sábado, dezembro 31, 2005

Uma viagem (cont.)...

Passado um pouco, o canguru Kikas, entrou numa pequena floresta. O dia estava quente e ele parou para descansar.
De repente apareceu uma raposa à sua frente.
- Olá senhor canguru.
Era a raposa Manhosa!
O Kikas respondeu meio desconfiado.
- Bom dia senhora raposa.
A raposa era mais pequena que ele, e não conseguiria fazer-lhe mal. Mas era melhor ter atenção, porque são bichos muito matreiros.
- Então, onde é que o senhor vai?
- Eu ando em viagem pelo país, mas agora estou a descansar um pouco. Disse o canguru.
A raposa Manhosa suspirou.
- Faz muito bem. Está muito calor.
Depois perguntou.
- Olhe lá! Não quer ir beber uma água fresquinha?
O Kikas desconfiou.
- Mas aqui não há água.
- Aqui não há, mas em minha casa tenho muita e está bem fria.
Respondeu a Manhosa a rir.
O Kikas pensou um pouco e respondeu.
- Eu preciso só de fazer umas coisas e depois vou ter consigo. Diga-me onde é a sua casa e vou lá ter.
A raposa explicou-lhe onde vivia e foi-se embora a cantar. O que ela queria era enganar o canguru e foi a correr para casa, onde estavam os seus irmãos. Viviam todos numa árvore muito grande, com uma porta em madeira pintada de amarelo e com uma argola dourada. Quando chegou começou a gritar.
- Manos, já temos almoço. Enganei um canguru que deve estar mesmo a chegar.
Os irmãos esfregaram as mãos de contentes e prepararam-se para almoçar.
Mas o que eles não sabiam era que o canguru Kikas não confiava na raposa Manhosa. Quando ela se foi embora voltou para trás para ir ter com o crocodilo. Encontrou-o ainda com o tronco entalado na boca, que tentava soltar abanando a cabeça de um lado para o outro. Quando o viu disse.
- Que viste cá fazer outra vez? Vens gozar comigo?
O Kikas respondeu.
- Por acaso até venho ajudar. Sei como podes tirar esse tronco da boca, mas só te digo se prometeres que não voltas a mentir.
- Eu prometo, eu prometo. Repetiu o crocodilo.
- Ouve-me bem. Depois daquele monte vais encontrar uma floresta. Vai sempre pelo caminho das pedrinhas brancas até encontrares uma árvore com a porta amarela. Essa porta tem uma argola e podes prender lá o tronco para depois puxar. Vais ver que se solta num instante.
O crocodilo agradeceu e partiu a correr à procura da árvore. Quando a viu, ficou tão contente que começou a chorar e foi até ao pé da porta amarela. Entalou com cuidado o tronco na argola dourada e começou a puxar com força.
Nessa altura a raposa Manhosa e os irmãos começaram a ouvir um barulho na porta e pensaram que era o Kikas.
- Ali vem o nosso almoço. Disse a Manhosa. Vamos lá buscá-lo.
As raposas puxaram a porta, mas não a conseguiram abrir.
- Parece que a porta está presa. Disse um dos irmãos.
- Puxem com força! Respondeu a Manhosa.
Então, o tronco soltou-se da boca do crocodilo e a porta abriu-se de repente. As raposas viram aquela boca enorme e cheia de dentes na sua frente e começaram a gritar muito assustadas.
- Ai que o crocodilo nos vai comer. Fujam todos. Gritava a raposa Manhosa.
Começaram todos a fugir e a tropeçar uns nos outros. Escondido atrás de uma grande pedra, o Kikas tinha estado a ver tudo e ria tanto que já lhe doía a barriga. Agora podia seguir viagem. Que dia cheio de aventuras!

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Uma viagem...

Pai, contas-me uma estória?

