Os dias de Outono são límpidos, depois de uma chuvada. Não existe poeira no ar e podemos ver até muito longe.
Estava sentado num banco de jardim há pelo menos vinte minutos. É uma coisa que gosto de fazer! Hoje em dia, se repararmos, só os velhos e os mendigos utilizam os bancos. Os outros têm vergonha, dos primeiros e de serem confundidos. Assim preferem ficar de pé, enchendo varizes. Ou então vão para os cafés!
Eu ali estava, sentado num banco de ripas esverdeadas, quando te vi. Caminhavas em zigue-zague parando em cada encontro. Falavas uns segundos com cada pessoa, que normalmente fazia uma careta e se afastava. Tu baixavas ainda mais o olhar e recomeçavas a andar, até à próxima.
Como estava muita gente na rua, demoraste até chegar perto de mim. Reparei que eras bonita, com um sorriso lindo mas escondido. Libertava-se com as crianças, ao colo ou pela mão, momentos antes de os pais as puxarem para trás.
Era sempre igual! Educadamente aproximavas-te de uma pessoa, cumprimentavas de cabeça baixa, e fazias uma pergunta. Nessa altura a pessoa olhava com dificuldade e virava as costas apressadamente. Estavas quase ao pé de mim.
Normalmente fujo, escondo a cara, finjo atender uma chamada, o que for preciso...mas sem arte. A curiosidade acaba por me trair!
Naquela tarde foi pouco diferente. Não resisti a olhar e deixei-me fixar. Percebeste o encaixe e aceleraste o passo. À minha beira não cumprimentaste. A pergunta foi mais forte.
- Ainda vais viver muitos anos?
Depois, enfim, baixaste os olhos!
Que podia responder? Achava que sim, pela ordem da vida. Porque ainda devia faltar bastante tempo. Não sabia o que pensar e acabei por dizer.
- Acho que sim...mas não sei quantos. Tenho saúde, portanto devem ser muitos. Que pergunta difícil.
Quando fico nervoso falo sem parar, tentando não esquecer o que direi em seguida. Continuei.
- Mas não te consigo dizer quantos. É uma pergunta difícil! Se me perguntasses as horas...isso eu sei dizer. O meu nome também, com algum esforço. Se ainda vou precisar deste banco muito tempo. Essa! Essa era a mais fácil! Podia dizer-te quando podes ficar com ele.
Com um modo gentil, tapaste-me a voz com dedos muito juntos. Sossegaste-me.
- Não vim pelo banco. Precisava de alguns anos...
A rapariga tinha cores que saíam da cintura, no local destapado. Pareciam formas pintadas...gravadas na pele.
E eu posso fazer isso? Perguntei.
- Sim, podes. É muito simples.
- Então está bem! Ufa, pensava que era algo mais delicado!
Ela riu – Não, rapaz. É apenas isto! Mas...tu...?
- Eu?
- Não queres saber de quantos preciso?
- Claro que não!
segunda-feira, novembro 21, 2005
quinta-feira, novembro 17, 2005
A preto e branco...
Agora acho que já posso contar. Há cerca de um ano, junto ao jardim zoológico, reparei num cartaz. Era muito pequeno e discreto, como uma publicidade em miniatura.
"Um dia no passado. Venha visitar o Zoo a preto e branco!"
A preto e branco? Fiquei o dia inteiro a pensar naquelas palavras. O que quereriam dizer? Telefonei para o jardim, mas ninguém sabia o que se tratava.
- Olhe, deve ser brincadeira. Alguém com tempo e imaginação a mais.
A senhora desligou ainda em susurros, que não percebi.
Nessa noite passei no local, procurando o mesmo cartaz. Estava muito escuro porque metade dos cadeeiros da rua não funcionavam.
Nada! Não havia cartaz, nem o pequeno suporte que o sustentava. Decidi ir para casa. Nos dias seguintes fui esquecendo aquele episódio, passando de uma dúvida romântica, para a certeza de um engano. Não seria importante.
Nos Sábados costumo dormir até tarde, lutando com as manhãs que adoro e não consigo visitar. Aquele foi diferente. Acordei antes das sete com uma horrível sensação de ansiedade. Percebi de imediato o que me esperava. Tinha que visitar o Zoo.
Como moro perto, fui a pé para inspirar e me acalmar. Na última rua apenas olhei para os andares de cima. Ganhei este hábito enquanto procurava casa, uns anos antes. Nunca olhamos para cima!
Em baixo ficam as lojas, as entradas, os cafés e algumas famílias que não puderam subir. Não há para onde olhar. E assim ignoramos o que se passa por cima. Senhoras que abrem e fecham as janelas, espreitando sem explicação. Cortinas entrabertas com tufos de cabelos brancos escondidos.
De noite é ainda mais belo. A luz convida-nos a entrar. Os jovens casais discutem, e não têm cortinados...
Cheguei por fim, ao meu destino. Dirigi-me à bilheteira ainda escura. A senhora acabava de engolir o último pedaço de pão, que tinha manteiga. Um trago num café muito escuro e lá reagiu.
- Bom dia. Veio acordar os bichos?
Acho que corei um pouco, para depois me recompôr. Que se lixe! Vamos lá descobrir.
- Quero uma visita a preto e branco!
A senhora martelou qualquer coisa no computador e entregou-me um bilhete.
- Tenha uma boa visita. Bom dia.
Nem olhou para mim. Continuou a beber o seu café.
Àquela hora ainda não nos tiram fotografias com papagaios gigantes. A entrada é mais rápida.
Conheço o jardim de cor e saltaeado. Acho que até os animais já me reconhecem. Devo-o aos miúdos do Bairro da Sé e a um Verão de tempos livres.
Sentei-me no primeiro banco. Estava tudo a cores!
O comboio parado era encarnado, os aquários em azul suave, e nos répteis muito verde. Até o bilhete era às cores. Se pelo menos houvesse um panda.
Nessa altura ouvi uma voz com melodia.
- Não me diga que está cansado! É muito novo para isso.
Um senhor sentou-se ao meu lado. Devia ter quase setenta anos, mas com pele bem cuidada. O fato era castanho e de corte moderno. Contrastava um pouco com o chapéu, forrado de novo, mas com um formato conservador.
- Não sabia que ainda faziam desses chapéus.
Calei-me logo em seguida, envergonhado por tamanho disparate.
- Desculpe! Não sei o que me deu.
O senhor de chapéu olhou-me nos olhos.
- E já não fazem. Eu sou o último! Agora preferem gorros, mas só ao fim-de-semana. Nos outros dias passam frio. E não sabem cumprimentar.
- Atrapalham-se entre o beijo e as mãos. Hesitam, percebe? As mulheres não gostam de hesitações. Mesmo na timidez!
Chegou uma visita de crianças. Deviam ser de algum bairro pobre. Conhecia-lhes os passos. O senhor sorria ao vê-los passar.
- Afinal quer ver a exposição, ou não?
- A exposição? Perguntei em dúvidas.
- Sim, a exposição de fotografias antigas. "O Zoo a preto e branco!" Vai ser o primeiro...e desconfio que dos poucos. É como os chapéus.... já ninguém liga.
Ajudei-o a levantar-se e segurei-lhe no braço. Desconfio que me amparava.
- Vou com muito prazer. Disse com voz firme. Depois ganhei coragem...
- Queria fazer-lhe uma pergunta? Posso encomendar-lhe um chapéu?
"Um dia no passado. Venha visitar o Zoo a preto e branco!"
A preto e branco? Fiquei o dia inteiro a pensar naquelas palavras. O que quereriam dizer? Telefonei para o jardim, mas ninguém sabia o que se tratava.
- Olhe, deve ser brincadeira. Alguém com tempo e imaginação a mais.
A senhora desligou ainda em susurros, que não percebi.
Nessa noite passei no local, procurando o mesmo cartaz. Estava muito escuro porque metade dos cadeeiros da rua não funcionavam.
Nada! Não havia cartaz, nem o pequeno suporte que o sustentava. Decidi ir para casa. Nos dias seguintes fui esquecendo aquele episódio, passando de uma dúvida romântica, para a certeza de um engano. Não seria importante.
Nos Sábados costumo dormir até tarde, lutando com as manhãs que adoro e não consigo visitar. Aquele foi diferente. Acordei antes das sete com uma horrível sensação de ansiedade. Percebi de imediato o que me esperava. Tinha que visitar o Zoo.
Como moro perto, fui a pé para inspirar e me acalmar. Na última rua apenas olhei para os andares de cima. Ganhei este hábito enquanto procurava casa, uns anos antes. Nunca olhamos para cima!
Em baixo ficam as lojas, as entradas, os cafés e algumas famílias que não puderam subir. Não há para onde olhar. E assim ignoramos o que se passa por cima. Senhoras que abrem e fecham as janelas, espreitando sem explicação. Cortinas entrabertas com tufos de cabelos brancos escondidos.
De noite é ainda mais belo. A luz convida-nos a entrar. Os jovens casais discutem, e não têm cortinados...
Cheguei por fim, ao meu destino. Dirigi-me à bilheteira ainda escura. A senhora acabava de engolir o último pedaço de pão, que tinha manteiga. Um trago num café muito escuro e lá reagiu.
- Bom dia. Veio acordar os bichos?
Acho que corei um pouco, para depois me recompôr. Que se lixe! Vamos lá descobrir.
- Quero uma visita a preto e branco!
A senhora martelou qualquer coisa no computador e entregou-me um bilhete.
- Tenha uma boa visita. Bom dia.
Nem olhou para mim. Continuou a beber o seu café.
Àquela hora ainda não nos tiram fotografias com papagaios gigantes. A entrada é mais rápida.
Conheço o jardim de cor e saltaeado. Acho que até os animais já me reconhecem. Devo-o aos miúdos do Bairro da Sé e a um Verão de tempos livres.
Sentei-me no primeiro banco. Estava tudo a cores!
O comboio parado era encarnado, os aquários em azul suave, e nos répteis muito verde. Até o bilhete era às cores. Se pelo menos houvesse um panda.
Nessa altura ouvi uma voz com melodia.
- Não me diga que está cansado! É muito novo para isso.
Um senhor sentou-se ao meu lado. Devia ter quase setenta anos, mas com pele bem cuidada. O fato era castanho e de corte moderno. Contrastava um pouco com o chapéu, forrado de novo, mas com um formato conservador.
- Não sabia que ainda faziam desses chapéus.
Calei-me logo em seguida, envergonhado por tamanho disparate.
- Desculpe! Não sei o que me deu.
O senhor de chapéu olhou-me nos olhos.
- E já não fazem. Eu sou o último! Agora preferem gorros, mas só ao fim-de-semana. Nos outros dias passam frio. E não sabem cumprimentar.
- Atrapalham-se entre o beijo e as mãos. Hesitam, percebe? As mulheres não gostam de hesitações. Mesmo na timidez!
Chegou uma visita de crianças. Deviam ser de algum bairro pobre. Conhecia-lhes os passos. O senhor sorria ao vê-los passar.
- Afinal quer ver a exposição, ou não?
- A exposição? Perguntei em dúvidas.
- Sim, a exposição de fotografias antigas. "O Zoo a preto e branco!" Vai ser o primeiro...e desconfio que dos poucos. É como os chapéus.... já ninguém liga.
Ajudei-o a levantar-se e segurei-lhe no braço. Desconfio que me amparava.
- Vou com muito prazer. Disse com voz firme. Depois ganhei coragem...
- Queria fazer-lhe uma pergunta? Posso encomendar-lhe um chapéu?
terça-feira, novembro 15, 2005
Debaixo da ponte...
Acho que já ninguém se lembra. Mesmo eu não pensava muito. E no entanto continua a ser real, e de abrigo.
Na América negra de escravos persistiu uma lenda que falava num caminho de ferro subterrâneo. Pensava-se que existia de verdade, em emaranhado de túneis e máquinas, aço e segredos. Na verdade o caminho era de fuga, simbolo de alguma América que preocupava, que percebia. Apesar do risco, muitos ajudavam os escravos a fugir, albergando-os em suas casas e celeiros, criando uma rede segura onde paravam antes da liberdade – The Underground Railroad.
Numa tarde voluntária conheci o Joaquim. Pedia que lhe chamassem mendigo, com entoação simples, despreocupada. Como se engolisse parte da expressão. Nunca com maiúsculas! Aos poucos foi permitindo a confiança, contando pequenas estórias. Até um dia.
- Diz-me Joaquim, como te tornaste mendigo?
Ele riu pela astúcia, que permitiu uma maiúscula.
- Não é essa a pergunta, senhor. A questão é como consegui manter-me.
Só pela noite começou a contar-me, apoiado numa sopa quente, embora em pó. Relatou por fim.
Começara nos anos trinta, quando uma inesperada onda de construção, fez aumentar as travessias de rios, desfiladeiros e pequenos vales. E ele foi o primeiro. Recém despejado da casa onde vivia, Joaquim olhou em volta. Onde dormiria? Não tinha frio, raramente tinham, dizia!
- Vestimos tudo o que temos e ficamos assim. No Verão é pior. Não há fechaduras, e temos medo dos roubos. De ficar sem roupa.
A primeira noite foi a única, debaixo das estrelas, de um céu frio, mas sem chuva. De manhã descobriu.
Tivera sorte, contou. Era uma ponte moderna, na altura. No local onde se unia ao solo, formava um recanto, com uma parede de um dos lados e uma rocha azulada no oposto. Ficava à entrada da cidade, em zona calma e saloia. Havia pão, que sobrava, cobertores e uma serração antiga. No mesmo dia foi lá falar com o dono, pedindo umas placas, e corticite para forrar paredes. O chefe perguntou.
- Olha lá mendigo. Não queres ir medir o teu espaço? Assim até ficas com uma porta e tudo.
Apesar de nunca os ter visto, não quis arriscar. O cheiro de roedores é incómodo e nunca desaparece da memória. Encontrou remédio, que sobrava e desenhou, numa grande roda.
Durante a noite riu sem parar. Peça após peça, teve de abandonar o que vestia. Fazia calor, debaixo da ponte!
Nas redondezas havia uma fonte. Era antiga, quase sem uso, mas de muita água, límpida e fresca. A partir de então começou a procurar outros espaços, e a partilhar. Tinha começado o movimento.
- Chegámos a ser mil e tal, ou até mais. Rodávamos muito, para caminhar. Com os viadutos voltámos à cidade, mas correu mal. São muito frios, têm luzes por baixo e nichos altos, desconfortáveis. Há dois ou três, mas não partilho!
- Joaquim, tiveste uma boa vida! Trocávas alguma coisa?
Olhou através de mim, para uma casa antiga.
- Trocava tudo...
Na América negra de escravos persistiu uma lenda que falava num caminho de ferro subterrâneo. Pensava-se que existia de verdade, em emaranhado de túneis e máquinas, aço e segredos. Na verdade o caminho era de fuga, simbolo de alguma América que preocupava, que percebia. Apesar do risco, muitos ajudavam os escravos a fugir, albergando-os em suas casas e celeiros, criando uma rede segura onde paravam antes da liberdade – The Underground Railroad.
