João olhava para o telemóvel de forma desconfiada. Amar é sina, mas
não sabia cumpri-la sorrindo, arrastado para um estado de ansiedade crescente e
que doía. Deixou-se vencer e escreveu a mensagem – “Perdoas-me?”.
Esperou três segundos, não mais. Em dias de comunicação lenta, nem os
servidores da senhora operadora teriam tempo para lhe entregar a pergunta.
Enviou de novo e depois outra vez, que um ruído estranho lhe pôs dúvidas
tecnológicas. Nada. Esperou, agora um pouco mais, e não recebeu resposta.
Enervou-se, ficou roxo, ou pelo menos avermelhado. Nem tinha a porcaria do
portátil ligada. Enquanto carregava no botão com o indicador direito, já tirava
o tablet de uma pastinha negra que o protegia, ao tablet. Entrou no webmail e
desatou a escrever, dúvidas, coisas e penas e explicações, depois apagou tudo –
“Perdoas-me?”, foi o que enviou. O portátil ligara-se entretanto, mas ainda
fazia barulho com as coisas que os sistemas operativos fazem para atualizar não
sabemos o quê e reduzir o barulho da máquina, ao fim de dois minutos, às vezes
um pouco mais. Abriu o Outlook, que demorou, porque as atualizações fazem-no
lento, coitado, recebeu uma cópia da mensagem que enviou pelo webmail que
voltou a enviar, desta vez no conforto de um email que parece mais fiável, este
grava-se no disco, pensou. Nada. Não havia resposta. Onde estás?
Pegou no telemóvel, ainda olhou mais uma vez para o tablet, passou o
dedo na horizontal e depois de cima para baixo. Abriu o sms, acedeu ao contacto
dela, da Joana, escolheu a opção de fazer uma chamada e ficou ali a olhar para
os cristais ou vidro e de olhos que refletiam ainda mais. Sentado numa das
pontas de um sofá enorme, cor clara ou beije e anichou-se bem no lugar. Pelo
canto do olhar percebeu-a a assoar-se, a ganhar consciência com o mundo, sem
interesse nos anúncios e nas promoções. A enxugar as lágrimas do filme, ou da
série, sabe-se lá do quê, concedendo-lhe uns centímetros de maior proximidade,
abandonando a ponta oposta do mesmo sofá, enquanto lhe dizia:
- Juro-te que se me ligas, te parto o telefone.
