terça-feira, janeiro 22, 2008

A conversa...

Eram duas e trinta e cinco da manhã quando comecei a conversar com o “Fernando”. Ele é um homem interessante, com uma madeixa de cabelo que lhe baloiça em frente ao olhar de um verde contagiante e uma simpatia muito pouco urbana. Tem vinte e nove anos acabados de fazer, mas parece um pouco mais velho, pela intensidade e a voz colocada. Roda um cigarro nos dedos sem nunca o acender e só de vez em quando se entende uma pequena ruga que lhe vai nascendo na testa, denunciando-o.

miak - Houve um dia em que disseste para ti próprio? – Eu sou homossexual.
Fernando – Tu entras logo a matar! Não sei se foi assim uma coisa tão definida. Isto não se acorda um dia e damos um grito de rendição.
miak - Mas deve ter havido um momento em que te apercebeste. Em que reconheceste os sinais.
Fernando - No cinema talvez. Na vida real é diferente. É algo que vamos construindo desde muito cedo. Pelo menos comigo foi assim. É claro que pensamos sobre isso, que questionamos o porquê de sentirmos algo diferente do que nos ensinam e do que nos rodeia. Mas acho que tudo começou ainda eu não tinha uma capacidade de reflexão tão desenvolvida.
miak - Na escola sentias-te melhor perto dos rapazes?
Fernando - Acho que não. Tinha bons amigos nos rapazes e nas raparigas. Até tive uma namorada aos sete anos. Tinha canudos castanho claros e queria andar de mão dada. Mas acho que foi a única.
miak - Quando tiveste o teu primeiro namorado?
Fernando - Namorados só muito mais tarde. Mas aos doze tive uma enorme paixão por um colega da minha sala. Nem me passava pela cabeça contar-lhe.
miak - Então foi aí que percebeste?
Fernando - Eu não fiquei um dia assim. É um processo contínuo. Quando tinha idade para o questionar (se o quisesse fazer) já sentia o que sinto hoje. Mas não é o que me define como pessoa. Sou muito igual a toda a gente. Sabes isso porque já somos amigos há muitos anos. Tenho coisas que me caracterizam, defeitos, virtudes, manias... E só me apaixono por homens. Just that.
miak - Mas nunca te questionaste? Nunca te sentiste à parte?
Fernando- Neste país? Claro que sim! Muitas vezes. Somos praticamente obrigados a isso. Desde cedo que nos querem convencer que é uma doença. Que pode ser curado.
miak - Isso incomodava-te?
Fernando - Incomodava-me a ignorância e a estupidez. Mas nunca me senti doente. Nem a precisar de uma cura milagrosa. Aos quinze anos tinha um amigo que não sabia da minha opção e que desabafava comigo que tinha medo de ficar homossexual. Perguntava-se como seria se um dia descobrisse que gostava de homens e achava que seria insuportável. Era de morrer a rir.
miak - O que é que lhe dizias?
Fernando - Uma vez disse-lhe que se por algum acaso cósmico se tornasse homossexual, ia ser um processo indolor. Que se verdadeiramente gostasse de homens não ia achá-lo insuportável. Que ia tirar prazer disso.
miak - E ele?
Fernando - Ia morrendo. Quase que lhe saltavam os olhos. A homofobia era verdadeiramente assustadora no seu caso.
miak - Alguma vez lhe disseste?
Fernando - Ele viu-me uma vez com um namorado. Talvez tenha percebido. Não sei. Nunca mais falámos.
miak - É verdade que hoje em dia os homossexuais querem todos ser “o homem da relação”?
Fernando - Há de tudo. Também há heteros que batem nas mulheres. Mas admito que em determinados meios exista quem se assuma como forma última de excentricidade. E depois não vêm a relação como algo em que também têm de dar. Se vires bem não é muito diferente dos casamentos de antigamente ou até dos de hoje.
miak - Estás a falar da questão sexual?
Fernando - Também. A mulher era muitas vezes um veículo para se ter prazer. E logo elas que não eram preparadas para o dar ou ter. Era um mundo estranho. Connosco às vezes é parecido.
miak - Já te aconteceu?
Fernando- Já me deparei com pessoas assim, mas afasto-me de imediato. Mas é normal. Porque se há de querer estar numa relação com alguém que quer controlar. Nesta parte é tudo igual. Não é algo exclusivo das relações homossexuais.
miak - Gostavas que os casamentos fossem possíveis?
Fernando- Acho que sim. Mas não é o mais importante. Tornou-se num cavalo de batalha, por estar em causa uma instituição muito conservadora e de base religiosa. Acho que existem outras conquistas mais importantes.
miak - Quais?
Fernando- A principal é a das pessoas olharem para isto como algo normal. Sem prejudicarem e tratarem com diferença quem não fez nada de mal. Apenas isso. Também não preciso que andem por aí com cartazes a dizer que são a favor da homossexualidade. Não há nada para ser a favor.
miak - Qual é o teu maior desejo?
Fernando - Que um dia não exista nada para conversar sobre o assunto. Também não se discute se um homem ou uma mulher gostam mais de azul ou de amarelo. É assim e pronto.
miak - É verdade que existe um dispositivo electrónico que se implanta debaixo da pele e que serve para que os homossexuais se possam reconhecer?
Fernando - É mesmo parvo. Estavas doido por perguntar isso. É verdade, é! Compra-se em Amsterdão e existem vinte e três modelos diferentes. O mais caro também serve para identificar idiotas e pessoas que gostam de filmes da Meg Ryan.
miak - Obrigado pela conversa.
Fernando - De nada. Vá. Não é preciso ficarmos sentimentais.
miak - Queres que coloque alguma música, quando publicar isto no blog?
Fernando – Surpreende-me com um maravilhoso estereótipo.
miak - Está combinado.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

