sábado, agosto 30, 2014

Übermensch...

Se me levantasse agora de um salto e corresse para a varanda, se saltasse para o espaço apenas de ar, por certo me esborracharia na calçada lá em baixo, dois andares percorridos em queda livre. Por certo, quase certo, que nem Schrödinger me valia (não sejam preguiçosos).
Übermensch, por rigor, por não ser totalmente consensual a tradução. Em português talvez “além do humano”. Em inglês é “Superman”, que contagiou a partir de si (da língua e da cultura) as restantes traduções. Super-homem precisaria de ser então, para sobreviver sem males a uma queda da minha varanda, ou a um voo tentado se preferirem. Mais por influência da banda desenhada, que da filosofia, assim como na maior parte dos casos, pois também ela, a banda desenhada, condicionou a tradução e entendimento do conceito original. É normal. São mais simples, aparentemente, as histórias de super-heróis. Na verdade encerram enorme complexidade, densidade, pensamentos filosóficos tão potentes. Talvez sejam as cores, a ação, as lutas e os super-poderes que nos distraem, julgando-nos perante maior simplicidade e talvez seja assim mesmo. Quando reduzida a emoção não refletida (não é sempre?), a mais complexa das ideias parece um sopro, um pequeno sopro. Podemos senti-lo ou não, percebê-lo, às vezes entranhar sem nos darmos conta. E ele fica cá.
É assim com o super-homem, que deliciosa versão do que podia ser, arquétipo perfeito de tudo. Quais são os poderes? São os nossos, as nossas forças medianas num terráqueo, exponenciadas se viermos de Krypton. Mas são as mesmas. Temos força, ele (o ou um super-homem) tem mais. Vemos, ouvimos, cheiramos e ele também, mas mais, muito mais. Saltamos meio-metro, um metro e vinte, ele pula por cima de um prédio. E voa. Mas nós não voamos! Porque não? E o nosso maior salto, aquele que durou mais tempo. Talvez tenha sido um voo, apenas durou pouco. O dele parece não terminar.
Baralhou-nos, aos rapazes depois homens (um dia homens) o conceito, a ilusão do sobre-humano, perdão, do além do humano? Talvez, mas no fundo sabíamo-nos incapazes. Funcionava, funciona como um estímulo, uma motivação. Às vezes ainda sonhamos em poder voar, acordados ou a dormir. Não nos preocupamos muito com o conceito filosófico. Nem o conhecemos bem. Transcender-me? Ser superior? Queria era voar, ter força sobre-humana (aqui sim), visão raio-x. Sim, visão raio-x era ótimo. Quando muito ajuda (em sentido negativo), a lidar com o presente unisexo, onde perdemos orientação, sem papéis definidos, cada vez menos super, mesmo que fosse apenas uma ilusão. E era?
As raparigas, depois mulheres, mais cedo mulheres (muito mais cedo), não sonhavam em ser super, de poderes especiais e capa encarnada, bem entendido seja. Não sei se sonhavam, não posso dizê-lo. Em lugares-comuns fá-lo-iam, com príncipes e vidas perfeitas, ignorando os super-heróis, os super-homens, destinadas à desilusão, se esperassem demais, demais no sentido de irreal, não por desmerecimento. Isso dependeria de cada caso, delas e deles. Não sabiam que queríamos ser super-homens, nem sabem que às vezes ainda pensamos poder voar, alguns de nós, quando toda a casa já dorme, num último instante antes de abandonarmos a consciência. Por um momento perfeito, que para o ser também precisaria de imperfeições (como as fragilidades e vulnerabilidades a que todos os super-heróis estão sujeitos), sairia disparado da minha varanda, a cruzar os céus, a rasar oceanos e prados ainda frescos. Salvaria o mundo, salvar-nos-íamos a nós próprios, satisfeitos com a ilusão, a certeza, a sensação que não se pode explicar de ser, de sermos – Super-Homem.

terça-feira, agosto 19, 2014

Mondego...