Era uma vez um canguru, chamado Kikas. Ele vivia com os irmãos e os pais, muito longe, na Austrália e desde pequenino tinha um sonho. Queria conhecer o seu país.
Como a Austrália é muito grande teve de preparar a viagem com cuidado para que nada faltasse. A mãe ficou um pouco preocupada e arranjou-lhe uma bolsinha com comida, para que não tivesse fome. O canguru despediu-se da família e partiu à aventura!
Ao fim de caminhar durante umas horas encontrou um rio. O Kikas não sabia nadar e começou à procura de um lugar com pouca água para poder atravessar. Alguns metros à frente havia uma passagem. Quando se preparava para avançar, Kikas parou de repente. Estava um crocodilo dentro do rio! Enquanto subia para uma árvore, ouviu-o dizer.
- Olá senhor canguru. Então o que faz por estes lados?
O Kikas estava um pouco assustado, mas respondeu.
- Eu…eu ando em viagem.
- E faz muito bem. Mas não precisa de passar o rio? Perguntou o crocodilo.
- Não, não! Respondeu o kikas. – Eu estou só aqui a descansar.
O crocodilo riu-se um pouco e falou outra vez.
- Está com medo de mim, não é?
- Olhe, para dizer a verdade, tenho medo que me coma quando atravessar o rio. Disse o Kikas.
- Pois! Eu percebi. Mas não se preocupe que não tenho fome. Acabei de comer um peixinho e não consigo engolir mais nada. Pode atravessar à vontade.
Mas o Kikas era muito espertalhão e não se deixava enganar.
- Olhe, senhor crocodilo. Vamos combinar uma coisa. Eu até posso acreditar em si, mas continuo a ter medo. Importa-se se fechar os olhos, enquanto atravesso o rio?
O crocodilo disse logo que sim, mas na verdade queria apanhar o Kikas. Quando sentisse a água a mexer perto dele, saltava de repente e comia o canguru.
- Pode passar, amiguinho. Já estou de olhos bem fechados.
O Kikas, em vez de entrar na água, empurrou um velho tronco de uma árvore, na direcção do crocodilo.
Ao sentir a água a mexer, quando o tronco chegou perto de si, o crocodilo pensou que era o canguru. Então, de boca muito aberta saltou para o comer, mas como ainda tinha os olhos fechados não reparou que estava a morder um pedaço de madeira. Nessa altura o Kikas deu um grande salto para cima do crocodilo e depois saltou para o outro lado do rio. Foi-se embora muito depressa e a rir, continuando a sua viagem.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

David, o Minotauro e a bruxa…

David tinha encolhido! Era assim que começava a sua Primavera, com medo. Sabia bem o que chegava, envolto, entardecido e a magoar. Parecia-lhe tosca, a corrida que se preparava para fazer. Observou forte os adversários.
Nascera numa pequena vila de pesca onde o pai desistira há muito. Havia de ganhar! Começou a chegar-se ao brutamontes do António. De mansinho tomou posição pelas suas costas.
- Não vais ganhar! Tu sabes isso.
O enorme homem virou-se já de punho fechado em raiva, socando o ar fresco em vão.
Depois passou a raspar no João. Não tinha vida aquele rapaz, sempre deitado. Gostava dele.
- É desta que te perdes! Levas cordel?
- Não tenho paciência para os teus disparates, David.
Uma pancada seca no sino dourado e começaram todos a correr. Todos, menos o David. Nem explicou e partiu na direcção oposta. Estava farto.
Foi para casa trocar de roupa, muito zangado e com pintas franzidas na testa.
- Maldita bruxa. Maldita mulher!
David perdera-se na noite anterior, no labirinto simples, à procura da voz. Ela tinha jurado ajudar, mas deixou-o só, sem as cordas, chamando em timbre errado. Nessa altura encontrou a besta. A máscara era disforme, e ainda cheirava a pó. O António suava debaixo da cabeça de boi, entalada perto dos ombros.
- Anda herói!
Grunhiu a metade homem.
- Desafia-me com a tua espada!
- O meu nome é David! É David, gritou o rapaz. Será que não entendiam? A bruxa pagaria bem caro.
Dois dias antes encontrou-a lavando roupa clara. Riu-se sem cuidado.
- Agora andas de branco? Não me parece apropriado para uma bruxa.
- Não vale a pena, pequeno homem. Não te conto.
Ele pediu mais calmo.
- Eu sei que só posso usar a voz. Mas qual?
- Tu sabes da voz?
A mulher deixou sair um gritinho assustadiço. Puxou o ar, mas não inchou o suficiente. Deixou de defender.
- Como descobriste?
- Isso foi fácil, desde criança. Mas de nada vale. Tu de nada vales!
Afastou-se em direcção ao Museu. Ia sempre lá. Sentava-se no escuro a pensar, a fazer festas nos animais embalsamados. O casarão tinha pertencido ao Visconde Tadeu. Era um grande caçador com longos bigodes. Por sua vontade, depois de morrer ali ficou, com o corpo cheio de palha e madeira fina, de olhar fixo em vidro pintado. Então percebeu. Era a voz!
Passados dois dias entrou no labirinto. Os outros andavam na praia a correr. Todas as semanas competiam para escolher o mais forte. Quem ganhasse tinha o direito de ir ao labirinto, procurar o tesouro do Tadeu. Todos já tinham ganho, menos o António. Ele era o Minotauro. Só ele tinha força para suportar a pesada cabeça de animal. A bruxa obrigava-o a cumprir. Apesar da voz alterada, David conhecia-o.
Durante anos imaginou-o, enorme, gigante na sua frente. Perdia sempre e desistia, como o pai. Um dia ouviu-lhe dizer.
- É a voz, David. É o som que sai da cabeça. E a bruxa sabe-o. O resto escondeu…por medo.
A mulher era na verdade a viúva do Visconde. Controlava a pequena vila, ameaçando destruir a pesca, os barcos, tudo e pouco de que ainda viviam e que lhe pertencia.
Inventou a estúpida procura do tesouro. Divertia-se com o desespero dos outros. Até hoje!
A mulher corria o mais depressa que conseguia. Lembrava-se da conversa com o rapaz e do museu, com as portas abertas. Não foi preciso entrar. Sabia que o roubara. Tinha de o impedir. Entrou no labirinto a ofegar. Foi direita aos interruptores. Não havia tempo para teatralizar. Acendeu as luzes, para procurar.
Mesmo assim era difícil. Na verdade o labirinto estava cheio de espelhos. Era quase impossível a orientação. Quantos resgatara perdidos e a chorar. Com um pequeno toque numa alavanca, fez aparecer um corredor, que a levaria…ao lugar.
Deu passos lentos, para logo se imobilizar. Sentada ao fundo estava a besta, de pouca mitologia e mais pequena.
- Anda mulher. Aproxima-te de mim!
Caiu de joelhos, ferindo a pele. Recordou a voz. Era o Visconde!
David retirou a máscara e colocou-a perto dos pés. Escorria satisfação e triunfo. Por ironia fora o João que o fizera acordar. De tanto fumar e pouco andar, o rapaz ganhara uma voz truculenta e forte. Arranhava as notas tentando cantar. E assim descobriu.
Tadeu, no auge da excentricidade, deixou um macabro pedido. As suas cordas vocais ser-lhe-iam extraídas após a sua morte. Depois de secas, devia ser instaladas num mecanismo de sopro que ele próprio inventara. Era a maior atracção do museu. Qualquer um podia falar através dele, com a voz do grande Tadeu, perpetuando o seu tom.
No labirinto, fora instalada uma parede secreta. Só abria com o som correcto, o daquela voz, que David guardava na sua mão. Dentro de uma grande sala ficava o tesouro, roubado pelo Visconde e pela mulher. Pertencia a um barco que dormia na enseada da vila, transformado em atracção turística pelo casal, que primeiro lhe retirou o conteúdo, das entranhas. Por lei pertencia a todos. Por ganância lhes foi escondido.
David baixou-se junto da mulher, que chorava.

