sábado, janeiro 28, 2006

O reencontro...

Já era tarde e as luzes de toda a casa estavam apagadas. Era um Lar de um só piso, de paredes pré-fabricadas, sustidas pelas camadas de tinta branca. Havia um longo corredor entre a sala grande e a cozinha, onde ficavam os quartos, de um lado e do outro. Eram cinco os que lá viviam desde há muito tempo, todos viúvos menos a Maria, a mais nova e única que ainda não chegara aos setenta anos. Era linda a Maria, tinha ainda porções de cabelo negro, que alternavam com as manchas brancas, dando-lhe um ar engraçado.
O Júlio era o mais velho, de quase oitenta poderosos anos. Tinha os olhos muito claros e os ombros teimavam em não descair. De tão alto impunha muito respeito, escondendo por vezes a seu carinho pela Maria.
Ana e David andavam sempre juntos. Viam televisão no quarto dela até muito tarde, até dormitarem por cima um do outro. Depois acordavam muito despertos de madrugada. Conversavam um pouco, de chá quente nas mãos, antes de irem para a cama.
A Zé completava o quinteto, de cabelo branco cheio de brilhos, muito curtinho cortado como se fosse um rapaz. Tinha um delicado mau feitio e discutia muito, mas de coração enorme.
No silêncio, rasgou um ranger de porta e passitos apressados. Um suave bater antecipou o chamar.
- Júlio, estás pronto? Já são horas.
- Já vou, Maria. Já vou.
Ele demorava sempre um pouco mais para arranjar o cabelo. Achava que ela reparava.
- Vamos chamar os outros!
Sem barulho, os cinco encontraram-se no corredor, com enorme vontade de rir, contida na prudência. As enfermeiras tinham o sono leve e era preciso ter muito cuidado.
O Júlio sussurrou em tom delicado.
- Estamos todos. Vamos embora.
A Zé resmungou qualquer coisa e seguiu em último lugar. Sabia que ele era o líder e até gostava disso, mas a sua natureza obrigava-a a protestar.
A noite estava fria e calma, com metade de uma Lua esbranquiçada. No bairro não se via alguém, e os cinco velhinhos, caminhavam esfregando as mãos. Entraram num Ford Cortina muito antigo, que tinha as portas da frente empenadas.
- Já era tempo de comprarmos outro carro. Protestou a Zé.
- Eu cá gosto. Tem história, meus amigos. Tem história.
A Ana concordou com um sorriso e segurou a Zé pela mão. Ficava sempre um pouco nervosa nas noites em que saíam. Sentia-se com arrepiozinhos na barriga, de sensações com mais de cinquenta anos. Assim que arrancavam, esqueciam os anos e transformavam-se num grupo de adolescentes, em busca de aventuras.
A viagem daquela noite era especial. Depois de muito tempo voltariam à Casa Grande, onde foram proibidos de ir. Há uns anos, por uma única vez, tinham sido descobertos na sua fuga. Os enfermeiros chamaram as famílias e fizeram um enorme alarido da situação. Ameaçados de expulsão, em profundo embaraço, prometeram nunca mais fugir e principalmente não voltar à Casa Grande. Todos cruzaram os dedos atrás das costas, ao prometer, mas temiam que na velhice este truque não funcionasse.
A gravilha rangia de som característico ao chegarem ao portão. A ferrugem oferecia-lhe respeito e embaraçava quem lhe tocasse, desprevenido.
- Tens a chave, Júlio? Perguntou a Maria.
Ele sorriu sem falar, ao mesmo tempo que a retirava do bolso esquerdo do colete. Uma satisfação de medo sem par, encheu-lhes a alma quando o viram a rodar e a rodar, com estalidos metálicos a abrirem o portão. Entreolharam-se concordando e decidiram entrar.
Tinham passado muitos anos mas sabiam de memória cada recanto daquele lugar. Ana gostava de arrastar os passos até à entrada da casa, desenhando formas na terra escura. David ia arrancando teias de aranha abandonadas, com pequenas gotas de humidade. Júlio e Maria caminhavam lado a lado, de mãos muito perto. Ela sentia o seu perfume de pele e jurava que lhe lia os pensamentos. Não havia pressa, dizia para dentro, e sonhando sentia o seu toque.
