sexta-feira, outubro 17, 2014

Onde estás?

João olhava para o telemóvel de forma desconfiada. Amar é sina, mas não sabia cumpri-la sorrindo, arrastado para um estado de ansiedade crescente e que doía. Deixou-se vencer e escreveu a mensagem – “Perdoas-me?”.
Esperou três segundos, não mais. Em dias de comunicação lenta, nem os servidores da senhora operadora teriam tempo para lhe entregar a pergunta. Enviou de novo e depois outra vez, que um ruído estranho lhe pôs dúvidas tecnológicas. Nada. Esperou, agora um pouco mais, e não recebeu resposta. Enervou-se, ficou roxo, ou pelo menos avermelhado. Nem tinha a porcaria do portátil ligada. Enquanto carregava no botão com o indicador direito, já tirava o tablet de uma pastinha negra que o protegia, ao tablet. Entrou no webmail e desatou a escrever, dúvidas, coisas e penas e explicações, depois apagou tudo – “Perdoas-me?”, foi o que enviou. O portátil ligara-se entretanto, mas ainda fazia barulho com as coisas que os sistemas operativos fazem para atualizar não sabemos o quê e reduzir o barulho da máquina, ao fim de dois minutos, às vezes um pouco mais. Abriu o Outlook, que demorou, porque as atualizações fazem-no lento, coitado, recebeu uma cópia da mensagem que enviou pelo webmail que voltou a enviar, desta vez no conforto de um email que parece mais fiável, este grava-se no disco, pensou. Nada. Não havia resposta. Onde estás?
Pegou no telemóvel, ainda olhou mais uma vez para o tablet, passou o dedo na horizontal e depois de cima para baixo. Abriu o sms, acedeu ao contacto dela, da Joana, escolheu a opção de fazer uma chamada e ficou ali a olhar para os cristais ou vidro e de olhos que refletiam ainda mais. Sentado numa das pontas de um sofá enorme, cor clara ou beije e anichou-se bem no lugar. Pelo canto do olhar percebeu-a a assoar-se, a ganhar consciência com o mundo, sem interesse nos anúncios e nas promoções. A enxugar as lágrimas do filme, ou da série, sabe-se lá do quê, concedendo-lhe uns centímetros de maior proximidade, abandonando a ponta oposta do mesmo sofá, enquanto lhe dizia:
- Juro-te que se me ligas, te parto o telefone.

terça-feira, outubro 07, 2014

A conversa em “chinês”?

Domingo à tarde, Estrada de Benfica. A maior parte do comércio está fechado, salvam-se um ou outro café e, claro, as lojas chinesas. São muitas. Quase que podemos medir a rua pelos metros que as separam. Candeeiro de leitura precisa-se, porque já ficou adiado por dias e daquele não passa. Uma, duas, três e nada. Ou melhor, muito, e candeeiros também, mas nada do que se pretende. A quarta era um pouco diferente, quase convidando a uma desistência prematura. “Esta tem pouca coisa”, dizia uma senhora para o marido. Mas do pouco lá estava ele, o candeeiro, simples, honesto, barato, adequado ao que dele se quer.
Uma lâmpada escolhida, que mais tarde se perceberia não ser boa para isto e direto ao balcão para pagar. A visão periférica é engraçada e útil. Permite-nos perceber quando uma senhora de meia-idade (meia-idade, atualmente, devem ser cinquentas e muitos), muito loura, com ares de leste, mas um português perfeito, nos parece estar a observar. E a observar muito bem. Num instante, sem aviso começa a senhora:
- Quando vejo piercings assim nesses sítios (lábio), fico sempre a pensar se não incomodarão em determinadas situações.
Resposta calma e educada:
- Olhe, não lhe sei responder, porque ainda é muito recente e não tive oportunidade de testar.
A senhora continua:
- E no sobrolho (referindo-se a outro piercing) é complicado.
- Sim, é possível...
- Pode causar cegueira – preveniu ela.
Sempre com calma, nova resposta:
- Pois. Mas há tanta coisa que eu não queria ver.
- E outras que gostaria de ver bem – disse ela muito convincente, antes de rematar – Muito boa tarde. E felicidades!

segunda-feira, outubro 06, 2014

#PicMeProject I 01 - Portugal

O primeiro tema do Projeto PIC ME, é Portugal. Tema difícil Carolina, por ser tão genérico. E os equilíbrios, ai os equilíbrios, entre a desejada originalidade e a tentativa de fuga (talvez desnecessária) de lugares muito comuns. E na dúvida, na insegurança da escolha, simplifico. Espero que gostem.

(acompanhem no blog Lucky 13)



segunda-feira, setembro 29, 2014

Desafios...

