sábado, dezembro 31, 2005

Uma viagem (cont.)...

Passado um pouco, o canguru Kikas, entrou numa pequena floresta. O dia estava quente e ele parou para descansar.
De repente apareceu uma raposa à sua frente.
- Olá senhor canguru.
Era a raposa Manhosa!
O Kikas respondeu meio desconfiado.
- Bom dia senhora raposa.
A raposa era mais pequena que ele, e não conseguiria fazer-lhe mal. Mas era melhor ter atenção, porque são bichos muito matreiros.
- Então, onde é que o senhor vai?
- Eu ando em viagem pelo país, mas agora estou a descansar um pouco. Disse o canguru.
A raposa Manhosa suspirou.
- Faz muito bem. Está muito calor.
Depois perguntou.
- Olhe lá! Não quer ir beber uma água fresquinha?
O Kikas desconfiou.
- Mas aqui não há água.
- Aqui não há, mas em minha casa tenho muita e está bem fria.
Respondeu a Manhosa a rir.
O Kikas pensou um pouco e respondeu.
- Eu preciso só de fazer umas coisas e depois vou ter consigo. Diga-me onde é a sua casa e vou lá ter.
A raposa explicou-lhe onde vivia e foi-se embora a cantar. O que ela queria era enganar o canguru e foi a correr para casa, onde estavam os seus irmãos. Viviam todos numa árvore muito grande, com uma porta em madeira pintada de amarelo e com uma argola dourada. Quando chegou começou a gritar.
- Manos, já temos almoço. Enganei um canguru que deve estar mesmo a chegar.
Os irmãos esfregaram as mãos de contentes e prepararam-se para almoçar.
Mas o que eles não sabiam era que o canguru Kikas não confiava na raposa Manhosa. Quando ela se foi embora voltou para trás para ir ter com o crocodilo. Encontrou-o ainda com o tronco entalado na boca, que tentava soltar abanando a cabeça de um lado para o outro. Quando o viu disse.
- Que viste cá fazer outra vez? Vens gozar comigo?
O Kikas respondeu.
- Por acaso até venho ajudar. Sei como podes tirar esse tronco da boca, mas só te digo se prometeres que não voltas a mentir.
- Eu prometo, eu prometo. Repetiu o crocodilo.
- Ouve-me bem. Depois daquele monte vais encontrar uma floresta. Vai sempre pelo caminho das pedrinhas brancas até encontrares uma árvore com a porta amarela. Essa porta tem uma argola e podes prender lá o tronco para depois puxar. Vais ver que se solta num instante.
O crocodilo agradeceu e partiu a correr à procura da árvore. Quando a viu, ficou tão contente que começou a chorar e foi até ao pé da porta amarela. Entalou com cuidado o tronco na argola dourada e começou a puxar com força.
Nessa altura a raposa Manhosa e os irmãos começaram a ouvir um barulho na porta e pensaram que era o Kikas.
- Ali vem o nosso almoço. Disse a Manhosa. Vamos lá buscá-lo.
As raposas puxaram a porta, mas não a conseguiram abrir.
- Parece que a porta está presa. Disse um dos irmãos.
- Puxem com força! Respondeu a Manhosa.
Então, o tronco soltou-se da boca do crocodilo e a porta abriu-se de repente. As raposas viram aquela boca enorme e cheia de dentes na sua frente e começaram a gritar muito assustadas.
- Ai que o crocodilo nos vai comer. Fujam todos. Gritava a raposa Manhosa.
Começaram todos a fugir e a tropeçar uns nos outros. Escondido atrás de uma grande pedra, o Kikas tinha estado a ver tudo e ria tanto que já lhe doía a barriga. Agora podia seguir viagem. Que dia cheio de aventuras!

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Uma viagem...

Pai, contas-me uma estória?

