segunda-feira, dezembro 31, 2007

Um segredo...


Deixem-me partilhar um pedacinho de mim. Se não existisse este senhor o Duende não seria tão feliz. Se não conhecesse esta música as palavras não teriam nascido da mesma forma. Com versos emprestados, levou-me a uma magia que ainda hoje me arrepia. Queria ter mais tempo para a ela voltar. Para continuar a fugir dos demónios pela música e pela escrita. Mas o novo ano está a chegar…

Feliz 2008!!






segunda-feira, dezembro 17, 2007

Está presa ao chão...

Há dias cheguei à mais óbvia e inútil das conclusões. A minha avózinha não consegue saltar! Não lhe perguntei, nem sequer tenho coragem de lhe pedir que tente. Mas tenho a certeza que, mesmo que se esforçasse, não conseguiria saltar. Nem por um breve instante, seria capaz de se afastar do solo. Felizmente que nunca se deve ter dado conta disso. Provavelmente não salta há quarenta ou cinquenta anos. Melhor assim. Deve ser muito triste chegar a essa conclusão. Imaginem que um dia querem saltar e não podem. Que estão presos ao chão para sempre, incapazes de um voo improvisado… Será inquietante.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Cuba 1965


Gosto de t-shirts, mas raramente me encanto pelo que têm escrito. O que primeiro me prende a atenção é a sua cor e os padrões que aparecem desenhados. Foi dessa forma que comprei uma encarnada, onde está escrito “Cuba 1965”. Não sei o que se passou em Cuba nesse ano (a Revolução é anterior). Antes de terminar este texto tenho de investigar e corrigir a falha histórica.
Nunca fui dos que abracei a causa Cubana, enquanto ícone emprestado para quem não teve de lutar pela liberdade. A assunção de uma alma livre não obriga a que busquemos ideais de outras partes. Não coleccionei figuras de Che, nem advoguei um anti-imperialismo que não conheço. Tenho uma visão histórica, emocionalmente distante, que reconhece a necessidade de expulsar um Batista totalitário e que insistia numa ilha-bordel, estância privada para uma América de dinheiros fáceis, essa sim imperialista. Enquanto Fidel discursava, rodeado pela multidão em alegria pura, uma pomba branca desceu em em voo de paz e poisou no seu ombro verde tropa, símbolo do que este homem oferecia. Onde, desde então até hoje, se perderam os ideais, as causas e a liberdade, ainda está por explicar. O fio que separa uma incondicional defesa da Revolução, até ao perpetuar de poderes e interesses demasiado pessoais, há muito que se quebrou, deixando o povo, materialização opaca de todas as motivações, no limiar de uma enorme pobreza “heróica”.
De bordel americano, Cuba transformou-se em parte numa “casa de alterne” europeia, explorada no seu pitoresco e na alegada felicidade simples. Experimentem viver de senhas de compras e rações controladas, de ter casas, carros e estradas a cair de podre, de olhar para as necessidades mais básicas e compará-las, à beira do choro, com um rendimento ínfimo. Tentem viver num regime de rolhas e mordaças constantes, onde a democracia é uma ilusão, para quem não pode sequer sonhar em dizer (ou escrever) o que pensa sem risco de ir parar a uma prisão ou pior. E no meio de uma hipocrisia não menos imperial, aturo os que me dizem que adoraram visitar Cuba, nos seus costumes e tradições. Mas atenção, previnem, “tem que se ir antes de Fidel morrer”. Querem eles dizer que depois voltaremos a um jugo americano e a um desvirtuar insuportável da “verdade de uma ilha”. Claro! Não são eles que têm de ficar horas em filas para comprar comida ou esperar por um simples transporte. Tal não existe numa Europa confortável. E assim podem viajar duas semanas para Cuba, para verem como vivem os “tradicionalistas”. Melhor será chamá-los de pobres, que é o que são. Pobres, oprimidos e prisioneiros do senhor de barbas, por quem algum mundo civilizado até sente simpatia. As férias em Cuba assemelham-se a uma visita a um laboratório, com ratinhos brancos procurando queijo num labirinto onde tudo falta. E onde há bem pouco tempo o tal senhor barbudo ainda mandou fuzilar quem se atreveu a contrariá-lo.
Nem os estranhos exemplos dos sistemas de saúde e educação gratuitos atenuam ou sequer convencem. Perguntem-nos se preferimos esses benefícios em troca da liberdade. Se assim fosse, se não elegêssemos este bem como a maior conquista de um povo, o mês de Abril não se destacaria no calendário do nosso país.
Nunca fui um “revolucionário”. Por vezes intriguei-me porquê. Será fascista quem questiona os excessos de uma revolução? É complicado não se ser de esquerda e falar de liberdade, pela arrogância com que essa mesma esquerda se apropria das causas e das lutas, mascarando os exemplos (como o de Cuba) em que ela própria se tornou totalitária.
Para mim é fácil perceber que para lidar com Fidel, enquanto os anos não o fizerem, só com outro barbudo, mas um verdadeiro, dos que acreditam, que se mantêm fiéis. Mas isto sou apenas eu, que não sou revolucionário.
Por isso talvez um dia vá a Cuba, mas quando ali existir liberdade. E aos que temem pela perca da pureza e da tradição, que imaginem um lugar onde tanta beleza, cultura e genuína alegria, poderão crescer sem espartilhos. Imaginem por um momento…
Quanto ao ano de 1965, dois factos de destaque apareceram na minha pesquisa. É criado o Partido Comunista de Cuba e Che Guevara renuncia aos cargos no poder, para promover guerras de libertação no estrangeiro. De qualquer forma vou manter a t-shirt (sim, eu sei que é um pouco incoerente...).