Eu desafio, tu desafias, nós desafi(n)amos...
Quando o desafio do balde de água com gelo começou a ganhar expressão, desconfiei. A causa era justa, mas desconfiei. Havia ali qualquer coisa, parecia-me algo ligeiro. É verdade, a vida tem que ter risos, mesmo nos temas mais difíceis. Mas havia exagero. Seria secundário, pensei, passível de se ignorar (a ligeireza), perante uma causa de importância indiscutível? Refleti, mas continuava desconfiado, desconfortável. Depois percebi porquê. Era o divertimento, de quem aceitava baldes e os enviava a outros em desafio. Pareciam divertir-se demais, abafando a causa, deturpando o conceito. A ideia era alguém dispor-se a sofrer, a superar uma dificuldade, para que outros fossem beneficiados. Mas não. Não havia dificuldade aparente. Sobrepunha-se o riso e uma diversão estranha, que fazia esquecer o motivo. Mas seria mal menor, se mesmo em forma errada a iniciativa atingisse os seus objetivos. Deixem-nos brincar, se ajudarem, divertirem-se se essa for a fórmula. Mas as fórmulas e as formas têm destas coisas. Empestam e contagiam. E agora é ver um rol de desafios, passados entre uns e outros, qual meet, mas sem presença, sem centros comerciais. Desafio-te para isto e mais para aquilo. Sem objetivo, sem causa nem nada. Desafio-te e pronto. Sem penalidade, pasme-se, ou então de castigo imposto só de um lado, como na simplicidade adolescente. Desafio-te... senão pagas-me um jantar.

Era bom. Seria? Tanto faz. Se não há critério, é de aproveitar. Desafio-vos, a dizerem maravilhas de mim, a depositarem fortunas na minha conta. A partilharem fotos em bikini, para combater os dias mais cinzentos. Desafio-vos. Senão...

domingo, setembro 21, 2014

Se não escrevo é porque não falo. Porque a boca se destruiria se não a cuidasse...

É por isso que não me drogo. Já é suficiente... percebem? In a Swanlight.
Debaixo de uma luz indireta, deixo os dedos fazerem um pequeno ruído nas teclas do portátil, que já ninguém presta atenção a pequenos barulhos. O senhor canta e vai cantar até terminar o texto. É ele que me embrulha as memórias da noite anterior e me permite pensar uma vez mais que até podia ser a última vez. Mas não sei. Ao fim de tantas perceções, numas certo, enganando-me também, já não sei. Inchei o lábio e deitei coisinhas pretas, tão escuras, do sobrolho. Só há coisinhas assim tão escuras dentro dos pulmões dos bebés, que as cospem logo que nascem. E choram, claro, deve doer.
Alguém precisa que eu escreva? Digam-me. Não me importo, a sério. Eu faço-o, seja um poema ou uma canção. Seja uma despedida ou declaração. Uma nota de fim ou de princípio. Um verso? Não acreditam?

Raspo as linhas meu amor,
Quero fazê-lo sem temor.
Trata a vida e o som de mal,
Pede ajuda e escrevo a cal.

Na vila onde vivi nove anos ainda se caiavam as casas, algumas pelo menos. Devia ser uma vez por ano, lá para o verão. Havia uma rua muito comprida onde todas as portas tinham as chaves penduradas no lado de fora. De outra forma como se poderia entrar? Nas cidades não deixamos as casas abertas com medo que alguém entre. Temos que convidar, cada vez é mais difícil. É preciso fazer uma lista. Eu levo o vinho e tu fazes uma sobremesa. O não-sei-quantos compra pacotes de batata frita se for mais jovem, arrisca uma receita no forno se já passar dos trinta. Respondam todos que já criei um evento, também é possível dizer talvez...

terça-feira, setembro 16, 2014

Do amor...


Na verdade não tenho o que dizer, do amor. Ninguém tem. Imagina-se que se sabe, mas acho que não. Os sentidos, o sentir atrapalha muito, nos dois lados, no bom e no outro. Ninguém sabe, ou escreveria. Vendia ou oferecia a solução. Até me cansa pensar nele, no amor. É melhor esperar, andar despreocupado pela rua, inconsciente de um encontrão que podemos levar numa esquina. Ou nada. Sim, ou nada, esquinas e mais esquinas dobradas até escurecer e nada. Não sabemos. E assim resta esperar. Às vezes pensamos muito nisso, até nos convencemos que já percebemos. Que mau sinal. É uma armadilha, não é do verdadeiro. Esse não deixa pensar. Outras fingimos que não – “É quando mais facilmente aparece”, dizemos para enganar a ânsia (ânsia = Desejo ardente ou intenso; Comoção aflitiva do espírito que receia que uma coisa suceda ou não). Ufa. Ainda querem pensar?

segunda-feira, setembro 15, 2014

Sobre mim...


Pus-me a pensar...sobre mim. Desde que me entendo que penso muito. Quando era miúdo adorava que o sono não viesse logo, para poder ficar a sonhar acordado na cama, levando a imaginação para lugares distantes e cheios de vida. Em certas alturas este fascínio pelos sonhos, por certo me terá desequilibrado e até condicionado. Mas com equilíbrios e desequilíbrios que vamos tendo que gerir ao longo da vida, acaba por ficar, por ser definida uma essência, que no meu caso optei (teria outra alternativa?) por aceitar.
O que também gostava muito era de falar e de falar sobre mim, sobre o que penso, o que gosto, o que sou. Depois cansei-me um pouco. Cansei-me de me ouvir e fechei-me um pouquinho, procurando não me repetir.

Nos blogs não há um registo certo ou errado. Alguns escolhem partilhar mais de si que outros. Qualquer que seja a opção, ela é legítima. Mas pus-me a pensar... sobre mim. Sobre o que diria, o que escreveria se vos quisesse revelar algo mais de mim. E percebi que já não o faço com tanta facilidade. Nada de trágico. Talvez esteja até mais atento aos outros, ou às histórias que também são minhas (que também contam sobre mim), que nascem da imaginação que fui alimentando, naquelas noites em que retardava o sono. Fica, passando os dias e os anos, um rapaz, homem, duende, assustado e corajoso.

quarta-feira, setembro 10, 2014

Uma porta riscada...

