segunda-feira, outubro 31, 2005

A rapariga feia...

Ela nem avisou. Veio direito a mim e falou.
- Gosto de ti!
Reuni duas ou três feições que poderia usar, mas fiquei quieto, a olhar.
- A sério! Estava a observar-te e senti que não podia deixar-te ir embora. Tinha que largar tudo, entendes?
- Eu...
Continuei em pura roda vida, sem perceber o que se passava. Comecei a vê-la...
- Desculpa. Sei que não sou bonita, que o trânsito não pára à minha espera...
Não podia dizer que fosse feia. Era um pouco... Bem...era ligeiramente gorducha, com cabelo comprido, apanhado por cima do ombro direito, tinha olhos doces e se fosse mais magra...
- Olha, o problema é que me viste antes de poderes conhecer-me. E a ilusão de uma paixão pode começar de várias formas. São igualmente poderosas, se forem ajustadas a diferentes pessoas. Comigo tem mais a ver com o intelecto, com o sentido de humor, com... Percebes alguma coisa do que te digo?
Continuei sem abrir a boca, corado para a eternidade e buscando uma saída. Ao fundo começou a aparecer outro vulto. Reparei que estava parado na entrada de um museu onde não queria entrar, com quatro escadas e uma porta muito feia.
Atrás havia um corredor, onde a outra figura andava de forma elegante. Começou a aproximar-se mostrando uma linda rapariga, que tinha óculos. Quando passou por nós, ficou a olhar-me, como se me reconhecesse.
Fiquei ali, parado, com as duas mulheres na minha frente, sem uma palavra...
A primeira tinha um sorriso bonito, sabia-o agora. Envorgonhou-se com o que ia dizer.
- Vais achar-me completamente maluca, mas pouco me importa. Não quero saber! Só quero ouvir a tua voz.
Baixou um pouco os olhos e continuou.
- Por ti era capaz de tudo. Dá-me seis meses e eu faço uma dieta que nem imaginas. Vou ficar tão bonita...
Nessa altura reparou na mulher de óculos, parada a seu lado, engolindo o que preparara para dizer. Ficou ainda mais atrapalhada ao perceber a beleza da outra. Olhou para os olhos sem cor que sorriam, demorou-se em lábios de um rosa perfeito, sempre a invejar.
Depois gritou, ao mesmo tempo que a viu rodar.
- Tu não tens um braço!
E não tinha mesmo. Ao virar-se apresentou uma manga caindo vazia, e aproximou-se ainda mais. Ao perto era ainda mais bonita!
E ali estava eu! Paralisado, na companhia das duas mulheres. Uma queria emagrecer, não me conhecia e estava apaixonada. Outra reconheceu-me! Era linda, não tinha um braço...e usava óculos.
Sentei-me desamparado nos degraus. Pensei na dieta, no braço, e levantei-me. Começou a doer-me a cabeça, um momento antes de falar.
- Eu... Eu queria...Quer dizer...
Tentei uma vez mais, falando mais devagar.
Eu moro aqui perto. Gostava que viessem comigo, para conversar. A rapariga de óculos acenou afirmativamente. A outra gritou que se chamava Ana. Concluiu que se enganara a meu respeito e desapareceu furiosa.
- Bem...vamos? Perguntei com uma voz murmurada.
- Sim, vamos. Mas quero avisar-te primeiro de uma coisa.
- Podes avisar!
- Não penses que vais andar comigo!
Estava mais calmo e podia responder sem pressão.
- Está bem, eu não penso.
A sua cara ficou ainda mais bonita, enquanto os músculos começavam a baixar e as covinhas podiam adormecer. Começámos a caminhar.
- Como te chamas?
- Francisca! Olha... achas que este problema do braço pode deitar tudo a perder?

- Acho que não!

sábado, outubro 29, 2005

Pequenas coisas...

