quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Sessenta e cinco cêntimos e Tá Stop...


Achei sessenta e cinco cêntimos. Estavam num passeio perto do meu emprego. Primeiro vi uma moeda de cinquenta a brilhar e de princípio até pensei em não a apanhar. Sabe-se lá por onde andou. Mas depois considerei. Afinal os trocos que nos dão por aí também andam por mãos alheias e a vida está cara. Quando olhei melhor estavam mais três moedas de cinco cêntimos espalhadas em redor. Ainda olhei para a zona circundante, mas não havia mais nada. Lembrei-me do meu avô que passava a vida a olhar para o chão e fartava-se de encontrar coisas perdidas. Moedas, canetas e mil e uma outras surpresas. Uma vez até trouxe uma máquina fotográfica para casa. Contou que estava na rua quando passou um carro e a deixou cair. Era uma história estranha. Um truque ele me ensinou foi de olhar sempre para perto das portas dos carros, porque as pessoas quando saem deixam cair coisas dos bolsos. Uma vez encontrou uma caneta de ouro assim. Tinha sorte o meu avô. Eu tenho andado muito de cabeça no ar. Tenho que voltar a prestar mais atenção.

P.S. – Uma das muitas maravilhas do mundo das crianças é a forma prática como lidam com a realidade e estabelecem regras simples, para a mais difícil das situações. Um desses exemplos sobrevive há décadas e continua a ser uma forma fantástica de resolver problemas. Quando estão a brincar e de repente há algo que os incomoda, limitam-se a dizer uma simples, mas poderosa frase – Tá Stop! É fantástico. Duas pequenas palavras com tanto poder. Tá Stop, e tudo pára. De repente já não vale nada. Já não estão a brincar e quaisquer actos menos desejados ficam de imediato congelados. Não era bom que pudéssemos continuar a utilizar esta frase? O chefe vinha ter connosco para nos dar um trabalho aborrecido e nós apenas tínhamos de dizer – Tá Stop!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

A palete e as três chinesas...


Na sexta-feira passada regressei tarde a casa, depois de demasiadas horas frente ao computador. Faço tantas vezes este caminho que já nem penso enquanto desço a rua que termina num semáforo onde invariavelmente tenho de parar. O que aconteceu a seguir vou tentar contar-vos, se conseguir lembrar-me de todos os pormenores.
Tenho um carro demasiado caro para o que ganho e completamente desadequado à minha condição de rapaz com trinta e cinco anos. Uma das coisas que faz é travar electronicamente premindo-se para tal um simples botão. O problema é quando o computador se baralha. Então fico eu imobilizado até que ele se resolva a deixar-me prosseguir. Mesmo na minha frente estava uma loja dos chineses, velha, com um nome que nem sequer traduzem. Cá fora uma enorme palete reunia em sua volta três chinesas muito parecidas. Tinha um plástico grosso em volta e devia pesar muito, o que desesperava as raparigas orientais. Não percebia bem se riam ou choravam ao mesmo tempo que andavam depressa ao redor da palete, fazendo gestos e apontando para o interior da loja. Percebi que discutiam uma estratégia para tirar o volume do meio do passeio. Nessa altura passou uma senhora já idosa com dois sacos de supermercado. Aproximou-se delas e começaram a conversar. Depois trocou os sacos entre as duas mãos e seguir rua a fora. As chinesas explodiram a rir, debruçando-se sobre o plástico da palete ao mesmo tempo que simulavam bater-lhe. Uma delas correu para dentro da loja e voltou com uma tesoura que utilizou para cortar o invólucro. Rapidamente começaram a levar as caixas que continha para dentro, às três de cada vez. Como que satisfeito o meu carro lá desbloqueou o travão e pude seguir caminho.

P.S. – Quando tinha os meus doze anos tive uma professora de português e francês por quem todos os rapazes da turma tiveram uma paixão. Lembro-me que certa vez encenámos um diálogo em francês em que representei o papel de tentar seduzi-la. Noutra ocasião trouxe-nos os slides das férias em França, que projectou durante a aula. Por lapso esqueceu-se de tirar da máquina uma foto em que aparecia de fato de banho a sair de uma piscina. Foi um dos momentos altos da escola secundária. Agora que recordo, chego à conclusão que ela devia ter mais ou menos a idade que tenho hoje.