas.
- Já vou, Maria. Já vou.
Ele demorava sempre um pouco mais para arranjar o cabelo. Achava que ela reparava.
- Vamos chamar os outros!
Sem barulho, os cinco encontraram-se no corredor, com enorme vontade de rir, contida na prudência. As enfermeiras tinham o sono leve e era preciso ter muito cuidado.
O Júlio sussurrou em tom delicado.
- Estamos todos. Vamos embora.
A Zé resmungou qualquer coisa e seguiu em último lugar. Sabia que ele era o líder e até gostava disso, mas a sua natureza obrigava-a a protestar.
A noite estava fria e calma, com metade de uma Lua esbranquiçada. No bairro não se via alguém, e os cinco velhinhos, caminhavam esfregando as mãos. Entraram num Ford Cortina muito antigo, que tinha as portas da frente empenadas.
- Já era tempo de comprarmos outro carro. Protestou a Zé.
- Eu cá gosto. Tem história, meus amigos. Tem história.
A Ana concordou com um sorriso e segurou a Zé pela mão. Ficava sempre um pouco nervosa nas noites em que saíam. Sentia-se com arrepiozinhos na barriga, de sensações com mais de cinquenta anos. Assim que arrancavam, esqueciam os anos e transformavam-se num grupo de adolescentes, em busca de aventuras.
A viagem daquela noite era especial. Depois de muito tempo voltariam à Casa Grande, onde foram proibidos de ir. Há uns anos, por uma única vez, tinham sido descobertos na sua fuga. Os enfermeiros chamaram as famílias e fizeram um enorme alarido da situação. Ameaçados de expulsão, em profundo embaraço, prometeram nunca mais fugir e principalmente não voltar à Casa Grande. Todos cruzaram os dedos atrás das costas, ao prometer, mas temiam que na velhice este truque não funcionasse.
A gravilha rangia de som característico ao chegarem ao portão. A ferrugem oferecia-lhe respeito e embaraçava quem lhe tocasse, desprevenido.
- Tens a chave, Júlio? Perguntou a Maria.
Ele sorriu sem falar, ao mesmo tempo que a retirava do bolso esquerdo do colete. Uma satisfação de medo sem par, encheu-lhes a alma quando o viram a rodar e a rodar, com estalidos metálicos a abrirem o portão. Entreolharam-se concordando e decidiram entrar.
Tinham passado muitos anos mas sabiam de memória cada recanto daquele lugar. Ana gostava de arrastar os passos até à entrada da casa, desenhando formas na terra escura. David ia arrancando teias de aranha abandonadas, com pequenas gotas de humidade. Júlio e Maria caminhavam lado a lado, de mãos muito perto. Ela sentia o seu perfume de pele e jurava que lhe lia os pensamentos. Não havia pressa, dizia para dentro, e sonhando sentia o seu toque.
A porta principal era estranhamente pequena, como se pedisse para que não a abrissem, para que repousasse em cor de madeira.
Nesta altura a Zé passou para a frente. Empurrou a porta sem barulho e entrou com passo firme. Os outros seguiram-na.
Cada um prendia as lágrimas do reencontro com aquele espaço de tanto pó. Lembravam a entrada alta, com o chão em xadrez de mármore e a escada que inclinava para cima, de estatuetas alternadas com grandes vasos. Não avançaram! Faltava o som. Era naquele instante que o ouviam, fazendo tremer as pesadas cortinas, peneirando o pó amarelado. Mas nada, desta vez não ouviram nada.
- Não estou a gostar disto. Suspirou o David.
A Ana concordou.
- Já o devíamos ter ouvido.
O som que esperavam, fazia-os temer, na sua ausência. O que outrora os assustara, irrompendo-lhes no espírito, agora fazia falta, deixando o quadro incompleto.
Júlio forçou o maxilar, para pensar. Sem o fazer segurou na mão de Maria e avançou para a escada.
- Fiquem calmos. Vamos subir.
Tudo parou naquele momento para a Maria. Sentia-se a esvoaçar escada acima, levada em carinho, degrau a degrau. Não conseguia tirar os olhos do braço esticado, terminando nas mãos juntas. Desviou um pouco para ver a expressão dele, para perceber a intenção. Júlio virou-se por um instante para trás, acenando um sorriso. Ela não se enganara.
No último degrau, pararam de repente. Um grito fraco rugiu pelo silêncio, misturando as emoções no peito dos cinco, até da Maria. Na verdade, ela nunca ali tinha estado. Chegara ao Lar pouco tempo depois da última visita, mas os anos e a repetição da estória emprestaram-lhe as memórias. Pouco depois recomeçaram as saídas, mas não mais voltaram à Casa Grande, até aquela noite.
A Zé suspirou nervosa.
- Parece ele. Mas um grito?
- Calma! Pediu o Júlio.
- Vamos continuar.
Em frente viram o corredor muito estreito, com as molduras vazias e velas gordas já gastas. Apenas uma estava acesa, dirigindo a luz…para o fundo.
Então, descolando-se das sombras de um recanto, apareceu uma figura pequena e curvada de monstro. Arrastava um bengala de talha perfeita, e cobria-se num manto cinzento, com apenas dois botões, de ouro e mel. No olhar o mesmo sentimento de choro, de saudade e riso.
O tempo parou na chama que os guiava até ao pequeno ser, para que percebessem o passar dos anos. Depois, a Ana voou para os braços dele, largando gotinhas com sal no tapete verde escuro.
- Ramet! Soluçou.
- És mesmo tu!
E abraçou o monstro dando-lhe beijos na cara esguia, cheia de lágrimas e fendas delicadas. Os outros precipitaram-se em cima deles, caindo todos no chão, rebolando a alegria e os abraços, apertando com força as orelhas grandes e espetadas.
- Uma bengala, Ramet? E um grito? Por um momento tememos o pior. Gracejou David.
Júlio também ria muito, e perguntava em provocação.
- Que é feito do teu rosnar assustador?
Ramet falava com dificuldade, tropeçando no choro.
- Está mais fraco, meus amigos. Embaraça-me um pouco.
A Zé não dizia nada. Ficava só abraçada, a apertar com muita força, a pegar nas mãos dele. O monstro afagava-lhe o cabelo, com as mãos fortes.
- Pronto menina. Eu estou aqui.
Júlio, que não largara a mão da Maria, soluçou-lhe as palavras.
- Maria, este é o Ramet.
Ela inclinou-se para o seu nariz largo de monstro e deu-lhe um beijo terno. Sentiu um bafo quente com odor adocicado e uma voz melodiosa.
- Bem vinda a minha casa, linda Maria.
Estavam sentados em redor da lareira acesa em fogo, partilhando risos e estórias antigas. A Zé abria muito os olhos, para contar um dia distante, saltando partes, tropeçando no espaço. David e Ana acenavam em sincronia, habituados ao calor e à madrugada. Em duas cadeiras muito juntas, Júlio e Maria brilhavam com o crepitar das brasas, olhando-se em segundos alternados, ela com a cabeça deitada no seu braço. As mãos continuavam juntas.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
De onde apareceste...
Quando olhei, ele ali estava. Um monstro na esquina que esconde uma máquina de café, descoordenado, não pertencia ali. Jamais se endireitaria com aquela corcunda, docemente entrapada. O ser aguardava, baralhado, de mãos compridas a interrogar o espaço, como se não entendesse. Os pés estavam presos em botas de atilhos, com pedaços de relva agarrados nos lados. Prendiam umas calças cremes com um único bolso, aberto, e uma fita de outra cor que lhe pendia. De tronco forte, disfarçando o incómodo, apertava um casaco de malha cinzenta, com três botões dourados e uma pequena gola. As mãos esfregaram-lhe a cara, cheia de cicatrizes simétricas, desenhadas, mostrando um mapa em que acreditava. Fiquei de medos em riste, com passinhos pequenos até à sua sombra. Já muito perto, descolei o lábio inferior, que tremia, e disse.
- De onde apareceste?
Há uma semana atrás, a velhinha não quis responder-me. Fui ter com ela, a Maria Fernanda, porque me disseram que sabia a resposta. Há um mês que me apareciam de todo o lado. Podia ser um carro, de onde nada havia, uma pessoa que me esbarrava, um som que levava guardado. Fui à repartição à sua procura.
- Bom dia. Eu queria falar com a Maria Fernanda. Perguntei a uma senhora baixinha.
- Espere um momento, por favor.
Torceu o pescoço em redor e pôs-se a gritar.
- Fernanda, anda cá a este senhor.
Apareceu-me uma rapariga jovem, com uma placazinha amarelada, com dois nomes a verde – Maria Fernanda.
- Desculpe, mas deve haver um engano. A pessoa que procuro deve ter para cima de sessenta anos.
Antecipando o meu susto, ela falou devagar.
- Eu sou a Maria Fernanda.
Amarrotei os pensamentos e lancei-me.
- De onde é que apareceste?
Ela tinha falado de forma simples.
- Por desequilíbrio, fazemos estranhas viagens. Cada um de nós desaparece do seu plano, para acordar noutro local, sem o perceber, na maior parte das vezes. Quando estranhamos uma presença súbita, é porque na verdade, ninguém lá estava.
Ninguém pode terminar esta estória, continuava Maria Fernanda pois a cada estranha viagem que percorremos temos sempre ao nosso alcance os carris que pretendemos seguir, tal qual aquele comboio a vapor que perdeste, por sorte ou azar de teres gasto indevidamente estes momentos à minha procura.E vi de seguida, que o tempo perdido na semana que ora terminara poderiam muito bem ter sido quarenta anos da minha vida! De onde apareceste? Já não era importante, porque os nossos pesadelos tem a importância que só nós lhes queremos dar.
(com a colaboração de bluesY)
- De onde apareceste?
Há uma semana atrás, a velhinha não quis responder-me. Fui ter com ela, a Maria Fernanda, porque me disseram que sabia a resposta. Há um mês que me apareciam de todo o lado. Podia ser um carro, de onde nada havia, uma pessoa que me esbarrava, um som que levava guardado. Fui à repartição à sua procura.
- Bom dia. Eu queria falar com a Maria Fernanda. Perguntei a uma senhora baixinha.
- Espere um momento, por favor.
Torceu o pescoço em redor e pôs-se a gritar.
- Fernanda, anda cá a este senhor.
Apareceu-me uma rapariga jovem, com uma placazinha amarelada, com dois nomes a verde – Maria Fernanda.
- Desculpe, mas deve haver um engano. A pessoa que procuro deve ter para cima de sessenta anos.
Antecipando o meu susto, ela falou devagar.
- Eu sou a Maria Fernanda.
Amarrotei os pensamentos e lancei-me.
- De onde é que apareceste?
Ela tinha falado de forma simples.
- Por desequilíbrio, fazemos estranhas viagens. Cada um de nós desaparece do seu plano, para acordar noutro local, sem o perceber, na maior parte das vezes. Quando estranhamos uma presença súbita, é porque na verdade, ninguém lá estava.
Ninguém pode terminar esta estória, continuava Maria Fernanda pois a cada estranha viagem que percorremos temos sempre ao nosso alcance os carris que pretendemos seguir, tal qual aquele comboio a vapor que perdeste, por sorte ou azar de teres gasto indevidamente estes momentos à minha procura.E vi de seguida, que o tempo perdido na semana que ora terminara poderiam muito bem ter sido quarenta anos da minha vida! De onde apareceste? Já não era importante, porque os nossos pesadelos tem a importância que só nós lhes queremos dar.
(com a colaboração de bluesY)
quinta-feira, janeiro 26, 2006
A planta amarga...
“Duas pessoas muito diferentes podem caminhar lado a lado. O problema é quando se cruzam…”
- João, segura-me! Assim não consigo.
- Deixa de ser parva. Sobe, vá. Sobe agora!
Maria trespassou com o olhar, levantando a popa com o soprar. Tudo nela era um novelo, deslindando a pequenas pontas, muito apertadas e em espiga.
Gritava com desprezo pelo companheiro que não entendia na simplicidade. Que queria ele do campo? Que bebia ele na tarde de fogo?
João só sorria. Pôs uma perna à frente da outra, para caminhar. Enchia os pulmões de memórias, observando o manto amarelado na sua frente.
- Já chegámos, descansa. Bem me parecia ter visto isto quando passámos de carro.
Dobrou-se com delicadeza para apertar nos dedos um caulezinho de planta, amarela no alto. Depois de o arrancar, virou-o ao contrário e levou-o à boca. Começou a mordiscar, quase de brilho nos olhos. À medida que o suco amargo se espalhava na boca, arrepiava-se em felicidade absoluta.
Maria, estática, sem entender, perdeu um som incrédulo.
- João, o que é que tu estás a fazer?
Ela não sabia e não valia a pena contar…
- João, segura-me! Assim não consigo.
- Deixa de ser parva. Sobe, vá. Sobe agora!
Maria trespassou com o olhar, levantando a popa com o soprar. Tudo nela era um novelo, deslindando a pequenas pontas, muito apertadas e em espiga.
Gritava com desprezo pelo companheiro que não entendia na simplicidade. Que queria ele do campo? Que bebia ele na tarde de fogo?
João só sorria. Pôs uma perna à frente da outra, para caminhar. Enchia os pulmões de memórias, observando o manto amarelado na sua frente.
- Já chegámos, descansa. Bem me parecia ter visto isto quando passámos de carro.
Dobrou-se com delicadeza para apertar nos dedos um caulezinho de planta, amarela no alto. Depois de o arrancar, virou-o ao contrário e levou-o à boca. Começou a mordiscar, quase de brilho nos olhos. À medida que o suco amargo se espalhava na boca, arrepiava-se em felicidade absoluta.
Maria, estática, sem entender, perdeu um som incrédulo.
- João, o que é que tu estás a fazer?
Ela não sabia e não valia a pena contar…
domingo, janeiro 22, 2006
O rapaz que sofria...
Era uma vez um rapaz que sofria. Sofria porque não tinha, porque abundava, porque tudo e porque nada. Pela falta de tranquilidade, pela ausência de turbulência, por não sentir ou por demais.
Porque não tinha namorada, porque não encontrava o seu colo, porque a tinha e não mantinha e não conseguia lidar.
Pelas horas de angústia ao volante pregado, pela solidão permitida e ao temor recém-chegado. Por saber que não era real, mas tão forte ao aparecer.
Farto de sofrer virava-se para os momentos. Em que descansava, em que pensava, em que na música sentia felicidades e arestazinhas arredondadas.
Inalava uma devoção sincera e punha-se a questionar. Electricidades subiam na sua linha de olhar, empurrando e esticando.
Saiu de sua casa, que era rasa e sentou-se na beira do passeio. No outro lado da rua passava outro rapaz, familiar, que dificilmente reconheceria, e que o olhou. Virou logo e veio até ele. Falou-lhe.
- Sentado aí não consegues nada. Nada! E sentou-se ao seu lado.
Não disseram futilidades para perceber o outro, lançando perspicazes olharzinhos a cada movimento.
- Quem és tu? Porque vieste perturbar o meu silêncio? Ele é tão raro.
- Queres que me vá embora?
- Não sei.
O rapaz, que não sofria levantou-se e partiu, deixando auras esfarrapadas, mas cosidas entre si.
Depois apareceu uma linda rapariga, mais nova, com um narizito corado e um cachecol de muitas cores, menos o verde. Trazia um gatinho branco e preto e andava aos saltinhos.
- Posso sentar-me aqui ao pé de ti?
O rapaz que sofria detestava gatos, como tudo o que não controlava e lhe fazia perder.
- Podes. Queres namorar comigo?
- Mas tu não gostas de gatos? Como iria ser?
- Sei lá. Acho que não dava.
Ela cantarolou. Ele acompanhou. Deitaram-se para trás com o gatinho entre os dois.
- Lá, lá, lá, lá. Ainda estás a pensar nisso rapaz? Não devias.
- Eu sei. Mas o que posso fazer?
- Podes viver. Mesmo que não gostes de gatos. Não é um drama.
E depois foi-se embora. E ele continuou sentado.
Veio um velhinho, de avô, de barbas branquinhas e cabelo em brilho.
- Não há por aí um banquinho? Que chatice. Sentado no chão!
- O sofredor entrou de novo em casa. Voltou com dois bancos, com tecido sarapilhado em muitas cores, esticadas em linhas iguais.
- Aqui tem. Pode sentar-se.
- Obrigado rapaz. E desculpa por não me sentar no chão. Não sofras também por isso.
Os dois riram um pouco.
- Estou velho demais, sabias?
- E eu muito novo. A vida nunca mais chega.
- Tens que ter paciência, e pedir mais devagar.
- Eu sei…eu sei. Mas como o faço?
- Essa parte é contigo. Podes até nunca conseguir.
O rapaz torceu-se muito. Segurava no cachecol que a rapariga lhe oferecera sem som.
- Não era isso que precisava ouvir. Não me vai dar algum conselho melhor?
- Que conselho?
- Sei lá. Que pare de sofrer. Que agarre a vida, que siga por determinado caminho…
- Não. Não tenho conselhos desses. Resta-te esperar. A vida demora. Soluções tens até demais.
O sol ia baixando, desenhando as suas sombras na parede perto do branco. No cinzento-escuro que projectavam, era difícil distinguir a mais nova. O rapaz, mais calmo, ia falando, enrolando o cachecol, respirando o mesmo ar que o seu companheiro.
- Achas que devia ter ido atrás dela?
- Não. Tu não gostas de gatos.
Porque não tinha namorada, porque não encontrava o seu colo, porque a tinha e não mantinha e não conseguia lidar.
Pelas horas de angústia ao volante pregado, pela solidão permitida e ao temor recém-chegado. Por saber que não era real, mas tão forte ao aparecer.
Farto de sofrer virava-se para os momentos. Em que descansava, em que pensava, em que na música sentia felicidades e arestazinhas arredondadas.
Inalava uma devoção sincera e punha-se a questionar. Electricidades subiam na sua linha de olhar, empurrando e esticando.
Saiu de sua casa, que era rasa e sentou-se na beira do passeio. No outro lado da rua passava outro rapaz, familiar, que dificilmente reconheceria, e que o olhou. Virou logo e veio até ele. Falou-lhe.
- Sentado aí não consegues nada. Nada! E sentou-se ao seu lado.
Não disseram futilidades para perceber o outro, lançando perspicazes olharzinhos a cada movimento.
- Quem és tu? Porque vieste perturbar o meu silêncio? Ele é tão raro.
- Queres que me vá embora?
- Não sei.
O rapaz, que não sofria levantou-se e partiu, deixando auras esfarrapadas, mas cosidas entre si.
Depois apareceu uma linda rapariga, mais nova, com um narizito corado e um cachecol de muitas cores, menos o verde. Trazia um gatinho branco e preto e andava aos saltinhos.
- Posso sentar-me aqui ao pé de ti?
O rapaz que sofria detestava gatos, como tudo o que não controlava e lhe fazia perder.
- Podes. Queres namorar comigo?
- Mas tu não gostas de gatos? Como iria ser?
- Sei lá. Acho que não dava.
Ela cantarolou. Ele acompanhou. Deitaram-se para trás com o gatinho entre os dois.
- Lá, lá, lá, lá. Ainda estás a pensar nisso rapaz? Não devias.
- Eu sei. Mas o que posso fazer?
- Podes viver. Mesmo que não gostes de gatos. Não é um drama.
E depois foi-se embora. E ele continuou sentado.
Veio um velhinho, de avô, de barbas branquinhas e cabelo em brilho.
- Não há por aí um banquinho? Que chatice. Sentado no chão!
- O sofredor entrou de novo em casa. Voltou com dois bancos, com tecido sarapilhado em muitas cores, esticadas em linhas iguais.
- Aqui tem. Pode sentar-se.
- Obrigado rapaz. E desculpa por não me sentar no chão. Não sofras também por isso.
Os dois riram um pouco.
- Estou velho demais, sabias?
- E eu muito novo. A vida nunca mais chega.
- Tens que ter paciência, e pedir mais devagar.
- Eu sei…eu sei. Mas como o faço?
- Essa parte é contigo. Podes até nunca conseguir.
O rapaz torceu-se muito. Segurava no cachecol que a rapariga lhe oferecera sem som.
- Não era isso que precisava ouvir. Não me vai dar algum conselho melhor?
- Que conselho?
- Sei lá. Que pare de sofrer. Que agarre a vida, que siga por determinado caminho…
- Não. Não tenho conselhos desses. Resta-te esperar. A vida demora. Soluções tens até demais.
O sol ia baixando, desenhando as suas sombras na parede perto do branco. No cinzento-escuro que projectavam, era difícil distinguir a mais nova. O rapaz, mais calmo, ia falando, enrolando o cachecol, respirando o mesmo ar que o seu companheiro.
- Achas que devia ter ido atrás dela?
- Não. Tu não gostas de gatos.
terça-feira, janeiro 17, 2006
O fado...
Comecei a ouvir muito baixinho. Era um som estreitinho que se esgueirava, e voava, à minha procura. Pouco a pouco fui entendendo.
Ó Rua do capelão,
juncada de rosmaninho,
eu beijo as pedras do chão
se o meu amor vier cedinho.
Era um fado! Uma pequena nota que ia e vinha e se fartava de soar. Parecia esfumaçada.
Tenho um degrau no meu leito,
para o meu amor subir.
Vê lá amor, sobe o com jeito,
para que o meu coração não se desgarre do meu peito.