Numa tarde voluntária conheci o Joaquim. Pedia que lhe chamassem mendigo, com entoação simples, despreocupada. Como se engolisse parte da expressão. Nunca com maiúsculas! Aos poucos foi permitindo a confiança, contando pequenas estórias. Até um dia.
- Diz-me Joaquim, como te tornaste mendigo?
Ele riu pela astúcia, que permitiu uma maiúscula.
- Não é essa a pergunta, senhor. A questão é como consegui manter-me.
Só pela noite começou a contar-me, apoiado numa sopa quente, embora em pó. Relatou por fim.
Começara nos anos trinta, quando uma inesperada onda de construção, fez aumentar as travessias de rios, desfiladeiros e pequenos vales. E ele foi o primeiro. Recém despejado da casa onde vivia, Joaquim olhou em volta. Onde dormiria? Não tinha frio, raramente tinham, dizia!
- Vestimos tudo o que temos e ficamos assim. No Verão é pior. Não há fechaduras, e temos medo dos roubos. De ficar sem roupa.
A primeira noite foi a única, debaixo das estrelas, de um céu frio, mas sem chuva. De manhã descobriu.
Tivera sorte, contou. Era uma ponte moderna, na altura. No local onde se unia ao solo, formava um recanto, com uma parede de um dos lados e uma rocha azulada no oposto. Ficava à entrada da cidade, em zona calma e saloia. Havia pão, que sobrava, cobertores e uma serração antiga. No mesmo dia foi lá falar com o dono, pedindo umas placas, e corticite para forrar paredes. O chefe perguntou.
- Olha lá mendigo. Não queres ir medir o teu espaço? Assim até ficas com uma porta e tudo.
Apesar de nunca os ter visto, não quis arriscar. O cheiro de roedores é incómodo e nunca desaparece da memória. Encontrou remédio, que sobrava e desenhou, numa grande roda.
Durante a noite riu sem parar. Peça após peça, teve de abandonar o que vestia. Fazia calor, debaixo da ponte!
Nas redondezas havia uma fonte. Era antiga, quase sem uso, mas de muita água, límpida e fresca. A partir de então começou a procurar outros espaços, e a partilhar. Tinha começado o movimento.
- Chegámos a ser mil e tal, ou até mais. Rodávamos muito, para caminhar. Com os viadutos voltámos à cidade, mas correu mal. São muito frios, têm luzes por baixo e nichos altos, desconfortáveis. Há dois ou três, mas não partilho!
- Joaquim, tiveste uma boa vida! Trocávas alguma coisa?
Olhou através de mim, para uma casa antiga.
- Trocava tudo...
quarta-feira, novembro 02, 2005
Reflexos na professora...
Nos dias quentes era mais difícil suportar as aulas de Português. Mas a professora era muito bonita, parecia jovem e despertava a imaginação, talvez em demasia. Entre o calor e uma figura atraente, se perdiam os meus pensamentos.
Um dia fiquei perto da janela e quando o Sol começou a subir, encontrou-me o relógio de mostrador plano e generoso. Um reflexo recortado apareceu na parede à minha esquerda.
Sem chamar as atenções passei a controlá-lo, ordenando que se movesse. A luz amarelada começou a caminhar.
Subiu um pouco para contornar a enorme janela e definiu uma rota paralela ao tecto, em direcção a um dos cantos. Teve de rodear um pequeno quadro, com o mapa de Portugal, sem perturbar o seu espaço aéreo. Continuou sem mais problemas até virar, a noventa graus, alcançando a parede do quadro. Um dia destes tenho que entrar numa escola, para confirmar que ainda existem quadros...
De triunfante perdi a noção e o concentrar, e por pouco não deixava que a luz se extinguisse. Voltei a colocar o braço em posição segura, longe da sombra.
Finalmente chegou perto da professora, descendo pela moldura do quadro até muito perto do apagador. De um salto, o reflexo chegou até à mulher, parando no seu ombro direito.
A metade da turma que não lia, logo deu conta da sua presença. Olhares começaram a cruzar-se, para encontrar o responsável. Imitei-os na demanda, para que não fosse descoberto. Escutei o segredos e risos baixinhos, silenciados pelo olhar da figura iluminada.
Devagar, voltei o relógio para o centro, dirigindo o recorte de luz. Estava agora perto de um decote sem mácula, protegido por um enorme botão castanho. O que ninguém esperava foi o que se passou então. No exacto momento em que o reflexo se anichou no botão, o mesmo abriu-se deixando o tecido recuar. A luz tremeu quando os contornos apareceram. Tive que segurar no próprio braço, para que se mantivesse no lugar. Ao ver-me perder, o meu colega de secretária veio em meu auxílio, segurando com força, mas sem nunca desviar o olhar.
A turma reteve o ar e o suspiro, enquanto descíamos, descobrindo a sombra e a pele. Pareceu-nos ver uma gota que perseguia a nossa estrela, que nos arrepiava a imaginação.
A professora falou.
- Meninos, não sei o que se passa convosco, mas fico feliz pelo súbito interesse na aula.
Acabou a frase, voltando-se para o quadro negro. A mão que não escrevia passeava pela blusa, e pelo botão, acariciando-os.
Lá fora uma nuvem tapou o Sol, levando os reflexos em que já não pensávamos. Ficámos em suspenso, muito vermelhos, esperando que ela se virasse novamente.
Um dia fiquei perto da janela e quando o Sol começou a subir, encontrou-me o relógio de mostrador plano e generoso. Um reflexo recortado apareceu na parede à minha esquerda.
Sem chamar as atenções passei a controlá-lo, ordenando que se movesse. A luz amarelada começou a caminhar.
Subiu um pouco para contornar a enorme janela e definiu uma rota paralela ao tecto, em direcção a um dos cantos. Teve de rodear um pequeno quadro, com o mapa de Portugal, sem perturbar o seu espaço aéreo. Continuou sem mais problemas até virar, a noventa graus, alcançando a parede do quadro. Um dia destes tenho que entrar numa escola, para confirmar que ainda existem quadros...
De triunfante perdi a noção e o concentrar, e por pouco não deixava que a luz se extinguisse. Voltei a colocar o braço em posição segura, longe da sombra.
Finalmente chegou perto da professora, descendo pela moldura do quadro até muito perto do apagador. De um salto, o reflexo chegou até à mulher, parando no seu ombro direito.
A metade da turma que não lia, logo deu conta da sua presença. Olhares começaram a cruzar-se, para encontrar o responsável. Imitei-os na demanda, para que não fosse descoberto. Escutei o segredos e risos baixinhos, silenciados pelo olhar da figura iluminada.
Devagar, voltei o relógio para o centro, dirigindo o recorte de luz. Estava agora perto de um decote sem mácula, protegido por um enorme botão castanho. O que ninguém esperava foi o que se passou então. No exacto momento em que o reflexo se anichou no botão, o mesmo abriu-se deixando o tecido recuar. A luz tremeu quando os contornos apareceram. Tive que segurar no próprio braço, para que se mantivesse no lugar. Ao ver-me perder, o meu colega de secretária veio em meu auxílio, segurando com força, mas sem nunca desviar o olhar.
A turma reteve o ar e o suspiro, enquanto descíamos, descobrindo a sombra e a pele. Pareceu-nos ver uma gota que perseguia a nossa estrela, que nos arrepiava a imaginação.
A professora falou.
- Meninos, não sei o que se passa convosco, mas fico feliz pelo súbito interesse na aula.
Acabou a frase, voltando-se para o quadro negro. A mão que não escrevia passeava pela blusa, e pelo botão, acariciando-os.
Lá fora uma nuvem tapou o Sol, levando os reflexos em que já não pensávamos. Ficámos em suspenso, muito vermelhos, esperando que ela se virasse novamente.
segunda-feira, outubro 31, 2005
A rapariga feia...
Ela nem avisou. Veio direito a mim e falou.
- Gosto de ti!
Reuni duas ou três feições que poderia usar, mas fiquei quieto, a olhar.
- A sério! Estava a observar-te e senti que não podia deixar-te ir embora. Tinha que largar tudo, entendes?
- Eu...
Continuei em pura roda vida, sem perceber o que se passava. Comecei a vê-la...
- Desculpa. Sei que não sou bonita, que o trânsito não pára à minha espera...
Não podia dizer que fosse feia. Era um pouco... Bem...era ligeiramente gorducha, com cabelo comprido, apanhado por cima do ombro direito, tinha olhos doces e se fosse mais magra...
- Olha, o problema é que me viste antes de poderes conhecer-me. E a ilusão de uma paixão pode começar de várias formas. São igualmente poderosas, se forem ajustadas a diferentes pessoas. Comigo tem mais a ver com o intelecto, com o sentido de humor, com... Percebes alguma coisa do que te digo?
Continuei sem abrir a boca, corado para a eternidade e buscando uma saída. Ao fundo começou a aparecer outro vulto. Reparei que estava parado na entrada de um museu onde não queria entrar, com quatro escadas e uma porta muito feia.
Atrás havia um corredor, onde a outra figura andava de forma elegante. Começou a aproximar-se mostrando uma linda rapariga, que tinha óculos. Quando passou por nós, ficou a olhar-me, como se me reconhecesse.
Fiquei ali, parado, com as duas mulheres na minha frente, sem uma palavra...
A primeira tinha um sorriso bonito, sabia-o agora. Envorgonhou-se com o que ia dizer.
- Vais achar-me completamente maluca, mas pouco me importa. Não quero saber! Só quero ouvir a tua voz.
Baixou um pouco os olhos e continuou.
- Por ti era capaz de tudo. Dá-me seis meses e eu faço uma dieta que nem imaginas. Vou ficar tão bonita...
Nessa altura reparou na mulher de óculos, parada a seu lado, engolindo o que preparara para dizer. Ficou ainda mais atrapalhada ao perceber a beleza da outra. Olhou para os olhos sem cor que sorriam, demorou-se em lábios de um rosa perfeito, sempre a invejar.
Depois gritou, ao mesmo tempo que a viu rodar.
- Tu não tens um braço!
E não tinha mesmo. Ao virar-se apresentou uma manga caindo vazia, e aproximou-se ainda mais. Ao perto era ainda mais bonita!
E ali estava eu! Paralisado, na companhia das duas mulheres. Uma queria emagrecer, não me conhecia e estava apaixonada. Outra reconheceu-me! Era linda, não tinha um braço...e usava óculos.
Sentei-me desamparado nos degraus. Pensei na dieta, no braço, e levantei-me. Começou a doer-me a cabeça, um momento antes de falar.
- Eu... Eu queria...Quer dizer...
Tentei uma vez mais, falando mais devagar.
Eu moro aqui perto. Gostava que viessem comigo, para conversar. A rapariga de óculos acenou afirmativamente. A outra gritou que se chamava Ana. Concluiu que se enganara a meu respeito e desapareceu furiosa.
- Bem...vamos? Perguntei com uma voz murmurada.
- Sim, vamos. Mas quero avisar-te primeiro de uma coisa.
- Podes avisar!
- Não penses que vais andar comigo!
Estava mais calmo e podia responder sem pressão.
- Está bem, eu não penso.
A sua cara ficou ainda mais bonita, enquanto os músculos começavam a baixar e as covinhas podiam adormecer. Começámos a caminhar.
- Como te chamas?
- Francisca! Olha... achas que este problema do braço pode deitar tudo a perder?
- Acho que não!
- Gosto de ti!
Reuni duas ou três feições que poderia usar, mas fiquei quieto, a olhar.
- A sério! Estava a observar-te e senti que não podia deixar-te ir embora. Tinha que largar tudo, entendes?
- Eu...
Continuei em pura roda vida, sem perceber o que se passava. Comecei a vê-la...
- Desculpa. Sei que não sou bonita, que o trânsito não pára à minha espera...
Não podia dizer que fosse feia. Era um pouco... Bem...era ligeiramente gorducha, com cabelo comprido, apanhado por cima do ombro direito, tinha olhos doces e se fosse mais magra...
- Olha, o problema é que me viste antes de poderes conhecer-me. E a ilusão de uma paixão pode começar de várias formas. São igualmente poderosas, se forem ajustadas a diferentes pessoas. Comigo tem mais a ver com o intelecto, com o sentido de humor, com... Percebes alguma coisa do que te digo?
Continuei sem abrir a boca, corado para a eternidade e buscando uma saída. Ao fundo começou a aparecer outro vulto. Reparei que estava parado na entrada de um museu onde não queria entrar, com quatro escadas e uma porta muito feia.
Atrás havia um corredor, onde a outra figura andava de forma elegante. Começou a aproximar-se mostrando uma linda rapariga, que tinha óculos. Quando passou por nós, ficou a olhar-me, como se me reconhecesse.
Fiquei ali, parado, com as duas mulheres na minha frente, sem uma palavra...
A primeira tinha um sorriso bonito, sabia-o agora. Envorgonhou-se com o que ia dizer.
- Vais achar-me completamente maluca, mas pouco me importa. Não quero saber! Só quero ouvir a tua voz.
Baixou um pouco os olhos e continuou.
- Por ti era capaz de tudo. Dá-me seis meses e eu faço uma dieta que nem imaginas. Vou ficar tão bonita...
Nessa altura reparou na mulher de óculos, parada a seu lado, engolindo o que preparara para dizer. Ficou ainda mais atrapalhada ao perceber a beleza da outra. Olhou para os olhos sem cor que sorriam, demorou-se em lábios de um rosa perfeito, sempre a invejar.
Depois gritou, ao mesmo tempo que a viu rodar.
- Tu não tens um braço!
E não tinha mesmo. Ao virar-se apresentou uma manga caindo vazia, e aproximou-se ainda mais. Ao perto era ainda mais bonita!
E ali estava eu! Paralisado, na companhia das duas mulheres. Uma queria emagrecer, não me conhecia e estava apaixonada. Outra reconheceu-me! Era linda, não tinha um braço...e usava óculos.
Sentei-me desamparado nos degraus. Pensei na dieta, no braço, e levantei-me. Começou a doer-me a cabeça, um momento antes de falar.
- Eu... Eu queria...Quer dizer...
Tentei uma vez mais, falando mais devagar.
Eu moro aqui perto. Gostava que viessem comigo, para conversar. A rapariga de óculos acenou afirmativamente. A outra gritou que se chamava Ana. Concluiu que se enganara a meu respeito e desapareceu furiosa.
- Bem...vamos? Perguntei com uma voz murmurada.
- Sim, vamos. Mas quero avisar-te primeiro de uma coisa.
- Podes avisar!
- Não penses que vais andar comigo!
Estava mais calmo e podia responder sem pressão.
- Está bem, eu não penso.
A sua cara ficou ainda mais bonita, enquanto os músculos começavam a baixar e as covinhas podiam adormecer. Começámos a caminhar.
- Como te chamas?
- Francisca! Olha... achas que este problema do braço pode deitar tudo a perder?
- Acho que não!
sábado, outubro 29, 2005
Pequenas coisas...
Ofereceram-me um relógio electrónico! Hoje sei que é mais correcto chamá-lo de digital, mas na altura nem pensar. Era mesmo electrónico, de um cinzento claro! Cheio de números, e esquecimento, da tradição e dos ponteiros. Tinha músicas que alarmavam, e uma deliciosa avaria, que as impedia de parar. Tocavam até ao fim!