A porta principal era estranhamente pequena, como se pedisse para que não a abrissem, para que repousasse em cor de madeira.
Nesta altura a Zé passou para a frente. Empurrou a porta sem barulho e entrou com passo firme. Os outros seguiram-na.
Cada um prendia as lágrimas do reencontro com aquele espaço de tanto pó. Lembravam a entrada alta, com o chão em xadrez de mármore e a escada que inclinava para cima, de estatuetas alternadas com grandes vasos. Não avançaram! Faltava o som. Era naquele instante que o ouviam, fazendo tremer as pesadas cortinas, peneirando o pó amarelado. Mas nada, desta vez não ouviram nada.
- Não estou a gostar disto. Suspirou o David.
A Ana concordou.
- Já o devíamos ter ouvido.
O som que esperavam, fazia-os temer, na sua ausência. O que outrora os assustara, irrompendo-lhes no espírito, agora fazia falta, deixando o quadro incompleto.
Júlio forçou o maxilar, para pensar. Sem o fazer segurou na mão de Maria e avançou para a escada.
- Fiquem calmos. Vamos subir.
Tudo parou naquele momento para a Maria. Sentia-se a esvoaçar escada acima, levada em carinho, degrau a degrau. Não conseguia tirar os olhos do braço esticado, terminando nas mãos juntas. Desviou um pouco para ver a expressão dele, para perceber a intenção. Júlio virou-se por um instante para trás, acenando um sorriso. Ela não se enganara.
No último degrau, pararam de repente. Um grito fraco rugiu pelo silêncio, misturando as emoções no peito dos cinco, até da Maria. Na verdade, ela nunca ali tinha estado. Chegara ao Lar pouco tempo depois da última visita, mas os anos e a repetição da estória emprestaram-lhe as memórias. Pouco depois recomeçaram as saídas, mas não mais voltaram à Casa Grande, até aquela noite.
A Zé suspirou nervosa.
- Parece ele. Mas um grito?
- Calma! Pediu o Júlio.
- Vamos continuar.
Em frente viram o corredor muito estreito, com as molduras vazias e velas gordas já gastas. Apenas uma estava acesa, dirigindo a luz…para o fundo.
Então, descolando-se das sombras de um recanto, apareceu uma figura pequena e curvada de monstro. Arrastava um bengala de talha perfeita, e cobria-se num manto cinzento, com apenas dois botões, de ouro e mel. No olhar o mesmo sentimento de choro, de saudade e riso.
O tempo parou na chama que os guiava até ao pequeno ser, para que percebessem o passar dos anos. Depois, a Ana voou para os braços dele, largando gotinhas com sal no tapete verde escuro.
- Ramet! Soluçou.
- És mesmo tu!
E abraçou o monstro dando-lhe beijos na cara esguia, cheia de lágrimas e fendas delicadas. Os outros precipitaram-se em cima deles, caindo todos no chão, rebolando a alegria e os abraços, apertando com força as orelhas grandes e espetadas.
- Uma bengala, Ramet? E um grito? Por um momento tememos o pior. Gracejou David.
Júlio também ria muito, e perguntava em provocação.
- Que é feito do teu rosnar assustador?
Ramet falava com dificuldade, tropeçando no choro.
- Está mais fraco, meus amigos. Embaraça-me um pouco.
A Zé não dizia nada. Ficava só abraçada, a apertar com muita força, a pegar nas mãos dele. O monstro afagava-lhe o cabelo, com as mãos fortes.
- Pronto menina. Eu estou aqui.
Júlio, que não largara a mão da Maria, soluçou-lhe as palavras.
- Maria, este é o Ramet.
Ela inclinou-se para o seu nariz largo de monstro e deu-lhe um beijo terno. Sentiu um bafo quente com odor adocicado e uma voz melodiosa.
- Bem vinda a minha casa, linda Maria.