- Já chega, bruxa! A corrida acabou.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

A subida...

- Achas mesmo que vamos descobrir?
- Calma, amor. Continua a subir.
Os dois eram já velhinhos. Subiam de mão dada à procura de uma resposta. Um dia, puxados por uma ciganita ficaram a ouvir dizer, as linhas a revelar…
Ela rejeitou a esmola e apenas devolveu um sorriso.
- Então é por isso…
Depois afastou-se, devolvendo um esgar, correndo em passos curtos.
- Ainda a pensar na cigana, ao fim de tanto tempo? A pergunta era doce.
- Também te lembras, não é? Vamos que vai anoitecer.
Caminhavam colina a cima buscando a senhora na última casa. Casaram há sessenta e nove anos, firmes no propósito e sem duvidar. Fora a neta Maria que os fizera recordar.
- Mãe, as mãos dos avós estão coladas?
- Acho que sim, querida. Acho que sim.
A sua felicidade fora completa e não precisaram questionar, aceitando o dom. Os outros discutiam muito, perguntando porquê, berrando em silêncio.
- Lembras-te daquela vez? Perguntou afagando a barba branca.
Ela franziu.
- Ai homem, que não tens emenda. Claro que me lembro.
Era sempre assim. Quase não precisavam falar. Um piscar baixinho revelava.
Ao fundo viram a casa velhita, com uma coluna de fumo mágico. Estavam quase a chegar.
As mãos unidas sentiram a pesada maçaneta, com um coração e uma bruxa, de madeira.
- Façam favor de entrar!
A voz era de homem, que apareceu de sorrisos e braço no ar.
- É o casal de velhinhos, mãe!
Ficaram juntos num pequeno banco de esperar, tricotado em cordel de tranças.
- Estás nervoso?
- Só um bocadinho. Mas não é importante.
As mãos apertaram, um segundo antes dela entrar. Apareceu de unhas muitos curtas, desmaiando o vermelho, saindo em lascas que esvoaçavam.
- Boa noite meus amigos. Venham comigo por favor.
- Seguiram a senhora que era gorda, perto de uma pesada cortina em veludo. Tinha sido trazida para tapar a luz. Porque não tremia com o ar ou o ruído. Era de ocre e cheirava a velho. Era bonita.
Sentaram-se em frente a uma pequena bola de cristal, com neve artificial no seu interior.
- Desculpem o engano. Há quem precise. Mas sabem que não funciona…
A mulher notou o tremer e mudou. Cresceu na pose para dizer.
- Na verdade nunca perceberam?
Eles ofereceram-se à dúvida que não existia, retribuindo.
- Estamos juntos há quase setenta anos. Sabia que nunca nos zangámos, que nunca deixei de chorar de alegria, que guardo o seu sono em sonho meu?
O senhor acariciava a face da mulher, de rugas marcadas.
- Amo-te tanto, meu lindo.
A senhora fez-se bruxa para suportar, arrancando um único soluço ao colo, escutando.
- Há muitos anos disseram-nos que havia uma explicação para tanto amor. Não nos incomodou na altura e hoje muito menos. Se queremos saber é para recordar. Falaram em outras vidas, noutras paixões. Que nos conhecemos com diferentes nomes. Que encarnámos para relembrar.
- Quem éramos nós, no passado? Pode dizer-nos, por favor?
A bruxa espantou, antes de responder.
- Sempre pensei que soubessem, que só havia uma.
- Só havia uma?
Terminou muito baixinho.
- Vocês…eram a mesma pessoa!

quinta-feira, dezembro 15, 2005

O monte dos ossos...

