quarta-feira, agosto 31, 2005

O monge...

Ao procurar a origem do meu nome, fiquei a pensar. Encontrei-a nos medonhos diplomas, ainda longe do kitche e em profundo mau gosto de forma. A explicação coincidia, incrivelmente, até ao mais pequenino pormenor. Somos muito diferentes, os que se chamam assim, pelo que o texto devia referir-se apenas a mim…
Estava em plena mistura de quem luta pela consagração de um nome e o arrepio, este em desconforto, de me sentir na multidão. E fui à procura!
Num dicionário de latim estava a resposta. O tal diploma dizia a verdade, confirmando a origem, mas ocultando as outras explicações. Reparei porém, no que se escrevia quase no final. Avançava outro significado para a palavra, menos conhecida, mas presente na tradução – monge!!
O meu nome significa igualmente, monge! Monge?
Agora estava baralhado, com a mente em estranheza. Que tenho eu a ver com um monge?
Assumi a tradução com menor importância, centrando-me no principal significado, mais próximo e que se ajusta com simplicidade de luva.
Chegaram depois os duendes, felizes e misteriosos. Não era precisa a imagem, mas procurei-a ao navegar.
O meu caminho levou-me à figura que acompanha a minha escrita. Chama-se Frailecillo, sem que perceba porquê. Um pequeno e estranho duende…vestido de monge…

Só hoje fiz a associação de tudo…que estranho. Mas sinto-me calmo…

sábado, agosto 27, 2005

Começa a ser estranho...

Não escolhi a minha cama ou pelo menos não o fiz da forma habitual, correndo quilómetros em lojas demasiado cheias.
A Carla ia viver para Paris e não sabia o que lhe fazer. Eu vivia numa casa alugada, com uma mobília que não podia trocar. Mesmo assim pareceu-me boa ideia comprar-lhe a cama. E assim foi, mas com alguma luta. O prédio não tinha elevador e é difícil montar uma estratégia de transporte quando se tem a barriga a doer de tanto rir.
Mas já noite fechada, conseguimos! Ficou guardada quase um ano na cave dos meus avós, esperando a sua vez.
Um dia, conquistei as chaves do meu abrigo e lá fui buscá-la outra vez. Mais uma aventura apareceu, porque por aqui também não existem elevadores e a opção de desmontar a estrutura só foi assumida em último recurso. Afinal até uma cama tem a sua dignidade.
Finalmente repousou no quarto eleito. Ela é grande, bastante grande, para quem dorme sozinho. Mas se o fizer na diagonal, preencho o espaço e estico-me em várias direcções.
Assim foi até este Verão! Com a chegada do calor, passei a dormir destapado, sem lençóis limitando o meu sono e sonhos. No meu quarto quase não há luz, durante a noite. Apenas um pequenino ponto amarelo, de um monitor que raramente uso. Enquanto durmo, não percebendo porquê, passei a rodar sobre mim, acordando a meio da noite, sem saber para que lado me virei. É um autêntico desafio perceber onde estou, o que procuro ou em que lado está a pequena luz amarela que de pouco me serve.
Tudo termina, na maior parte dos casos, quando consigo detectar a cabeceira, único elemento diferenciador do leito que me confunde. Um dia cheguei mesmo a cair parcialmente, dando por mim de bruços no chão, tentando não rir da minha figura.
Apesar de tudo continua a ser muito confortável, a minha cama. Apenas não sei o que procuro a meio da noite. Talvez ajude se colocar uma daquelas luzes de presença, que as crianças tanto adoram. Será boa companhia!

segunda-feira, agosto 22, 2005

A descoberta...

Sexta-feira

Jantei comigo e com a calma da minha noite preferida.
Rumei a casa familiar para ver um sorriso de criança e espreitar um jogo tristonho.
Voltei e adormeci no sofá. Não tive forças para abraçar um livro.