Estavam sentados em redor da lareira acesa em fogo, partilhando risos e estórias antigas. A Zé abria muito os olhos, para contar um dia distante, saltando partes, tropeçando no espaço. David e Ana acenavam em sincronia, habituados ao calor e à madrugada. Em duas cadeiras muito juntas, Júlio e Maria brilhavam com o crepitar das brasas, olhando-se em segundos alternados, ela com a cabeça deitada no seu braço. As mãos continuavam juntas.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

De onde apareceste...

Quando olhei, ele ali estava. Um monstro na esquina que esconde uma máquina de café, descoordenado, não pertencia ali. Jamais se endireitaria com aquela corcunda, docemente entrapada. O ser aguardava, baralhado, de mãos compridas a interrogar o espaço, como se não entendesse. Os pés estavam presos em botas de atilhos, com pedaços de relva agarrados nos lados. Prendiam umas calças cremes com um único bolso, aberto, e uma fita de outra cor que lhe pendia. De tronco forte, disfarçando o incómodo, apertava um casaco de malha cinzenta, com três botões dourados e uma pequena gola. As mãos esfregaram-lhe a cara, cheia de cicatrizes simétricas, desenhadas, mostrando um mapa em que acreditava. Fiquei de medos em riste, com passinhos pequenos até à sua sombra. Já muito perto, descolei o lábio inferior, que tremia, e disse.
- De onde apareceste?

Há uma semana atrás, a velhinha não quis responder-me. Fui ter com ela, a Maria Fernanda, porque me disseram que sabia a resposta. Há um mês que me apareciam de todo o lado. Podia ser um carro, de onde nada havia, uma pessoa que me esbarrava, um som que levava guardado. Fui à repartição à sua procura.
- Bom dia. Eu queria falar com a Maria Fernanda. Perguntei a uma senhora baixinha.
- Espere um momento, por favor.
Torceu o pescoço em redor e pôs-se a gritar.
- Fernanda, anda cá a este senhor.
Apareceu-me uma rapariga jovem, com uma placazinha amarelada, com dois nomes a verde – Maria Fernanda.
- Desculpe, mas deve haver um engano. A pessoa que procuro deve ter para cima de sessenta anos.
Antecipando o meu susto, ela falou devagar.
- Eu sou a Maria Fernanda.
Amarrotei os pensamentos e lancei-me.
- De onde é que apareceste?

Ela tinha falado de forma simples.
- Por desequilíbrio, fazemos estranhas viagens. Cada um de nós desaparece do seu plano, para acordar noutro local, sem o perceber, na maior parte das vezes. Quando estranhamos uma presença súbita, é porque na verdade, ninguém lá estava.

Ninguém pode terminar esta estória, continuava Maria Fernanda pois a cada estranha viagem que percorremos temos sempre ao nosso alcance os carris que pretendemos seguir, tal qual aquele comboio a vapor que perdeste, por sorte ou azar de teres gasto indevidamente estes momentos à minha procura.E vi de seguida, que o tempo perdido na semana que ora terminara poderiam muito bem ter sido quarenta anos da minha vida! De onde apareceste? Já não era importante, porque os nossos pesadelos tem a importância que só nós lhes queremos dar.


(com a colaboração de bluesY)

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A planta amarga...

“Duas pessoas muito diferentes podem caminhar lado a lado. O problema é quando se cruzam…”

- João, segura-me! Assim não consigo.
- Deixa de ser parva. Sobe, vá. Sobe agora!
Maria trespassou com o olhar, levantando a popa com o soprar. Tudo nela era um novelo, deslindando a pequenas pontas, muito apertadas e em espiga.
Gritava com desprezo pelo companheiro que não entendia na simplicidade. Que queria ele do campo? Que bebia ele na tarde de fogo?
João só sorria. Pôs uma perna à frente da outra, para caminhar. Enchia os pulmões de memórias, observando o manto amarelado na sua frente.
- Já chegámos, descansa. Bem me parecia ter visto isto quando passámos de carro.
Dobrou-se com delicadeza para apertar nos dedos um caulezinho de planta, amarela no alto. Depois de o arrancar, virou-o ao contrário e levou-o à boca. Começou a mordiscar, quase de brilho nos olhos. À medida que o suco amargo se espalhava na boca, arrepiava-se em felicidade absoluta.
Maria, estática, sem entender, perdeu um som incrédulo.
- João, o que é que tu estás a fazer?
Ela não sabia e não valia a pena contar…

domingo, janeiro 22, 2006

O rapaz que sofria...

Era uma vez um rapaz que sofria. Sofria porque não tinha, porque abundava, porque tudo e porque nada. Pela falta de tranquilidade, pela ausência de turbulência, por não sentir ou por demais.
Porque não tinha namorada, porque não encontrava o seu colo, porque a tinha e não mantinha e não conseguia lidar.
Pelas horas de angústia ao volante pregado, pela solidão permitida e ao temor recém-chegado. Por saber que não era real, mas tão forte ao aparecer.