O queixume e as batatas...


Não quero parecer dramático em demasia. Afinal não sofro de um mal raro e que não seja preocupação de muitos outros. Mas preciso queixar-me um pouco. É o trabalho, sempre o trabalho. Costumo dizer que gosto do que faço, que tenho a sorte (também procurada) de fazer das poucas coisas que dentro de uma empresa ainda vão tendo alguma ligação à criatividade. Mas o que gosto é contido, pelas regras que restringem, pela opinião que nem sempre vinga, pelas demasiadas horas gastas e claro, pela retribuição insuficiente. Não quero fazer papel de coitadinho. Tenho bem a noção das dificuldades com que muitos lutam, até pelo mais básico. Mas desabafo na mesma, pela falta de adequação do esforço e qualidade do que faço, ao que isso representa no fim do mês. Cresci a pensar que se uma pessoa se esforçasse mesmo a sério, se dedicasse de alma e coração, sacrificando até um pouco do seu mundo pessoal, o resto aparecia naturalmente. Mas não. O esforço esbarra numa aleatoriedade sem rosto, desmentida apenas por mecanismos pouco claros e injustos.
Bem. Vou ter que lutar ainda mais. É que nem pensem que me param.
A esperança encontro-a nas ideias que vou tendo e que talvez algum dia se convertam em algo mais do que a satisfação intelectual. Essa pelo menos ninguém me tira.

P.S. – Na minha rua existe uma casa de frangos. Não se pesam. O preço é feito, desconfio, à medida do que vai na vontade do dono. Nada das mariquices dos hipermercados. Tem muito artigos expostos e uma extensa lista de grelhados, mas só vejo sair três produtos. Frangos, batatas fritas caseiras e pão de Mafra. Quase todos os dias vejo um vizinho meu a ir a este estabelecimento. Anda sempre com as mesmas calças, de um cor-de-rosa esbatido muito feio. Costuma estar a fumar na porta do seu prédio, com altivez desadequada à indumentária. Estranho é o que compra nos frangos. Um saco enorme da Habitat, cheio a rebentar com pacotes de batatas fritas. Mas porquê?

segunda-feira, janeiro 14, 2008

O fumo...


Vou passar por cima das discussões e de outras filosofias. De argumentos técnicos que mascaram emoções e vício e até costumes de décadas e mais. Vou ignorar acusações de quem já atacou com nuvens densas e agora se assume como vítima de uma qualquer perseguição.
Reconheço e adoro esta nova modalidade tabaco free. Para depois ficam as análises complexas sobre um autoritarismo para o qual estou atento e também preocupado. Mas por agora deixem-me saborear por um momento a realidade. Não entendo o fumo na sua vertente saturada, queimada, irritando peles e olhares. Percebo sim o aroma, mas em espaço calmos, sem agredir companheiros e sorrisos. Subindo em espiral aleatória, como que desenhando letras a preto e branco. E afinal, quem não se preocupou durante anos, terá no presente dificuldade em se sentir discriminado.
No sábado à noite foi o exame final, em ambiente fechado com Jazz e conversa, estereótipos encontrados em média luz. Não vi ataques de ansiedade, nem tristezas, nem sequer um vái-vem constante para o ar mais livre e sem proibição. Vi conversa, boa disposição e uma sala onde respirámos música numa atmosfera límpida e sem odores... Sem fumo...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

O machismo...