Desta vez o título não é importante, ou pelo menos não espelha a escrita. É o nome da canção que estou a ouvir, porque é isso que faço para escrever. Não tenho qualquer ligação especial a Coimbra ou ao rio Mondego. Contaram-me uma vez uma história passada na semana da Queima, de um estudante demasiado embriagado que caiu ao rio no recinto onde se faziam as festas, ao longo do Mondego. Passou-se nos anos noventa, que foram um pouco descaraterizados, mas mesmo assim tomei como verdadeiro o que me contaram. Ao que parece uma rapariga atirou-se à água e salvou o jovem de se afogar sem brilho nem glória. E no final, em forma do mais bizarro dos agradecimentos invertidos, fez-lhe sexo oral. Sim, ela a ele, salvadora a salvado, credora a devedor.
Mas desvio-me e ainda por cima com histórias menores. Serão? Dizia que não tenho uma ligação a Coimbra. A minha irmã estudou lá, mas sem deixar marcas, para mim claro está. Bem, na verdade há uma ligação. Provavelmente não a vou esquecer. Mas faz parte daquelas histórias que não escrevo. Ficam de memória.

Tem-me acontecido isto ultimamente. Demora a chegar, demoram os temas a surgir, pelo menos neste registo. E mudo, mudo a meio o que pode ser irritante para quem lê, reconheço. Como posso compensar? Como?
Com uma história, claro, mas de futuro por uma vez, pela primeira vez? Quando for bem mais velho, já perto de fazer cinquenta e cinco anos.

Deixei crescer um fino bigode negro, forçado no tom com uma tinta própria que encontrei nas coisas do meu avô. Sim, porque a barba nos  homens começa a ficar branca muito cedo. O cabelo não precisa de tanto cuidado. Como que por milagre parou de cair e puxado para trás, brilhante a gel ou espuma, esconde o topo, a auréola que aos vinte e tal se anunciou, irritante, para ficar. Abandonei as tshirts e as gangas e comecei a andar sempre de fato, na maior parte do ano em cores escuras, em negro e cinza. Só quando os emigrantes começam a chegar me permito a mudar, por duas ou três semanas, vestindo as camisas largas daquele tecido especial que se usava no ultramar. Foi um tio-avô que me deixou uma dúzia em testamento, cremes, cinzentas e uma de um branco sujo, quase pérola. Cantava bem o meu tio, agora consigo perceber. Na altura fartávamos-nos de rir com a cantoria, no verão, quando a família se juntava na aldeia do interior algarvio. Havia um ribeiro artificial, guiado pelos muros baixos de pedra. Da pequena ponte saltavam uns rapazes, para pouco mais que um palmo de água. Que medo. Eu não seria capaz de o fazer. O meu tio aplaudia e depois largava a cantar. E nós torcíamos a vergonha e aproveitávamos para nos inclinarmos por cima das raparigas. Inspirávamos forte que as camisas eram demasiado fechadas, mesmo de verão e alguma coisa queríamos recordar. Acho que a M. gostava de mim. Talvez gostar seja forte demais, mas olhava de uma forma especial, com um brilho. Mas eu estraguei tudo. Numa tarde, resolvi espremer de uma só vez todas as borbulhas ou projetos de borbulha, que me apareciam na face. Que burrice. Fiquei com sangue pisado de tanto apertar. Ai se pudesse voltar atrás. Depois desisti de vez, por não saber ainda que para elas não é assim tão importante.
Tinha voltado a essa mesma aldeia, para dar um concerto. Conseguia ouvir o público do outro lado da cortina improvisada, nas festas da Nossa Senhora de qualquer coisa. Também eu canto bem, é o que dizem, talvez pela influência do meu tio-avô, que até o fino bigode de aparência italiana lhe copiei. Chamam-me, está na hora. Entro em passo firme no palco que até tem bom aspeto e sou recebido como um filho pródigo, uma celebridade da terra. Na fila da frente estão as duas únicas tias que ainda enganam a morte. Atiram-me palmas e beijinhos com as mãos e uns pequeninos lenços brancos. Ao lado, os filhos, os netos, tantos primos que não lhe fixo os nomes a todos e o presidente da junta, também familiar, inchado, orgulhoso, quase choroso, gritando o meu nome e logo a seguir a mandar calar.
O silêncio chegou, deixando a banda transformada em orquestra começar a tocar. Uma introdução média que me dava tempo para respirar e para olhar. Tentei esquivar-me dos dois holofotes e à pressa procurei no meio dos espetadores. Queria vê-la, saber se ali estava para me ouvir e ver. Estiquei os segundos, atrasando a realidade e tornado-a lenta, vasculhando face a face a multidão, à procura. O tempo apanhou-me e tive que soltar a voz, o timbre antigo muito parecido com o do meu tio. O equilíbrio era perfeito, até os grilos pareciam ter-se calado, para me honrar numa noite tão doce. Só ela faltou. E eu ali, tão definido e elegante, bem barbeado e sem marcas nem borbulhas. E eu ali tão só, cantando o Mondego.