Podia ser uma estória triste. Mas não é! Aparece ao anoitecer.
Na mesma aldeia existe um estranho cemitério. Não está escondido, parecendo flutuar. Devem ter puxado a terra, fazendo-a cair nos lados, mostrando um pequeno monte de muros brancos. O cemitério planava em planalto, com as raízes à mostra, de um único acesso. Chamavam-lhe “a obra”, pelo último presidente, que não sabia o que fazer. Mandou escavar numa tarde os terrenos em volta dos muros, para dignificar a infra-estrutura. O dinheiro acabou, e o cemitério mostrou as entranhas, pesando em pouca altura. O pior estava para acontecer. Com os meses, sem a sustentação das almas e das terras, o lugar começou a ceder, a enterrar. Num ano baixou um metro, comprimindo a base.
Nessa altura, gordo e inchado, não mais suportou. Começou a expulsar! Eram ossos que saíam, aparecendo a espreitar. Misturavam-se com as pedras mas espetavam mais, esbranquiçados. Com a pressão, e sem o conforto dos terrenos em volta, a terra não retinha os ossos, que começaram a aparecer nos lados do monte. Toda a gente ficou pasmada!
Em duas semanas apareceram os turistas, buscando lúgubres recordações. A Francisca fazia as honras, recebendo e conversando.
- Aquela podia ser a minha tia Joaquina, pela leveza da anca.
Nos tempos seguintes outros ouviram, fotografando o medo, tocando de leve. Procuravam tesouros…
Até que a rapariga anfitriã repensou. Foi um dia mais cedo para casa e voltou aos gritos. Estaria louca? Por certo afastaria o comércio, as barracas de gelo, o amigo enfiado no quiosque. Arrepender-se-ia a danada.
Mas a noite chegou entretanto. Vinha de mau humor, despeitada. Ousarem era demais, chamando noutra altura. Já era suficiente!
No dia seguinte, o padre cansado caminhou a sorrir, para devolver uma relíquia no cemitério. Avistando-o, retardou o andar, para observar. Ao seu lado estava de novo a Francisca, agora mais calma.
- Então filha? Já aconteceu?
- Sim, senhor padre. Você sabia, não era?
O velho deu-lhe a mão para caminhar.
- Desconfiava. Mais do que isso…rezava…
A rapariga olhou uma vez mais para a parede de terra amarela que sustentava os muros no seu altar. Os ossos tinham desaparecido, escondendo-se no interior.
- O senhor padre sabe que não acredito, não sabe?
- Sei, minha querida. Mas não faz mal…

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Em segredo...