Ofereceram-me um relógio electrónico! Hoje sei que é mais correcto chamá-lo de digital, mas na altura nem pensar. Era mesmo electrónico, de um cinzento claro! Cheio de números, e esquecimento, da tradição e dos ponteiros. Tinha músicas que alarmavam, e uma deliciosa avaria, que as impedia de parar. Tocavam até ao fim!
Avançou para o braço e ali ficava, pendurado a gesticular, exibindo orgulho e modernidade. Acho que o fecho se partiu um dia, e que o tentei consertar. Há muitos anos tentávamos sempre. Até que os danos fossem demasiados.
Mais tarde arrojei na escolha seguinte. Era de outro cinzento, mais escuro e trocava o metal pela borracha confortável.
Ainda penso que foi o relógio mais bonito que tive, voltando aos ponteiros que reaprendi a decorar.
A bracelete foi partindo, até o deixar sózinho, perdido no fundo do bolso direito de todas as calças. Depois acho que fugiu, por estar tapado e não ver as horas passar.
Já não uso relógio. Nunca mais vou usar...

O caminho...

Ela caminhava à minha frente. Era um pouco mais alta do que os meus catorze anos, carregados com esforço. Tentei não ficar nervoso, olhando para os lados, procurando no caminho uma distração e alguma calma.
Tenho pensado cada vez mais no passado, tentando contrariar o tempo que, para quase todos, parece correr. Lembrei-me de mais uma estória.
O dia era daqueles de Outono, em que ainda não precisamos de muitos agasalhos, mas agradecemos os saudosos kispos, que preveniam quaisquer acidentes. Eramos seis ou sete, mas ninguém mais fazia sentido naquele lugar. Não sei se foi nesse dia que coloquei a mão no bolso do casaco, para fazer uma estranha descoberta. Tinha duas asas de metal leve e partido, que podiam ser plástico banhado a uma liga mais nobre. Não sei como foram lá parar! Pareciam as asas de um Deus ou de um capacete de super-herói louro que voava.
Pouco depois o seu braço enrolava-se no meu, despertando a certeza do que me esperava. Pensei que o amuleto tinha ajudado!
Voltando atrás, observo o caminho. Tínhamos entrado no que parecia ser um antigo leito de rio, agora seco, embora húmido. Nas margens existiam árvores pequenas, que se uniam no topo, formando um túnel onde entrava pouca luz.
Nos dias seguintes sonharia com aquele lugar, distorcendo o verde para cores mais pálidas, misturando areias movediças com o esforço para ajudar companheiros em perigo.
Acelerei um pouco o passo, começando a sentir o seu perfume. Naquela idade, o coração é vencido pelo descontrolo fácil.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Incompleto...

Não lamento…
Não choro por não ter percebido.
Era de uma flor tristonha que avançava
Na minha palma.

Se olhasse ela escondia, de terrores.
E…

Não lamento…
Não percebi e agora resta-me pensar.
Que não mais te vejo, te toco e abrando no olhar. Ela era…

Não lamento…
Não percebi e não tenho que recear…

O funeral...