Era uma vez um canguru, chamado Kikas. Ele vivia com os irmãos e os pais, muito longe, na Austrália e desde pequenino tinha um sonho. Queria conhecer o seu país.
Como a Austrália é muito grande teve de preparar a viagem com cuidado para que nada faltasse. A mãe ficou um pouco preocupada e arranjou-lhe uma bolsinha com comida, para que não tivesse fome. O canguru despediu-se da família e partiu à aventura!
Ao fim de caminhar durante umas horas encontrou um rio. O Kikas não sabia nadar e começou à procura de um lugar com pouca água para poder atravessar. Alguns metros à frente havia uma passagem. Quando se preparava para avançar, Kikas parou de repente. Estava um crocodilo dentro do rio! Enquanto subia para uma árvore, ouviu-o dizer.
- Olá senhor canguru. Então o que faz por estes lados?
O Kikas estava um pouco assustado, mas respondeu.
- Eu…eu ando em viagem.
- E faz muito bem. Mas não precisa de passar o rio? Perguntou o crocodilo.
- Não, não! Respondeu o kikas. – Eu estou só aqui a descansar.
O crocodilo riu-se um pouco e falou outra vez.
- Está com medo de mim, não é?
- Olhe, para dizer a verdade, tenho medo que me coma quando atravessar o rio. Disse o Kikas.
- Pois! Eu percebi. Mas não se preocupe que não tenho fome. Acabei de comer um peixinho e não consigo engolir mais nada. Pode atravessar à vontade.
Mas o Kikas era muito espertalhão e não se deixava enganar.
- Olhe, senhor crocodilo. Vamos combinar uma coisa. Eu até posso acreditar em si, mas continuo a ter medo. Importa-se se fechar os olhos, enquanto atravesso o rio?
O crocodilo disse logo que sim, mas na verdade queria apanhar o Kikas. Quando sentisse a água a mexer perto dele, saltava de repente e comia o canguru.
- Pode passar, amiguinho. Já estou de olhos bem fechados.
O Kikas, em vez de entrar na água, empurrou um velho tronco de uma árvore, na direcção do crocodilo.
Ao sentir a água a mexer, quando o tronco chegou perto de si, o crocodilo pensou que era o canguru. Então, de boca muito aberta saltou para o comer, mas como ainda tinha os olhos fechados não reparou que estava a morder um pedaço de madeira. Nessa altura o Kikas deu um grande salto para cima do crocodilo e depois saltou para o outro lado do rio. Foi-se embora muito depressa e a rir, continuando a sua viagem.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

David, o Minotauro e a bruxa…

David tinha encolhido! Era assim que começava a sua Primavera, com medo. Sabia bem o que chegava, envolto, entardecido e a magoar. Parecia-lhe tosca, a corrida que se preparava para fazer. Observou forte os adversários.
Nascera numa pequena vila de pesca onde o pai desistira há muito. Havia de ganhar! Começou a chegar-se ao brutamontes do António. De mansinho tomou posição pelas suas costas.
- Não vais ganhar! Tu sabes isso.
O enorme homem virou-se já de punho fechado em raiva, socando o ar fresco em vão.
Depois passou a raspar no João. Não tinha vida aquele rapaz, sempre deitado. Gostava dele.
- É desta que te perdes! Levas cordel?
- Não tenho paciência para os teus disparates, David.
Uma pancada seca no sino dourado e começaram todos a correr. Todos, menos o David. Nem explicou e partiu na direcção oposta. Estava farto.
Foi para casa trocar de roupa, muito zangado e com pintas franzidas na testa.
- Maldita bruxa. Maldita mulher!
David perdera-se na noite anterior, no labirinto simples, à procura da voz. Ela tinha jurado ajudar, mas deixou-o só, sem as cordas, chamando em timbre errado. Nessa altura encontrou a besta. A máscara era disforme, e ainda cheirava a pó. O António suava debaixo da cabeça de boi, entalada perto dos ombros.
- Anda herói!
Grunhiu a metade homem.
- Desafia-me com a tua espada!
- O meu nome é David! É David, gritou o rapaz. Será que não entendiam? A bruxa pagaria bem caro.
Dois dias antes encontrou-a lavando roupa clara. Riu-se sem cuidado.
- Agora andas de branco? Não me parece apropriado para uma bruxa.
- Não vale a pena, pequeno homem. Não te conto.
Ele pediu mais calmo.
- Eu sei que só posso usar a voz. Mas qual?
- Tu sabes da voz?
A mulher deixou sair um gritinho assustadiço. Puxou o ar, mas não inchou o suficiente. Deixou de defender.
- Como descobriste?
- Isso foi fácil, desde criança. Mas de nada vale. Tu de nada vales!
Afastou-se em direcção ao Museu. Ia sempre lá. Sentava-se no escuro a pensar, a fazer festas nos animais embalsamados. O casarão tinha pertencido ao Visconde Tadeu. Era um grande caçador com longos bigodes. Por sua vontade, depois de morrer ali ficou, com o corpo cheio de palha e madeira fina, de olhar fixo em vidro pintado. Então percebeu. Era a voz!
Passados dois dias entrou no labirinto. Os outros andavam na praia a correr. Todas as semanas competiam para escolher o mais forte. Quem ganhasse tinha o direito de ir ao labirinto, procurar o tesouro do Tadeu. Todos já tinham ganho, menos o António. Ele era o Minotauro. Só ele tinha força para suportar a pesada cabeça de animal. A bruxa obrigava-o a cumprir. Apesar da voz alterada, David conhecia-o.
Durante anos imaginou-o, enorme, gigante na sua frente. Perdia sempre e desistia, como o pai. Um dia ouviu-lhe dizer.
- É a voz, David. É o som que sai da cabeça. E a bruxa sabe-o. O resto escondeu…por medo.
A mulher era na verdade a viúva do Visconde. Controlava a pequena vila, ameaçando destruir a pesca, os barcos, tudo e pouco de que ainda viviam e que lhe pertencia.
Inventou a estúpida procura do tesouro. Divertia-se com o desespero dos outros. Até hoje!
A mulher corria o mais depressa que conseguia. Lembrava-se da conversa com o rapaz e do museu, com as portas abertas. Não foi preciso entrar. Sabia que o roubara. Tinha de o impedir. Entrou no labirinto a ofegar. Foi direita aos interruptores. Não havia tempo para teatralizar. Acendeu as luzes, para procurar.
Mesmo assim era difícil. Na verdade o labirinto estava cheio de espelhos. Era quase impossível a orientação. Quantos resgatara perdidos e a chorar. Com um pequeno toque numa alavanca, fez aparecer um corredor, que a levaria…ao lugar.
Deu passos lentos, para logo se imobilizar. Sentada ao fundo estava a besta, de pouca mitologia e mais pequena.
- Anda mulher. Aproxima-te de mim!
Caiu de joelhos, ferindo a pele. Recordou a voz. Era o Visconde!
David retirou a máscara e colocou-a perto dos pés. Escorria satisfação e triunfo. Por ironia fora o João que o fizera acordar. De tanto fumar e pouco andar, o rapaz ganhara uma voz truculenta e forte. Arranhava as notas tentando cantar. E assim descobriu.
Tadeu, no auge da excentricidade, deixou um macabro pedido. As suas cordas vocais ser-lhe-iam extraídas após a sua morte. Depois de secas, devia ser instaladas num mecanismo de sopro que ele próprio inventara. Era a maior atracção do museu. Qualquer um podia falar através dele, com a voz do grande Tadeu, perpetuando o seu tom.
No labirinto, fora instalada uma parede secreta. Só abria com o som correcto, o daquela voz, que David guardava na sua mão. Dentro de uma grande sala ficava o tesouro, roubado pelo Visconde e pela mulher. Pertencia a um barco que dormia na enseada da vila, transformado em atracção turística pelo casal, que primeiro lhe retirou o conteúdo, das entranhas. Por lei pertencia a todos. Por ganância lhes foi escondido.
David baixou-se junto da mulher, que chorava.