E lá continuava, embaraçando-me, enamorando-me, criando umas levezas no que iria encontrar, até sentir. Reiniciei o andar, à volta de uma esquina, mas a parar, só de um esgar de mansinho, mandando a visão na frente…
Assim a vi, envolta num xaile invisível, de negritude acentuada. Fui até ela, até estar tão perto que não precisava de ver. Lábios púrpura e mil caracóis. Ela era assim! Tinha também um perfume, mas de afastar, por ser perigoso.
Olhinhos pequenos tremiam em fogo cru, esverdeado, muito pouco amarelo.
- Estive a ouvir-te, menina.
- Eu sei. Mas ouviste-me dentro?
Virei as costas como se não visse, arrastando fúrias, amansando serenidades. E ela puxou-me. Agarrou-me com tanta força, para que caísse.
- Onde pensas que vais? Eu perguntei se me ouviste.
Um líquido branco, imaginado e sujo, iniciou a descida, desprendendo sentidos, almofadando as poucas virtudes. Beijei-a de ímpeto, espremendo o que ia lembrar, em poucos segundos.
- Faz-te à estrada, rapaz! Tu não me ouviste.
Ela não queria que eu fosse. Sabia que a tinha ouvido, que sentia o choro.
- Liberta-me, rapariga de fado. Eu ouvi-te desde o início, antes que começasses a cantar. Ouvi-te dentro de mim, puxando de alças curtas. Liberta-me!
Os dois, abraçados, pensámos. Ela lutando, eu de luta em luta. Arrepiámos de braços a desprender, segurando de novo, em vaivém.
- E agora? Para onde vamos, daqui?
- Não tenho a menor ideia.
Esperei três segundos até à certeza. Pensei que ia acabar ali, ensombrado. Outros segundos e deixei entrar, sentido doce a partilhar, abrindo leve.
Chamei e ouvi, em canção de embalar.
Tenho o meu destino marcado
desde a hora em que te vi.
Ó meu cigano adorado,
viver abraçada ao fado,
morrer abraçada a ti.
- Vamos…vamos por ali!
Ó Rua do capelão,
juncada de rosmaninho,
eu beijo as pedras do chão
se o meu amor vier cedinho.
Era um fado! Uma pequena nota que ia e vinha e se fartava de soar. Parecia esfumaçada.
Tenho um degrau no meu leito,
para o meu amor subir.
Vê lá amor, sobe o com jeito,
para que o meu coração não se desgarre do meu peito.
E lá continuava, embaraçando-me, enamorando-me, criando umas levezas no que iria encontrar, até sentir. Reiniciei o andar, à volta de uma esquina, mas a parar, só de um esgar de mansinho, mandando a visão na frente…
Assim a vi, envolta num xaile invisível, de negritude acentuada. Fui até ela, até estar tão perto que não precisava de ver. Lábios púrpura e mil caracóis. Ela era assim! Tinha também um perfume, mas de afastar, por ser perigoso.
Olhinhos pequenos tremiam em fogo cru, esverdeado, muito pouco amarelo.
- Estive a ouvir-te, menina.
- Eu sei. Mas ouviste-me dentro?
Virei as costas como se não visse, arrastando fúrias, amansando serenidades. E ela puxou-me. Agarrou-me com tanta força, para que caísse.
- Onde pensas que vais? Eu perguntei se me ouviste.
Um líquido branco, imaginado e sujo, iniciou a descida, desprendendo sentidos, almofadando as poucas virtudes. Beijei-a de ímpeto, espremendo o que ia lembrar, em poucos segundos.
- Faz-te à estrada, rapaz! Tu não me ouviste.
Ela não queria que eu fosse. Sabia que a tinha ouvido, que sentia o choro.
- Liberta-me, rapariga de fado. Eu ouvi-te desde o início, antes que começasses a cantar. Ouvi-te dentro de mim, puxando de alças curtas. Liberta-me!
Os dois, abraçados, pensámos. Ela lutando, eu de luta em luta. Arrepiámos de braços a desprender, segurando de novo, em vaivém.
- E agora? Para onde vamos, daqui?
- Não tenho a menor ideia.
Esperei três segundos até à certeza. Pensei que ia acabar ali, ensombrado. Outros segundos e deixei entrar, sentido doce a partilhar, abrindo leve.
Chamei e ouvi, em canção de embalar.
Tenho o meu destino marcado
desde a hora em que te vi.
Ó meu cigano adorado,
viver abraçada ao fado,
morrer abraçada a ti.
- Vamos…vamos por ali!
sábado, janeiro 14, 2006
O lobisomem assustado...
Já tarde, começou a sentir as transformações. Ao contrário do que pensara não vinham com dor e nem deixavam a pele a rasgar, libertando a essência de um outro ser, abrigado pela ausência de Lua, na maior parte do tempo. Era até agradável perceber o esqueleto a dilatar, alargando os ombros estreitos, jogando a face para cima, escurecendo o olhar em grossas sobrancelhas. Habituara-se ao ritual que preferia experimentar só, numa velha cadeira de baloiço, desapropriada para o efeito. No final observava a roupa, prudentemente despojada em antecipação, no chão de madeira antiga.
Agora tinha que sair, desafiando a lenda, não para matar, ou aterrorizar, mas porque era essa a sua alma, de se deixar banhar com aquela luz prateada de satélite distante. Tivesse escolha e ficaria dentro de paredes, longe do medo, do seu e dos outros, sem uivos tristes, confundidos com ameaças. Mas o ciclo lunar exercia uma atracção irresistível ao indivíduo, lobo e homem, que não conseguia contrariar.
Saltou o muro que preferia contornar e furou a escuridão que rodeava a grande casa, em direcção à aldeia.
No cimo de uma pequena colina sentou-se, arfando, a olhar. Viu um mar de tochas a dançarem ameaçadoramente. Uma sinistra procissão nocturna com apenas um desejo. Se pudesse voltava. Corria para trás, fingia-se de morto, afastava-se do medo que por ali andava. Suspirou um bafo quente, canino na forma, treinando o rosnar. Já era tarde. Tinha de ir!
Marcos escutava-os a correr, em frente da sua porta, com as chamas demoradas e amarelas, com as armas a tilintar nos cintos de prata, largando injúrias repletas de receio. Por pouco daria graças à sua condição, que o afastava das corridas bucólicas e da noite fria. Sentiu com a mão a perna esquerda, que arrastava para todo o lado, mas devagar, não fosse esquecer-se e querer correr. Hoje seria diferente, cruzando ambição com desdém pelas fábulas, desafiaria a velocidade, temerário e crente. Segurou com orgulho, a bengala de um bronze azulado, dedilhando um fiozinho de prata no seu alto. Chegara a hora de partir.
Os uivos nunca entendera. Mais que os renegar, queria que se escondessem, porque lhe arranhavam a garganta disforme, porque o denunciavam e faziam correr. Como podia esperar em sossego, se ao menor vislumbre da prata, largava um longo grito de animal, profundo e grave, cheio de culpas. Era sempre assim e agora corria, a quatro mãos, de garras cravadas, alternando o solo de folhas soltas. Sentia os gritos muito perto, com promessas de fogueira, com projecção do próprio medo numa violência de defesa que não teria fim. Parou de repente! Assentou o corpo numa altivez trémula e deixou que tudo lhe saísse. Ao primeiro caçador rosnou de raiva sem controlo, largando sons e cheiros e líquidos verdes, iguais nas sombras da noite. O rapaz saltou para trás, disparando no ar sem intenção. Atirou-se, deixando suspensas duas lágrimas, aterrando no colo dos companheiros de armas, que lhe seguiam os passos.
De nada valia. Apenas conseguiria mais uns minutos, para correr. Voltou à condição de menino lobo e procurou abrigo, tapou a voz e o uivo seguinte…
De repente olhou para o seu lado direito e raspou a visão de outro menino assustado. Tinha uma bengala de onde pendia o fio que brilhava, caía de joelhos ao vê-lo correr, na sua condição de besta, fechava os olhos esperando um ataque. Até deste tinha medo.
O rapaz suportou a tontura e o susto, de encontrar o lobo, de cruzar o seu olhar. Chamou o irracional e apontou com a bengala, para um trilho. Viu o animal parar e dobrar a cabeça esguia, afastando um tufo de cabelo.
Ficaram os dois parados a estudar, a pensar no medo que viram partir. Marcos continuava a apontar para o caminho escondido, indicando a fuga das luzes que se aproximavam. O lobo perguntava pela arma, pelo queimar da pele escondido em vil artimanha, sem coragem para acreditar. Finalmente deixou de temer e passou pelo rapaz, na direcção que ele apontava. Mergulhou na folhagem espessa, sentindo-se perseguido, mas apenas por um.
Pararam numa clareira cheia de luz, de um cinzento muito claro e tranquilo. O lobisomem sentiu o astro e preparou o grito, abafado pela mão pequena do rapaz.
Com ritual, ele retirou o fio de prata da bengala e pendeu-o no dorso do animal. Falou baixinho.
- Não grites! Eles vão ouvir-te.
Agora tinha que sair, desafiando a lenda, não para matar, ou aterrorizar, mas porque era essa a sua alma, de se deixar banhar com aquela luz prateada de satélite distante. Tivesse escolha e ficaria dentro de paredes, longe do medo, do seu e dos outros, sem uivos tristes, confundidos com ameaças. Mas o ciclo lunar exercia uma atracção irresistível ao indivíduo, lobo e homem, que não conseguia contrariar.
Saltou o muro que preferia contornar e furou a escuridão que rodeava a grande casa, em direcção à aldeia.
No cimo de uma pequena colina sentou-se, arfando, a olhar. Viu um mar de tochas a dançarem ameaçadoramente. Uma sinistra procissão nocturna com apenas um desejo. Se pudesse voltava. Corria para trás, fingia-se de morto, afastava-se do medo que por ali andava. Suspirou um bafo quente, canino na forma, treinando o rosnar. Já era tarde. Tinha de ir!
Marcos escutava-os a correr, em frente da sua porta, com as chamas demoradas e amarelas, com as armas a tilintar nos cintos de prata, largando injúrias repletas de receio. Por pouco daria graças à sua condição, que o afastava das corridas bucólicas e da noite fria. Sentiu com a mão a perna esquerda, que arrastava para todo o lado, mas devagar, não fosse esquecer-se e querer correr. Hoje seria diferente, cruzando ambição com desdém pelas fábulas, desafiaria a velocidade, temerário e crente. Segurou com orgulho, a bengala de um bronze azulado, dedilhando um fiozinho de prata no seu alto. Chegara a hora de partir.
Os uivos nunca entendera. Mais que os renegar, queria que se escondessem, porque lhe arranhavam a garganta disforme, porque o denunciavam e faziam correr. Como podia esperar em sossego, se ao menor vislumbre da prata, largava um longo grito de animal, profundo e grave, cheio de culpas. Era sempre assim e agora corria, a quatro mãos, de garras cravadas, alternando o solo de folhas soltas. Sentia os gritos muito perto, com promessas de fogueira, com projecção do próprio medo numa violência de defesa que não teria fim. Parou de repente! Assentou o corpo numa altivez trémula e deixou que tudo lhe saísse. Ao primeiro caçador rosnou de raiva sem controlo, largando sons e cheiros e líquidos verdes, iguais nas sombras da noite. O rapaz saltou para trás, disparando no ar sem intenção. Atirou-se, deixando suspensas duas lágrimas, aterrando no colo dos companheiros de armas, que lhe seguiam os passos.
De nada valia. Apenas conseguiria mais uns minutos, para correr. Voltou à condição de menino lobo e procurou abrigo, tapou a voz e o uivo seguinte…
De repente olhou para o seu lado direito e raspou a visão de outro menino assustado. Tinha uma bengala de onde pendia o fio que brilhava, caía de joelhos ao vê-lo correr, na sua condição de besta, fechava os olhos esperando um ataque. Até deste tinha medo.
O rapaz suportou a tontura e o susto, de encontrar o lobo, de cruzar o seu olhar. Chamou o irracional e apontou com a bengala, para um trilho. Viu o animal parar e dobrar a cabeça esguia, afastando um tufo de cabelo.
Ficaram os dois parados a estudar, a pensar no medo que viram partir. Marcos continuava a apontar para o caminho escondido, indicando a fuga das luzes que se aproximavam. O lobo perguntava pela arma, pelo queimar da pele escondido em vil artimanha, sem coragem para acreditar. Finalmente deixou de temer e passou pelo rapaz, na direcção que ele apontava. Mergulhou na folhagem espessa, sentindo-se perseguido, mas apenas por um.
Pararam numa clareira cheia de luz, de um cinzento muito claro e tranquilo. O lobisomem sentiu o astro e preparou o grito, abafado pela mão pequena do rapaz.
Com ritual, ele retirou o fio de prata da bengala e pendeu-o no dorso do animal. Falou baixinho.
- Não grites! Eles vão ouvir-te.
quarta-feira, janeiro 11, 2006
A gaiola...
O carro começou a baloiçar com a traseira em dança frenética e eu a desviar-me. Rasei e por pouco não lhe bati, metido na valeta comigo próprio e olhando à sua procura. Pequenino, fumegava na minha frente com um pneu que explodira, arrojando a travagem na minha frente. Fui até à sua porta para ajudar e vi uma rapariga agarrada ao volante, com o peito a subir e descer muito, ainda com medo. A curva de um seio, imitada de um livro que cheira a velho, distraiu-me por momentos. Depois falei.
- Está tudo bem consigo?
Ela acordou de verdade e acenou de afirmação. Mas não podia falar.
- Tente sair do carro, por favor. Já passou. Está tudo bem?
Por volta daquele momento, toquei-a. A minha mão pediu a sua, oferecendo ajuda, sentindo-se estranha.
No banco ao seu lado estava um livro em repouso com um título que decorei – “O abraço da pele”. Deixei-o para mais tarde.
- Que me aconteceu?
- Não se preocupe. Foi apenas um pneu que rebentou. Mas por sorte não bateu em nada. Podia ter sido pior.
Ela encontrou nas mãos ainda entrelaçadas a resposta à minha pergunta.
- Sim…eu também estou a sentir.
E ao dizer isto encheu-se de rubor, como eu.
Ficámos muito parados a tentar entender o que se passava. O que sentíamos…
Quando a pele se afastou, pensei de novo e comecei a despir o casaco, atirado por cima do mesmo livro.
- Deixe estar que eu mudo o pneu num instante. Se quiser, pode sentar-se um pouco.
Sem me perder com o olhar, encontrou uma pedra acinzentada que a acolheu, talvez sorrindo um pouco.
- Já ouviste falar em Robert Jennais?
- O arqueólogo? O do teu livro?
Cada músculo lhe desceu em harmonia, confiando agora.
Robert Jennais era um mítico cientista, considerado uma sumidade no estudo da Civilização Suméria, mas com uma estranha história de vida. Aos trinta e três anos publicou o seu único livro, baseado no que julgava ser uma fantástica descoberta. Anos antes, alegadamente decifrara documentos antigos que falavam sobre a pele dos mortos. Um grupo de sacerdotes mumificava secretamente as suas mulheres, quando morriam, preservando a pele. Acreditavam que a sua paixão nascia do toque. Que a nossa pele possui pequenos organismos microscópicos que, quando encontram no toque os seus semelhantes se entrelaçam, segurando – O abraço da pele!
Ridicularizado pelos seus pares, jurou não mais escrever. Até à sua morte, continuou a fazer descobertas, que recusava registar. Quando um dia lhe perguntaram se não tinha pena de desperdiçar tanto conhecimento, respondeu em mistério.
- Não há nada depois, no lado de lá.
Terminei de mudar o pneu ao mesmo tempo que um outro carro parava perto de nós. No abrir de porta saiu uma mulher lindíssima. Era alta, delicada em absurdo, andando sem sombra, envergonhada, na minha direcção. Estendeu-me a mão num gesto sorrido. Não senti nada!
- Estou perdida. Não sei como vim parar a este fim de mundo. Graças a Deus que o encontro!
Gracejei de tolo, continuando a não sentir, mas ignorar. Olhei para a rapariga ainda sentada na pedra. Regressava de súbito, evitando-me. Desculpei-me cabisbaixo.
- Já está tudo em condições. Podes seguir descansada.
Entendi o toque uma vez mais, para me despedir. Ouvi então um ruído de madeira a estalar, percebendo uma sombra que se dobrava. Uma enorme árvore, despida de Inverno inclinava-se sobre mim, invertendo os seus ramos na direcção do solo. As extremidades perfuravam a terra reclamando, prendendo-se nas raízes que encontravam.
Os ramos assim dispostos, formavam uma gaiola perfeita, guardando-me no interior.
A mulher alta correu na direcção do automóvel, descobrindo em estranho milagre a saída daquele lugar.
A outra rapariga, lentamente, retirou o livro debaixo do meu casaco e aproximou-se da minha prisão. Ao passar-me tantas letras deixou, de intenção, que nos tocássemos uma última vez. Segredou-me.
- Não há nada depois, no lado de lá…
- Está tudo bem consigo?
Ela acordou de verdade e acenou de afirmação. Mas não podia falar.
- Tente sair do carro, por favor. Já passou. Está tudo bem?
Por volta daquele momento, toquei-a. A minha mão pediu a sua, oferecendo ajuda, sentindo-se estranha.
No banco ao seu lado estava um livro em repouso com um título que decorei – “O abraço da pele”. Deixei-o para mais tarde.
- Que me aconteceu?
- Não se preocupe. Foi apenas um pneu que rebentou. Mas por sorte não bateu em nada. Podia ter sido pior.
Ela encontrou nas mãos ainda entrelaçadas a resposta à minha pergunta.
- Sim…eu também estou a sentir.
E ao dizer isto encheu-se de rubor, como eu.
Ficámos muito parados a tentar entender o que se passava. O que sentíamos…
Quando a pele se afastou, pensei de novo e comecei a despir o casaco, atirado por cima do mesmo livro.
- Deixe estar que eu mudo o pneu num instante. Se quiser, pode sentar-se um pouco.
Sem me perder com o olhar, encontrou uma pedra acinzentada que a acolheu, talvez sorrindo um pouco.
- Já ouviste falar em Robert Jennais?
- O arqueólogo? O do teu livro?
Cada músculo lhe desceu em harmonia, confiando agora.
Robert Jennais era um mítico cientista, considerado uma sumidade no estudo da Civilização Suméria, mas com uma estranha história de vida. Aos trinta e três anos publicou o seu único livro, baseado no que julgava ser uma fantástica descoberta. Anos antes, alegadamente decifrara documentos antigos que falavam sobre a pele dos mortos. Um grupo de sacerdotes mumificava secretamente as suas mulheres, quando morriam, preservando a pele. Acreditavam que a sua paixão nascia do toque. Que a nossa pele possui pequenos organismos microscópicos que, quando encontram no toque os seus semelhantes se entrelaçam, segurando – O abraço da pele!
Ridicularizado pelos seus pares, jurou não mais escrever. Até à sua morte, continuou a fazer descobertas, que recusava registar. Quando um dia lhe perguntaram se não tinha pena de desperdiçar tanto conhecimento, respondeu em mistério.
- Não há nada depois, no lado de lá.
Terminei de mudar o pneu ao mesmo tempo que um outro carro parava perto de nós. No abrir de porta saiu uma mulher lindíssima. Era alta, delicada em absurdo, andando sem sombra, envergonhada, na minha direcção. Estendeu-me a mão num gesto sorrido. Não senti nada!
- Estou perdida. Não sei como vim parar a este fim de mundo. Graças a Deus que o encontro!
Gracejei de tolo, continuando a não sentir, mas ignorar. Olhei para a rapariga ainda sentada na pedra. Regressava de súbito, evitando-me. Desculpei-me cabisbaixo.
- Já está tudo em condições. Podes seguir descansada.
Entendi o toque uma vez mais, para me despedir. Ouvi então um ruído de madeira a estalar, percebendo uma sombra que se dobrava. Uma enorme árvore, despida de Inverno inclinava-se sobre mim, invertendo os seus ramos na direcção do solo. As extremidades perfuravam a terra reclamando, prendendo-se nas raízes que encontravam.
Os ramos assim dispostos, formavam uma gaiola perfeita, guardando-me no interior.
A mulher alta correu na direcção do automóvel, descobrindo em estranho milagre a saída daquele lugar.
A outra rapariga, lentamente, retirou o livro debaixo do meu casaco e aproximou-se da minha prisão. Ao passar-me tantas letras deixou, de intenção, que nos tocássemos uma última vez. Segredou-me.
- Não há nada depois, no lado de lá…
terça-feira, janeiro 10, 2006
segunda-feira, janeiro 02, 2006
A procissão...
“Vou ter que despir o casaco, para esta. Está calor, por escrever de barriga cheia. Para além disso sinto um estranho odor, que não sei se imagino.”
Era uma tarde de Inverno e ele queria por força ver o que se passava na sua frente. Mas a cortina de velhotas com bandeirinhas tapavam-lhe o caminho. Nervos para estas mulheres de anca larga, de filhos criados e que agora andam na galderice. Arrancava-as à pancada sem respeito, que no fundo tinha.
Depois pediu, com educação, esmerando-se na simpatia e mel. Tinha de passar!
De encontrão chegou ao muro, cinzento e só rebocado, fugido da cor por negligência. Olhou para a frente, ao meio da rua, e não viu nada!
Absolutamente nada. A rua estava deserta e as velhotas continuavam a gesticular, a gritar, algumas a chorar, rindo também. Mas para quem, porquê? Que viam elas?