Pertenço a um grupo de homens que não gostam de ser identificados como machistas. Excluem-se aqueles que ainda pensam que a assunção de uma masculinidade exagerada os torna mais atraentes e irresistíveis aos olhos do feminino.
Enquanto crescemos vamo-nos tornando mais cerebrais e respeitadores do outro sexo, empurrados pelo que julgamos ser mais correcto. Mas no fundo não somos assim. No que as atitudes têm de mais básico e sem mácula de influência, a minha geração é, talvez irremediavelmente, muito machista. E a melhor parte, é que não temos a culpa. Anos consecutivos de observação fazem destas coisas. Sim, estou a falar dos nossos pais. Por muito que queiramos ser lógicos e dizer que os tempos são de igualdade, a verdade é que crescemos com um exemplo diferente. Teimamos em querer “ajudar” em casa (só a expressão já diz tudo), mas se conhecemos alguém que nos traz o jantar com um sorriso nem questionamos o status quo.
Conheço uma médica, já com décadas de prática que defende uma teoria simples. As mulheres quiseram tudo. Empregos, carreiras, poder, mas sem abdicar do resto. A senhora continua ter prioridade nas portas, as jóias naqueles dias e as flores, sempre as flores. E nós lá ficamos baralhados, sem referências nem norte, com crises de meia idade cada vez mais prematuras. Afinal qual é o nosso papel? Já não mandamos, nem sequer parece que o fazemos. Mas o problema é maior. As mulheres foram o esteio das famílias desde sempre, até agora. Mas para tal é preciso que estejam presentes. Que não cheguem já de noite a casa, com os filhos a serem criados pelas empregadas e as avós.
É claro que então aparecem as questões racionais. Não merecem elas ter as mesmas oportunidades? Sou obrigado a dizer que sim. Não devem os homens ter o mesmo dever de chegar cedo a casa e cuidar dos filhos. Tenho que acenar afirmativamente. Os casamentos dos nossos pais, de fórmulas tradicionais funcionaram? Consigo dar exemplos de alguns que estão a terminar ao fim de vinte e mesmo trinta anos.
Então qual é a solução? Não faço a mínima ideia!

Quanto ao machismo... critiquem livremente. Mas quem não o pratica, tem pelo menos a honesta liberdade de reconhecer a sua presença indelével.

domingo, janeiro 06, 2008

A mudança...

Ao escrevermos aqui não deixamos de construir uma imagem sobre nós próprios. Por vezes sem consciência aspiramos a que pensem bem do que somos e transparecemos. Ao prazer de bem escrever ou à originalidade da mensagem partilhada, soma-se a satisfação com que reconhecemos ter tocado na sensibilidade de alguém. Com estes elementos se faz a blogosfera que, na realidade que me é próxima, não favorece o insulto e a discórdia. Normalmente não lemos comentários deselegantes. Se comentamos é porque de alguma forma nos identificamos com outros.
E se a lógica se invertesse? Se eu começasse a dividir o que de menos nobre me vai na cabeça? A primeira mudança é voltar ao meu antigo nome.
Não se acanhem nas criticas (e elogios?). Divirtam-se.


Britney...

Tenho pena da Britney Spears. Hospitalizada, à beira de perder o direito a visitar os filhos (cuja custódia já havia perdido). Que desgraça!
Ela é o tipo de mulher que se admira. Se me perguntassem há dez anos diria que não tem qualidade, que a sua “música” é apenas uma fórmula testada para cativar adolescentes americanos e idiotas. Mas depois dos trinta já não temos este tipo de inseguranças. Bem vistas bem as coisas ela entregava um produto com muita qualidade. Podemos criticar quem faz a felicidade de milhões? Dizer mal de quem é realmente competente no que faz, independentemente do que faz? Tenho pena da Britney... mas só um bocadinho.