O morto observava-me de uma forma familiar e muito intensa. Um dos olhos estava torto e descaído, sem vida, e apontava para o caixão que era cinzento.
Fez-me lembrar o dia anterior, do nariz, do machado e da boleia!
Eram cerca de trinta velhas que me cercavam, adorando em cantos e com lenços que me raspavam ao passar. Num deles consegui ler duas pequenas letras, bordadas num ocre quase castanho. Pouco mais tinha visto até ali, sujeito a um pequeno ângulo sem periferia.
O odor traiu a sua idade e as letras fugiram com uma mão de tremores vagos. Era a tia Arminda! Uma noite tinha encontrado o tio Armando, em roupa interior, ao colo da interna lá de casa, com um seio esborrachado na face e a vergonha em viagem sem retorno. A tia deu as boas noite e o mesmo lenço amparou uma simples fungadela, sem sentido.
No dia seguinte, quando o tio saiu para o gabinete, parou junto ao seu carro, estacionado na entrada de subúrbio. No capô, ainda a reluzir, estava cravado um machado! Tinha perfurado o metal com brutalidade e não sairia com facilidade. Ele entrou calmamente e ligou o motor, que por pouco não tinha sido atingido. Partiu devagar, sempre com o machado na frente do olhar assustado. Não se voltou a falar no assunto.
Vi parcialmente a prima Maria, que não largava a mão, agora mais pálida. Na verdade, há anos que era o seu toque a acompanhar, a dar calor, a crescer dúvidas nos versos que trocava e enviava e nunca esquecia. Não chegara a saber, porque não perguntou e ficou de dúvidas e perguntas, a que os dedos e o frio não podiam mais responder. Tinha o nariz um pouco grande, a Maria.
Há anos que ninguém dá boleias. Temos medo de ser raptados, de que um louco nos atire para uma valeta, ou nos mate de aborrecimento no meio do nada. Ontem tinha quebrado o jejum. Percebi uma camisola amarela na berma da estrada, e parei de imediato. Era uma jovem sorridente, que nem estendia o braço e continuava parada, à espera. Ao longe confundira um gasto colete, com uma camisola. O amarelo pouco florescente era habitual nos meus semáforos, como um “cais” de ofertas simples.
A rapariga chamava-se Bianca, uma bonita brasileira, com longos cabelos e um olho torto. Atirara com as revistas para o banco de trás e num murmúrio respondeu. Dormiu durante toda a viagem.
Começaram a chegar os mais velhos, alguns com medo, outros rindo pela experiência. A morte assusta até ao dia que tanto tememos. Depois transforma-se em algo parecido com um sonho de serenidade e uma música que nos toca a memória.
O senhor mais calmo era também o mais alegre. Nunca me tinha abandonado e segurava a mão que a Maria fora obrigada a largar. O padre tinha saído pela portinha acanhada, depois de ler um desejo expresso, de que comandasse a cerimónia a três quilómetros de distância, agarrado à Bíblia e rezando sem récitas.
Estava quase tudo pronto! Fiquei feliz por ninguém falar, sem tentar explicar e emendar. Sem louvar, justificando coisas e mais recados sem importância.
O Joaquim aproximou-se, com a Maria nas costas, prestes a soluçar. Inclinou-se na caixa de madeira cinza, para segredar.
- Descansa primo! Eu não a deixo chorar.
O morto sentiu o sono a chegar. O morto…era eu!

quarta-feira, outubro 12, 2005

(...)

No dia seguinte regressei! Pertinho do portão, já sentia os botões a abrir.
O grito não era demais e ela era muito loura, com dedos finos e pedacitos de terra e jardim, que iam caindo.
Agora volto sempre, para descansar.

segunda-feira, outubro 10, 2005

O segundo casarão...