sábado, agosto 16, 2014

A noite, o banco e o futuro...

Passei quase o dia inteiro a dormir. Ontem foi o meu último dia de trabalho, daquele trabalho. Devia doer-me o corpo por isso, acumulando dores de dezoito anos fechado em paredes, às vezes quatro. O jantar deixou-me com sensação de peso, apesar de não ter sido muito. Rebolei pelo sofá e pela outra cama até perto das onze da noite e de um pulo me decidi. Ia dar uma volta.
A noite estava fresca, com ares de beira-mar, boa para caminhar. Ainda pensei no carro, para ir mais longe, mas estava sem telemóvel e sem chave de mudar rodas. Ia lá ser hoje que tinha um furo, é pouco provável, mas a prudência empurrou-me para a rua do costume, legitimando o que já havia decidido. Poucos andavam por ali. Nem sei que feriado foi este, mas teve dons de desaparecimentos. E andei, pensei na recente decisão, na mudança mais profunda dos últimos tempos. Tornar-me escritor a tempo inteiro, que medo miak!? Não, claro que não. Alívio, orgulho na força, não exagerada, contida, com alguma dose de racionalidade. Menos heróica sim, mas de heroísmo ainda assim. De alguma coragem, pois então.
O medo só virá, se vier, lá mais para a frente, se não resultar, se não for o que pensei, se, se, se...
Que se lixe o se. Não vou ter medo. O primeiro passo é esse. Pô-lo de lado, como a morte. Porque falo nela. Porque não? É fascinante, não vos parece? Domina a vida e o nosso pensamento. É questão que marca e condiciona. Mas, na palavras da filosofia, não tem nada de mal. A não ser pela coisa que vem antes dela – o medo da mesma. É verdade e para um ateu ajuda tê-lo bem presente. Antero de Quental suicidou-se. Como Camilo Castelo Branco e Florbela Espanca. Como Woolf, Hemingway e Wallace. Como um senhor de uma aldeia perto de Viseu, que tinha uma padaria. Um dia deixou de querer viver. Olhava a massa de pão a ser enrolada pela máquina brilhante em inox e ficou triste. Já não era preciso ali. E foi enfiar a cabeça no forno, que esse sim ainda era antigo.
Sentei-me no banco, no mesmo dos namorados adolescentes, dos beijos que invejo. Agora já não há beijos assim, para mim. Tenho saudades. Mas enfim, também os tive, em verões à séria, em bancos e muros, onde era eu que me sentava. Ela anichava-se entre as minhas pernas, de pé.

Hoje mudo mais uma vez. Amanhã serei o mesmo e alguém novo. Serei eu...

quinta-feira, agosto 07, 2014

Chances are...