- Já chega, bruxa! A corrida acabou.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

A subida...

- Achas mesmo que vamos descobrir?
- Calma, amor. Continua a subir.
Os dois eram já velhinhos. Subiam de mão dada à procura de uma resposta. Um dia, puxados por uma ciganita ficaram a ouvir dizer, as linhas a revelar…
Ela rejeitou a esmola e apenas devolveu um sorriso.
- Então é por isso…
Depois afastou-se, devolvendo um esgar, correndo em passos curtos.
- Ainda a pensar na cigana, ao fim de tanto tempo? A pergunta era doce.
- Também te lembras, não é? Vamos que vai anoitecer.
Caminhavam colina a cima buscando a senhora na última casa. Casaram há sessenta e nove anos, firmes no propósito e sem duvidar. Fora a neta Maria que os fizera recordar.
- Mãe, as mãos dos avós estão coladas?
- Acho que sim, querida. Acho que sim.
A sua felicidade fora completa e não precisaram questionar, aceitando o dom. Os outros discutiam muito, perguntando porquê, berrando em silêncio.
- Lembras-te daquela vez? Perguntou afagando a barba branca.
Ela franziu.
- Ai homem, que não tens emenda. Claro que me lembro.
Era sempre assim. Quase não precisavam falar. Um piscar baixinho revelava.
Ao fundo viram a casa velhita, com uma coluna de fumo mágico. Estavam quase a chegar.
As mãos unidas sentiram a pesada maçaneta, com um coração e uma bruxa, de madeira.
- Façam favor de entrar!
A voz era de homem, que apareceu de sorrisos e braço no ar.
- É o casal de velhinhos, mãe!
Ficaram juntos num pequeno banco de esperar, tricotado em cordel de tranças.
- Estás nervoso?
- Só um bocadinho. Mas não é importante.
As mãos apertaram, um segundo antes dela entrar. Apareceu de unhas muitos curtas, desmaiando o vermelho, saindo em lascas que esvoaçavam.
- Boa noite meus amigos. Venham comigo por favor.
- Seguiram a senhora que era gorda, perto de uma pesada cortina em veludo. Tinha sido trazida para tapar a luz. Porque não tremia com o ar ou o ruído. Era de ocre e cheirava a velho. Era bonita.
Sentaram-se em frente a uma pequena bola de cristal, com neve artificial no seu interior.
- Desculpem o engano. Há quem precise. Mas sabem que não funciona…
A mulher notou o tremer e mudou. Cresceu na pose para dizer.
- Na verdade nunca perceberam?
Eles ofereceram-se à dúvida que não existia, retribuindo.
- Estamos juntos há quase setenta anos. Sabia que nunca nos zangámos, que nunca deixei de chorar de alegria, que guardo o seu sono em sonho meu?
O senhor acariciava a face da mulher, de rugas marcadas.
- Amo-te tanto, meu lindo.
A senhora fez-se bruxa para suportar, arrancando um único soluço ao colo, escutando.
- Há muitos anos disseram-nos que havia uma explicação para tanto amor. Não nos incomodou na altura e hoje muito menos. Se queremos saber é para recordar. Falaram em outras vidas, noutras paixões. Que nos conhecemos com diferentes nomes. Que encarnámos para relembrar.
- Quem éramos nós, no passado? Pode dizer-nos, por favor?
A bruxa espantou, antes de responder.
- Sempre pensei que soubessem, que só havia uma.
- Só havia uma?
Terminou muito baixinho.
- Vocês…eram a mesma pessoa!