Avançou para o braço e ali ficava, pendurado a gesticular, exibindo orgulho e modernidade. Acho que o fecho se partiu um dia, e que o tentei consertar. Há muitos anos tentávamos sempre. Até que os danos fossem demasiados.
Mais tarde arrojei na escolha seguinte. Era de outro cinzento, mais escuro e trocava o metal pela borracha confortável.
Ainda penso que foi o relógio mais bonito que tive, voltando aos ponteiros que reaprendi a decorar.
A bracelete foi partindo, até o deixar sózinho, perdido no fundo do bolso direito de todas as calças. Depois acho que fugiu, por estar tapado e não ver as horas passar.
Já não uso relógio. Nunca mais vou usar...
Avançou para o braço e ali ficava, pendurado a gesticular, exibindo orgulho e modernidade. Acho que o fecho se partiu um dia, e que o tentei consertar. Há muitos anos tentávamos sempre. Até que os danos fossem demasiados.
Mais tarde arrojei na escolha seguinte. Era de outro cinzento, mais escuro e trocava o metal pela borracha confortável.
Ainda penso que foi o relógio mais bonito que tive, voltando aos ponteiros que reaprendi a decorar.
A bracelete foi partindo, até o deixar sózinho, perdido no fundo do bolso direito de todas as calças. Depois acho que fugiu, por estar tapado e não ver as horas passar.
Já não uso relógio. Nunca mais vou usar...
O caminho...
Ela caminhava à minha frente. Era um pouco mais alta do que os meus catorze anos, carregados com esforço. Tentei não ficar nervoso, olhando para os lados, procurando no caminho uma distração e alguma calma.
Tenho pensado cada vez mais no passado, tentando contrariar o tempo que, para quase todos, parece correr. Lembrei-me de mais uma estória.
O dia era daqueles de Outono, em que ainda não precisamos de muitos agasalhos, mas agradecemos os saudosos kispos, que preveniam quaisquer acidentes. Eramos seis ou sete, mas ninguém mais fazia sentido naquele lugar. Não sei se foi nesse dia que coloquei a mão no bolso do casaco, para fazer uma estranha descoberta. Tinha duas asas de metal leve e partido, que podiam ser plástico banhado a uma liga mais nobre. Não sei como foram lá parar! Pareciam as asas de um Deus ou de um capacete de super-herói louro que voava.
Pouco depois o seu braço enrolava-se no meu, despertando a certeza do que me esperava. Pensei que o amuleto tinha ajudado!
Voltando atrás, observo o caminho. Tínhamos entrado no que parecia ser um antigo leito de rio, agora seco, embora húmido. Nas margens existiam árvores pequenas, que se uniam no topo, formando um túnel onde entrava pouca luz.
Nos dias seguintes sonharia com aquele lugar, distorcendo o verde para cores mais pálidas, misturando areias movediças com o esforço para ajudar companheiros em perigo.
Acelerei um pouco o passo, começando a sentir o seu perfume. Naquela idade, o coração é vencido pelo descontrolo fácil.
Tenho pensado cada vez mais no passado, tentando contrariar o tempo que, para quase todos, parece correr. Lembrei-me de mais uma estória.
O dia era daqueles de Outono, em que ainda não precisamos de muitos agasalhos, mas agradecemos os saudosos kispos, que preveniam quaisquer acidentes. Eramos seis ou sete, mas ninguém mais fazia sentido naquele lugar. Não sei se foi nesse dia que coloquei a mão no bolso do casaco, para fazer uma estranha descoberta. Tinha duas asas de metal leve e partido, que podiam ser plástico banhado a uma liga mais nobre. Não sei como foram lá parar! Pareciam as asas de um Deus ou de um capacete de super-herói louro que voava.
Pouco depois o seu braço enrolava-se no meu, despertando a certeza do que me esperava. Pensei que o amuleto tinha ajudado!
Voltando atrás, observo o caminho. Tínhamos entrado no que parecia ser um antigo leito de rio, agora seco, embora húmido. Nas margens existiam árvores pequenas, que se uniam no topo, formando um túnel onde entrava pouca luz.
Nos dias seguintes sonharia com aquele lugar, distorcendo o verde para cores mais pálidas, misturando areias movediças com o esforço para ajudar companheiros em perigo.
Acelerei um pouco o passo, começando a sentir o seu perfume. Naquela idade, o coração é vencido pelo descontrolo fácil.
segunda-feira, outubro 17, 2005
Incompleto...
Não lamento…
Não choro por não ter percebido.
Era de uma flor tristonha que avançava
Na minha palma.
Se olhasse ela escondia, de terrores.
E…
Não lamento…
Não percebi e agora resta-me pensar.
Que não mais te vejo, te toco e abrando no olhar. Ela era…
Não lamento…
Não percebi e não tenho que recear…
Não choro por não ter percebido.
Era de uma flor tristonha que avançava
Na minha palma.
Se olhasse ela escondia, de terrores.
E…
Não lamento…
Não percebi e agora resta-me pensar.
Que não mais te vejo, te toco e abrando no olhar. Ela era…
Não lamento…
Não percebi e não tenho que recear…
O funeral...
O morto observava-me de uma forma familiar e muito intensa. Um dos olhos estava torto e descaído, sem vida, e apontava para o caixão que era cinzento.
Fez-me lembrar o dia anterior, do nariz, do machado e da boleia!
Eram cerca de trinta velhas que me cercavam, adorando em cantos e com lenços que me raspavam ao passar. Num deles consegui ler duas pequenas letras, bordadas num ocre quase castanho. Pouco mais tinha visto até ali, sujeito a um pequeno ângulo sem periferia.
O odor traiu a sua idade e as letras fugiram com uma mão de tremores vagos. Era a tia Arminda! Uma noite tinha encontrado o tio Armando, em roupa interior, ao colo da interna lá de casa, com um seio esborrachado na face e a vergonha em viagem sem retorno. A tia deu as boas noite e o mesmo lenço amparou uma simples fungadela, sem sentido.
No dia seguinte, quando o tio saiu para o gabinete, parou junto ao seu carro, estacionado na entrada de subúrbio. No capô, ainda a reluzir, estava cravado um machado! Tinha perfurado o metal com brutalidade e não sairia com facilidade. Ele entrou calmamente e ligou o motor, que por pouco não tinha sido atingido. Partiu devagar, sempre com o machado na frente do olhar assustado. Não se voltou a falar no assunto.
Vi parcialmente a prima Maria, que não largava a mão, agora mais pálida. Na verdade, há anos que era o seu toque a acompanhar, a dar calor, a crescer dúvidas nos versos que trocava e enviava e nunca esquecia. Não chegara a saber, porque não perguntou e ficou de dúvidas e perguntas, a que os dedos e o frio não podiam mais responder. Tinha o nariz um pouco grande, a Maria.
Há anos que ninguém dá boleias. Temos medo de ser raptados, de que um louco nos atire para uma valeta, ou nos mate de aborrecimento no meio do nada. Ontem tinha quebrado o jejum. Percebi uma camisola amarela na berma da estrada, e parei de imediato. Era uma jovem sorridente, que nem estendia o braço e continuava parada, à espera. Ao longe confundira um gasto colete, com uma camisola. O amarelo pouco florescente era habitual nos meus semáforos, como um “cais” de ofertas simples.
A rapariga chamava-se Bianca, uma bonita brasileira, com longos cabelos e um olho torto. Atirara com as revistas para o banco de trás e num murmúrio respondeu. Dormiu durante toda a viagem.
Começaram a chegar os mais velhos, alguns com medo, outros rindo pela experiência. A morte assusta até ao dia que tanto tememos. Depois transforma-se em algo parecido com um sonho de serenidade e uma música que nos toca a memória.
O senhor mais calmo era também o mais alegre. Nunca me tinha abandonado e segurava a mão que a Maria fora obrigada a largar. O padre tinha saído pela portinha acanhada, depois de ler um desejo expresso, de que comandasse a cerimónia a três quilómetros de distância, agarrado à Bíblia e rezando sem récitas.
Estava quase tudo pronto! Fiquei feliz por ninguém falar, sem tentar explicar e emendar. Sem louvar, justificando coisas e mais recados sem importância.
O Joaquim aproximou-se, com a Maria nas costas, prestes a soluçar. Inclinou-se na caixa de madeira cinza, para segredar.
- Descansa primo! Eu não a deixo chorar.
O morto sentiu o sono a chegar. O morto…era eu!
Fez-me lembrar o dia anterior, do nariz, do machado e da boleia!
Eram cerca de trinta velhas que me cercavam, adorando em cantos e com lenços que me raspavam ao passar. Num deles consegui ler duas pequenas letras, bordadas num ocre quase castanho. Pouco mais tinha visto até ali, sujeito a um pequeno ângulo sem periferia.
O odor traiu a sua idade e as letras fugiram com uma mão de tremores vagos. Era a tia Arminda! Uma noite tinha encontrado o tio Armando, em roupa interior, ao colo da interna lá de casa, com um seio esborrachado na face e a vergonha em viagem sem retorno. A tia deu as boas noite e o mesmo lenço amparou uma simples fungadela, sem sentido.
No dia seguinte, quando o tio saiu para o gabinete, parou junto ao seu carro, estacionado na entrada de subúrbio. No capô, ainda a reluzir, estava cravado um machado! Tinha perfurado o metal com brutalidade e não sairia com facilidade. Ele entrou calmamente e ligou o motor, que por pouco não tinha sido atingido. Partiu devagar, sempre com o machado na frente do olhar assustado. Não se voltou a falar no assunto.
Vi parcialmente a prima Maria, que não largava a mão, agora mais pálida. Na verdade, há anos que era o seu toque a acompanhar, a dar calor, a crescer dúvidas nos versos que trocava e enviava e nunca esquecia. Não chegara a saber, porque não perguntou e ficou de dúvidas e perguntas, a que os dedos e o frio não podiam mais responder. Tinha o nariz um pouco grande, a Maria.
Há anos que ninguém dá boleias. Temos medo de ser raptados, de que um louco nos atire para uma valeta, ou nos mate de aborrecimento no meio do nada. Ontem tinha quebrado o jejum. Percebi uma camisola amarela na berma da estrada, e parei de imediato. Era uma jovem sorridente, que nem estendia o braço e continuava parada, à espera. Ao longe confundira um gasto colete, com uma camisola. O amarelo pouco florescente era habitual nos meus semáforos, como um “cais” de ofertas simples.
A rapariga chamava-se Bianca, uma bonita brasileira, com longos cabelos e um olho torto. Atirara com as revistas para o banco de trás e num murmúrio respondeu. Dormiu durante toda a viagem.
Começaram a chegar os mais velhos, alguns com medo, outros rindo pela experiência. A morte assusta até ao dia que tanto tememos. Depois transforma-se em algo parecido com um sonho de serenidade e uma música que nos toca a memória.
O senhor mais calmo era também o mais alegre. Nunca me tinha abandonado e segurava a mão que a Maria fora obrigada a largar. O padre tinha saído pela portinha acanhada, depois de ler um desejo expresso, de que comandasse a cerimónia a três quilómetros de distância, agarrado à Bíblia e rezando sem récitas.
Estava quase tudo pronto! Fiquei feliz por ninguém falar, sem tentar explicar e emendar. Sem louvar, justificando coisas e mais recados sem importância.
O Joaquim aproximou-se, com a Maria nas costas, prestes a soluçar. Inclinou-se na caixa de madeira cinza, para segredar.
- Descansa primo! Eu não a deixo chorar.
O morto sentiu o sono a chegar. O morto…era eu!
quarta-feira, outubro 12, 2005
(...)
No dia seguinte regressei! Pertinho do portão, já sentia os botões a abrir.
O grito não era demais e ela era muito loura, com dedos finos e pedacitos de terra e jardim, que iam caindo.
Agora volto sempre, para descansar.
O grito não era demais e ela era muito loura, com dedos finos e pedacitos de terra e jardim, que iam caindo.
Agora volto sempre, para descansar.
segunda-feira, outubro 10, 2005
O segundo casarão...
Os que lêem com carinho sentiram a falta que espero e desejei. Os outros nada viram! Não planeava um regresso com tal estória. Sem que reparasse percebi o entranhar da escrita, que agora me assusta na ausência de uma falta de técnica, que embala e de outro parece.
Arredado, concentrava-me noutros afazeres, de emprego e dedicação forçada, quando me atribuíram a mais estranha das tarefas. Na sexta-feira, ao final da tarde fui surpreendido por uma chefe envergonhada, de olhos que me iam pedir, para não ordenar. Para o mês que vem temos um evento desnecessário e triste, em que o não sei quantos milionésimo cliente recebe um gorduroso cheque como prenda de acto tão vulgar, que faria de qualquer modo, sem agradecimento ou camisola vestida, que despirá na primeira oportunidade. Ideia tonta veio mais de cima, empurrando a festança para um palacete de séculos atrás, rico em história e palco de contrato antigo, já relíquia.
As meninas senhoras, de horas atrás do brilho e das palavrinhas seleccionaram cinco, que devia visitar e fotografar, e até cheirar, para garantir uma alma ou outra, presente na maldita cerimónia. As senhoras meninas, que me arrastaram por todo o distrito, em ebulição de teclas e moradas antigas, descobriram mais duas, no extremo, a duas horas de trânsito e chuva. Descoberta descabida e que me desesperou, obrigando a Domingo com serão e frio.
Parti a seguir ao jantar, porque as visitas “tinham” de ser feitas já com noite cerrada, em busca da investigação, científica e imbecil, que aconselha a verificar iluminação e ambiente de breu, esperando falhas.
Os cinco iniciais esconderam palácios, revelando em vergonha velhos casarões a cair de podre, onde nem luz, nem electricidade, nem nada…
O seguinte cumpria a recente tradição, com uma estrada de pedra muito moderna, virando de súbito para lado algum, enquanto a morada revelava uma casinha sem grandeza e espanto. De volta e meia completa preparei o último caminho, que me levaria a casa, depois de breve passagem pela esperança, quase fumo.
A segunda morada era bastante perto e deixou-me mais tranquilo. Cheguei rapidamente a um portão pequeno e parcialmente destruído pelo tempo e uma avenida larga com rumo certo ao cimo de uma colina muito escura. Se ao menos fumasse!
O casarão parecia enorme, mesmo à distância e nem uma única luz ajudava a perceber o seu contorno. Era feito de borrões cinzentos que pareciam flutuar, descendo para as grandes árvores que o ladeavam, para que se fundissem…ou misturassem.
Ninguém me convenceria, às duas horas e catorze minutos da manhã, que aquele pudesse ser o local que abriria as portas ao tal evento. Por isso entrei!
Não rangi o portão por precaução e sabia que de nada adiantaria chamar. Fui andando porque o vento era agora mais fraco e a chuva passara, a caminho da cidade. Subindo em direcção à casa podia ver milhares de luzes, em casas e estradas, nos automóveis parados por onde deveriam rolar. Haviam muitas árvores de fruto! A luz não abundava, mas podia vê-los e nem precisava. O cheiro mostrava pêssegos maduros, talvez em demasia e que não demorariam a cair. Os limoeiros não pertenciam ali, porque roubavam aos outros o odor e impediam a calma.