Farto de sofrer virava-se para os momentos. Em que descansava, em que pensava, em que na música sentia felicidades e arestazinhas arredondadas.
Inalava uma devoção sincera e punha-se a questionar. Electricidades subiam na sua linha de olhar, empurrando e esticando.
Saiu de sua casa, que era rasa e sentou-se na beira do passeio. No outro lado da rua passava outro rapaz, familiar, que dificilmente reconheceria, e que o olhou. Virou logo e veio até ele. Falou-lhe.
- Sentado aí não consegues nada. Nada! E sentou-se ao seu lado.
Não disseram futilidades para perceber o outro, lançando perspicazes olharzinhos a cada movimento.
- Quem és tu? Porque vieste perturbar o meu silêncio? Ele é tão raro.
- Queres que me vá embora?
- Não sei.
O rapaz, que não sofria levantou-se e partiu, deixando auras esfarrapadas, mas cosidas entre si.
Depois apareceu uma linda rapariga, mais nova, com um narizito corado e um cachecol de muitas cores, menos o verde. Trazia um gatinho branco e preto e andava aos saltinhos.
- Posso sentar-me aqui ao pé de ti?
O rapaz que sofria detestava gatos, como tudo o que não controlava e lhe fazia perder.
- Podes. Queres namorar comigo?
- Mas tu não gostas de gatos? Como iria ser?
- Sei lá. Acho que não dava.
Ela cantarolou. Ele acompanhou. Deitaram-se para trás com o gatinho entre os dois.
- Lá, lá, lá, lá. Ainda estás a pensar nisso rapaz? Não devias.
- Eu sei. Mas o que posso fazer?
- Podes viver. Mesmo que não gostes de gatos. Não é um drama.
E depois foi-se embora. E ele continuou sentado.
Veio um velhinho, de avô, de barbas branquinhas e cabelo em brilho.
- Não há por aí um banquinho? Que chatice. Sentado no chão!
- O sofredor entrou de novo em casa. Voltou com dois bancos, com tecido sarapilhado em muitas cores, esticadas em linhas iguais.
- Aqui tem. Pode sentar-se.
- Obrigado rapaz. E desculpa por não me sentar no chão. Não sofras também por isso.
Os dois riram um pouco.
- Estou velho demais, sabias?
- E eu muito novo. A vida nunca mais chega.
- Tens que ter paciência, e pedir mais devagar.
- Eu sei…eu sei. Mas como o faço?
- Essa parte é contigo. Podes até nunca conseguir.
O rapaz torceu-se muito. Segurava no cachecol que a rapariga lhe oferecera sem som.
- Não era isso que precisava ouvir. Não me vai dar algum conselho melhor?
- Que conselho?
- Sei lá. Que pare de sofrer. Que agarre a vida, que siga por determinado caminho…
- Não. Não tenho conselhos desses. Resta-te esperar. A vida demora. Soluções tens até demais.
O sol ia baixando, desenhando as suas sombras na parede perto do branco. No cinzento-escuro que projectavam, era difícil distinguir a mais nova. O rapaz, mais calmo, ia falando, enrolando o cachecol, respirando o mesmo ar que o seu companheiro.
- Achas que devia ter ido atrás dela?

- Não. Tu não gostas de gatos.

terça-feira, janeiro 17, 2006

O fado...

Comecei a ouvir muito baixinho. Era um som estreitinho que se esgueirava, e voava, à minha procura. Pouco a pouco fui entendendo.

Ó Rua do capelão,
juncada de rosmaninho,
eu beijo as pedras do chão
se o meu amor vier cedinho.


Era um fado! Uma pequena nota que ia e vinha e se fartava de soar. Parecia esfumaçada.

Tenho um degrau no meu leito,
para o meu amor subir.
Vê lá amor, sobe o com jeito,
para que o meu coração não se desgarre do meu peito.