Aquilo que vos vou contar, fica apenas entre nós! Descobri-o por acaso e não queria que se espalhasse.
Escrevi-o num papelito que trago sempre no bolso, meio amarrotado. Um dia decidirei o que lhe fazer.
Passeava sozinho num final de dia, com o Sol já muito baixo e horizontal, projectando sombras enormes nos muros e paredes. Numa delas estava um homem pequeno a pintar. Quando me aproximei, vi realmente o que estava a fazer. A pintar a própria sombra. De cócoras, permanecia imóvel, à excepção do braço direito, que andava para cá e para lá entre o cimento e lata de tinta preta e cinza. Na parede pintava a sua sombra em decalque, registando a mesma posição. Fiquei a ver.
- Não me distraia, por favor. Isto já é suficientemente difícil.
Nem respondi, com medo de que se enganasse. Esperei pelo fim, sentado no chão.
Passados mais vinte minutos cronometrados, ele caiu para trás exausto. Estava terminado. A sombra era perfeita, imitando a cor escura, de negro desbotado. As margens pareciam suaves borrões sem um contorno definido, lindos.
- Os meus parabéns. Não sei como fez isto.
O homem respondeu ainda estendido.
- Foi com o que sonhei! O resto é fácil.
- O que sonhou? A pergunta traía na entoação, suspeitando a demência evidente.
- Sim! Isto é apenas um sonho. Posso fazê-lo a qualquer altura. Basta que adormeça a pensar nisso.
- Como…? Ponderei sair da cena pouco normal e que me começava a incomodar.
- Como diz? Peço desculpa, mas não entendo do que fala.
Ele deu uma gargalhada enquanto se sentava.
- Claro que não percebe. Mas eu explico. Afinal já acabei!
- Já acabou? A pintura?
- Não. Acabei os sonhos.
Olhou-me por segundos, preparando-se em seguida para partir. Tapou a lata com cuidado, raspando gotas de tinta já seca.
- Venha. Acompanhe-me por um pouco.
Assim fiz, ajudando-o com o material de pintura, caminhando lentamente.
- Desculpe, não queria intrometer-me.
- Não faz mal. Deixe estar. Eu é que estou sensível…
- Sensível?
- Sim. Acabaram-se-me os sonhos! Não tenho mais. Já fiz de tudo e agora nada tenho. Fui cantor de ópera, recordista olímpico, galã, mendigo, super-herói, bandido…
Parámos perto de um renault cinco amarelado e feio. Ele abriu o porta-bagagem e guardou a tinta.
- Já tive carros de luxo e desportivos, aviões e até navios. Agora ando nesta beleza.
Não sabia o que devia dizer ou fazer. Não me parecia louco, mas tudo o que mostrava era difícil de acreditar. Falava com desânimo, em perfeita razão. Mas não trazia sentido.
- É um belo carro. O meu avô tinha um… Calei-me.
- Meu rapaz escute bem o que lhe vou contar. A resposta esteve sempre ao nosso alcance. Basta pensar, antes de dormir!
- Pensar?
- Sim, pensar! Antes de adormecer, pense no que gostava de ter, no que desejou ser. O desejo será realizado. Não acredita? Experimente!
Não fiquei com vontade de rir. Apenas perguntei.
- Mas isso não é o que todos fazemos?
- Ah, mas aí é que está a diferença. Fazemos…mas no fundo sabemos que não vai acontecer. Um dia acreditei e pensei. Foi o quanto bastou, para aqui chegar.
- Mas o senhor anda num carro a cair de podre!
Ele colocou a mão no meu ombro para que o ouvisse melhor.
- É como lhe disse. Acabaram-se-me os sonhos. Ontem, para dormir, só consegui pensar nisto, em pintar a minha sombra. Acabou-se…
Despediu-se e entrou no velho carro. Gritou pela janela que só abria até meio.
- Vá, aproveite. Aproveite o que lhe ensinei.
Sentei-me ali mesmo para me deitar. Procurei desejos e explicações. Cantei planos e desafios, chamei com calma o saber dormir. Queria tentar. Havia tanto por onde escolher, para visitar, correr em tempo eterno e alcançado. O Mundo era meu, nos seus desejos. Seria grande, até cansar…
Estava calor e ninguém passava por ali. Era um recanto perto do rio, com pedaços de relva verde e amarelada. Senti o sono a chegar, pela mão da primeira estrela. Pensei.
“Desejo o seu abraço…se ela mo quiser dar…”
Depois deixei as pálpebras taparem a luz. Não queria mais nada.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Três raparigas...

