quinta-feira, julho 12, 2007

Três estórias e palavrões…

Ela apareceu a correr de repente e virou-se para a senhora da limpeza.
- Tu, preta. Viste bem o que fizeste?
A senhora de cor ficou estática. Nem sabia o que responder. Quase de imediato soltou uma pequena lágrima humilhada, que devia estar quente, e caiu na alcatifa sem um único som.
A minha primeira reacção foi colocar os phones e esconder-me da situação. No meu emprego existem dezenas de mulheres da limpeza, que só encontro quando chego muito cedo. Umas cumprimentam-me por detrás de diferentes sotaques, enquanto outras desprezam presenças e o próprio ofício, que não mantêm por muito tempo.
Mas não consegui alhear-me. Sem perguntar a razão da gritaria fui direito à agressora e disse.
- Sabe. Você é uma puta!
Ela ainda balbuciou alguma coisa nas minhas costas, mas nem ouvi.

(…)

Na semana passada tive uma noite quase irreal. Uma amiga de há muito convidou-me para jantar em casa dela. Queria apresentar-me o namorado novo!
Não sei porque se chama “namorado novo”. Dá-lhe um carácter finito. É quase como se fosse carimbado.
Perguntei-lhe se podia levar uma amiga para equilibrar o ambiente, ao que me respondeu que sim. Perguntou-me inevitavelmente se era apenas uma amiga, mas depressa abandonou o sonho do jantarzinho de casais. Era mesmo “só” isso.
Chegámos três ou quatro minutos depois da hora e começamos a subir para o terceiro andar sem elevador. A Margarida ainda reclamou um pouco.
- Só tu é que me trazes para estas coisas.
Sorri sem ter uma frase que a consolasse. Apenas sorri.
Ao chegarmos bati levemente na madeira da porta, recebendo um estridente – Já vou!
A Raquel abriu a porta muito corada e a distribuir beijinhos. Aceitou os casacos e começou a dar ordens.
- Venham! Venham conhecer o João!
Ela foi direita à sala, sem perguntar ou fazer cerimónia. Percebia-se a ansiedade.
- Meninos, este é o meu amor. O João!
O meu coração ia saltando. O João era o João Miguel, meu colega de trabalho, com quem almoço pelo menos duas vezes por semana e, para meu pânico, casado há cinco anos e com uma filha de dois. Por impulso e estranha sintonia escolhemos a mesma táctica. Aceitámos a mentira para o resto da noite. Eu, de nó que ardia na garganta, fingi o melhor que pude e evitei que falássemos sobre o meu emprego.
Na única altura em que ficámos sós, quando elas foram à cozinha preparar o café, ele disse-me com olhos sem alma.
- Bem me saíste um grande cabrão. Que filha da puta de situação.
Enquanto recebia um abraço asqueroso de agradecimento, só consegui responder.
- É verdade. Que grande cabrão.

(…)

Ontem ao parar num sinal encarnado segui um hábito antigo. Olhar para o carro ao meu lado. Nele descobri uma rapariga que não era bonita nem feia. Olhou para mim de forma rápida e concentrou-se no espaço à sua frente.
Não resisti e olhei de novo, para me deparar com pormenor inesperado. Talvez por causa do cinto de segurança, a camisa que vestia tinha soltado os botões e descobria por completo um seio. Começaram a escorrer-me gotinhas nervosas antes que ganhasse coragem para me virar outra vez. O que devia fazer? Parar de olhar? Aproveitar e deixar que as hormonas controlassem a situação?
Da indecisão nasceu a mais bizarra das atitudes. Queria avisá-la.
Abri a janela e com um pequeno toque buzinei para a chamar. Ao meu sinal de que queria falar-lhe ela baixou o vidro e debruçou-se na minha direcção. Nessa altura a camisa abriu por completo mostrando ambos os seios. Dominei as tais hormonas e recusei olhar apesar de querer. Por certo que ela percebera.
Esperei uns segundos antes de levantar o olhar, para a encontrar sentada muito direita, com um sorriso envergonhado. Com um aceno de expressão agradeceu o meu gesto. O sinal ficou verde, mas não arrancámos de imediato. Então ela começou a avançar muito devagarinho. E contrariando a força que a puxava para diante ainda conseguiu gritar.
- Que merda de situação.
Pareceu-me que queria dizer algo mais.