quinta-feira, julho 12, 2007

Três estórias e palavrões…

Ela apareceu a correr de repente e virou-se para a senhora da limpeza.
- Tu, preta. Viste bem o que fizeste?
A senhora de cor ficou estática. Nem sabia o que responder. Quase de imediato soltou uma pequena lágrima humilhada, que devia estar quente, e caiu na alcatifa sem um único som.
A minha primeira reacção foi colocar os phones e esconder-me da situação. No meu emprego existem dezenas de mulheres da limpeza, que só encontro quando chego muito cedo. Umas cumprimentam-me por detrás de diferentes sotaques, enquanto outras desprezam presenças e o próprio ofício, que não mantêm por muito tempo.
Mas não consegui alhear-me. Sem perguntar a razão da gritaria fui direito à agressora e disse.
- Sabe. Você é uma puta!
Ela ainda balbuciou alguma coisa nas minhas costas, mas nem ouvi.

(…)

Na semana passada tive uma noite quase irreal. Uma amiga de há muito convidou-me para jantar em casa dela. Queria apresentar-me o namorado novo!
Não sei porque se chama “namorado novo”. Dá-lhe um carácter finito. É quase como se fosse carimbado.
Perguntei-lhe se podia levar uma amiga para equilibrar o ambiente, ao que me respondeu que sim. Perguntou-me inevitavelmente se era apenas uma amiga, mas depressa abandonou o sonho do jantarzinho de casais. Era mesmo “só” isso.
Chegámos três ou quatro minutos depois da hora e começamos a subir para o terceiro andar sem elevador. A Margarida ainda reclamou um pouco.
- Só tu é que me trazes para estas coisas.
Sorri sem ter uma frase que a consolasse. Apenas sorri.
Ao chegarmos bati levemente na madeira da porta, recebendo um estridente – Já vou!
A Raquel abriu a porta muito corada e a distribuir beijinhos. Aceitou os casacos e começou a dar ordens.
- Venham! Venham conhecer o João!
Ela foi direita à sala, sem perguntar ou fazer cerimónia. Percebia-se a ansiedade.
- Meninos, este é o meu amor. O João!
O meu coração ia saltando. O João era o João Miguel, meu colega de trabalho, com quem almoço pelo menos duas vezes por semana e, para meu pânico, casado há cinco anos e com uma filha de dois. Por impulso e estranha sintonia escolhemos a mesma táctica. Aceitámos a mentira para o resto da noite. Eu, de nó que ardia na garganta, fingi o melhor que pude e evitei que falássemos sobre o meu emprego.
Na única altura em que ficámos sós, quando elas foram à cozinha preparar o café, ele disse-me com olhos sem alma.
- Bem me saíste um grande cabrão. Que filha da puta de situação.
Enquanto recebia um abraço asqueroso de agradecimento, só consegui responder.
- É verdade. Que grande cabrão.

(…)

Ontem ao parar num sinal encarnado segui um hábito antigo. Olhar para o carro ao meu lado. Nele descobri uma rapariga que não era bonita nem feia. Olhou para mim de forma rápida e concentrou-se no espaço à sua frente.
Não resisti e olhei de novo, para me deparar com pormenor inesperado. Talvez por causa do cinto de segurança, a camisa que vestia tinha soltado os botões e descobria por completo um seio. Começaram a escorrer-me gotinhas nervosas antes que ganhasse coragem para me virar outra vez. O que devia fazer? Parar de olhar? Aproveitar e deixar que as hormonas controlassem a situação?
Da indecisão nasceu a mais bizarra das atitudes. Queria avisá-la.
Abri a janela e com um pequeno toque buzinei para a chamar. Ao meu sinal de que queria falar-lhe ela baixou o vidro e debruçou-se na minha direcção. Nessa altura a camisa abriu por completo mostrando ambos os seios. Dominei as tais hormonas e recusei olhar apesar de querer. Por certo que ela percebera.
Esperei uns segundos antes de levantar o olhar, para a encontrar sentada muito direita, com um sorriso envergonhado. Com um aceno de expressão agradeceu o meu gesto. O sinal ficou verde, mas não arrancámos de imediato. Então ela começou a avançar muito devagarinho. E contrariando a força que a puxava para diante ainda conseguiu gritar.
- Que merda de situação.
Pareceu-me que queria dizer algo mais.

quarta-feira, junho 27, 2007

Saiu...

Finalmente, muitos dias e dores depois, tudo o que restava da “doce” pedrinha abandonou o meu corpo. As palavras do senhor doutor foram mágicas – está curado!
É claro que nos rins ainda se alojam mais cinco, mas com um pouco de sorte por lá ficarão uns tempos para que descanse e daqui a uns meses, quando já não me lembrar tanto da tortura, talvez me dedique a fazer qualquer coisa em relação a elas. Por agora vou aproveitando esta bonança. A sensação de voltar a ter uma vida normal. De pensar e escrever algo que não tenhas as palavras pedra ou hospital incluídas. E afinal nem foram precisos “disparos” nem nada. A senhora pedra encontrou o seu caminho sozinha.

