segunda-feira, abril 21, 2008

O sonho...


Numa dessas noites sonhei muito. De novo em abstracção para que a lembrança viesse lenta e a precisar de uma chave que pudesse desentrelaçar as partes que compunham aquele mosaico. Começava numa sala branca bastante alta onde, mesmo no centro, um estranho carrossel continuava a girar. Parece-me agora na memória um carril suspenso onde objectos de cores estavam presos por cordas e davam voltas até serem recolhidos. Num dos ganchos ia eu pendurado, meio e mal sentado, às voltas até que me escolhessem. Lá fora era Carnaval, com a música que não respeitava as paredes e entrava por ali a dentro. Estava muito calor naquela cidade que não perecia o que imaginava ser. Ao olhar para baixo via uma mulher morena de cabelos compridos e odor intenso. Ela esticou os braços parando o mecanismo. Reclamou-me de imediato reconhecendo o trofeu...
Daí a pouco caminhávamos por aquelas escadas pequenas que uniam as ruelas e onde se continuavam a ouvir os sons de festa e de papelitos a esvoaçar.
Fomos dar a uma zona pobre e pouco cuidada perto de um edifício com a fachada em muito mau estado. Entrámos por um portão lateral que não se sabia bem onde ia dar e descobrimos outro prédio ainda mais sujo. Havia um grupo de homens de rua a dormir pelos cantos, escondendo-se do frio que não deveria existir. Nós descobrimos um colchão azul daqueles antigos, com pó e a superfície muito ondulada. Dos que se encontram nos sótãos onde ninguém vai. Depois não me recordo de mais nada...

P.S. – Conheço um senhor que fez algo delicioso estranho. Após muitos anos conseguiu realizar o sonho de ter uma casa no campo. Escolheu cuidadosamente o lugar. Não era completamente isolado pois tinha medo de precisar de ajuda a meio da noite e não ter quem lhe acudisse. Por isso escolheu uma casa perto de outras duas ou três, mas não mais do que isso para que pudesse disfrutar. À noite cumpria o mesmo hábito. Quando não havia Lua vinha cá para fora, respirava fundo algumas vezes e deitava-se numa esperguiçadeira com riscas roxas, brancas e azuis. Então olhava para cima e contemplava o maravilhoso céu estrelado. Sorria como tolo pela quantidade de pontinhos que cintilavam. Mas sabia que faltava algo. Mandou construir no meio do quintal uma parede. Apenas uma parede, com uma enorme janela de caixilhos brancos e vidros aos quadrados. Depois deitou-se de novo.

segunda-feira, abril 14, 2008

Os Cinco e o olhar de sangue...


Durante muitos anos, quando era um miúdo, cumpria um estranho costume. Todos os anos, suponho que por alturas Invernais, ficava doente. A minha mãe tentava proteger-me, talvez demais e encasacava-me até que transpirasse naqueles dias de chuva, húmidos e abafados. Então vinham as diferenças de temperatura e lá tinha que ficar uma semana em casa, na maior parte das vezes com problemas de garganta. Os dois primeiros dias eram maus, com febre e dores ao engolir. Mas depois as coisas começavam a mudar. Aos poucos o antibiótico começava a fazer efeito, até que me começava a sentir melhor. O médico, que era sempre o mesmo, lá recomendava que ficasse mais uns dias para que recuperasse completamente. E era então que renascia. Deitado no sofá creme da sala pequena da casa dos meus pais, passava dias maravilhosos. Deixava para trás os dias em que me forçava a transpirar, para baixar a febre, desmontando e voltando a montar um cubo mágico que nunca consegui terminar de forma legítima. Adorava estar em casa, empilhando dezenas de livros ao meu lado que lia vorazmente. No topo estavam as estórias dos Cinco que me transportavam para aventuras emocionantes, misturadas com lanches descritos de forma a que os pudesse saborear. Hoje detesto estar doente. Tenho sempre que melhorar a correr e quantas vezes voltar para a rua ainda com febre. Que saudades dos Cinco.

P.S.- Esta semana lembrei-me também de uma colega que tive na escola secundária. Não me recordo do seu nome. Não era alguém que fizesse parte do meu círculo mais próximo de amigos. Mas recordo-me perfeitamente da sua cara. Era gordinha e alta, ou pelo menos acho que era. Mas foi outro pormenor que me ficou bem marcado na memória. Ela chorava sangue. A sério! Já não sei bem porquê, mas acho que tinha um problema nos olhos e por vezes lacrimejava pequenas gotinhas de sangue. Não eram lágrimas espessas e muito encarnadas. Nem sequer eram suficientes para que fizesse impressão. E de qualquer forma naquela idade as coisas eram bem mais simples.

sexta-feira, abril 04, 2008

My blueberry nights…

Quando começamos a deslizar, teimando quase sem forças contra o que nos puxa para temer. Quando, porque passou algum tempo, não respiramos mais fundo de sentir que faz sentido. Nessa altura percebemos que falta pouco… para mais um momento de magia… E esperamos serenamente… Não percam este filme!





A rapariga invisível e as gémeas…


No meu emprego existe uma rapariga invisível. Não é muito bonita. Deixa-se estar num intervalo entre a beleza e normalidade que acaba por transformá-la numa pequena nuvem que luta pela visibilidade. É muito branca, agarrando-se uma pele desmaiada que nunca se destaca no mobiliário cor de laranja. E depois as roupas são também muito claras, misturando a sensação etérea com um piscar de olhos em que nos momentos intercalados não a conseguimos ver. O cabelo loiro coroa um véu de luz sem graça que nem encandeia. Passeia-se pelos corredores como que procurando por um olhar. Não gosto das rendas e dos pequenos bordados a que insiste em esgueirar-se.

P.S. – Há muitos anos conheci duas irmãs gémeas. Eram muito diferentes e originais na forma como apareciam. As roupas, compradas em segunda mão, lembravam hippies, com vestidos de Verão e botas da tropa. Tinham pouco dinheiro e assumiam de verdade o desejo de mudar a vida, enquanto escarneciam de Bon Jovi juntando meia dúzia de melodias num único medlley a um só tom. Depois fizeram algo de estranho. Separaram-se, em rotas de destinos diferentes. A de cabelo mais comprido encontrei em serão de ébrio com um abraço sentido, mas desadequado. Estava a estudar em Inglaterra e não escondia sorrisos. Pouco tempo depois encontrei a irmã, que continuava a ser a mais bonita. Disse-me que estava bem, que tinha encontrado o amor. Foi engraçado ouvi-la, enquanto segurava o copo com muitos graus e a noite ia despertando…