Sábado

De tarde patinei em linha e algumas curvas. Caí e esfolei o braço direito, exactamente no mesmo local onde uma ferida igual estava a finalizar o seu processo de cura. Devemos rir de tamanho azar.
À noite atravessei o rio, para conversar e sentir amizade.

Domingo

Mergulhei na água fria, sem vontade. Esqueci-me que a praia já terminara. Regressei depressa a casa.

Dei por mim a pensar…se a vida não tem mais para dar!?
Dou por mim a responder…talvez esteja na minha mão pedi-lo!?

Compreendi então o meu erro. E continuarei a dar!
Não pela recompensa...mas porque é o que faço!

sexta-feira, agosto 19, 2005

O colo...

Há dias em que acordamos perto de um lugar distante. Em que trocávamos um tesouro com jóias às pintinhas, por um colo amigo e tranquilo.

Há dias em que ficávamos horas a respirar o sono de outros, oferecendo quase nada para tanto receber…

Hoje é um desses dias…

quarta-feira, agosto 17, 2005

O rapaz que saltava...

De novo uma notícia estranha! Ler jornais e revistas já gastos, leva-nos a um mundo maravilhoso e pouco normal, mas de delícias a que não resisto. Na cave dos meus avós, imaginada e sentida com um antigo sótão, fiz a descoberta.
Era um velho conjunto de revistas com uma particularidade interessante. Apesar de serem claramente números da mesma edição, todas tinham um nome diferente. Da número dois, à trinta e cinco, empilhavam-se as mais diferentes palavras formando um título, de resto igual na forma e nas cores. Maravilhas, Profecias, Cozeduras, ou Festivais, eram alguns dos que ainda recordo e que nunca consegui entender bem.
Deste golpe de publicidade avançado para a época, lembro uma com emoção, para que agora partilhe o seu conteúdo. Chamava-se A Competição e entrando em suas páginas descobri um único artigo.
Contava em pormenor uma competição antiga que tinha lugar numa aldeia do centro do país. A ideia era simples. Homens de várias idades competiam pelo maior salto. Bom, apesar de assim ser chamado, na realidade tratava-se mais de uma queda. Os organizadores preferiam dizer que saltavam, pela nobreza da expressão, em oposição ao que realmente acontecia. Na aldeia existia uma enorme árvore com ramos que nasciam do tronco principal em perfeitas linhas horizontais. O mais baixo tinha cerca de cinco metros e lá em cima, a quase 30 metros ficava o topo, com um único ramo magricelas, marcado com um farrapo encarnado.
Nada mais simples. Quem caísse, ou melhor, saltasse do ramo mais alto, era o vencedor!
A revista relatava décadas de competição, com as mais incríveis estórias envoltas numa mistura de crenças, lendas e alguns factos documentados.
Muitos dos que tentavam, partiam uma ou ambas as pernas, assim como todo e qualquer osso registado na anatomia. Obriguei-me a saltar algumas páginas com descrições e até fotografias das mais emblemáticas lesões que os saltadores haviam sofrido. Um deles, de nome Joaquim era lendário pelos seus recordes, de saltos e de fracturas. Já com cinquenta anos, contava com mais de 20 fracturas em cada perna e um sem número de costelas partidas. Nos braços apenas uma, quando um vento inesperado fez com que caísse desamparado em cima de um muro. Os