quarta-feira, fevereiro 19, 2014

A confissão...

Às vezes não conseguimos explicar. Detesto escrever sobre mim. Sentir-me uma adolescente de quinze ou dezasseis anos, a trocar papelinhos na aula de geografia. É exagerado e assusta o efeito catártico de peneirar a mente e deixar sair por palavras o que reprimimos no pensamento. Que horror. Sensação de medo, do feminino em mim, de que já me tinha livrado, do medo pois claro, que o feminino é para manter.

Padre Arménio espera no casúlo em madeira escura. Veio do Brasil há séculos, o móvel antigo. Ficou por ali sem ser preciso envernizar. Nem rangia o coitado, nem envelhecia ou envergonhava de tantas lágrimas e pedidos de desculpa. Da Noélia e seus vapores, de Maria e seus amores. Só esbranquiçava um pouco perto da almofada para os joelhos, onde a cascata de lágrimas acabava por aterrar. Haveria de lavá-la um dia, o sanguíneo Arménio, que masturbava a mente com tantas rendas e tules que lhe pediam perdão. Ai o perdão.
Espreitou cá para fora o rapaz, para ver quem faltava. Para se preparar. Remexendo nos sinais contrários que o corpo e o zelo lhe ofereciam e encarniçavam o rosto e as partes.

- Fernandinha. Ai Fernandinha que me trocas os dias e a vocação.

A Fernanda dos tombos, que desmaiava todos os domingos. Que lhe emprestava odor e vício à igreja matriz. Com um terço novinho, com menos contas, que queria apressar o rezar. Lá se ajoelhou a rapariga. Vinte e tantos anos a parecerem menos, nucas arrepiadas, a dela e a dele, o sinal da cruz a fazer ângulos no ar.

- Perdoe-me padre, porque pequei.

Meu deus, com minúscula para não ofender. Que pecado Fernanda? Que maldade ou sina podia provocar? Nada meu deus, ainda mais pequeno. Nada.
De branco a moça, de peito fechado, ondulando a renda do colo. Ai Fernandinha. Desse-lhe as mãos e veria. Sem pecados, sem profunda confusão.

- Boa tarde Dª Gertrudes. Então hoje veio sozinha?
- Vim sim, senhor padre. A Fernanda já abalou para Lisboa.