Desculpem-me se já contei esta história. Às vezes acontece. Mas é ao passado que regresso uma vez mais. A um final de dia de outono, quando os dias já eram curtos. Não me lembro de ter frio, mas já era de noite e ainda estávamos na escola, por isso não podia ser verão. A informação tinha vindo de um dos rapazes. Não sei se por acaso ou inspiração, tinha descoberto o segredo, a chave que esperávamos, que todos queríamos conhecer, mesmo que não o admitíssemos. Quando não estávamos a jogar à bola, quando a adolescência já nos ia provocando umas coisas difíceis de resistir, conversávamos sobre elas. Uns mais envergonhados que outros, atirando com perguntas da forma mais disfarçada que podiam. Outros eram mais diretos, porque sabiam mais, ou reagiam assim à insegurança e riam alto, mas sem gozar com quem nada sabia. Não havia regra escrita e no entanto todos respeitavam. Não é coisa para se gozar, ninguém escapava aquela sensação de vazio, antes de começarmos a aprender.
O pequeno pavilhão ficava ao fundo, nas traseiras da escola. Nem era bem um pavilhão. Tinha uma sala para exercícios que não precisassem de muito espaço, um ou dois gabinetes e os balneários. Era cá fora que fazíamos a maior parte das aulas, num pavimento colocado para o efeito, mas que já revelava algum desgaste, ou problemas de fabrico, que com um calcanhar bem batido se conseguiam produzir pequenos buracos no chão. Mas ninguém se queixava. Era o que havia.
Alguém deve ter aparecido a correr, forçando o suor no fim de tarde fresco e escuro. Alguém deve ter aparecido de olhos a brilharem, com a informação que ouvimos, atentos, sem uma única interrupção. Por incompetência ou mera circunstância, o balneário feminino tinha uma porta de vidro que dava para o lado de fora. Por brilhante sorte, o vidro era normal, sem nada que o impedisse de mostrar o interior. Não era fosco, nem martelado. Não tinha aquelas películas que agora se usam para reduzir o calor. Nada. O problema não deve ter sido difícil de identificar, como um portal de magia que não cumpriria a sua função, de proteger as raparigas, que dentro tomavam banho, se vestiam, se despiam. Consigo imaginar o presidente do conselho diretivo aos gritos com alguém, que depois foi gritar com outro, que por sua vez ordenou a um coitado do fim da linha que resolvesse o assunto. A solução foi pura poesia, marcando o presente e o futuro, o nosso. Não havia películas? Nem dinheiro para trocar os vidros? Não importa, pinte-se a porta! Até disso me lembro, da pintura tosca, num branco sujo, pouco homogéneo, com marcas de um pincel gasto, numas linhas horizontais e oblíquas.
O erro, perdão, o golpe de sorte que mudaria as nossas vidas, foi uma simples troca de lado. O homem, que só os homens descuidam estes pormenores, que pintou o vidro, fê-lo do lado de fora, expondo a tinta aos elementos, ao sol e calor, à chuva e ao frio. E, mais do que a estes, antes que outros pudessem produzir algum efeito, foi outra coisa que nos abriu o mundo. Uma simples chave de casa, normal, nem sei de que casa, ou de quem. Uma chave manobrada com perícia, raspando, afastando pequenos pedacinhos da tinta branca, demasiado insignificantes para serem detetados por quem estava dentro, mas com a dimensão suficiente, o tamanho perfeito para encostar um olho, não mais, à vez pois claro, com sussurros e muito cuidado, que o castigo seria severo. Não o de sermos apanhados, mas a privação de pela primeira vez vermos aquilo com que já sonhávamos. Esperámos. Aguardámos que a escuridão envolvesse o pavilhão por completo, que a luz interior realçasse o fraco trabalho de pintura. Então, protegidos pela ausência de claridade no exterior que nos denunciaria, aproximámo-nos com os corações a baterem e as palmas das mãos frias, a transpirarem. Um de cada vez, rondando, sincronizados na mesma emoção, espreitámos pelos riscos onde faltava a tinta. Respirámos fundo, pressentindo que algo em nós iria mudar e vimos um mundo novo, que jamais pudemos esquecer.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Projeto PIC ME #1

O desafio foi da Carolina. A ideia do Projeto PIC ME ficou-me colada de imediato, sabia que ia escrever, perdão, contar histórias, mas de outra forma. Visual se quisermos ser literais, mas com espaço para a essência que é partilhada por todas as artes, quando se conta algo.
O objeto. Era preciso escolher com cuidado, com maior ou menor rigor, dependendo do papel que lhe queremos oferecer. Uma escolha, depois riscada, outra que aparece, sim é este o que vou usar. Ele e eu, eu e a visão que nos vai unir nesta jornada - V.

(acompanhem no blog Lucky 13)



sábado, agosto 30, 2014

Übermensch...

