quinta-feira, maio 17, 2007

Pretty Woman e o cálculo…

- Você tem um cálculo renal. Disse a médica de forma até gentil.
Porque lhe chamarão cálculo? É uma pedra, isso sim. Uma pedra que nasce num qualquer rim que a decide criar, para que um dia a expulse e envie em dolorosa viagem.
Eu sabia o que tinha. Apesar de um doce intervalo de três anos, a dor voltou. Felizmente não foi muito forte, mas suficiente para passar uma tarde entre senhoras de batas brancas e azuis. Elas agora espetam a agulha e depois deixam lá preso o tubinho, não vá ser preciso mais tarde. Uma dose certa de fármacos e a dor que passou a moínha, transformou-se num torpor que por pouco não me fazia dormir.
Os dias agora são de espera. Para que o senhor cálculo desça sozinho… quando lhe apetecer.
Aproveito este momento de maior fragilidade física para justificar o que não necessita de o ser. Ao ligar a televisão aparece-me o par inesperado, que gera empatias de igualdades. Júlia, a Roberts sorri e sonha com um cavaleiro que a salve do alto de uma torre imaginada. Seria do cálculo? Estaria a minha sensibilidade exponenciada pela antevisão e receio constante da dor? Acho que não. Apenas um desejo seguro de sorrir com pequenas tolices. E depois? Alguém tem problemas com isso? Humppff...

Que me importa. E se me irritam ainda me ponho a recitar os versos de uma antiga melodia. E não é que vou mesmo.


Eu era triste e sozinha,
jamais tinha amado ninguém,
só vivia para a dor…

Perdida em longo caminho,
sem mais ter encontrado alguém,
por quem sentisse amor.

Um dia depois de muito penar,
a tua voz me chamou infeliz.
Vi então a luz do teu doce olhar
e foi assim que eu comecei a ser feliz.

domingo, maio 13, 2007

O rapaz que não conseguia travar...

Ontem não conseguia travar! Por mais que tentasse sentia o chão a fugir-me, deliciando-se na falta de atrito, rindo em bandeja ao ver-me chocar.
Logo ao levantar os calcanhares voaram com o branco dos lençóis da semana e a nuca explodiu numa esquina que apenas ali existia.
Na rua era muito pior. Quando tentava caminhar mais depressa começava logo a deslizar. Inclinava o corpo para um dos lados na esperança de conseguir pelo menos virar. Mas só parava de encontro a uma parede, cadeiras de esplanada ou a um secular fontanário. Para poder deslocar-me traçava caminhos rectos, como se planasse no espaço, à deriva na ausência de gravidade. De obstáculo em obstáculo, acumulando dores e nódoas muito negras lá ia avançado, em ricochetes estranhos que me desesperavam.
Quando parei ainda não tinha a certeza. Pensava em cada recanto onde batera. Em todas as arestas que, depois de me ferirem, me empurraram noutra direcção. No final de uma viagem de encontrões respirava fundo para analisar. Olhei em volta percebendo onde chegara, cheirando e sentindo o presente. Sentado de pernas cruzadas na melhor das posições, fiquei a fechar conclusões. Ainda vou lembrar os choques, talvez ainda escorregue numa qualquer noite em que o empedrado esteja muito molhado. Só com essa memória posso aprender a travar...