No seu lado esquerdo duas pequenotas com sessenta anos abraçavam-se quase em histeria. Agarrou-as gritando muito. O que viam elas? Elas abraçaram de volta, cobrindo-o de beijos e carícias ternas. Rico filho, rico menino. Um exemplo para os mais novos, que já não vêm à procissão. À procissão? Mas que procissão? A rua estava vazia de gente, de tudo. Estas tontas estavam a gritar para o vazio, para nada!
Na direita havia mais calma. Uma mulher muito, muito velhinha, sentada num banco improvisado, com um ligeiro aceno, trauteado. Ele ajoelhou-se para falar.
- Desculpe, minha senhora…
Ela já estava a sorrir antes que completasse.
- Não vês nada, não é meu querido? Não faz mal, elas também não!
- Não vêem? Então?
Ficou parado, tão confuso.
- Se não vêem, o que estão aqui todas a fazer. O que é que a senhora veio cá fazer?
- Eu não disse que não via. São as outras, as senhoras com quem falaste. Eu já posso ver.
Agora estava pior, de olhos implorando.
Ela pediu.
- Vá, tem calma. Conheces a estória do rei que ia nu? Esta é parecida. Ninguém quer admitir que não a vê.
O rapaz perguntou bem devagarinho.
- Quem deveriam ver?
- A Nossa Senhora dos Aflitos. Dizem que se a não virmos é porque partimos em breve. Morremos, entendes?
Ela parecia adivinhar no que pensava, com a face muito rosada, ainda com covinhas lindas e rugas bem desenhadas.
- Sim, elas estão enganadas, meu rapaz. É ao contrário…como pensaste. Por isso eu vejo, porque elas ainda são muito novas. Eu vejo!
- Não devo ter pena pois não? Não me parece assustada.
A velhinha respondeu, de mão nas suas.
- E não estou. Estou cansadita.
Ela era muito bonita e ficaram de mãos dadas a assistir. Ela acenando e ele virado para a rua cheia de nada. Então lembrou-se.
- E os homens? Não há homens aqui. Não funciona com eles?
- Com os homens não. É tudo diferente. Nunca vêem nada e deixaram de vir.
Foi largando, para não agarrar em demasia, com medo de perder. Depois despediu-se com um beijo bem perto. Ao afastar-se ia olhando para trás. Por vezes parecia-lhe ver um pequeno andor, com uma estátua de flores e uma figura de luz.
Era uma tarde de Inverno e ele queria por força ver o que se passava na sua frente. Mas a cortina de velhotas com bandeirinhas tapavam-lhe o caminho. Nervos para estas mulheres de anca larga, de filhos criados e que agora andam na galderice. Arrancava-as à pancada sem respeito, que no fundo tinha.
Depois pediu, com educação, esmerando-se na simpatia e mel. Tinha de passar!
De encontrão chegou ao muro, cinzento e só rebocado, fugido da cor por negligência. Olhou para a frente, ao meio da rua, e não viu nada!
Absolutamente nada. A rua estava deserta e as velhotas continuavam a gesticular, a gritar, algumas a chorar, rindo também. Mas para quem, porquê? Que viam elas?
No seu lado esquerdo duas pequenotas com sessenta anos abraçavam-se quase em histeria. Agarrou-as gritando muito. O que viam elas? Elas abraçaram de volta, cobrindo-o de beijos e carícias ternas. Rico filho, rico menino. Um exemplo para os mais novos, que já não vêm à procissão. À procissão? Mas que procissão? A rua estava vazia de gente, de tudo. Estas tontas estavam a gritar para o vazio, para nada!
Na direita havia mais calma. Uma mulher muito, muito velhinha, sentada num banco improvisado, com um ligeiro aceno, trauteado. Ele ajoelhou-se para falar.
- Desculpe, minha senhora…
Ela já estava a sorrir antes que completasse.
- Não vês nada, não é meu querido? Não faz mal, elas também não!
- Não vêem? Então?
Ficou parado, tão confuso.
- Se não vêem, o que estão aqui todas a fazer. O que é que a senhora veio cá fazer?
- Eu não disse que não via. São as outras, as senhoras com quem falaste. Eu já posso ver.
Agora estava pior, de olhos implorando.
Ela pediu.
- Vá, tem calma. Conheces a estória do rei que ia nu? Esta é parecida. Ninguém quer admitir que não a vê.
O rapaz perguntou bem devagarinho.
- Quem deveriam ver?
- A Nossa Senhora dos Aflitos. Dizem que se a não virmos é porque partimos em breve. Morremos, entendes?
Ela parecia adivinhar no que pensava, com a face muito rosada, ainda com covinhas lindas e rugas bem desenhadas.
- Sim, elas estão enganadas, meu rapaz. É ao contrário…como pensaste. Por isso eu vejo, porque elas ainda são muito novas. Eu vejo!
- Não devo ter pena pois não? Não me parece assustada.
A velhinha respondeu, de mão nas suas.
- E não estou. Estou cansadita.
Ela era muito bonita e ficaram de mãos dadas a assistir. Ela acenando e ele virado para a rua cheia de nada. Então lembrou-se.
- E os homens? Não há homens aqui. Não funciona com eles?
- Com os homens não. É tudo diferente. Nunca vêem nada e deixaram de vir.
Foi largando, para não agarrar em demasia, com medo de perder. Depois despediu-se com um beijo bem perto. Ao afastar-se ia olhando para trás. Por vezes parecia-lhe ver um pequeno andor, com uma estátua de flores e uma figura de luz.
domingo, janeiro 01, 2006
O homem muito rico...
“Vou contar-vos o que ouvi…sob um traço pequeno de luz, deslizando por entre um véu já seco…”
No final do jantar desci as escadas a espreitar. Em baixo esperava uma mulher, menina, chinesa em escuro olhar. O cabelo esticava-se para tocar no ombro, puxando a raiz ao limite, roçando o ombro destapado…
A voz era curta e fina, de muita contenção no que iria contar. Sentei-me entre ela e um precioso biombo de verde, escutando.
Pareciam ondas, muito finas, chegando-me no que ouvia. E ela começou.
- Tu já foste outro! Lembras-te?
Todos os dias até então, acordei pensando nisso, no que fora, no que antecedeu o que agora vejo. Em cada segundo soube que fora outro.
- Sei que fui…mas não recordo. Respondi.
- Então escuta! Vês o homem de pé, naquele canto, de camisa branca?
Ao mesmo tempo ele quis acender um cigarro, com demasiado impulso. Uma bola de fogo nasceu-lhe nas mãos, fazendo-o recuar. Tudo caiu e olhou para mim.
A menina mulher continuou.
- Tens que me ouvir, sem pensar, sem mais escutar. E tocou-me nos dedos, para que visse…
Estava num quarto enorme, com uma cama central no cimo de um degrau, uma janela ampla para o jardim interior, de piscina azulada. Acabava de me vestir, de apertar a gravata em seda e fiozinhos de ouro. Andei para o corredor. A camareira antiga esticou-se para me saudar.
- Olá senhor. Disse, recebendo o inclinar.
Saí na noite quente, ao mesmo tempo que inspirava porquês. Do outro lado da rua, chamaram-me.
- És mesmo tu? Há quanto tempo não nos víamos!
O abraço foi forçado, em esquecimento. De braço pesado nas costas tive de voltar e ouvir.
- Estás hospedado aqui? Isto é um pouco caro, não achas?
- Eu…sou o dono disto.
Ele pensou e resmungou e espirrou galhofices estranhas.
- Dono? Tu deves ser muito rico. Nunca me disseste. Anda! Anda pagar-me…qualquer coisa.
Entrámos, pesando passos pequenos. Ao ouvido, dobrei-me de novo a mais uma mulher, para segredar.
- Fica com ela. Estás em boas mãos.
Voltei para cima, no elevador cravado a dourado, esculpindo uma história. Atravessei o corredor, desfazendo o nó, abrindo um pouco a camisa, buscando a chave. Tudo tinha e perdia num instante, farto de riqueza e de aspereza.
Ao entrar notei o barulho imenso, de risos, de água caindo, o holofote que decorava, rodando em espiral. Avancei e pude vê-los, saltando vestidos para a piscina, jogando infância uns nos outros. E o meu pai ria, espalhava água nas pernas e brincava, empurrando quem se lhe aproximava.
- O que estão aqui a fazer?
Eles olharam e pararam, entreolhando.
- À tua espera, para te salvar!
Lembro-me de subir ao muro e de saltar. Vestido mergulhar na água doce, raspando o fundo, depositando os botões em pérola…como pérolas.
Voltámos para o quarto, abraçando, prometendo amizade e memórias, não deixando que os nós nos afastassem. Parei um pouco e prometi.
- Vão! Vão andando. Corro atrás de vocês.
Vesti uma camisola simples, mas com cores. Demorei a vê-la, sentada no chão, à minha espera.
A chinesa menina falou de novo.
- Lembras-te de sonhares assim, na última noite?
Eu fiquei com uma lágrima espremida, a querer saltar.
- Lembro-me. Lembro…mas não sei o que quer dizer.
- Que não tenhas pressa. Que não corras por nada. Há-de aparecer!
No final do jantar desci as escadas a espreitar. Em baixo esperava uma mulher, menina, chinesa em escuro olhar. O cabelo esticava-se para tocar no ombro, puxando a raiz ao limite, roçando o ombro destapado…
A voz era curta e fina, de muita contenção no que iria contar. Sentei-me entre ela e um precioso biombo de verde, escutando.
Pareciam ondas, muito finas, chegando-me no que ouvia. E ela começou.
- Tu já foste outro! Lembras-te?
Todos os dias até então, acordei pensando nisso, no que fora, no que antecedeu o que agora vejo. Em cada segundo soube que fora outro.
- Sei que fui…mas não recordo. Respondi.
- Então escuta! Vês o homem de pé, naquele canto, de camisa branca?
Ao mesmo tempo ele quis acender um cigarro, com demasiado impulso. Uma bola de fogo nasceu-lhe nas mãos, fazendo-o recuar. Tudo caiu e olhou para mim.
A menina mulher continuou.
- Tens que me ouvir, sem pensar, sem mais escutar. E tocou-me nos dedos, para que visse…
Estava num quarto enorme, com uma cama central no cimo de um degrau, uma janela ampla para o jardim interior, de piscina azulada. Acabava de me vestir, de apertar a gravata em seda e fiozinhos de ouro. Andei para o corredor. A camareira antiga esticou-se para me saudar.
- Olá senhor. Disse, recebendo o inclinar.
Saí na noite quente, ao mesmo tempo que inspirava porquês. Do outro lado da rua, chamaram-me.
- És mesmo tu? Há quanto tempo não nos víamos!
O abraço foi forçado, em esquecimento. De braço pesado nas costas tive de voltar e ouvir.
- Estás hospedado aqui? Isto é um pouco caro, não achas?
- Eu…sou o dono disto.
Ele pensou e resmungou e espirrou galhofices estranhas.
- Dono? Tu deves ser muito rico. Nunca me disseste. Anda! Anda pagar-me…qualquer coisa.
Entrámos, pesando passos pequenos. Ao ouvido, dobrei-me de novo a mais uma mulher, para segredar.
- Fica com ela. Estás em boas mãos.
Voltei para cima, no elevador cravado a dourado, esculpindo uma história. Atravessei o corredor, desfazendo o nó, abrindo um pouco a camisa, buscando a chave. Tudo tinha e perdia num instante, farto de riqueza e de aspereza.
Ao entrar notei o barulho imenso, de risos, de água caindo, o holofote que decorava, rodando em espiral. Avancei e pude vê-los, saltando vestidos para a piscina, jogando infância uns nos outros. E o meu pai ria, espalhava água nas pernas e brincava, empurrando quem se lhe aproximava.
- O que estão aqui a fazer?
Eles olharam e pararam, entreolhando.
- À tua espera, para te salvar!
Lembro-me de subir ao muro e de saltar. Vestido mergulhar na água doce, raspando o fundo, depositando os botões em pérola…como pérolas.
Voltámos para o quarto, abraçando, prometendo amizade e memórias, não deixando que os nós nos afastassem. Parei um pouco e prometi.
- Vão! Vão andando. Corro atrás de vocês.
Vesti uma camisola simples, mas com cores. Demorei a vê-la, sentada no chão, à minha espera.
A chinesa menina falou de novo.
- Lembras-te de sonhares assim, na última noite?
Eu fiquei com uma lágrima espremida, a querer saltar.
- Lembro-me. Lembro…mas não sei o que quer dizer.
- Que não tenhas pressa. Que não corras por nada. Há-de aparecer!
sábado, dezembro 31, 2005
Uma viagem (cont.)...
Passado um pouco, o canguru Kikas, entrou numa pequena floresta. O dia estava quente e ele parou para descansar.
De repente apareceu uma raposa à sua frente.
- Olá senhor canguru.
Era a raposa Manhosa!
O Kikas respondeu meio desconfiado.
- Bom dia senhora raposa.
A raposa era mais pequena que ele, e não conseguiria fazer-lhe mal. Mas era melhor ter atenção, porque são bichos muito matreiros.
- Então, onde é que o senhor vai?
- Eu ando em viagem pelo país, mas agora estou a descansar um pouco. Disse o canguru.
A raposa Manhosa suspirou.
- Faz muito bem. Está muito calor.
Depois perguntou.
- Olhe lá! Não quer ir beber uma água fresquinha?
O Kikas desconfiou.
- Mas aqui não há água.
- Aqui não há, mas em minha casa tenho muita e está bem fria.
Respondeu a Manhosa a rir.
O Kikas pensou um pouco e respondeu.
- Eu preciso só de fazer umas coisas e depois vou ter consigo. Diga-me onde é a sua casa e vou lá ter.
A raposa explicou-lhe onde vivia e foi-se embora a cantar. O que ela queria era enganar o canguru e foi a correr para casa, onde estavam os seus irmãos. Viviam todos numa árvore muito grande, com uma porta em madeira pintada de amarelo e com uma argola dourada. Quando chegou começou a gritar.
- Manos, já temos almoço. Enganei um canguru que deve estar mesmo a chegar.
Os irmãos esfregaram as mãos de contentes e prepararam-se para almoçar.
Mas o que eles não sabiam era que o canguru Kikas não confiava na raposa Manhosa. Quando ela se foi embora voltou para trás para ir ter com o crocodilo. Encontrou-o ainda com o tronco entalado na boca, que tentava soltar abanando a cabeça de um lado para o outro. Quando o viu disse.
- Que viste cá fazer outra vez? Vens gozar comigo?
O Kikas respondeu.
- Por acaso até venho ajudar. Sei como podes tirar esse tronco da boca, mas só te digo se prometeres que não voltas a mentir.
- Eu prometo, eu prometo. Repetiu o crocodilo.
- Ouve-me bem. Depois daquele monte vais encontrar uma floresta. Vai sempre pelo caminho das pedrinhas brancas até encontrares uma árvore com a porta amarela. Essa porta tem uma argola e podes prender lá o tronco para depois puxar. Vais ver que se solta num instante.
O crocodilo agradeceu e partiu a correr à procura da árvore. Quando a viu, ficou tão contente que começou a chorar e foi até ao pé da porta amarela. Entalou com cuidado o tronco na argola dourada e começou a puxar com força.
Nessa altura a raposa Manhosa e os irmãos começaram a ouvir um barulho na porta e pensaram que era o Kikas.
- Ali vem o nosso almoço. Disse a Manhosa. Vamos lá buscá-lo.
As raposas puxaram a porta, mas não a conseguiram abrir.
- Parece que a porta está presa. Disse um dos irmãos.
- Puxem com força! Respondeu a Manhosa.
Então, o tronco soltou-se da boca do crocodilo e a porta abriu-se de repente. As raposas viram aquela boca enorme e cheia de dentes na sua frente e começaram a gritar muito assustadas.
- Ai que o crocodilo nos vai comer. Fujam todos. Gritava a raposa Manhosa.
Começaram todos a fugir e a tropeçar uns nos outros. Escondido atrás de uma grande pedra, o Kikas tinha estado a ver tudo e ria tanto que já lhe doía a barriga. Agora podia seguir viagem. Que dia cheio de aventuras!
De repente apareceu uma raposa à sua frente.
- Olá senhor canguru.
Era a raposa Manhosa!
O Kikas respondeu meio desconfiado.
- Bom dia senhora raposa.
A raposa era mais pequena que ele, e não conseguiria fazer-lhe mal. Mas era melhor ter atenção, porque são bichos muito matreiros.
- Então, onde é que o senhor vai?
- Eu ando em viagem pelo país, mas agora estou a descansar um pouco. Disse o canguru.
A raposa Manhosa suspirou.
- Faz muito bem. Está muito calor.
Depois perguntou.
- Olhe lá! Não quer ir beber uma água fresquinha?
O Kikas desconfiou.
- Mas aqui não há água.
- Aqui não há, mas em minha casa tenho muita e está bem fria.
Respondeu a Manhosa a rir.
O Kikas pensou um pouco e respondeu.
- Eu preciso só de fazer umas coisas e depois vou ter consigo. Diga-me onde é a sua casa e vou lá ter.
A raposa explicou-lhe onde vivia e foi-se embora a cantar. O que ela queria era enganar o canguru e foi a correr para casa, onde estavam os seus irmãos. Viviam todos numa árvore muito grande, com uma porta em madeira pintada de amarelo e com uma argola dourada. Quando chegou começou a gritar.
- Manos, já temos almoço. Enganei um canguru que deve estar mesmo a chegar.
Os irmãos esfregaram as mãos de contentes e prepararam-se para almoçar.
Mas o que eles não sabiam era que o canguru Kikas não confiava na raposa Manhosa. Quando ela se foi embora voltou para trás para ir ter com o crocodilo. Encontrou-o ainda com o tronco entalado na boca, que tentava soltar abanando a cabeça de um lado para o outro. Quando o viu disse.
- Que viste cá fazer outra vez? Vens gozar comigo?
O Kikas respondeu.
- Por acaso até venho ajudar. Sei como podes tirar esse tronco da boca, mas só te digo se prometeres que não voltas a mentir.
- Eu prometo, eu prometo. Repetiu o crocodilo.
- Ouve-me bem. Depois daquele monte vais encontrar uma floresta. Vai sempre pelo caminho das pedrinhas brancas até encontrares uma árvore com a porta amarela. Essa porta tem uma argola e podes prender lá o tronco para depois puxar. Vais ver que se solta num instante.
O crocodilo agradeceu e partiu a correr à procura da árvore. Quando a viu, ficou tão contente que começou a chorar e foi até ao pé da porta amarela. Entalou com cuidado o tronco na argola dourada e começou a puxar com força.
Nessa altura a raposa Manhosa e os irmãos começaram a ouvir um barulho na porta e pensaram que era o Kikas.
- Ali vem o nosso almoço. Disse a Manhosa. Vamos lá buscá-lo.
As raposas puxaram a porta, mas não a conseguiram abrir.
- Parece que a porta está presa. Disse um dos irmãos.
- Puxem com força! Respondeu a Manhosa.
Então, o tronco soltou-se da boca do crocodilo e a porta abriu-se de repente. As raposas viram aquela boca enorme e cheia de dentes na sua frente e começaram a gritar muito assustadas.
- Ai que o crocodilo nos vai comer. Fujam todos. Gritava a raposa Manhosa.
Começaram todos a fugir e a tropeçar uns nos outros. Escondido atrás de uma grande pedra, o Kikas tinha estado a ver tudo e ria tanto que já lhe doía a barriga. Agora podia seguir viagem. Que dia cheio de aventuras!
sexta-feira, dezembro 30, 2005
Uma viagem...
Pai, contas-me uma estória?
Era uma vez um canguru, chamado Kikas. Ele vivia com os irmãos e os pais, muito longe, na Austrália e desde pequenino tinha um sonho. Queria conhecer o seu país.
Como a Austrália é muito grande teve de preparar a viagem com cuidado para que nada faltasse. A mãe ficou um pouco preocupada e arranjou-lhe uma bolsinha com comida, para que não tivesse fome. O canguru despediu-se da família e partiu à aventura!
Ao fim de caminhar durante umas horas encontrou um rio. O Kikas não sabia nadar e começou à procura de um lugar com pouca água para poder atravessar. Alguns metros à frente havia uma passagem. Quando se preparava para avançar, Kikas parou de repente. Estava um crocodilo dentro do rio! Enquanto subia para uma árvore, ouviu-o dizer.
- Olá senhor canguru. Então o que faz por estes lados?
O Kikas estava um pouco assustado, mas respondeu.
- Eu…eu ando em viagem.
- E faz muito bem. Mas não precisa de passar o rio? Perguntou o crocodilo.
- Não, não! Respondeu o kikas. – Eu estou só aqui a descansar.
O crocodilo riu-se um pouco e falou outra vez.
- Está com medo de mim, não é?
- Olhe, para dizer a verdade, tenho medo que me coma quando atravessar o rio. Disse o Kikas.
- Pois! Eu percebi. Mas não se preocupe que não tenho fome. Acabei de comer um peixinho e não consigo engolir mais nada. Pode atravessar à vontade.
Mas o Kikas era muito espertalhão e não se deixava enganar.
- Olhe, senhor crocodilo. Vamos combinar uma coisa. Eu até posso acreditar em si, mas continuo a ter medo. Importa-se se fechar os olhos, enquanto atravesso o rio?
O crocodilo disse logo que sim, mas na verdade queria apanhar o Kikas. Quando sentisse a água a mexer perto dele, saltava de repente e comia o canguru.
- Pode passar, amiguinho. Já estou de olhos bem fechados.
