segunda-feira, setembro 26, 2005

De férias...

Não das normais! Mas de blogs, de Internet, de escrita, de pensamentos intensos, de sofrimentos por antecipação, de barrigas apertadas, de querer demais, de colos que não chegam…e mais demorarão se exagerar!
Lá para quarta, ou quinta ou sexta, volto a voar baixinho, de vento na face...no cabedal e no frio…que me aquece...

quinta-feira, setembro 15, 2005

O jantar...

Ao anoitecer, começo sempre a ver mal e o cansaço ajuda, no cinzento, que devagar se transforma em escuridão. O convite aparecera há apenas dois dias, arrastando-me para uma pequena vila centenária.
Algures perdido, num interior de bucólico romantismo, vivia um casal com uma estória peculiar. Faziam oitenta anos de casados! Naturalmente casaram novos, e a longevidade alcançada, tornara possível o acontecimento agora festejado. À excepção de um detalhe!
Na carta que lera na diagonal, aparecia um delicioso e estranho pormenor. O casal nunca discutia! Nunca, em oitenta anos de casados, tinha existido a mais pequena discussão. Tinha que investigar!
Cheguei ao hotel e estacionei a dois passos da entrada. Um empregado veio falar-me.
- Bom noite. Vem hospedar-se no hotel? Temos lugar na garagem e sempre fica mais perto do elevador.
Agradeci e voltei a entrar no carro, contrariado. Doía-me muito as costas e precisava de me esticar. O ar começava a estar fresco.
Caminhei, já atrasado, para o local em pedaço de papel. À entrada estava uma enorme faixa, com uma frase confusa – “Oitenta anos à vossa espera”.
Deviam ser centenas ou mais convidados enchendo a sala, de brancos e muitas cores. Sentei-me numa mesa com apenas três, a quem cumprimentei de forma cordial. Eram três raparigas de calças vermelhas, ainda muito novas e que não mais pararam de me observar.
Ao fundo, um pianista enchia o ar. Tinha uma enorme nódoa na camisola, que a contra gosto tentara eliminar. De repente parou, quando um homem pequeno e de cabelo grisalho, subiu para o púlpito exagerado. As raparigas de calças vermelhas ajudavam-me a seguir o enredo. Era o Lourenço, filho do casal de velhinhos, que os meus olhos não conseguiram encontrar.
- É com muita honra que me encontro entre vós, que não conheço e agora vejo. Os meus pais não puderam vir, por velhice e mais vergonha. Mas agradecem e abraçam, todos aqui presentes, para a sua união celebrar.
O homem pequeno parou e bebeu um pouco de água, para respirar. Olhou longamente para sala e continuou.
- Como sabem, eles não falam português. São imigrantes de uma Europa velha e de Oriente, mas com segredos de pronúncia semelhante. O que talvez não saibam… é que não vêem do mesmo país! Nem tão pouco partilham o mesmo dialecto. Meus amigos! Eles não falam a mesma língua!
Perante o espanto e interrogação dos convidados, o bom filho preparou-se para nos abandonar.
Voltou porém, por um momento, só para murmurar.

- Comunicam com a pele…

sábado, setembro 03, 2005

A velha...