quinta-feira, dezembro 15, 2005

O monte dos ossos...

Podia ser uma estória triste. Mas não é! Aparece ao anoitecer.
Na mesma aldeia existe um estranho cemitério. Não está escondido, parecendo flutuar. Devem ter puxado a terra, fazendo-a cair nos lados, mostrando um pequeno monte de muros brancos. O cemitério planava em planalto, com as raízes à mostra, de um único acesso. Chamavam-lhe “a obra”, pelo último presidente, que não sabia o que fazer. Mandou escavar numa tarde os terrenos em volta dos muros, para dignificar a infra-estrutura. O dinheiro acabou, e o cemitério mostrou as entranhas, pesando em pouca altura. O pior estava para acontecer. Com os meses, sem a sustentação das almas e das terras, o lugar começou a ceder, a enterrar. Num ano baixou um metro, comprimindo a base.
Nessa altura, gordo e inchado, não mais suportou. Começou a expulsar! Eram ossos que saíam, aparecendo a espreitar. Misturavam-se com as pedras mas espetavam mais, esbranquiçados. Com a pressão, e sem o conforto dos terrenos em volta, a terra não retinha os ossos, que começaram a aparecer nos lados do monte. Toda a gente ficou pasmada!
Em duas semanas apareceram os turistas, buscando lúgubres recordações. A Francisca fazia as honras, recebendo e conversando.
- Aquela podia ser a minha tia Joaquina, pela leveza da anca.
Nos tempos seguintes outros ouviram, fotografando o medo, tocando de leve. Procuravam tesouros…
Até que a rapariga anfitriã repensou. Foi um dia mais cedo para casa e voltou aos gritos. Estaria louca? Por certo afastaria o comércio, as barracas de gelo, o amigo enfiado no quiosque. Arrepender-se-ia a danada.
Mas a noite chegou entretanto. Vinha de mau humor, despeitada. Ousarem era demais, chamando noutra altura. Já era suficiente!
No dia seguinte, o padre cansado caminhou a sorrir, para devolver uma relíquia no cemitério. Avistando-o, retardou o andar, para observar. Ao seu lado estava de novo a Francisca, agora mais calma.
- Então filha? Já aconteceu?
- Sim, senhor padre. Você sabia, não era?
O velho deu-lhe a mão para caminhar.
- Desconfiava. Mais do que isso…rezava…
A rapariga olhou uma vez mais para a parede de terra amarela que sustentava os muros no seu altar. Os ossos tinham desaparecido, escondendo-se no interior.
- O senhor padre sabe que não acredito, não sabe?
- Sei, minha querida. Mas não faz mal…

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Em segredo...