E lá continuava, embaraçando-me, enamorando-me, criando umas levezas no que iria encontrar, até sentir. Reiniciei o andar, à volta de uma esquina, mas a parar, só de um esgar de mansinho, mandando a visão na frente…
Assim a vi, envolta num xaile invisível, de negritude acentuada. Fui até ela, até estar tão perto que não precisava de ver. Lábios púrpura e mil caracóis. Ela era assim! Tinha também um perfume, mas de afastar, por ser perigoso.
Olhinhos pequenos tremiam em fogo cru, esverdeado, muito pouco amarelo.
- Estive a ouvir-te, menina.
- Eu sei. Mas ouviste-me dentro?
Virei as costas como se não visse, arrastando fúrias, amansando serenidades. E ela puxou-me. Agarrou-me com tanta força, para que caísse.
- Onde pensas que vais? Eu perguntei se me ouviste.
Um líquido branco, imaginado e sujo, iniciou a descida, desprendendo sentidos, almofadando as poucas virtudes. Beijei-a de ímpeto, espremendo o que ia lembrar, em poucos segundos.
- Faz-te à estrada, rapaz! Tu não me ouviste.
Ela não queria que eu fosse. Sabia que a tinha ouvido, que sentia o choro.
- Liberta-me, rapariga de fado. Eu ouvi-te desde o início, antes que começasses a cantar. Ouvi-te dentro de mim, puxando de alças curtas. Liberta-me!
Os dois, abraçados, pensámos. Ela lutando, eu de luta em luta. Arrepiámos de braços a desprender, segurando de novo, em vaivém.
- E agora? Para onde vamos, daqui?
- Não tenho a menor ideia.
Esperei três segundos até à certeza. Pensei que ia acabar ali, ensombrado. Outros segundos e deixei entrar, sentido doce a partilhar, abrindo leve.
Chamei e ouvi, em canção de embalar.

Tenho o meu destino marcado
desde a hora em que te vi.
Ó meu cigano adorado,
viver abraçada ao fado,
morrer abraçada a ti.


- Vamos…vamos por ali!

sábado, janeiro 14, 2006

O lobisomem assustado...

Já tarde, começou a sentir as transformações. Ao contrário do que pensara não vinham com dor e nem deixavam a pele a rasgar, libertando a essência de um outro ser, abrigado pela ausência de Lua, na maior parte do tempo. Era até agradável perceber o esqueleto a dilatar, alargando os ombros estreitos, jogando a face para cima, escurecendo o olhar em grossas sobrancelhas. Habituara-se ao ritual que preferia experimentar só, numa velha cadeira de baloiço, desapropriada para o efeito. No final observava a roupa, prudentemente despojada em antecipação, no chão de madeira antiga.
Agora tinha que sair, desafiando a lenda, não para matar, ou aterrorizar, mas porque era essa a sua alma, de se deixar banhar com aquela luz prateada de satélite distante. Tivesse escolha e ficaria dentro de paredes, longe do medo, do seu e dos outros, sem uivos tristes, confundidos com ameaças. Mas o ciclo lunar exercia uma atracção irresistível ao indivíduo, lobo e homem, que não conseguia contrariar.
Saltou o muro que preferia contornar e furou a escuridão que rodeava a grande casa, em direcção à aldeia.
No cimo de uma pequena colina sentou-se, arfando, a olhar. Viu um mar de tochas a dançarem ameaçadoramente. Uma sinistra procissão nocturna com apenas um desejo. Se pudesse voltava. Corria para trás, fingia-se de morto, afastava-se do medo que por ali andava. Suspirou um bafo quente, canino na forma, treinando o rosnar. Já era tarde. Tinha de ir!
Marcos escutava-os a correr, em frente da sua porta, com as chamas demoradas e amarelas, com as armas a tilintar nos cintos de prata, largando injúrias repletas de receio. Por pouco daria graças à sua condição, que o afastava das corridas bucólicas e da noite fria. Sentiu com a mão a perna esquerda, que arrastava para todo o lado, mas devagar, não fosse esquecer-se e querer correr. Hoje seria diferente, cruzando ambição com desdém pelas fábulas, desafiaria a velocidade, temerário e crente. Segurou com orgulho, a bengala de um bronze azulado, dedilhando um fiozinho de prata no seu alto. Chegara a hora de partir.
Os uivos nunca entendera. Mais que os renegar, queria que se escondessem, porque lhe arranhavam a garganta disforme, porque o denunciavam e faziam correr. Como podia esperar em sossego, se ao menor vislumbre da prata, largava um longo grito de animal, profundo e grave, cheio de culpas. Era sempre assim e agora corria, a quatro mãos, de garras cravadas, alternando o solo de folhas soltas. Sentia os gritos muito perto, com promessas de fogueira, com projecção do próprio medo numa violência de defesa que não teria fim. Parou de repente! Assentou o corpo numa altivez trémula e deixou que tudo lhe saísse. Ao primeiro caçador rosnou de raiva sem controlo, largando sons e cheiros e líquidos verdes, iguais nas sombras da noite. O rapaz saltou para trás, disparando no ar sem intenção. Atirou-se, deixando suspensas duas lágrimas, aterrando no colo dos companheiros de armas, que lhe seguiam os passos.
De nada valia. Apenas conseguiria mais uns minutos, para correr. Voltou à condição de menino lobo e procurou abrigo, tapou a voz e o uivo seguinte…
De repente olhou para o seu lado direito e raspou a visão de outro menino assustado. Tinha uma bengala de onde pendia o fio que brilhava, caía de joelhos ao vê-lo correr, na sua condição de besta, fechava os olhos esperando um ataque. Até deste tinha medo.
O rapaz suportou a tontura e o susto, de encontrar o lobo, de cruzar o seu olhar. Chamou o irracional e apontou com a bengala, para um trilho. Viu o animal parar e dobrar a cabeça esguia, afastando um tufo de cabelo.
Ficaram os dois parados a estudar, a pensar no medo que viram partir. Marcos continuava a apontar para o caminho escondido, indicando a fuga das luzes que se aproximavam. O lobo perguntava pela arma, pelo queimar da pele escondido em vil artimanha, sem coragem para acreditar. Finalmente deixou de temer e passou pelo rapaz, na direcção que ele apontava. Mergulhou na folhagem espessa, sentindo-se perseguido, mas apenas por um.
Pararam numa clareira cheia de luz, de um cinzento muito claro e tranquilo. O lobisomem sentiu o astro e preparou o grito, abafado pela mão pequena do rapaz.
Com ritual, ele retirou o fio de prata da bengala e pendeu-o no dorso do animal. Falou baixinho.
- Não grites! Eles vão ouvir-te.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A gaiola...

