quarta-feira, março 28, 2007

Mais um dia…

Hoje dói-me um pouco a cabeça. Sem perceber deve ter sido a tensão de uma reunião importante. Ou então a gravata! Ai a gravata...
Demorei anos a conseguir largar o fato e gravata. A convencer, sem ter que falar nisso, chefe após chefe, que a minha inteligência não depende daquele uniforme que me aperta. Aliás não seria estranho que tivesse dificuldade em pensar, com o pescoço apertado e o sangue com dificuldade em subir.
Mas aos poucos consegui. E agora só o visto em ocasiões especiais. Hoje foi uma delas e o dia virou-se para mim. A todos causei espanto. Aos homens uma expressão de surpresa, seguida de perto por uma tentativa falhada de fazer humor. Com as mulheres foi diferente. Começaram cedo os elogios e os piropos sucediam-se com fotos roubadas à mistura. Não sabia onde me esconder. Então fico melhor de fato? É frustante!

E o vencedor é…

Tinha imaginado um grande discurso. Mas depois pensei um pouco e percebi que a escolha do video que mais me tocou, por si só explica o que sinto ao escrever neste preciso momento. A vontade de abraçar a todos. Obrigado pelos momentos.




segunda-feira, março 19, 2007

O carro antigo e um beijo…

Há muitos anos o meu avô ofereceu-me um carro. Era velhinho, pequenino, mas de confiança. Daqueles que nunca nos deixam ficar mal. Que não param a meio da auto-estrada a acender luzes e avisos electrónicos. Este não! Quando tive que o levar ao mecânico, também antigo, ele perguntou-me se costumava andar sozinho no carro. Em resposta ao meu sim, anunciou que ia deixar a suspensão do meu lado um pouco mais levantada para compensar o peso. Andou inclinado para o lado direito durante meses. Era assim o meu carro.
Parecia-me que existia uma relação de partilha entre nós e as aventuras que vivemos nunca deixarão que o esqueça. Um dia partimos na maior delas todas, respondendo ao coração que ansiava pelo encontro. Ela era tão linda que parecia inatingível, cercada de olhares e desejos que me faziam recuar a uma condição de menino, que não se atreve a tentar.
Mas sem perceber, as palavras tinham chegado, mostrando e encantando e fazendo nascer um futuro pouco provável.
Depois de muito conduzir, parei numa estação, muito nervoso e esperei por um dos comboios da tarde. Os lugares comuns tornavam a cena ainda mais ansiosa, aguardando pela recordação de uns lábios que ofuscavam...
Ao chegar um sorriso, seguido de um abraço enrroscado. Depois um pedido em múrmurio.
- Vamos sair daqui.
O mesmo carro levou-nos para perto do mar, empurrados por uma brisa que ia falando coisas baixinho. Estacionei em frente das ondas e ali fiquei sem saber muito bem o que dizer. Então lembrei-me do que tinha planeado de forma tosca, uns dias antes. A vida devia ter banda sonora e fiel a este desejo tonto, levei comigo um discman e um CD previamente escolhido. A certa altura, tinha pensado, convidaria-a a ouvir “aquela” música e num momento de intensidade inigualável...
Bom... Perdido num beco sem aparente saída lembrei-me do CD que puxei para junto de mim. Ia a começar a falar da música quando ela olhou para mim de forma muito directa. Tirou-me o discman das mãos e atirou-o para o banco de trás... Depois segurou-me na cara de forma doce e beijou-me com paixão...

sábado, março 17, 2007

Se escrevesse...

Se escrevesse agora algo, seria profundamente depressivo. E como disso fujo...
Vou voar baixinho de mota e ver o mar, para ver se me acalmo...para que me acalme...

sexta-feira, março 16, 2007

O pequeno Tom...