Obrigado pelas vossas melhoras e mensagens simpáticas. Estou curado!

quarta-feira, junho 06, 2007

A pedra e Deus no meio de nós...

Não tenho a certeza de que o pesadelo já tenha acabado. A cada dia espreito a esperança, atento a uma nova crise que me conduza às batas que já são familiares. No pensamento de um mês muito difícil, esforço-me por relativisar e encontrar nos bocadinhos de paz uma serenidade merecida, mesmo que não duradoura. Pergunto-me se tantos analgésicos e veias de pintinhas vermelhas não estarão já a adulterar um descernimento que à partida já não arrancava nas primeiras posições.
Às quatro e meia da manhã, consegui finalmente estacionar o carro perto de casa, ainda meio zonzo de mais uma dose intravenosa de uma qualquer droga que não chegou a enrolar-me a língua. Ao caminhar reparei numa folha colada a um poste em madeira. Podia ler-se o seguinte – Deus chega amanhã. Durante todo o dia vai passear pela cidade, misturado com todos nós.
Nos dois parágrafos em baixo era explicado que Deus viria, em matéria, até nós e andaria pelas ruas como qualquer outra pessoa. Cabia-nos a capacidade de o reconhecer.
Contrariei o desejo de arrancar o papel, para que outros o pudessem ler, e fui dormir anestesiado.
No dia seguinte os químicos ainda produzem o seu efeito. As cores e cheiros são mais fortes, enquanto os sons e imagens se diluem e mesclam em névoas para decifrar.
Não fui trabalhar e comecei bem cedo a deambular pelas ruas. Preferia o bucólico dos sonhos, mas esquina após esquina iniciei a minha busca por Ele.
A primeira tentativa era até a mais óbvia. Um senhor que costuma estar a pintar almas numa rua estreita de comércio antiquado. Aproximei-me devagar e fiquei a ponderar. Ele tinha longas barbas brancas e um franzir de testa omnipotente, de quem percebe o que vamos dizer. Dirigi-lhe a palavra na esperança de que sorrisse e assumisse a sua condição. Houve sorriso, mas apenas de orgulho pela última pintura. O senhor de barbas não era Deus.
Não demorei a enfrentar o extremo. Porque haveria de ser um homem? O estereótipo foi criado por alguém, quando ninguém sabe...
No meio de uma pequena multidão vi a senhora negra de longas saias e ancas muito largas. Parecia-se com Deus. Dançava a troco de moedas demasiado escuras, enquanto as pilhas da telefonia cor de laranja ameaçavam fraquejar. A saia era verde com uma faixa amarelada e não parava de rodar. Poderia Deus dançar assim?
Nas horas seguintes enfiei-me dentro dos autocarros a saltar de cara em cara. Em cada olhar perguntava pela Sua presença, ao mesmo tempo que ia conhecendo muitas expressões.
Era inevitável. Foi o senhor de só uma perna que me prendeu a atenção. Nas muletas em madeira tinha desenhos a canivete e equilibrava com dificuldade um livro com as folhas presas por um cordel com ar resistente. Deviam ser nomes... de nós.
Sentei-me na paragem, mesmo ao seu lado. Não demorei a perguntar.
- O senhor tem dores?
Ele olhou para o espaço onde faltava o membro e encolheu os ombros.
- Só quando chove.
- Doem-lhe os ossos? Perguntei a medo.
Ele riu-se.
- Não. Mas não tenho mais mãos para o chapéu de chuva.
Era uma graça, que me arrancou um pequenino riso.
- Posso fazer-lhe mais uma pergunta.
- Claro que sim!
- O senhor é Deus?
Deixou que entrasse no azul gasto mas profundo dos seus olhos e devolveu-me uma questão.
- Tem tido dores?
- Sim. Neste último mês bastantes.
Suspirando acabou por concluir.

- Já tinha percebido.

quinta-feira, maio 17, 2007

Pretty Woman e o cálculo…

- Você tem um cálculo renal. Disse a médica de forma até gentil.
Porque lhe chamarão cálculo? É uma pedra, isso sim. Uma pedra que nasce num qualquer rim que a decide criar, para que um dia a expulse e envie em dolorosa viagem.
Eu sabia o que tinha. Apesar de um doce intervalo de três anos, a dor voltou. Felizmente não foi muito forte, mas suficiente para passar uma tarde entre senhoras de batas brancas e azuis. Elas agora espetam a agulha e depois deixam lá preso o tubinho, não vá ser preciso mais tarde. Uma dose certa de fármacos e a dor que passou a moínha, transformou-se num torpor que por pouco não me fazia dormir.
Os dias agora são de espera. Para que o senhor cálculo desça sozinho… quando lhe apetecer.
Aproveito este momento de maior fragilidade física para justificar o que não necessita de o ser. Ao ligar a televisão aparece-me o par inesperado, que gera empatias de igualdades. Júlia, a Roberts sorri e sonha com um cavaleiro que a salve do alto de uma torre imaginada. Seria do cálculo? Estaria a minha sensibilidade exponenciada pela antevisão e receio constante da dor? Acho que não. Apenas um desejo seguro de sorrir com pequenas tolices. E depois? Alguém tem problemas com isso? Humppff...

