terça-feira, novembro 29, 2005

Venham...

Venham voar comigo...
Sempre quis ser um super-herói! Por vezes cheguei a ver-me, frente a um espelho tosco, de capa que não servia e se atava com dificuldade. Um dia acordei...e conseguia voar!
Durante meia hora fiquei na varanda a tremer. Com medo dos cabos de alta tensão, da velocidade, de cair, de não cair, dos aviões, de tanto...
Se continuasse, envelheceria sem experimentar. Pendurei-me no corrimão...e disparei!
Os óculos voaram também, da minha cara, esborrachando-se no solo. Tinha-me esquecido deles.
Voei depressa em direcção ao céu muito negro, inclinado para que subisse. Mesmo numa noite quente de Verão, a duzentos metros de altura a temperatura desce bastante e o meu nariz percebia-o bem. Quase instantaneamente começou a pingar, ao mesmo tempo que me tentava orientar. O Mundo visto de cima e às escuras, é diferente, cheio de luzinhas amarelas. Demorou pouco para que me perdesse.
Sentei-me no campanário de uma igreja, para me assoar e descansar um pouco. Doíam-me os olhos por causa do vento, que esticara as pálpebras ao seu limite. Não estava a correr bem. Decidi regressar a casa, curvando repentinamente a cada espirro, que me afastava da rota traçada.
No dia seguinte tinha febre e a garganta arranhava-me a alma, em profunda vergonha. Um super-herói constipado!
Agora agasalho-me bem. Tenho um fato de cabedal e uns óculos de esqui. Fico nos telhados, esperando...
Se tiverem medo, numa dessas noites, olhem para cima.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Tony...

Rebento se a guardar! Se não partilhar a quase mais fantástica tarde, vivida e sentida, arqueada para sempre, escorregando...
Saí sozinho para almoçar, o que nunca faço, por insegurança de me partilhar a sós. Fugi e acelerei para a aldeia próxima, de que agora gosto. Estaciono sempre no coreto, obrigando-me ao lugar comum. Imaginei como seria escrever mais tarde e que a sua presença embelezaria o ritmo.
Na pequena povoação não existe uma única esplanada, o que a princípio me desesperou. A observação é mais eficaz daquelas posições, de um dobrar sobre o chá quente...
Que podia fazer? Adoptar a mistura das gentes, em pé frente à casa onde vendem cervejas. Espetar comigo, de mini na mão, sem beber, por desgostar, esperando que algo acontecesse. Até que acontecesse!
As raparigas que esperavam a carreira identificaram o estranho. Riam sem esconder e gozavam o jeito. Não sabia pegar numa mini! Reconheci-o rapidamente, mas duas horas sem beber deveriam ajudar à falha.
Não ia desistir, nem estava prestes a partir. Sabia para onde olhar, para vê-lo chegar. À distância ouvia-se gargalhar. Era forte o riso, acompanhado de apertos de mãos e unhas. O senhor caminhava esgueirando-se do seu lado direito, do baixinho com uma capa verde. Tentava respirá-la sem abrigo!
A garrafa começou a sentir-se bem na minha mão. Por salpicos pensou que se chegaria a beber, uma partícula de tempo antes de ser pousada. Caminhei de lábios largos para o vulto no centro. Ele que tinha parado a rir, dobrando-se sobre a capa despejada, oferecendo calor à menina. Parecia embriagado. Parecia outra pessoa.
A dois metros reconheci a expressão. À minha frente estava uma estrela, de televisão e de imaginário. De semelhanças e realidade, de uma simpatia fraternal. No meu caminho cruzava-se o Tony Ramos. Nem mais! A estrela de novelas brasileiras, competindo na “minha” aldeia! Estava mais velho, o que é normal. Com grandes patilhas e cabelo preto, pintado de muito breu. Mais gordo, de maxilar pujante, parecendo um Elvis, de golas levantadas. Era muito atraente.
Fui ter com ele, de braços esticados. Afinal conhecia-o desde sempre.
- Não imaginei ser possível!
Libertei ao mesmo tempo do abraço.
Ele retomou a capa e colocou-a nos ombros. A entoação encheu o largo.
- Como está você?
- A precisar de um chá morno, e de uma conversa.
Quando não sabemos o que esperar, olhamos fixamente. Quando não queremos saber, damos a mão, mesmo a um homem, e puxamos por ele.
Entrámos dentro do café e escolhemos uma mesa. Fiquei a olhar! Era todo de negro, puxado a brilhantina. Marcas de pente bem desenhadas. Deliciei-me, com o passado.
- Sabe, sempre fui seu admirador, atento à sua arte.
- Obrigado...
O agradecimento traía a normalidade. Pertencia a outro, e fez-me pensar. O fumo levantava-se do chá demasiado quente e passava-lhe junto à face, moldando as formas. Afastei-o para dizer.
- Você é o Tony Ramos...não é?
- ...não!

segunda-feira, novembro 21, 2005

A pergunta...