Não tenho por hábito desejar que o passado volte. Gosto apenas de recordá-lo no que teve de bom. No que me fez sonhar, nas memórias que guardo com carinho. Ao fazê-lo espero recordar alguma da minha essência e se conseguir, resgatá-la para o presente.
Tinha pensado em fazer um post para uma das séries mais antigas de que me lembro. Uns bonecos animados lindos que se chamavam ‘Franjinhas e o Carrossel Mágico’. Mas para ser justo, a escrever tinha de ser sobre aquele que até hoje é de longe o meu preferido. Que revi vezes sem conta e cujo DVD não comprei porque a dobragem não é a original. Ao que parece, entre a RTP e mais alguém, houve quem se encarregasse de deixar perder talvez a melhor dobragem de todos os tempos. Ainda me lembro com orgulho de consegui imitar na perfeição o Joe Índio, vilão de enigmas e presença assustadora.
Os pés descalços, a pureza de uma infância vivida com intensidade, mas sem a consciência de que pudesse um dia acabar. A eterna visão de aventura perante os mais insignificants pormenores... O sentido da amizade sem porquês, confortável numa corrida junto ao rio ou no observar das estrelas, mordiscando uma palhinha.
Já quase adulto, durante a universidade, lembro que uma amiga me telefonava para avisar que estava a começar na televisão... Para que durante uns vinte minutos ficasse de olhos esbugalhados, sem me atrever a piscá-los e quantas vezes largando lágrimas de criança que se reconhece. Que saudades, pequeno Tom.





Elvis...

Aos 14 admirava o Elvis. O mais novo, ainda sem golas. Sem a decadência sedutora de Vegas e dos brilhos. Só hoje a entendo, percebendo a sua razão. Deixo-me empurrar para um sono estranho, com tons que me apetece partilhar. À melodia ouvia-a pela primeira vez na Radar, há uns tempos...
Estranho? Podia parecer, para um qualquer candidato a melómano e irritante pseudo intelectual. Mas não! Ouvida com atenção encaixa em perfeição...em alternativa...





quarta-feira, março 14, 2007

Pizza, lágrimas e risos…

Uma festa de crianças! A experiência mais incrível que alguém já adulto pode viver. Aos sete anos a energia é maior que nunca, mostrada em cada brilho de olhar que pergunta e observa sem parar.
A ansiedade começou ainda na escola, com os parabéns, o bolo, o desejo pedido debaixo da mesa, mordiscando a vela... em ritual que desconhecia.
No recreio as perguntas sucediam-se.
- Quando é que vamos? Quando começa a festa?
Depois lá se formou a fila, de vinte pequenitos, e felicidade antecipada, até à pizzaria. Cada um deles ia fazer a sua própria pizza, que depois comeria em alegria pura. Mas antes, descobriram o pequeno espaço de brincadeiras, com bolinhas às cores, colchões e túneis imaginados, como numa grande aventura, em que procuravam um tesouro.
Depressa a exitação ultrapassou a nossa compreensão, com risos largos, gritos, jogos de protecção e estratégia. Juntos rebolavam, caíam, puxavam uns pelos outros enquanto resolviam pequenos conflitos de maneira engraçada. De vez em quando chorava um, a Maria, o Manuel, a Inês, a Carolina várias vezes, alvo de dez boladas certeiras, nas suas próprias palavras confessadas em soluço. Até a aniversariante experimentaria o sal de uma lágrima, por uma vez mais fruto das tais bolas às cores. Depois voltavam a entrar, esquecendo os precalços, não se importando com a possibilidade de se magoarem novamente. Afinal a alegria era maior que tudo, visível nos cabelos transpirados, na vontade interminável de brincar.

terça-feira, março 13, 2007

Um dia tinha de acontecer...

Ao fim de tantos anos, finalmente aconteceu. Pela primeira vez na minha vida fui ao cinema sozinho! Mas não me estou a referir à experiência de ir ver um filme sem companhia. Quando digo sozinho, é sozinho mesmo! Não havia mais ninguém na sala!
Eu bem estranhei logo no momento em que comprei o bilhete. Estou habituado a ir ao cinema sem companhia, por fazê-lo de impulso, normalmente em tardes serenas, em que não tenho nada programado. Quando ia escolher o lugar, a senhora que o vendia interrompeu-me.
- É livre. Pode escolher o que quiser.
Como sei que aquelas salas têm lugares marcados, comecei a desconfiar. Depois, quando tive de abrir as portas e sentar-me sem se quer mostrar o bilhete a alguém, percebi que tinha chegado o momento que tanto aguardara. Estava só. Tinha a sala só para mim!
Existe um misto de excitação pela sensação de importância e de receio de ninguém se procupar com a qualidade da exibição do filme. Afinal era só um ali dentro.
Depois vamos-nos habituando a uma realidade nova e sorrimos pela oferta de duas horas de pura exclusividade. A fantasia do filme foi saindo do ecran, envolvendo um Duende Feliz, observando outros seres de magia.
Quem vive sozinho... quem se habitua a encontrar serenidade na solidão... descobre em pedacinhos, a singularidade e alegria destes momentos.







segunda-feira, março 12, 2007

O começo...