O Kikas, em vez de entrar na água, empurrou um velho tronco de uma árvore, na direcção do crocodilo.
Ao sentir a água a mexer, quando o tronco chegou perto de si, o crocodilo pensou que era o canguru. Então, de boca muito aberta saltou para o comer, mas como ainda tinha os olhos fechados não reparou que estava a morder um pedaço de madeira. Nessa altura o Kikas deu um grande salto para cima do crocodilo e depois saltou para o outro lado do rio. Foi-se embora muito depressa e a rir, continuando a sua viagem.
Era uma vez um canguru, chamado Kikas. Ele vivia com os irmãos e os pais, muito longe, na Austrália e desde pequenino tinha um sonho. Queria conhecer o seu país.
Como a Austrália é muito grande teve de preparar a viagem com cuidado para que nada faltasse. A mãe ficou um pouco preocupada e arranjou-lhe uma bolsinha com comida, para que não tivesse fome. O canguru despediu-se da família e partiu à aventura!
Ao fim de caminhar durante umas horas encontrou um rio. O Kikas não sabia nadar e começou à procura de um lugar com pouca água para poder atravessar. Alguns metros à frente havia uma passagem. Quando se preparava para avançar, Kikas parou de repente. Estava um crocodilo dentro do rio! Enquanto subia para uma árvore, ouviu-o dizer.
- Olá senhor canguru. Então o que faz por estes lados?
O Kikas estava um pouco assustado, mas respondeu.
- Eu…eu ando em viagem.
- E faz muito bem. Mas não precisa de passar o rio? Perguntou o crocodilo.
- Não, não! Respondeu o kikas. – Eu estou só aqui a descansar.
O crocodilo riu-se um pouco e falou outra vez.
- Está com medo de mim, não é?
- Olhe, para dizer a verdade, tenho medo que me coma quando atravessar o rio. Disse o Kikas.
- Pois! Eu percebi. Mas não se preocupe que não tenho fome. Acabei de comer um peixinho e não consigo engolir mais nada. Pode atravessar à vontade.
Mas o Kikas era muito espertalhão e não se deixava enganar.
- Olhe, senhor crocodilo. Vamos combinar uma coisa. Eu até posso acreditar em si, mas continuo a ter medo. Importa-se se fechar os olhos, enquanto atravesso o rio?
O crocodilo disse logo que sim, mas na verdade queria apanhar o Kikas. Quando sentisse a água a mexer perto dele, saltava de repente e comia o canguru.
- Pode passar, amiguinho. Já estou de olhos bem fechados.
O Kikas, em vez de entrar na água, empurrou um velho tronco de uma árvore, na direcção do crocodilo.
Ao sentir a água a mexer, quando o tronco chegou perto de si, o crocodilo pensou que era o canguru. Então, de boca muito aberta saltou para o comer, mas como ainda tinha os olhos fechados não reparou que estava a morder um pedaço de madeira. Nessa altura o Kikas deu um grande salto para cima do crocodilo e depois saltou para o outro lado do rio. Foi-se embora muito depressa e a rir, continuando a sua viagem.
quinta-feira, dezembro 22, 2005
David, o Minotauro e a bruxa…
David tinha encolhido! Era assim que começava a sua Primavera, com medo. Sabia bem o que chegava, envolto, entardecido e a magoar. Parecia-lhe tosca, a corrida que se preparava para fazer. Observou forte os adversários.
Nascera numa pequena vila de pesca onde o pai desistira há muito. Havia de ganhar! Começou a chegar-se ao brutamontes do António. De mansinho tomou posição pelas suas costas.
- Não vais ganhar! Tu sabes isso.
O enorme homem virou-se já de punho fechado em raiva, socando o ar fresco em vão.
Depois passou a raspar no João. Não tinha vida aquele rapaz, sempre deitado. Gostava dele.
- É desta que te perdes! Levas cordel?
- Não tenho paciência para os teus disparates, David.
Uma pancada seca no sino dourado e começaram todos a correr. Todos, menos o David. Nem explicou e partiu na direcção oposta. Estava farto.
Foi para casa trocar de roupa, muito zangado e com pintas franzidas na testa.
- Maldita bruxa. Maldita mulher!
David perdera-se na noite anterior, no labirinto simples, à procura da voz. Ela tinha jurado ajudar, mas deixou-o só, sem as cordas, chamando em timbre errado. Nessa altura encontrou a besta. A máscara era disforme, e ainda cheirava a pó. O António suava debaixo da cabeça de boi, entalada perto dos ombros.
- Anda herói!
Grunhiu a metade homem.
- Desafia-me com a tua espada!
- O meu nome é David! É David, gritou o rapaz. Será que não entendiam? A bruxa pagaria bem caro.
Dois dias antes encontrou-a lavando roupa clara. Riu-se sem cuidado.
- Agora andas de branco? Não me parece apropriado para uma bruxa.
- Não vale a pena, pequeno homem. Não te conto.
Ele pediu mais calmo.
- Eu sei que só posso usar a voz. Mas qual?
- Tu sabes da voz?
A mulher deixou sair um gritinho assustadiço. Puxou o ar, mas não inchou o suficiente. Deixou de defender.
- Como descobriste?
- Isso foi fácil, desde criança. Mas de nada vale. Tu de nada vales!
Afastou-se em direcção ao Museu. Ia sempre lá. Sentava-se no escuro a pensar, a fazer festas nos animais embalsamados. O casarão tinha pertencido ao Visconde Tadeu. Era um grande caçador com longos bigodes. Por sua vontade, depois de morrer ali ficou, com o corpo cheio de palha e madeira fina, de olhar fixo em vidro pintado. Então percebeu. Era a voz!
Passados dois dias entrou no labirinto. Os outros andavam na praia a correr. Todas as semanas competiam para escolher o mais forte. Quem ganhasse tinha o direito de ir ao labirinto, procurar o tesouro do Tadeu. Todos já tinham ganho, menos o António. Ele era o Minotauro. Só ele tinha força para suportar a pesada cabeça de animal. A bruxa obrigava-o a cumprir. Apesar da voz alterada, David conhecia-o.
Durante anos imaginou-o, enorme, gigante na sua frente. Perdia sempre e desistia, como o pai. Um dia ouviu-lhe dizer.
- É a voz, David. É o som que sai da cabeça. E a bruxa sabe-o. O resto escondeu…por medo.
A mulher era na verdade a viúva do Visconde. Controlava a pequena vila, ameaçando destruir a pesca, os barcos, tudo e pouco de que ainda viviam e que lhe pertencia.
Inventou a estúpida procura do tesouro. Divertia-se com o desespero dos outros. Até hoje!
A mulher corria o mais depressa que conseguia. Lembrava-se da conversa com o rapaz e do museu, com as portas abertas. Não foi preciso entrar. Sabia que o roubara. Tinha de o impedir. Entrou no labirinto a ofegar. Foi direita aos interruptores. Não havia tempo para teatralizar. Acendeu as luzes, para procurar.
Mesmo assim era difícil. Na verdade o labirinto estava cheio de espelhos. Era quase impossível a orientação. Quantos resgatara perdidos e a chorar. Com um pequeno toque numa alavanca, fez aparecer um corredor, que a levaria…ao lugar.
Deu passos lentos, para logo se imobilizar. Sentada ao fundo estava a besta, de pouca mitologia e mais pequena.
- Anda mulher. Aproxima-te de mim!
Caiu de joelhos, ferindo a pele. Recordou a voz. Era o Visconde!
David retirou a máscara e colocou-a perto dos pés. Escorria satisfação e triunfo. Por ironia fora o João que o fizera acordar. De tanto fumar e pouco andar, o rapaz ganhara uma voz truculenta e forte. Arranhava as notas tentando cantar. E assim descobriu.
Tadeu, no auge da excentricidade, deixou um macabro pedido. As suas cordas vocais ser-lhe-iam extraídas após a sua morte. Depois de secas, devia ser instaladas num mecanismo de sopro que ele próprio inventara. Era a maior atracção do museu. Qualquer um podia falar através dele, com a voz do grande Tadeu, perpetuando o seu tom.
No labirinto, fora instalada uma parede secreta. Só abria com o som correcto, o daquela voz, que David guardava na sua mão. Dentro de uma grande sala ficava o tesouro, roubado pelo Visconde e pela mulher. Pertencia a um barco que dormia na enseada da vila, transformado em atracção turística pelo casal, que primeiro lhe retirou o conteúdo, das entranhas. Por lei pertencia a todos. Por ganância lhes foi escondido.
David baixou-se junto da mulher, que chorava.
- Já chega, bruxa! A corrida acabou.
Nascera numa pequena vila de pesca onde o pai desistira há muito. Havia de ganhar! Começou a chegar-se ao brutamontes do António. De mansinho tomou posição pelas suas costas.
- Não vais ganhar! Tu sabes isso.
O enorme homem virou-se já de punho fechado em raiva, socando o ar fresco em vão.
Depois passou a raspar no João. Não tinha vida aquele rapaz, sempre deitado. Gostava dele.
- É desta que te perdes! Levas cordel?
- Não tenho paciência para os teus disparates, David.
Uma pancada seca no sino dourado e começaram todos a correr. Todos, menos o David. Nem explicou e partiu na direcção oposta. Estava farto.
Foi para casa trocar de roupa, muito zangado e com pintas franzidas na testa.
- Maldita bruxa. Maldita mulher!
David perdera-se na noite anterior, no labirinto simples, à procura da voz. Ela tinha jurado ajudar, mas deixou-o só, sem as cordas, chamando em timbre errado. Nessa altura encontrou a besta. A máscara era disforme, e ainda cheirava a pó. O António suava debaixo da cabeça de boi, entalada perto dos ombros.
- Anda herói!
Grunhiu a metade homem.
- Desafia-me com a tua espada!
- O meu nome é David! É David, gritou o rapaz. Será que não entendiam? A bruxa pagaria bem caro.
Dois dias antes encontrou-a lavando roupa clara. Riu-se sem cuidado.
- Agora andas de branco? Não me parece apropriado para uma bruxa.
- Não vale a pena, pequeno homem. Não te conto.
Ele pediu mais calmo.
- Eu sei que só posso usar a voz. Mas qual?
- Tu sabes da voz?
A mulher deixou sair um gritinho assustadiço. Puxou o ar, mas não inchou o suficiente. Deixou de defender.
- Como descobriste?
- Isso foi fácil, desde criança. Mas de nada vale. Tu de nada vales!
Afastou-se em direcção ao Museu. Ia sempre lá. Sentava-se no escuro a pensar, a fazer festas nos animais embalsamados. O casarão tinha pertencido ao Visconde Tadeu. Era um grande caçador com longos bigodes. Por sua vontade, depois de morrer ali ficou, com o corpo cheio de palha e madeira fina, de olhar fixo em vidro pintado. Então percebeu. Era a voz!
Passados dois dias entrou no labirinto. Os outros andavam na praia a correr. Todas as semanas competiam para escolher o mais forte. Quem ganhasse tinha o direito de ir ao labirinto, procurar o tesouro do Tadeu. Todos já tinham ganho, menos o António. Ele era o Minotauro. Só ele tinha força para suportar a pesada cabeça de animal. A bruxa obrigava-o a cumprir. Apesar da voz alterada, David conhecia-o.
Durante anos imaginou-o, enorme, gigante na sua frente. Perdia sempre e desistia, como o pai. Um dia ouviu-lhe dizer.
- É a voz, David. É o som que sai da cabeça. E a bruxa sabe-o. O resto escondeu…por medo.
A mulher era na verdade a viúva do Visconde. Controlava a pequena vila, ameaçando destruir a pesca, os barcos, tudo e pouco de que ainda viviam e que lhe pertencia.
Inventou a estúpida procura do tesouro. Divertia-se com o desespero dos outros. Até hoje!
A mulher corria o mais depressa que conseguia. Lembrava-se da conversa com o rapaz e do museu, com as portas abertas. Não foi preciso entrar. Sabia que o roubara. Tinha de o impedir. Entrou no labirinto a ofegar. Foi direita aos interruptores. Não havia tempo para teatralizar. Acendeu as luzes, para procurar.
Mesmo assim era difícil. Na verdade o labirinto estava cheio de espelhos. Era quase impossível a orientação. Quantos resgatara perdidos e a chorar. Com um pequeno toque numa alavanca, fez aparecer um corredor, que a levaria…ao lugar.
Deu passos lentos, para logo se imobilizar. Sentada ao fundo estava a besta, de pouca mitologia e mais pequena.
- Anda mulher. Aproxima-te de mim!
Caiu de joelhos, ferindo a pele. Recordou a voz. Era o Visconde!
David retirou a máscara e colocou-a perto dos pés. Escorria satisfação e triunfo. Por ironia fora o João que o fizera acordar. De tanto fumar e pouco andar, o rapaz ganhara uma voz truculenta e forte. Arranhava as notas tentando cantar. E assim descobriu.
Tadeu, no auge da excentricidade, deixou um macabro pedido. As suas cordas vocais ser-lhe-iam extraídas após a sua morte. Depois de secas, devia ser instaladas num mecanismo de sopro que ele próprio inventara. Era a maior atracção do museu. Qualquer um podia falar através dele, com a voz do grande Tadeu, perpetuando o seu tom.
No labirinto, fora instalada uma parede secreta. Só abria com o som correcto, o daquela voz, que David guardava na sua mão. Dentro de uma grande sala ficava o tesouro, roubado pelo Visconde e pela mulher. Pertencia a um barco que dormia na enseada da vila, transformado em atracção turística pelo casal, que primeiro lhe retirou o conteúdo, das entranhas. Por lei pertencia a todos. Por ganância lhes foi escondido.
David baixou-se junto da mulher, que chorava.
- Já chega, bruxa! A corrida acabou.
segunda-feira, dezembro 19, 2005
A subida...
- Achas mesmo que vamos descobrir?
- Calma, amor. Continua a subir.
Os dois eram já velhinhos. Subiam de mão dada à procura de uma resposta. Um dia, puxados por uma ciganita ficaram a ouvir dizer, as linhas a revelar…
Ela rejeitou a esmola e apenas devolveu um sorriso.
- Então é por isso…
Depois afastou-se, devolvendo um esgar, correndo em passos curtos.
- Ainda a pensar na cigana, ao fim de tanto tempo? A pergunta era doce.
- Também te lembras, não é? Vamos que vai anoitecer.
Caminhavam colina a cima buscando a senhora na última casa. Casaram há sessenta e nove anos, firmes no propósito e sem duvidar. Fora a neta Maria que os fizera recordar.
- Mãe, as mãos dos avós estão coladas?
- Acho que sim, querida. Acho que sim.
A sua felicidade fora completa e não precisaram questionar, aceitando o dom. Os outros discutiam muito, perguntando porquê, berrando em silêncio.
- Lembras-te daquela vez? Perguntou afagando a barba branca.
Ela franziu.
- Ai homem, que não tens emenda. Claro que me lembro.
Era sempre assim. Quase não precisavam falar. Um piscar baixinho revelava.
Ao fundo viram a casa velhita, com uma coluna de fumo mágico. Estavam quase a chegar.
As mãos unidas sentiram a pesada maçaneta, com um coração e uma bruxa, de madeira.
- Façam favor de entrar!
A voz era de homem, que apareceu de sorrisos e braço no ar.
- É o casal de velhinhos, mãe!
Ficaram juntos num pequeno banco de esperar, tricotado em cordel de tranças.
- Estás nervoso?
- Só um bocadinho. Mas não é importante.
As mãos apertaram, um segundo antes dela entrar. Apareceu de unhas muitos curtas, desmaiando o vermelho, saindo em lascas que esvoaçavam.
- Boa noite meus amigos. Venham comigo por favor.
- Seguiram a senhora que era gorda, perto de uma pesada cortina em veludo. Tinha sido trazida para tapar a luz. Porque não tremia com o ar ou o ruído. Era de ocre e cheirava a velho. Era bonita.
Sentaram-se em frente a uma pequena bola de cristal, com neve artificial no seu interior.
- Desculpem o engano. Há quem precise. Mas sabem que não funciona…
A mulher notou o tremer e mudou. Cresceu na pose para dizer.
- Na verdade nunca perceberam?
Eles ofereceram-se à dúvida que não existia, retribuindo.
- Estamos juntos há quase setenta anos. Sabia que nunca nos zangámos, que nunca deixei de chorar de alegria, que guardo o seu sono em sonho meu?
O senhor acariciava a face da mulher, de rugas marcadas.
- Amo-te tanto, meu lindo.
A senhora fez-se bruxa para suportar, arrancando um único soluço ao colo, escutando.
- Há muitos anos disseram-nos que havia uma explicação para tanto amor. Não nos incomodou na altura e hoje muito menos. Se queremos saber é para recordar. Falaram em outras vidas, noutras paixões. Que nos conhecemos com diferentes nomes. Que encarnámos para relembrar.
- Quem éramos nós, no passado? Pode dizer-nos, por favor?
A bruxa espantou, antes de responder.
- Sempre pensei que soubessem, que só havia uma.
- Só havia uma?
Terminou muito baixinho.
- Vocês…eram a mesma pessoa!
- Calma, amor. Continua a subir.
Os dois eram já velhinhos. Subiam de mão dada à procura de uma resposta. Um dia, puxados por uma ciganita ficaram a ouvir dizer, as linhas a revelar…
Ela rejeitou a esmola e apenas devolveu um sorriso.
- Então é por isso…
Depois afastou-se, devolvendo um esgar, correndo em passos curtos.
- Ainda a pensar na cigana, ao fim de tanto tempo? A pergunta era doce.
- Também te lembras, não é? Vamos que vai anoitecer.
Caminhavam colina a cima buscando a senhora na última casa. Casaram há sessenta e nove anos, firmes no propósito e sem duvidar. Fora a neta Maria que os fizera recordar.
- Mãe, as mãos dos avós estão coladas?
- Acho que sim, querida. Acho que sim.
A sua felicidade fora completa e não precisaram questionar, aceitando o dom. Os outros discutiam muito, perguntando porquê, berrando em silêncio.
- Lembras-te daquela vez? Perguntou afagando a barba branca.
Ela franziu.
- Ai homem, que não tens emenda. Claro que me lembro.
Era sempre assim. Quase não precisavam falar. Um piscar baixinho revelava.
Ao fundo viram a casa velhita, com uma coluna de fumo mágico. Estavam quase a chegar.
As mãos unidas sentiram a pesada maçaneta, com um coração e uma bruxa, de madeira.
- Façam favor de entrar!
A voz era de homem, que apareceu de sorrisos e braço no ar.
- É o casal de velhinhos, mãe!
Ficaram juntos num pequeno banco de esperar, tricotado em cordel de tranças.
- Estás nervoso?
- Só um bocadinho. Mas não é importante.
As mãos apertaram, um segundo antes dela entrar. Apareceu de unhas muitos curtas, desmaiando o vermelho, saindo em lascas que esvoaçavam.
- Boa noite meus amigos. Venham comigo por favor.
- Seguiram a senhora que era gorda, perto de uma pesada cortina em veludo. Tinha sido trazida para tapar a luz. Porque não tremia com o ar ou o ruído. Era de ocre e cheirava a velho. Era bonita.
Sentaram-se em frente a uma pequena bola de cristal, com neve artificial no seu interior.
- Desculpem o engano. Há quem precise. Mas sabem que não funciona…
A mulher notou o tremer e mudou. Cresceu na pose para dizer.
- Na verdade nunca perceberam?
Eles ofereceram-se à dúvida que não existia, retribuindo.
- Estamos juntos há quase setenta anos. Sabia que nunca nos zangámos, que nunca deixei de chorar de alegria, que guardo o seu sono em sonho meu?
O senhor acariciava a face da mulher, de rugas marcadas.
- Amo-te tanto, meu lindo.
A senhora fez-se bruxa para suportar, arrancando um único soluço ao colo, escutando.
- Há muitos anos disseram-nos que havia uma explicação para tanto amor. Não nos incomodou na altura e hoje muito menos. Se queremos saber é para recordar. Falaram em outras vidas, noutras paixões. Que nos conhecemos com diferentes nomes. Que encarnámos para relembrar.
- Quem éramos nós, no passado? Pode dizer-nos, por favor?
A bruxa espantou, antes de responder.
- Sempre pensei que soubessem, que só havia uma.
- Só havia uma?
Terminou muito baixinho.
- Vocês…eram a mesma pessoa!
quinta-feira, dezembro 15, 2005
O monte dos ossos...
Podia ser uma estória triste. Mas não é! Aparece ao anoitecer.
Na mesma aldeia existe um estranho cemitério. Não está escondido, parecendo flutuar. Devem ter puxado a terra, fazendo-a cair nos lados, mostrando um pequeno monte de muros brancos. O cemitério planava em planalto, com as raízes à mostra, de um único acesso. Chamavam-lhe “a obra”, pelo último presidente, que não sabia o que fazer. Mandou escavar numa tarde os terrenos em volta dos muros, para dignificar a infra-estrutura. O dinheiro acabou, e o cemitério mostrou as entranhas, pesando em pouca altura. O pior estava para acontecer. Com os meses, sem a sustentação das almas e das terras, o lugar começou a ceder, a enterrar. Num ano baixou um metro, comprimindo a base.
Nessa altura, gordo e inchado, não mais suportou. Começou a expulsar! Eram ossos que saíam, aparecendo a espreitar. Misturavam-se com as pedras mas espetavam mais, esbranquiçados. Com a pressão, e sem o conforto dos terrenos em volta, a terra não retinha os ossos, que começaram a aparecer nos lados do monte. Toda a gente ficou pasmada!