Joaquim tinha três namoros! Eram pelo menos esses que lhe corriam, que o faziam desgastar numa eterna dúvida. Lana era a primeira!
Tinha os cabelos demasiado compridos, nascera fora do país e chegara muito nova, com dois irmãos mais velhos. Os pais vieram mais tarde, empurrados para o canto da Europa.
Era doce no entanto, os olhos mudavam muito de cor, como o tom de voz que quebrava sempre, ao mentir. No final de dia encontraram-se perto da casa dele, num café muito arranjado, com quadros amarelos e caixilhos de antiguidade.
- Olá Lana, onde estiveste?
Joaquim aprendera a ser desconfiado. Perguntava sempre primeiro, mesmo antes do beijo.
- És sempre o mesmo. Disse-te trinta vezes que trabalhava até tarde. Pensas que o faço por prazer?
- A Joana esteve lá?
A Joana era a lésbica da empresa.
- A Joana trabalha lá! Onde querias que estivesse? Tu gostas de me irritar. Queres cheirar-me, sentir o seu odor, como um qualquer farejador? Queres?
Joana usava o cabelo curto, por lugar comum. Gastava até ao limite um casaco de riscas finas azuladas e calças verdes. Desafiava e atendia o telemóvel em voz alta depois de um puxar de bolso traseiro.
Mantinha com Lana uma relação secreta em que sonhava de olhos abertos e punho cerrado, que ela talvez tivesse notado. Um dia beijaram-se, embriagadas, em beijo mau, sem emoção.
Lina vinha em segundo, e não conseguia parar de rir facilmente. Nasceu no Sul, mas emigrou ainda de fraldas. Os anos deram-lhe um sotaque irritante, em que falhava muito e não parava de falar.
- Importas-te de parar de rir por um minuto? Eu já não aguento mais isto.
- Oh lindo, não sejas assim. Tu sabes que te amo e essas tretas todas. Deixa-me rir. Faz bem às rugas, ou faz mal. Não me interessa!
Jurava poder encontrar um defeito, mas até então continuaria a tentar. A barriga era a mais perfeita, escondendo dois sinais…
Apesar de tudo, amava-as com intensidade. Talvez até amasse a Joana, que o tocava muito ao conversar, irritando-o para provocar.
Hoje era o dia em que ia decidir com qual queria casar. Pesava e pensava, abrindo-se a uma escolha difícil que não entendia.
Lina e Lana, arrumadas em seus cantos, esperando uma confissão de amor. Joana, a lésbica, correndo nua em arrepio…Joaquim achou-se a endoidecer. Nada fazia sentido.
De repente, ligou o carro, arrancando em velocidade. Faltava pouco tempo.
No outro lado da cidade, as mãos esperavam impacientes. Ele já não vinha.
Apagou o charuto num muro esbranquiçado. Que idiota era por fumar aquilo e por esperar. Joaquim escolheria uma delas, como sempre fez, desde o início. Já nada seria igual.
Sentou-se a recordar o dia em que o conheceu, despenteado a correr pelo corredor da empresa, procurando a porta do gabinete. Desde o primeiro dia que reconheceu as pintas que lhe saíam na gola do casaco. Tinha sinais espalhados no pescoço, que aumentavam a sua sensualidade. Um dia chocaram, ao entrar na garagem, riram até doer e acabaram abraçados, a suspirar. Nunca discutiam.
Joaquim conduzia agora como um louco, chamando o seu nome em plenos pulmões. O telefone não parava de tocar, de Lina e Lana, a insistir. Não atendeu, deixando soar.
Queria chegar a tempo correndo, antes que fosse tarde, que lhe levassem a hipótese de ser feliz…
No início do cais existia um senhor de barbas brancas que o conhecia e lhe arrumava o carro. Tinha o péssimo hábito de fumar enquanto o fazia, arriscando odores que demoravam a sair. Para além disso era mal educado e chegara mesmo a riscar o automóvel. Agradeceu a Deus quando o viu, a acenar como uma criança.
- Olá senhor Joaquim! Aqui, aqui! Tem lugar neste cantinho.
A chave trocou de mãos e passou a correr, perseguindo um outro caminho. Tranquilizou-se quando viu que ainda havia tempo e começou a virar-se, a olhar, a chamar…
- João, onde estás? João?
Sentiu-o a respirar.
- Estou aqui. Estava à tua espera.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A corrida...

Em Lisboa existem ainda alguns bosques, com densa vegetação e que nos obrigam a pensar. Num deles vi um casal de esquilos a deslizar entre árvores, perseguindo-se mutuamente.
Tem árvores pouco altas, mas com troncos emaranhados. Entre eles se esconde uma tradição antiga, já transformada em mito por ser desconhecida e ninguém sobre ela escrever. Na verdade é uma competição profundamente secreta, guardada em juras e por vezes ameaças.
Todos os meses, nas noites sem Lua, juntam-se uma dúzia de rapazes e uma rapariga, a Maria José, para correr. A Maria tem o cabelo curto e pernas muito musculadas, de tanto treinar e agachar em repetições. É engraçada!
Quando fica escuro, procuram raras clareiras para iniciarem a sua tarefa, nervosos…
O jogo é simples. Consiste numa corrida às escuras, de olhos fechados, em precipitação de verde negro. Correm durante três minutos, sem parar, esgotando as forças ao limite. Não são precisas vendas. Mesmo com os olhos abertos nada ou pouco poderiam ver. E mesmo o que vissem só atrapalhava. A cerrada vegetação misturada com o suor da corrida, enganava no breu e não era de confiança. Tudo terminava com o som agudo de um corno branco. Cada corredor parava na mesma altura, espetando no solo a sua marca. Não se ouviam mais passos. Quem chegasse mais longe triunfava.
É claro que haviam muitos acidentes, que esbarravam nas árvores e nas pedras, nos bancos idiotas que para nada mais serviam. Poucos eram os obstáculos sem vestígio de um choque brutal, com alguém que corria. Bem no meio do bosque havia um gradeamento de ferro, enferrujado no tempo e temido por todos. O único acidente grave acontecera há vinte e um anos atrás, quando uma rapariga chocou contra o metal retorcido.
Desde então quase só vieram homens, menos preocupados e de maior inconsciência. Eram determinados!
A Maria José tornara-se numa lenda. Há cinco anos que tinha o recorde de maiores vitórias e apenas um pequeno acidente, numa rasteira feia de arbusto. Nesta noite tudo mudaria.
Uma vez mais eram onze homens contra a Maria, que mordia uma pastilha de forma pouco elegante.
- Meus senhores não estejam nervosos. É sempre em frente.
Ela brincava com a situação, sem nada temer, escudada na sorte e no instinto do bosque. Conhecia-o melhor que todos, ao solo que pisava e ouvia, às flores que dormiam e lhe raspavam, pedido para que virasse noutra direcção. Os rapazes estavam em pânico.
Foi dada a partida na forma habitual, burlesca na tradição.
- Cavalheiros e senhorita…aos seus lugares! Prontos…já!
Precipitaram-se para dentro do bosque, em velocidade desenfreada e medos esquecidos, com a adrenalina saltando-lhes nos pulmões.
Dois não chegaram a sair da clareira, esbarrando de nariz em troncos médios, mas robustos. Os outros desapareceram no escuro, gritando desalmados, para afastar o medo.
Os três minutos passaram rápido e o corno falou lá para dentro, pedindo a todos que parassem. Ouviam-se respirações e lamentos, brigando com o solo e com as folhas.
Os juízes avançaram de lanternas, para descobrir feridos e o vencedor. Aos poucos foram achando os competidores, assinalando a encarnado num pequeno bloco de notas. Mas o mais estranho estava por descobrir!
Na escuridão, identificaram nove corredores, maltratados, mas vivos. Faltava a Maria José!
Logo se instalou um desconforto, de lendas e superstições, de segredos e choros contidos, pedindo a volta da campeã.
- Ai meu Deus! Gritou um dos homens.
- Os gradeamentos!
A armadilha do ferro ficava no centro exacto da pequena floresta, ameaçando quem por ela passava. Os que corriam acabaram por aprender a fazê-lo em arco, evitando a área mais perigosa. Desde de sempre se especulara sobre as vitórias da Maria José. Dizia-se que tinha encontrado um caminho pelos gradeamentos, vencendo fácil na menor distância. Outros diziam que tinha poderes especiais, que corria por baixo da terra num túnel secreto. A todos faltara coragem para a acusar, pelo respeito que lhes merecia a história. Maria era filha da mulher que tivera o acidente há mais de vinte anos. Temeram o pior.
Correram para o centro, para junto do ferro e da ferrugem, procurando a rapariga em cada sombra. O primeiro a chegar, travou de imediato.
No centro existia um emaranhado de metal com um pequeno vulto ajoelhado na sua frente. A voz era tranquila…
- Não te preocupes. Eu não volto a correr.