Aos catorze anos dei o meu primeiro beijo! Pelo menos um beijo a sério. Já tinha encostado lábios, mas em demasiada inocência para que o considerasse um verdadeiro beijo. O primeiro terá sido ainda antes dos seis, pelo que me contam os meus pais, numa das nossas frequentes viagens a Espanha. Ter-me-ei então enamorado por uma pequenina sevilhana de loiros caracóis, chamada Mercedes. Eu, ela e o meu irmão costumávamos brincar tentando dar cambalhotas num sofá. Ao que parece eu era o único que não conseguia a proeza e talvez tenha sido isso que encantou a menina que, embora não lembre, me concedeu um beijo.
O outro, o dos catorze anos, foi diferente, de coração descontrolado, pulando. Cheguei a casa em extâse. O meu primeiro e “verdadeiro” beijo!
Ela era mais velha, com dezassete anos, aparentando mais de vinte, capaz de me fazer tremer as pernas e constantemente interrogar – Porquê eu? O que ela veria em mim?
Os meus colegas acotevelavam-se por um lugar perto dela, tentando espreitar para um decote um pouco mais largo. Não controlavam as hormonas que lhe nasciam e rebentavam na cara, sem disfarçar o descontrolo. E eu, sem que fizesse algo de especial, porque nem saberia como, era pela primeira vez amado.
Devo ter andado nas nuvens por um tempo, sentindo-me diferente de todos. Algum tempo mais tarde, como em muitas estórias de amor, algo impediria a nossa relação, de forma abrupta e triste. Mas antes os meus olhos brilharam verdes em cada momento que passámos juntos.
Um dia, eu e o meu irmão convidámos um conjunto de colegas para ir a nossa casa numa tarde sem aulas. Ela também foi, de vestido azul, segurando o meu braço para caminhar, como gostava de fazer. As luzes fecharam-se e a música começou. Demorou anos até que conseguisse ouvi-la sem sentir fortes arrepios de saudade...







domingo, março 04, 2007

Entre o fumo e ela...

1986 passava devagar, porque nessa altura o tempo não tinha tanta pressa. Aos 13 anos experimentava as primeiras rebeldias num 8º ano que me diziam ser mesmo assim. Tinhamos descoberto os cigarros e faziamos do fumo um verdadeiro culto, misto de segredo com a experiência de pulmões cheios. Dizia que não fumava por estilo ou qualquer necessidade de emancipação. E acho que era verdade, porque o fazia apenas entre um pequeno grupo de amigos. Um dia, fomos comprar 2 ou 3 maços e rumámos a casa do Pedro, habitual refúgio das nossas aventuras. Devo ter fumado com demasiada ansiedade, em falta de jeito, porque passado pouco tempo comecei a sentir-me mal. Tive que me ir deitar numa cama a comer uma maçã verde para ver se melhorava. Mas a cada segundo me sentia pior. Tinha tonturas, suores frios, não pensava com clareza...
Segundo alguns entendidos de então estaria a passar por uma experiência a que chamavam qualquer coisa de grande ciência como “apanhar uma moca com tabaco”.
Não consegui ir à escola e fui para casa, para ver se me passava. Devia ser a primeira vez que não ia a uma aula. Deitei-me no sofá da sala, verde escuro, depois de colocar um disco na aparelhagem. Era uma colectânea que ainda hoje tenho em casa dos meus pais, mas cujas músicas já não recordo bem. Sei que uma me tocou em especial porque desatei a chorar ao mesmo tempo que gritava uma jura de não voltar a fumar.
Melhorei aos poucos, até me sentir com forças para ir para a escola que ficava perto. Entrei numa aula já a meio, ainda meio ressacado e sem conseguir pensar bem. Antes de me sentar fui direito a ela, mais uma rapariga feia, mas por quem sentia uma atracção.
Baixei-me junto a ela e segredei uma pergunta.
- Queres andar comigo?
Estava ainda debaixo do efeito da minha “moca”, pois ao contrário não teria tido coragem para tanto. Ela quase caiu da cadeira, mas aceitou...
Não durou muito. Já não me lembro porquê, mas ainda recordo o seu nome. Vou lembrar-me sempre...