terça-feira, julho 12, 2011

A serenidade...


Ele já me tinha dito uma vez a má sorte que o perseguia. Acho até que já o contei. Enviuvou prematuramente. Imagino que da mulher certa, de quem devia acompanhá-lo em noites estreladas e mantas multicolores. Mas a sorte não quis assim. Levou-lhe a companheira para noites mais escuras porque já não existem. Ele, em hábito antigo, pouco pensado, voltou a casar. Os olhos tremem quando admite o azar que desde então o acompanha. Estranhei na altura, ver aparecerem rugas numa face normalmente amigável. A dor devia ser imensa. Não podia estar a exagerar. Mas guardei uma ínfima parte de ignorância, por não conhecer o objecto de tanta raiva. Até há uns dias atrás. Entrei no estabelecimento onde ele trabalha e logo notei uma tensão no ar. Normalmente ficamos um pouco à conversa. A diferença de idades esbate-se na vida de bairro e até numa espécie de amizade de vizinhos. Mas dessa vez não. Estava nervoso, apressando-me, como se quisesse afastar-me da tormenta. Percebi ser a sua mulher. E de ínfima, a ignorância desapareceu por completo. A mulher era do mais irritante que podemos reconhecer. Baixinha, com uma permanente de cabeleireiro de esquina, boca arqueda para baixo, em birra constante. Entendi a sua dor. Um dia ou dois depois voltei a encontrá-la, espalhando de novo o clima de incómodo que parecia ser a sua sombra. Gritava de forma abrutalhada com uma criança, filha de uma cliente. Fazia-lhe ameaças e dizia coisas de que nem me lembro. Depois sairam todos, deixando-nos sós. O ambiente voltou rapidamente ao normal. Parece que o espaço ficou mais claro e o oxigénio ganhou coragem para regressar. Os músculos da cara voltaram ao normal e olhou para mim com uma expressão de desistência e desânimo. Como quem pergunta – Que fazer? E sentou-se no degrau da entrada a brincar com um par de nozes. Eu sentei-me ao seu lado, mas em silêncio.
- Fui mesmo burro. Confessou.
- E agora não há nada a fazer.
Nessa altura não pude deixar de falar, em pergunta incerta.
- Mas porque é que não se separa dela? Você assim não pode continuar.
Nem respondeu. Eram demasiado óbvias as razões e os medos. Então, de forma natural e plena de sentido, perguntei-lhe.
- E se a matássemos?
Acho que parou de respirar por uns segundos, mas sem esgar de dúvida ou espanto. Olhou-me uma e duas vezes para confirmar que não se tratava de uma brincadeira. Não havia maldade e por isso não a reconheceu, enfim reconhecendo uma saída.
- E como é que o podíamos fazer? Perguntou com dificuldade em esconder o entusiasmo.
- Acho que com uma pancada na cabeça. Ainda tem aquela marreta que me emprestou no mês passado?
- Tenho, tenho. Está ali guardada na cave. E saiu a coxear, para regressar com o objecto.
Era uma marreta das antigas. Dificilmente se percebe a função para a qual foi construída. Era demasiado pesada, com pouco equilibrio e até pouco prática para bater em alguém.
- Não sei... Não sei se consigo. Importava-se de ser o vizinho?
- Claro que não. Se lhe segurar bem nos braços, não demora mais que um segundo.
Ele ficou a olhar para a parte de metal já em ferrugem, acariciando o seu futuro.
- Acha que a devemos limpar? Questionou.
- Agora não vale a pena. Depois é melhor, para não deixar memórias.
A tarde ia terminando e ficámos em silêncio, observando os que passavam. Entre pensamentos encontrámos a serenidade.

sexta-feira, junho 24, 2011

Em barras que ajudam...




Une fois... Quando chegou foi nas barras que reparou. Até aí eram apenas imaginadas, como os quadrados que lhes filtrariam o nascer do sol. Não pensou que fossem tão reais e ferrugentas, pedindo uma serra que as libertasse de serem prisão.

Tudo o que sentia era a dificuldade enorme em conseguir um sorriso de domingo. O tempo deixava-lhe opressões e uma angústia impossível de controlar. Todos os dias lutava com o tempo que nunca parecia abrandar. Já em pequeno ia sempre a correr para a escola e para todo o lado, por não aguentar o passar dos minutos que tentava encurtar, assim desejava, se acelerasse. Encore... conseguia um breve alívio, mas não total, por ter então que correr cada vez mais depressa e não resolver o problema, fechado nuns músculos das pernas cada vez maiores.

Tudo o que existia e demorava, mesmo em relatividade, o atormentava na espera e lhe oferecia desejos e planos para apressar a vida. Não conseguia apreciar qualquer momento pela precepção de que acabaria rapidamente. Achava-se em situações que eram felizes, mas em sofrimento profundo por senti-las fugir e avançar para o fim. Só havia pequenas exepções. Se algo era muito mau, parecia que demorava um pouco mais. Nos obrigatórios lanches da tia Rita, acalmava um pouquinho. A tortura de ouvir as mesmas três estórias, não entrava em conflito com a mania de apressar o tempo e não saber respeitá-lo. A missa era outro momento de relativa paz. Aborrecia-o profundamente o dogma e os gestos e deixava o impeto para correr sem tentativa de controlo. Para que tudo passasse depressa. Não eram perfeitas, mas ajudavam, estas exepções, a serenar o galopar que lhe cansava o músculo púrpura.

Até que um dia sonhou com a solução. Na secção de desporto do shopping havia uma loja de armas com um revólver que imitava em perfeição os de antigamente. O vendedor nem teve tempo de reagir. Antes de poder confirmar a licença que tinha forjado, já gritava com uma bala alojada numa das coxas. Ele chegou-se ao ouvido do pobre homem e segredou – Desculpe, sinceramente. Mas ajudou-me imenso.

A recusa em ter advogado, o constante despeite e uma inesperada tentativa de agressão do juiz, determinaram a setença. Vinte anos, com medidas de segurança especiais. Pediu para ser confinado a uma cela, sem direito a visitas e principalmente com a eliminação de relógios ou qualquer outro tipo de informação sobre o tempo. Já tarde, a horas que não podia identificar, deitou-se para trás na cama estreita alinhada com a janela de barras. E sentiu a ansiedade desaparecer.