aldeões juravam ter ouvido um médico que o tratou várias vezes, dizer que os seus ossos haviam sido tantas vezes partidos, que se formara uma camada de cálcio dupla, muito resistente e quase inquebrável. Com efeito, nos últimos anos Joaquim era o vencedor incontestável da competição, gerindo os confrontos com homens mais novos e aterrorizados. De menor importância eram os quase dez centímetros que faltavam na sua atarracada estrutura, consequência de um progressivo esmagamento dos discos vertebrais.
Algumas páginas tinham sido arrancadas da revista, que voltava ao artigo solitário já em plena competição, num ano distante, em pleno mês de Agosto.
A ausência de regras era total e o objectivo reduzido ao maior salto. O evento durava um único dia, de sol a sol e enquanto aparecesse alguém a desafiar o campeão. Tinha sido um dia calmo e faltava pouco para o seu fim. Joaquim vencia com facilidade, apenas necessitando de saltar uns modestos dez metros. O seu último oponente aterrara de costas, riscando vários nomes de saltadores inscritos, transformados em desistentes.
- O vento hoje veio com o Joaquim! Protestavam alguns, justificando o recente recuar, mas ainda de peito inchado.
Até que de repente apareceu um rapaz! Inscreveu-se junto do júri, que de nada servia, a não ser para esta função. Uma vez que todos os outros tinham desistido, avançou para junto da árvore. Era muito baixinho e coxeava ligeiramente, mas de resto era até bem parecido, vestindo um fato nada apropriado à ocasião e de cabelo muito bem penteado.
Joaquim aproximou-se, desejando-lhe as maiores felicidades, que na verdade consistiam em ver o adversário esborrachado a seus pés. A competição atraía um enorme número de espectadores e apostadores, convertendo em lucro e prémio chorudo o entusiasmo da multidão. O campeão era um homem muito rico, à custa das quedas, proporcionalmente inversas ao saldo da sua conta bancária.
Com ar sério que não escondia troça, perguntou?
- De que altura vai saltar?
O rapaz respondeu com um sorriso.
- A quantos metros está aquele lá no alto, o do pano encarnado?
O espanto de Joaquim foi absorvido por um suspiro colectivo que juntava ansiedade, ao mais puro dos horrores.
Sem esperar a resposta que não apareceria, o rapaz subiu para o guindaste que o levaria ao cimo da árvore. Noutros tempos tinham que subir a pulso, mas um generoso patrocinador oferecera os seus serviços.
O homem que operava a máquina tremia tanto que alguns temeram pelo fim da contenda, ainda em rota ascendente.
Chegado ao cimo, parou suavemente e o rapaz subiu para o último ramo.
Neste momento fechei a revista, apertando-a no colo. Durante momentos recolhi forças para continuar a ler o que agora me atormentava, prevendo um fim demasiado trágico.
Lentamente voltei a abrir a página permitindo-me olhar para frase seguinte.
«…e então o rapaz sentou-se no ramo, olhando para baixo».
Fechei de novo as páginas, agora já assustado. Por um segundo ansiei, até não mais suportar. Levantei-me de repente e juntei a revista às restantes, ordenadas cronologicamente. Reparei então que era a penúltima do monte empoeirado.
Ao sair ainda consegui ler o título do número seguinte.