domingo, dezembro 04, 2005

A pancada...

Quem gosta de sushi sabe! A vontade aparece em qualquer momento do dia e arrasta-nos que nem dependentes para qualquer saída, que nos devolva o sabor do mar e do oriente. Ontem foi um desses dias, em que me vi parado num semáforo, com a boca a secar, sentido pedaços de gosto forte, empurrados contra o palato que já se habituou. O toque da madeira substituindo garfos, enchendo os dedos de habilidade, para pescar.
Não tinha companhia e não podia forçá-la, por isso fui até a um supermercado onde descobri que vendiam algumas embalagens. O moedas lá andava de um lado para o outro piscando-me o olho como se soubesse.
- Vá lá chefe. Pode arrumar aqui à frente que não lhe faço mal. Já sei que não tem trocos.
Deve-me ter confundido com um mau cliente. Dou-lhe sempre dinheiro, nem que tenha de o trocar.
- Entrei no supermercado muito movimentado, o que me preocupou. Se calhar já não havia. É sempre assim em dias de jogo. Esta gente não gostaria de pizza?
Fui directo ao local onde costuma estar exposto, ao fresco, e comecei a rezar. O balcão estava vazio, o que era bom sinal.
Na mesma altura vi uma rapariga a aproximar-se pelo lado oposto do corredor. Apesar do frio tinha uma camisola curta que lhe deixava a barriga de fora, com um cachecol a baloiçar na frente do umbigo. O cabelo era curto e despenteado, com mais de dez ganchos às cores e uma madeixa em azul. Era uma apaixonada de sushi!
Pude vê-lo nos seus olhos enquanto avançava, acenando para nada e cantarolando a minha música preferida. Ao desviar dela os batimentos descompensaram em correria louca, vendo que só restava uma caixa de peixe cru. Apenas uma!
Pensei em correr, jogando-me ignobilmente na sua frente, defendendo a causa do meu desejo. Ela tinha três passos de avanço e o braço preparou-se para segurar, quando se distraiu com qualquer coisa, virando-se no último instante. Com delírio cheguei primeiro à caixa negra e cristal, recolhendo-a com uma das mãos. Antes que me voltasse ela estendeu o braço sem olhar, dando com o espaço vazio, percebendo a súbita ausência nos seus dedos.
- Mas…onde é que?
Não terminou por me ver, fixando-se no conteúdo, nos rolinhos branco e verde, nas fatias arrumadas. Fez um ar de desespero.
- Desculpe, não o vi! Está com sorte, é a última.
- Sim eu sei. Respondi.
Ela resignou a tentação e quis sair.
- Espere!
Pedi com uma voz forte, demasiado grave.
- Sabe, esta caixa é muito grande. Talvez…eu sei que é um abuso, mas talvez a pudéssemos partilhar. Aqui perto há um café que conheço bem…
- Não muito obrigado. Eu não o conheço.
- Eu percebo, e uma vez mais desculpe, mas sinto que temos algo em comum…