Que me importa. E se me irritam ainda me ponho a recitar os versos de uma antiga melodia. E não é que vou mesmo.


Eu era triste e sozinha,
jamais tinha amado ninguém,
só vivia para a dor…

Perdida em longo caminho,
sem mais ter encontrado alguém,
por quem sentisse amor.

Um dia depois de muito penar,
a tua voz me chamou infeliz.
Vi então a luz do teu doce olhar
e foi assim que eu comecei a ser feliz.

domingo, maio 13, 2007

O rapaz que não conseguia travar...

Ontem não conseguia travar! Por mais que tentasse sentia o chão a fugir-me, deliciando-se na falta de atrito, rindo em bandeja ao ver-me chocar.
Logo ao levantar os calcanhares voaram com o branco dos lençóis da semana e a nuca explodiu numa esquina que apenas ali existia.
Na rua era muito pior. Quando tentava caminhar mais depressa começava logo a deslizar. Inclinava o corpo para um dos lados na esperança de conseguir pelo menos virar. Mas só parava de encontro a uma parede, cadeiras de esplanada ou a um secular fontanário. Para poder deslocar-me traçava caminhos rectos, como se planasse no espaço, à deriva na ausência de gravidade. De obstáculo em obstáculo, acumulando dores e nódoas muito negras lá ia avançado, em ricochetes estranhos que me desesperavam.
Quando parei ainda não tinha a certeza. Pensava em cada recanto onde batera. Em todas as arestas que, depois de me ferirem, me empurraram noutra direcção. No final de uma viagem de encontrões respirava fundo para analisar. Olhei em volta percebendo onde chegara, cheirando e sentindo o presente. Sentado de pernas cruzadas na melhor das posições, fiquei a fechar conclusões. Ainda vou lembrar os choques, talvez ainda escorregue numa qualquer noite em que o empedrado esteja muito molhado. Só com essa memória posso aprender a travar...

quarta-feira, abril 25, 2007

Noite em B(e)leza…

Há coisas que nos faltam. O toque é uma delas, afastando-nos e impedindo que o abraço da pele nos faça perceber. Remetemo-nos a uma química observada, por vezes insuficiente para que os arrepios nos tragam quase certezas, que nos encoragem a continuar. É certo que em tempos idos também o não havia, ao toque, mas a sua ausência era compensada por um reconhecer de empatias naturais. Os meus avós apaixonaram-se enquanto olhavam a mesma montra. Ele sorriu e ela sorriu em troca. Não foi preciso mais nada.
Connosco é diferente. A última oportunidade que tivemos foram os saudosos slows, agora quase esquecidos. Trancados em espaços reduzidos, em ambiente escurecido, balançavamos de um lado para o outro, ousando apertar devagarinho, encostar o rosto a quem enlaçava os braços em volta do nosso pescoço. Eram momentos de verdadeira magia e que largámos ao ver a idade adulta chegar, impondo regras e a falta de outras emoções.
E num qualquer dia... sem que o tivessemos pleneado, encontramos de novo a emoção de um abraço de dança. Reconhecemos o calor que nunca se afastou, apertamos e repetimos o balançar que afinal não esquecemos. Permitimos mesmo a liberdade prudente do tacto, procurando novos espaços e o sentir. Ao receber as mãos fechando-se nas nossas costas, sorrimos por tudo ainda existir...
Quando é que decidimos afastarmo-nos do toque? Porque passámos a ignorar a sua serenidade agitada, saltando como tolos, a poucos cêntimetros do que deviamos segurar?
Em que momento deixámos de perceber?

quarta-feira, abril 18, 2007

An affair to remember…


Desculpem-me que vos traga o passado uma vez mais. Não por viver virado para trás, mas porque a memória de sensações me encanta, ao reconhecer uma simplicidade mágica que se vai perdendo. Gostava que cada um de vós pudesse ver o filme que partilha o nome com este post – An affair to remember. Penso que apareceu em 1957, no auge da carreira de um incontornável Cary Grant, acompanhado pela lindíssima Deborah Kerr, talvez com uma beleza mais discreta que algumas das estrelas da altura, mas de uma intensidade serena que nos desarma por completo. Tenho ideia de o ter visto por mais que uma vez em criança, recordando o pormenor do encontro marcado para o último andar do Empire State Building.
Já perto da idade adulta vi-o novamente, numa noite de canal dois, então com outros olhos, outro entendimento, por fim o sentir de cada cena com a magia que delas nascia.
Mais tarde consegui finalmente encontrar o DVD e trazê-lo para casa, bem seguro contra o peito, ainda sem acreditar. Ontem por acaso, enquanto trocava de canais, encontrei-o já na fase final. E ali fiquei enamorado a ver, perdido em sorrisos.
Fico sempre fascinado pelos diálogos, aparentemente simples e no fundo tão cheios de emoções, por vezes sem serem faladas. Cada expressão, baixar de olhos, para depois seguirem com intenção, são oferecidos com uma cumplicidade e exemplo supremo de uma empatia a que só podemos aspirar. Há uns anos realizaram um remake que me recuso a ver, por respeito e fidelidade à obra original.
Gostava que me fizessem companhia nesta descoberta, sonhando com um amor assim...

domingo, abril 08, 2007

A foto...

