quarta-feira, junho 27, 2007

Saiu...

Finalmente, muitos dias e dores depois, tudo o que restava da “doce” pedrinha abandonou o meu corpo. As palavras do senhor doutor foram mágicas – está curado!
É claro que nos rins ainda se alojam mais cinco, mas com um pouco de sorte por lá ficarão uns tempos para que descanse e daqui a uns meses, quando já não me lembrar tanto da tortura, talvez me dedique a fazer qualquer coisa em relação a elas. Por agora vou aproveitando esta bonança. A sensação de voltar a ter uma vida normal. De pensar e escrever algo que não tenhas as palavras pedra ou hospital incluídas. E afinal nem foram precisos “disparos” nem nada. A senhora pedra encontrou o seu caminho sozinha.

Obrigado pelas vossas melhoras e mensagens simpáticas. Estou curado!

quarta-feira, junho 06, 2007

A pedra e Deus no meio de nós...

Não tenho a certeza de que o pesadelo já tenha acabado. A cada dia espreito a esperança, atento a uma nova crise que me conduza às batas que já são familiares. No pensamento de um mês muito difícil, esforço-me por relativisar e encontrar nos bocadinhos de paz uma serenidade merecida, mesmo que não duradoura. Pergunto-me se tantos analgésicos e veias de pintinhas vermelhas não estarão já a adulterar um descernimento que à partida já não arrancava nas primeiras posições.
Às quatro e meia da manhã, consegui finalmente estacionar o carro perto de casa, ainda meio zonzo de mais uma dose intravenosa de uma qualquer droga que não chegou a enrolar-me a língua. Ao caminhar reparei numa folha colada a um poste em madeira. Podia ler-se o seguinte – Deus chega amanhã. Durante todo o dia vai passear pela cidade, misturado com todos nós.
Nos dois parágrafos em baixo era explicado que Deus viria, em matéria, até nós e andaria pelas ruas como qualquer outra pessoa. Cabia-nos a capacidade de o reconhecer.
Contrariei o desejo de arrancar o papel, para que outros o pudessem ler, e fui dormir anestesiado.
No dia seguinte os químicos ainda produzem o seu efeito. As cores e cheiros são mais fortes, enquanto os sons e imagens se diluem e mesclam em névoas para decifrar.
Não fui trabalhar e comecei bem cedo a deambular pelas ruas. Preferia o bucólico dos sonhos, mas esquina após esquina iniciei a minha busca por Ele.
A primeira tentativa era até a mais óbvia. Um senhor que costuma estar a pintar almas numa rua estreita de comércio antiquado. Aproximei-me devagar e fiquei a ponderar. Ele tinha longas barbas brancas e um franzir de testa omnipotente, de quem percebe o que vamos dizer. Dirigi-lhe a palavra na esperança de que sorrisse e assumisse a sua condição. Houve sorriso, mas apenas de orgulho pela última pintura. O senhor de barbas não era Deus.
Não demorei a enfrentar o extremo. Porque haveria de ser um homem? O estereótipo foi criado por alguém, quando ninguém sabe...
No meio de uma pequena multidão vi a senhora negra de longas saias e ancas muito largas. Parecia-se com Deus. Dançava a troco de moedas demasiado escuras, enquanto as pilhas da telefonia cor de laranja ameaçavam fraquejar. A saia era verde com uma faixa amarelada e não parava de rodar. Poderia Deus dançar assim?
Nas horas seguintes enfiei-me dentro dos autocarros a saltar de cara em cara. Em cada olhar perguntava pela Sua presença, ao mesmo tempo que ia conhecendo muitas expressões.
Era inevitável. Foi o senhor de só uma perna que me prendeu a atenção. Nas muletas em madeira tinha desenhos a canivete e equilibrava com dificuldade um livro com as folhas presas por um cordel com ar resistente. Deviam ser nomes... de nós.
Sentei-me na paragem, mesmo ao seu lado. Não demorei a perguntar.
- O senhor tem dores?
Ele olhou para o espaço onde faltava o membro e encolheu os ombros.
- Só quando chove.
- Doem-lhe os ossos? Perguntei a medo.
Ele riu-se.
- Não. Mas não tenho mais mãos para o chapéu de chuva.
Era uma graça, que me arrancou um pequenino riso.
- Posso fazer-lhe mais uma pergunta.
- Claro que sim!
- O senhor é Deus?
Deixou que entrasse no azul gasto mas profundo dos seus olhos e devolveu-me uma questão.
- Tem tido dores?
- Sim. Neste último mês bastantes.
Suspirando acabou por concluir.

- Já tinha percebido.