Nos lados, muitos bancos em madeira molhada, exalando o descolar da tinta e alguma ferrugem. Sentei-me um pouco, sorrindo ao sentir a humidade, convidada de honra de um fato estúpido e de meia estação. Não valia a pena continuar.
Um segundo depois ouvi um estrondo colossal, seguindo do mais horrendo grito que possam imaginar, abafado pela chuva torrencial que recomeçara a cair. Gelei de medo.
O despertador do meu telemóvel disparou, por já serem duas e meia, e não chegaria a tempo…
Fiquei imóvel durante vinte minutos, que controlei a cada batida de coração. Parado em gelo e terror, sem conseguir raciocinar, com músculos paralisados que gritavam para que corresse, mas sem ajudarem. Sentia as lágrimas presas, ou misturadas com a água que caía do céu. Percebi que não conseguia ouvir.
Lembro-me de me virar para o casarão, em busca de auxílio. Do local que me provocava tal terror, esperava o fim do mesmo, embrulhado em simples causa.
Nessa altura recordei a estória do meu pai. Certa noite, ficara em igual situação, enfrentando uma silhueta de bruxa, dentro de um cemitério de aldeia. Não explica a coragem, por ter sido o medo que o empurrou, sentindo-o soprando nas costas. Andou devagar, tremendo dos pés à cabeça até ao muro branco, iluminado pela Lua cheia. Tocou então a parede rugosa, onde a bruxa se transformou em sombra real, de um cipreste que dançava ao sabor do vento.
Se voltasse as costas, contrariando o mesmo empurrão, veria a bruxa até à minha velhice. E não queremos envelhecer com tal companhia. Recomecei a caminhar.
O casarão era imponente, quando as sombras começavam a perder a disformidade, para que visse os seus limites. Perto da porta olhei para cima, para uma pequena varanda que espreitava por cima dos meus ombros. O puxador era pequeno e simples, sem gárgulas de bronze e pesados ferrolhos. Só uma chave, do seu lado direito, com uma argola em couro de onde pendiam duas tiras.
Retirei-a com um movimento brusco, ao mesmo tempo que comecei a correr com todas as forças que consegui reunir. Corri por cima das poças sem parar, sem largar a argola com cheiro a molhado, largando gotas nas minhas costas.
Cheguei ao carro sem respirar, ainda com o grito cravado na memória. Guardei a chave no bolso do casaco e parti, depressa…tropeçando na estrada.
Fui trabalhar de olheiras fundas. Acabei cedo o relatório das minhas visitas, com resultado morno e sem paixão. Nenhum dos palacetes servia o nosso propósito. Nenhum dos “seis”.
É quase meia-noite quando vos escrevo. A chave está pousada na mesa à minha frente e não consigo deixar de pensar no meu pai…e na bruxa.Não vale a pena adiar…tenho de ir, agora! De voltar…ao segundo casarão…
Arredado, concentrava-me noutros afazeres, de emprego e dedicação forçada, quando me atribuíram a mais estranha das tarefas. Na sexta-feira, ao final da tarde fui surpreendido por uma chefe envergonhada, de olhos que me iam pedir, para não ordenar. Para o mês que vem temos um evento desnecessário e triste, em que o não sei quantos milionésimo cliente recebe um gorduroso cheque como prenda de acto tão vulgar, que faria de qualquer modo, sem agradecimento ou camisola vestida, que despirá na primeira oportunidade. Ideia tonta veio mais de cima, empurrando a festança para um palacete de séculos atrás, rico em história e palco de contrato antigo, já relíquia.
As meninas senhoras, de horas atrás do brilho e das palavrinhas seleccionaram cinco, que devia visitar e fotografar, e até cheirar, para garantir uma alma ou outra, presente na maldita cerimónia. As senhoras meninas, que me arrastaram por todo o distrito, em ebulição de teclas e moradas antigas, descobriram mais duas, no extremo, a duas horas de trânsito e chuva. Descoberta descabida e que me desesperou, obrigando a Domingo com serão e frio.
Parti a seguir ao jantar, porque as visitas “tinham” de ser feitas já com noite cerrada, em busca da investigação, científica e imbecil, que aconselha a verificar iluminação e ambiente de breu, esperando falhas.
Os cinco iniciais esconderam palácios, revelando em vergonha velhos casarões a cair de podre, onde nem luz, nem electricidade, nem nada…
O seguinte cumpria a recente tradição, com uma estrada de pedra muito moderna, virando de súbito para lado algum, enquanto a morada revelava uma casinha sem grandeza e espanto. De volta e meia completa preparei o último caminho, que me levaria a casa, depois de breve passagem pela esperança, quase fumo.
A segunda morada era bastante perto e deixou-me mais tranquilo. Cheguei rapidamente a um portão pequeno e parcialmente destruído pelo tempo e uma avenida larga com rumo certo ao cimo de uma colina muito escura. Se ao menos fumasse!
O casarão parecia enorme, mesmo à distância e nem uma única luz ajudava a perceber o seu contorno. Era feito de borrões cinzentos que pareciam flutuar, descendo para as grandes árvores que o ladeavam, para que se fundissem…ou misturassem.
Ninguém me convenceria, às duas horas e catorze minutos da manhã, que aquele pudesse ser o local que abriria as portas ao tal evento. Por isso entrei!
Não rangi o portão por precaução e sabia que de nada adiantaria chamar. Fui andando porque o vento era agora mais fraco e a chuva passara, a caminho da cidade. Subindo em direcção à casa podia ver milhares de luzes, em casas e estradas, nos automóveis parados por onde deveriam rolar. Haviam muitas árvores de fruto! A luz não abundava, mas podia vê-los e nem precisava. O cheiro mostrava pêssegos maduros, talvez em demasia e que não demorariam a cair. Os limoeiros não pertenciam ali, porque roubavam aos outros o odor e impediam a calma.
Nos lados, muitos bancos em madeira molhada, exalando o descolar da tinta e alguma ferrugem. Sentei-me um pouco, sorrindo ao sentir a humidade, convidada de honra de um fato estúpido e de meia estação. Não valia a pena continuar.
Um segundo depois ouvi um estrondo colossal, seguindo do mais horrendo grito que possam imaginar, abafado pela chuva torrencial que recomeçara a cair. Gelei de medo.
O despertador do meu telemóvel disparou, por já serem duas e meia, e não chegaria a tempo…
Fiquei imóvel durante vinte minutos, que controlei a cada batida de coração. Parado em gelo e terror, sem conseguir raciocinar, com músculos paralisados que gritavam para que corresse, mas sem ajudarem. Sentia as lágrimas presas, ou misturadas com a água que caía do céu. Percebi que não conseguia ouvir.
Lembro-me de me virar para o casarão, em busca de auxílio. Do local que me provocava tal terror, esperava o fim do mesmo, embrulhado em simples causa.
Nessa altura recordei a estória do meu pai. Certa noite, ficara em igual situação, enfrentando uma silhueta de bruxa, dentro de um cemitério de aldeia. Não explica a coragem, por ter sido o medo que o empurrou, sentindo-o soprando nas costas. Andou devagar, tremendo dos pés à cabeça até ao muro branco, iluminado pela Lua cheia. Tocou então a parede rugosa, onde a bruxa se transformou em sombra real, de um cipreste que dançava ao sabor do vento.
Se voltasse as costas, contrariando o mesmo empurrão, veria a bruxa até à minha velhice. E não queremos envelhecer com tal companhia. Recomecei a caminhar.
O casarão era imponente, quando as sombras começavam a perder a disformidade, para que visse os seus limites. Perto da porta olhei para cima, para uma pequena varanda que espreitava por cima dos meus ombros. O puxador era pequeno e simples, sem gárgulas de bronze e pesados ferrolhos. Só uma chave, do seu lado direito, com uma argola em couro de onde pendiam duas tiras.
Retirei-a com um movimento brusco, ao mesmo tempo que comecei a correr com todas as forças que consegui reunir. Corri por cima das poças sem parar, sem largar a argola com cheiro a molhado, largando gotas nas minhas costas.
Cheguei ao carro sem respirar, ainda com o grito cravado na memória. Guardei a chave no bolso do casaco e parti, depressa…tropeçando na estrada.
Fui trabalhar de olheiras fundas. Acabei cedo o relatório das minhas visitas, com resultado morno e sem paixão. Nenhum dos palacetes servia o nosso propósito. Nenhum dos “seis”.
É quase meia-noite quando vos escrevo. A chave está pousada na mesa à minha frente e não consigo deixar de pensar no meu pai…e na bruxa.Não vale a pena adiar…tenho de ir, agora! De voltar…ao segundo casarão…
segunda-feira, setembro 26, 2005
De férias...
Não das normais! Mas de blogs, de Internet, de escrita, de pensamentos intensos, de sofrimentos por antecipação, de barrigas apertadas, de querer demais, de colos que não chegam…e mais demorarão se exagerar!
Lá para quarta, ou quinta ou sexta, volto a voar baixinho, de vento na face...no cabedal e no frio…que me aquece...
Lá para quarta, ou quinta ou sexta, volto a voar baixinho, de vento na face...no cabedal e no frio…que me aquece...
quinta-feira, setembro 15, 2005
O jantar...
Ao anoitecer, começo sempre a ver mal e o cansaço ajuda, no cinzento, que devagar se transforma em escuridão. O convite aparecera há apenas dois dias, arrastando-me para uma pequena vila centenária.
Algures perdido, num interior de bucólico romantismo, vivia um casal com uma estória peculiar. Faziam oitenta anos de casados! Naturalmente casaram novos, e a longevidade alcançada, tornara possível o acontecimento agora festejado. À excepção de um detalhe!
Na carta que lera na diagonal, aparecia um delicioso e estranho pormenor. O casal nunca discutia! Nunca, em oitenta anos de casados, tinha existido a mais pequena discussão. Tinha que investigar!
Cheguei ao hotel e estacionei a dois passos da entrada. Um empregado veio falar-me.
- Bom noite. Vem hospedar-se no hotel? Temos lugar na garagem e sempre fica mais perto do elevador.
Agradeci e voltei a entrar no carro, contrariado. Doía-me muito as costas e precisava de me esticar. O ar começava a estar fresco.
Caminhei, já atrasado, para o local em pedaço de papel. À entrada estava uma enorme faixa, com uma frase confusa – “Oitenta anos à vossa espera”.
Deviam ser centenas ou mais convidados enchendo a sala, de brancos e muitas cores. Sentei-me numa mesa com apenas três, a quem cumprimentei de forma cordial. Eram três raparigas de calças vermelhas, ainda muito novas e que não mais pararam de me observar.
Ao fundo, um pianista enchia o ar. Tinha uma enorme nódoa na camisola, que a contra gosto tentara eliminar. De repente parou, quando um homem pequeno e de cabelo grisalho, subiu para o púlpito exagerado. As raparigas de calças vermelhas ajudavam-me a seguir o enredo. Era o Lourenço, filho do casal de velhinhos, que os meus olhos não conseguiram encontrar.
- É com muita honra que me encontro entre vós, que não conheço e agora vejo. Os meus pais não puderam vir, por velhice e mais vergonha. Mas agradecem e abraçam, todos aqui presentes, para a sua união celebrar.
O homem pequeno parou e bebeu um pouco de água, para respirar. Olhou longamente para sala e continuou.
- Como sabem, eles não falam português. São imigrantes de uma Europa velha e de Oriente, mas com segredos de pronúncia semelhante. O que talvez não saibam… é que não vêem do mesmo país! Nem tão pouco partilham o mesmo dialecto. Meus amigos! Eles não falam a mesma língua!
Perante o espanto e interrogação dos convidados, o bom filho preparou-se para nos abandonar.
Voltou porém, por um momento, só para murmurar.
- Comunicam com a pele…
Algures perdido, num interior de bucólico romantismo, vivia um casal com uma estória peculiar. Faziam oitenta anos de casados! Naturalmente casaram novos, e a longevidade alcançada, tornara possível o acontecimento agora festejado. À excepção de um detalhe!
Na carta que lera na diagonal, aparecia um delicioso e estranho pormenor. O casal nunca discutia! Nunca, em oitenta anos de casados, tinha existido a mais pequena discussão. Tinha que investigar!
Cheguei ao hotel e estacionei a dois passos da entrada. Um empregado veio falar-me.
- Bom noite. Vem hospedar-se no hotel? Temos lugar na garagem e sempre fica mais perto do elevador.
Agradeci e voltei a entrar no carro, contrariado. Doía-me muito as costas e precisava de me esticar. O ar começava a estar fresco.
Caminhei, já atrasado, para o local em pedaço de papel. À entrada estava uma enorme faixa, com uma frase confusa – “Oitenta anos à vossa espera”.
Deviam ser centenas ou mais convidados enchendo a sala, de brancos e muitas cores. Sentei-me numa mesa com apenas três, a quem cumprimentei de forma cordial. Eram três raparigas de calças vermelhas, ainda muito novas e que não mais pararam de me observar.
Ao fundo, um pianista enchia o ar. Tinha uma enorme nódoa na camisola, que a contra gosto tentara eliminar. De repente parou, quando um homem pequeno e de cabelo grisalho, subiu para o púlpito exagerado. As raparigas de calças vermelhas ajudavam-me a seguir o enredo. Era o Lourenço, filho do casal de velhinhos, que os meus olhos não conseguiram encontrar.
- É com muita honra que me encontro entre vós, que não conheço e agora vejo. Os meus pais não puderam vir, por velhice e mais vergonha. Mas agradecem e abraçam, todos aqui presentes, para a sua união celebrar.
O homem pequeno parou e bebeu um pouco de água, para respirar. Olhou longamente para sala e continuou.
- Como sabem, eles não falam português. São imigrantes de uma Europa velha e de Oriente, mas com segredos de pronúncia semelhante. O que talvez não saibam… é que não vêem do mesmo país! Nem tão pouco partilham o mesmo dialecto. Meus amigos! Eles não falam a mesma língua!
Perante o espanto e interrogação dos convidados, o bom filho preparou-se para nos abandonar.
Voltou porém, por um momento, só para murmurar.
- Comunicam com a pele…
sábado, setembro 03, 2005
A velha...
Já era muito tarde, quando me perdi. Uma última opção, feita ao acaso, não dera resultado. A teimosia ainda me arrastou por meia-hora, até que percebesse o fim da estrada.
Ao tentar voltar para trás vi uma pequena luz ao fundo, de uma casinha pequena. Quase disparei a imaginação, para antes sorrir e deixá-la viver na mesma, mas devagar. Comecei a caminhar!
A casa não ficava longe e a noite estava linda. Não haviam estrelas, nem Lua, nem nevoeiro, mas continuei.
Era maior do que parecia à distância, muito antiga e demasiado escura. Tinha um pequeno alpendre com uma cadeira de baloiço em madeira e uma teia de aranha. O cenário de terror era completo, empurrado colina abaixo por um estereótipo sem graça. Trocei da cena e toquei à campainha.