Basta estar com atenção. Ou então sou eu! É comigo que os momentos mágicos continuam a acontecer. Em qualquer início de noite sereno, sinto que há imagens que nasceram apenas para mim. Esta foto foi tirada em Lisboa, perto de Sete Rios, enquanto conduzia. Só tive um segundo…



domingo, abril 01, 2007

Aconteceu numa sexta-feira…

Não sou a pessoa mais concentrada que existe. Sou muito distraído e pateta, o que encanta as crianças e por vezes me envergonha. Noutras alturas apenas me faz sorrir.

Quando chegou a hora do almoço desci traquilamente para a rua. Enquanto caminhava para o restaurante fui ultrapassado por uma rapariga apressada. Ela continuou em passos rápidos mesmo na minha frente. Sem perceber imitei-lhe a velocidade e porque tinha os passos maiores fiquei mais perto dela.
De repente, como por se lembrar de alguma coisa, ela parou de andar. Apanhado desprevenido com a sua imobilização não consegui travar a tempo. Mas não choquei! Num último esforço tentei reduzir ao máximo o embate e acabei por me aconchegar nas suas costas. Senti-lhe o perfume forte ao mesmo tempo que respirava um cabelo cor de amêndoa. Tinha tentado esticar os braços para não a magoar, mas a cintura estreita conduzi-os para a frente, envolvendo-a num abraço involuntário.
Não podem ter passado mais que dois segundos, mas foram sentidos como uma eternidade. Depois ela voltou-se para mim, mas por estar muito próximo tocou com os lábios nos meus, suavemente, para então recuar um pequenino espaço. Consegui ver os olhos de uma cor indefinida e o rubor de face que partilhava comigo…
Finalmente articulei um pedido de desculpas, recebendo a mais estranha das respostas.
- Não faz mal. Acredita que não faz mesmo mal.
Então afastou-se caminhando devagar, enquanto eu fiquei parado no mesmo lugar. Difícil de acreditar foi um último olhar, quando se virou, como que para confirmar que eu existia.

Para quem se interrogue, não corri atrás dela… E sim, acho que estes momentos de magia podem acontecer na vida real. Este foi completo assim mesmo…

quarta-feira, março 28, 2007

Mais um dia…

Hoje dói-me um pouco a cabeça. Sem perceber deve ter sido a tensão de uma reunião importante. Ou então a gravata! Ai a gravata...
Demorei anos a conseguir largar o fato e gravata. A convencer, sem ter que falar nisso, chefe após chefe, que a minha inteligência não depende daquele uniforme que me aperta. Aliás não seria estranho que tivesse dificuldade em pensar, com o pescoço apertado e o sangue com dificuldade em subir.
Mas aos poucos consegui. E agora só o visto em ocasiões especiais. Hoje foi uma delas e o dia virou-se para mim. A todos causei espanto. Aos homens uma expressão de surpresa, seguida de perto por uma tentativa falhada de fazer humor. Com as mulheres foi diferente. Começaram cedo os elogios e os piropos sucediam-se com fotos roubadas à mistura. Não sabia onde me esconder. Então fico melhor de fato? É frustante!

E o vencedor é…

Tinha imaginado um grande discurso. Mas depois pensei um pouco e percebi que a escolha do video que mais me tocou, por si só explica o que sinto ao escrever neste preciso momento. A vontade de abraçar a todos. Obrigado pelos momentos.




segunda-feira, março 19, 2007

O carro antigo e um beijo…

Há muitos anos o meu avô ofereceu-me um carro. Era velhinho, pequenino, mas de confiança. Daqueles que nunca nos deixam ficar mal. Que não param a meio da auto-estrada a acender luzes e avisos electrónicos. Este não! Quando tive que o levar ao mecânico, também antigo, ele perguntou-me se costumava andar sozinho no carro. Em resposta ao meu sim, anunciou que ia deixar a suspensão do meu lado um pouco mais levantada para compensar o peso. Andou inclinado para o lado direito durante meses. Era assim o meu carro.
Parecia-me que existia uma relação de partilha entre nós e as aventuras que vivemos nunca deixarão que o esqueça. Um dia partimos na maior delas todas, respondendo ao coração que ansiava pelo encontro. Ela era tão linda que parecia inatingível, cercada de olhares e desejos que me faziam recuar a uma condição de menino, que não se atreve a tentar.
Mas sem perceber, as palavras tinham chegado, mostrando e encantando e fazendo nascer um futuro pouco provável.
Depois de muito conduzir, parei numa estação, muito nervoso e esperei por um dos comboios da tarde. Os lugares comuns tornavam a cena ainda mais ansiosa, aguardando pela recordação de uns lábios que ofuscavam...
Ao chegar um sorriso, seguido de um abraço enrroscado. Depois um pedido em múrmurio.
- Vamos sair daqui.
O mesmo carro levou-nos para perto do mar, empurrados por uma brisa que ia falando coisas baixinho. Estacionei em frente das ondas e ali fiquei sem saber muito bem o que dizer. Então lembrei-me do que tinha planeado de forma tosca, uns dias antes. A vida devia ter banda sonora e fiel a este desejo tonto, levei comigo um discman e um CD previamente escolhido. A certa altura, tinha pensado, convidaria-a a ouvir “aquela” música e num momento de intensidade inigualável...
Bom... Perdido num beco sem aparente saída lembrei-me do CD que puxei para junto de mim. Ia a começar a falar da música quando ela olhou para mim de forma muito directa. Tirou-me o discman das mãos e atirou-o para o banco de trás... Depois segurou-me na cara de forma doce e beijou-me com paixão...

sábado, março 17, 2007

Se escrevesse...

