segunda-feira, setembro 29, 2014

Desafios...

Eu desafio, tu desafias, nós desafi(n)amos...
Quando o desafio do balde de água com gelo começou a ganhar expressão, desconfiei. A causa era justa, mas desconfiei. Havia ali qualquer coisa, parecia-me algo ligeiro. É verdade, a vida tem que ter risos, mesmo nos temas mais difíceis. Mas havia exagero. Seria secundário, pensei, passível de se ignorar (a ligeireza), perante uma causa de importância indiscutível? Refleti, mas continuava desconfiado, desconfortável. Depois percebi porquê. Era o divertimento, de quem aceitava baldes e os enviava a outros em desafio. Pareciam divertir-se demais, abafando a causa, deturpando o conceito. A ideia era alguém dispor-se a sofrer, a superar uma dificuldade, para que outros fossem beneficiados. Mas não. Não havia dificuldade aparente. Sobrepunha-se o riso e uma diversão estranha, que fazia esquecer o motivo. Mas seria mal menor, se mesmo em forma errada a iniciativa atingisse os seus objetivos. Deixem-nos brincar, se ajudarem, divertirem-se se essa for a fórmula. Mas as fórmulas e as formas têm destas coisas. Empestam e contagiam. E agora é ver um rol de desafios, passados entre uns e outros, qual meet, mas sem presença, sem centros comerciais. Desafio-te para isto e mais para aquilo. Sem objetivo, sem causa nem nada. Desafio-te e pronto. Sem penalidade, pasme-se, ou então de castigo imposto só de um lado, como na simplicidade adolescente. Desafio-te... senão pagas-me um jantar.

Era bom. Seria? Tanto faz. Se não há critério, é de aproveitar. Desafio-vos, a dizerem maravilhas de mim, a depositarem fortunas na minha conta. A partilharem fotos em bikini, para combater os dias mais cinzentos. Desafio-vos. Senão...

domingo, setembro 21, 2014

Se não escrevo é porque não falo. Porque a boca se destruiria se não a cuidasse...

É por isso que não me drogo. Já é suficiente... percebem? In a Swanlight.
Debaixo de uma luz indireta, deixo os dedos fazerem um pequeno ruído nas teclas do portátil, que já ninguém presta atenção a pequenos barulhos. O senhor canta e vai cantar até terminar o texto. É ele que me embrulha as memórias da noite anterior e me permite pensar uma vez mais que até podia ser a última vez. Mas não sei. Ao fim de tantas perceções, numas certo, enganando-me também, já não sei. Inchei o lábio e deitei coisinhas pretas, tão escuras, do sobrolho. Só há coisinhas assim tão escuras dentro dos pulmões dos bebés, que as cospem logo que nascem. E choram, claro, deve doer.
Alguém precisa que eu escreva? Digam-me. Não me importo, a sério. Eu faço-o, seja um poema ou uma canção. Seja uma despedida ou declaração. Uma nota de fim ou de princípio. Um verso? Não acreditam?

Raspo as linhas meu amor,
Quero fazê-lo sem temor.
Trata a vida e o som de mal,
Pede ajuda e escrevo a cal.

Na vila onde vivi nove anos ainda se caiavam as casas, algumas pelo menos. Devia ser uma vez por ano, lá para o verão. Havia uma rua muito comprida onde todas as portas tinham as chaves penduradas no lado de fora. De outra forma como se poderia entrar? Nas cidades não deixamos as casas abertas com medo que alguém entre. Temos que convidar, cada vez é mais difícil. É preciso fazer uma lista. Eu levo o vinho e tu fazes uma sobremesa. O não-sei-quantos compra pacotes de batata frita se for mais jovem, arrisca uma receita no forno se já passar dos trinta. Respondam todos que já criei um evento, também é possível dizer talvez...

terça-feira, setembro 16, 2014

Do amor...


Na verdade não tenho o que dizer, do amor. Ninguém tem. Imagina-se que se sabe, mas acho que não. Os sentidos, o sentir atrapalha muito, nos dois lados, no bom e no outro. Ninguém sabe, ou escreveria. Vendia ou oferecia a solução. Até me cansa pensar nele, no amor. É melhor esperar, andar despreocupado pela rua, inconsciente de um encontrão que podemos levar numa esquina. Ou nada. Sim, ou nada, esquinas e mais esquinas dobradas até escurecer e nada. Não sabemos. E assim resta esperar. Às vezes pensamos muito nisso, até nos convencemos que já percebemos. Que mau sinal. É uma armadilha, não é do verdadeiro. Esse não deixa pensar. Outras fingimos que não – “É quando mais facilmente aparece”, dizemos para enganar a ânsia (ânsia = Desejo ardente ou intenso; Comoção aflitiva do espírito que receia que uma coisa suceda ou não). Ufa. Ainda querem pensar?

segunda-feira, setembro 15, 2014

Sobre mim...


Pus-me a pensar...sobre mim. Desde que me entendo que penso muito. Quando era miúdo adorava que o sono não viesse logo, para poder ficar a sonhar acordado na cama, levando a imaginação para lugares distantes e cheios de vida. Em certas alturas este fascínio pelos sonhos, por certo me terá desequilibrado e até condicionado. Mas com equilíbrios e desequilíbrios que vamos tendo que gerir ao longo da vida, acaba por ficar, por ser definida uma essência, que no meu caso optei (teria outra alternativa?) por aceitar.
O que também gostava muito era de falar e de falar sobre mim, sobre o que penso, o que gosto, o que sou. Depois cansei-me um pouco. Cansei-me de me ouvir e fechei-me um pouquinho, procurando não me repetir.

