quinta-feira, fevereiro 23, 2006

O néon...

Todas as tardes ela acordava, devagarinho e assustada. Vivia de uma tranquila enfermidade, digna no olhar, sempre de cores e do peito, sedutor, em contraste com a figura. Antónia era outra das feias, de um arrepio de ninfas, escondidas, com medo do agouro ou das rugas.
As pernas começaram a tremer a partir dos sessenta e permaneciam a vibrar em constância, para lhe lembrar. Tantos eram os estalos que duvidava da sobrevivência das frágeis articulações. Mas lá ia conseguindo andar. Sempre à mesma hora, de sacola branca, com uns rabiscos a caneta, saía de casa.
Ao fundo da rua lá estava ele, desafiando a sua crença e paciência, a vontade de ainda descobrir. Por cima de uma casa pequena estava uma placa em ferro gasto, ostentando um néon encarnado que acendia e apagava. Ao longe era impossível ler o que dizia, mas parecia uma pequena palavra. Estranho era quando Antónia se aproximava. A luz ia desaparecendo, até se extinguir por completo. À beira da estrutura o néon desaparecia, sem luz. Era composto por um emaranhado de fios e metal retorcido, tornando impossível a sua leitura.
Mais tarde ao voltar, já de sacola cheia ia-se voltando para trás, esperando o cintilar da luz. Aos pouco ela ia voltando, piscando primeiro, até se fixar na expressão distante, incapaz e destorcida, sem leitura e percepção.
Repetia-se o costume, ficando hábito e a Antónia ia resmungando.
- Maldito! Andas a troçar de mim.
Quando voltava, sentava-se na sacola e suspirava, imaginando o que não podia ver.
- Que escreves tu, que tanto escondes?
Um dia saiu mais cedo e percebeu logo a mudança. Junto do néon, dois homens andavam atarefados. Puxavam e dobravam, e faziam barulho com as ferramentas que caíam. Ainda leve, aproximou-se depressa da curiosidade. Descobriu a estrutura, quase desmantelada, com pontas de arames fazendo nós muito complicados. Não resistiu a perguntar.
- Desculpem meus senhores? Posso perguntar o que estão a fazer?
- Boa tarde minha senhora. Estamos só a desmontar este traste velho. Amanhã instalamos um ecrã novinho em folha. Até passa filmes!
Arrastada pelo inevitável continuou.
Não queria incomodar, mas podiam dizer-me o que lá estava escrito?
- A senhora nunca viu? Pois…estava sempre a apagar-se. Como o novo já não há problema.
Ela impacientou-se.
- Mas o que dizia?
- Pertencia a uma Igreja que existiu aqui. O senhor padre adorava néons. Mandou escrever – “LOUVAI A DEUS”.
O outro homem esfregava as mãos num pedaço de pano muito sujo, ao mesmo tempo que falava. Não teve sorte o pobre homem. Avariou-se ao fim de uma semana. As primeiras letras fundiram-se. As restantes, quando acendiam, escreviam um simples – “A DEUS”.
Antónia cumprimentou e seguiu caminho. Ainda tinha muito que fazer, naquela tarde.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O rapaz de binóculos...