Aquilo que vos vou contar, fica apenas entre nós! Descobri-o por acaso e não queria que se espalhasse.
Escrevi-o num papelito que trago sempre no bolso, meio amarrotado. Um dia decidirei o que lhe fazer.
Passeava sozinho num final de dia, com o Sol já muito baixo e horizontal, projectando sombras enormes nos muros e paredes. Numa delas estava um homem pequeno a pintar. Quando me aproximei, vi realmente o que estava a fazer. A pintar a própria sombra. De cócoras, permanecia imóvel, à excepção do braço direito, que andava para cá e para lá entre o cimento e lata de tinta preta e cinza. Na parede pintava a sua sombra em decalque, registando a mesma posição. Fiquei a ver.
- Não me distraia, por favor. Isto já é suficientemente difícil.
Nem respondi, com medo de que se enganasse. Esperei pelo fim, sentado no chão.
Passados mais vinte minutos cronometrados, ele caiu para trás exausto. Estava terminado. A sombra era perfeita, imitando a cor escura, de negro desbotado. As margens pareciam suaves borrões sem um contorno definido, lindos.
- Os meus parabéns. Não sei como fez isto.
O homem respondeu ainda estendido.
- Foi com o que sonhei! O resto é fácil.
- O que sonhou? A pergunta traía na entoação, suspeitando a demência evidente.
- Sim! Isto é apenas um sonho. Posso fazê-lo a qualquer altura. Basta que adormeça a pensar nisso.
- Como…? Ponderei sair da cena pouco normal e que me começava a incomodar.
- Como diz? Peço desculpa, mas não entendo do que fala.
Ele deu uma gargalhada enquanto se sentava.
- Claro que não percebe. Mas eu explico. Afinal já acabei!
- Já acabou? A pintura?
- Não. Acabei os sonhos.
Olhou-me por segundos, preparando-se em seguida para partir. Tapou a lata com cuidado, raspando gotas de tinta já seca.
- Venha. Acompanhe-me por um pouco.
Assim fiz, ajudando-o com o material de pintura, caminhando lentamente.
- Desculpe, não queria intrometer-me.
- Não faz mal. Deixe estar. Eu é que estou sensível…
- Sensível?
- Sim. Acabaram-se-me os sonhos! Não tenho mais. Já fiz de tudo e agora nada tenho. Fui cantor de ópera, recordista olímpico, galã, mendigo, super-herói, bandido…
Parámos perto de um renault cinco amarelado e feio. Ele abriu o porta-bagagem e guardou a tinta.
- Já tive carros de luxo e desportivos, aviões e até navios. Agora ando nesta beleza.
Não sabia o que devia dizer ou fazer. Não me parecia louco, mas tudo o que mostrava era difícil de acreditar. Falava com desânimo, em perfeita razão. Mas não trazia sentido.
- É um belo carro. O meu avô tinha um… Calei-me.
- Meu rapaz escute bem o que lhe vou contar. A resposta esteve sempre ao nosso alcance. Basta pensar, antes de dormir!
- Pensar?
- Sim, pensar! Antes de adormecer, pense no que gostava de ter, no que desejou ser. O desejo será realizado. Não acredita? Experimente!
Não fiquei com vontade de rir. Apenas perguntei.
- Mas isso não é o que todos fazemos?
- Ah, mas aí é que está a diferença. Fazemos…mas no fundo sabemos que não vai acontecer. Um dia acreditei e pensei. Foi o quanto bastou, para aqui chegar.
- Mas o senhor anda num carro a cair de podre!
Ele colocou a mão no meu ombro para que o ouvisse melhor.
- É como lhe disse. Acabaram-se-me os sonhos. Ontem, para dormir, só consegui pensar nisto, em pintar a minha sombra. Acabou-se…
Despediu-se e entrou no velho carro. Gritou pela janela que só abria até meio.
- Vá, aproveite. Aproveite o que lhe ensinei.
Sentei-me ali mesmo para me deitar. Procurei desejos e explicações. Cantei planos e desafios, chamei com calma o saber dormir. Queria tentar. Havia tanto por onde escolher, para visitar, correr em tempo eterno e alcançado. O Mundo era meu, nos seus desejos. Seria grande, até cansar…
Estava calor e ninguém passava por ali. Era um recanto perto do rio, com pedaços de relva verde e amarelada. Senti o sono a chegar, pela mão da primeira estrela. Pensei.
“Desejo o seu abraço…se ela mo quiser dar…”
Depois deixei as pálpebras taparem a luz. Não queria mais nada.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Três raparigas...