O carro começou a baloiçar com a traseira em dança frenética e eu a desviar-me. Rasei e por pouco não lhe bati, metido na valeta comigo próprio e olhando à sua procura. Pequenino, fumegava na minha frente com um pneu que explodira, arrojando a travagem na minha frente. Fui até à sua porta para ajudar e vi uma rapariga agarrada ao volante, com o peito a subir e descer muito, ainda com medo. A curva de um seio, imitada de um livro que cheira a velho, distraiu-me por momentos. Depois falei.
- Está tudo bem consigo?
Ela acordou de verdade e acenou de afirmação. Mas não podia falar.
- Tente sair do carro, por favor. Já passou. Está tudo bem?
Por volta daquele momento, toquei-a. A minha mão pediu a sua, oferecendo ajuda, sentindo-se estranha.
No banco ao seu lado estava um livro em repouso com um título que decorei – “O abraço da pele”. Deixei-o para mais tarde.
- Que me aconteceu?
- Não se preocupe. Foi apenas um pneu que rebentou. Mas por sorte não bateu em nada. Podia ter sido pior.
Ela encontrou nas mãos ainda entrelaçadas a resposta à minha pergunta.
- Sim…eu também estou a sentir.
E ao dizer isto encheu-se de rubor, como eu.
Ficámos muito parados a tentar entender o que se passava. O que sentíamos…
Quando a pele se afastou, pensei de novo e comecei a despir o casaco, atirado por cima do mesmo livro.
- Deixe estar que eu mudo o pneu num instante. Se quiser, pode sentar-se um pouco.
Sem me perder com o olhar, encontrou uma pedra acinzentada que a acolheu, talvez sorrindo um pouco.
- Já ouviste falar em Robert Jennais?
- O arqueólogo? O do teu livro?
Cada músculo lhe desceu em harmonia, confiando agora.
Robert Jennais era um mítico cientista, considerado uma sumidade no estudo da Civilização Suméria, mas com uma estranha história de vida. Aos trinta e três anos publicou o seu único livro, baseado no que julgava ser uma fantástica descoberta. Anos antes, alegadamente decifrara documentos antigos que falavam sobre a pele dos mortos. Um grupo de sacerdotes mumificava secretamente as suas mulheres, quando morriam, preservando a pele. Acreditavam que a sua paixão nascia do toque. Que a nossa pele possui pequenos organismos microscópicos que, quando encontram no toque os seus semelhantes se entrelaçam, segurando – O abraço da pele!
Ridicularizado pelos seus pares, jurou não mais escrever. Até à sua morte, continuou a fazer descobertas, que recusava registar. Quando um dia lhe perguntaram se não tinha pena de desperdiçar tanto conhecimento, respondeu em mistério.
- Não há nada depois, no lado de lá.
Terminei de mudar o pneu ao mesmo tempo que um outro carro parava perto de nós. No abrir de porta saiu uma mulher lindíssima. Era alta, delicada em absurdo, andando sem sombra, envergonhada, na minha direcção. Estendeu-me a mão num gesto sorrido. Não senti nada!
- Estou perdida. Não sei como vim parar a este fim de mundo. Graças a Deus que o encontro!
Gracejei de tolo, continuando a não sentir, mas ignorar. Olhei para a rapariga ainda sentada na pedra. Regressava de súbito, evitando-me. Desculpei-me cabisbaixo.
- Já está tudo em condições. Podes seguir descansada.
Entendi o toque uma vez mais, para me despedir. Ouvi então um ruído de madeira a estalar, percebendo uma sombra que se dobrava. Uma enorme árvore, despida de Inverno inclinava-se sobre mim, invertendo os seus ramos na direcção do solo. As extremidades perfuravam a terra reclamando, prendendo-se nas raízes que encontravam.
Os ramos assim dispostos, formavam uma gaiola perfeita, guardando-me no interior.
A mulher alta correu na direcção do automóvel, descobrindo em estranho milagre a saída daquele lugar.
A outra rapariga, lentamente, retirou o livro debaixo do meu casaco e aproximou-se da minha prisão. Ao passar-me tantas letras deixou, de intenção, que nos tocássemos uma última vez. Segredou-me.
- Não há nada depois, no lado de lá…