Se me levantasse agora de um salto e corresse para a varanda, se saltasse para o espaço apenas de ar, por certo me esborracharia na calçada lá em baixo, dois andares percorridos em queda livre. Por certo, quase certo, que nem Schrödinger me valia (não sejam preguiçosos).
Übermensch, por rigor, por não ser totalmente consensual a tradução. Em português talvez “além do humano”. Em inglês é “Superman”, que contagiou a partir de si (da língua e da cultura) as restantes traduções. Super-homem precisaria de ser então, para sobreviver sem males a uma queda da minha varanda, ou a um voo tentado se preferirem. Mais por influência da banda desenhada, que da filosofia, assim como na maior parte dos casos, pois também ela, a banda desenhada, condicionou a tradução e entendimento do conceito original. É normal. São mais simples, aparentemente, as histórias de super-heróis. Na verdade encerram enorme complexidade, densidade, pensamentos filosóficos tão potentes. Talvez sejam as cores, a ação, as lutas e os super-poderes que nos distraem, julgando-nos perante maior simplicidade e talvez seja assim mesmo. Quando reduzida a emoção não refletida (não é sempre?), a mais complexa das ideias parece um sopro, um pequeno sopro. Podemos senti-lo ou não, percebê-lo, às vezes entranhar sem nos darmos conta. E ele fica cá.
É assim com o super-homem, que deliciosa versão do que podia ser, arquétipo perfeito de tudo. Quais são os poderes? São os nossos, as nossas forças medianas num terráqueo, exponenciadas se viermos de Krypton. Mas são as mesmas. Temos força, ele (o ou um super-homem) tem mais. Vemos, ouvimos, cheiramos e ele também, mas mais, muito mais. Saltamos meio-metro, um metro e vinte, ele pula por cima de um prédio. E voa. Mas nós não voamos! Porque não? E o nosso maior salto, aquele que durou mais tempo. Talvez tenha sido um voo, apenas durou pouco. O dele parece não terminar.
Baralhou-nos, aos rapazes depois homens (um dia homens) o conceito, a ilusão do sobre-humano, perdão, do além do humano? Talvez, mas no fundo sabíamo-nos incapazes. Funcionava, funciona como um estímulo, uma motivação. Às vezes ainda sonhamos em poder voar, acordados ou a dormir. Não nos preocupamos muito com o conceito filosófico. Nem o conhecemos bem. Transcender-me? Ser superior? Queria era voar, ter força sobre-humana (aqui sim), visão raio-x. Sim, visão raio-x era ótimo. Quando muito ajuda (em sentido negativo), a lidar com o presente unisexo, onde perdemos orientação, sem papéis definidos, cada vez menos super, mesmo que fosse apenas uma ilusão. E era?
As raparigas, depois mulheres, mais cedo mulheres (muito mais cedo), não sonhavam em ser super, de poderes especiais e capa encarnada, bem entendido seja. Não sei se sonhavam, não posso dizê-lo. Em lugares-comuns fá-lo-iam, com príncipes e vidas perfeitas, ignorando os super-heróis, os super-homens, destinadas à desilusão, se esperassem demais, demais no sentido de irreal, não por desmerecimento. Isso dependeria de cada caso, delas e deles. Não sabiam que queríamos ser super-homens, nem sabem que às vezes ainda pensamos poder voar, alguns de nós, quando toda a casa já dorme, num último instante antes de abandonarmos a consciência. Por um momento perfeito, que para o ser também precisaria de imperfeições (como as fragilidades e vulnerabilidades a que todos os super-heróis estão sujeitos), sairia disparado da minha varanda, a cruzar os céus, a rasar oceanos e prados ainda frescos. Salvaria o mundo, salvar-nos-íamos a nós próprios, satisfeitos com a ilusão, a certeza, a sensação que não se pode explicar de ser, de sermos – Super-Homem.

terça-feira, agosto 19, 2014

Mondego...

Desta vez o título não é importante, ou pelo menos não espelha a escrita. É o nome da canção que estou a ouvir, porque é isso que faço para escrever. Não tenho qualquer ligação especial a Coimbra ou ao rio Mondego. Contaram-me uma vez uma história passada na semana da Queima, de um estudante demasiado embriagado que caiu ao rio no recinto onde se faziam as festas, ao longo do Mondego. Passou-se nos anos noventa, que foram um pouco descaraterizados, mas mesmo assim tomei como verdadeiro o que me contaram. Ao que parece uma rapariga atirou-se à água e salvou o jovem de se afogar sem brilho nem glória. E no final, em forma do mais bizarro dos agradecimentos invertidos, fez-lhe sexo oral. Sim, ela a ele, salvadora a salvado, credora a devedor.
Mas desvio-me e ainda por cima com histórias menores. Serão? Dizia que não tenho uma ligação a Coimbra. A minha irmã estudou lá, mas sem deixar marcas, para mim claro está. Bem, na verdade há uma ligação. Provavelmente não a vou esquecer. Mas faz parte daquelas histórias que não escrevo. Ficam de memória.

Tem-me acontecido isto ultimamente. Demora a chegar, demoram os temas a surgir, pelo menos neste registo. E mudo, mudo a meio o que pode ser irritante para quem lê, reconheço. Como posso compensar? Como?
Com uma história, claro, mas de futuro por uma vez, pela primeira vez? Quando for bem mais velho, já perto de fazer cinquenta e cinco anos.