O som era baixinho e nada assustador. Logo em seguida ouvi uma voz, perguntando.
- Quem é?
Não respondi porque a porta se abriu rapidamente, para uma velha muito alta, tão feia, tão seca e com um cabelo cinzento brutalmente apanhado no ombro direito. Esperei uma voz agora doce, por estar mais perto e que rompesse com a normalidade. Mas não! Começou logo a falar, engasgando-se num tom medonho que custava a perceber, enquanto me desviava da simpatia e convites para entrar. Que se dane, pensei! Vou embora no próximo segundo, quando a velha parar para respirar.
Mas não consegui, porque a mão de manchas avermelhadas apertou, com a força esperada, puxando-me para dentro.
- Sente-se meu filho, que lhe vou arranjar de comer. Disse antes de desaparecer no corredor.
Fiquei sem reacção. Não conseguia sequer imaginar o que poderia trazer-me para engolir. Estava numa sala horrível, acompanhado de uma inarrável mistura de animais embalsamados, fotografias antigas, livros de culinária e um enorme conjunto de brinquedos, que pareciam ser de gato, tema aliás presente em quase toda a divisão.
Ao centro estava um suporte de livros, em madeira trabalhada, como os que vemos em muitas igrejas. Apesar de sujo e empoeirado, parecia valioso e em cima tinha um livro com uma camada de pó que escondia parcialmente o título, gravado em relevo na capa de couro escuro. Soprar era a única e impossível alternativa que me restava. Lembro em constância a asma que me acompanha, e que não resistiria aquela armadilha. Sentei-me e esperei pela velha.
Ela apareceu pouco depois com um tabuleiro, onde colocara alguns biscoitos, pão e um copo com água. O pão estava um pouco duro, mas os biscoitos eram deliciosos, lembrando-me algo distante e que não identifiquei. A água, muito fresca, acalmou-me e ajudou a que pudesse observar. A velha continuava feia e não condizia com a simpatia tentada. Ficámos uns minutos a olhar um para o outro. Até que ela perguntou.
- Está a achar tudo isto horrível não é?
- Não, minha senhora! Os biscoitos são até muito….
Calei-me de imediato e bebi um pouco de água.
- Estou! Para dizer a verdade, estou. Todo este dia foi um perfeito desastre. E não me parece que vá melhorar.
Sem que quisesse, continuei a falar.
- Aliás toda a semana devo esquecer! Não sei o que vim fazer a um fim de mundo que não conheço e onde não posso encontrar respostas. Parti para me acalmar e termino numa casa suja e feia, acompanhado por uma velha e biscoitos, que provavelmente estão envenenados ou são feitos com entranhas de gato. O livro com pó deve conter magias e feitiços terríveis, ou a lista dos que aqui morreram por um copo de água e algum abrigo. Respirei um pouco antes de terminar, mas sem olhar directamente para a anfitriã.
- E sabe que mais? Não me importo! Se quiser matar-me, não lhe guardarei rancor!
Ela não respondeu, nem se zangou…nem sorriu docemente, como quem vai fazer-me uma festa ou soprar um beijo. Mas levantou-se. Desapareceu de novo na escuridão, murmurando alguma coisa entre dentes. Levantei-me preparado para sair, irritado comigo, com a velha pouco sábia, com tudo de que me pudesse lembrar.
Ouvia-a voltar com passos lentos, carregando algo para oferecer. Nas mãos trazia uma embalagem de biscoitos, que afinal tinham marca e pouco mistério.
- Tome! Leve para a viagem. Desculpe por não serem caseiros, mas não tive tempo para os preparar.
Agradeci e voltei-me, com um boa noite envergonhado. Ela falou de novo.
- Quanto ao resto…quanto ao resto, nada tenho para contar. Porque não posso, porque não sei, porque estou velha e já me cansei. O tempo já não me acompanha e fiquei só, para pensar…
Senti a voz tremer-lhe um pouco, estendendo a mão que apertei. A pele era tão macia…
Ao tentar voltar para trás vi uma pequena luz ao fundo, de uma casinha pequena. Quase disparei a imaginação, para antes sorrir e deixá-la viver na mesma, mas devagar. Comecei a caminhar!
A casa não ficava longe e a noite estava linda. Não haviam estrelas, nem Lua, nem nevoeiro, mas continuei.
Era maior do que parecia à distância, muito antiga e demasiado escura. Tinha um pequeno alpendre com uma cadeira de baloiço em madeira e uma teia de aranha. O cenário de terror era completo, empurrado colina abaixo por um estereótipo sem graça. Trocei da cena e toquei à campainha.
O som era baixinho e nada assustador. Logo em seguida ouvi uma voz, perguntando.
- Quem é?
Não respondi porque a porta se abriu rapidamente, para uma velha muito alta, tão feia, tão seca e com um cabelo cinzento brutalmente apanhado no ombro direito. Esperei uma voz agora doce, por estar mais perto e que rompesse com a normalidade. Mas não! Começou logo a falar, engasgando-se num tom medonho que custava a perceber, enquanto me desviava da simpatia e convites para entrar. Que se dane, pensei! Vou embora no próximo segundo, quando a velha parar para respirar.
Mas não consegui, porque a mão de manchas avermelhadas apertou, com a força esperada, puxando-me para dentro.
- Sente-se meu filho, que lhe vou arranjar de comer. Disse antes de desaparecer no corredor.
Fiquei sem reacção. Não conseguia sequer imaginar o que poderia trazer-me para engolir. Estava numa sala horrível, acompanhado de uma inarrável mistura de animais embalsamados, fotografias antigas, livros de culinária e um enorme conjunto de brinquedos, que pareciam ser de gato, tema aliás presente em quase toda a divisão.
Ao centro estava um suporte de livros, em madeira trabalhada, como os que vemos em muitas igrejas. Apesar de sujo e empoeirado, parecia valioso e em cima tinha um livro com uma camada de pó que escondia parcialmente o título, gravado em relevo na capa de couro escuro. Soprar era a única e impossível alternativa que me restava. Lembro em constância a asma que me acompanha, e que não resistiria aquela armadilha. Sentei-me e esperei pela velha.
Ela apareceu pouco depois com um tabuleiro, onde colocara alguns biscoitos, pão e um copo com água. O pão estava um pouco duro, mas os biscoitos eram deliciosos, lembrando-me algo distante e que não identifiquei. A água, muito fresca, acalmou-me e ajudou a que pudesse observar. A velha continuava feia e não condizia com a simpatia tentada. Ficámos uns minutos a olhar um para o outro. Até que ela perguntou.
- Está a achar tudo isto horrível não é?
- Não, minha senhora! Os biscoitos são até muito….
Calei-me de imediato e bebi um pouco de água.
- Estou! Para dizer a verdade, estou. Todo este dia foi um perfeito desastre. E não me parece que vá melhorar.
Sem que quisesse, continuei a falar.
- Aliás toda a semana devo esquecer! Não sei o que vim fazer a um fim de mundo que não conheço e onde não posso encontrar respostas. Parti para me acalmar e termino numa casa suja e feia, acompanhado por uma velha e biscoitos, que provavelmente estão envenenados ou são feitos com entranhas de gato. O livro com pó deve conter magias e feitiços terríveis, ou a lista dos que aqui morreram por um copo de água e algum abrigo. Respirei um pouco antes de terminar, mas sem olhar directamente para a anfitriã.
- E sabe que mais? Não me importo! Se quiser matar-me, não lhe guardarei rancor!
Ela não respondeu, nem se zangou…nem sorriu docemente, como quem vai fazer-me uma festa ou soprar um beijo. Mas levantou-se. Desapareceu de novo na escuridão, murmurando alguma coisa entre dentes. Levantei-me preparado para sair, irritado comigo, com a velha pouco sábia, com tudo de que me pudesse lembrar.
Ouvia-a voltar com passos lentos, carregando algo para oferecer. Nas mãos trazia uma embalagem de biscoitos, que afinal tinham marca e pouco mistério.
- Tome! Leve para a viagem. Desculpe por não serem caseiros, mas não tive tempo para os preparar.
Agradeci e voltei-me, com um boa noite envergonhado. Ela falou de novo.
- Quanto ao resto…quanto ao resto, nada tenho para contar. Porque não posso, porque não sei, porque estou velha e já me cansei. O tempo já não me acompanha e fiquei só, para pensar…
Senti a voz tremer-lhe um pouco, estendendo a mão que apertei. A pele era tão macia…
quinta-feira, setembro 01, 2005
Perfumes...
A memória de um odor traz-nos um qualquer sentir. Três cidades preencheram esse espaço, despertando alegria enquanto o seu cheiro me soprava para entrar.
Nas crianças, a mesma harmonia, com lembranças velhas de décadas e bebé dormindo nos braços.
E mulheres, ainda raparigas, inesquecíveis fragrâncias que ficarão, mesmo que dormindo. Até um dia!
Nessa metade de segundo recordamos e percebemos bem…ao receber um cheiro antigo. Não o senti e não passou por mim. Apenas o imaginei, misturado em tarde quente, parecida com a original.
Difícil de tanta delícia, é quando não sabemos, mas invade.
Senti-o chegando a casa, na palma de mão direita. Era um perfume! De mulher mais velha, em beleza segura e meiga, talvez forçada por minha vontade. Podia mesmo ser?
Refiz os toques das últimas horas, para poder explicar…mas ela não existia.
Agora desapareceu, para que desista de o procurar, sem motivo e outra estória.
Talvez não seja importante…
Nas crianças, a mesma harmonia, com lembranças velhas de décadas e bebé dormindo nos braços.
E mulheres, ainda raparigas, inesquecíveis fragrâncias que ficarão, mesmo que dormindo. Até um dia!
Nessa metade de segundo recordamos e percebemos bem…ao receber um cheiro antigo. Não o senti e não passou por mim. Apenas o imaginei, misturado em tarde quente, parecida com a original.
Difícil de tanta delícia, é quando não sabemos, mas invade.
Senti-o chegando a casa, na palma de mão direita. Era um perfume! De mulher mais velha, em beleza segura e meiga, talvez forçada por minha vontade. Podia mesmo ser?
Refiz os toques das últimas horas, para poder explicar…mas ela não existia.
Agora desapareceu, para que desista de o procurar, sem motivo e outra estória.
Talvez não seja importante…
quarta-feira, agosto 31, 2005
O monge...
Ao procurar a origem do meu nome, fiquei a pensar. Encontrei-a nos medonhos diplomas, ainda longe do kitche e em profundo mau gosto de forma. A explicação coincidia, incrivelmente, até ao mais pequenino pormenor. Somos muito diferentes, os que se chamam assim, pelo que o texto devia referir-se apenas a mim…
Estava em plena mistura de quem luta pela consagração de um nome e o arrepio, este em desconforto, de me sentir na multidão. E fui à procura!
Num dicionário de latim estava a resposta. O tal diploma dizia a verdade, confirmando a origem, mas ocultando as outras explicações. Reparei porém, no que se escrevia quase no final. Avançava outro significado para a palavra, menos conhecida, mas presente na tradução – monge!!
O meu nome significa igualmente, monge! Monge?
Agora estava baralhado, com a mente em estranheza. Que tenho eu a ver com um monge?
Assumi a tradução com menor importância, centrando-me no principal significado, mais próximo e que se ajusta com simplicidade de luva.
Chegaram depois os duendes, felizes e misteriosos. Não era precisa a imagem, mas procurei-a ao navegar.
O meu caminho levou-me à figura que acompanha a minha escrita. Chama-se Frailecillo, sem que perceba porquê. Um pequeno e estranho duende…vestido de monge…
Só hoje fiz a associação de tudo…que estranho. Mas sinto-me calmo…
Estava em plena mistura de quem luta pela consagração de um nome e o arrepio, este em desconforto, de me sentir na multidão. E fui à procura!
Num dicionário de latim estava a resposta. O tal diploma dizia a verdade, confirmando a origem, mas ocultando as outras explicações. Reparei porém, no que se escrevia quase no final. Avançava outro significado para a palavra, menos conhecida, mas presente na tradução – monge!!
O meu nome significa igualmente, monge! Monge?
Agora estava baralhado, com a mente em estranheza. Que tenho eu a ver com um monge?
Assumi a tradução com menor importância, centrando-me no principal significado, mais próximo e que se ajusta com simplicidade de luva.
Chegaram depois os duendes, felizes e misteriosos. Não era precisa a imagem, mas procurei-a ao navegar.
O meu caminho levou-me à figura que acompanha a minha escrita. Chama-se Frailecillo, sem que perceba porquê. Um pequeno e estranho duende…vestido de monge…
Só hoje fiz a associação de tudo…que estranho. Mas sinto-me calmo…
sábado, agosto 27, 2005
Começa a ser estranho...
Não escolhi a minha cama ou pelo menos não o fiz da forma habitual, correndo quilómetros em lojas demasiado cheias.
A Carla ia viver para Paris e não sabia o que lhe fazer. Eu vivia numa casa alugada, com uma mobília que não podia trocar. Mesmo assim pareceu-me boa ideia comprar-lhe a cama. E assim foi, mas com alguma luta. O prédio não tinha elevador e é difícil montar uma estratégia de transporte quando se tem a barriga a doer de tanto rir.
Mas já noite fechada, conseguimos! Ficou guardada quase um ano na cave dos meus avós, esperando a sua vez.
Um dia, conquistei as chaves do meu abrigo e lá fui buscá-la outra vez. Mais uma aventura apareceu, porque por aqui também não existem elevadores e a opção de desmontar a estrutura só foi assumida em último recurso. Afinal até uma cama tem a sua dignidade.
Finalmente repousou no quarto eleito. Ela é grande, bastante grande, para quem dorme sozinho. Mas se o fizer na diagonal, preencho o espaço e estico-me em várias direcções.
Assim foi até este Verão! Com a chegada do calor, passei a dormir destapado, sem lençóis limitando o meu sono e sonhos. No meu quarto quase não há luz, durante a noite. Apenas um pequenino ponto amarelo, de um monitor que raramente uso. Enquanto durmo, não percebendo porquê, passei a rodar sobre mim, acordando a meio da noite, sem saber para que lado me virei. É um autêntico desafio perceber onde estou, o que procuro ou em que lado está a pequena luz amarela que de pouco me serve.
Tudo termina, na maior parte dos casos, quando consigo detectar a cabeceira, único elemento diferenciador do leito que me confunde. Um dia cheguei mesmo a cair parcialmente, dando por mim de bruços no chão, tentando não rir da minha figura.
Apesar de tudo continua a ser muito confortável, a minha cama. Apenas não sei o que procuro a meio da noite. Talvez ajude se colocar uma daquelas luzes de presença, que as crianças tanto adoram. Será boa companhia!
A Carla ia viver para Paris e não sabia o que lhe fazer. Eu vivia numa casa alugada, com uma mobília que não podia trocar. Mesmo assim pareceu-me boa ideia comprar-lhe a cama. E assim foi, mas com alguma luta. O prédio não tinha elevador e é difícil montar uma estratégia de transporte quando se tem a barriga a doer de tanto rir.
Mas já noite fechada, conseguimos! Ficou guardada quase um ano na cave dos meus avós, esperando a sua vez.
