sexta-feira, outubro 17, 2014

Onde estás?

João olhava para o telemóvel de forma desconfiada. Amar é sina, mas não sabia cumpri-la sorrindo, arrastado para um estado de ansiedade crescente e que doía. Deixou-se vencer e escreveu a mensagem – “Perdoas-me?”.
Esperou três segundos, não mais. Em dias de comunicação lenta, nem os servidores da senhora operadora teriam tempo para lhe entregar a pergunta. Enviou de novo e depois outra vez, que um ruído estranho lhe pôs dúvidas tecnológicas. Nada. Esperou, agora um pouco mais, e não recebeu resposta. Enervou-se, ficou roxo, ou pelo menos avermelhado. Nem tinha a porcaria do portátil ligada. Enquanto carregava no botão com o indicador direito, já tirava o tablet de uma pastinha negra que o protegia, ao tablet. Entrou no webmail e desatou a escrever, dúvidas, coisas e penas e explicações, depois apagou tudo – “Perdoas-me?”, foi o que enviou. O portátil ligara-se entretanto, mas ainda fazia barulho com as coisas que os sistemas operativos fazem para atualizar não sabemos o quê e reduzir o barulho da máquina, ao fim de dois minutos, às vezes um pouco mais. Abriu o Outlook, que demorou, porque as atualizações fazem-no lento, coitado, recebeu uma cópia da mensagem que enviou pelo webmail que voltou a enviar, desta vez no conforto de um email que parece mais fiável, este grava-se no disco, pensou. Nada. Não havia resposta. Onde estás?
Pegou no telemóvel, ainda olhou mais uma vez para o tablet, passou o dedo na horizontal e depois de cima para baixo. Abriu o sms, acedeu ao contacto dela, da Joana, escolheu a opção de fazer uma chamada e ficou ali a olhar para os cristais ou vidro e de olhos que refletiam ainda mais. Sentado numa das pontas de um sofá enorme, cor clara ou beije e anichou-se bem no lugar. Pelo canto do olhar percebeu-a a assoar-se, a ganhar consciência com o mundo, sem interesse nos anúncios e nas promoções. A enxugar as lágrimas do filme, ou da série, sabe-se lá do quê, concedendo-lhe uns centímetros de maior proximidade, abandonando a ponta oposta do mesmo sofá, enquanto lhe dizia:
- Juro-te que se me ligas, te parto o telefone.

terça-feira, outubro 07, 2014

A conversa em “chinês”?

Domingo à tarde, Estrada de Benfica. A maior parte do comércio está fechado, salvam-se um ou outro café e, claro, as lojas chinesas. São muitas. Quase que podemos medir a rua pelos metros que as separam. Candeeiro de leitura precisa-se, porque já ficou adiado por dias e daquele não passa. Uma, duas, três e nada. Ou melhor, muito, e candeeiros também, mas nada do que se pretende. A quarta era um pouco diferente, quase convidando a uma desistência prematura. “Esta tem pouca coisa”, dizia uma senhora para o marido. Mas do pouco lá estava ele, o candeeiro, simples, honesto, barato, adequado ao que dele se quer.
Uma lâmpada escolhida, que mais tarde se perceberia não ser boa para isto e direto ao balcão para pagar. A visão periférica é engraçada e útil. Permite-nos perceber quando uma senhora de meia-idade (meia-idade, atualmente, devem ser cinquentas e muitos), muito loura, com ares de leste, mas um português perfeito, nos parece estar a observar. E a observar muito bem. Num instante, sem aviso começa a senhora:
- Quando vejo piercings assim nesses sítios (lábio), fico sempre a pensar se não incomodarão em determinadas situações.
Resposta calma e educada:
- Olhe, não lhe sei responder, porque ainda é muito recente e não tive oportunidade de testar.
A senhora continua:
- E no sobrolho (referindo-se a outro piercing) é complicado.
- Sim, é possível...
- Pode causar cegueira – preveniu ela.
Sempre com calma, nova resposta:
- Pois. Mas há tanta coisa que eu não queria ver.
- E outras que gostaria de ver bem – disse ela muito convincente, antes de rematar – Muito boa tarde. E felicidades!

segunda-feira, outubro 06, 2014

#PicMeProject I 01 - Portugal

O primeiro tema do Projeto PIC ME, é Portugal. Tema difícil Carolina, por ser tão genérico. E os equilíbrios, ai os equilíbrios, entre a desejada originalidade e a tentativa de fuga (talvez desnecessária) de lugares muito comuns. E na dúvida, na insegurança da escolha, simplifico. Espero que gostem.

(acompanhem no blog Lucky 13)