Joaquim tinha três namoros! Eram pelo menos esses que lhe corriam, que o faziam desgastar numa eterna dúvida. Lana era a primeira!
Tinha os cabelos demasiado compridos, nascera fora do país e chegara muito nova, com dois irmãos mais velhos. Os pais vieram mais tarde, empurrados para o canto da Europa.
Era doce no entanto, os olhos mudavam muito de cor, como o tom de voz que quebrava sempre, ao mentir. No final de dia encontraram-se perto da casa dele, num café muito arranjado, com quadros amarelos e caixilhos de antiguidade.
- Olá Lana, onde estiveste?
Joaquim aprendera a ser desconfiado. Perguntava sempre primeiro, mesmo antes do beijo.
- És sempre o mesmo. Disse-te trinta vezes que trabalhava até tarde. Pensas que o faço por prazer?
- A Joana esteve lá?
A Joana era a lésbica da empresa.
- A Joana trabalha lá! Onde querias que estivesse? Tu gostas de me irritar. Queres cheirar-me, sentir o seu odor, como um qualquer farejador? Queres?
Joana usava o cabelo curto, por lugar comum. Gastava até ao limite um casaco de riscas finas azuladas e calças verdes. Desafiava e atendia o telemóvel em voz alta depois de um puxar de bolso traseiro.
Mantinha com Lana uma relação secreta em que sonhava de olhos abertos e punho cerrado, que ela talvez tivesse notado. Um dia beijaram-se, embriagadas, em beijo mau, sem emoção.
Lina vinha em segundo, e não conseguia parar de rir facilmente. Nasceu no Sul, mas emigrou ainda de fraldas. Os anos deram-lhe um sotaque irritante, em que falhava muito e não parava de falar.
- Importas-te de parar de rir por um minuto? Eu já não aguento mais isto.
- Oh lindo, não sejas assim. Tu sabes que te amo e essas tretas todas. Deixa-me rir. Faz bem às rugas, ou faz mal. Não me interessa!
Jurava poder encontrar um defeito, mas até então continuaria a tentar. A barriga era a mais perfeita, escondendo dois sinais…
Apesar de tudo, amava-as com intensidade. Talvez até amasse a Joana, que o tocava muito ao conversar, irritando-o para provocar.
Hoje era o dia em que ia decidir com qual queria casar. Pesava e pensava, abrindo-se a uma escolha difícil que não entendia.
Lina e Lana, arrumadas em seus cantos, esperando uma confissão de amor. Joana, a lésbica, correndo nua em arrepio…Joaquim achou-se a endoidecer. Nada fazia sentido.
De repente, ligou o carro, arrancando em velocidade. Faltava pouco tempo.
No outro lado da cidade, as mãos esperavam impacientes. Ele já não vinha.
Apagou o charuto num muro esbranquiçado. Que idiota era por fumar aquilo e por esperar. Joaquim escolheria uma delas, como sempre fez, desde o início. Já nada seria igual.
Sentou-se a recordar o dia em que o conheceu, despenteado a correr pelo corredor da empresa, procurando a porta do gabinete. Desde o primeiro dia que reconheceu as pintas que lhe saíam na gola do casaco. Tinha sinais espalhados no pescoço, que aumentavam a sua sensualidade. Um dia chocaram, ao entrar na garagem, riram até doer e acabaram abraçados, a suspirar. Nunca discutiam.
Joaquim conduzia agora como um louco, chamando o seu nome em plenos pulmões. O telefone não parava de tocar, de Lina e Lana, a insistir. Não atendeu, deixando soar.
Queria chegar a tempo correndo, antes que fosse tarde, que lhe levassem a hipótese de ser feliz…
No início do cais existia um senhor de barbas brancas que o conhecia e lhe arrumava o carro. Tinha o péssimo hábito de fumar enquanto o fazia, arriscando odores que demoravam a sair. Para além disso era mal educado e chegara mesmo a riscar o automóvel. Agradeceu a Deus quando o viu, a acenar como uma criança.
- Olá senhor Joaquim! Aqui, aqui! Tem lugar neste cantinho.
A chave trocou de mãos e passou a correr, perseguindo um outro caminho. Tranquilizou-se quando viu que ainda havia tempo e começou a virar-se, a olhar, a chamar…
- João, onde estás? João?
Sentiu-o a respirar.
- Estou aqui. Estava à tua espera.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A corrida...

