quarta-feira, abril 25, 2007

Noite em B(e)leza…

Há coisas que nos faltam. O toque é uma delas, afastando-nos e impedindo que o abraço da pele nos faça perceber. Remetemo-nos a uma química observada, por vezes insuficiente para que os arrepios nos tragam quase certezas, que nos encoragem a continuar. É certo que em tempos idos também o não havia, ao toque, mas a sua ausência era compensada por um reconhecer de empatias naturais. Os meus avós apaixonaram-se enquanto olhavam a mesma montra. Ele sorriu e ela sorriu em troca. Não foi preciso mais nada.
Connosco é diferente. A última oportunidade que tivemos foram os saudosos slows, agora quase esquecidos. Trancados em espaços reduzidos, em ambiente escurecido, balançavamos de um lado para o outro, ousando apertar devagarinho, encostar o rosto a quem enlaçava os braços em volta do nosso pescoço. Eram momentos de verdadeira magia e que largámos ao ver a idade adulta chegar, impondo regras e a falta de outras emoções.
E num qualquer dia... sem que o tivessemos pleneado, encontramos de novo a emoção de um abraço de dança. Reconhecemos o calor que nunca se afastou, apertamos e repetimos o balançar que afinal não esquecemos. Permitimos mesmo a liberdade prudente do tacto, procurando novos espaços e o sentir. Ao receber as mãos fechando-se nas nossas costas, sorrimos por tudo ainda existir...
Quando é que decidimos afastarmo-nos do toque? Porque passámos a ignorar a sua serenidade agitada, saltando como tolos, a poucos cêntimetros do que deviamos segurar?
Em que momento deixámos de perceber?

quarta-feira, abril 18, 2007

An affair to remember…


Desculpem-me que vos traga o passado uma vez mais. Não por viver virado para trás, mas porque a memória de sensações me encanta, ao reconhecer uma simplicidade mágica que se vai perdendo. Gostava que cada um de vós pudesse ver o filme que partilha o nome com este post – An affair to remember. Penso que apareceu em 1957, no auge da carreira de um incontornável Cary Grant, acompanhado pela lindíssima Deborah Kerr, talvez com uma beleza mais discreta que algumas das estrelas da altura, mas de uma intensidade serena que nos desarma por completo. Tenho ideia de o ter visto por mais que uma vez em criança, recordando o pormenor do encontro marcado para o último andar do Empire State Building.
Já perto da idade adulta vi-o novamente, numa noite de canal dois, então com outros olhos, outro entendimento, por fim o sentir de cada cena com a magia que delas nascia.
Mais tarde consegui finalmente encontrar o DVD e trazê-lo para casa, bem seguro contra o peito, ainda sem acreditar. Ontem por acaso, enquanto trocava de canais, encontrei-o já na fase final. E ali fiquei enamorado a ver, perdido em sorrisos.
Fico sempre fascinado pelos diálogos, aparentemente simples e no fundo tão cheios de emoções, por vezes sem serem faladas. Cada expressão, baixar de olhos, para depois seguirem com intenção, são oferecidos com uma cumplicidade e exemplo supremo de uma empatia a que só podemos aspirar. Há uns anos realizaram um remake que me recuso a ver, por respeito e fidelidade à obra original.
Gostava que me fizessem companhia nesta descoberta, sonhando com um amor assim...

domingo, abril 08, 2007

A foto...

Basta estar com atenção. Ou então sou eu! É comigo que os momentos mágicos continuam a acontecer. Em qualquer início de noite sereno, sinto que há imagens que nasceram apenas para mim. Esta foto foi tirada em Lisboa, perto de Sete Rios, enquanto conduzia. Só tive um segundo…



domingo, abril 01, 2007

Aconteceu numa sexta-feira…

Não sou a pessoa mais concentrada que existe. Sou muito distraído e pateta, o que encanta as crianças e por vezes me envergonha. Noutras alturas apenas me faz sorrir.

Quando chegou a hora do almoço desci traquilamente para a rua. Enquanto caminhava para o restaurante fui ultrapassado por uma rapariga apressada. Ela continuou em passos rápidos mesmo na minha frente. Sem perceber imitei-lhe a velocidade e porque tinha os passos maiores fiquei mais perto dela.
De repente, como por se lembrar de alguma coisa, ela parou de andar. Apanhado desprevenido com a sua imobilização não consegui travar a tempo. Mas não choquei! Num último esforço tentei reduzir ao máximo o embate e acabei por me aconchegar nas suas costas. Senti-lhe o perfume forte ao mesmo tempo que respirava um cabelo cor de amêndoa. Tinha tentado esticar os braços para não a magoar, mas a cintura estreita conduzi-os para a frente, envolvendo-a num abraço involuntário.
Não podem ter passado mais que dois segundos, mas foram sentidos como uma eternidade. Depois ela voltou-se para mim, mas por estar muito próximo tocou com os lábios nos meus, suavemente, para então recuar um pequenino espaço. Consegui ver os olhos de uma cor indefinida e o rubor de face que partilhava comigo…
Finalmente articulei um pedido de desculpas, recebendo a mais estranha das respostas.
- Não faz mal. Acredita que não faz mesmo mal.
Então afastou-se caminhando devagar, enquanto eu fiquei parado no mesmo lugar. Difícil de acreditar foi um último olhar, quando se virou, como que para confirmar que eu existia.

Para quem se interrogue, não corri atrás dela… E sim, acho que estes momentos de magia podem acontecer na vida real. Este foi completo assim mesmo…