quinta-feira, janeiro 02, 2014

O bosque...

Pareciam-se mais com grades, as árvores tão chegadas umas às outras, com os ramos de cima de braço dado. Em baixo não acabara de crescer uma camada de ervas daninhas, acastanhadas por falta de sol.
Olhei um pouco e sentei-me perto. Nem conseguia ver por onde entrar. Esperei que a luz fosse deslocando as sombras horizontalmente, desfazendo e transformando as texturas na superfície dos troncos. Mas cada vez pareciam mais juntos, inexpugnáveis.
Ao pensar percebi que só entraria através do som, que à força de músculos não poderia ser. Mas que som? Que música, canção ou melodia, para afastar ou amolecer a madeira antiga e com ar robusto?
Atirei-lhe com música clássica. Embrulhei um monte de notas complexas, muito densas, pesadas e com arestas aguçadas. As árvores nem tremeram. Era melodia errada, cheia de falhas por ser difícil de interpretar.
Voltei a sentar-me. Esperei de novo. Olhei em redor, procurando outros tons. Mas o dia estava silencioso e as notas não vinham ter comigo.
Estaria a ser brando, feminino? Precisaria de entregar brutalidade, raiva, para romper a barreira irritante de natureza à minha frente. Puta que pariu as árvores, delgadas mas fortes, potentes e nada elegantes. Filhas da puta.
Calma. Tinha de me acalmar. E o ombro doía-me do encontrão que embalou a língua e o calão.
Meti as mãos nos bolsos, à procura. O blusão tinha tecido em excesso e perdia-me os pertences, enrolados uns nos outros. Mesmo no fundo senti uma forma alaranjada, com arestas que a faziam recordar. Um transístor. Um pequeno rádio a pilhas, esquecido no bolso interior esquerdo desde os meus catorze anos.
Já devia ter derretido, com o ácido das pilhas que sempre escorria ao fim de um tempo. Mas não. Brilhou na cor original, só um pouco mais pálido, com menos fulgor, só um pouco menos.
Seria possível? Não custava tentar. E lá girei a roda em plástico preto, serrilhada para melhor tração, devagar. Bem devagar.
Um clique e ligou, fez barulho, arranhou umas coisas à procura de som. E eu esperei.
Num nível médio a melodia entrou a meio, mas já completamente sintonizada, afinada. Alguém como tu, dizia ela, a menina arruivada, com voz de garganta. Adele entoava Someone Like You, pela segunda vez, porque já ia no segundo refrão. E continuou.
E eu olhei para o bosque, agora quase negro, expulsando a última luz que se atrevera a entrar. Olhei por simpatia, que não acreditei. Mas olhei.
Os troncos começaram a ondular. Sim, a ondular. A mexerem-se para os lados, ora sincronizados, ora a chocar sem muita força. Abrindo clareiras e arcos por onde a música e alguém não teriam dificuldade em entrar. Poisei o rádio no chão e apressei-me que os aparelhos antigos não repetem.
Enfiei a cabeça e o pescoço entre dois troncos mais grossos, volumosos até. E depois os ombros. Fiquei ali quase a cair ou a recuar, hesitando. Putas das árvores que cedem ao mundo moderno, comercial. Mas a melodia fica gravada, é verdade. E nem desgosto. Vicia e encanta como um qualquer bosque para onde queremos avançar, não sabendo o que guarda, o que nos aguarda.
De olhar lateral, torcendo o pescoço, já não consegui ver o rádio a cores. E deixei-me engolir pelos ramos e folhagens. É provável que não tenha ouvido mais nada…