Não se deve escrever depois das duas da manhã. É difícil, quase impossível controlar o que dizemos. Às três chega a hora do diabo. Sim, ouvi num filme a preto e branco e nunca esqueci. Isso e que não se podem comer maçãs à noite. A meia-noite das bruxas pareceu-me doce então, pouco capaz de me fazer mal.
Há meia-hora atrás estava mais instável, parecia-me que ia escrever qualquer coisa de genial. E depois acalmei. Agora só revelo intimidades, mesmo que na puta da abstração, se quiser, porque a emoção não está cá. E será que consigo, será que quero? Vamos lá que preciso desentropecer os dedos.
Qual é o sentido, de amar (tinha que ser o amor?), qual o sentido de procurar? É tarde e estou baralhado com os verbos. Desculpem. Vale mais um sorriso ou um enorme caderno de encargos, de requisitos que de início nos parecem suficientes para dar segurança, não percebendo que o documento vai engrossando com os anos? Será que vale pena? Fomos feitos para uma pessoa só? Fuck it. Não me apetece escrever sobre isto. Estava a forçar o tema. Que digo então?
Vá, não tenhas medo de ser simples, de abandonar o negro, a sombra que parece ajudar a arte. Pensa no quarto de adolescente, no gira-discos que parecia uma nave espacial. Que deitava uma luz verde com capacidades curativas, que me acalmavam. Se olhar para dentro, consigo sentir a mesma, a perfeita e exacta paz naquele, num daqueles verões ribatejanos, onde o vento não se atrevia a passar. Com ela, mesmo sozinho, ficava no escuro a ouvir o disco vezes sem conta. Tinha que me levantar de vez em quando, mas não me importava. Não sentia a falta de uma tecnologia que ainda não existia. Só a simplicidade dos sonhos de rapaz bem acordado. Queria aventura. Não. Nessa altura acho que ainda não, queria coisas simples e pouco ambiciosas e talvez fosse mais feliz assim. Mesmo de janela fechada, podia imaginar o ar quente, o seu cheiro lá fora. Se não o sentiram aos dezasseis, talvez já não seja a mesma coisa. Eu senti, eu lembro-me. Ainda me enchia as narinas quando regressava aos fins de semana. Agora já não. É estranho. É mais presente na memória. Será que o ar mudou por lá? Não faz mal. Eu ainda me lembro.

Vês? Eu não te disse? Fixa esse sorriso duende, para poderes sempre recordar-te, voltar a ele...

terça-feira, agosto 05, 2014

O banco II...

Às vezes, mesmo que só às vezes, a magia aparece. E no meu bairro, o tempo pode mesmo voltar para trás...


sexta-feira, agosto 01, 2014

O banco...


Assim vejo da minha varanda, se me inclinar para baixo, arriscando-me a ficar sem óculos. Mas vale a pena, porque me inspira. Há alguns bancos na praceta, parecendo mais velhos do que são na realidade. Deve ter faltado verniz ou outra forma de os preservar. Mas disperso-me. Quase contava a vez que ia partindo as duas rótulas na madeira, porque olhava para uma rapariga carteira.
Desta vez não corri riscos, a não ser o dos óculos. Eles lá estavam sentados, mas isso podem ver. Ficaram quietos, acho que falavam baixinho. Não conseguia perceber o que diziam. Concentrei-me na distância, a que mantinham entre eles. Seria reveladora do que se passava, do seu estado de espírito? Estaria a imaginar coisas? Mas isso estou sempre.
Pensei que estavam zangados, sem gritaria nem algazarra, com respeito. É assim que se deve discutir e conversar. Mas por outro lado havia amargura, faltava som, falhava o toque. Estaria o momento perdido? A vida, uma vida inteira a caminhar para o fim sem sal nem sentido? Não podia ser. Preferiria gritos, abanões, recuos e avanços na madeira sem verniz, mas que lhes trouxesse de novo a dúvida e depois a certeza, um abraço ou um beijo na face. Mexam-se por favor!

Não se mexeram. Não saíram dos milímetros definidos para cada um e a voz continuou baixinho, impercetível. Depois a Dna. Lourdes tocou à minha porta e tive que ir abri-la. Não sei se continuou, se continuaram...