Os dias de Outono são límpidos, depois de uma chuvada. Não existe poeira no ar e podemos ver até muito longe.
Estava sentado num banco de jardim há pelo menos vinte minutos. É uma coisa que gosto de fazer! Hoje em dia, se repararmos, só os velhos e os mendigos utilizam os bancos. Os outros têm vergonha, dos primeiros e de serem confundidos. Assim preferem ficar de pé, enchendo varizes. Ou então vão para os cafés!
Eu ali estava, sentado num banco de ripas esverdeadas, quando te vi. Caminhavas em zigue-zague parando em cada encontro. Falavas uns segundos com cada pessoa, que normalmente fazia uma careta e se afastava. Tu baixavas ainda mais o olhar e recomeçavas a andar, até à próxima.
Como estava muita gente na rua, demoraste até chegar perto de mim. Reparei que eras bonita, com um sorriso lindo mas escondido. Libertava-se com as crianças, ao colo ou pela mão, momentos antes de os pais as puxarem para trás.
Era sempre igual! Educadamente aproximavas-te de uma pessoa, cumprimentavas de cabeça baixa, e fazias uma pergunta. Nessa altura a pessoa olhava com dificuldade e virava as costas apressadamente. Estavas quase ao pé de mim.
Normalmente fujo, escondo a cara, finjo atender uma chamada, o que for preciso...mas sem arte. A curiosidade acaba por me trair!
Naquela tarde foi pouco diferente. Não resisti a olhar e deixei-me fixar. Percebeste o encaixe e aceleraste o passo. À minha beira não cumprimentaste. A pergunta foi mais forte.
- Ainda vais viver muitos anos?
Depois, enfim, baixaste os olhos!
Que podia responder? Achava que sim, pela ordem da vida. Porque ainda devia faltar bastante tempo. Não sabia o que pensar e acabei por dizer.
- Acho que sim...mas não sei quantos. Tenho saúde, portanto devem ser muitos. Que pergunta difícil.
Quando fico nervoso falo sem parar, tentando não esquecer o que direi em seguida. Continuei.
- Mas não te consigo dizer quantos. É uma pergunta difícil! Se me perguntasses as horas...isso eu sei dizer. O meu nome também, com algum esforço. Se ainda vou precisar deste banco muito tempo. Essa! Essa era a mais fácil! Podia dizer-te quando podes ficar com ele.
Com um modo gentil, tapaste-me a voz com dedos muito juntos. Sossegaste-me.
- Não vim pelo banco. Precisava de alguns anos...
A rapariga tinha cores que saíam da cintura, no local destapado. Pareciam formas pintadas...gravadas na pele.
E eu posso fazer isso? Perguntei.
- Sim, podes. É muito simples.
- Então está bem! Ufa, pensava que era algo mais delicado!
Ela riu – Não, rapaz. É apenas isto! Mas...tu...?
- Eu?
- Não queres saber de quantos preciso?
- Claro que não!

quinta-feira, novembro 17, 2005

A preto e branco...