Em duas semanas apareceram os turistas, buscando lúgubres recordações. A Francisca fazia as honras, recebendo e conversando.
- Aquela podia ser a minha tia Joaquina, pela leveza da anca.
Nos tempos seguintes outros ouviram, fotografando o medo, tocando de leve. Procuravam tesouros…
Até que a rapariga anfitriã repensou. Foi um dia mais cedo para casa e voltou aos gritos. Estaria louca? Por certo afastaria o comércio, as barracas de gelo, o amigo enfiado no quiosque. Arrepender-se-ia a danada.
Mas a noite chegou entretanto. Vinha de mau humor, despeitada. Ousarem era demais, chamando noutra altura. Já era suficiente!
No dia seguinte, o padre cansado caminhou a sorrir, para devolver uma relíquia no cemitério. Avistando-o, retardou o andar, para observar. Ao seu lado estava de novo a Francisca, agora mais calma.
- Então filha? Já aconteceu?
- Sim, senhor padre. Você sabia, não era?
O velho deu-lhe a mão para caminhar.
- Desconfiava. Mais do que isso…rezava…
A rapariga olhou uma vez mais para a parede de terra amarela que sustentava os muros no seu altar. Os ossos tinham desaparecido, escondendo-se no interior.
- O senhor padre sabe que não acredito, não sabe?
- Sei, minha querida. Mas não faz mal…
Na mesma aldeia existe um estranho cemitério. Não está escondido, parecendo flutuar. Devem ter puxado a terra, fazendo-a cair nos lados, mostrando um pequeno monte de muros brancos. O cemitério planava em planalto, com as raízes à mostra, de um único acesso. Chamavam-lhe “a obra”, pelo último presidente, que não sabia o que fazer. Mandou escavar numa tarde os terrenos em volta dos muros, para dignificar a infra-estrutura. O dinheiro acabou, e o cemitério mostrou as entranhas, pesando em pouca altura. O pior estava para acontecer. Com os meses, sem a sustentação das almas e das terras, o lugar começou a ceder, a enterrar. Num ano baixou um metro, comprimindo a base.
Nessa altura, gordo e inchado, não mais suportou. Começou a expulsar! Eram ossos que saíam, aparecendo a espreitar. Misturavam-se com as pedras mas espetavam mais, esbranquiçados. Com a pressão, e sem o conforto dos terrenos em volta, a terra não retinha os ossos, que começaram a aparecer nos lados do monte. Toda a gente ficou pasmada!
Em duas semanas apareceram os turistas, buscando lúgubres recordações. A Francisca fazia as honras, recebendo e conversando.
- Aquela podia ser a minha tia Joaquina, pela leveza da anca.
Nos tempos seguintes outros ouviram, fotografando o medo, tocando de leve. Procuravam tesouros…
Até que a rapariga anfitriã repensou. Foi um dia mais cedo para casa e voltou aos gritos. Estaria louca? Por certo afastaria o comércio, as barracas de gelo, o amigo enfiado no quiosque. Arrepender-se-ia a danada.
Mas a noite chegou entretanto. Vinha de mau humor, despeitada. Ousarem era demais, chamando noutra altura. Já era suficiente!
No dia seguinte, o padre cansado caminhou a sorrir, para devolver uma relíquia no cemitério. Avistando-o, retardou o andar, para observar. Ao seu lado estava de novo a Francisca, agora mais calma.
- Então filha? Já aconteceu?
- Sim, senhor padre. Você sabia, não era?
O velho deu-lhe a mão para caminhar.
- Desconfiava. Mais do que isso…rezava…
A rapariga olhou uma vez mais para a parede de terra amarela que sustentava os muros no seu altar. Os ossos tinham desaparecido, escondendo-se no interior.
- O senhor padre sabe que não acredito, não sabe?
- Sei, minha querida. Mas não faz mal…
sexta-feira, dezembro 09, 2005
Em segredo...
Aquilo que vos vou contar, fica apenas entre nós! Descobri-o por acaso e não queria que se espalhasse.
Escrevi-o num papelito que trago sempre no bolso, meio amarrotado. Um dia decidirei o que lhe fazer.
Passeava sozinho num final de dia, com o Sol já muito baixo e horizontal, projectando sombras enormes nos muros e paredes. Numa delas estava um homem pequeno a pintar. Quando me aproximei, vi realmente o que estava a fazer. A pintar a própria sombra. De cócoras, permanecia imóvel, à excepção do braço direito, que andava para cá e para lá entre o cimento e lata de tinta preta e cinza. Na parede pintava a sua sombra em decalque, registando a mesma posição. Fiquei a ver.
- Não me distraia, por favor. Isto já é suficientemente difícil.
Nem respondi, com medo de que se enganasse. Esperei pelo fim, sentado no chão.
Passados mais vinte minutos cronometrados, ele caiu para trás exausto. Estava terminado. A sombra era perfeita, imitando a cor escura, de negro desbotado. As margens pareciam suaves borrões sem um contorno definido, lindos.
- Os meus parabéns. Não sei como fez isto.
O homem respondeu ainda estendido.
- Foi com o que sonhei! O resto é fácil.
- O que sonhou? A pergunta traía na entoação, suspeitando a demência evidente.
- Sim! Isto é apenas um sonho. Posso fazê-lo a qualquer altura. Basta que adormeça a pensar nisso.
- Como…? Ponderei sair da cena pouco normal e que me começava a incomodar.
- Como diz? Peço desculpa, mas não entendo do que fala.
Ele deu uma gargalhada enquanto se sentava.
- Claro que não percebe. Mas eu explico. Afinal já acabei!
- Já acabou? A pintura?
- Não. Acabei os sonhos.
Olhou-me por segundos, preparando-se em seguida para partir. Tapou a lata com cuidado, raspando gotas de tinta já seca.
- Venha. Acompanhe-me por um pouco.
Assim fiz, ajudando-o com o material de pintura, caminhando lentamente.
- Desculpe, não queria intrometer-me.
- Não faz mal. Deixe estar. Eu é que estou sensível…
- Sensível?
- Sim. Acabaram-se-me os sonhos! Não tenho mais. Já fiz de tudo e agora nada tenho. Fui cantor de ópera, recordista olímpico, galã, mendigo, super-herói, bandido…
Parámos perto de um renault cinco amarelado e feio. Ele abriu o porta-bagagem e guardou a tinta.
- Já tive carros de luxo e desportivos, aviões e até navios. Agora ando nesta beleza.
Não sabia o que devia dizer ou fazer. Não me parecia louco, mas tudo o que mostrava era difícil de acreditar. Falava com desânimo, em perfeita razão. Mas não trazia sentido.
- É um belo carro. O meu avô tinha um… Calei-me.
- Meu rapaz escute bem o que lhe vou contar. A resposta esteve sempre ao nosso alcance. Basta pensar, antes de dormir!
- Pensar?
- Sim, pensar! Antes de adormecer, pense no que gostava de ter, no que desejou ser. O desejo será realizado. Não acredita? Experimente!
Não fiquei com vontade de rir. Apenas perguntei.
- Mas isso não é o que todos fazemos?
- Ah, mas aí é que está a diferença. Fazemos…mas no fundo sabemos que não vai acontecer. Um dia acreditei e pensei. Foi o quanto bastou, para aqui chegar.
- Mas o senhor anda num carro a cair de podre!
Ele colocou a mão no meu ombro para que o ouvisse melhor.
- É como lhe disse. Acabaram-se-me os sonhos. Ontem, para dormir, só consegui pensar nisto, em pintar a minha sombra. Acabou-se…
Despediu-se e entrou no velho carro. Gritou pela janela que só abria até meio.
- Vá, aproveite. Aproveite o que lhe ensinei.
Sentei-me ali mesmo para me deitar. Procurei desejos e explicações. Cantei planos e desafios, chamei com calma o saber dormir. Queria tentar. Havia tanto por onde escolher, para visitar, correr em tempo eterno e alcançado. O Mundo era meu, nos seus desejos. Seria grande, até cansar…
Estava calor e ninguém passava por ali. Era um recanto perto do rio, com pedaços de relva verde e amarelada. Senti o sono a chegar, pela mão da primeira estrela. Pensei.
“Desejo o seu abraço…se ela mo quiser dar…”
Depois deixei as pálpebras taparem a luz. Não queria mais nada.
Escrevi-o num papelito que trago sempre no bolso, meio amarrotado. Um dia decidirei o que lhe fazer.
Passeava sozinho num final de dia, com o Sol já muito baixo e horizontal, projectando sombras enormes nos muros e paredes. Numa delas estava um homem pequeno a pintar. Quando me aproximei, vi realmente o que estava a fazer. A pintar a própria sombra. De cócoras, permanecia imóvel, à excepção do braço direito, que andava para cá e para lá entre o cimento e lata de tinta preta e cinza. Na parede pintava a sua sombra em decalque, registando a mesma posição. Fiquei a ver.
- Não me distraia, por favor. Isto já é suficientemente difícil.
Nem respondi, com medo de que se enganasse. Esperei pelo fim, sentado no chão.
Passados mais vinte minutos cronometrados, ele caiu para trás exausto. Estava terminado. A sombra era perfeita, imitando a cor escura, de negro desbotado. As margens pareciam suaves borrões sem um contorno definido, lindos.
- Os meus parabéns. Não sei como fez isto.
O homem respondeu ainda estendido.
- Foi com o que sonhei! O resto é fácil.
- O que sonhou? A pergunta traía na entoação, suspeitando a demência evidente.
- Sim! Isto é apenas um sonho. Posso fazê-lo a qualquer altura. Basta que adormeça a pensar nisso.
- Como…? Ponderei sair da cena pouco normal e que me começava a incomodar.
- Como diz? Peço desculpa, mas não entendo do que fala.
Ele deu uma gargalhada enquanto se sentava.
- Claro que não percebe. Mas eu explico. Afinal já acabei!
- Já acabou? A pintura?
- Não. Acabei os sonhos.
Olhou-me por segundos, preparando-se em seguida para partir. Tapou a lata com cuidado, raspando gotas de tinta já seca.
- Venha. Acompanhe-me por um pouco.
Assim fiz, ajudando-o com o material de pintura, caminhando lentamente.
- Desculpe, não queria intrometer-me.
- Não faz mal. Deixe estar. Eu é que estou sensível…
- Sensível?
- Sim. Acabaram-se-me os sonhos! Não tenho mais. Já fiz de tudo e agora nada tenho. Fui cantor de ópera, recordista olímpico, galã, mendigo, super-herói, bandido…
Parámos perto de um renault cinco amarelado e feio. Ele abriu o porta-bagagem e guardou a tinta.
- Já tive carros de luxo e desportivos, aviões e até navios. Agora ando nesta beleza.
Não sabia o que devia dizer ou fazer. Não me parecia louco, mas tudo o que mostrava era difícil de acreditar. Falava com desânimo, em perfeita razão. Mas não trazia sentido.
- É um belo carro. O meu avô tinha um… Calei-me.
- Meu rapaz escute bem o que lhe vou contar. A resposta esteve sempre ao nosso alcance. Basta pensar, antes de dormir!
- Pensar?
- Sim, pensar! Antes de adormecer, pense no que gostava de ter, no que desejou ser. O desejo será realizado. Não acredita? Experimente!
Não fiquei com vontade de rir. Apenas perguntei.
- Mas isso não é o que todos fazemos?
- Ah, mas aí é que está a diferença. Fazemos…mas no fundo sabemos que não vai acontecer. Um dia acreditei e pensei. Foi o quanto bastou, para aqui chegar.
- Mas o senhor anda num carro a cair de podre!
Ele colocou a mão no meu ombro para que o ouvisse melhor.
- É como lhe disse. Acabaram-se-me os sonhos. Ontem, para dormir, só consegui pensar nisto, em pintar a minha sombra. Acabou-se…
Despediu-se e entrou no velho carro. Gritou pela janela que só abria até meio.
- Vá, aproveite. Aproveite o que lhe ensinei.
Sentei-me ali mesmo para me deitar. Procurei desejos e explicações. Cantei planos e desafios, chamei com calma o saber dormir. Queria tentar. Havia tanto por onde escolher, para visitar, correr em tempo eterno e alcançado. O Mundo era meu, nos seus desejos. Seria grande, até cansar…
Estava calor e ninguém passava por ali. Era um recanto perto do rio, com pedaços de relva verde e amarelada. Senti o sono a chegar, pela mão da primeira estrela. Pensei.
“Desejo o seu abraço…se ela mo quiser dar…”
Depois deixei as pálpebras taparem a luz. Não queria mais nada.
quarta-feira, dezembro 07, 2005
Três raparigas...
Joaquim tinha três namoros! Eram pelo menos esses que lhe corriam, que o faziam desgastar numa eterna dúvida. Lana era a primeira!
Tinha os cabelos demasiado compridos, nascera fora do país e chegara muito nova, com dois irmãos mais velhos. Os pais vieram mais tarde, empurrados para o canto da Europa.
Era doce no entanto, os olhos mudavam muito de cor, como o tom de voz que quebrava sempre, ao mentir. No final de dia encontraram-se perto da casa dele, num café muito arranjado, com quadros amarelos e caixilhos de antiguidade.
- Olá Lana, onde estiveste?
Joaquim aprendera a ser desconfiado. Perguntava sempre primeiro, mesmo antes do beijo.
- És sempre o mesmo. Disse-te trinta vezes que trabalhava até tarde. Pensas que o faço por prazer?
- A Joana esteve lá?
A Joana era a lésbica da empresa.
- A Joana trabalha lá! Onde querias que estivesse? Tu gostas de me irritar. Queres cheirar-me, sentir o seu odor, como um qualquer farejador? Queres?
Joana usava o cabelo curto, por lugar comum. Gastava até ao limite um casaco de riscas finas azuladas e calças verdes. Desafiava e atendia o telemóvel em voz alta depois de um puxar de bolso traseiro.
Mantinha com Lana uma relação secreta em que sonhava de olhos abertos e punho cerrado, que ela talvez tivesse notado. Um dia beijaram-se, embriagadas, em beijo mau, sem emoção.
Lina vinha em segundo, e não conseguia parar de rir facilmente. Nasceu no Sul, mas emigrou ainda de fraldas. Os anos deram-lhe um sotaque irritante, em que falhava muito e não parava de falar.
- Importas-te de parar de rir por um minuto? Eu já não aguento mais isto.
- Oh lindo, não sejas assim. Tu sabes que te amo e essas tretas todas. Deixa-me rir. Faz bem às rugas, ou faz mal. Não me interessa!
Jurava poder encontrar um defeito, mas até então continuaria a tentar. A barriga era a mais perfeita, escondendo dois sinais…
Apesar de tudo, amava-as com intensidade. Talvez até amasse a Joana, que o tocava muito ao conversar, irritando-o para provocar.
Hoje era o dia em que ia decidir com qual queria casar. Pesava e pensava, abrindo-se a uma escolha difícil que não entendia.
Lina e Lana, arrumadas em seus cantos, esperando uma confissão de amor. Joana, a lésbica, correndo nua em arrepio…Joaquim achou-se a endoidecer. Nada fazia sentido.
De repente, ligou o carro, arrancando em velocidade. Faltava pouco tempo.
No outro lado da cidade, as mãos esperavam impacientes. Ele já não vinha.
Apagou o charuto num muro esbranquiçado. Que idiota era por fumar aquilo e por esperar. Joaquim escolheria uma delas, como sempre fez, desde o início. Já nada seria igual.
Sentou-se a recordar o dia em que o conheceu, despenteado a correr pelo corredor da empresa, procurando a porta do gabinete. Desde o primeiro dia que reconheceu as pintas que lhe saíam na gola do casaco. Tinha sinais espalhados no pescoço, que aumentavam a sua sensualidade. Um dia chocaram, ao entrar na garagem, riram até doer e acabaram abraçados, a suspirar. Nunca discutiam.
Joaquim conduzia agora como um louco, chamando o seu nome em plenos pulmões. O telefone não parava de tocar, de Lina e Lana, a insistir. Não atendeu, deixando soar.
Queria chegar a tempo correndo, antes que fosse tarde, que lhe levassem a hipótese de ser feliz…
No início do cais existia um senhor de barbas brancas que o conhecia e lhe arrumava o carro. Tinha o péssimo hábito de fumar enquanto o fazia, arriscando odores que demoravam a sair. Para além disso era mal educado e chegara mesmo a riscar o automóvel. Agradeceu a Deus quando o viu, a acenar como uma criança.
- Olá senhor Joaquim! Aqui, aqui! Tem lugar neste cantinho.
A chave trocou de mãos e passou a correr, perseguindo um outro caminho. Tranquilizou-se quando viu que ainda havia tempo e começou a virar-se, a olhar, a chamar…
- João, onde estás? João?
Sentiu-o a respirar.
- Estou aqui. Estava à tua espera.
Tinha os cabelos demasiado compridos, nascera fora do país e chegara muito nova, com dois irmãos mais velhos. Os pais vieram mais tarde, empurrados para o canto da Europa.
Era doce no entanto, os olhos mudavam muito de cor, como o tom de voz que quebrava sempre, ao mentir. No final de dia encontraram-se perto da casa dele, num café muito arranjado, com quadros amarelos e caixilhos de antiguidade.
- Olá Lana, onde estiveste?
Joaquim aprendera a ser desconfiado. Perguntava sempre primeiro, mesmo antes do beijo.
- És sempre o mesmo. Disse-te trinta vezes que trabalhava até tarde. Pensas que o faço por prazer?
- A Joana esteve lá?
A Joana era a lésbica da empresa.
- A Joana trabalha lá! Onde querias que estivesse? Tu gostas de me irritar. Queres cheirar-me, sentir o seu odor, como um qualquer farejador? Queres?
Joana usava o cabelo curto, por lugar comum. Gastava até ao limite um casaco de riscas finas azuladas e calças verdes. Desafiava e atendia o telemóvel em voz alta depois de um puxar de bolso traseiro.
Mantinha com Lana uma relação secreta em que sonhava de olhos abertos e punho cerrado, que ela talvez tivesse notado. Um dia beijaram-se, embriagadas, em beijo mau, sem emoção.
Lina vinha em segundo, e não conseguia parar de rir facilmente. Nasceu no Sul, mas emigrou ainda de fraldas. Os anos deram-lhe um sotaque irritante, em que falhava muito e não parava de falar.
- Importas-te de parar de rir por um minuto? Eu já não aguento mais isto.
- Oh lindo, não sejas assim. Tu sabes que te amo e essas tretas todas. Deixa-me rir. Faz bem às rugas, ou faz mal. Não me interessa!
Jurava poder encontrar um defeito, mas até então continuaria a tentar. A barriga era a mais perfeita, escondendo dois sinais…
Apesar de tudo, amava-as com intensidade. Talvez até amasse a Joana, que o tocava muito ao conversar, irritando-o para provocar.
Hoje era o dia em que ia decidir com qual queria casar. Pesava e pensava, abrindo-se a uma escolha difícil que não entendia.
Lina e Lana, arrumadas em seus cantos, esperando uma confissão de amor. Joana, a lésbica, correndo nua em arrepio…Joaquim achou-se a endoidecer. Nada fazia sentido.
De repente, ligou o carro, arrancando em velocidade. Faltava pouco tempo.
No outro lado da cidade, as mãos esperavam impacientes. Ele já não vinha.
Apagou o charuto num muro esbranquiçado. Que idiota era por fumar aquilo e por esperar. Joaquim escolheria uma delas, como sempre fez, desde o início. Já nada seria igual.
Sentou-se a recordar o dia em que o conheceu, despenteado a correr pelo corredor da empresa, procurando a porta do gabinete. Desde o primeiro dia que reconheceu as pintas que lhe saíam na gola do casaco. Tinha sinais espalhados no pescoço, que aumentavam a sua sensualidade. Um dia chocaram, ao entrar na garagem, riram até doer e acabaram abraçados, a suspirar. Nunca discutiam.
Joaquim conduzia agora como um louco, chamando o seu nome em plenos pulmões. O telefone não parava de tocar, de Lina e Lana, a insistir. Não atendeu, deixando soar.
Queria chegar a tempo correndo, antes que fosse tarde, que lhe levassem a hipótese de ser feliz…
No início do cais existia um senhor de barbas brancas que o conhecia e lhe arrumava o carro. Tinha o péssimo hábito de fumar enquanto o fazia, arriscando odores que demoravam a sair. Para além disso era mal educado e chegara mesmo a riscar o automóvel. Agradeceu a Deus quando o viu, a acenar como uma criança.
- Olá senhor Joaquim! Aqui, aqui! Tem lugar neste cantinho.
A chave trocou de mãos e passou a correr, perseguindo um outro caminho. Tranquilizou-se quando viu que ainda havia tempo e começou a virar-se, a olhar, a chamar…
- João, onde estás? João?
Sentiu-o a respirar.
- Estou aqui. Estava à tua espera.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
A corrida...
Em Lisboa existem ainda alguns bosques, com densa vegetação e que nos obrigam a pensar. Num deles vi um casal de esquilos a deslizar entre árvores, perseguindo-se mutuamente.
Tem árvores pouco altas, mas com troncos emaranhados. Entre eles se esconde uma tradição antiga, já transformada em mito por ser desconhecida e ninguém sobre ela escrever. Na verdade é uma competição profundamente secreta, guardada em juras e por vezes ameaças.