Havia um pequeno rapaz que andava sempre de binóculos ao peito. Devia ter uns dez anitos e vestia muitas vezes uma camisola de lã verde com uma risca amarela no peito. Os binóculos pendiam-lhe, enormes, pretos, de umas tiras em couro gasto com um cheiro imaginado muito característico. De tempos a tempos ele apontava-os a alguém que passava, seguindo o seu caminhar. Era vê-los fugir ladeira a baixo, protegendo a face com as mãos, cobrindo-a com casacos ou com as malas. Tinham medo.
A Mariana passava sempre devagar, deixando-se ver, sem proteger, descendo a rua com um saquinho em serapilheira. Ela conhecia o segredo, mas não o temia, ousando reflectir nas lentes azuladas.
O rapaz não apontava, deixando-a seguir em paz. Preferia assustar os medrosos, aos trambolhões passeio a baixo, derrubando latas do lixo. A sua preferida era a Dona Micaela, que saía de casa sempre à mesma hora. Usava um lenço que caía do chapéu de aba larga. Cosera-lhe uma prata fina que reflectia e brilhava muito. Passava temerária frente ao rapaz, de salto alto fazendo ruído, ciente da sua invulnerabilidade. Ele achava-lhe piada, deixando-a continuar, abundando-lhe a inclinação do nariz.
De vez em quando aparecia alguém que não sabia, que ignorava o rapazito e os seus binóculos pretos. Nessa altura todos paravam. Viam-no destapar as lentes, uma de cada vez, e apontar na direcção de quem chegava, sem alguma pressa. Ao princípio nada acontecia. A pessoa até se sentia bem, refrescada, num torpor de banho morno, quase feliz. Aos poucos mudava, secando os lábios até ao roxo, crescendo olheiras em negritude. A roupa amarrotava um pouco, pedindo alinhavos de mãos com habilidade e paciência.
A tarde ia alta quando apareceu mais um estranho. Procurava e perguntava, em busca de uma orientação. A Micaela suspirou-lhe para cima, e os outros recuaram.
Ficou no meio da estrada, descobrindo o rapaz, de binóculos tapados, que viu o homem, já grisalho, atirar os passos na sua direcção. Sem se mover, aguardou.
- Oh menino, sabes onde fica a Rua Celeste?
Enquanto destapava apenas uma das lentes, por precaução, respondeu.
- É já ali no cimo, virando à direita.
- Obrigado. Estava a ver que não.
A tampa voltou para o seu lugar com delicadeza, enquanto via o homem começar a subir. Depois sentou-se em dois degraus empoeirados. A Mariana chegou perto dele. Sem largar o seu saco anichou-se sentada a seu lado. Pensou na lenda dos binóculos negros. De como podiam roubar a alma dos que ele descobria. Dos que fugiam por temer…sem entender.
Tirou um pedacinho de pano encarnado do seu saco e esticou-o para o sol. A luz passava escarlate pelos pequenos poros do tecido. Amarrotou-o antes de falar.
- Olha…porque nunca me viste com os binóculos?
- Eu vi…desde o início.

sábado, fevereiro 11, 2006

Maria João e o corcunda...

Ela colocava um passo e depois pensava no seguinte, escutando o rasto simétrico das sapatilhas raspar na terra. O cabelo estava preso por uma mola amarelada com dentes finos, escapando desordenado em pequenos tufos. Nos ouvidos, um par de auscultadores modernos acentuava a curvatura da sua postura, dobrada sobre o peito, dando-lhe um aspecto masculino e forte. Maria João era assim…linda.
No dia seguinte, pela noite, havia uma festa, para a qual fora convidada, onde iria sem vergonha, para ver dançar. Olhou-se um pouco ao espelho, antes de se deitar, espreitando a ausência de beleza, ainda de auscultadores colocados. Pensou se deveria mudar alguma coisa, se poderia embelezar-se, recorrendo a truques e mais cremes. Por fim troçou das dúvidas ao vidro espelhado.
- Vou mesmo assim. Que me importa?
E foi dormir. Sonhou que procurava um hotel perfeito, procurando em cenários diferentes. Só ponderava em função do toque das campainhas de recepção, que em alguns já não existiam.

Joaquim olhava em frente, para um espelho que reflectia outro, nas suas costas, para que as visse. A partir dos cinco anos de idade, começou a desenvolver uma corcunda, que só estabilizara já em adulto. De passar tantas horas a vê-la, à corcunda, descobriu que já não a estranhava, que fazia parte de si. Sentia a pele esticada no dorso, como uma presença constante sem dor, teimosa sem enrugar.
Vestia-se com facilidade, preparando-se para a festa. Divertia-o a novidade que causaria, o espanto explodindo nas expressões. Chegara à vila há pouco mais de uma semana, para dar aulas de literatura num externato de bom nome. Durante esse tempo não saiu de casa, uma antiga e cinzenta moradia no cimo da rua principal. Adorava em êxtase a criação de uma imagem misteriosa e às vezes assustadora de si próprio. Isto até falar, até que o conhecessem. Então revelava a normalidade extrema, contrariando a curva nas costas e a encenação do início.