Um dia, conquistei as chaves do meu abrigo e lá fui buscá-la outra vez. Mais uma aventura apareceu, porque por aqui também não existem elevadores e a opção de desmontar a estrutura só foi assumida em último recurso. Afinal até uma cama tem a sua dignidade.
Finalmente repousou no quarto eleito. Ela é grande, bastante grande, para quem dorme sozinho. Mas se o fizer na diagonal, preencho o espaço e estico-me em várias direcções.
Assim foi até este Verão! Com a chegada do calor, passei a dormir destapado, sem lençóis limitando o meu sono e sonhos. No meu quarto quase não há luz, durante a noite. Apenas um pequenino ponto amarelo, de um monitor que raramente uso. Enquanto durmo, não percebendo porquê, passei a rodar sobre mim, acordando a meio da noite, sem saber para que lado me virei. É um autêntico desafio perceber onde estou, o que procuro ou em que lado está a pequena luz amarela que de pouco me serve.
Tudo termina, na maior parte dos casos, quando consigo detectar a cabeceira, único elemento diferenciador do leito que me confunde. Um dia cheguei mesmo a cair parcialmente, dando por mim de bruços no chão, tentando não rir da minha figura.
Apesar de tudo continua a ser muito confortável, a minha cama. Apenas não sei o que procuro a meio da noite. Talvez ajude se colocar uma daquelas luzes de presença, que as crianças tanto adoram. Será boa companhia!
segunda-feira, agosto 22, 2005
A descoberta...
Sexta-feira
Jantei comigo e com a calma da minha noite preferida.
Rumei a casa familiar para ver um sorriso de criança e espreitar um jogo tristonho.
Voltei e adormeci no sofá. Não tive forças para abraçar um livro.
Sábado
De tarde patinei em linha e algumas curvas. Caí e esfolei o braço direito, exactamente no mesmo local onde uma ferida igual estava a finalizar o seu processo de cura. Devemos rir de tamanho azar.
À noite atravessei o rio, para conversar e sentir amizade.
Domingo
Mergulhei na água fria, sem vontade. Esqueci-me que a praia já terminara. Regressei depressa a casa.
Dei por mim a pensar…se a vida não tem mais para dar!?
Dou por mim a responder…talvez esteja na minha mão pedi-lo!?
Compreendi então o meu erro. E continuarei a dar!
Não pela recompensa...mas porque é o que faço!
Jantei comigo e com a calma da minha noite preferida.
Rumei a casa familiar para ver um sorriso de criança e espreitar um jogo tristonho.
Voltei e adormeci no sofá. Não tive forças para abraçar um livro.
Sábado
De tarde patinei em linha e algumas curvas. Caí e esfolei o braço direito, exactamente no mesmo local onde uma ferida igual estava a finalizar o seu processo de cura. Devemos rir de tamanho azar.
À noite atravessei o rio, para conversar e sentir amizade.
Domingo
Mergulhei na água fria, sem vontade. Esqueci-me que a praia já terminara. Regressei depressa a casa.
Dei por mim a pensar…se a vida não tem mais para dar!?
Dou por mim a responder…talvez esteja na minha mão pedi-lo!?
Compreendi então o meu erro. E continuarei a dar!
Não pela recompensa...mas porque é o que faço!
sexta-feira, agosto 19, 2005
O colo...
Há dias em que acordamos perto de um lugar distante. Em que trocávamos um tesouro com jóias às pintinhas, por um colo amigo e tranquilo.
Há dias em que ficávamos horas a respirar o sono de outros, oferecendo quase nada para tanto receber…
Hoje é um desses dias…
Há dias em que ficávamos horas a respirar o sono de outros, oferecendo quase nada para tanto receber…
Hoje é um desses dias…
quarta-feira, agosto 17, 2005
O rapaz que saltava...
De novo uma notícia estranha! Ler jornais e revistas já gastos, leva-nos a um mundo maravilhoso e pouco normal, mas de delícias a que não resisto. Na cave dos meus avós, imaginada e sentida com um antigo sótão, fiz a descoberta.
Era um velho conjunto de revistas com uma particularidade interessante. Apesar de serem claramente números da mesma edição, todas tinham um nome diferente. Da número dois, à trinta e cinco, empilhavam-se as mais diferentes palavras formando um título, de resto igual na forma e nas cores. Maravilhas, Profecias, Cozeduras, ou Festivais, eram alguns dos que ainda recordo e que nunca consegui entender bem.
Deste golpe de publicidade avançado para a época, lembro uma com emoção, para que agora partilhe o seu conteúdo. Chamava-se A Competição e entrando em suas páginas descobri um único artigo.
Contava em pormenor uma competição antiga que tinha lugar numa aldeia do centro do país. A ideia era simples. Homens de várias idades competiam pelo maior salto. Bom, apesar de assim ser chamado, na realidade tratava-se mais de uma queda. Os organizadores preferiam dizer que saltavam, pela nobreza da expressão, em oposição ao que realmente acontecia. Na aldeia existia uma enorme árvore com ramos que nasciam do tronco principal em perfeitas linhas horizontais. O mais baixo tinha cerca de cinco metros e lá em cima, a quase 30 metros ficava o topo, com um único ramo magricelas, marcado com um farrapo encarnado.
Nada mais simples. Quem caísse, ou melhor, saltasse do ramo mais alto, era o vencedor!
A revista relatava décadas de competição, com as mais incríveis estórias envoltas numa mistura de crenças, lendas e alguns factos documentados.
Muitos dos que tentavam, partiam uma ou ambas as pernas, assim como todo e qualquer osso registado na anatomia. Obriguei-me a saltar algumas páginas com descrições e até fotografias das mais emblemáticas lesões que os saltadores haviam sofrido. Um deles, de nome Joaquim era lendário pelos seus recordes, de saltos e de fracturas. Já com cinquenta anos, contava com mais de 20 fracturas em cada perna e um sem número de costelas partidas. Nos braços apenas uma, quando um vento inesperado fez com que caísse desamparado em cima de um muro. Os aldeões juravam ter ouvido um médico que o tratou várias vezes, dizer que os seus ossos haviam sido tantas vezes partidos, que se formara uma camada de cálcio dupla, muito resistente e quase inquebrável. Com efeito, nos últimos anos Joaquim era o vencedor incontestável da competição, gerindo os confrontos com homens mais novos e aterrorizados. De menor importância eram os quase dez centímetros que faltavam na sua atarracada estrutura, consequência de um progressivo esmagamento dos discos vertebrais.
Algumas páginas tinham sido arrancadas da revista, que voltava ao artigo solitário já em plena competição, num ano distante, em pleno mês de Agosto.
A ausência de regras era total e o objectivo reduzido ao maior salto. O evento durava um único dia, de sol a sol e enquanto aparecesse alguém a desafiar o campeão. Tinha sido um dia calmo e faltava pouco para o seu fim. Joaquim vencia com facilidade, apenas necessitando de saltar uns modestos dez metros. O seu último oponente aterrara de costas, riscando vários nomes de saltadores inscritos, transformados em desistentes.
- O vento hoje veio com o Joaquim! Protestavam alguns, justificando o recente recuar, mas ainda de peito inchado.
Até que de repente apareceu um rapaz! Inscreveu-se junto do júri, que de nada servia, a não ser para esta função. Uma vez que todos os outros tinham desistido, avançou para junto da árvore. Era muito baixinho e coxeava ligeiramente, mas de resto era até bem parecido, vestindo um fato nada apropriado à ocasião e de cabelo muito bem penteado.
Joaquim aproximou-se, desejando-lhe as maiores felicidades, que na verdade consistiam em ver o adversário esborrachado a seus pés. A competição atraía um enorme número de espectadores e apostadores, convertendo em lucro e prémio chorudo o entusiasmo da multidão. O campeão era um homem muito rico, à custa das quedas, proporcionalmente inversas ao saldo da sua conta bancária.
Com ar sério que não escondia troça, perguntou?
- De que altura vai saltar?
O rapaz respondeu com um sorriso.
- A quantos metros está aquele lá no alto, o do pano encarnado?
O espanto de Joaquim foi absorvido por um suspiro colectivo que juntava ansiedade, ao mais puro dos horrores.
Sem esperar a resposta que não apareceria, o rapaz subiu para o guindaste que o levaria ao cimo da árvore. Noutros tempos tinham que subir a pulso, mas um generoso patrocinador oferecera os seus serviços.
O homem que operava a máquina tremia tanto que alguns temeram pelo fim da contenda, ainda em rota ascendente.
Chegado ao cimo, parou suavemente e o rapaz subiu para o último ramo.
Neste momento fechei a revista, apertando-a no colo. Durante momentos recolhi forças para continuar a ler o que agora me atormentava, prevendo um fim demasiado trágico.
Lentamente voltei a abrir a página permitindo-me olhar para frase seguinte.
«…e então o rapaz sentou-se no ramo, olhando para baixo».
Fechei de novo as páginas, agora já assustado. Por um segundo ansiei, até não mais suportar. Levantei-me de repente e juntei a revista às restantes, ordenadas cronologicamente. Reparei então que era a penúltima do monte empoeirado.
Ao sair ainda consegui ler o título do número seguinte.
“O rapaz que saltava”.
Era um velho conjunto de revistas com uma particularidade interessante. Apesar de serem claramente números da mesma edição, todas tinham um nome diferente. Da número dois, à trinta e cinco, empilhavam-se as mais diferentes palavras formando um título, de resto igual na forma e nas cores. Maravilhas, Profecias, Cozeduras, ou Festivais, eram alguns dos que ainda recordo e que nunca consegui entender bem.
Deste golpe de publicidade avançado para a época, lembro uma com emoção, para que agora partilhe o seu conteúdo. Chamava-se A Competição e entrando em suas páginas descobri um único artigo.
Contava em pormenor uma competição antiga que tinha lugar numa aldeia do centro do país. A ideia era simples. Homens de várias idades competiam pelo maior salto. Bom, apesar de assim ser chamado, na realidade tratava-se mais de uma queda. Os organizadores preferiam dizer que saltavam, pela nobreza da expressão, em oposição ao que realmente acontecia. Na aldeia existia uma enorme árvore com ramos que nasciam do tronco principal em perfeitas linhas horizontais. O mais baixo tinha cerca de cinco metros e lá em cima, a quase 30 metros ficava o topo, com um único ramo magricelas, marcado com um farrapo encarnado.
Nada mais simples. Quem caísse, ou melhor, saltasse do ramo mais alto, era o vencedor!
A revista relatava décadas de competição, com as mais incríveis estórias envoltas numa mistura de crenças, lendas e alguns factos documentados.
Muitos dos que tentavam, partiam uma ou ambas as pernas, assim como todo e qualquer osso registado na anatomia. Obriguei-me a saltar algumas páginas com descrições e até fotografias das mais emblemáticas lesões que os saltadores haviam sofrido. Um deles, de nome Joaquim era lendário pelos seus recordes, de saltos e de fracturas. Já com cinquenta anos, contava com mais de 20 fracturas em cada perna e um sem número de costelas partidas. Nos braços apenas uma, quando um vento inesperado fez com que caísse desamparado em cima de um muro. Os aldeões juravam ter ouvido um médico que o tratou várias vezes, dizer que os seus ossos haviam sido tantas vezes partidos, que se formara uma camada de cálcio dupla, muito resistente e quase inquebrável. Com efeito, nos últimos anos Joaquim era o vencedor incontestável da competição, gerindo os confrontos com homens mais novos e aterrorizados. De menor importância eram os quase dez centímetros que faltavam na sua atarracada estrutura, consequência de um progressivo esmagamento dos discos vertebrais.
Algumas páginas tinham sido arrancadas da revista, que voltava ao artigo solitário já em plena competição, num ano distante, em pleno mês de Agosto.
A ausência de regras era total e o objectivo reduzido ao maior salto. O evento durava um único dia, de sol a sol e enquanto aparecesse alguém a desafiar o campeão. Tinha sido um dia calmo e faltava pouco para o seu fim. Joaquim vencia com facilidade, apenas necessitando de saltar uns modestos dez metros. O seu último oponente aterrara de costas, riscando vários nomes de saltadores inscritos, transformados em desistentes.
- O vento hoje veio com o Joaquim! Protestavam alguns, justificando o recente recuar, mas ainda de peito inchado.
Até que de repente apareceu um rapaz! Inscreveu-se junto do júri, que de nada servia, a não ser para esta função. Uma vez que todos os outros tinham desistido, avançou para junto da árvore. Era muito baixinho e coxeava ligeiramente, mas de resto era até bem parecido, vestindo um fato nada apropriado à ocasião e de cabelo muito bem penteado.
Joaquim aproximou-se, desejando-lhe as maiores felicidades, que na verdade consistiam em ver o adversário esborrachado a seus pés. A competição atraía um enorme número de espectadores e apostadores, convertendo em lucro e prémio chorudo o entusiasmo da multidão. O campeão era um homem muito rico, à custa das quedas, proporcionalmente inversas ao saldo da sua conta bancária.
Com ar sério que não escondia troça, perguntou?
- De que altura vai saltar?
O rapaz respondeu com um sorriso.
- A quantos metros está aquele lá no alto, o do pano encarnado?
O espanto de Joaquim foi absorvido por um suspiro colectivo que juntava ansiedade, ao mais puro dos horrores.
Sem esperar a resposta que não apareceria, o rapaz subiu para o guindaste que o levaria ao cimo da árvore. Noutros tempos tinham que subir a pulso, mas um generoso patrocinador oferecera os seus serviços.
O homem que operava a máquina tremia tanto que alguns temeram pelo fim da contenda, ainda em rota ascendente.
Chegado ao cimo, parou suavemente e o rapaz subiu para o último ramo.
Neste momento fechei a revista, apertando-a no colo. Durante momentos recolhi forças para continuar a ler o que agora me atormentava, prevendo um fim demasiado trágico.
Lentamente voltei a abrir a página permitindo-me olhar para frase seguinte.
«…e então o rapaz sentou-se no ramo, olhando para baixo».
Fechei de novo as páginas, agora já assustado. Por um segundo ansiei, até não mais suportar. Levantei-me de repente e juntei a revista às restantes, ordenadas cronologicamente. Reparei então que era a penúltima do monte empoeirado.
Ao sair ainda consegui ler o título do número seguinte.
“O rapaz que saltava”.
terça-feira, agosto 16, 2005
A tortura...
O calor não abrandou! Mas pelo menos a noite já tinha chegado. Seria auxílio precioso para que não mais transpirasse.
O perfume era quase tóxico. Quem me dera que fosse embora.
Ao sair reparei no fresco que se despedia da penumbra. Continuava nervoso e sem certezas. De nó que acompanha o estômago e um andar inventado à pouco tempo, entrei no carro alugado e esperei um pouco.
Nem era caro, para um desportivo negro e elegante. Hesitei nos dois lugares. Talvez fosse demasiado óbvio, mas acabei por ceder ao vendedor, empenhado em me ajudar.
Liguei a música e cerrei os lábios. Era só uma noite.
A ausência de capota era reconhecida como um erro, mas nada tinha a ver com o resto. Era genuína e permitia que respirasse. Acelerei como louco, avançando sem pensar.