Todos os meses, nas noites sem Lua, juntam-se uma dúzia de rapazes e uma rapariga, a Maria José, para correr. A Maria tem o cabelo curto e pernas muito musculadas, de tanto treinar e agachar em repetições. É engraçada!
Quando fica escuro, procuram raras clareiras para iniciarem a sua tarefa, nervosos…
O jogo é simples. Consiste numa corrida às escuras, de olhos fechados, em precipitação de verde negro. Correm durante três minutos, sem parar, esgotando as forças ao limite. Não são precisas vendas. Mesmo com os olhos abertos nada ou pouco poderiam ver. E mesmo o que vissem só atrapalhava. A cerrada vegetação misturada com o suor da corrida, enganava no breu e não era de confiança. Tudo terminava com o som agudo de um corno branco. Cada corredor parava na mesma altura, espetando no solo a sua marca. Não se ouviam mais passos. Quem chegasse mais longe triunfava.
É claro que haviam muitos acidentes, que esbarravam nas árvores e nas pedras, nos bancos idiotas que para nada mais serviam. Poucos eram os obstáculos sem vestígio de um choque brutal, com alguém que corria. Bem no meio do bosque havia um gradeamento de ferro, enferrujado no tempo e temido por todos. O único acidente grave acontecera há vinte e um anos atrás, quando uma rapariga chocou contra o metal retorcido.
Desde então quase só vieram homens, menos preocupados e de maior inconsciência. Eram determinados!
A Maria José tornara-se numa lenda. Há cinco anos que tinha o recorde de maiores vitórias e apenas um pequeno acidente, numa rasteira feia de arbusto. Nesta noite tudo mudaria.
Uma vez mais eram onze homens contra a Maria, que mordia uma pastilha de forma pouco elegante.
- Meus senhores não estejam nervosos. É sempre em frente.
Ela brincava com a situação, sem nada temer, escudada na sorte e no instinto do bosque. Conhecia-o melhor que todos, ao solo que pisava e ouvia, às flores que dormiam e lhe raspavam, pedido para que virasse noutra direcção. Os rapazes estavam em pânico.
Foi dada a partida na forma habitual, burlesca na tradição.
- Cavalheiros e senhorita…aos seus lugares! Prontos…já!
Precipitaram-se para dentro do bosque, em velocidade desenfreada e medos esquecidos, com a adrenalina saltando-lhes nos pulmões.
Dois não chegaram a sair da clareira, esbarrando de nariz em troncos médios, mas robustos. Os outros desapareceram no escuro, gritando desalmados, para afastar o medo.
Os três minutos passaram rápido e o corno falou lá para dentro, pedindo a todos que parassem. Ouviam-se respirações e lamentos, brigando com o solo e com as folhas.
Os juízes avançaram de lanternas, para descobrir feridos e o vencedor. Aos poucos foram achando os competidores, assinalando a encarnado num pequeno bloco de notas. Mas o mais estranho estava por descobrir!
Na escuridão, identificaram nove corredores, maltratados, mas vivos. Faltava a Maria José!
Logo se instalou um desconforto, de lendas e superstições, de segredos e choros contidos, pedindo a volta da campeã.
- Ai meu Deus! Gritou um dos homens.
- Os gradeamentos!
A armadilha do ferro ficava no centro exacto da pequena floresta, ameaçando quem por ela passava. Os que corriam acabaram por aprender a fazê-lo em arco, evitando a área mais perigosa. Desde de sempre se especulara sobre as vitórias da Maria José. Dizia-se que tinha encontrado um caminho pelos gradeamentos, vencendo fácil na menor distância. Outros diziam que tinha poderes especiais, que corria por baixo da terra num túnel secreto. A todos faltara coragem para a acusar, pelo respeito que lhes merecia a história. Maria era filha da mulher que tivera o acidente há mais de vinte anos. Temeram o pior.
Correram para o centro, para junto do ferro e da ferrugem, procurando a rapariga em cada sombra. O primeiro a chegar, travou de imediato.
No centro existia um emaranhado de metal com um pequeno vulto ajoelhado na sua frente. A voz era tranquila…
- Não te preocupes. Eu não volto a correr.
Tem árvores pouco altas, mas com troncos emaranhados. Entre eles se esconde uma tradição antiga, já transformada em mito por ser desconhecida e ninguém sobre ela escrever. Na verdade é uma competição profundamente secreta, guardada em juras e por vezes ameaças.
Todos os meses, nas noites sem Lua, juntam-se uma dúzia de rapazes e uma rapariga, a Maria José, para correr. A Maria tem o cabelo curto e pernas muito musculadas, de tanto treinar e agachar em repetições. É engraçada!
Quando fica escuro, procuram raras clareiras para iniciarem a sua tarefa, nervosos…
O jogo é simples. Consiste numa corrida às escuras, de olhos fechados, em precipitação de verde negro. Correm durante três minutos, sem parar, esgotando as forças ao limite. Não são precisas vendas. Mesmo com os olhos abertos nada ou pouco poderiam ver. E mesmo o que vissem só atrapalhava. A cerrada vegetação misturada com o suor da corrida, enganava no breu e não era de confiança. Tudo terminava com o som agudo de um corno branco. Cada corredor parava na mesma altura, espetando no solo a sua marca. Não se ouviam mais passos. Quem chegasse mais longe triunfava.
É claro que haviam muitos acidentes, que esbarravam nas árvores e nas pedras, nos bancos idiotas que para nada mais serviam. Poucos eram os obstáculos sem vestígio de um choque brutal, com alguém que corria. Bem no meio do bosque havia um gradeamento de ferro, enferrujado no tempo e temido por todos. O único acidente grave acontecera há vinte e um anos atrás, quando uma rapariga chocou contra o metal retorcido.
Desde então quase só vieram homens, menos preocupados e de maior inconsciência. Eram determinados!
A Maria José tornara-se numa lenda. Há cinco anos que tinha o recorde de maiores vitórias e apenas um pequeno acidente, numa rasteira feia de arbusto. Nesta noite tudo mudaria.
Uma vez mais eram onze homens contra a Maria, que mordia uma pastilha de forma pouco elegante.
- Meus senhores não estejam nervosos. É sempre em frente.
Ela brincava com a situação, sem nada temer, escudada na sorte e no instinto do bosque. Conhecia-o melhor que todos, ao solo que pisava e ouvia, às flores que dormiam e lhe raspavam, pedido para que virasse noutra direcção. Os rapazes estavam em pânico.
Foi dada a partida na forma habitual, burlesca na tradição.
- Cavalheiros e senhorita…aos seus lugares! Prontos…já!
Precipitaram-se para dentro do bosque, em velocidade desenfreada e medos esquecidos, com a adrenalina saltando-lhes nos pulmões.
Dois não chegaram a sair da clareira, esbarrando de nariz em troncos médios, mas robustos. Os outros desapareceram no escuro, gritando desalmados, para afastar o medo.
Os três minutos passaram rápido e o corno falou lá para dentro, pedindo a todos que parassem. Ouviam-se respirações e lamentos, brigando com o solo e com as folhas.
Os juízes avançaram de lanternas, para descobrir feridos e o vencedor. Aos poucos foram achando os competidores, assinalando a encarnado num pequeno bloco de notas. Mas o mais estranho estava por descobrir!
Na escuridão, identificaram nove corredores, maltratados, mas vivos. Faltava a Maria José!
Logo se instalou um desconforto, de lendas e superstições, de segredos e choros contidos, pedindo a volta da campeã.
- Ai meu Deus! Gritou um dos homens.
- Os gradeamentos!
A armadilha do ferro ficava no centro exacto da pequena floresta, ameaçando quem por ela passava. Os que corriam acabaram por aprender a fazê-lo em arco, evitando a área mais perigosa. Desde de sempre se especulara sobre as vitórias da Maria José. Dizia-se que tinha encontrado um caminho pelos gradeamentos, vencendo fácil na menor distância. Outros diziam que tinha poderes especiais, que corria por baixo da terra num túnel secreto. A todos faltara coragem para a acusar, pelo respeito que lhes merecia a história. Maria era filha da mulher que tivera o acidente há mais de vinte anos. Temeram o pior.
Correram para o centro, para junto do ferro e da ferrugem, procurando a rapariga em cada sombra. O primeiro a chegar, travou de imediato.
No centro existia um emaranhado de metal com um pequeno vulto ajoelhado na sua frente. A voz era tranquila…
- Não te preocupes. Eu não volto a correr.
domingo, dezembro 04, 2005
A pancada...
Quem gosta de sushi sabe! A vontade aparece em qualquer momento do dia e arrasta-nos que nem dependentes para qualquer saída, que nos devolva o sabor do mar e do oriente. Ontem foi um desses dias, em que me vi parado num semáforo, com a boca a secar, sentido pedaços de gosto forte, empurrados contra o palato que já se habituou. O toque da madeira substituindo garfos, enchendo os dedos de habilidade, para pescar.
Não tinha companhia e não podia forçá-la, por isso fui até a um supermercado onde descobri que vendiam algumas embalagens. O moedas lá andava de um lado para o outro piscando-me o olho como se soubesse.
- Vá lá chefe. Pode arrumar aqui à frente que não lhe faço mal. Já sei que não tem trocos.
Deve-me ter confundido com um mau cliente. Dou-lhe sempre dinheiro, nem que tenha de o trocar.
- Entrei no supermercado muito movimentado, o que me preocupou. Se calhar já não havia. É sempre assim em dias de jogo. Esta gente não gostaria de pizza?
Fui directo ao local onde costuma estar exposto, ao fresco, e comecei a rezar. O balcão estava vazio, o que era bom sinal.
Na mesma altura vi uma rapariga a aproximar-se pelo lado oposto do corredor. Apesar do frio tinha uma camisola curta que lhe deixava a barriga de fora, com um cachecol a baloiçar na frente do umbigo. O cabelo era curto e despenteado, com mais de dez ganchos às cores e uma madeixa em azul. Era uma apaixonada de sushi!
Pude vê-lo nos seus olhos enquanto avançava, acenando para nada e cantarolando a minha música preferida. Ao desviar dela os batimentos descompensaram em correria louca, vendo que só restava uma caixa de peixe cru. Apenas uma!
Pensei em correr, jogando-me ignobilmente na sua frente, defendendo a causa do meu desejo. Ela tinha três passos de avanço e o braço preparou-se para segurar, quando se distraiu com qualquer coisa, virando-se no último instante. Com delírio cheguei primeiro à caixa negra e cristal, recolhendo-a com uma das mãos. Antes que me voltasse ela estendeu o braço sem olhar, dando com o espaço vazio, percebendo a súbita ausência nos seus dedos.
- Mas…onde é que?
Não terminou por me ver, fixando-se no conteúdo, nos rolinhos branco e verde, nas fatias arrumadas. Fez um ar de desespero.
- Desculpe, não o vi! Está com sorte, é a última.
- Sim eu sei. Respondi.
Ela resignou a tentação e quis sair.
- Espere!
Pedi com uma voz forte, demasiado grave.
- Sabe, esta caixa é muito grande. Talvez…eu sei que é um abuso, mas talvez a pudéssemos partilhar. Aqui perto há um café que conheço bem…
- Não muito obrigado. Eu não o conheço.
- Eu percebo, e uma vez mais desculpe, mas sinto que temos algo em comum…
A pancada que recebi na cabeça foi muito violenta, fazendo-me largar a caixa e descer inanimado.
Caí devagar e ainda consegui ouvir um grito. Depois ficou escuro.
Acordei aos poucos, cheio de frio e de medo. Dezenas de olhos apontavam para mim, com as caras seguindo-lhes a preocupação.
- Olhem! Ele está a acordar.
- Não tente falar, senhor. A pancada foi muito forte, mas está tudo bem. Deixe-se estar deitado.
A voz era de uma senhora gorda de uniforme branco e colete amarelo. Parecia uma mãe, prendendo-me o tacto, penteando-me com gelo.
- O que aconteceu? Contive a tosse e a dor, desistindo de falar.
- Vá, esteja calmo. Foi um assalto, ou melhor uma tentativa. Mas já passou. Agora só tem que agradecer àquela menina de cachecol colorido. Ela é que o salvou. Nunca tinha visto tanta coragem.
Virei-me um pouco para encontrá-la, mas doía-me muito o pescoço.
- Onde é que ela está?
- Ela está com o senhor polícia a falar. Que rapariga tão corajosa. Sozinha deu conta daquele patife. Ele nem viu a lata de salsichas esborrachar-se-lhe entre os dentes, desgraçado. É muito bem feita!
O chão estava sujo de sangue, misturado com pedaços de peixe que se haviam espalhado. A rapariga caminhava para mim.
- Então? Já se sente melhor? Afinal sempre temos algo em comum.
- Em comum? Mas…
- Vá, não se canse. Olhe que a pancada foi forte. Pena foi o sushi. Não o consegui resgatar…por duas vezes.
O sorriso foi inevitável, no olhar que se cruzou.
- Obrigado…e desculpe.
- Não tem mal. É só para ver se o faço rir.
Debruçou-se com lentidão no meu ouvido esquerdo e acabou por dizer.
- O café fica para a próxima, pode ser?
Acenei que sim, envergonhado.
Não tinha companhia e não podia forçá-la, por isso fui até a um supermercado onde descobri que vendiam algumas embalagens. O moedas lá andava de um lado para o outro piscando-me o olho como se soubesse.
- Vá lá chefe. Pode arrumar aqui à frente que não lhe faço mal. Já sei que não tem trocos.
Deve-me ter confundido com um mau cliente. Dou-lhe sempre dinheiro, nem que tenha de o trocar.
- Entrei no supermercado muito movimentado, o que me preocupou. Se calhar já não havia. É sempre assim em dias de jogo. Esta gente não gostaria de pizza?
Fui directo ao local onde costuma estar exposto, ao fresco, e comecei a rezar. O balcão estava vazio, o que era bom sinal.
Na mesma altura vi uma rapariga a aproximar-se pelo lado oposto do corredor. Apesar do frio tinha uma camisola curta que lhe deixava a barriga de fora, com um cachecol a baloiçar na frente do umbigo. O cabelo era curto e despenteado, com mais de dez ganchos às cores e uma madeixa em azul. Era uma apaixonada de sushi!
Pude vê-lo nos seus olhos enquanto avançava, acenando para nada e cantarolando a minha música preferida. Ao desviar dela os batimentos descompensaram em correria louca, vendo que só restava uma caixa de peixe cru. Apenas uma!
Pensei em correr, jogando-me ignobilmente na sua frente, defendendo a causa do meu desejo. Ela tinha três passos de avanço e o braço preparou-se para segurar, quando se distraiu com qualquer coisa, virando-se no último instante. Com delírio cheguei primeiro à caixa negra e cristal, recolhendo-a com uma das mãos. Antes que me voltasse ela estendeu o braço sem olhar, dando com o espaço vazio, percebendo a súbita ausência nos seus dedos.
- Mas…onde é que?
Não terminou por me ver, fixando-se no conteúdo, nos rolinhos branco e verde, nas fatias arrumadas. Fez um ar de desespero.
- Desculpe, não o vi! Está com sorte, é a última.
- Sim eu sei. Respondi.
Ela resignou a tentação e quis sair.
- Espere!
Pedi com uma voz forte, demasiado grave.
- Sabe, esta caixa é muito grande. Talvez…eu sei que é um abuso, mas talvez a pudéssemos partilhar. Aqui perto há um café que conheço bem…
- Não muito obrigado. Eu não o conheço.
- Eu percebo, e uma vez mais desculpe, mas sinto que temos algo em comum…
A pancada que recebi na cabeça foi muito violenta, fazendo-me largar a caixa e descer inanimado.
Caí devagar e ainda consegui ouvir um grito. Depois ficou escuro.
Acordei aos poucos, cheio de frio e de medo. Dezenas de olhos apontavam para mim, com as caras seguindo-lhes a preocupação.
- Olhem! Ele está a acordar.
- Não tente falar, senhor. A pancada foi muito forte, mas está tudo bem. Deixe-se estar deitado.
A voz era de uma senhora gorda de uniforme branco e colete amarelo. Parecia uma mãe, prendendo-me o tacto, penteando-me com gelo.
- O que aconteceu? Contive a tosse e a dor, desistindo de falar.
- Vá, esteja calmo. Foi um assalto, ou melhor uma tentativa. Mas já passou. Agora só tem que agradecer àquela menina de cachecol colorido. Ela é que o salvou. Nunca tinha visto tanta coragem.
Virei-me um pouco para encontrá-la, mas doía-me muito o pescoço.
- Onde é que ela está?
- Ela está com o senhor polícia a falar. Que rapariga tão corajosa. Sozinha deu conta daquele patife. Ele nem viu a lata de salsichas esborrachar-se-lhe entre os dentes, desgraçado. É muito bem feita!
O chão estava sujo de sangue, misturado com pedaços de peixe que se haviam espalhado. A rapariga caminhava para mim.
- Então? Já se sente melhor? Afinal sempre temos algo em comum.
- Em comum? Mas…
- Vá, não se canse. Olhe que a pancada foi forte. Pena foi o sushi. Não o consegui resgatar…por duas vezes.
O sorriso foi inevitável, no olhar que se cruzou.
- Obrigado…e desculpe.
- Não tem mal. É só para ver se o faço rir.
Debruçou-se com lentidão no meu ouvido esquerdo e acabou por dizer.
- O café fica para a próxima, pode ser?
Acenei que sim, envergonhado.
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Circo de orelhas grandes...
A hora tinha passado na última vez que adormeci, porque estava frio. Corri para acordá-la! Tinha a promessa do circo, e agora estava atrasado. A papa entrou a voar, enquanto eu mal mastiguei um bocadito de pão.
- Anda pequenina! Ainda vamos a tempo. O pai adormeceu, mas ainda conseguimos.
Os olhinhos de sono têm grandes pestanas, que abanaram concordando. As bochechas abriam com um sorriso e os dentes salpicavam separados.
Chegámos enfim, com chuva quase a cair e menos frio, de tão cinzento. Corremos de mão dada para os lugares. As pernas pequeninas pareciam crescer.
- Eu consigo pai! Corre que vai começar!
Sentámo-nos antes de luzinhas, um segundo depois do apitar.
- Desculpe minha senhora…não vi o seu pé!
Ia começar! Este ano, a mestre que fala mudou. Esta é mais nova, com uma voz límpida, mas sem estórias. Sem abanar para a frente e para trás, de microfone a sacudir. Que seria feito dela?
O circo é triste, tem prisioneiros e só faz rir as crianças. Aos adultos causa espanto…
- Desculpe, mas não pode passar. Tem que esperar que as cordas subam.
Ao meu lado ela apareceu, de mãos que imaginei segurar. Os dedos eram muito compridos e não paravam de brilhar. Com gentileza arrumava os que ainda chegavam, procurando não perturbar.
Entrei em rodopio, procurando com que escrever. A pequenina desviou a atenção.
- O que queres?
- Nada filha. Só queria escrever uma coisa.
Estendeu-me um lápis de cera encarnado…e um papel amarrotado. Tinha-os no bolso do casaco. Mordiscou antes de dizer.
- Estivemos a fazer desenhos ontem…
Cheguei muito cedo, sem atrasos. Fiquei sentado à entrada, brincando com o lápis de cera. Estava mais pequeno, por ter deixado fugir poucas palavras. Face às rugas tinha achatado o seu escrever.
Era dia de folga no circo e as portas mexiam-se mais devagar. Entravam palhaços de pés mais pequenos e domadores com gatinhos persa. Um acrobata apareceu a coxear, perseguido por duas varinhas mágicas. Iam todos almoçar.
A porta deixou dois dedos, e por isso decidi entrar! Lá dentro havia um cheiro estranho, de pipocas com novas cores, rezando poder rodar.
Ela estava à minha espera, encostada a um canhão cor-de-rosa e azul, com uma inscrição a condizer. Tinha as orelhas muito compridas, como os dedos que quisera tocar.
- Olá! Trouxe o meu lápis e não parei de pensar. Gosto de vento, há pouco tempo...
- Eu trouxe o papel e não parei de amarrotar. Tenho orelhas e dedos compridos…
- Eu sei.
- Anda pequenina! Ainda vamos a tempo. O pai adormeceu, mas ainda conseguimos.
Os olhinhos de sono têm grandes pestanas, que abanaram concordando. As bochechas abriam com um sorriso e os dentes salpicavam separados.
Chegámos enfim, com chuva quase a cair e menos frio, de tão cinzento. Corremos de mão dada para os lugares. As pernas pequeninas pareciam crescer.
- Eu consigo pai! Corre que vai começar!
Sentámo-nos antes de luzinhas, um segundo depois do apitar.
- Desculpe minha senhora…não vi o seu pé!
Ia começar! Este ano, a mestre que fala mudou. Esta é mais nova, com uma voz límpida, mas sem estórias. Sem abanar para a frente e para trás, de microfone a sacudir. Que seria feito dela?
O circo é triste, tem prisioneiros e só faz rir as crianças. Aos adultos causa espanto…
- Desculpe, mas não pode passar. Tem que esperar que as cordas subam.
Ao meu lado ela apareceu, de mãos que imaginei segurar. Os dedos eram muito compridos e não paravam de brilhar. Com gentileza arrumava os que ainda chegavam, procurando não perturbar.
Entrei em rodopio, procurando com que escrever. A pequenina desviou a atenção.
- O que queres?
- Nada filha. Só queria escrever uma coisa.
Estendeu-me um lápis de cera encarnado…e um papel amarrotado. Tinha-os no bolso do casaco. Mordiscou antes de dizer.