Se escrevesse agora algo, seria profundamente depressivo. E como disso fujo...
Vou voar baixinho de mota e ver o mar, para ver se me acalmo...para que me acalme...

sexta-feira, março 16, 2007

O pequeno Tom...

Não tenho por hábito desejar que o passado volte. Gosto apenas de recordá-lo no que teve de bom. No que me fez sonhar, nas memórias que guardo com carinho. Ao fazê-lo espero recordar alguma da minha essência e se conseguir, resgatá-la para o presente.
Tinha pensado em fazer um post para uma das séries mais antigas de que me lembro. Uns bonecos animados lindos que se chamavam ‘Franjinhas e o Carrossel Mágico’. Mas para ser justo, a escrever tinha de ser sobre aquele que até hoje é de longe o meu preferido. Que revi vezes sem conta e cujo DVD não comprei porque a dobragem não é a original. Ao que parece, entre a RTP e mais alguém, houve quem se encarregasse de deixar perder talvez a melhor dobragem de todos os tempos. Ainda me lembro com orgulho de consegui imitar na perfeição o Joe Índio, vilão de enigmas e presença assustadora.
Os pés descalços, a pureza de uma infância vivida com intensidade, mas sem a consciência de que pudesse um dia acabar. A eterna visão de aventura perante os mais insignificants pormenores... O sentido da amizade sem porquês, confortável numa corrida junto ao rio ou no observar das estrelas, mordiscando uma palhinha.
Já quase adulto, durante a universidade, lembro que uma amiga me telefonava para avisar que estava a começar na televisão... Para que durante uns vinte minutos ficasse de olhos esbugalhados, sem me atrever a piscá-los e quantas vezes largando lágrimas de criança que se reconhece. Que saudades, pequeno Tom.





Elvis...

Aos 14 admirava o Elvis. O mais novo, ainda sem golas. Sem a decadência sedutora de Vegas e dos brilhos. Só hoje a entendo, percebendo a sua razão. Deixo-me empurrar para um sono estranho, com tons que me apetece partilhar. À melodia ouvia-a pela primeira vez na Radar, há uns tempos...
Estranho? Podia parecer, para um qualquer candidato a melómano e irritante pseudo intelectual. Mas não! Ouvida com atenção encaixa em perfeição...em alternativa...





quarta-feira, março 14, 2007

Pizza, lágrimas e risos…

Uma festa de crianças! A experiência mais incrível que alguém já adulto pode viver. Aos sete anos a energia é maior que nunca, mostrada em cada brilho de olhar que pergunta e observa sem parar.
A ansiedade começou ainda na escola, com os parabéns, o bolo, o desejo pedido debaixo da mesa, mordiscando a vela... em ritual que desconhecia.
No recreio as perguntas sucediam-se.
- Quando é que vamos? Quando começa a festa?
Depois lá se formou a fila, de vinte pequenitos, e felicidade antecipada, até à pizzaria. Cada um deles ia fazer a sua própria pizza, que depois comeria em alegria pura. Mas antes, descobriram o pequeno espaço de brincadeiras, com bolinhas às cores, colchões e túneis imaginados, como numa grande aventura, em que procuravam um tesouro.
Depressa a exitação ultrapassou a nossa compreensão, com risos largos, gritos, jogos de protecção e estratégia. Juntos rebolavam, caíam, puxavam uns pelos outros enquanto resolviam pequenos conflitos de maneira engraçada. De vez em quando chorava um, a Maria, o Manuel, a Inês, a Carolina várias vezes, alvo de dez boladas certeiras, nas suas próprias palavras confessadas em soluço. Até a aniversariante experimentaria o sal de uma lágrima, por uma vez mais fruto das tais bolas às cores. Depois voltavam a entrar, esquecendo os precalços, não se importando com a possibilidade de se magoarem novamente. Afinal a alegria era maior que tudo, visível nos cabelos transpirados, na vontade interminável de brincar.

terça-feira, março 13, 2007

Um dia tinha de acontecer...