A Maria João chegou quinze minutos depois da hora, de auscultadores, de mola e cabelo despenteado. Endireitara-se um pouco, na única concessão permitida, saindo de um xaile em lã branca, tricotado em dois dias. Tinha ouvido falar do novo habitante da vila, recolhido e invulgar, que aparecera numa noite de nevoeiro, com uma longa capa curvada.
Olhou para o centro da sala e descobriu-o a conversar alegremente. O negro do fato atenuava a corcunda indisfarçável, parecendo que se esticava em esforço doce, contrariando o hábito.
Ele reparou nela, no mesmo instante que os auscultadores caíram em sincronia, baloiçando na cintura. A sala parou ao vê-los caminharem a um encontro de mãos, cumprimentando-se com gentileza.
Invejou-se a nobreza da primeira dança, deslizando em graça no reflexo do chão. Comoveram-se as velhinhas ao vê-los sentados lado a lado, conversando com simpatia. – Que exemplo! Exclamavam.
Maria e Joaquim falavam muito baixinho, em simplicidade.
- Achas que alguém reparou? Perguntou ele.
- Tenho a certeza que não. Estão convencidos que não nos conhecemos, que foi amor à primeira vista.
Os dois esforçavam-se muito por não rir, envolvendo a alegria na sua representação, misturando-a com outras coisas.
Ela estava em delírio, adorando o tempo e os olhares.
- O que pensarão que estamos a conversar?
Joaquim colocou um ar grave e solene.
- Imaginam uma estória de contos…e de fadas. Um soneto dedicado em improviso, a beleza das palavras nos lábios de um monstro, encantando estranha donzela.
E continuou a dissertar.
- Reconhecem conversas eruditas e complexas, afinal capazes pelos menos afortunados, prova de um intelecto superior, compensador da condição menor. Que nobres. Que nobres!
A música que começou a ouvir-se, valseava por entre a curiosidade de um orgulho estampado. Maria João e o corcunda conversavam, felizes.
- O que estavas a ouvir, quando entraste?
- Aquilo que me gravaste na última vez. Não consigo parar.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

O alpendre...

A menina tropeçava muito. Tinha caracóis em avelã e uns tótós presos com fitinhas, uma amarela e outra verde. O vestido mostrava uma renda de pouco uso que se lhe embaraçava nas pernas fininhas e a fazia cair, mais uma vez. Primeiro chorava um pouco, vendo as gotas pularem junto de pedrinhas empoeiradas. Em seguida, sorria até poder rir, desenhando palavras na terra, encontrando forças para se levantar. Estava farta de tanta tolice.
Rodou em volta e achou um alpendre muito novo. Vivia preso a uma morada antiga, com mais de muitas ervas, já daninhas, a indicar e apontar – É aqui a entrada. E ela entrou.
A casa tinha uma escada branda que curvava para o primeiro andar, impondo respeito e altura. No seu lado esquerdo descobriu uma porta pequena e um quarto muito escuro, de que teve medo. À entrada, numa moldura de madeira talhada, repousava um punhal em cor de prata, com uma etiqueta noutra língua. Pegou nele e avançou na escuridão.
Ao entrar ouviu um ruído cadenciado, como algo rodando, mostrando luzinhas brancas a alternar. À sua frente era projectado um filme a preto e branco, igual aos que o seu avô via todas as sextas-feiras, sempre sozinho, com o seu copo de vinho branco. Conhecia-os de cor, aos filmes, esgueirando-se para perto dele, arrastando os joelhos para não tropeçar. Um dia perguntou-lhe porque gostava de estar só. Ele fez-lhe uma festa, mimando a pequenina sem responder.
A arma não lhe assentava bem na doçura e obrigava a um andar em desalinho, arrastando frieza que lhe abria o olhar. Poisou-a numa mesa baixa, com um tampo cheio de desenhos. Reparou então no filme, onde um carro seguia devagar, por uma estrada ladeada de árvores e cercas. Era um Vauxall antigo, palmilhando léguas e alcatrão recente. O plano iniciou a descida para identificar um homem elegante a conduzir. Estava sozinho e apesar do vento o cabelo, muito penteado, parmanecia no seu lugar. Os colarinhos brancos, em goma perfeita, anichavam uma gravata escura de um nó triangular. Era bonito o seu avô. Não tinha ainda os brancos ou a careca luzidia, mas era bonito.
O carro parou e ele saiu com jeito galante, mudo por obrigação, de gestos perfeitos que se ouviam. O olhar enorme deixou-se apanhar pela lente e num cigarro desfez a cena incompleta, em turbulência. Re-apareceu em cor, com voz cristalina, já de grisalhos orgulhosos e uma menina pela mão, com os mesmos caracóis. A menina já mulher rebentou em lágrimas e fugiu, de novo a tropeçar. Parou no alpendre para respirar. Sentou-se na beirinha com o Sol de Inverno muito forte, bom para pensar. Tirou um caderno rosa do bolso mais pequeno, com um lápis a condizer. Leu três linhas para se lembrar, humedeceu o carvão e recomeçou a escrever. Daí a pouco podia dormir.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A resposta...