Deixei crescer um fino bigode negro, forçado no tom com uma tinta própria que encontrei nas coisas do meu avô. Sim, porque a barba nos  homens começa a ficar branca muito cedo. O cabelo não precisa de tanto cuidado. Como que por milagre parou de cair e puxado para trás, brilhante a gel ou espuma, esconde o topo, a auréola que aos vinte e tal se anunciou, irritante, para ficar. Abandonei as tshirts e as gangas e comecei a andar sempre de fato, na maior parte do ano em cores escuras, em negro e cinza. Só quando os emigrantes começam a chegar me permito a mudar, por duas ou três semanas, vestindo as camisas largas daquele tecido especial que se usava no ultramar. Foi um tio-avô que me deixou uma dúzia em testamento, cremes, cinzentas e uma de um branco sujo, quase pérola. Cantava bem o meu tio, agora consigo perceber. Na altura fartávamos-nos de rir com a cantoria, no verão, quando a família se juntava na aldeia do interior algarvio. Havia um ribeiro artificial, guiado pelos muros baixos de pedra. Da pequena ponte saltavam uns rapazes, para pouco mais que um palmo de água. Que medo. Eu não seria capaz de o fazer. O meu tio aplaudia e depois largava a cantar. E nós torcíamos a vergonha e aproveitávamos para nos inclinarmos por cima das raparigas. Inspirávamos forte que as camisas eram demasiado fechadas, mesmo de verão e alguma coisa queríamos recordar. Acho que a M. gostava de mim. Talvez gostar seja forte demais, mas olhava de uma forma especial, com um brilho. Mas eu estraguei tudo. Numa tarde, resolvi espremer de uma só vez todas as borbulhas ou projetos de borbulha, que me apareciam na face. Que burrice. Fiquei com sangue pisado de tanto apertar. Ai se pudesse voltar atrás. Depois desisti de vez, por não saber ainda que para elas não é assim tão importante.
Tinha voltado a essa mesma aldeia, para dar um concerto. Conseguia ouvir o público do outro lado da cortina improvisada, nas festas da Nossa Senhora de qualquer coisa. Também eu canto bem, é o que dizem, talvez pela influência do meu tio-avô, que até o fino bigode de aparência italiana lhe copiei. Chamam-me, está na hora. Entro em passo firme no palco que até tem bom aspeto e sou recebido como um filho pródigo, uma celebridade da terra. Na fila da frente estão as duas únicas tias que ainda enganam a morte. Atiram-me palmas e beijinhos com as mãos e uns pequeninos lenços brancos. Ao lado, os filhos, os netos, tantos primos que não lhe fixo os nomes a todos e o presidente da junta, também familiar, inchado, orgulhoso, quase choroso, gritando o meu nome e logo a seguir a mandar calar.
O silêncio chegou, deixando a banda transformada em orquestra começar a tocar. Uma introdução média que me dava tempo para respirar e para olhar. Tentei esquivar-me dos dois holofotes e à pressa procurei no meio dos espetadores. Queria vê-la, saber se ali estava para me ouvir e ver. Estiquei os segundos, atrasando a realidade e tornado-a lenta, vasculhando face a face a multidão, à procura. O tempo apanhou-me e tive que soltar a voz, o timbre antigo muito parecido com o do meu tio. O equilíbrio era perfeito, até os grilos pareciam ter-se calado, para me honrar numa noite tão doce. Só ela faltou. E eu ali, tão definido e elegante, bem barbeado e sem marcas nem borbulhas. E eu ali tão só, cantando o Mondego.

sábado, agosto 16, 2014

A noite, o banco e o futuro...

Passei quase o dia inteiro a dormir. Ontem foi o meu último dia de trabalho, daquele trabalho. Devia doer-me o corpo por isso, acumulando dores de dezoito anos fechado em paredes, às vezes quatro. O jantar deixou-me com sensação de peso, apesar de não ter sido muito. Rebolei pelo sofá e pela outra cama até perto das onze da noite e de um pulo me decidi. Ia dar uma volta.
A noite estava fresca, com ares de beira-mar, boa para caminhar. Ainda pensei no carro, para ir mais longe, mas estava sem telemóvel e sem chave de mudar rodas. Ia lá ser hoje que tinha um furo, é pouco provável, mas a prudência empurrou-me para a rua do costume, legitimando o que já havia decidido. Poucos andavam por ali. Nem sei que feriado foi este, mas teve dons de desaparecimentos. E andei, pensei na recente decisão, na mudança mais profunda dos últimos tempos. Tornar-me escritor a tempo inteiro, que medo miak!? Não, claro que não. Alívio, orgulho na força, não exagerada, contida, com alguma dose de racionalidade. Menos heróica sim, mas de heroísmo ainda assim. De alguma coragem, pois então.
O medo só virá, se vier, lá mais para a frente, se não resultar, se não for o que pensei, se, se, se...
Que se lixe o se. Não vou ter medo. O primeiro passo é esse. Pô-lo de lado, como a morte. Porque falo nela. Porque não? É fascinante, não vos parece? Domina a vida e o nosso pensamento. É questão que marca e condiciona. Mas, na palavras da filosofia, não tem nada de mal. A não ser pela coisa que vem antes dela – o medo da mesma. É verdade e para um ateu ajuda tê-lo bem presente. Antero de Quental suicidou-se. Como Camilo Castelo Branco e Florbela Espanca. Como Woolf, Hemingway e Wallace. Como um senhor de uma aldeia perto de Viseu, que tinha uma padaria. Um dia deixou de querer viver. Olhava a massa de pão a ser enrolada pela máquina brilhante em inox e ficou triste. Já não era preciso ali. E foi enfiar a cabeça no forno, que esse sim ainda era antigo.
Sentei-me no banco, no mesmo dos namorados adolescentes, dos beijos que invejo. Agora já não há beijos assim, para mim. Tenho saudades. Mas enfim, também os tive, em verões à séria, em bancos e muros, onde era eu que me sentava. Ela anichava-se entre as minhas pernas, de pé.