Os que lêem com carinho sentiram a falta que espero e desejei. Os outros nada viram! Não planeava um regresso com tal estória. Sem que reparasse percebi o entranhar da escrita, que agora me assusta na ausência de uma falta de técnica, que embala e de outro parece.
Arredado, concentrava-me noutros afazeres, de emprego e dedicação forçada, quando me atribuíram a mais estranha das tarefas. Na sexta-feira, ao final da tarde fui surpreendido por uma chefe envergonhada, de olhos que me iam pedir, para não ordenar. Para o mês que vem temos um evento desnecessário e triste, em que o não sei quantos milionésimo cliente recebe um gorduroso cheque como prenda de acto tão vulgar, que faria de qualquer modo, sem agradecimento ou camisola vestida, que despirá na primeira oportunidade. Ideia tonta veio mais de cima, empurrando a festança para um palacete de séculos atrás, rico em história e palco de contrato antigo, já relíquia.
As meninas senhoras, de horas atrás do brilho e das palavrinhas seleccionaram cinco, que devia visitar e fotografar, e até cheirar, para garantir uma alma ou outra, presente na maldita cerimónia. As senhoras meninas, que me arrastaram por todo o distrito, em ebulição de teclas e moradas antigas, descobriram mais duas, no extremo, a duas horas de trânsito e chuva. Descoberta descabida e que me desesperou, obrigando a Domingo com serão e frio.
Parti a seguir ao jantar, porque as visitas “tinham” de ser feitas já com noite cerrada, em busca da investigação, científica e imbecil, que aconselha a verificar iluminação e ambiente de breu, esperando falhas.
Os cinco iniciais esconderam palácios, revelando em vergonha velhos casarões a cair de podre, onde nem luz, nem electricidade, nem nada…
O seguinte cumpria a recente tradição, com uma estrada de pedra muito moderna, virando de súbito para lado algum, enquanto a morada revelava uma casinha sem grandeza e espanto. De volta e meia completa preparei o último caminho, que me levaria a casa, depois de breve passagem pela esperança, quase fumo.
A segunda morada era bastante perto e deixou-me mais tranquilo. Cheguei rapidamente a um portão pequeno e parcialmente destruído pelo tempo e uma avenida larga com rumo certo ao cimo de uma colina muito escura. Se ao menos fumasse!
O casarão parecia enorme, mesmo à distância e nem uma única luz ajudava a perceber o seu contorno. Era feito de borrões cinzentos que pareciam flutuar, descendo para as grandes árvores que o ladeavam, para que se fundissem…ou misturassem.
Ninguém me convenceria, às duas horas e catorze minutos da manhã, que aquele pudesse ser o local que abriria as portas ao tal evento. Por isso entrei!
Não rangi o portão por precaução e sabia que de nada adiantaria chamar. Fui andando porque o vento era agora mais fraco e a chuva passara, a caminho da cidade. Subindo em direcção à casa podia ver milhares de luzes, em casas e estradas, nos automóveis parados por onde deveriam rolar. Haviam muitas árvores de fruto! A luz não abundava, mas podia vê-los e nem precisava. O cheiro mostrava pêssegos maduros, talvez em demasia e que não demorariam a cair. Os limoeiros não pertenciam ali, porque roubavam aos outros o odor e impediam a calma.
Nos lados, muitos bancos em madeira molhada, exalando o descolar da tinta e alguma ferrugem. Sentei-me um pouco, sorrindo ao sentir a humidade, convidada de honra de um fato estúpido e de meia estação. Não valia a pena continuar.
Um segundo depois ouvi um estrondo colossal, seguindo do mais horrendo grito que possam imaginar, abafado pela chuva torrencial que recomeçara a cair. Gelei de medo.
O despertador do meu telemóvel disparou, por já serem duas e meia, e não chegaria a tempo…
Fiquei imóvel durante vinte minutos, que controlei a cada batida de coração. Parado em gelo e terror, sem conseguir raciocinar, com músculos paralisados que gritavam para que corresse, mas sem ajudarem. Sentia as lágrimas presas, ou misturadas com a água que caía do céu. Percebi que não conseguia ouvir.
Lembro-me de me virar para o casarão, em busca de auxílio. Do local que me provocava tal terror, esperava o fim do mesmo, embrulhado em simples causa.
Nessa altura recordei a estória do meu pai. Certa noite, ficara em igual situação, enfrentando uma silhueta de bruxa, dentro de um cemitério de aldeia. Não explica a coragem, por ter sido o medo que o empurrou, sentindo-o soprando nas costas. Andou devagar, tremendo dos pés à cabeça até ao muro branco, iluminado pela Lua cheia. Tocou então a parede rugosa, onde a bruxa se transformou em sombra real, de um cipreste que dançava ao sabor do vento.
Se voltasse as costas, contrariando o mesmo empurrão, veria a bruxa até à minha velhice. E não queremos envelhecer com tal companhia. Recomecei a caminhar.
O casarão era imponente, quando as sombras começavam a perder a disformidade, para que visse os seus limites. Perto da porta olhei para cima, para uma pequena varanda que espreitava por cima dos meus ombros. O puxador era pequeno e simples, sem gárgulas de bronze e pesados ferrolhos. Só uma chave, do seu lado direito, com uma argola em couro de onde pendiam duas tiras.
Retirei-a com um movimento brusco, ao mesmo tempo que comecei a correr com todas as forças que consegui reunir. Corri por cima das poças sem parar, sem largar a argola com cheiro a molhado, largando gotas nas minhas costas.
Cheguei ao carro sem respirar, ainda com o grito cravado na memória. Guardei a chave no bolso do casaco e parti, depressa…tropeçando na estrada.

Fui trabalhar de olheiras fundas. Acabei cedo o relatório das minhas visitas, com resultado morno e sem paixão. Nenhum dos palacetes servia o nosso propósito. Nenhum dos “seis”.

É quase meia-noite quando vos escrevo. A chave está pousada na mesa à minha frente e não consigo deixar de pensar no meu pai…e na bruxa.Não vale a pena adiar…tenho de ir, agora! De voltar…ao segundo casarão…