domingo, outubro 20, 2013

Under the moon.

Se nunca viste um peito adolescente, prateado pela luz da lua... volta para trás. Se não te recordas do cheiro dela, do aroma que ainda hoje parece colado às tuas mãos, de um creme primaveril, misturado com os dezasseis anos... tenta viver de novo, porque nada terá valido a pena. Como a recordação das aventuras com os amigos, os joelhos rasgados, as feridas a arderem com o pó e o suor, a memória dela nunca te abandonará. Se não a tiveres, talvez não estejas a fazer cá mais nada. A tua vida podia acabar agora, porque nunca vais saber como é, nunca vais entender. Eu tive sorte. Ainda me lembro de subir a rua inclinada, com ela ao meu lado, de mãos dadas. Tinha um vestido fresco, quando vocês só usavam calças e camisas fechadas até cima. Cheirava bem, adormecia-me os sentidos, simplificava a vida, obrigava-a a passar mais devagar. Não havia mais nada do que aquele dia, aquela semana. Se pudesse ter cristalizado a sensação tão primária, sem procura de significados... E do cheiro claro, que passou das mãos dela para as minhas, que à noite ainda sentia, que hoje ainda percebo na memória. Não sei se era o vestido às flores ou o azul claro. Esse nem tenho a certeza de existir. Só guardei o aroma. Hoje vocês já não cheiram assim. Desculpem, mas é verdade. São demasiadas fórmulas, químicas sofisticadas, com mil e uma funções, mas incapazes de guardar uma essência, de gerar uma memória. Como a minha. Voltem para trás!

quinta-feira, agosto 08, 2013

Peter Pan e o outro lado do muro.

O Pedro Mexia escreveu que a sua geração, que anda agora pelos quarenta (como eu), é “obcecada com a infância e a adolescência, uma geração de nostalgias precoces, de revivalismos patéticos” e que os homens, em particular, vivem um complexo de Peter Pan.
É verdade, ou pelo menos eu revejo-me nas palavras do Pedro. Suponho que também as outras gerações tenham estado expostas a este fenómeno, atendendo até à idade da obra de James Matthew Barrie. Mas seguramente com menos expressão, em homens muitas vezes obrigados a crescer prematuramente, ao contrário de nós que, em atraso legitimado pelas licenciaturas, pelas carreiras, pelo medo, vamos adiando o momento em que nos assumimos como adultos.
Ter filhos ajuda, não pela assunção da responsabilidade, mas pela consciência das diferentes perceções. Sim, somos em média mais próximos deles, do que aquilo que recordamos da nossa experiência pessoal enquanto filhos. Mas não na perceção, que no caso deles significa ver-nos, principalmente a partir da adolescência, como aquilo que afinal já somos há muito – adultos.
Mas então e as vantagens de um eterno espírito jovem? O meu avô morreu com oitenta e dois anos, mas cheio de juventude, de meninice saudável. E o medo? Temos medo de coisas que assustam. É normal. E crescer é do mais assustador que há. No meu caso, que preciso do mundo das ideias e dos sonhos, é também por aí que andam os meus medos. E se deixo de criar? Ai!
Mas recordo a minha visão da criatividade para serenar. Da desmistificação que defendo do processo criativo, confortável tanto num espírito atormentado e suicidário, como num indivíduo médio, aborrecido, sem existencialismos exagerados. Ou da convivência com a loucura, corrijo, da vivência paredes meias com ela, porque a sentimos na divisão ao lado quando, para criar, nos aventuramos a sair da realidade que conhecemos. Vejo a criatividade como um exercício de equilíbrio. Acompanhem-me, por favor! Imaginem que subimos para um muro. Do nosso lado está o mundo normal, aquilo que sabemos ser real. No outro é uma terra imaginada, de sonhos, de medos, de ideias. É lá que elas vivem, as ideias, e para podermos apanhar uma temos que nos inclinar. O problema é que as melhores estão mais afastadas do muro e obrigam-nos a inclinarmo-nos mais, a esticarmos o risco de cair ao limite da nossa coragem ou determinação. Sabemos, temos noção da queda eminente, ao tentar apanhar aquela (a ideia), tão longe, mas tão “perfeita”.
Permito-me olhar para o medo de crescer desta forma, porventura instável, mas pelo menos definida, de quem sabe que pode subir para um muro estreito, talvez mesmo colocar um pé do lado de lá, dos adultos, mas sem perder a magia dos momentos que nos trouxeram até aqui. Até porque, como nos ensina Peter Pan, “Cada vez que uma criança diz "Eu não acredito em fadas" em algum lugar uma pequenina fada cai morta no chão.” – É de evitar, não vos parece?