Hoje mudo mais uma vez. Amanhã serei o mesmo e alguém novo. Serei eu...

quinta-feira, agosto 07, 2014

Chances are...

Não se deve escrever depois das duas da manhã. É difícil, quase impossível controlar o que dizemos. Às três chega a hora do diabo. Sim, ouvi num filme a preto e branco e nunca esqueci. Isso e que não se podem comer maçãs à noite. A meia-noite das bruxas pareceu-me doce então, pouco capaz de me fazer mal.
Há meia-hora atrás estava mais instável, parecia-me que ia escrever qualquer coisa de genial. E depois acalmei. Agora só revelo intimidades, mesmo que na puta da abstração, se quiser, porque a emoção não está cá. E será que consigo, será que quero? Vamos lá que preciso desentropecer os dedos.
Qual é o sentido, de amar (tinha que ser o amor?), qual o sentido de procurar? É tarde e estou baralhado com os verbos. Desculpem. Vale mais um sorriso ou um enorme caderno de encargos, de requisitos que de início nos parecem suficientes para dar segurança, não percebendo que o documento vai engrossando com os anos? Será que vale pena? Fomos feitos para uma pessoa só? Fuck it. Não me apetece escrever sobre isto. Estava a forçar o tema. Que digo então?
Vá, não tenhas medo de ser simples, de abandonar o negro, a sombra que parece ajudar a arte. Pensa no quarto de adolescente, no gira-discos que parecia uma nave espacial. Que deitava uma luz verde com capacidades curativas, que me acalmavam. Se olhar para dentro, consigo sentir a mesma, a perfeita e exacta paz naquele, num daqueles verões ribatejanos, onde o vento não se atrevia a passar. Com ela, mesmo sozinho, ficava no escuro a ouvir o disco vezes sem conta. Tinha que me levantar de vez em quando, mas não me importava. Não sentia a falta de uma tecnologia que ainda não existia. Só a simplicidade dos sonhos de rapaz bem acordado. Queria aventura. Não. Nessa altura acho que ainda não, queria coisas simples e pouco ambiciosas e talvez fosse mais feliz assim. Mesmo de janela fechada, podia imaginar o ar quente, o seu cheiro lá fora. Se não o sentiram aos dezasseis, talvez já não seja a mesma coisa. Eu senti, eu lembro-me. Ainda me enchia as narinas quando regressava aos fins de semana. Agora já não. É estranho. É mais presente na memória. Será que o ar mudou por lá? Não faz mal. Eu ainda me lembro.

Vês? Eu não te disse? Fixa esse sorriso duende, para poderes sempre recordar-te, voltar a ele...

terça-feira, agosto 05, 2014

O banco II...

Às vezes, mesmo que só às vezes, a magia aparece. E no meu bairro, o tempo pode mesmo voltar para trás...


sexta-feira, agosto 01, 2014

O banco...


Assim vejo da minha varanda, se me inclinar para baixo, arriscando-me a ficar sem óculos. Mas vale a pena, porque me inspira. Há alguns bancos na praceta, parecendo mais velhos do que são na realidade. Deve ter faltado verniz ou outra forma de os preservar. Mas disperso-me. Quase contava a vez que ia partindo as duas rótulas na madeira, porque olhava para uma rapariga carteira.
Desta vez não corri riscos, a não ser o dos óculos. Eles lá estavam sentados, mas isso podem ver. Ficaram quietos, acho que falavam baixinho. Não conseguia perceber o que diziam. Concentrei-me na distância, a que mantinham entre eles. Seria reveladora do que se passava, do seu estado de espírito? Estaria a imaginar coisas? Mas isso estou sempre.
Pensei que estavam zangados, sem gritaria nem algazarra, com respeito. É assim que se deve discutir e conversar. Mas por outro lado havia amargura, faltava som, falhava o toque. Estaria o momento perdido? A vida, uma vida inteira a caminhar para o fim sem sal nem sentido? Não podia ser. Preferiria gritos, abanões, recuos e avanços na madeira sem verniz, mas que lhes trouxesse de novo a dúvida e depois a certeza, um abraço ou um beijo na face. Mexam-se por favor!

Não se mexeram. Não saíram dos milímetros definidos para cada um e a voz continuou baixinho, impercetível. Depois a Dna. Lourdes tocou à minha porta e tive que ir abri-la. Não sei se continuou, se continuaram...

terça-feira, julho 29, 2014

(Des)larguem-me... II ou não...

É muito raro comentar o que escrevi. Assumo alguma falta de simplicidade na forma e dou-lhe liberdade, à "pena", para falar. Mas tenho consciência que por vezes exegero e por isso abro uma exceção.
No meu último post, pode não ter ficado claro, mas a minha (vá lá) irritação era com outras redes, principalmente o Facebook. É verdade que os conteúdos e as partilhas podem ser bons ou maus, seja qual for o meio. E mesmo o conceito de bom e mau pode ser alvo de alguma subjetividade. Mas a experiência (a minha experiência) diz-me que em média os blogs são melhores que o Facebook. Pelo que lá se coloca, claro está, mas também muito pelo ambiente, pelo registo, pela própria natureza dos mesmos, que se prestam a uma realidade mais verdadeira mesmo, como já referi, quando nos deixamos ir pela imaginação.