Cheguei sem subtileza a uma rua muito iluminada. A enorme quantidade de pessoas obrigou-me a circular muito devagar, entre peles bronzeadas e odores confusos. Faltava pouco para que desaparecesse. Morreria à distância de uma camisola de marca, se tivesse escolhido o vermelho como transporte. Tudo estava tão errado.
Pensei na véspera. Nas horas passadas a conversar com as teclas. Ela tinha aparecido com um suave bater de porta ainda virtual. Recusou-se a partilhar o nome e passámos muito tempo a falar de estranhas músicas tocadas por grupos desconhecidos. A todos disse que sim. Sobre todos lancei comentários oportunos, enquanto procurava os seguintes plágios para opinião forçada, que jamais poderia reconhecer como minha.
Combinámos um encontro logo para a noite seguinte, enamorados pelas melodias que partilhávamos num estranho top imaginado. E era tudo mentira! Principalmente a fortuna gasta em melodias que agora me atormentavam, espalhando comentários à minha volta em quem me reconhecia como um igual. Era tão complicado o código de expressões e ginástica de mãos e dedos, que optei por pequenos sorrisos e um leve acenar de cabeça, para variar, quando os músculos da face começavam a doer.
Cheguei finalmente ao local escolhido. Era uma esquina em que ainda não acreditava e as pistas que procurava, escassas e assustadoras. Dissera que esperaria por mim num carro cinzento inconfundível, que ocuparia de certeza lugar na única esquina das redondezas. A arquitectura pouco convencional do lugar, transformou em fácil demanda a identificação do sitio e o que vi em seguida, confirmou o mergulho para a dor.
Estacionada estava uma carrinha cinzenta muito antiga e a cair de podre. Também não tinha capota, mas essa parecia ter sido arrancada por um obstáculo em considerável erro de cálculo. Lá dentro…ninguém. Parei o carro e avancei. Já não tinha nada a perder e fazia-me bem deixar de ouvir aquela música que não escolhera.
Ao perto, era uma visão ainda mais incrível. Não tinha agora dúvidas que o tejadilho havia sido serrado, ou cortado, transformando uma antiga carrinha suburbana, no descapotável mais medonho que alguma vez vira. Por momentos achei que ia começar a chorar, quando senti uma mão nas minhas costas.
- O senhor não está a pensar em assaltar-me o carro pois não?
Voltei-me para encontrá-la, obrigando aquela lágrima a regressar ao seu posto.
Tinha o cabelo muito comprido, mas apanhado de forma confusa num emaranhado de ganchos e fitas de várias cores. A pele não estava pintada e não pude reparar na roupa, antes que me dissesse.
- Vamos? Onde tens o carro?
Devolvendo três beijos consegui articular?
- Não preferes ir no teu?
Ela sorriu enquanto me dava a mão de forma carinhosa, sem responder.
O sorriso foi dando lugar a um silencio estranho enquanto nos aproximávamos do carro, agora ainda mais desajustado que podia imaginar, e que só um raro momento de demência justificaria.
Ela só conseguiu murmurar.
– Tu deves estar a brincar. Esta coisa é tua?
Não respondi. Se o fizesse seria em descontrolo total e maior vergonha. Abri as portas e convidei-a a entrar.
O simples acto de ligar o motor era um pesadelo. Empurrado por um grupo de cavalos enraivecidos, parecia querer levantar voo.
- Sim, senhor! Achas que isto tem potência suficiente?
Voltei a não responder, por mais vergonha e pelo barulho, que me deixou dúvidas se estaria a falar do carro.
Já em andamento, sabia ter chegado a altura de maior sofrimento. Na mudança correcta e sem acelerar em demasia, o ruído era bastante menor e convidava ao momento que me aterrorizava. Esperando, estavam as estranhas músicas que comprara e cujos nomes levei um dia inteiro a tentar decorar. Agora nada mais podia fazer. Passei os dedos pela consola do rádio adiando por segundos o inevitável. Então parei! Rezei em silêncio e escolhi as únicas verdadeiramente minhas e que tinha trazido por superstição. Era uma colectânea de músicas antigas, na sua maioria retiradas de filmes velhinhos e já esquecidos. Assim que os primeiros acordes se libertaram, voltei a respirar, sentido pela primeira vez o vento a passar baixinho. Sem temer olhei para o lado. No meio de um sorriso enorme pequenos versos saíram a cantarolar.
- És mesmo tolo. Espero que só tenhas pago um dia de aluguer!
- Obrigaram-me a pagar pelo fim-de-semana inteiro. Respondi baixinho.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
- Pelo menos não gastaste dinheiro naquelas músicas esquisitas de que me falaste ontem.
O riso chegou sem aviso e a sua mão não mais me deixou.
O perfume era quase tóxico. Quem me dera que fosse embora.
Ao sair reparei no fresco que se despedia da penumbra. Continuava nervoso e sem certezas. De nó que acompanha o estômago e um andar inventado à pouco tempo, entrei no carro alugado e esperei um pouco.
Nem era caro, para um desportivo negro e elegante. Hesitei nos dois lugares. Talvez fosse demasiado óbvio, mas acabei por ceder ao vendedor, empenhado em me ajudar.
Liguei a música e cerrei os lábios. Era só uma noite.
A ausência de capota era reconhecida como um erro, mas nada tinha a ver com o resto. Era genuína e permitia que respirasse. Acelerei como louco, avançando sem pensar.
Cheguei sem subtileza a uma rua muito iluminada. A enorme quantidade de pessoas obrigou-me a circular muito devagar, entre peles bronzeadas e odores confusos. Faltava pouco para que desaparecesse. Morreria à distância de uma camisola de marca, se tivesse escolhido o vermelho como transporte. Tudo estava tão errado.
Pensei na véspera. Nas horas passadas a conversar com as teclas. Ela tinha aparecido com um suave bater de porta ainda virtual. Recusou-se a partilhar o nome e passámos muito tempo a falar de estranhas músicas tocadas por grupos desconhecidos. A todos disse que sim. Sobre todos lancei comentários oportunos, enquanto procurava os seguintes plágios para opinião forçada, que jamais poderia reconhecer como minha.
Combinámos um encontro logo para a noite seguinte, enamorados pelas melodias que partilhávamos num estranho top imaginado. E era tudo mentira! Principalmente a fortuna gasta em melodias que agora me atormentavam, espalhando comentários à minha volta em quem me reconhecia como um igual. Era tão complicado o código de expressões e ginástica de mãos e dedos, que optei por pequenos sorrisos e um leve acenar de cabeça, para variar, quando os músculos da face começavam a doer.
Cheguei finalmente ao local escolhido. Era uma esquina em que ainda não acreditava e as pistas que procurava, escassas e assustadoras. Dissera que esperaria por mim num carro cinzento inconfundível, que ocuparia de certeza lugar na única esquina das redondezas. A arquitectura pouco convencional do lugar, transformou em fácil demanda a identificação do sitio e o que vi em seguida, confirmou o mergulho para a dor.
Estacionada estava uma carrinha cinzenta muito antiga e a cair de podre. Também não tinha capota, mas essa parecia ter sido arrancada por um obstáculo em considerável erro de cálculo. Lá dentro…ninguém. Parei o carro e avancei. Já não tinha nada a perder e fazia-me bem deixar de ouvir aquela música que não escolhera.
Ao perto, era uma visão ainda mais incrível. Não tinha agora dúvidas que o tejadilho havia sido serrado, ou cortado, transformando uma antiga carrinha suburbana, no descapotável mais medonho que alguma vez vira. Por momentos achei que ia começar a chorar, quando senti uma mão nas minhas costas.
- O senhor não está a pensar em assaltar-me o carro pois não?
Voltei-me para encontrá-la, obrigando aquela lágrima a regressar ao seu posto.
Tinha o cabelo muito comprido, mas apanhado de forma confusa num emaranhado de ganchos e fitas de várias cores. A pele não estava pintada e não pude reparar na roupa, antes que me dissesse.
- Vamos? Onde tens o carro?
Devolvendo três beijos consegui articular?
- Não preferes ir no teu?
Ela sorriu enquanto me dava a mão de forma carinhosa, sem responder.
O sorriso foi dando lugar a um silencio estranho enquanto nos aproximávamos do carro, agora ainda mais desajustado que podia imaginar, e que só um raro momento de demência justificaria.
Ela só conseguiu murmurar.
– Tu deves estar a brincar. Esta coisa é tua?
Não respondi. Se o fizesse seria em descontrolo total e maior vergonha. Abri as portas e convidei-a a entrar.
O simples acto de ligar o motor era um pesadelo. Empurrado por um grupo de cavalos enraivecidos, parecia querer levantar voo.
- Sim, senhor! Achas que isto tem potência suficiente?
Voltei a não responder, por mais vergonha e pelo barulho, que me deixou dúvidas se estaria a falar do carro.
Já em andamento, sabia ter chegado a altura de maior sofrimento. Na mudança correcta e sem acelerar em demasia, o ruído era bastante menor e convidava ao momento que me aterrorizava. Esperando, estavam as estranhas músicas que comprara e cujos nomes levei um dia inteiro a tentar decorar. Agora nada mais podia fazer. Passei os dedos pela consola do rádio adiando por segundos o inevitável. Então parei! Rezei em silêncio e escolhi as únicas verdadeiramente minhas e que tinha trazido por superstição. Era uma colectânea de músicas antigas, na sua maioria retiradas de filmes velhinhos e já esquecidos. Assim que os primeiros acordes se libertaram, voltei a respirar, sentido pela primeira vez o vento a passar baixinho. Sem temer olhei para o lado. No meio de um sorriso enorme pequenos versos saíram a cantarolar.
- És mesmo tolo. Espero que só tenhas pago um dia de aluguer!
- Obrigaram-me a pagar pelo fim-de-semana inteiro. Respondi baixinho.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
- Pelo menos não gastaste dinheiro naquelas músicas esquisitas de que me falaste ontem.
O riso chegou sem aviso e a sua mão não mais me deixou.
quinta-feira, agosto 11, 2005
Tantas cores...
Cheguei muito cedo. Mas tinha a certeza. Acho que estava a tremer um pouco, do muito nervosismo, misturado com sonho. Perguntaram-me se era a primeira vez. Não basta assumir a pele como destino. Havia que esperar a dor. Se foi intensa, perdi-a nas horas e mais meia. A música levou-me bem dentro de um local que desconhecia…e suspirei pelas cores…Eram elas as mais fortes.
Ficará para sempre comigo, agora que a reencontrei.
Ficará para sempre comigo, agora que a reencontrei.
A motoreta, o atrelado, a abóbora e o fardo de palha…
Andar à deriva é tão diferente. E podemos continuar sem preocupações…
Derretendo a memória até que fique tão fina. Que nos deixe passar…espreitar e rir…
Ontem foi um desses dias. Em que acordamos e os olhinhos não querem fechar, já sabendo que não o farão.
Ficamos a percorrer estradas que não são de terra. Ficamos a pensar na ternura e outras letras menos brilhantes. É incrivelmente belo, diria que feito de momentos, em que já só sai uma raiva tão calma e sem nexo. Depois pensamos com menos clareza, pois o cansaço não ajuda, apesar do que dizem. Lembramo-nos de que nos torce. Do que nos faz sofrer. Arriscamos uma lágrima que não chega a sair, porque percebemos que é relativa.
Era confuso, mas de gigante…poder abandonar tremores demasiado complexos. E poder saltar, mas baixinho…perante o que não é tão forte e só vive da nossa teimosia em continuar.
Depois, ainda de olhos abertos, olhei para fora de mim. Passava um ser estranho. Um homem conduzia uma motoreta com um atrelado. Dentro trazia uma abóbora e um fardo de palha.
Parecia feliz!!
Derretendo a memória até que fique tão fina. Que nos deixe passar…espreitar e rir…
Ontem foi um desses dias. Em que acordamos e os olhinhos não querem fechar, já sabendo que não o farão.
Ficamos a percorrer estradas que não são de terra. Ficamos a pensar na ternura e outras letras menos brilhantes. É incrivelmente belo, diria que feito de momentos, em que já só sai uma raiva tão calma e sem nexo. Depois pensamos com menos clareza, pois o cansaço não ajuda, apesar do que dizem. Lembramo-nos de que nos torce. Do que nos faz sofrer. Arriscamos uma lágrima que não chega a sair, porque percebemos que é relativa.
Era confuso, mas de gigante…poder abandonar tremores demasiado complexos. E poder saltar, mas baixinho…perante o que não é tão forte e só vive da nossa teimosia em continuar.
Depois, ainda de olhos abertos, olhei para fora de mim. Passava um ser estranho. Um homem conduzia uma motoreta com um atrelado. Dentro trazia uma abóbora e um fardo de palha.
Parecia feliz!!
sábado, agosto 06, 2005
A tatuagem perdida...
Perdi a minha tatuagem. Nem vale a pena chorar ou pensar que foi um sonho. Está perdida para sempre. Lembro-me de ver o amarelo a sair de repente. O verde resistiu um pouco mais, preso a um vermelho teimoso. Seguraram-se com raiva ao contorno que conquistou os anos.
Deve ter sido quando me voltei de repente. Nunca mudaria de direcção se não te olhasse, se não te visse em sombras.
Que posso fazer…?
Deve ter sido quando me voltei de repente. Nunca mudaria de direcção se não te olhasse, se não te visse em sombras.
Que posso fazer…?
terça-feira, agosto 02, 2005
Mestre...
Ao mestre tudo devo,
recordando o que ainda vou ler.
Dançando em palavras,
sorrindo com um tolo.
Recuperei a alegria de pensar.
De afastar cortinas e respirar.
O pó já nem existe,
nem me obriga a esperar.
Pequenas letras podem nascer,
para que corra no impossível.
recordando o que ainda vou ler.
Dançando em palavras,
sorrindo com um tolo.
Recuperei a alegria de pensar.
De afastar cortinas e respirar.
O pó já nem existe,
nem me obriga a esperar.
Pequenas letras podem nascer,
para que corra no impossível.
O segredo...
Já esqueci…E até foi fácil. É sempre, quando não prendemos.
E mesmo perante o que já não lembro…fico a pensar…
Não deve existir obrigação. Até podia fingir, não dizendo a verdade.
Só ao revelar o olhar precisamos ter mais cuidado…
E agora já me deixo guiar, sempre pelo som e pelo cheiro imaginado.
Mas a confusão volta à nossa porta. É como um velho sem dentes…
Capaz de nos arrancar mais que uma verdade.
Um daqueles que faz chorar pepitas. Que não quer ir embora.
Haveria de continuar em tanta calma, se alguém deixasse.
E brilhava! Inspirado pela falta. Atirado com mais doçura.
É pura tolice enganar. Ao senti-lo devemos parar.
Não é tarefa de ciência e pouca arte. Por tal precisamos descansar.
Senti-la sair devagarinho. Não querer forçar o que se entreabre.E é tão verdade que de novo chegou…visitando-me em longos abraços…
E mesmo perante o que já não lembro…fico a pensar…
Não deve existir obrigação. Até podia fingir, não dizendo a verdade.
