sexta-feira, junho 24, 2011

Em barras que ajudam...




Une fois... Quando chegou foi nas barras que reparou. Até aí eram apenas imaginadas, como os quadrados que lhes filtrariam o nascer do sol. Não pensou que fossem tão reais e ferrugentas, pedindo uma serra que as libertasse de serem prisão.

Tudo o que sentia era a dificuldade enorme em conseguir um sorriso de domingo. O tempo deixava-lhe opressões e uma angústia impossível de controlar. Todos os dias lutava com o tempo que nunca parecia abrandar. Já em pequeno ia sempre a correr para a escola e para todo o lado, por não aguentar o passar dos minutos que tentava encurtar, assim desejava, se acelerasse. Encore... conseguia um breve alívio, mas não total, por ter então que correr cada vez mais depressa e não resolver o problema, fechado nuns músculos das pernas cada vez maiores.

Tudo o que existia e demorava, mesmo em relatividade, o atormentava na espera e lhe oferecia desejos e planos para apressar a vida. Não conseguia apreciar qualquer momento pela precepção de que acabaria rapidamente. Achava-se em situações que eram felizes, mas em sofrimento profundo por senti-las fugir e avançar para o fim. Só havia pequenas exepções. Se algo era muito mau, parecia que demorava um pouco mais. Nos obrigatórios lanches da tia Rita, acalmava um pouquinho. A tortura de ouvir as mesmas três estórias, não entrava em conflito com a mania de apressar o tempo e não saber respeitá-lo. A missa era outro momento de relativa paz. Aborrecia-o profundamente o dogma e os gestos e deixava o impeto para correr sem tentativa de controlo. Para que tudo passasse depressa. Não eram perfeitas, mas ajudavam, estas exepções, a serenar o galopar que lhe cansava o músculo púrpura.

Até que um dia sonhou com a solução. Na secção de desporto do shopping havia uma loja de armas com um revólver que imitava em perfeição os de antigamente. O vendedor nem teve tempo de reagir. Antes de poder confirmar a licença que tinha forjado, já gritava com uma bala alojada numa das coxas. Ele chegou-se ao ouvido do pobre homem e segredou – Desculpe, sinceramente. Mas ajudou-me imenso.

A recusa em ter advogado, o constante despeite e uma inesperada tentativa de agressão do juiz, determinaram a setença. Vinte anos, com medidas de segurança especiais. Pediu para ser confinado a uma cela, sem direito a visitas e principalmente com a eliminação de relógios ou qualquer outro tipo de informação sobre o tempo. Já tarde, a horas que não podia identificar, deitou-se para trás na cama estreita alinhada com a janela de barras. E sentiu a ansiedade desaparecer.