Agora acho que já posso contar. Há cerca de um ano, junto ao jardim zoológico, reparei num cartaz. Era muito pequeno e discreto, como uma publicidade em miniatura.
"Um dia no passado. Venha visitar o Zoo a preto e branco!"
A preto e branco? Fiquei o dia inteiro a pensar naquelas palavras. O que quereriam dizer? Telefonei para o jardim, mas ninguém sabia o que se tratava.
- Olhe, deve ser brincadeira. Alguém com tempo e imaginação a mais.
A senhora desligou ainda em susurros, que não percebi.
Nessa noite passei no local, procurando o mesmo cartaz. Estava muito escuro porque metade dos cadeeiros da rua não funcionavam.
Nada! Não havia cartaz, nem o pequeno suporte que o sustentava. Decidi ir para casa. Nos dias seguintes fui esquecendo aquele episódio, passando de uma dúvida romântica, para a certeza de um engano. Não seria importante.
Nos Sábados costumo dormir até tarde, lutando com as manhãs que adoro e não consigo visitar. Aquele foi diferente. Acordei antes das sete com uma horrível sensação de ansiedade. Percebi de imediato o que me esperava. Tinha que visitar o Zoo.
Como moro perto, fui a pé para inspirar e me acalmar. Na última rua apenas olhei para os andares de cima. Ganhei este hábito enquanto procurava casa, uns anos antes. Nunca olhamos para cima!
Em baixo ficam as lojas, as entradas, os cafés e algumas famílias que não puderam subir. Não há para onde olhar. E assim ignoramos o que se passa por cima. Senhoras que abrem e fecham as janelas, espreitando sem explicação. Cortinas entrabertas com tufos de cabelos brancos escondidos.
De noite é ainda mais belo. A luz convida-nos a entrar. Os jovens casais discutem, e não têm cortinados...
Cheguei por fim, ao meu destino. Dirigi-me à bilheteira ainda escura. A senhora acabava de engolir o último pedaço de pão, que tinha manteiga. Um trago num café muito escuro e lá reagiu.
- Bom dia. Veio acordar os bichos?
Acho que corei um pouco, para depois me recompôr. Que se lixe! Vamos lá descobrir.
- Quero uma visita a preto e branco!
A senhora martelou qualquer coisa no computador e entregou-me um bilhete.
- Tenha uma boa visita. Bom dia.
Nem olhou para mim. Continuou a beber o seu café.
Àquela hora ainda não nos tiram fotografias com papagaios gigantes. A entrada é mais rápida.
Conheço o jardim de cor e saltaeado. Acho que até os animais já me reconhecem. Devo-o aos miúdos do Bairro da Sé e a um Verão de tempos livres.
Sentei-me no primeiro banco. Estava tudo a cores!
O comboio parado era encarnado, os aquários em azul suave, e nos répteis muito verde. Até o bilhete era às cores. Se pelo menos houvesse um panda.
Nessa altura ouvi uma voz com melodia.
- Não me diga que está cansado! É muito novo para isso.
Um senhor sentou-se ao meu lado. Devia ter quase setenta anos, mas com pele bem cuidada. O fato era castanho e de corte moderno. Contrastava um pouco com o chapéu, forrado de novo, mas com um formato conservador.
- Não sabia que ainda faziam desses chapéus.
Calei-me logo em seguida, envergonhado por tamanho disparate.
- Desculpe! Não sei o que me deu.
O senhor de chapéu olhou-me nos olhos.
- E já não fazem. Eu sou o último! Agora preferem gorros, mas só ao fim-de-semana. Nos outros dias passam frio. E não sabem cumprimentar.
- Atrapalham-se entre o beijo e as mãos. Hesitam, percebe? As mulheres não gostam de hesitações. Mesmo na timidez!
Chegou uma visita de crianças. Deviam ser de algum bairro pobre. Conhecia-lhes os passos. O senhor sorria ao vê-los passar.
- Afinal quer ver a exposição, ou não?
- A exposição? Perguntei em dúvidas.
- Sim, a exposição de fotografias antigas. "O Zoo a preto e branco!" Vai ser o primeiro...e desconfio que dos poucos. É como os chapéus.... já ninguém liga.
Ajudei-o a levantar-se e segurei-lhe no braço. Desconfio que me amparava.
- Vou com muito prazer. Disse com voz firme. Depois ganhei coragem...
- Queria fazer-lhe uma pergunta? Posso encomendar-lhe um chapéu?

terça-feira, novembro 15, 2005

Debaixo da ponte...