- Estivemos a fazer desenhos ontem…
Cheguei muito cedo, sem atrasos. Fiquei sentado à entrada, brincando com o lápis de cera. Estava mais pequeno, por ter deixado fugir poucas palavras. Face às rugas tinha achatado o seu escrever.
Era dia de folga no circo e as portas mexiam-se mais devagar. Entravam palhaços de pés mais pequenos e domadores com gatinhos persa. Um acrobata apareceu a coxear, perseguido por duas varinhas mágicas. Iam todos almoçar.
A porta deixou dois dedos, e por isso decidi entrar! Lá dentro havia um cheiro estranho, de pipocas com novas cores, rezando poder rodar.
Ela estava à minha espera, encostada a um canhão cor-de-rosa e azul, com uma inscrição a condizer. Tinha as orelhas muito compridas, como os dedos que quisera tocar.
- Olá! Trouxe o meu lápis e não parei de pensar. Gosto de vento, há pouco tempo...
- Eu trouxe o papel e não parei de amarrotar. Tenho orelhas e dedos compridos…
- Eu sei.
terça-feira, novembro 29, 2005
Venham...
Venham voar comigo...
Sempre quis ser um super-herói! Por vezes cheguei a ver-me, frente a um espelho tosco, de capa que não servia e se atava com dificuldade. Um dia acordei...e conseguia voar!
Durante meia hora fiquei na varanda a tremer. Com medo dos cabos de alta tensão, da velocidade, de cair, de não cair, dos aviões, de tanto...
Se continuasse, envelheceria sem experimentar. Pendurei-me no corrimão...e disparei!
Os óculos voaram também, da minha cara, esborrachando-se no solo. Tinha-me esquecido deles.
Voei depressa em direcção ao céu muito negro, inclinado para que subisse. Mesmo numa noite quente de Verão, a duzentos metros de altura a temperatura desce bastante e o meu nariz percebia-o bem. Quase instantaneamente começou a pingar, ao mesmo tempo que me tentava orientar. O Mundo visto de cima e às escuras, é diferente, cheio de luzinhas amarelas. Demorou pouco para que me perdesse.
Sentei-me no campanário de uma igreja, para me assoar e descansar um pouco. Doíam-me os olhos por causa do vento, que esticara as pálpebras ao seu limite. Não estava a correr bem. Decidi regressar a casa, curvando repentinamente a cada espirro, que me afastava da rota traçada.
No dia seguinte tinha febre e a garganta arranhava-me a alma, em profunda vergonha. Um super-herói constipado!
Agora agasalho-me bem. Tenho um fato de cabedal e uns óculos de esqui. Fico nos telhados, esperando...
Se tiverem medo, numa dessas noites, olhem para cima.
Sempre quis ser um super-herói! Por vezes cheguei a ver-me, frente a um espelho tosco, de capa que não servia e se atava com dificuldade. Um dia acordei...e conseguia voar!
Durante meia hora fiquei na varanda a tremer. Com medo dos cabos de alta tensão, da velocidade, de cair, de não cair, dos aviões, de tanto...
Se continuasse, envelheceria sem experimentar. Pendurei-me no corrimão...e disparei!
Os óculos voaram também, da minha cara, esborrachando-se no solo. Tinha-me esquecido deles.
Voei depressa em direcção ao céu muito negro, inclinado para que subisse. Mesmo numa noite quente de Verão, a duzentos metros de altura a temperatura desce bastante e o meu nariz percebia-o bem. Quase instantaneamente começou a pingar, ao mesmo tempo que me tentava orientar. O Mundo visto de cima e às escuras, é diferente, cheio de luzinhas amarelas. Demorou pouco para que me perdesse.
Sentei-me no campanário de uma igreja, para me assoar e descansar um pouco. Doíam-me os olhos por causa do vento, que esticara as pálpebras ao seu limite. Não estava a correr bem. Decidi regressar a casa, curvando repentinamente a cada espirro, que me afastava da rota traçada.
No dia seguinte tinha febre e a garganta arranhava-me a alma, em profunda vergonha. Um super-herói constipado!
Agora agasalho-me bem. Tenho um fato de cabedal e uns óculos de esqui. Fico nos telhados, esperando...
Se tiverem medo, numa dessas noites, olhem para cima.
quarta-feira, novembro 23, 2005
Tony...
Rebento se a guardar! Se não partilhar a quase mais fantástica tarde, vivida e sentida, arqueada para sempre, escorregando...
Saí sozinho para almoçar, o que nunca faço, por insegurança de me partilhar a sós. Fugi e acelerei para a aldeia próxima, de que agora gosto. Estaciono sempre no coreto, obrigando-me ao lugar comum. Imaginei como seria escrever mais tarde e que a sua presença embelezaria o ritmo.
Na pequena povoação não existe uma única esplanada, o que a princípio me desesperou. A observação é mais eficaz daquelas posições, de um dobrar sobre o chá quente...
Que podia fazer? Adoptar a mistura das gentes, em pé frente à casa onde vendem cervejas. Espetar comigo, de mini na mão, sem beber, por desgostar, esperando que algo acontecesse. Até que acontecesse!
As raparigas que esperavam a carreira identificaram o estranho. Riam sem esconder e gozavam o jeito. Não sabia pegar numa mini! Reconheci-o rapidamente, mas duas horas sem beber deveriam ajudar à falha.
Não ia desistir, nem estava prestes a partir. Sabia para onde olhar, para vê-lo chegar. À distância ouvia-se gargalhar. Era forte o riso, acompanhado de apertos de mãos e unhas. O senhor caminhava esgueirando-se do seu lado direito, do baixinho com uma capa verde. Tentava respirá-la sem abrigo!
A garrafa começou a sentir-se bem na minha mão. Por salpicos pensou que se chegaria a beber, uma partícula de tempo antes de ser pousada. Caminhei de lábios largos para o vulto no centro. Ele que tinha parado a rir, dobrando-se sobre a capa despejada, oferecendo calor à menina. Parecia embriagado. Parecia outra pessoa.
A dois metros reconheci a expressão. À minha frente estava uma estrela, de televisão e de imaginário. De semelhanças e realidade, de uma simpatia fraternal. No meu caminho cruzava-se o Tony Ramos. Nem mais! A estrela de novelas brasileiras, competindo na “minha” aldeia! Estava mais velho, o que é normal. Com grandes patilhas e cabelo preto, pintado de muito breu. Mais gordo, de maxilar pujante, parecendo um Elvis, de golas levantadas. Era muito atraente.
Fui ter com ele, de braços esticados. Afinal conhecia-o desde sempre.
- Não imaginei ser possível!
Libertei ao mesmo tempo do abraço.
Ele retomou a capa e colocou-a nos ombros. A entoação encheu o largo.
- Como está você?
- A precisar de um chá morno, e de uma conversa.
Quando não sabemos o que esperar, olhamos fixamente. Quando não queremos saber, damos a mão, mesmo a um homem, e puxamos por ele.
Entrámos dentro do café e escolhemos uma mesa. Fiquei a olhar! Era todo de negro, puxado a brilhantina. Marcas de pente bem desenhadas. Deliciei-me, com o passado.
- Sabe, sempre fui seu admirador, atento à sua arte.
- Obrigado...
O agradecimento traía a normalidade. Pertencia a outro, e fez-me pensar. O fumo levantava-se do chá demasiado quente e passava-lhe junto à face, moldando as formas. Afastei-o para dizer.
- Você é o Tony Ramos...não é?
- ...não!
Saí sozinho para almoçar, o que nunca faço, por insegurança de me partilhar a sós. Fugi e acelerei para a aldeia próxima, de que agora gosto. Estaciono sempre no coreto, obrigando-me ao lugar comum. Imaginei como seria escrever mais tarde e que a sua presença embelezaria o ritmo.
Na pequena povoação não existe uma única esplanada, o que a princípio me desesperou. A observação é mais eficaz daquelas posições, de um dobrar sobre o chá quente...
Que podia fazer? Adoptar a mistura das gentes, em pé frente à casa onde vendem cervejas. Espetar comigo, de mini na mão, sem beber, por desgostar, esperando que algo acontecesse. Até que acontecesse!
As raparigas que esperavam a carreira identificaram o estranho. Riam sem esconder e gozavam o jeito. Não sabia pegar numa mini! Reconheci-o rapidamente, mas duas horas sem beber deveriam ajudar à falha.
Não ia desistir, nem estava prestes a partir. Sabia para onde olhar, para vê-lo chegar. À distância ouvia-se gargalhar. Era forte o riso, acompanhado de apertos de mãos e unhas. O senhor caminhava esgueirando-se do seu lado direito, do baixinho com uma capa verde. Tentava respirá-la sem abrigo!
A garrafa começou a sentir-se bem na minha mão. Por salpicos pensou que se chegaria a beber, uma partícula de tempo antes de ser pousada. Caminhei de lábios largos para o vulto no centro. Ele que tinha parado a rir, dobrando-se sobre a capa despejada, oferecendo calor à menina. Parecia embriagado. Parecia outra pessoa.
A dois metros reconheci a expressão. À minha frente estava uma estrela, de televisão e de imaginário. De semelhanças e realidade, de uma simpatia fraternal. No meu caminho cruzava-se o Tony Ramos. Nem mais! A estrela de novelas brasileiras, competindo na “minha” aldeia! Estava mais velho, o que é normal. Com grandes patilhas e cabelo preto, pintado de muito breu. Mais gordo, de maxilar pujante, parecendo um Elvis, de golas levantadas. Era muito atraente.
Fui ter com ele, de braços esticados. Afinal conhecia-o desde sempre.
- Não imaginei ser possível!
Libertei ao mesmo tempo do abraço.
Ele retomou a capa e colocou-a nos ombros. A entoação encheu o largo.
- Como está você?
- A precisar de um chá morno, e de uma conversa.
Quando não sabemos o que esperar, olhamos fixamente. Quando não queremos saber, damos a mão, mesmo a um homem, e puxamos por ele.
Entrámos dentro do café e escolhemos uma mesa. Fiquei a olhar! Era todo de negro, puxado a brilhantina. Marcas de pente bem desenhadas. Deliciei-me, com o passado.
- Sabe, sempre fui seu admirador, atento à sua arte.
- Obrigado...
O agradecimento traía a normalidade. Pertencia a outro, e fez-me pensar. O fumo levantava-se do chá demasiado quente e passava-lhe junto à face, moldando as formas. Afastei-o para dizer.
- Você é o Tony Ramos...não é?
- ...não!
segunda-feira, novembro 21, 2005
A pergunta...
Os dias de Outono são límpidos, depois de uma chuvada. Não existe poeira no ar e podemos ver até muito longe.
Estava sentado num banco de jardim há pelo menos vinte minutos. É uma coisa que gosto de fazer! Hoje em dia, se repararmos, só os velhos e os mendigos utilizam os bancos. Os outros têm vergonha, dos primeiros e de serem confundidos. Assim preferem ficar de pé, enchendo varizes. Ou então vão para os cafés!
Eu ali estava, sentado num banco de ripas esverdeadas, quando te vi. Caminhavas em zigue-zague parando em cada encontro. Falavas uns segundos com cada pessoa, que normalmente fazia uma careta e se afastava. Tu baixavas ainda mais o olhar e recomeçavas a andar, até à próxima.
Como estava muita gente na rua, demoraste até chegar perto de mim. Reparei que eras bonita, com um sorriso lindo mas escondido. Libertava-se com as crianças, ao colo ou pela mão, momentos antes de os pais as puxarem para trás.
Era sempre igual! Educadamente aproximavas-te de uma pessoa, cumprimentavas de cabeça baixa, e fazias uma pergunta. Nessa altura a pessoa olhava com dificuldade e virava as costas apressadamente. Estavas quase ao pé de mim.
Normalmente fujo, escondo a cara, finjo atender uma chamada, o que for preciso...mas sem arte. A curiosidade acaba por me trair!
Naquela tarde foi pouco diferente. Não resisti a olhar e deixei-me fixar. Percebeste o encaixe e aceleraste o passo. À minha beira não cumprimentaste. A pergunta foi mais forte.
- Ainda vais viver muitos anos?
Depois, enfim, baixaste os olhos!
Que podia responder? Achava que sim, pela ordem da vida. Porque ainda devia faltar bastante tempo. Não sabia o que pensar e acabei por dizer.
- Acho que sim...mas não sei quantos. Tenho saúde, portanto devem ser muitos. Que pergunta difícil.
Quando fico nervoso falo sem parar, tentando não esquecer o que direi em seguida. Continuei.
- Mas não te consigo dizer quantos. É uma pergunta difícil! Se me perguntasses as horas...isso eu sei dizer. O meu nome também, com algum esforço. Se ainda vou precisar deste banco muito tempo. Essa! Essa era a mais fácil! Podia dizer-te quando podes ficar com ele.
Com um modo gentil, tapaste-me a voz com dedos muito juntos. Sossegaste-me.
- Não vim pelo banco. Precisava de alguns anos...
A rapariga tinha cores que saíam da cintura, no local destapado. Pareciam formas pintadas...gravadas na pele.
E eu posso fazer isso? Perguntei.
- Sim, podes. É muito simples.
- Então está bem! Ufa, pensava que era algo mais delicado!
Ela riu – Não, rapaz. É apenas isto! Mas...tu...?
- Eu?
- Não queres saber de quantos preciso?
- Claro que não!
Estava sentado num banco de jardim há pelo menos vinte minutos. É uma coisa que gosto de fazer! Hoje em dia, se repararmos, só os velhos e os mendigos utilizam os bancos. Os outros têm vergonha, dos primeiros e de serem confundidos. Assim preferem ficar de pé, enchendo varizes. Ou então vão para os cafés!
Eu ali estava, sentado num banco de ripas esverdeadas, quando te vi. Caminhavas em zigue-zague parando em cada encontro. Falavas uns segundos com cada pessoa, que normalmente fazia uma careta e se afastava. Tu baixavas ainda mais o olhar e recomeçavas a andar, até à próxima.
Como estava muita gente na rua, demoraste até chegar perto de mim. Reparei que eras bonita, com um sorriso lindo mas escondido. Libertava-se com as crianças, ao colo ou pela mão, momentos antes de os pais as puxarem para trás.
Era sempre igual! Educadamente aproximavas-te de uma pessoa, cumprimentavas de cabeça baixa, e fazias uma pergunta. Nessa altura a pessoa olhava com dificuldade e virava as costas apressadamente. Estavas quase ao pé de mim.
Normalmente fujo, escondo a cara, finjo atender uma chamada, o que for preciso...mas sem arte. A curiosidade acaba por me trair!
Naquela tarde foi pouco diferente. Não resisti a olhar e deixei-me fixar. Percebeste o encaixe e aceleraste o passo. À minha beira não cumprimentaste. A pergunta foi mais forte.
- Ainda vais viver muitos anos?
Depois, enfim, baixaste os olhos!
Que podia responder? Achava que sim, pela ordem da vida. Porque ainda devia faltar bastante tempo. Não sabia o que pensar e acabei por dizer.
- Acho que sim...mas não sei quantos. Tenho saúde, portanto devem ser muitos. Que pergunta difícil.
Quando fico nervoso falo sem parar, tentando não esquecer o que direi em seguida. Continuei.
- Mas não te consigo dizer quantos. É uma pergunta difícil! Se me perguntasses as horas...isso eu sei dizer. O meu nome também, com algum esforço. Se ainda vou precisar deste banco muito tempo. Essa! Essa era a mais fácil! Podia dizer-te quando podes ficar com ele.
Com um modo gentil, tapaste-me a voz com dedos muito juntos. Sossegaste-me.
- Não vim pelo banco. Precisava de alguns anos...
A rapariga tinha cores que saíam da cintura, no local destapado. Pareciam formas pintadas...gravadas na pele.
E eu posso fazer isso? Perguntei.
- Sim, podes. É muito simples.
- Então está bem! Ufa, pensava que era algo mais delicado!
Ela riu – Não, rapaz. É apenas isto! Mas...tu...?
- Eu?
- Não queres saber de quantos preciso?
- Claro que não!
quinta-feira, novembro 17, 2005
A preto e branco...
Agora acho que já posso contar. Há cerca de um ano, junto ao jardim zoológico, reparei num cartaz. Era muito pequeno e discreto, como uma publicidade em miniatura.
"Um dia no passado. Venha visitar o Zoo a preto e branco!"
A preto e branco? Fiquei o dia inteiro a pensar naquelas palavras. O que quereriam dizer? Telefonei para o jardim, mas ninguém sabia o que se tratava.
- Olhe, deve ser brincadeira. Alguém com tempo e imaginação a mais.
A senhora desligou ainda em susurros, que não percebi.
Nessa noite passei no local, procurando o mesmo cartaz. Estava muito escuro porque metade dos cadeeiros da rua não funcionavam.
Nada! Não havia cartaz, nem o pequeno suporte que o sustentava. Decidi ir para casa. Nos dias seguintes fui esquecendo aquele episódio, passando de uma dúvida romântica, para a certeza de um engano. Não seria importante.
Nos Sábados costumo dormir até tarde, lutando com as manhãs que adoro e não consigo visitar. Aquele foi diferente. Acordei antes das sete com uma horrível sensação de ansiedade. Percebi de imediato o que me esperava. Tinha que visitar o Zoo.
Como moro perto, fui a pé para inspirar e me acalmar. Na última rua apenas olhei para os andares de cima. Ganhei este hábito enquanto procurava casa, uns anos antes. Nunca olhamos para cima!
Em baixo ficam as lojas, as entradas, os cafés e algumas famílias que não puderam subir. Não há para onde olhar. E assim ignoramos o que se passa por cima. Senhoras que abrem e fecham as janelas, espreitando sem explicação. Cortinas entrabertas com tufos de cabelos brancos escondidos.
De noite é ainda mais belo. A luz convida-nos a entrar. Os jovens casais discutem, e não têm cortinados...
Cheguei por fim, ao meu destino. Dirigi-me à bilheteira ainda escura. A senhora acabava de engolir o último pedaço de pão, que tinha manteiga. Um trago num café muito escuro e lá reagiu.
- Bom dia. Veio acordar os bichos?
Acho que corei um pouco, para depois me recompôr. Que se lixe! Vamos lá descobrir.
- Quero uma visita a preto e branco!
A senhora martelou qualquer coisa no computador e entregou-me um bilhete.
- Tenha uma boa visita. Bom dia.
Nem olhou para mim. Continuou a beber o seu café.
Àquela hora ainda não nos tiram fotografias com papagaios gigantes. A entrada é mais rápida.
Conheço o jardim de cor e saltaeado. Acho que até os animais já me reconhecem. Devo-o aos miúdos do Bairro da Sé e a um Verão de tempos livres.
Sentei-me no primeiro banco. Estava tudo a cores!
O comboio parado era encarnado, os aquários em azul suave, e nos répteis muito verde. Até o bilhete era às cores. Se pelo menos houvesse um panda.
Nessa altura ouvi uma voz com melodia.
- Não me diga que está cansado! É muito novo para isso.
Um senhor sentou-se ao meu lado. Devia ter quase setenta anos, mas com pele bem cuidada. O fato era castanho e de corte moderno. Contrastava um pouco com o chapéu, forrado de novo, mas com um formato conservador.
- Não sabia que ainda faziam desses chapéus.
Calei-me logo em seguida, envergonhado por tamanho disparate.
- Desculpe! Não sei o que me deu.
O senhor de chapéu olhou-me nos olhos.
- E já não fazem. Eu sou o último! Agora preferem gorros, mas só ao fim-de-semana. Nos outros dias passam frio. E não sabem cumprimentar.
- Atrapalham-se entre o beijo e as mãos. Hesitam, percebe? As mulheres não gostam de hesitações. Mesmo na timidez!
Chegou uma visita de crianças. Deviam ser de algum bairro pobre. Conhecia-lhes os passos. O senhor sorria ao vê-los passar.
- Afinal quer ver a exposição, ou não?
- A exposição? Perguntei em dúvidas.
- Sim, a exposição de fotografias antigas. "O Zoo a preto e branco!" Vai ser o primeiro...e desconfio que dos poucos. É como os chapéus.... já ninguém liga.
Ajudei-o a levantar-se e segurei-lhe no braço. Desconfio que me amparava.
- Vou com muito prazer. Disse com voz firme. Depois ganhei coragem...
- Queria fazer-lhe uma pergunta? Posso encomendar-lhe um chapéu?
"Um dia no passado. Venha visitar o Zoo a preto e branco!"
A preto e branco? Fiquei o dia inteiro a pensar naquelas palavras. O que quereriam dizer? Telefonei para o jardim, mas ninguém sabia o que se tratava.
- Olhe, deve ser brincadeira. Alguém com tempo e imaginação a mais.
A senhora desligou ainda em susurros, que não percebi.
Nessa noite passei no local, procurando o mesmo cartaz. Estava muito escuro porque metade dos cadeeiros da rua não funcionavam.
Nada! Não havia cartaz, nem o pequeno suporte que o sustentava. Decidi ir para casa. Nos dias seguintes fui esquecendo aquele episódio, passando de uma dúvida romântica, para a certeza de um engano. Não seria importante.
Nos Sábados costumo dormir até tarde, lutando com as manhãs que adoro e não consigo visitar. Aquele foi diferente. Acordei antes das sete com uma horrível sensação de ansiedade. Percebi de imediato o que me esperava. Tinha que visitar o Zoo.