terça-feira, janeiro 10, 2006

Escrever...

Hoje preciso de escrever...logo...
Até já sei a música...

segunda-feira, janeiro 02, 2006

A procissão...

“Vou ter que despir o casaco, para esta. Está calor, por escrever de barriga cheia. Para além disso sinto um estranho odor, que não sei se imagino.”

Era uma tarde de Inverno e ele queria por força ver o que se passava na sua frente. Mas a cortina de velhotas com bandeirinhas tapavam-lhe o caminho. Nervos para estas mulheres de anca larga, de filhos criados e que agora andam na galderice. Arrancava-as à pancada sem respeito, que no fundo tinha.
Depois pediu, com educação, esmerando-se na simpatia e mel. Tinha de passar!
De encontrão chegou ao muro, cinzento e só rebocado, fugido da cor por negligência. Olhou para a frente, ao meio da rua, e não viu nada!
Absolutamente nada. A rua estava deserta e as velhotas continuavam a gesticular, a gritar, algumas a chorar, rindo também. Mas para quem, porquê? Que viam elas?
No seu lado esquerdo duas pequenotas com sessenta anos abraçavam-se quase em histeria. Agarrou-as gritando muito. O que viam elas? Elas abraçaram de volta, cobrindo-o de beijos e carícias ternas. Rico filho, rico menino. Um exemplo para os mais novos, que já não vêm à procissão. À procissão? Mas que procissão? A rua estava vazia de gente, de tudo. Estas tontas estavam a gritar para o vazio, para nada!
Na direita havia mais calma. Uma mulher muito, muito velhinha, sentada num banco improvisado, com um ligeiro aceno, trauteado. Ele ajoelhou-se para falar.
- Desculpe, minha senhora…
Ela já estava a sorrir antes que completasse.
- Não vês nada, não é meu querido? Não faz mal, elas também não!
- Não vêem? Então?
Ficou parado, tão confuso.
- Se não vêem, o que estão aqui todas a fazer. O que é que a senhora veio cá fazer?
- Eu não disse que não via. São as outras, as senhoras com quem falaste. Eu já posso ver.
Agora estava pior, de olhos implorando.
Ela pediu.
- Vá, tem calma. Conheces a estória do rei que ia nu? Esta é parecida. Ninguém quer admitir que não a vê.
O rapaz perguntou bem devagarinho.
- Quem deveriam ver?
- A Nossa Senhora dos Aflitos. Dizem que se a não virmos é porque partimos em breve. Morremos, entendes?
Ela parecia adivinhar no que pensava, com a face muito rosada, ainda com covinhas lindas e rugas bem desenhadas.
- Sim, elas estão enganadas, meu rapaz. É ao contrário…como pensaste. Por isso eu vejo, porque elas ainda são muito novas. Eu vejo!
- Não devo ter pena pois não? Não me parece assustada.
A velhinha respondeu, de mão nas suas.
- E não estou. Estou cansadita.
Ela era muito bonita e ficaram de mãos dadas a assistir. Ela acenando e ele virado para a rua cheia de nada. Então lembrou-se.
- E os homens? Não há homens aqui. Não funciona com eles?
- Com os homens não. É tudo diferente. Nunca vêem nada e deixaram de vir.