“O rapaz que saltava”.

terça-feira, agosto 16, 2005

A tortura...

O calor não abrandou! Mas pelo menos a noite já tinha chegado. Seria auxílio precioso para que não mais transpirasse.
O perfume era quase tóxico. Quem me dera que fosse embora.
Ao sair reparei no fresco que se despedia da penumbra. Continuava nervoso e sem certezas. De nó que acompanha o estômago e um andar inventado à pouco tempo, entrei no carro alugado e esperei um pouco.
Nem era caro, para um desportivo negro e elegante. Hesitei nos dois lugares. Talvez fosse demasiado óbvio, mas acabei por ceder ao vendedor, empenhado em me ajudar.
Liguei a música e cerrei os lábios. Era só uma noite.
A ausência de capota era reconhecida como um erro, mas nada tinha a ver com o resto. Era genuína e permitia que respirasse. Acelerei como louco, avançando sem pensar.
Cheguei sem subtileza a uma rua muito iluminada. A enorme quantidade de pessoas obrigou-me a circular muito devagar, entre peles bronzeadas e odores confusos. Faltava pouco para que desaparecesse. Morreria à distância de uma camisola de marca, se tivesse escolhido o vermelho como transporte. Tudo estava tão errado.
Pensei na véspera. Nas horas passadas a conversar com as teclas. Ela tinha aparecido com um suave bater de porta ainda virtual. Recusou-se a partilhar o nome e passámos muito tempo a falar de estranhas músicas tocadas por grupos desconhecidos. A todos disse que sim. Sobre todos lancei comentários oportunos, enquanto procurava os seguintes plágios para opinião forçada, que jamais poderia reconhecer como minha.
Combinámos um encontro logo para a noite seguinte, enamorados pelas melodias que partilhávamos num estranho top imaginado. E era tudo mentira! Principalmente a fortuna gasta em melodias que agora me atormentavam, espalhando comentários à minha volta em quem me reconhecia como um igual. Era tão complicado o código de expressões e ginástica de mãos e dedos, que optei por pequenos sorrisos e um leve acenar de cabeça, para variar, quando os músculos da face começavam a doer.
Cheguei finalmente ao local escolhido. Era uma esquina em que ainda não acreditava e as pistas que procurava, escassas e assustadoras. Dissera que esperaria por mim num carro cinzento inconfundível, que ocuparia de certeza lugar na única esquina das redondezas. A arquitectura pouco convencional do lugar, transformou em fácil demanda a identificação do sitio e o que vi em seguida, confirmou o mergulho para a dor.
Estacionada estava uma carrinha cinzenta muito antiga e a cair de podre. Também não tinha capota, mas essa parecia ter sido arrancada por um obstáculo em considerável erro de cálculo. Lá dentro…ninguém. Parei o carro e avancei. Já não tinha nada a perder e fazia-me bem deixar de ouvir aquela música que não escolhera.
Ao perto, era uma visão ainda mais incrível. Não tinha agora dúvidas que o tejadilho havia sido serrado, ou cortado, transformando uma antiga carrinha suburbana, no descapotável mais medonho que alguma vez vira. Por momentos achei que ia começar a chorar, quando senti uma mão nas minhas costas.
- O senhor não está a pensar em assaltar-me o carro pois não?
Voltei-me para encontrá-la, obrigando aquela lágrima a regressar ao seu posto.
Tinha o cabelo muito comprido, mas apanhado de forma confusa num emaranhado de ganchos e fitas de várias cores. A pele não estava pintada e não pude reparar na roupa, antes que me dissesse.
- Vamos? Onde tens o carro?
Devolvendo três beijos consegui articular?
- Não preferes ir no teu?
Ela sorriu enquanto me dava a mão de forma carinhosa, sem responder.
O sorriso foi dando lugar a um silencio estranho enquanto nos aproximávamos do carro, agora ainda mais desajustado que podia imaginar, e que só um raro momento de demência justificaria.
Ela só conseguiu murmurar.

– Tu deves estar a brincar. Esta coisa é tua?
Não respondi. Se o fizesse seria em descontrolo total e maior vergonha. Abri as portas e convidei-a a entrar.
O simples acto de ligar o motor era um pesadelo. Empurrado por um grupo de cavalos enraivecidos, parecia querer levantar voo.
- Sim, senhor! Achas que isto tem potência suficiente?
Voltei a não responder, por mais vergonha e pelo barulho, que me deixou dúvidas se estaria a falar do carro.
Já em andamento, sabia ter chegado a altura de maior sofrimento. Na mudança correcta e sem acelerar em demasia, o ruído era bastante menor e convidava ao momento que me aterrorizava. Esperando, estavam as estranhas músicas que comprara e cujos nomes levei um dia inteiro a tentar decorar. Agora nada mais podia fazer. Passei os dedos pela consola do rádio adiando por segundos o inevitável. Então parei! Rezei em silêncio e escolhi as únicas verdadeiramente minhas e que tinha trazido por superstição. Era uma colectânea de músicas antigas, na sua maioria retiradas de filmes velhinhos e já esquecidos. Assim que os primeiros acordes se libertaram, voltei a respirar, sentido pela primeira vez o vento a passar baixinho. Sem temer olhei para o lado. No meio de um sorriso enorme pequenos versos saíram a cantarolar.
- És mesmo tolo. Espero que só tenhas pago um dia de aluguer!
- Obrigaram-me a pagar pelo fim-de-semana inteiro. Respondi baixinho.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
- Pelo menos não gastaste dinheiro naquelas músicas esquisitas de que me falaste ontem.

