segunda-feira, agosto 06, 2007

Cuba 1965


Gosto de t-shirts, mas raramente me encanto pelo que têm escrito. O que primeiro me prende a atenção é a sua cor e os padrões que aparecem desenhados. Foi dessa forma que comprei uma encarnada, onde está escrito “Cuba 1965”. Não sei o que se passou em Cuba nesse ano (a Revolução é anterior). Antes de terminar este texto tenho de investigar e corrigir a falha histórica.
Nunca fui dos que abracei a causa Cubana, enquanto ícone emprestado para quem não teve de lutar pela liberdade. A assunção de uma alma livre não obriga a que busquemos ideais de outras partes. Não coleccionei figuras de Che, nem advoguei um anti-imperialismo que não conheço. Tenho uma visão histórica, emocionalmente distante, que reconhece a necessidade de expulsar um Batista totalitário e que insistia numa ilha-bordel, estância privada para uma América de dinheiros fáceis, essa sim imperialista. Enquanto Fidel discursava, rodeado pela multidão em alegria pura, uma pomba branca desceu em em voo de paz e poisou no seu ombro verde tropa, símbolo do que este homem oferecia. Onde, desde então até hoje, se perderam os ideais, as causas e a liberdade, ainda está por explicar. O fio que separa uma incondicional defesa da Revolução, até ao perpetuar de poderes e interesses demasiado pessoais, há muito que se quebrou, deixando o povo, materialização opaca de todas as motivações, no limiar de uma enorme pobreza “heróica”.
De bordel americano, Cuba transformou-se em parte numa “casa de alterne” europeia, explorada no seu pitoresco e na alegada felicidade simples. Experimentem viver de senhas de compras e rações controladas, de ter casas, carros e estradas a cair de podre, de olhar para as necessidades mais básicas e compará-las, à beira do choro, com um rendimento ínfimo. Tentem viver num regime de rolhas e mordaças constantes, onde a democracia é uma ilusão, para quem não pode sequer sonhar em dizer (ou escrever) o que pensa sem risco de ir parar a uma prisão ou pior. E no meio de uma hipocrisia não menos imperial, aturo os que me dizem que adoraram visitar Cuba, nos seus costumes e tradições. Mas atenção, previnem, “tem que se ir antes de Fidel morrer”. Querem eles dizer que depois voltaremos a um jugo americano e a um desvirtuar insuportável da “verdade de uma ilha”. Claro! Não são eles que têm de ficar horas em filas para comprar comida ou esperar por um simples transporte. Tal não existe numa Europa confortável. E assim podem viajar duas semanas para Cuba, para verem como vivem os “tradicionalistas”. Melhor será chamá-los de pobres, que é o que são. Pobres, oprimidos e prisioneiros do senhor de barbas, por quem algum mundo civilizado até sente simpatia. As férias em Cuba assemelham-se a uma visita a um laboratório, com ratinhos brancos procurando queijo num labirinto onde tudo falta. E onde há bem pouco tempo o tal senhor barbudo ainda mandou fuzilar quem se atreveu a contrariá-lo.
Nem os estranhos exemplos dos sistemas de saúde e educação gratuitos atenuam ou sequer convencem. Perguntem-nos se preferimos esses benefícios em troca da liberdade. Se assim fosse, se não elegêssemos este bem como a maior conquista de um povo, o mês de Abril não se destacaria no calendário do nosso país.
Nunca fui um “revolucionário”. Por vezes intriguei-me porquê. Será fascista quem questiona os excessos de uma revolução? É complicado não se ser de esquerda e falar de liberdade, pela arrogância com que essa mesma esquerda se apropria das causas e das lutas, mascarando os exemplos (como o de Cuba) em que ela própria se tornou totalitária.
Para mim é fácil perceber que para lidar com Fidel, enquanto os anos não o fizerem, só com outro barbudo, mas um verdadeiro, dos que acreditam, que se mantêm fiéis. Mas isto sou apenas eu, que não sou revolucionário.
Por isso talvez um dia vá a Cuba, mas quando ali existir liberdade. E aos que temem pela perca da pureza e da tradição, que imaginem um lugar onde tanta beleza, cultura e genuína alegria, poderão crescer sem espartilhos. Imaginem por um momento…
Quanto ao ano de 1965, dois factos de destaque apareceram na minha pesquisa. É criado o Partido Comunista de Cuba e Che Guevara renuncia aos cargos no poder, para promover guerras de libertação no estrangeiro. De qualquer forma vou manter a t-shirt (sim, eu sei que é um pouco incoerente...).