Acho que já ninguém se lembra. Mesmo eu não pensava muito. E no entanto continua a ser real, e de abrigo.
Na América negra de escravos persistiu uma lenda que falava num caminho de ferro subterrâneo. Pensava-se que existia de verdade, em emaranhado de túneis e máquinas, aço e segredos. Na verdade o caminho era de fuga, simbolo de alguma América que preocupava, que percebia. Apesar do risco, muitos ajudavam os escravos a fugir, albergando-os em suas casas e celeiros, criando uma rede segura onde paravam antes da liberdade – The Underground Railroad.
Numa tarde voluntária conheci o Joaquim. Pedia que lhe chamassem mendigo, com entoação simples, despreocupada. Como se engolisse parte da expressão. Nunca com maiúsculas! Aos poucos foi permitindo a confiança, contando pequenas estórias. Até um dia.
- Diz-me Joaquim, como te tornaste mendigo?
Ele riu pela astúcia, que permitiu uma maiúscula.
- Não é essa a pergunta, senhor. A questão é como consegui manter-me.
Só pela noite começou a contar-me, apoiado numa sopa quente, embora em pó. Relatou por fim.
Começara nos anos trinta, quando uma inesperada onda de construção, fez aumentar as travessias de rios, desfiladeiros e pequenos vales. E ele foi o primeiro. Recém despejado da casa onde vivia, Joaquim olhou em volta. Onde dormiria? Não tinha frio, raramente tinham, dizia!
- Vestimos tudo o que temos e ficamos assim. No Verão é pior. Não há fechaduras, e temos medo dos roubos. De ficar sem roupa.
A primeira noite foi a única, debaixo das estrelas, de um céu frio, mas sem chuva. De manhã descobriu.
Tivera sorte, contou. Era uma ponte moderna, na altura. No local onde se unia ao solo, formava um recanto, com uma parede de um dos lados e uma rocha azulada no oposto. Ficava à entrada da cidade, em zona calma e saloia. Havia pão, que sobrava, cobertores e uma serração antiga. No mesmo dia foi lá falar com o dono, pedindo umas placas, e corticite para forrar paredes. O chefe perguntou.
- Olha lá mendigo. Não queres ir medir o teu espaço? Assim até ficas com uma porta e tudo.
Apesar de nunca os ter visto, não quis arriscar. O cheiro de roedores é incómodo e nunca desaparece da memória. Encontrou remédio, que sobrava e desenhou, numa grande roda.
Durante a noite riu sem parar. Peça após peça, teve de abandonar o que vestia. Fazia calor, debaixo da ponte!
Nas redondezas havia uma fonte. Era antiga, quase sem uso, mas de muita água, límpida e fresca. A partir de então começou a procurar outros espaços, e a partilhar. Tinha começado o movimento.
- Chegámos a ser mil e tal, ou até mais. Rodávamos muito, para caminhar. Com os viadutos voltámos à cidade, mas correu mal. São muito frios, têm luzes por baixo e nichos altos, desconfortáveis. Há dois ou três, mas não partilho!
- Joaquim, tiveste uma boa vida! Trocávas alguma coisa?
Olhou através de mim, para uma casa antiga.
- Trocava tudo...

quarta-feira, novembro 02, 2005

Reflexos na professora...

Nos dias quentes era mais difícil suportar as aulas de Português. Mas a professora era muito bonita, parecia jovem e despertava a imaginação, talvez em demasia. Entre o calor e uma figura atraente, se perdiam os meus pensamentos.
Um dia fiquei perto da janela e quando o Sol começou a subir, encontrou-me o relógio de mostrador plano e generoso. Um reflexo recortado apareceu na parede à minha esquerda.
Sem chamar as atenções passei a controlá-lo, ordenando que se movesse. A luz amarelada começou a caminhar.
Subiu um pouco para contornar a enorme janela e definiu uma rota paralela ao tecto, em direcção a um dos cantos. Teve de rodear um pequeno quadro, com o mapa de Portugal, sem perturbar o seu espaço aéreo. Continuou sem mais problemas até virar, a noventa graus, alcançando a parede do quadro. Um dia destes tenho que entrar numa escola, para confirmar que ainda existem quadros...
De triunfante perdi a noção e o concentrar, e por pouco não deixava que a luz se extinguisse. Voltei a colocar o braço em posição segura, longe da sombra.
Finalmente chegou perto da professora, descendo pela moldura do quadro até muito perto do apagador. De um salto, o reflexo chegou até à mulher, parando no seu ombro direito.
A metade da turma que não lia, logo deu conta da sua presença. Olhares começaram a cruzar-se, para encontrar o responsável. Imitei-os na demanda, para que não fosse descoberto. Escutei o segredos e risos baixinhos, silenciados pelo olhar da figura iluminada.
Devagar, voltei o relógio para o centro, dirigindo o recorte de luz. Estava agora perto de um decote sem mácula, protegido por um enorme botão castanho. O que ninguém esperava foi o que se passou então. No exacto momento em que o reflexo se anichou no botão, o mesmo abriu-se deixando o tecido recuar. A luz tremeu quando os contornos apareceram. Tive que segurar no próprio braço, para que se mantivesse no lugar. Ao ver-me perder, o meu colega de secretária veio em meu auxílio, segurando com força, mas sem nunca desviar o olhar.
A turma reteve o ar e o suspiro, enquanto descíamos, descobrindo a sombra e a pele. Pareceu-nos ver uma gota que perseguia a nossa estrela, que nos arrepiava a imaginação.
A professora falou.
- Meninos, não sei o que se passa convosco, mas fico feliz pelo súbito interesse na aula.
Acabou a frase, voltando-se para o quadro negro. A mão que não escrevia passeava pela blusa, e pelo botão, acariciando-os.
Lá fora uma nuvem tapou o Sol, levando os reflexos em que já não pensávamos. Ficámos em suspenso, muito vermelhos, esperando que ela se virasse novamente.