Como moro perto, fui a pé para inspirar e me acalmar. Na última rua apenas olhei para os andares de cima. Ganhei este hábito enquanto procurava casa, uns anos antes. Nunca olhamos para cima!
Em baixo ficam as lojas, as entradas, os cafés e algumas famílias que não puderam subir. Não há para onde olhar. E assim ignoramos o que se passa por cima. Senhoras que abrem e fecham as janelas, espreitando sem explicação. Cortinas entrabertas com tufos de cabelos brancos escondidos.
De noite é ainda mais belo. A luz convida-nos a entrar. Os jovens casais discutem, e não têm cortinados...
Cheguei por fim, ao meu destino. Dirigi-me à bilheteira ainda escura. A senhora acabava de engolir o último pedaço de pão, que tinha manteiga. Um trago num café muito escuro e lá reagiu.
- Bom dia. Veio acordar os bichos?
Acho que corei um pouco, para depois me recompôr. Que se lixe! Vamos lá descobrir.
- Quero uma visita a preto e branco!
A senhora martelou qualquer coisa no computador e entregou-me um bilhete.
- Tenha uma boa visita. Bom dia.
Nem olhou para mim. Continuou a beber o seu café.
Àquela hora ainda não nos tiram fotografias com papagaios gigantes. A entrada é mais rápida.
Conheço o jardim de cor e saltaeado. Acho que até os animais já me reconhecem. Devo-o aos miúdos do Bairro da Sé e a um Verão de tempos livres.
Sentei-me no primeiro banco. Estava tudo a cores!
O comboio parado era encarnado, os aquários em azul suave, e nos répteis muito verde. Até o bilhete era às cores. Se pelo menos houvesse um panda.
Nessa altura ouvi uma voz com melodia.
- Não me diga que está cansado! É muito novo para isso.
Um senhor sentou-se ao meu lado. Devia ter quase setenta anos, mas com pele bem cuidada. O fato era castanho e de corte moderno. Contrastava um pouco com o chapéu, forrado de novo, mas com um formato conservador.
- Não sabia que ainda faziam desses chapéus.
Calei-me logo em seguida, envergonhado por tamanho disparate.
- Desculpe! Não sei o que me deu.
O senhor de chapéu olhou-me nos olhos.
- E já não fazem. Eu sou o último! Agora preferem gorros, mas só ao fim-de-semana. Nos outros dias passam frio. E não sabem cumprimentar.
- Atrapalham-se entre o beijo e as mãos. Hesitam, percebe? As mulheres não gostam de hesitações. Mesmo na timidez!
Chegou uma visita de crianças. Deviam ser de algum bairro pobre. Conhecia-lhes os passos. O senhor sorria ao vê-los passar.
- Afinal quer ver a exposição, ou não?
- A exposição? Perguntei em dúvidas.
- Sim, a exposição de fotografias antigas. "O Zoo a preto e branco!" Vai ser o primeiro...e desconfio que dos poucos. É como os chapéus.... já ninguém liga.
Ajudei-o a levantar-se e segurei-lhe no braço. Desconfio que me amparava.
- Vou com muito prazer. Disse com voz firme. Depois ganhei coragem...
- Queria fazer-lhe uma pergunta? Posso encomendar-lhe um chapéu?
terça-feira, novembro 15, 2005
Debaixo da ponte...
Acho que já ninguém se lembra. Mesmo eu não pensava muito. E no entanto continua a ser real, e de abrigo.
Na América negra de escravos persistiu uma lenda que falava num caminho de ferro subterrâneo. Pensava-se que existia de verdade, em emaranhado de túneis e máquinas, aço e segredos. Na verdade o caminho era de fuga, simbolo de alguma América que preocupava, que percebia. Apesar do risco, muitos ajudavam os escravos a fugir, albergando-os em suas casas e celeiros, criando uma rede segura onde paravam antes da liberdade – The Underground Railroad.
Numa tarde voluntária conheci o Joaquim. Pedia que lhe chamassem mendigo, com entoação simples, despreocupada. Como se engolisse parte da expressão. Nunca com maiúsculas! Aos poucos foi permitindo a confiança, contando pequenas estórias. Até um dia.
- Diz-me Joaquim, como te tornaste mendigo?
Ele riu pela astúcia, que permitiu uma maiúscula.
- Não é essa a pergunta, senhor. A questão é como consegui manter-me.
Só pela noite começou a contar-me, apoiado numa sopa quente, embora em pó. Relatou por fim.
Começara nos anos trinta, quando uma inesperada onda de construção, fez aumentar as travessias de rios, desfiladeiros e pequenos vales. E ele foi o primeiro. Recém despejado da casa onde vivia, Joaquim olhou em volta. Onde dormiria? Não tinha frio, raramente tinham, dizia!
- Vestimos tudo o que temos e ficamos assim. No Verão é pior. Não há fechaduras, e temos medo dos roubos. De ficar sem roupa.
A primeira noite foi a única, debaixo das estrelas, de um céu frio, mas sem chuva. De manhã descobriu.
Tivera sorte, contou. Era uma ponte moderna, na altura. No local onde se unia ao solo, formava um recanto, com uma parede de um dos lados e uma rocha azulada no oposto. Ficava à entrada da cidade, em zona calma e saloia. Havia pão, que sobrava, cobertores e uma serração antiga. No mesmo dia foi lá falar com o dono, pedindo umas placas, e corticite para forrar paredes. O chefe perguntou.
- Olha lá mendigo. Não queres ir medir o teu espaço? Assim até ficas com uma porta e tudo.
Apesar de nunca os ter visto, não quis arriscar. O cheiro de roedores é incómodo e nunca desaparece da memória. Encontrou remédio, que sobrava e desenhou, numa grande roda.
Durante a noite riu sem parar. Peça após peça, teve de abandonar o que vestia. Fazia calor, debaixo da ponte!
Nas redondezas havia uma fonte. Era antiga, quase sem uso, mas de muita água, límpida e fresca. A partir de então começou a procurar outros espaços, e a partilhar. Tinha começado o movimento.
- Chegámos a ser mil e tal, ou até mais. Rodávamos muito, para caminhar. Com os viadutos voltámos à cidade, mas correu mal. São muito frios, têm luzes por baixo e nichos altos, desconfortáveis. Há dois ou três, mas não partilho!
- Joaquim, tiveste uma boa vida! Trocávas alguma coisa?
Olhou através de mim, para uma casa antiga.
- Trocava tudo...
Na América negra de escravos persistiu uma lenda que falava num caminho de ferro subterrâneo. Pensava-se que existia de verdade, em emaranhado de túneis e máquinas, aço e segredos. Na verdade o caminho era de fuga, simbolo de alguma América que preocupava, que percebia. Apesar do risco, muitos ajudavam os escravos a fugir, albergando-os em suas casas e celeiros, criando uma rede segura onde paravam antes da liberdade – The Underground Railroad.
Numa tarde voluntária conheci o Joaquim. Pedia que lhe chamassem mendigo, com entoação simples, despreocupada. Como se engolisse parte da expressão. Nunca com maiúsculas! Aos poucos foi permitindo a confiança, contando pequenas estórias. Até um dia.
- Diz-me Joaquim, como te tornaste mendigo?
Ele riu pela astúcia, que permitiu uma maiúscula.
- Não é essa a pergunta, senhor. A questão é como consegui manter-me.
Só pela noite começou a contar-me, apoiado numa sopa quente, embora em pó. Relatou por fim.
Começara nos anos trinta, quando uma inesperada onda de construção, fez aumentar as travessias de rios, desfiladeiros e pequenos vales. E ele foi o primeiro. Recém despejado da casa onde vivia, Joaquim olhou em volta. Onde dormiria? Não tinha frio, raramente tinham, dizia!
- Vestimos tudo o que temos e ficamos assim. No Verão é pior. Não há fechaduras, e temos medo dos roubos. De ficar sem roupa.
A primeira noite foi a única, debaixo das estrelas, de um céu frio, mas sem chuva. De manhã descobriu.
Tivera sorte, contou. Era uma ponte moderna, na altura. No local onde se unia ao solo, formava um recanto, com uma parede de um dos lados e uma rocha azulada no oposto. Ficava à entrada da cidade, em zona calma e saloia. Havia pão, que sobrava, cobertores e uma serração antiga. No mesmo dia foi lá falar com o dono, pedindo umas placas, e corticite para forrar paredes. O chefe perguntou.
- Olha lá mendigo. Não queres ir medir o teu espaço? Assim até ficas com uma porta e tudo.
Apesar de nunca os ter visto, não quis arriscar. O cheiro de roedores é incómodo e nunca desaparece da memória. Encontrou remédio, que sobrava e desenhou, numa grande roda.
Durante a noite riu sem parar. Peça após peça, teve de abandonar o que vestia. Fazia calor, debaixo da ponte!
Nas redondezas havia uma fonte. Era antiga, quase sem uso, mas de muita água, límpida e fresca. A partir de então começou a procurar outros espaços, e a partilhar. Tinha começado o movimento.
- Chegámos a ser mil e tal, ou até mais. Rodávamos muito, para caminhar. Com os viadutos voltámos à cidade, mas correu mal. São muito frios, têm luzes por baixo e nichos altos, desconfortáveis. Há dois ou três, mas não partilho!
- Joaquim, tiveste uma boa vida! Trocávas alguma coisa?
Olhou através de mim, para uma casa antiga.
- Trocava tudo...
quarta-feira, novembro 02, 2005
Reflexos na professora...
Nos dias quentes era mais difícil suportar as aulas de Português. Mas a professora era muito bonita, parecia jovem e despertava a imaginação, talvez em demasia. Entre o calor e uma figura atraente, se perdiam os meus pensamentos.
Um dia fiquei perto da janela e quando o Sol começou a subir, encontrou-me o relógio de mostrador plano e generoso. Um reflexo recortado apareceu na parede à minha esquerda.
Sem chamar as atenções passei a controlá-lo, ordenando que se movesse. A luz amarelada começou a caminhar.
Subiu um pouco para contornar a enorme janela e definiu uma rota paralela ao tecto, em direcção a um dos cantos. Teve de rodear um pequeno quadro, com o mapa de Portugal, sem perturbar o seu espaço aéreo. Continuou sem mais problemas até virar, a noventa graus, alcançando a parede do quadro. Um dia destes tenho que entrar numa escola, para confirmar que ainda existem quadros...
De triunfante perdi a noção e o concentrar, e por pouco não deixava que a luz se extinguisse. Voltei a colocar o braço em posição segura, longe da sombra.
Finalmente chegou perto da professora, descendo pela moldura do quadro até muito perto do apagador. De um salto, o reflexo chegou até à mulher, parando no seu ombro direito.
A metade da turma que não lia, logo deu conta da sua presença. Olhares começaram a cruzar-se, para encontrar o responsável. Imitei-os na demanda, para que não fosse descoberto. Escutei o segredos e risos baixinhos, silenciados pelo olhar da figura iluminada.
Devagar, voltei o relógio para o centro, dirigindo o recorte de luz. Estava agora perto de um decote sem mácula, protegido por um enorme botão castanho. O que ninguém esperava foi o que se passou então. No exacto momento em que o reflexo se anichou no botão, o mesmo abriu-se deixando o tecido recuar. A luz tremeu quando os contornos apareceram. Tive que segurar no próprio braço, para que se mantivesse no lugar. Ao ver-me perder, o meu colega de secretária veio em meu auxílio, segurando com força, mas sem nunca desviar o olhar.
A turma reteve o ar e o suspiro, enquanto descíamos, descobrindo a sombra e a pele. Pareceu-nos ver uma gota que perseguia a nossa estrela, que nos arrepiava a imaginação.
A professora falou.
- Meninos, não sei o que se passa convosco, mas fico feliz pelo súbito interesse na aula.
Acabou a frase, voltando-se para o quadro negro. A mão que não escrevia passeava pela blusa, e pelo botão, acariciando-os.
Lá fora uma nuvem tapou o Sol, levando os reflexos em que já não pensávamos. Ficámos em suspenso, muito vermelhos, esperando que ela se virasse novamente.
Um dia fiquei perto da janela e quando o Sol começou a subir, encontrou-me o relógio de mostrador plano e generoso. Um reflexo recortado apareceu na parede à minha esquerda.
Sem chamar as atenções passei a controlá-lo, ordenando que se movesse. A luz amarelada começou a caminhar.
Subiu um pouco para contornar a enorme janela e definiu uma rota paralela ao tecto, em direcção a um dos cantos. Teve de rodear um pequeno quadro, com o mapa de Portugal, sem perturbar o seu espaço aéreo. Continuou sem mais problemas até virar, a noventa graus, alcançando a parede do quadro. Um dia destes tenho que entrar numa escola, para confirmar que ainda existem quadros...
De triunfante perdi a noção e o concentrar, e por pouco não deixava que a luz se extinguisse. Voltei a colocar o braço em posição segura, longe da sombra.
Finalmente chegou perto da professora, descendo pela moldura do quadro até muito perto do apagador. De um salto, o reflexo chegou até à mulher, parando no seu ombro direito.
A metade da turma que não lia, logo deu conta da sua presença. Olhares começaram a cruzar-se, para encontrar o responsável. Imitei-os na demanda, para que não fosse descoberto. Escutei o segredos e risos baixinhos, silenciados pelo olhar da figura iluminada.
Devagar, voltei o relógio para o centro, dirigindo o recorte de luz. Estava agora perto de um decote sem mácula, protegido por um enorme botão castanho. O que ninguém esperava foi o que se passou então. No exacto momento em que o reflexo se anichou no botão, o mesmo abriu-se deixando o tecido recuar. A luz tremeu quando os contornos apareceram. Tive que segurar no próprio braço, para que se mantivesse no lugar. Ao ver-me perder, o meu colega de secretária veio em meu auxílio, segurando com força, mas sem nunca desviar o olhar.
A turma reteve o ar e o suspiro, enquanto descíamos, descobrindo a sombra e a pele. Pareceu-nos ver uma gota que perseguia a nossa estrela, que nos arrepiava a imaginação.
A professora falou.
- Meninos, não sei o que se passa convosco, mas fico feliz pelo súbito interesse na aula.
Acabou a frase, voltando-se para o quadro negro. A mão que não escrevia passeava pela blusa, e pelo botão, acariciando-os.
Lá fora uma nuvem tapou o Sol, levando os reflexos em que já não pensávamos. Ficámos em suspenso, muito vermelhos, esperando que ela se virasse novamente.
segunda-feira, outubro 31, 2005
A rapariga feia...
Ela nem avisou. Veio direito a mim e falou.
- Gosto de ti!
Reuni duas ou três feições que poderia usar, mas fiquei quieto, a olhar.
- A sério! Estava a observar-te e senti que não podia deixar-te ir embora. Tinha que largar tudo, entendes?
- Eu...
Continuei em pura roda vida, sem perceber o que se passava. Comecei a vê-la...
- Desculpa. Sei que não sou bonita, que o trânsito não pára à minha espera...
Não podia dizer que fosse feia. Era um pouco... Bem...era ligeiramente gorducha, com cabelo comprido, apanhado por cima do ombro direito, tinha olhos doces e se fosse mais magra...
- Olha, o problema é que me viste antes de poderes conhecer-me. E a ilusão de uma paixão pode começar de várias formas. São igualmente poderosas, se forem ajustadas a diferentes pessoas. Comigo tem mais a ver com o intelecto, com o sentido de humor, com... Percebes alguma coisa do que te digo?
Continuei sem abrir a boca, corado para a eternidade e buscando uma saída. Ao fundo começou a aparecer outro vulto. Reparei que estava parado na entrada de um museu onde não queria entrar, com quatro escadas e uma porta muito feia.
Atrás havia um corredor, onde a outra figura andava de forma elegante. Começou a aproximar-se mostrando uma linda rapariga, que tinha óculos. Quando passou por nós, ficou a olhar-me, como se me reconhecesse.
Fiquei ali, parado, com as duas mulheres na minha frente, sem uma palavra...
A primeira tinha um sorriso bonito, sabia-o agora. Envorgonhou-se com o que ia dizer.
- Vais achar-me completamente maluca, mas pouco me importa. Não quero saber! Só quero ouvir a tua voz.
Baixou um pouco os olhos e continuou.
- Por ti era capaz de tudo. Dá-me seis meses e eu faço uma dieta que nem imaginas. Vou ficar tão bonita...
Nessa altura reparou na mulher de óculos, parada a seu lado, engolindo o que preparara para dizer. Ficou ainda mais atrapalhada ao perceber a beleza da outra. Olhou para os olhos sem cor que sorriam, demorou-se em lábios de um rosa perfeito, sempre a invejar.
Depois gritou, ao mesmo tempo que a viu rodar.
- Tu não tens um braço!
E não tinha mesmo. Ao virar-se apresentou uma manga caindo vazia, e aproximou-se ainda mais. Ao perto era ainda mais bonita!
E ali estava eu! Paralisado, na companhia das duas mulheres. Uma queria emagrecer, não me conhecia e estava apaixonada. Outra reconheceu-me! Era linda, não tinha um braço...e usava óculos.
Sentei-me desamparado nos degraus. Pensei na dieta, no braço, e levantei-me. Começou a doer-me a cabeça, um momento antes de falar.
- Eu... Eu queria...Quer dizer...
Tentei uma vez mais, falando mais devagar.
Eu moro aqui perto. Gostava que viessem comigo, para conversar. A rapariga de óculos acenou afirmativamente. A outra gritou que se chamava Ana. Concluiu que se enganara a meu respeito e desapareceu furiosa.
- Bem...vamos? Perguntei com uma voz murmurada.
- Sim, vamos. Mas quero avisar-te primeiro de uma coisa.
- Podes avisar!
- Não penses que vais andar comigo!
Estava mais calmo e podia responder sem pressão.
- Está bem, eu não penso.
A sua cara ficou ainda mais bonita, enquanto os músculos começavam a baixar e as covinhas podiam adormecer. Começámos a caminhar.
- Como te chamas?
- Francisca! Olha... achas que este problema do braço pode deitar tudo a perder?
- Acho que não!
- Gosto de ti!
Reuni duas ou três feições que poderia usar, mas fiquei quieto, a olhar.
- A sério! Estava a observar-te e senti que não podia deixar-te ir embora. Tinha que largar tudo, entendes?
- Eu...
Continuei em pura roda vida, sem perceber o que se passava. Comecei a vê-la...
- Desculpa. Sei que não sou bonita, que o trânsito não pára à minha espera...
Não podia dizer que fosse feia. Era um pouco... Bem...era ligeiramente gorducha, com cabelo comprido, apanhado por cima do ombro direito, tinha olhos doces e se fosse mais magra...
- Olha, o problema é que me viste antes de poderes conhecer-me. E a ilusão de uma paixão pode começar de várias formas. São igualmente poderosas, se forem ajustadas a diferentes pessoas. Comigo tem mais a ver com o intelecto, com o sentido de humor, com... Percebes alguma coisa do que te digo?
Continuei sem abrir a boca, corado para a eternidade e buscando uma saída. Ao fundo começou a aparecer outro vulto. Reparei que estava parado na entrada de um museu onde não queria entrar, com quatro escadas e uma porta muito feia.
Atrás havia um corredor, onde a outra figura andava de forma elegante. Começou a aproximar-se mostrando uma linda rapariga, que tinha óculos. Quando passou por nós, ficou a olhar-me, como se me reconhecesse.
Fiquei ali, parado, com as duas mulheres na minha frente, sem uma palavra...
A primeira tinha um sorriso bonito, sabia-o agora. Envorgonhou-se com o que ia dizer.
- Vais achar-me completamente maluca, mas pouco me importa. Não quero saber! Só quero ouvir a tua voz.
Baixou um pouco os olhos e continuou.
- Por ti era capaz de tudo. Dá-me seis meses e eu faço uma dieta que nem imaginas. Vou ficar tão bonita...
Nessa altura reparou na mulher de óculos, parada a seu lado, engolindo o que preparara para dizer. Ficou ainda mais atrapalhada ao perceber a beleza da outra. Olhou para os olhos sem cor que sorriam, demorou-se em lábios de um rosa perfeito, sempre a invejar.
Depois gritou, ao mesmo tempo que a viu rodar.
- Tu não tens um braço!
E não tinha mesmo. Ao virar-se apresentou uma manga caindo vazia, e aproximou-se ainda mais. Ao perto era ainda mais bonita!
E ali estava eu! Paralisado, na companhia das duas mulheres. Uma queria emagrecer, não me conhecia e estava apaixonada. Outra reconheceu-me! Era linda, não tinha um braço...e usava óculos.
Sentei-me desamparado nos degraus. Pensei na dieta, no braço, e levantei-me. Começou a doer-me a cabeça, um momento antes de falar.
- Eu... Eu queria...Quer dizer...
Tentei uma vez mais, falando mais devagar.
Eu moro aqui perto. Gostava que viessem comigo, para conversar. A rapariga de óculos acenou afirmativamente. A outra gritou que se chamava Ana. Concluiu que se enganara a meu respeito e desapareceu furiosa.
- Bem...vamos? Perguntei com uma voz murmurada.
- Sim, vamos. Mas quero avisar-te primeiro de uma coisa.
- Podes avisar!
- Não penses que vais andar comigo!
Estava mais calmo e podia responder sem pressão.
- Está bem, eu não penso.
A sua cara ficou ainda mais bonita, enquanto os músculos começavam a baixar e as covinhas podiam adormecer. Começámos a caminhar.
- Como te chamas?
- Francisca! Olha... achas que este problema do braço pode deitar tudo a perder?
- Acho que não!
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