quarta-feira, outubro 29, 2008

E porque não há coerência alguma na minha mente...


Porque me assusto com facilidade.
Porque tenho medo dos dias seguintes.
Porque de vez em quando me apaixono por músicas que não confessaria noutros tempos.
Porque é doce o sentir em tristeza consentida.
Porque amanhã vou ter de puxar novamente pelos sorrisos...

quinta-feira, outubro 23, 2008

João, o sexo e as strippers...

João era assim. Caminhava e corria de carro as ruas para ver as prostitutas de perna arqueada em hábito, mas sem nada querer com elas. Eram as strippers que o fascinavam. Mesmo as que são coxas, escondidas em semi-nudez descomprometida numa falsa e aparente facilidade.
Nunca bebia mais do que três Pizangs, verde escuro e demasiado doces. Não queria arriscar. Foi Noémia que naquele dia o abordou, emprestando-lhe o perfume que logo se agarrou à pele e por lá ficou até ao próximo banho. De pele pendurada e peito falso, esmagava esforço no pescoço do rapaz, segredando sotaques incompreensíveis.
No fim da noite rodava quatro vezes a chave de um lar a dois, fechado por medo e metáfora que insistia em por lá viver. Pensava por dois segundos no desejo de o poder fazer e depois desistia, esgotado.

P.S. – As casas de striptease são um marco no imaginário masculino. Interligadas em surdina com o mercado do sexo, deixaram na minha geração uma sensação de curioso afastamento pela educação que nos dizia, diminuindo, que não precisamos destas muletas. Hoje em dia dificilmente se admite a sua oportunidade ou fascínio. É coisa para os outros!!

segunda-feira, outubro 13, 2008

As velhotas e a catequese...


Estava parado, sentado num muro branco de manchas amareladas, com muitas partes velhas e rachas. Na rua iam passando as almas e as pessoas mais apressadas, fugindo das outras. Do outro lado da rua duas velhotas estavam sentadas num banco de jardim. Como o tempo passava devagar ao mesmo tempo que lhes sussurrava que um dia as vinha buscar, preferiam usar aparelhos auditivos desligados e fazer partidas de meninas. Quando se aproximava alguém lá começavam elas. A ideia era simples. Uma levantava-se e colocava-se de forma a que as pessoas tivessem de passar muito perto do banco. Na precisa altura em que o faziam, a outra fingia um ataque de tosse debilitado e estendia a bengala retorcida. A maior parte das vítimas caíam estateladas. Tinham um taxa de sucesso de mais de oitenta por cento.
Quis assustá-las por despeito, por ter tempo. Fui dar a volta ao quarteirão e comecei a caminhar na sua direcção. Coloquei ar despreocupado e esperei pela artimanha. Ao aproximar-me vi que mantinham as suas posições. Uma levantou-se e encostou-se ao candeeiro verde da rua deixando um espaço pequeno para eu passar. Sorri para dentro e avancei. Na altura que passei pela velhota que estava de pé só senti um perfume forte que não condizia com a sua idade. Pareceu-me também que me soprou na nuca. Arrepiado, desviei o olhar por uns momentos, mas para logo recuperar a atenção julgando-me já embrulhado na bengala. Mas não! A segunda velhota ficou quieta, talvez só com um esgar, quem sabe imaginado, de gozo e serenidade. Enquanto me afastava, forçaram-me a virar-me com a expressão quase cantada.
- Vai em paz rapaz. Mas não penses que percebeste. Disse a velhota sentada.
A outra ainda murmurou.
- Ele não percebeu.

P.S. – Andei muitos anos na catequese. Não me lembro de muito. Lembro-me de uma catequista que não era freira e tinha muito jeito. Lembro que tinha uma casa muito grande com um enorme terreno. Nós tínhamos catequese num anexo lá no fundo. Um dia o Pedro, que viria a ser actor sem grande sucesso, ficou com um pedaço de folha dentro do olho esquerdo. Devíamos ser quatro ou cinco de volta dele, com o globo ocular a ficar cada vez mais vermelho e fechado. Lá conseguimos tirá-lo. Mas a estória que recordo mais foi noutra ocasião. Nem sei quem era a catequista. E muito pouco consigo visualizar. Uns sofás bejes e uma rapariga que nem conhecíamos muito bem, eu e o meu irmão. O meu irmão gémeo vinha sempre comigo às aulas de catequese. Um dia, no final, veio ter comigo e confessou.
- Eu apalpei-a!
Ia desmaiando de susto. Apalpou-a? Quem? Como?
Pois é. O senhor meu irmão, que não devia ter mais que doze ou treze anos, durante a aula de catequese, resolveu fazer das suas. Não sei porque sinais ou impulsos distorcidos, começou a avançar com a mão pelo sofá até tocar na perna da rapariga. Depois, lá arranjou forma de colocá-la por baixo do seu rabiosque... e apalpou. A pobre rapariga não esboçou qualquer reacção. Nunca soubemos se por ter paralisado ou porque a química, a estranha química da catequese funcionou nos dois sentidos.