Ao fim de tantos anos, finalmente aconteceu. Pela primeira vez na minha vida fui ao cinema sozinho! Mas não me estou a referir à experiência de ir ver um filme sem companhia. Quando digo sozinho, é sozinho mesmo! Não havia mais ninguém na sala!
Eu bem estranhei logo no momento em que comprei o bilhete. Estou habituado a ir ao cinema sem companhia, por fazê-lo de impulso, normalmente em tardes serenas, em que não tenho nada programado. Quando ia escolher o lugar, a senhora que o vendia interrompeu-me.
- É livre. Pode escolher o que quiser.
Como sei que aquelas salas têm lugares marcados, comecei a desconfiar. Depois, quando tive de abrir as portas e sentar-me sem se quer mostrar o bilhete a alguém, percebi que tinha chegado o momento que tanto aguardara. Estava só. Tinha a sala só para mim!
Existe um misto de excitação pela sensação de importância e de receio de ninguém se procupar com a qualidade da exibição do filme. Afinal era só um ali dentro.
Depois vamos-nos habituando a uma realidade nova e sorrimos pela oferta de duas horas de pura exclusividade. A fantasia do filme foi saindo do ecran, envolvendo um Duende Feliz, observando outros seres de magia.
Quem vive sozinho... quem se habitua a encontrar serenidade na solidão... descobre em pedacinhos, a singularidade e alegria destes momentos.







segunda-feira, março 12, 2007

O começo...

Aos catorze anos dei o meu primeiro beijo! Pelo menos um beijo a sério. Já tinha encostado lábios, mas em demasiada inocência para que o considerasse um verdadeiro beijo. O primeiro terá sido ainda antes dos seis, pelo que me contam os meus pais, numa das nossas frequentes viagens a Espanha. Ter-me-ei então enamorado por uma pequenina sevilhana de loiros caracóis, chamada Mercedes. Eu, ela e o meu irmão costumávamos brincar tentando dar cambalhotas num sofá. Ao que parece eu era o único que não conseguia a proeza e talvez tenha sido isso que encantou a menina que, embora não lembre, me concedeu um beijo.
O outro, o dos catorze anos, foi diferente, de coração descontrolado, pulando. Cheguei a casa em extâse. O meu primeiro e “verdadeiro” beijo!
Ela era mais velha, com dezassete anos, aparentando mais de vinte, capaz de me fazer tremer as pernas e constantemente interrogar – Porquê eu? O que ela veria em mim?
Os meus colegas acotevelavam-se por um lugar perto dela, tentando espreitar para um decote um pouco mais largo. Não controlavam as hormonas que lhe nasciam e rebentavam na cara, sem disfarçar o descontrolo. E eu, sem que fizesse algo de especial, porque nem saberia como, era pela primeira vez amado.
Devo ter andado nas nuvens por um tempo, sentindo-me diferente de todos. Algum tempo mais tarde, como em muitas estórias de amor, algo impediria a nossa relação, de forma abrupta e triste. Mas antes os meus olhos brilharam verdes em cada momento que passámos juntos.
Um dia, eu e o meu irmão convidámos um conjunto de colegas para ir a nossa casa numa tarde sem aulas. Ela também foi, de vestido azul, segurando o meu braço para caminhar, como gostava de fazer. As luzes fecharam-se e a música começou. Demorou anos até que conseguisse ouvi-la sem sentir fortes arrepios de saudade...







domingo, março 04, 2007

Entre o fumo e ela...

1986 passava devagar, porque nessa altura o tempo não tinha tanta pressa. Aos 13 anos experimentava as primeiras rebeldias num 8º ano que me diziam ser mesmo assim. Tinhamos descoberto os cigarros e faziamos do fumo um verdadeiro culto, misto de segredo com a experiência de pulmões cheios. Dizia que não fumava por estilo ou qualquer necessidade de emancipação. E acho que era verdade, porque o fazia apenas entre um pequeno grupo de amigos. Um dia, fomos comprar 2 ou 3 maços e rumámos a casa do Pedro, habitual refúgio das nossas aventuras. Devo ter fumado com demasiada ansiedade, em falta de jeito, porque passado pouco tempo comecei a sentir-me mal. Tive que me ir deitar numa cama a comer uma maçã verde para ver se melhorava. Mas a cada segundo me sentia pior. Tinha tonturas, suores frios, não pensava com clareza...
Segundo alguns entendidos de então estaria a passar por uma experiência a que chamavam qualquer coisa de grande ciência como “apanhar uma moca com tabaco”.
Não consegui ir à escola e fui para casa, para ver se me passava. Devia ser a primeira vez que não ia a uma aula. Deitei-me no sofá da sala, verde escuro, depois de colocar um disco na aparelhagem. Era uma colectânea que ainda hoje tenho em casa dos meus pais, mas cujas músicas já não recordo bem. Sei que uma me tocou em especial porque desatei a chorar ao mesmo tempo que gritava uma jura de não voltar a fumar.
Melhorei aos poucos, até me sentir com forças para ir para a escola que ficava perto. Entrei numa aula já a meio, ainda meio ressacado e sem conseguir pensar bem. Antes de me sentar fui direito a ela, mais uma rapariga feia, mas por quem sentia uma atracção.
Baixei-me junto a ela e segredei uma pergunta.
- Queres andar comigo?
Estava ainda debaixo do efeito da minha “moca”, pois ao contrário não teria tido coragem para tanto. Ela quase caiu da cadeira, mas aceitou...
Não durou muito. Já não me lembro porquê, mas ainda recordo o seu nome. Vou lembrar-me sempre...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Uma estória de amor...

