Comecei a ouvir muito baixinho. Era um som estreitinho que se esgueirava, e voava, à minha procura. Pouco a pouco fui entendendo.
Ó Rua do capelão,
juncada de rosmaninho,
eu beijo as pedras do chão
se o meu amor vier cedinho.
Era um fado! Uma pequena nota que ia e vinha e se fartava de soar. Parecia esfumaçada.
Tenho um degrau no meu leito,
para o meu amor subir.
Vê lá amor, sobe o com jeito,
para que o meu coração não se desgarre do meu peito.
E lá continuava, embaraçando-me, enamorando-me, criando umas levezas no que iria encontrar, até sentir. Reiniciei o andar, à volta de uma esquina, mas a parar, só de um esgar de mansinho, mandando a visão na frente…
Assim a vi, envolta num xaile invisível, de negritude acentuada. Fui até ela, até estar tão perto que não precisava de ver. Lábios púrpura e mil caracóis. Ela era assim! Tinha também um perfume, mas de afastar, por ser perigoso.
Olhinhos pequenos tremiam em fogo cru, esverdeado, muito pouco amarelo.
- Estive a ouvir-te, menina.
- Eu sei. Mas ouviste-me dentro?
Virei as costas como se não visse, arrastando fúrias, amansando serenidades. E ela puxou-me. Agarrou-me com tanta força, para que caísse.
- Onde pensas que vais? Eu perguntei se me ouviste.
Um líquido branco, imaginado e sujo, iniciou a descida, desprendendo sentidos, almofadando as poucas virtudes. Beijei-a de ímpeto, espremendo o que ia lembrar, em poucos segundos.
- Faz-te à estrada, rapaz! Tu não me ouviste.
Ela não queria que eu fosse. Sabia que a tinha ouvido, que sentia o choro.
- Liberta-me, rapariga de fado. Eu ouvi-te desde o início, antes que começasses a cantar. Ouvi-te dentro de mim, puxando de alças curtas. Liberta-me!
Os dois, abraçados, pensámos. Ela lutando, eu de luta em luta. Arrepiámos de braços a desprender, segurando de novo, em vaivém.
- E agora? Para onde vamos, daqui?
- Não tenho a menor ideia.
Esperei três segundos até à certeza. Pensei que ia acabar ali, ensombrado. Outros segundos e deixei entrar, sentido doce a partilhar, abrindo leve.
Chamei e ouvi, em canção de embalar.
Tenho o meu destino marcado
desde a hora em que te vi.
Ó meu cigano adorado,
viver abraçada ao fado,
morrer abraçada a ti.
- Vamos…vamos por ali!
Ó Rua do capelão,
juncada de rosmaninho,
eu beijo as pedras do chão
se o meu amor vier cedinho.
Era um fado! Uma pequena nota que ia e vinha e se fartava de soar. Parecia esfumaçada.
Tenho um degrau no meu leito,
para o meu amor subir.
Vê lá amor, sobe o com jeito,
para que o meu coração não se desgarre do meu peito.
E lá continuava, embaraçando-me, enamorando-me, criando umas levezas no que iria encontrar, até sentir. Reiniciei o andar, à volta de uma esquina, mas a parar, só de um esgar de mansinho, mandando a visão na frente…
Assim a vi, envolta num xaile invisível, de negritude acentuada. Fui até ela, até estar tão perto que não precisava de ver. Lábios púrpura e mil caracóis. Ela era assim! Tinha também um perfume, mas de afastar, por ser perigoso.
Olhinhos pequenos tremiam em fogo cru, esverdeado, muito pouco amarelo.
- Estive a ouvir-te, menina.
- Eu sei. Mas ouviste-me dentro?
Virei as costas como se não visse, arrastando fúrias, amansando serenidades. E ela puxou-me. Agarrou-me com tanta força, para que caísse.
- Onde pensas que vais? Eu perguntei se me ouviste.
Um líquido branco, imaginado e sujo, iniciou a descida, desprendendo sentidos, almofadando as poucas virtudes. Beijei-a de ímpeto, espremendo o que ia lembrar, em poucos segundos.
- Faz-te à estrada, rapaz! Tu não me ouviste.
Ela não queria que eu fosse. Sabia que a tinha ouvido, que sentia o choro.
- Liberta-me, rapariga de fado. Eu ouvi-te desde o início, antes que começasses a cantar. Ouvi-te dentro de mim, puxando de alças curtas. Liberta-me!
Os dois, abraçados, pensámos. Ela lutando, eu de luta em luta. Arrepiámos de braços a desprender, segurando de novo, em vaivém.
- E agora? Para onde vamos, daqui?
- Não tenho a menor ideia.
Esperei três segundos até à certeza. Pensei que ia acabar ali, ensombrado. Outros segundos e deixei entrar, sentido doce a partilhar, abrindo leve.
Chamei e ouvi, em canção de embalar.
Tenho o meu destino marcado
desde a hora em que te vi.
Ó meu cigano adorado,
viver abraçada ao fado,
morrer abraçada a ti.
- Vamos…vamos por ali!