Só ao revelar o olhar precisamos ter mais cuidado…
E agora já me deixo guiar, sempre pelo som e pelo cheiro imaginado.
Mas a confusão volta à nossa porta. É como um velho sem dentes…
Capaz de nos arrancar mais que uma verdade.
Um daqueles que faz chorar pepitas. Que não quer ir embora.
Haveria de continuar em tanta calma, se alguém deixasse.
E brilhava! Inspirado pela falta. Atirado com mais doçura.
É pura tolice enganar. Ao senti-lo devemos parar.
Não é tarefa de ciência e pouca arte. Por tal precisamos descansar.
Senti-la sair devagarinho. Não querer forçar o que se entreabre.E é tão verdade que de novo chegou…visitando-me em longos abraços…
O peito...
O peito deixa-me dúvidas
e a curva vai dobrando o espírito.
Faz-me hesitar em sair,
tocando para que pare de sofrer.
Porque abres só para mim?
Porque me sonhas e abraças?
Envio a pele como a um moinho,
Acabo por ver e nem sentir.
E termino trocando o caminho.
e a curva vai dobrando o espírito.
Faz-me hesitar em sair,
tocando para que pare de sofrer.
Porque abres só para mim?
Porque me sonhas e abraças?
Envio a pele como a um moinho,
Acabo por ver e nem sentir.
E termino trocando o caminho.
Junto a ti...
Até podia escrever.
Até esperava pelo sono e por mais torpor.
Por ter medo e não gozar,
Para lembrar não podia ver,
nem recordar o contorno da cor.
Os braços senti-os logo, para os saber no final de dia.
Ao perfume fico e devo memória.
Tenho que ficar mais perto.
Até esperava pelo sono e por mais torpor.
Por ter medo e não gozar,
Para lembrar não podia ver,
nem recordar o contorno da cor.
Os braços senti-os logo, para os saber no final de dia.
Ao perfume fico e devo memória.
Tenho que ficar mais perto.
A lua torta...
Por tradição pude vê-la espreitando pela pequena janela. Estava torta. A Lua tinha nascido tão torta naquela noite mal começada. Porque seria? Pensei na resposta e na sua intranquilidade. Devo esperar o pior.
Depois sai para a rua, para caminhar e pensar.
Continuava lá no alto. Indelicadamente inclinada, apagando as sombras que muito se confundem com um melancólica expressão.
Nessa altura vi, descendo a rua estreita, uma bicicleta pequena, mas sem criança. Era cor-de-rosa com flores e uma campainha azul claro. Consegui segurá-la quando passou por mim. Fiquei parado, à espera de uma rapariga de totós encarnados a correr pelo seu tesouro, seguida por uma mãe assustada e quase zangada. Com sorte seria jovem, esperando um seu igual, ao dobrar de uma esquina como esta.
Mas não! Quem apareceu foi um homem. Alto e bem vestido, em passo acelerado mas com tranquilidade aparente. Agradeceu-me e desculpou-se várias vezes. Ponderou a retribuição material e largou a ideia percebendo os sinais. Despediu-se com educação e partiu.
Olhou só uma vez para trás, acenando em serenidade. E eu fiquei ali. Não havia mais nada? Nem magia, nem tragédia ou qualquer curioso destino?
A normalidade doía-me como nunca. E enquanto afastava a vergonha da banalidade, ouvi um estrondo seguido se um estilhaçar de vidros. Olhei para cima e do primeiro andar do prédio onde o homem entrara, chegou a minha resposta. A bicicleta cor-de-rosa voava em direcção ao chão empedrado, depois de ter atravessado uma janela. Caiu acompanhada de milhares de vidros, a poucos metros de onde estava. Não sabia o que fazer. Apesar do barulho não havia ninguém à vista na rua e as janelas dos prédios vizinhos continuavam caladas.
Esperei uns momentos e comecei a caminhar, para logo parar. De novo o homem, que agora parecia ainda mais alto. Desta vez não estava tão tranquilo. Dirigiu-se a mim com um ar decidido mas ainda educado. Optou agora por ignorar os sinais e estendeu-me a mão com um punhado de notas. Guardei-as sem agradecer e fiquei em silêncio. Ele agarrou no que restava da bicicleta e voltou a entrar.
Liguei o telemóvel e marquei três números que não utilizaria, enquanto começava a caminhar. A porta do prédio, entreaberta, convidava-me a continuar. Aceitei sem hesitar e subi as escadas. No primeiro andar havia duas portas, mas uma delas estava em muito mau estado e com dezenas de cartas lutando por entrar no pouco espaço que ainda havia perto do chão. O imaginário obrigou-me a decidir pela opção mais óbvia e voltei-me para a outra porta.
Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado, esperando. Antes que a coragem voltasse, a porta abriu-se e o homem apareceu, ainda com a bicicleta e sem o espanto comum.
Colocou o metal retorcido no corredor, sorriu e convidou-me a entrar.
À parte do enorme estrago na janela, a casa estava arrumada e muito bem decorada. Tinha uma enorme sala com muitas portas que acompanhavam um circulo tosco de paredes com quadros coloridos. Sentámo-nos num sofá que ficava ao centro e ofereceu-me uma bebida. A recusa precipitou a conversa. Tinha quarenta e cinco anos e estava divorciado há três meses. A mulher tinha partido, levando a filha de ambos, única linha que mantinha com a paz há muito perdida. Em pleno tribunal agredira o seu próprio advogado, escapando por pouco à prisão, mas perdendo tudo o resto. A acusação de comportamento instável e potencialmente violento, foi facilmente aceite e o resto desmoronou.
Admitiu com ironia que bicicletas voando por janelas, não ajudam.
Perante a evidente encruzilhada, restava-me perguntar.
- Reparou que a Lua está torta?
Ele sorriu e confessou só para mim.
- Está assim desde que ela saiu. Entortou naquele preciso momento. Mas quase ninguém reparou. E mesmo você deve ter pensado que era por sua causa.
Tentei não corar e voltei às perguntas.
- Diga-me! Antes do tribunal, alguma vez tinha sido violento?
- Claro que não. Sabe bem que não.
A pergunta não tinha sentido. Sabia-o mesmo antes de a fazer. Fiquei mais uns minutos, sem algo acrescentar.
Desejei sorte sem convicção e saí.
Quando cheguei à rua olhei para cima. A Lua estava agora encoberta por uma nuvem. Sentei-me na entrada e esperei que passasse. Logo me levantei, com o satélite ainda tapado.Não precisei de a ver. Ainda estava torta. E nada podia fazer.
Depois sai para a rua, para caminhar e pensar.
Continuava lá no alto. Indelicadamente inclinada, apagando as sombras que muito se confundem com um melancólica expressão.
Nessa altura vi, descendo a rua estreita, uma bicicleta pequena, mas sem criança. Era cor-de-rosa com flores e uma campainha azul claro. Consegui segurá-la quando passou por mim. Fiquei parado, à espera de uma rapariga de totós encarnados a correr pelo seu tesouro, seguida por uma mãe assustada e quase zangada. Com sorte seria jovem, esperando um seu igual, ao dobrar de uma esquina como esta.
Mas não! Quem apareceu foi um homem. Alto e bem vestido, em passo acelerado mas com tranquilidade aparente. Agradeceu-me e desculpou-se várias vezes. Ponderou a retribuição material e largou a ideia percebendo os sinais. Despediu-se com educação e partiu.
Olhou só uma vez para trás, acenando em serenidade. E eu fiquei ali. Não havia mais nada? Nem magia, nem tragédia ou qualquer curioso destino?
A normalidade doía-me como nunca. E enquanto afastava a vergonha da banalidade, ouvi um estrondo seguido se um estilhaçar de vidros. Olhei para cima e do primeiro andar do prédio onde o homem entrara, chegou a minha resposta. A bicicleta cor-de-rosa voava em direcção ao chão empedrado, depois de ter atravessado uma janela. Caiu acompanhada de milhares de vidros, a poucos metros de onde estava. Não sabia o que fazer. Apesar do barulho não havia ninguém à vista na rua e as janelas dos prédios vizinhos continuavam caladas.
Esperei uns momentos e comecei a caminhar, para logo parar. De novo o homem, que agora parecia ainda mais alto. Desta vez não estava tão tranquilo. Dirigiu-se a mim com um ar decidido mas ainda educado. Optou agora por ignorar os sinais e estendeu-me a mão com um punhado de notas. Guardei-as sem agradecer e fiquei em silêncio. Ele agarrou no que restava da bicicleta e voltou a entrar.
Liguei o telemóvel e marquei três números que não utilizaria, enquanto começava a caminhar. A porta do prédio, entreaberta, convidava-me a continuar. Aceitei sem hesitar e subi as escadas. No primeiro andar havia duas portas, mas uma delas estava em muito mau estado e com dezenas de cartas lutando por entrar no pouco espaço que ainda havia perto do chão. O imaginário obrigou-me a decidir pela opção mais óbvia e voltei-me para a outra porta.
Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado, esperando. Antes que a coragem voltasse, a porta abriu-se e o homem apareceu, ainda com a bicicleta e sem o espanto comum.
Colocou o metal retorcido no corredor, sorriu e convidou-me a entrar.
À parte do enorme estrago na janela, a casa estava arrumada e muito bem decorada. Tinha uma enorme sala com muitas portas que acompanhavam um circulo tosco de paredes com quadros coloridos. Sentámo-nos num sofá que ficava ao centro e ofereceu-me uma bebida. A recusa precipitou a conversa. Tinha quarenta e cinco anos e estava divorciado há três meses. A mulher tinha partido, levando a filha de ambos, única linha que mantinha com a paz há muito perdida. Em pleno tribunal agredira o seu próprio advogado, escapando por pouco à prisão, mas perdendo tudo o resto. A acusação de comportamento instável e potencialmente violento, foi facilmente aceite e o resto desmoronou.
Admitiu com ironia que bicicletas voando por janelas, não ajudam.
Perante a evidente encruzilhada, restava-me perguntar.
- Reparou que a Lua está torta?
Ele sorriu e confessou só para mim.
- Está assim desde que ela saiu. Entortou naquele preciso momento. Mas quase ninguém reparou. E mesmo você deve ter pensado que era por sua causa.
Tentei não corar e voltei às perguntas.
- Diga-me! Antes do tribunal, alguma vez tinha sido violento?
- Claro que não. Sabe bem que não.
A pergunta não tinha sentido. Sabia-o mesmo antes de a fazer. Fiquei mais uns minutos, sem algo acrescentar.
Desejei sorte sem convicção e saí.
Quando cheguei à rua olhei para cima. A Lua estava agora encoberta por uma nuvem. Sentei-me na entrada e esperei que passasse. Logo me levantei, com o satélite ainda tapado.Não precisei de a ver. Ainda estava torta. E nada podia fazer.
O sonho...
Não me lembro do que sonhei. Repeti o sonho três vezes e de nada serviu. Apenas ajudou a uma noite mal dormida. Tento agora, mas ébano roubado não permite.
E tinha a certeza de conseguir. Porque era estória tão brilhante. Capaz de me acordar…e fazer perder um equilíbrio, mas só um.
E tinha a certeza de conseguir. Porque era estória tão brilhante. Capaz de me acordar…e fazer perder um equilíbrio, mas só um.
segunda-feira, agosto 01, 2005
A inspiração...
A inspiração é na verdade algo que não controlamos e para se escrever dificilmente se toma essa decisão de forma consciente e sem receio de falhar…
Mas os pedidos, quando sinceros e meigos, obrigam a atravessar corajosamente quaisquer barreiras ou negras florestas que teimam em aprisionar velhas magias.
É fácil perceber a atracção que feitiços e lendas representam para o meu dia, muitas vezes desviando demasiado a atenção e provocando um doce esquecimento de um Mundo real, enfadonho e com beleza muito inferior.
Desde sempre desejei ser um aventureiro, acompanhado de uma espada reluzente e muita coragem para combater dragões, ou exércitos de gigantes com armaduras negras e enormes elmos em forma de caveira, semelhantes aos seus espíritos no interior.
Sonhava poder adormecer no início da noite e aparecer encantado noutra realidade, onde podia correr durante horas em busca de aventuras e tremer ao sentir cada gota de suor deixar o meu corpo, marcando o caminho como se de pózinhos mágicos se tratassem…
São estas crenças, maiores do que sonhos, que me ajudam a sorrir, embora por vezes com dificuldade em regressar à realidade que me assusta, e onde os exércitos estão mais escondidos ou camuflados.
E então aparece a música…
Simples notas permitem que os músculos relaxem e são um segredo milenar tantas vezes escondido, por representarem o mistério que tantos procuram.
Podemos então equilibramo-nos entre os dois Mundos, encontrando um feiticeiro no meio de uma multidão apressada, ou no trânsito de fim de dia.
Mas mais importante, nos deixam reconhecer a nossa princesa, presa não em torres que passam as nuvens, mas simplesmente por entre véus que escondem a sua identidade.
Podemos assim tocar a sua pele e senti-la tremer ao descobrir um olhar que conheceu em sonhos e encantamentos impossíveis de evitar.Quando finalmente se unem mãos delicadas e lábios rosa se encontram à distância de um beijo, tudo em redor fica parado, os dois Mundos harmoniosamente se juntam e de olhos fechados, podemos ouvir cada batida de um só coração.
Mas os pedidos, quando sinceros e meigos, obrigam a atravessar corajosamente quaisquer barreiras ou negras florestas que teimam em aprisionar velhas magias.
É fácil perceber a atracção que feitiços e lendas representam para o meu dia, muitas vezes desviando demasiado a atenção e provocando um doce esquecimento de um Mundo real, enfadonho e com beleza muito inferior.
Desde sempre desejei ser um aventureiro, acompanhado de uma espada reluzente e muita coragem para combater dragões, ou exércitos de gigantes com armaduras negras e enormes elmos em forma de caveira, semelhantes aos seus espíritos no interior.
Sonhava poder adormecer no início da noite e aparecer encantado noutra realidade, onde podia correr durante horas em busca de aventuras e tremer ao sentir cada gota de suor deixar o meu corpo, marcando o caminho como se de pózinhos mágicos se tratassem…
São estas crenças, maiores do que sonhos, que me ajudam a sorrir, embora por vezes com dificuldade em regressar à realidade que me assusta, e onde os exércitos estão mais escondidos ou camuflados.
E então aparece a música…
Simples notas permitem que os músculos relaxem e são um segredo milenar tantas vezes escondido, por representarem o mistério que tantos procuram.
Podemos então equilibramo-nos entre os dois Mundos, encontrando um feiticeiro no meio de uma multidão apressada, ou no trânsito de fim de dia.
Mas mais importante, nos deixam reconhecer a nossa princesa, presa não em torres que passam as nuvens, mas simplesmente por entre véus que escondem a sua identidade.
Podemos assim tocar a sua pele e senti-la tremer ao descobrir um olhar que conheceu em sonhos e encantamentos impossíveis de evitar.Quando finalmente se unem mãos delicadas e lábios rosa se encontram à distância de um beijo, tudo em redor fica parado, os dois Mundos harmoniosamente se juntam e de olhos fechados, podemos ouvir cada batida de um só coração.
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