A Teresa tinha seis anos, acabados de fazer e acordava nervosa todos os dias antes de ir para a escola. Imaginava como seria encontrá-lo no pátio antes de entrarem no edifício antigo. Prometera a si mesma que desta semana não passava. Tinha que lhe dizer.
Apesar de criança, percebia e via para além das batas em azul escuro e gostava dele. Não lhe chamava ainda amor ou paixão. Só queria ficar perto, sentada no banco, sem chegar ao chão com os pés. Abanando os joelhitos em cadência, à espera…
Miguel era dois dias mais velho, com um sorriso contagiante e muito calmo. Tinha uma lucidez estranha e reparava em tudo, observando.
Quando chegou à escola, ela já lá estava, sentadinha no banco, com o cabelo louro solto, muito brilhante. Aproximou-se e disse.
- Bom dia Teresa. Vou sentar-me aqui ao pé de ti.
Ela afastou uma madeixa de cabelo e sorriu muito doce.
- Sabes se falta muito para começar a aula?
Miguel encolheu os ombros ao mesmo tempo que exibia o seu relógio novo. Tinha uma bracelete pequenina encarnada e os ponteiros eram duas espadas. Ele ainda não sabia ver as horas!
- A professora chama sempre.
- Pois chama.
A manhã estava temperada de Primavera e os dois pequenitos partilhavam o silêncio. Os colegas iam chegando em algazarra, gritando e correndo, atirando com as malas. Eles riam e iam-se aproximando. Quando a professora Tina chamou, estavam tão juntos.
Um enorme banco abundava espaço nos lados e no meio duas batas pequeninas pareciam uma só.
No dia seguinte o Miguel chegou primeiro e foi a correr para o banco. Estavam lá sentadas duas meninas ruivas um pouco mais velhas. Ficaram a olhar para ele de nariz esticado à espera de algo. Mas o rapazinho nada disse. Não sabia o que fazer.
- Vamos embora Joana. Estes miúdos da primeira são estranhos.
O Miguel trepou para o banco na mesma altura que a Teresa chegava. Ficou à sua espera. Mas ela estava diferente, com o cabelo apanhado numa bandolete branca com uns risquinhos amarelos. E não se sentou. Veio até muito perto para perguntar.
- Miguel, queres namorar comigo?
O rapaz ficou muito corado, mas não impediu a resposta de sair.
- Mas eu só gosto de ti com o cabelo solto!
Teresa não tinha a resposta, que encontraria daí a muito anos. Pulou para o seu lado e sentou-se a abanar os pezinhos, um depois do outro. Ajeitou a bandolete e cantarolou um bocadinho. Depois, com a mãozinha procurou a dele, escondida e envergonhada a brincar com o fecho do casaco. Devagarinho, entrelaçou os dedos pequeninos nos seus e apertou um pouco.
Miguel ainda tentou escutar o coraçãozinho, que parecia ter falado. Depois sentiu-se feliz e deixou-se estar.
- Tens a mão quentinha.
- Tu também.