Nos blogs não há um registo certo ou errado. Alguns escolhem partilhar mais de si que outros. Qualquer que seja a opção, ela é legítima. Mas pus-me a pensar... sobre mim. Sobre o que diria, o que escreveria se vos quisesse revelar algo mais de mim. E percebi que já não o faço com tanta facilidade. Nada de trágico. Talvez esteja até mais atento aos outros, ou às histórias que também são minhas (que também contam sobre mim), que nascem da imaginação que fui alimentando, naquelas noites em que retardava o sono. Fica, passando os dias e os anos, um rapaz, homem, duende, assustado e corajoso.

quarta-feira, setembro 10, 2014

Uma porta riscada...

Desculpem-me se já contei esta história. Às vezes acontece. Mas é ao passado que regresso uma vez mais. A um final de dia de outono, quando os dias já eram curtos. Não me lembro de ter frio, mas já era de noite e ainda estávamos na escola, por isso não podia ser verão. A informação tinha vindo de um dos rapazes. Não sei se por acaso ou inspiração, tinha descoberto o segredo, a chave que esperávamos, que todos queríamos conhecer, mesmo que não o admitíssemos. Quando não estávamos a jogar à bola, quando a adolescência já nos ia provocando umas coisas difíceis de resistir, conversávamos sobre elas. Uns mais envergonhados que outros, atirando com perguntas da forma mais disfarçada que podiam. Outros eram mais diretos, porque sabiam mais, ou reagiam assim à insegurança e riam alto, mas sem gozar com quem nada sabia. Não havia regra escrita e no entanto todos respeitavam. Não é coisa para se gozar, ninguém escapava aquela sensação de vazio, antes de começarmos a aprender.
O pequeno pavilhão ficava ao fundo, nas traseiras da escola. Nem era bem um pavilhão. Tinha uma sala para exercícios que não precisassem de muito espaço, um ou dois gabinetes e os balneários. Era cá fora que fazíamos a maior parte das aulas, num pavimento colocado para o efeito, mas que já revelava algum desgaste, ou problemas de fabrico, que com um calcanhar bem batido se conseguiam produzir pequenos buracos no chão. Mas ninguém se queixava. Era o que havia.
Alguém deve ter aparecido a correr, forçando o suor no fim de tarde fresco e escuro. Alguém deve ter aparecido de olhos a brilharem, com a informação que ouvimos, atentos, sem uma única interrupção. Por incompetência ou mera circunstância, o balneário feminino tinha uma porta de vidro que dava para o lado de fora. Por brilhante sorte, o vidro era normal, sem nada que o impedisse de mostrar o interior. Não era fosco, nem martelado. Não tinha aquelas películas que agora se usam para reduzir o calor. Nada. O problema não deve ter sido difícil de identificar, como um portal de magia que não cumpriria a sua função, de proteger as raparigas, que dentro tomavam banho, se vestiam, se despiam. Consigo imaginar o presidente do conselho diretivo aos gritos com alguém, que depois foi gritar com outro, que por sua vez ordenou a um coitado do fim da linha que resolvesse o assunto. A solução foi pura poesia, marcando o presente e o futuro, o nosso. Não havia películas? Nem dinheiro para trocar os vidros? Não importa, pinte-se a porta! Até disso me lembro, da pintura tosca, num branco sujo, pouco homogéneo, com marcas de um pincel gasto, numas linhas horizontais e oblíquas.
O erro, perdão, o golpe de sorte que mudaria as nossas vidas, foi uma simples troca de lado. O homem, que só os homens descuidam estes pormenores, que pintou o vidro, fê-lo do lado de fora, expondo a tinta aos elementos, ao sol e calor, à chuva e ao frio. E, mais do que a estes, antes que outros pudessem produzir algum efeito, foi outra coisa que nos abriu o mundo. Uma simples chave de casa, normal, nem sei de que casa, ou de quem. Uma chave manobrada com perícia, raspando, afastando pequenos pedacinhos da tinta branca, demasiado insignificantes para serem detetados por quem estava dentro, mas com a dimensão suficiente, o tamanho perfeito para encostar um olho, não mais, à vez pois claro, com sussurros e muito cuidado, que o castigo seria severo. Não o de sermos apanhados, mas a privação de pela primeira vez vermos aquilo com que já sonhávamos. Esperámos. Aguardámos que a escuridão envolvesse o pavilhão por completo, que a luz interior realçasse o fraco trabalho de pintura. Então, protegidos pela ausência de claridade no exterior que nos denunciaria, aproximámo-nos com os corações a baterem e as palmas das mãos frias, a transpirarem. Um de cada vez, rondando, sincronizados na mesma emoção, espreitámos pelos riscos onde faltava a tinta. Respirámos fundo, pressentindo que algo em nós iria mudar e vimos um mundo novo, que jamais pudemos esquecer.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Projeto PIC ME #1

O desafio foi da Carolina. A ideia do Projeto PIC ME ficou-me colada de imediato, sabia que ia escrever, perdão, contar histórias, mas de outra forma. Visual se quisermos ser literais, mas com espaço para a essência que é partilhada por todas as artes, quando se conta algo.
O objeto. Era preciso escolher com cuidado, com maior ou menor rigor, dependendo do papel que lhe queremos oferecer. Uma escolha, depois riscada, outra que aparece, sim é este o que vou usar. Ele e eu, eu e a visão que nos vai unir nesta jornada - V.

(acompanhem no blog Lucky 13)