O riso chegou sem aviso e a sua mão não mais me deixou.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Tantas cores...

Cheguei muito cedo. Mas tinha a certeza. Acho que estava a tremer um pouco, do muito nervosismo, misturado com sonho. Perguntaram-me se era a primeira vez. Não basta assumir a pele como destino. Havia que esperar a dor. Se foi intensa, perdi-a nas horas e mais meia. A música levou-me bem dentro de um local que desconhecia…e suspirei pelas cores…Eram elas as mais fortes.

Ficará para sempre comigo, agora que a reencontrei.

A motoreta, o atrelado, a abóbora e o fardo de palha…

Andar à deriva é tão diferente. E podemos continuar sem preocupações…
Derretendo a memória até que fique tão fina. Que nos deixe passar…espreitar e rir…
Ontem foi um desses dias. Em que acordamos e os olhinhos não querem fechar, já sabendo que não o farão.
Ficamos a percorrer estradas que não são de terra. Ficamos a pensar na ternura e outras letras menos brilhantes. É incrivelmente belo, diria que feito de momentos, em que já só sai uma raiva tão calma e sem nexo. Depois pensamos com menos clareza, pois o cansaço não ajuda, apesar do que dizem. Lembramo-nos de que nos torce. Do que nos faz sofrer. Arriscamos uma lágrima que não chega a sair, porque percebemos que é relativa.

Era confuso, mas de gigante…poder abandonar tremores demasiado complexos. E poder saltar, mas baixinho…perante o que não é tão forte e só vive da nossa teimosia em continuar.

Depois, ainda de olhos abertos, olhei para fora de mim. Passava um ser estranho. Um homem conduzia uma motoreta com um atrelado. Dentro trazia uma abóbora e um fardo de palha.

Parecia feliz!!

sábado, agosto 06, 2005

A tatuagem perdida...

Perdi a minha tatuagem. Nem vale a pena chorar ou pensar que foi um sonho. Está perdida para sempre. Lembro-me de ver o amarelo a sair de repente. O verde resistiu um pouco mais, preso a um vermelho teimoso. Seguraram-se com raiva ao contorno que conquistou os anos.
Deve ter sido quando me voltei de repente. Nunca mudaria de direcção se não te olhasse, se não te visse em sombras.
Que posso fazer…?

terça-feira, agosto 02, 2005

Mestre...

Ao mestre tudo devo,
recordando o que ainda vou ler.

Dançando em palavras,
sorrindo com um tolo.

Recuperei a alegria de pensar.
De afastar cortinas e respirar.

O pó já nem existe,
nem me obriga a esperar.

Pequenas letras podem nascer,

para que corra no impossível.

O segredo...

Já esqueci…E até foi fácil. É sempre, quando não prendemos.
E mesmo perante o que já não lembro…fico a pensar…
Não deve existir obrigação. Até podia fingir, não dizendo a verdade.
Só ao revelar o olhar precisamos ter mais cuidado…

E agora já me deixo guiar, sempre pelo som e pelo cheiro imaginado.

Mas a confusão volta à nossa porta. É como um velho sem dentes…
Capaz de nos arrancar mais que uma verdade.
Um daqueles que faz chorar pepitas. Que não quer ir embora.
Haveria de continuar em tanta calma, se alguém deixasse.

E brilhava! Inspirado pela falta. Atirado com mais doçura.

É pura tolice enganar. Ao senti-lo devemos parar.
Não é tarefa de ciência e pouca arte. Por tal precisamos descansar.
Senti-la sair devagarinho. Não querer forçar o que se entreabre.E é tão verdade que de novo chegou…visitando-me em longos abraços…

O peito...