Normalmente evito conversas que não desejo. Das que nos fazem desejar desaparecer em vez de envergonhar, numa atenção que nos vai escapando...
Cheguei cedo ao cinema Londres no último fim-de-semana, por ter visto mal as horas. Esperava encostado a uma parede, semi-sentado por baixo de um cartaz com luzes, quando a vi a descer. Uma senhora muito bem arranjada e de alguma idade descia as escadas com dificuldade. Não consegui ficar parado sem ir em seu auxílio. Os braços cruzaram-se num obrigado de alívio.
- Obrigado meu jovem. Eu tenho dificuldade em ver...
No final, desembaraçada dos degraus, dirigiu-se à bilheteira e voltou em seguida para perto de mim. Deve ter adivinhado o meu espanto porque explicou com um sorriso.
- Vejo mal ao perto. Mas consigo acompanhar bem os filmes. Às vezes lá escapa uma legenda ou outra, mas vou percebendo... vou percebendo.
Antes que percebesse, o seu braço já estava de novo poisado no meu.
- Sabe, antes vinha sempre com o meu marido. Foi assim que nos conhecemos.
- No cinema?
- Sim. Um dia, enquanto espreitava para ver que filme tinha estreado, demorei-me a ler um panfleto de muitas cores, desenhado à mão... Então, um rapaz muito alto começou a andar na minha direcção. Falou com a voz a tremer.
- Peço desculpa, mas tenho um bilhete a mais para o filme. Posso convidá-la a fazer-me companhia?
- Depois corou um pouco. Corámos os dois. Eu disse que disse que sim baixando um pouco o olhar. Tremia tanto.
Entrámos na sala que estava quase vazia e ele convidou-me a sentar. Antes que as luzes se apagassem perguntei-lhe.
- Porque tem dois bilhetes?
Ele olhou para mim de forma sincera e respondeu sem medo.
- Porque os comprei...

Tinhamos bilhetes para salas diferentes e o meu filme estava prestes a começar. Despedi-me com um aperto de mão e afastei-me um pouco.
Olhei para trás e vi a senhora a abrir a carteira, procurando algo. Não resisti e voltei para trás. Quando me viu, pediu-me a mão para me mostrar um pedaço de papel muito antigo. Era um bilhete de cinema onde ainda se lia com facilidade um nome – "Rome Adventure".

Demorei dois dias e muitas horas frente ao ecran... Isto foi o que encontrei. Espero que gostem.







domingo, fevereiro 25, 2007

A conclusão II...

Afinal não percebi nada. E por estranho que pareça é o aceitar desta incapacidade de prever que me tranquiliza. Porque tudo pode acontecer. Porque tudo ainda vai acontecer (mesmo que não aconteça). Eu disse que gostava de raparigas bonitas!!! Tolo, absurdamente tolo, é como me vejo. A beleza é tão impossível de definir. E quando uns olhos ternos que escapam a qualquer classificação me derretem... Então entendo o que espero. Aguardo apenas o que me estiver destinado. Um abraço que me dê a certeza de que são aqueles os braços que me envolverão até ao fim. E vou ter forças para não me contentar com menos que isso! Vou mesmo!


Escrito sob a influência de álcool (embora pouco) e a ouvir Bob Marley...

Cheguei a casa! A noite foi agradável, embora curta, por cansaço dos meus pares, pouco motivados para ver o sol nascer. Havia quem estivesse nostálgico, apagando em memórias que lhe fazem mal, sem capacidade para largar o passado (doloroso). Havia quem não se afastasse de um registo sempre constante, que não manifesta muito, mas é simpático e por tal não motiva comportamentos de grande intensidade. Alguém também estava normal, amigo e leal, como sempre. De comportamentos onde crescem as grandes amizades. E depois os dedos... Não consegui deixar de reparar como os dedos dela são compridos, elegantes e chamando o toque. Humm... Não me posso deixar levar apenas por singulares pormenores... Terei que alicerçar melhor as minhas observações. Quem sabe...

Até o descobrir...”Give thanks and praises...”

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

A confissão...

Gosto da novela “Páginas da Vida”! Pronto, está dito. Tenho 34 anos e reconheço a paz de não ter que fingir. Na adolescência temos que seguir as modas, escondendo preferências que nos embaraçavam. Depois dos 30 é diferente. Já não importa.
Podia dizer que oiço música alternativa, que vejo cinema independente... Podia mas não o faço. Pode ser que sim...ou não. Pode até ser que passe as minhas tardes de Sábado a sorrir na companhia de comédias românticas. Não importa mesmo.
Gosto desta novela, porque gosto! É como quando nos sentimos atraidos por alguém. Existe sempre algo de pouco racional na forma como nos enamoramos. Só depois pensamos nas razões.

Neste caso na forma serena e despretensiosa como cada episódio troca emoções com a vida. No doce reconhecer de quem apenas parece diferente, escolhendo uma pedagogia suave, normal, para abordar temas que custam a entrar no que abraçamos. Pela minha parte vou tentando ensinar a uma pequenita o que aprendi por mim, lentamente. Se cada um de nós o for tentando...
Talvez me farte, se a narrativa tropeçar nas exigências comerciais. Até lá vai-me fazendo companhia...

«É boa a sensação de partilhar o que me vem à cabeça. Experimentem!»