Já era muito tarde, quando me perdi. Uma última opção, feita ao acaso, não dera resultado. A teimosia ainda me arrastou por meia-hora, até que percebesse o fim da estrada.
Ao tentar voltar para trás vi uma pequena luz ao fundo, de uma casinha pequena. Quase disparei a imaginação, para antes sorrir e deixá-la viver na mesma, mas devagar. Comecei a caminhar!
A casa não ficava longe e a noite estava linda. Não haviam estrelas, nem Lua, nem nevoeiro, mas continuei.
Era maior do que parecia à distância, muito antiga e demasiado escura. Tinha um pequeno alpendre com uma cadeira de baloiço em madeira e uma teia de aranha. O cenário de terror era completo, empurrado colina abaixo por um estereótipo sem graça. Trocei da cena e toquei à campainha.
O som era baixinho e nada assustador. Logo em seguida ouvi uma voz, perguntando.
- Quem é?
Não respondi porque a porta se abriu rapidamente, para uma velha muito alta, tão feia, tão seca e com um cabelo cinzento brutalmente apanhado no ombro direito. Esperei uma voz agora doce, por estar mais perto e que rompesse com a normalidade. Mas não! Começou logo a falar, engasgando-se num tom medonho que custava a perceber, enquanto me desviava da simpatia e convites para entrar. Que se dane, pensei! Vou embora no próximo segundo, quando a velha parar para respirar.
Mas não consegui, porque a mão de manchas avermelhadas apertou, com a força esperada, puxando-me para dentro.
- Sente-se meu filho, que lhe vou arranjar de comer. Disse antes de desaparecer no corredor.
Fiquei sem reacção. Não conseguia sequer imaginar o que poderia trazer-me para engolir. Estava numa sala horrível, acompanhado de uma inarrável mistura de animais embalsamados, fotografias antigas, livros de culinária e um enorme conjunto de brinquedos, que pareciam ser de gato, tema aliás presente em quase toda a divisão.
Ao centro estava um suporte de livros, em madeira trabalhada, como os que vemos em muitas igrejas. Apesar de sujo e empoeirado, parecia valioso e em cima tinha um livro com uma camada de pó que escondia parcialmente o título, gravado em relevo na capa de couro escuro. Soprar era a única e impossível alternativa que me restava. Lembro em constância a asma que me acompanha, e que não resistiria aquela armadilha. Sentei-me e esperei pela velha.
Ela apareceu pouco depois com um tabuleiro, onde colocara alguns biscoitos, pão e um copo com água. O pão estava um pouco duro, mas os biscoitos eram deliciosos, lembrando-me algo distante e que não identifiquei. A água, muito fresca, acalmou-me e ajudou a que pudesse observar. A velha continuava feia e não condizia com a simpatia tentada. Ficámos uns minutos a olhar um para o outro. Até que ela perguntou.
- Está a achar tudo isto horrível não é?
- Não, minha senhora! Os biscoitos são até muito….
Calei-me de imediato e bebi um pouco de água.
- Estou! Para dizer a verdade, estou. Todo este dia foi um perfeito desastre. E não me parece que vá melhorar.
Sem que quisesse, continuei a falar.
- Aliás toda a semana devo esquecer! Não sei o que vim fazer a um fim de mundo que não conheço e onde não posso encontrar respostas. Parti para me acalmar e termino numa casa suja e feia, acompanhado por uma velha e biscoitos, que provavelmente estão envenenados ou são feitos com entranhas de gato. O livro com pó deve conter magias e feitiços terríveis, ou a lista dos que aqui morreram por um copo de água e algum abrigo. Respirei um pouco antes de terminar, mas sem olhar directamente para a anfitriã.
- E sabe que mais? Não me importo! Se quiser matar-me, não lhe guardarei rancor!
Ela não respondeu, nem se zangou…nem sorriu docemente, como quem vai fazer-me uma festa ou soprar um beijo. Mas levantou-se. Desapareceu de novo na escuridão, murmurando alguma coisa entre dentes. Levantei-me preparado para sair, irritado comigo, com a velha pouco sábia, com tudo de que me pudesse lembrar.
Ouvia-a voltar com passos lentos, carregando algo para oferecer. Nas mãos trazia uma embalagem de biscoitos, que afinal tinham marca e pouco mistério.
- Tome! Leve para a viagem. Desculpe por não serem caseiros, mas não tive tempo para os preparar.
Agradeci e voltei-me, com um boa noite envergonhado. Ela falou de novo.
- Quanto ao resto…quanto ao resto, nada tenho para contar. Porque não posso, porque não sei, porque estou velha e já me cansei. O tempo já não me acompanha e fiquei só, para pensar…
Senti a voz tremer-lhe um pouco, estendendo a mão que apertei. A pele era tão macia…

quinta-feira, setembro 01, 2005

Perfumes...

A memória de um odor traz-nos um qualquer sentir. Três cidades preencheram esse espaço, despertando alegria enquanto o seu cheiro me soprava para entrar.
Nas crianças, a mesma harmonia, com lembranças velhas de décadas e bebé dormindo nos braços.
E mulheres, ainda raparigas, inesquecíveis fragrâncias que ficarão, mesmo que dormindo. Até um dia!
Nessa metade de segundo recordamos e percebemos bem…ao receber um cheiro antigo. Não o senti e não passou por mim. Apenas o imaginei, misturado em tarde quente, parecida com a original.
Difícil de tanta delícia, é quando não sabemos, mas invade.
Senti-o chegando a casa, na palma de mão direita. Era um perfume! De mulher mais velha, em beleza segura e meiga, talvez forçada por minha vontade. Podia mesmo ser?
Refiz os toques das últimas horas, para poder explicar…mas ela não existia.
Agora desapareceu, para que desista de o procurar, sem motivo e outra estória.
Talvez não seja importante…