A pancada que recebi na cabeça foi muito violenta, fazendo-me largar a caixa e descer inanimado.
Caí devagar e ainda consegui ouvir um grito. Depois ficou escuro.
Acordei aos poucos, cheio de frio e de medo. Dezenas de olhos apontavam para mim, com as caras seguindo-lhes a preocupação.
- Olhem! Ele está a acordar.
- Não tente falar, senhor. A pancada foi muito forte, mas está tudo bem. Deixe-se estar deitado.
A voz era de uma senhora gorda de uniforme branco e colete amarelo. Parecia uma mãe, prendendo-me o tacto, penteando-me com gelo.
- O que aconteceu? Contive a tosse e a dor, desistindo de falar.
- Vá, esteja calmo. Foi um assalto, ou melhor uma tentativa. Mas já passou. Agora só tem que agradecer àquela menina de cachecol colorido. Ela é que o salvou. Nunca tinha visto tanta coragem.
Virei-me um pouco para encontrá-la, mas doía-me muito o pescoço.
- Onde é que ela está?
- Ela está com o senhor polícia a falar. Que rapariga tão corajosa. Sozinha deu conta daquele patife. Ele nem viu a lata de salsichas esborrachar-se-lhe entre os dentes, desgraçado. É muito bem feita!
O chão estava sujo de sangue, misturado com pedaços de peixe que se haviam espalhado. A rapariga caminhava para mim.
- Então? Já se sente melhor? Afinal sempre temos algo em comum.
- Em comum? Mas…
- Vá, não se canse. Olhe que a pancada foi forte. Pena foi o sushi. Não o consegui resgatar…por duas vezes.
O sorriso foi inevitável, no olhar que se cruzou.
- Obrigado…e desculpe.
- Não tem mal. É só para ver se o faço rir.
Debruçou-se com lentidão no meu ouvido esquerdo e acabou por dizer.
- O café fica para a próxima, pode ser?

Acenei que sim, envergonhado.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Circo de orelhas grandes...

A hora tinha passado na última vez que adormeci, porque estava frio. Corri para acordá-la! Tinha a promessa do circo, e agora estava atrasado. A papa entrou a voar, enquanto eu mal mastiguei um bocadito de pão.
- Anda pequenina! Ainda vamos a tempo. O pai adormeceu, mas ainda conseguimos.
Os olhinhos de sono têm grandes pestanas, que abanaram concordando. As bochechas abriam com um sorriso e os dentes salpicavam separados.
Chegámos enfim, com chuva quase a cair e menos frio, de tão cinzento. Corremos de mão dada para os lugares. As pernas pequeninas pareciam crescer.
- Eu consigo pai! Corre que vai começar!
Sentámo-nos antes de luzinhas, um segundo depois do apitar.
- Desculpe minha senhora…não vi o seu pé!
Ia começar! Este ano, a mestre que fala mudou. Esta é mais nova, com uma voz límpida, mas sem estórias. Sem abanar para a frente e para trás, de microfone a sacudir. Que seria feito dela?
O circo é triste, tem prisioneiros e só faz rir as crianças. Aos adultos causa espanto…
- Desculpe, mas não pode passar. Tem que esperar que as cordas subam.
Ao meu lado ela apareceu, de mãos que imaginei segurar. Os dedos eram muito compridos e não paravam de brilhar. Com gentileza arrumava os que ainda chegavam, procurando não perturbar.
Entrei em rodopio, procurando com que escrever. A pequenina desviou a atenção.
- O que queres?
- Nada filha. Só queria escrever uma coisa.
Estendeu-me um lápis de cera encarnado…e um papel amarrotado. Tinha-os no bolso do casaco. Mordiscou antes de dizer.
- Estivemos a fazer desenhos ontem…

Cheguei muito cedo, sem atrasos. Fiquei sentado à entrada, brincando com o lápis de cera. Estava mais pequeno, por ter deixado fugir poucas palavras. Face às rugas tinha achatado o seu escrever.
Era dia de folga no circo e as portas mexiam-se mais devagar. Entravam palhaços de pés mais pequenos e domadores com gatinhos persa. Um acrobata apareceu a coxear, perseguido por duas varinhas mágicas. Iam todos almoçar.
A porta deixou dois dedos, e por isso decidi entrar! Lá dentro havia um cheiro estranho, de pipocas com novas cores, rezando poder rodar.
Ela estava à minha espera, encostada a um canhão cor-de-rosa e azul, com uma inscrição a condizer. Tinha as orelhas muito compridas, como os dedos que quisera tocar.
- Olá! Trouxe o meu lápis e não parei de pensar. Gosto de vento, há pouco tempo...
- Eu trouxe o papel e não parei de amarrotar. Tenho orelhas e dedos compridos…
- Eu sei.