Por isso, à medida que cresce o meu desancanto pelo Facebook e outros, renasce a satisfação por voltar a este meu cantinho e aos vossos, que vou reecontrando ou descobrindo.

domingo, julho 27, 2014

(Des)larguem-me...

Não vos aguento. (Des)larguem-me! Não quero saber das vossas férias, dos vossos gatos, do que foi o jantar, do que foi o almoço, dos vossos gatos, dos vossos filhos, das citações, dos jantares, do artesanato, das opiniões, das banalidades, sim das banalidades de tudo e nada que colam no ecrã, que só tem “vida” porque existem uma e outra rede que permitem essa existência sem substância.
Chamam-lhes redes sociais pela capilaridade, acho eu, pela possibilidade de nos ligarmos uns aos outros. Mas isso não acontece. Acontece? Um indivíduo médio não se liga a quem já conhece, mesmo que de raspão? A brutalidade de uma aparente transparência torna a realidade lenta, “emperrada”, incapaz de se mostrar nua, de arriscar. E como alguém notava um dia destes, em plena e constante felicidade, como atestam as fotos e as línguas de fora e as fotos com as línguas de fora. Não é estranho? Onde estão as mensagens de desespero, de medo, de tristeza? Onde está um post onde alguém mostra uma foto com cara de choro e confessa uma qualquer desgraça? Nada. Ou quase nada, num mar de perfeição maquilhada e cirurgias plásticas da psique.

E os blogs? Sim, os blogs. Por tudo isto as saudades, a preferência. Posso generalizar? Posso, com os riscos assumidos de tal opção. Sim, tinha saudades. Porque a verdade é outra. A densidade também. Num mundo que parece escondido, sem fotos e até nomes de identidade. Num território perfeito para a maior das mentiras (e talvez por isso mesmo), nasce a sinceridade mais profunda, a coerência com o que se sente, com o que se pensa, com a realidade, mesmo que imaginada. Sim, há pertença e empatias e zangas, desilusões e risos, ilusões e fascínio. Há vida.

quarta-feira, julho 23, 2014

Virginia...

Já era fascinado por ela antes de a conhecer, a sua história claro. A sua escrita. Parecia-me um quadro escuro, daqueles que nos puxam e afastam o olhar. Como seria Virginia Woolf na realidade, ouvida, vista, sentida? O seu fim é um pedaço de poesia, uma metáfora imensa, de cores outonais e água fria. Entendem?
Início de julho. Um dia acinzentado, o calor que não chega na sua plenitude. A esplanada é sobranceira ao mar, à pequena praia quase sem areia. Por meio de conversa e uma bebida quase não reparo nela. Eram poucos os que se descalçavam para esmagar grãos de areia que nem deviam estar muito quentes. Ela sentou-se perto da água, muito perto do limite médio das ondas, do espaço que iam molhando. Tudo isto eu não via de forma muito consciente. Devia ir notando pelo canto do olho, memorizando a cena, como se esperasse algo. De repente, a rapariga deita-se para trás, pernas estendidas para a frente, braços esticados ao lado do corpo, os pés a meros centímetros da última onda. Estava vestida. Tinha umas calças escuras e uma camisola sem mangas, descobrindo os ombros e o colo. Ali ficou, sem se importar, nem com a primeira água que a encharcou até meio do corpo e a segunda que se estendeu como um lençol onde parecia estar deitada. A estranheza invadiu a praia. Os nadadores salvadores esboçaram uma reação, hesitaram. Nós olhámos, comentámos, até rimos. Ela não estava ali. Demorou mais um pouco até se levantar e avançar mar a dentro, só um pouco, até à cintura. Veio-me de novo Virginia, enquanto ela fazia meias-luas com os dedos na água, como se dançasse.

Por fim voltou à areia, renovada, cheia de água e sal, calma, com movimentos lentos. Pegou na pequena mala e nos sapatos, que deixara a salvo um pouco mais a cima. Nunca olhou para o lado e abandonou a praia. Só me ocorre o rio, a coragem de terminar a história. Só me ocorre Virginia.


segunda-feira, julho 14, 2014

... (de um silêncio)

Por onde é que eu começo? Pela anarquia do pensamento, ainda sem ideia formada? Pela metodologia recente, a que me obrigo a aderir, que me afasta (talvez) de um mundo demasiado estranho até para mim?
Hoje sonhei e acordei e voltei a fazê-lo. Um a seguir ao outro, cada vez mais escuros, mas não perigosos, quero acreditar. Acordo com a sensação de limpeza, de que o cérebro lavou as ligações e empurrou para o lixo o inconsciente que de dia não quis nem poderia entender. E cansado mas limpo acordei. Recebi sol e água fria. Conversa e reencontros.

Ainda falta. Ainda não volto em plenitude de técnica e conteúdo. Mas é um início. Honesto, com boas possibilidades de ser dedicado. E sem me importar (por enquanto), com o que vai sair. São letras...?

sábado, julho 12, 2014

O regresso...

Perguntaram-me - Tens um blog? Parecia antiga, a questão. Já não se ouve como antes. Respondi que sim, quer dizer, que tinha, ou vou tendo...

Mas claro que tenho. E agora é tempo de regressar.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

A confissão...

Às vezes não conseguimos explicar. Detesto escrever sobre mim. Sentir-me uma adolescente de quinze ou dezasseis anos, a trocar papelinhos na aula de geografia. É exagerado e assusta o efeito catártico de peneirar a mente e deixar sair por palavras o que reprimimos no pensamento. Que horror. Sensação de medo, do feminino em mim, de que já me tinha livrado, do medo pois claro, que o feminino é para manter.