Em Lisboa existem ainda alguns bosques, com densa vegetação e que nos obrigam a pensar. Num deles vi um casal de esquilos a deslizar entre árvores, perseguindo-se mutuamente.
Tem árvores pouco altas, mas com troncos emaranhados. Entre eles se esconde uma tradição antiga, já transformada em mito por ser desconhecida e ninguém sobre ela escrever. Na verdade é uma competição profundamente secreta, guardada em juras e por vezes ameaças.
Todos os meses, nas noites sem Lua, juntam-se uma dúzia de rapazes e uma rapariga, a Maria José, para correr. A Maria tem o cabelo curto e pernas muito musculadas, de tanto treinar e agachar em repetições. É engraçada!
Quando fica escuro, procuram raras clareiras para iniciarem a sua tarefa, nervosos…
O jogo é simples. Consiste numa corrida às escuras, de olhos fechados, em precipitação de verde negro. Correm durante três minutos, sem parar, esgotando as forças ao limite. Não são precisas vendas. Mesmo com os olhos abertos nada ou pouco poderiam ver. E mesmo o que vissem só atrapalhava. A cerrada vegetação misturada com o suor da corrida, enganava no breu e não era de confiança. Tudo terminava com o som agudo de um corno branco. Cada corredor parava na mesma altura, espetando no solo a sua marca. Não se ouviam mais passos. Quem chegasse mais longe triunfava.
É claro que haviam muitos acidentes, que esbarravam nas árvores e nas pedras, nos bancos idiotas que para nada mais serviam. Poucos eram os obstáculos sem vestígio de um choque brutal, com alguém que corria. Bem no meio do bosque havia um gradeamento de ferro, enferrujado no tempo e temido por todos. O único acidente grave acontecera há vinte e um anos atrás, quando uma rapariga chocou contra o metal retorcido.
Desde então quase só vieram homens, menos preocupados e de maior inconsciência. Eram determinados!
A Maria José tornara-se numa lenda. Há cinco anos que tinha o recorde de maiores vitórias e apenas um pequeno acidente, numa rasteira feia de arbusto. Nesta noite tudo mudaria.
Uma vez mais eram onze homens contra a Maria, que mordia uma pastilha de forma pouco elegante.
- Meus senhores não estejam nervosos. É sempre em frente.
Ela brincava com a situação, sem nada temer, escudada na sorte e no instinto do bosque. Conhecia-o melhor que todos, ao solo que pisava e ouvia, às flores que dormiam e lhe raspavam, pedido para que virasse noutra direcção. Os rapazes estavam em pânico.
Foi dada a partida na forma habitual, burlesca na tradição.
- Cavalheiros e senhorita…aos seus lugares! Prontos…já!
Precipitaram-se para dentro do bosque, em velocidade desenfreada e medos esquecidos, com a adrenalina saltando-lhes nos pulmões.
Dois não chegaram a sair da clareira, esbarrando de nariz em troncos médios, mas robustos. Os outros desapareceram no escuro, gritando desalmados, para afastar o medo.
Os três minutos passaram rápido e o corno falou lá para dentro, pedindo a todos que parassem. Ouviam-se respirações e lamentos, brigando com o solo e com as folhas.
Os juízes avançaram de lanternas, para descobrir feridos e o vencedor. Aos poucos foram achando os competidores, assinalando a encarnado num pequeno bloco de notas. Mas o mais estranho estava por descobrir!
Na escuridão, identificaram nove corredores, maltratados, mas vivos. Faltava a Maria José!
Logo se instalou um desconforto, de lendas e superstições, de segredos e choros contidos, pedindo a volta da campeã.
- Ai meu Deus! Gritou um dos homens.
- Os gradeamentos!
A armadilha do ferro ficava no centro exacto da pequena floresta, ameaçando quem por ela passava. Os que corriam acabaram por aprender a fazê-lo em arco, evitando a área mais perigosa. Desde de sempre se especulara sobre as vitórias da Maria José. Dizia-se que tinha encontrado um caminho pelos gradeamentos, vencendo fácil na menor distância. Outros diziam que tinha poderes especiais, que corria por baixo da terra num túnel secreto. A todos faltara coragem para a acusar, pelo respeito que lhes merecia a história. Maria era filha da mulher que tivera o acidente há mais de vinte anos. Temeram o pior.
Correram para o centro, para junto do ferro e da ferrugem, procurando a rapariga em cada sombra. O primeiro a chegar, travou de imediato.
No centro existia um emaranhado de metal com um pequeno vulto ajoelhado na sua frente. A voz era tranquila…
- Não te preocupes. Eu não volto a correr.

domingo, dezembro 04, 2005

A pancada...

Quem gosta de sushi sabe! A vontade aparece em qualquer momento do dia e arrasta-nos que nem dependentes para qualquer saída, que nos devolva o sabor do mar e do oriente. Ontem foi um desses dias, em que me vi parado num semáforo, com a boca a secar, sentido pedaços de gosto forte, empurrados contra o palato que já se habituou. O toque da madeira substituindo garfos, enchendo os dedos de habilidade, para pescar.
Não tinha companhia e não podia forçá-la, por isso fui até a um supermercado onde descobri que vendiam algumas embalagens. O moedas lá andava de um lado para o outro piscando-me o olho como se soubesse.
- Vá lá chefe. Pode arrumar aqui à frente que não lhe faço mal. Já sei que não tem trocos.
Deve-me ter confundido com um mau cliente. Dou-lhe sempre dinheiro, nem que tenha de o trocar.
- Entrei no supermercado muito movimentado, o que me preocupou. Se calhar já não havia. É sempre assim em dias de jogo. Esta gente não gostaria de pizza?
Fui directo ao local onde costuma estar exposto, ao fresco, e comecei a rezar. O balcão estava vazio, o que era bom sinal.
Na mesma altura vi uma rapariga a aproximar-se pelo lado oposto do corredor. Apesar do frio tinha uma camisola curta que lhe deixava a barriga de fora, com um cachecol a baloiçar na frente do umbigo. O cabelo era curto e despenteado, com mais de dez ganchos às cores e uma madeixa em azul. Era uma apaixonada de sushi!
Pude vê-lo nos seus olhos enquanto avançava, acenando para nada e cantarolando a minha música preferida. Ao desviar dela os batimentos descompensaram em correria louca, vendo que só restava uma caixa de peixe cru. Apenas uma!
Pensei em correr, jogando-me ignobilmente na sua frente, defendendo a causa do meu desejo. Ela tinha três passos de avanço e o braço preparou-se para segurar, quando se distraiu com qualquer coisa, virando-se no último instante. Com delírio cheguei primeiro à caixa negra e cristal, recolhendo-a com uma das mãos. Antes que me voltasse ela estendeu o braço sem olhar, dando com o espaço vazio, percebendo a súbita ausência nos seus dedos.
- Mas…onde é que?
Não terminou por me ver, fixando-se no conteúdo, nos rolinhos branco e verde, nas fatias arrumadas. Fez um ar de desespero.
- Desculpe, não o vi! Está com sorte, é a última.
- Sim eu sei. Respondi.
Ela resignou a tentação e quis sair.
- Espere!
Pedi com uma voz forte, demasiado grave.
- Sabe, esta caixa é muito grande. Talvez…eu sei que é um abuso, mas talvez a pudéssemos partilhar. Aqui perto há um café que conheço bem…
- Não muito obrigado. Eu não o conheço.
- Eu percebo, e uma vez mais desculpe, mas sinto que temos algo em comum…