O peito deixa-me dúvidas
e a curva vai dobrando o espírito.

Faz-me hesitar em sair,
tocando para que pare de sofrer.

Porque abres só para mim?
Porque me sonhas e abraças?

Envio a pele como a um moinho,
Acabo por ver e nem sentir.

E termino trocando o caminho.

Junto a ti...

Até podia escrever.
Até esperava pelo sono e por mais torpor.
Por ter medo e não gozar,

Para lembrar não podia ver,
nem recordar o contorno da cor.

Os braços senti-os logo, para os saber no final de dia.
Ao perfume fico e devo memória.
Tenho que ficar mais perto.

A lua torta...

Por tradição pude vê-la espreitando pela pequena janela. Estava torta. A Lua tinha nascido tão torta naquela noite mal começada. Porque seria? Pensei na resposta e na sua intranquilidade. Devo esperar o pior.
Depois sai para a rua, para caminhar e pensar.
Continuava lá no alto. Indelicadamente inclinada, apagando as sombras que muito se confundem com um melancólica expressão.
Nessa altura vi, descendo a rua estreita, uma bicicleta pequena, mas sem criança. Era cor-de-rosa com flores e uma campainha azul claro. Consegui segurá-la quando passou por mim. Fiquei parado, à espera de uma rapariga de totós encarnados a correr pelo seu tesouro, seguida por uma mãe assustada e quase zangada. Com sorte seria jovem, esperando um seu igual, ao dobrar de uma esquina como esta.
Mas não! Quem apareceu foi um homem. Alto e bem vestido, em passo acelerado mas com tranquilidade aparente. Agradeceu-me e desculpou-se várias vezes. Ponderou a retribuição material e largou a ideia percebendo os sinais. Despediu-se com educação e partiu.
Olhou só uma vez para trás, acenando em serenidade. E eu fiquei ali. Não havia mais nada? Nem magia, nem tragédia ou qualquer curioso destino?
A normalidade doía-me como nunca. E enquanto afastava a vergonha da banalidade, ouvi um estrondo seguido se um estilhaçar de vidros. Olhei para cima e do primeiro andar do prédio onde o homem entrara, chegou a minha resposta. A bicicleta cor-de-rosa voava em direcção ao chão empedrado, depois de ter atravessado uma janela. Caiu acompanhada de milhares de vidros, a poucos metros de onde estava. Não sabia o que fazer. Apesar do barulho não havia ninguém à vista na rua e as janelas dos prédios vizinhos continuavam caladas.
Esperei uns momentos e comecei a caminhar, para logo parar. De novo o homem, que agora parecia ainda mais alto. Desta vez não estava tão tranquilo. Dirigiu-se a mim com um ar decidido mas ainda educado. Optou agora por ignorar os sinais e estendeu-me a mão com um punhado de notas. Guardei-as sem agradecer e fiquei em silêncio. Ele agarrou no que restava da bicicleta e voltou a entrar.
Liguei o telemóvel e marquei três números que não utilizaria, enquanto começava a caminhar. A porta do prédio, entreaberta, convidava-me a continuar. Aceitei sem hesitar e subi as escadas. No primeiro andar havia duas portas, mas uma delas estava em muito mau estado e com dezenas de cartas lutando por entrar no pouco espaço que ainda havia perto do chão. O imaginário obrigou-me a decidir pela opção mais óbvia e voltei-me para a outra porta.
Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado, esperando. Antes que a coragem voltasse, a porta abriu-se e o homem apareceu, ainda com a bicicleta e sem o espanto comum.
Colocou o metal retorcido no corredor, sorriu e convidou-me a entrar.
À parte do enorme estrago na janela, a casa estava arrumada e muito bem decorada. Tinha uma enorme sala com muitas portas que acompanhavam um circulo tosco de paredes com quadros coloridos. Sentámo-nos num sofá que ficava ao centro e ofereceu-me uma bebida. A recusa precipitou a conversa. Tinha quarenta e cinco anos e estava divorciado há três meses. A mulher tinha partido, levando a filha de ambos, única linha que mantinha com a paz há muito perdida. Em pleno tribunal agredira o seu próprio advogado, escapando por pouco à prisão, mas perdendo tudo o resto. A acusação de comportamento instável e potencialmente violento, foi facilmente aceite e o resto desmoronou.
Admitiu com ironia que bicicletas voando por janelas, não ajudam.
Perante a evidente encruzilhada, restava-me perguntar.
- Reparou que a Lua está torta?
Ele sorriu e confessou só para mim.
- Está assim desde que ela saiu. Entortou naquele preciso momento. Mas quase ninguém reparou. E mesmo você deve ter pensado que era por sua causa.
Tentei não corar e voltei às perguntas.
- Diga-me! Antes do tribunal, alguma vez tinha sido violento?
- Claro que não. Sabe bem que não.
A pergunta não tinha sentido. Sabia-o mesmo antes de a fazer. Fiquei mais uns minutos, sem algo acrescentar.
Desejei sorte sem convicção e saí.
Quando cheguei à rua olhei para cima. A Lua estava agora encoberta por uma nuvem. Sentei-me na entrada e esperei que passasse. Logo me levantei, com o satélite ainda tapado.Não precisei de a ver. Ainda estava torta. E nada podia fazer.

