
Há mais um divórcio na minha família! Bem, na verdade já tem quase dois anos, mas só há pouco tempo os seus protagonistas finalmente foram viver em casas separadas. Já depois dos sessenta, reflectem uma realidade que olhamos com cada vez maior espanto. Que até mesmo aquela geração não resiste ao fim dos entraves psicológicos, sociais e económicos que muitas vezes levavam ao colo os casamentos... até ao fim. No outro lado da moeda estão as famílias que duraram, conservadoras, porque havia vontade de querer ficar junto e por isso suportar um pouco mais, às vezes muito.
E então lá voltou o meu Natal a ser um pouco mais confuso, com mais casas para visitar. Logo eu que adoro ficar no sofá a dormitar enquanto as rabanadas, os risos de criança e papéis de embrulho esvoaçam lá por casa.
Não correu mal. Houve uma estranha paz e muito frio a que me fui habituando sem me constipar. Mas não deixou de ser estranho, de serem estranhas por serem duas, as casas. Não sei o que nos espera no futuro. Será que não conseguiremos aguentar-nos uns aos outros enquanto casais? Será que apenas o farão aqueles que suportarem tamanhos desequilíbrios e frustrações? Que aceitarem não viver sempre um sonho, mas aprenderem a transformar os pequenos momentos em sorrisos sinceros? Conto-vos uma estória de uma menina que com uns quatro anos se deparou com a realidade de que quase toda a sua família mais próxima estava divorciada. Habituada a isso na primeira pessoa desde os dois anos e meio perguntou inocente, referindo-se a um dos últimos casais resistentes que conhecia – Mãe, quando é que os tios se separam?
No seu imaginário, ou melhor, no seu entendimento da realidade todos os casamentos acabavam em divórcio. Não sabia que podia ser diferente. Será que pode? Esses tios, pelo menos, continuam casados.
P.S. – O meu Natal de menino era feliz. Era muito credível e verdadeiramente mágico. A família juntava-se e conseguia mesmo fingir que se davam bem, de forma que as crianças não percebessem o resto, que ficava para outros dias. Havia riso e brincadeiras, sempre lideradas pelo meu avô, sentado no topo da mesa, fazendo rir à gargalhada. As prendas só se abriam no dia de Natal, pelo que íamos para a cama com uma sensação de ansiedade boa na barriga. Lembro-me que queria adormecer depressa para chegar o próximo dia. Depois acordávamos muito cedo e arrancávamos os adultos da cama para irmos abrir a porta mágica. A cozinha, que na véspera estava vazia, apenas com os sapatinhos debaixo da chaminé, revelava-se em todo o seu esplendor, com dezenas de embrulhos espalhados por todo o lado. Os olhos brilhavam muito antes de as perninhas correrem para a felicidade. Nunca vou esquecer o ano das bicicletas. Uma verde para o meu irmão e vermelha para mim. Era sempre assim, a diferença das cores, rara diferenciação de gémeos que recebiam tudo igual. O resto da manhã era passado em pijama a brincar com os presentes. Não haviam outras casas para ir almoçar ou visitas a fazer, por causa dos divórcios. Ainda estávamos todos juntos. Não era difícil acreditar no Pai Natal. Ele visitava-nos todos os anos.
