quarta-feira, março 15, 2006

A velha paixão...

Joana já passava dos setenta. E parecia-o bem, com longas rugas sulcadas, dançando ao pé dos olhos de muito azul, os únicos que permaneciam jovens. A pele não era seca e retinha um odor agradável, mas muito velha. Não era muito alta, mas contrariara a curvatura de hábitos, mantendo a postura e o orgulho. Andava sempre de saltos altos, ignorando as três varizes e uma leve pontada na terceira vértebra. O andar era perfeito, mas coxeava.
Chegou perto da esplanada e logo o viu. Na única mesa ocupada, segurava um copo distraído, brincando com o seu reflexo, em pleno êxtase na ausência do pensar.
Fernando devia ter pouco mais de vinte anos e roubara logo à nascença uma beleza fora do normal, com olhos de um esverdeado normal e o cabelo castanho que lhe balançava na sua frente.
Joana encheu o velho peito com algum ar e perguntou.
- Posso sentar-me aqui ao pé de ti, meu rapaz?
Ele acenou que sim, enquanto se revirava para confirmar que haviam muitas mesas disponíveis. Reparou logo nas rugas, na velhice, nas mãos com manchas por explicar, admitindo pouco, pelo cuidar e apresentação.
- Meu querido, tu és absolutamente lindo. E eu adorava um beijo teu.
Até tentou, mas não repudiou. Encontrou os tendões ou músculos que precisava de morder para ocultar o riso e tropeçou na resposta.
- Beijá-la? Está bem. É até um prazer.
Fernando só reparou então nos lábios, muito finos e encarniçados. Estavam pintados numa cor garrida que transbordava do seu rebordo. Não ia ser capaz.
- Desculpe, mas é melhor não.
- Que foi? Tens medo de te apaixonar por mim?
Ele riu de leve, nervoso, enquanto a ouvia.
- Olha, eu sei bem o que sou, mas no interior não me conheces. Sou jovem e bela como desejas. Só tens que acreditar. Conheces a estória do príncipe transformado em sapo? Bastou um pequeno beijo, para que o feitiço se quebrasse. Comigo é igual.
Ele demorou o olhar novamente, respirando cada traço de uma velhice tranquila mas profunda. Que tinha a perder? Podia ser que ela falasse a verdade. Estaria escondida uma bela jovem, em manto e feitiço?
Aproximou a face da dela, num sussurro sincero.
- Eu acredito.
Devagar, os dois lábios foram-se aproximando. Os dele, cheios de cor, de grossura ideal, mesmo para homem, procurando os outros. Ao de leve tocaram-se primeiro, para depois apertar, envolvendo-se, revelando uma paixão antiga que libertava pequenas faíscas e muitas sensações.
Ao afastarem-se, Fernando manteve os olhos fechados por um momento, permitindo à memória o decorar daqueles segundos.
Depois, muito devagar olhou para ela, esperando…
Teve dificuldade em saber, em perceber o que via. As rugas continuavam lá, profundas. O cabelo grisalho chamando o branco, a altivez antiga de anciã. Joana perecia igual, mas sorria.
Com um gesto simples esticou os dedos e seguiu o contorno da sua face. Foi abrindo uma expressão de ternura, finalmente a reconhecer. Olhou para a idade, inalterada, sem falsa juventude. Escutou a velhinha de olhos nos dela, sentindo o toque da sua mão.
- Caminhas comigo, por um momento?
- Claro que sim.

domingo, março 12, 2006

Junto ao cimo...

Da primeira vez foi estranho. Era de dia e estava num espaço amplo, como um deserto pouco árido e onde se podia chegar de carro. Nem precisei de impulso. Subi em súbito disparo, rumo a um azul e ao horizonte, que era tanto. De repente tomei consciência. De onde estava, do que estava, de tudo o que acontecia. Reconhecia e dominava o sonho, no que era possível, no máximo de controlo que poderia ter. Voei como nunca, sabendo que o corpo dormia, mas de alma solta, elevada pelo vento. Acordei de brilhos, com alegria contida, percebendo e sentido a conquista, o triunfo.
Passou um tempo e desta vez era de noite. Sem saber porquê, vi-me na casa desabitada dos meus avós. Pleno de sorte, percebi novamente o sonho, sentindo o seu controlo. Estava de novo a acontecer.
No terraço de infância voei outra vez, abraçando a escuridão. Subi para ver as luzinhas de janelas e prédios, aprendendo a virar, esticando os braços ao vento, sustentando um equilíbrio nem sempre perfeito. É difícil voar. Lembrei-me de procurar a casa de alguém, tentando orientar-me por entre os edifícios acinzentados e escuros. Perdi-me rapidamente e cheguei perto do mar. A amplitude do seu espaço impelem à velocidade, mas o exagero fez-me perder. Olhando para os lados só via o contorno de uma ponte e não conseguia voltar. Então descobri outra habilidade. Perante o desconforto podia voltar, acordando em calma, terminando a aventura em regresso terno.
As bochechas ficavam rosa ao perceber tamanha proeza. Eu dominava os sonhos!
Umas noites mais tarde “acordei” novamente na casa de avós, no local onde cresci. Segundos bastaram para de novo entender e antes que outros passassem já eu subia. Desta vez queria fazer algo diferente, mas não era fácil. O controlo do voo era complicado e nem sempre vamos para onde queremos, quando sonhamos. Acabei por encontrar uma janela aberta. Era um apartamento de família, onde todos dormiam. Entrei em silêncio, espreitando as curvas dos edredons, caminhando por passos no corredor com alcatifa. Senti o erro da invasão e fiz a escolha que posso e uso. Acordei de novo.
Durante o dia analisei este estranho poder. Porquê voar, porque escolher o ar, perante o controlo do sonho? A resposta não vinha cheia de razões, de quem escolhe o que nunca poderia ter, de olhos bem abertos. Mas depois lembrei-me do que também me falta…e sorri. Na próxima vez pediria outra coisa.
Não passou muito tampo. Afinal sonho quase todas as noites. Mal o sono caiu no meu sentido, percebi que chegara a hora. Com um simples piscar, de olhos fechados, fiz com que ela aparecesse. Era bonita, de cabelos loiros encaracolados, mas como quase sempre não consigo recordar a cara. Acho sem certezas que vestia uma longa camisa de dormir de puro branco. Com gentileza tomei a sua mão direita. Pelo canto do olhar, ouvi o peito a ansiar…e voei. Voámos de mãos dadas, parando em sustentação mágica um pouco mais a cima. Então tudo se quebrou. O rapaz homem deixou instintos sem magia tomarem controlo, e os pozinhos caíram com o tremer. Talvez reconhecendo o erro, talvez imaginando inconsciente a queda eminente, acordei, desta vez sem escolha.
Na próxima vez quero ver os traços, deixar o tacto apenas a um instante, sem invadir. No próximo sonho, quero apenas o rapaz assustado…