O sonho...

Não me lembro do que sonhei. Repeti o sonho três vezes e de nada serviu. Apenas ajudou a uma noite mal dormida. Tento agora, mas ébano roubado não permite.
E tinha a certeza de conseguir. Porque era estória tão brilhante. Capaz de me acordar…e fazer perder um equilíbrio, mas só um.

segunda-feira, agosto 01, 2005

A inspiração...

A inspiração é na verdade algo que não controlamos e para se escrever dificilmente se toma essa decisão de forma consciente e sem receio de falhar…

Mas os pedidos, quando sinceros e meigos, obrigam a atravessar corajosamente quaisquer barreiras ou negras florestas que teimam em aprisionar velhas magias.

É fácil perceber a atracção que feitiços e lendas representam para o meu dia, muitas vezes desviando demasiado a atenção e provocando um doce esquecimento de um Mundo real, enfadonho e com beleza muito inferior.
Desde sempre desejei ser um aventureiro, acompanhado de uma espada reluzente e muita coragem para combater dragões, ou exércitos de gigantes com armaduras negras e enormes elmos em forma de caveira, semelhantes aos seus espíritos no interior.
Sonhava poder adormecer no início da noite e aparecer encantado noutra realidade, onde podia correr durante horas em busca de aventuras e tremer ao sentir cada gota de suor deixar o meu corpo, marcando o caminho como se de pózinhos mágicos se tratassem…

São estas crenças, maiores do que sonhos, que me ajudam a sorrir, embora por vezes com dificuldade em regressar à realidade que me assusta, e onde os exércitos estão mais escondidos ou camuflados.

E então aparece a música…

Simples notas permitem que os músculos relaxem e são um segredo milenar tantas vezes escondido, por representarem o mistério que tantos procuram.
Podemos então equilibramo-nos entre os dois Mundos, encontrando um feiticeiro no meio de uma multidão apressada, ou no trânsito de fim de dia.

Mas mais importante, nos deixam reconhecer a nossa princesa, presa não em torres que passam as nuvens, mas simplesmente por entre véus que escondem a sua identidade.
Podemos assim tocar a sua pele e senti-la tremer ao descobrir um olhar que conheceu em sonhos e encantamentos impossíveis de evitar.Quando finalmente se unem mãos delicadas e lábios rosa se encontram à distância de um beijo, tudo em redor fica parado, os dois Mundos harmoniosamente se juntam e de olhos fechados, podemos ouvir cada batida de um só coração.