Foi largando, para não agarrar em demasia, com medo de perder. Depois despediu-se com um beijo bem perto. Ao afastar-se ia olhando para trás. Por vezes parecia-lhe ver um pequeno andor, com uma estátua de flores e uma figura de luz.

domingo, janeiro 01, 2006

O homem muito rico...

“Vou contar-vos o que ouvi…sob um traço pequeno de luz, deslizando por entre um véu já seco…”

No final do jantar desci as escadas a espreitar. Em baixo esperava uma mulher, menina, chinesa em escuro olhar. O cabelo esticava-se para tocar no ombro, puxando a raiz ao limite, roçando o ombro destapado…
A voz era curta e fina, de muita contenção no que iria contar. Sentei-me entre ela e um precioso biombo de verde, escutando.
Pareciam ondas, muito finas, chegando-me no que ouvia. E ela começou.
- Tu já foste outro! Lembras-te?
Todos os dias até então, acordei pensando nisso, no que fora, no que antecedeu o que agora vejo. Em cada segundo soube que fora outro.
- Sei que fui…mas não recordo. Respondi.
- Então escuta! Vês o homem de pé, naquele canto, de camisa branca?
Ao mesmo tempo ele quis acender um cigarro, com demasiado impulso. Uma bola de fogo nasceu-lhe nas mãos, fazendo-o recuar. Tudo caiu e olhou para mim.
A menina mulher continuou.
- Tens que me ouvir, sem pensar, sem mais escutar. E tocou-me nos dedos, para que visse…

Estava num quarto enorme, com uma cama central no cimo de um degrau, uma janela ampla para o jardim interior, de piscina azulada. Acabava de me vestir, de apertar a gravata em seda e fiozinhos de ouro. Andei para o corredor. A camareira antiga esticou-se para me saudar.
- Olá senhor. Disse, recebendo o inclinar.
Saí na noite quente, ao mesmo tempo que inspirava porquês. Do outro lado da rua, chamaram-me.
- És mesmo tu? Há quanto tempo não nos víamos!
O abraço foi forçado, em esquecimento. De braço pesado nas costas tive de voltar e ouvir.
- Estás hospedado aqui? Isto é um pouco caro, não achas?
- Eu…sou o dono disto.
Ele pensou e resmungou e espirrou galhofices estranhas.
- Dono? Tu deves ser muito rico. Nunca me disseste. Anda! Anda pagar-me…qualquer coisa.
Entrámos, pesando passos pequenos. Ao ouvido, dobrei-me de novo a mais uma mulher, para segredar.
- Fica com ela. Estás em boas mãos.
Voltei para cima, no elevador cravado a dourado, esculpindo uma história. Atravessei o corredor, desfazendo o nó, abrindo um pouco a camisa, buscando a chave. Tudo tinha e perdia num instante, farto de riqueza e de aspereza.
Ao entrar notei o barulho imenso, de risos, de água caindo, o holofote que decorava, rodando em espiral. Avancei e pude vê-los, saltando vestidos para a piscina, jogando infância uns nos outros. E o meu pai ria, espalhava água nas pernas e brincava, empurrando quem se lhe aproximava.
- O que estão aqui a fazer?
Eles olharam e pararam, entreolhando.
- À tua espera, para te salvar!
Lembro-me de subir ao muro e de saltar. Vestido mergulhar na água doce, raspando o fundo, depositando os botões em pérola…como pérolas.
Voltámos para o quarto, abraçando, prometendo amizade e memórias, não deixando que os nós nos afastassem. Parei um pouco e prometi.
- Vão! Vão andando. Corro atrás de vocês.
Vesti uma camisola simples, mas com cores. Demorei a vê-la, sentada no chão, à minha espera.

A chinesa menina falou de novo.
- Lembras-te de sonhares assim, na última noite?
Eu fiquei com uma lágrima espremida, a querer saltar.
- Lembro-me. Lembro…mas não sei o que quer dizer.
- Que não tenhas pressa. Que não corras por nada. Há-de aparecer!