Padre Arménio espera no casúlo em madeira escura. Veio do Brasil há séculos, o móvel antigo. Ficou por ali sem ser preciso envernizar. Nem rangia o coitado, nem envelhecia ou envergonhava de tantas lágrimas e pedidos de desculpa. Da Noélia e seus vapores, de Maria e seus amores. Só esbranquiçava um pouco perto da almofada para os joelhos, onde a cascata de lágrimas acabava por aterrar. Haveria de lavá-la um dia, o sanguíneo Arménio, que masturbava a mente com tantas rendas e tules que lhe pediam perdão. Ai o perdão.
Espreitou cá para fora o rapaz, para ver quem faltava. Para se preparar. Remexendo nos sinais contrários que o corpo e o zelo lhe ofereciam e encarniçavam o rosto e as partes.

- Fernandinha. Ai Fernandinha que me trocas os dias e a vocação.

A Fernanda dos tombos, que desmaiava todos os domingos. Que lhe emprestava odor e vício à igreja matriz. Com um terço novinho, com menos contas, que queria apressar o rezar. Lá se ajoelhou a rapariga. Vinte e tantos anos a parecerem menos, nucas arrepiadas, a dela e a dele, o sinal da cruz a fazer ângulos no ar.

- Perdoe-me padre, porque pequei.

Meu deus, com minúscula para não ofender. Que pecado Fernanda? Que maldade ou sina podia provocar? Nada meu deus, ainda mais pequeno. Nada.
De branco a moça, de peito fechado, ondulando a renda do colo. Ai Fernandinha. Desse-lhe as mãos e veria. Sem pecados, sem profunda confusão.

- Boa tarde Dª Gertrudes. Então hoje veio sozinha?
- Vim sim, senhor padre. A Fernanda já abalou para Lisboa.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

O bosque...

Pareciam-se mais com grades, as árvores tão chegadas umas às outras, com os ramos de cima de braço dado. Em baixo não acabara de crescer uma camada de ervas daninhas, acastanhadas por falta de sol.
Olhei um pouco e sentei-me perto. Nem conseguia ver por onde entrar. Esperei que a luz fosse deslocando as sombras horizontalmente, desfazendo e transformando as texturas na superfície dos troncos. Mas cada vez pareciam mais juntos, inexpugnáveis.
Ao pensar percebi que só entraria através do som, que à força de músculos não poderia ser. Mas que som? Que música, canção ou melodia, para afastar ou amolecer a madeira antiga e com ar robusto?
Atirei-lhe com música clássica. Embrulhei um monte de notas complexas, muito densas, pesadas e com arestas aguçadas. As árvores nem tremeram. Era melodia errada, cheia de falhas por ser difícil de interpretar.
Voltei a sentar-me. Esperei de novo. Olhei em redor, procurando outros tons. Mas o dia estava silencioso e as notas não vinham ter comigo.
Estaria a ser brando, feminino? Precisaria de entregar brutalidade, raiva, para romper a barreira irritante de natureza à minha frente. Puta que pariu as árvores, delgadas mas fortes, potentes e nada elegantes. Filhas da puta.
Calma. Tinha de me acalmar. E o ombro doía-me do encontrão que embalou a língua e o calão.
Meti as mãos nos bolsos, à procura. O blusão tinha tecido em excesso e perdia-me os pertences, enrolados uns nos outros. Mesmo no fundo senti uma forma alaranjada, com arestas que a faziam recordar. Um transístor. Um pequeno rádio a pilhas, esquecido no bolso interior esquerdo desde os meus catorze anos.
Já devia ter derretido, com o ácido das pilhas que sempre escorria ao fim de um tempo. Mas não. Brilhou na cor original, só um pouco mais pálido, com menos fulgor, só um pouco menos.
Seria possível? Não custava tentar. E lá girei a roda em plástico preto, serrilhada para melhor tração, devagar. Bem devagar.
Um clique e ligou, fez barulho, arranhou umas coisas à procura de som. E eu esperei.
Num nível médio a melodia entrou a meio, mas já completamente sintonizada, afinada. Alguém como tu, dizia ela, a menina arruivada, com voz de garganta. Adele entoava Someone Like You, pela segunda vez, porque já ia no segundo refrão. E continuou.
E eu olhei para o bosque, agora quase negro, expulsando a última luz que se atrevera a entrar. Olhei por simpatia, que não acreditei. Mas olhei.
Os troncos começaram a ondular. Sim, a ondular. A mexerem-se para os lados, ora sincronizados, ora a chocar sem muita força. Abrindo clareiras e arcos por onde a música e alguém não teriam dificuldade em entrar. Poisei o rádio no chão e apressei-me que os aparelhos antigos não repetem.
Enfiei a cabeça e o pescoço entre dois troncos mais grossos, volumosos até. E depois os ombros. Fiquei ali quase a cair ou a recuar, hesitando. Putas das árvores que cedem ao mundo moderno, comercial. Mas a melodia fica gravada, é verdade. E nem desgosto. Vicia e encanta como um qualquer bosque para onde queremos avançar, não sabendo o que guarda, o que nos aguarda.
De olhar lateral, torcendo o pescoço, já não consegui ver o rádio a cores. E deixei-me engolir pelos ramos e folhagens. É provável que não tenha ouvido mais nada…