A pancada que recebi na cabeça foi muito violenta, fazendo-me largar a caixa e descer inanimado.
Caí devagar e ainda consegui ouvir um grito. Depois ficou escuro.
Acordei aos poucos, cheio de frio e de medo. Dezenas de olhos apontavam para mim, com as caras seguindo-lhes a preocupação.
- Olhem! Ele está a acordar.
- Não tente falar, senhor. A pancada foi muito forte, mas está tudo bem. Deixe-se estar deitado.
A voz era de uma senhora gorda de uniforme branco e colete amarelo. Parecia uma mãe, prendendo-me o tacto, penteando-me com gelo.
- O que aconteceu? Contive a tosse e a dor, desistindo de falar.
- Vá, esteja calmo. Foi um assalto, ou melhor uma tentativa. Mas já passou. Agora só tem que agradecer àquela menina de cachecol colorido. Ela é que o salvou. Nunca tinha visto tanta coragem.
Virei-me um pouco para encontrá-la, mas doía-me muito o pescoço.
- Onde é que ela está?
- Ela está com o senhor polícia a falar. Que rapariga tão corajosa. Sozinha deu conta daquele patife. Ele nem viu a lata de salsichas esborrachar-se-lhe entre os dentes, desgraçado. É muito bem feita!
O chão estava sujo de sangue, misturado com pedaços de peixe que se haviam espalhado. A rapariga caminhava para mim.
- Então? Já se sente melhor? Afinal sempre temos algo em comum.
- Em comum? Mas…
- Vá, não se canse. Olhe que a pancada foi forte. Pena foi o sushi. Não o consegui resgatar…por duas vezes.
O sorriso foi inevitável, no olhar que se cruzou.
- Obrigado…e desculpe.
- Não tem mal. É só para ver se o faço rir.
Debruçou-se com lentidão no meu ouvido esquerdo e acabou por dizer.
- O café fica para a próxima, pode ser?

Acenei que sim, envergonhado.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Circo de orelhas grandes...

A hora tinha passado na última vez que adormeci, porque estava frio. Corri para acordá-la! Tinha a promessa do circo, e agora estava atrasado. A papa entrou a voar, enquanto eu mal mastiguei um bocadito de pão.
- Anda pequenina! Ainda vamos a tempo. O pai adormeceu, mas ainda conseguimos.
Os olhinhos de sono têm grandes pestanas, que abanaram concordando. As bochechas abriam com um sorriso e os dentes salpicavam separados.
Chegámos enfim, com chuva quase a cair e menos frio, de tão cinzento. Corremos de mão dada para os lugares. As pernas pequeninas pareciam crescer.
- Eu consigo pai! Corre que vai começar!
Sentámo-nos antes de luzinhas, um segundo depois do apitar.
- Desculpe minha senhora…não vi o seu pé!
Ia começar! Este ano, a mestre que fala mudou. Esta é mais nova, com uma voz límpida, mas sem estórias. Sem abanar para a frente e para trás, de microfone a sacudir. Que seria feito dela?
O circo é triste, tem prisioneiros e só faz rir as crianças. Aos adultos causa espanto…
- Desculpe, mas não pode passar. Tem que esperar que as cordas subam.
Ao meu lado ela apareceu, de mãos que imaginei segurar. Os dedos eram muito compridos e não paravam de brilhar. Com gentileza arrumava os que ainda chegavam, procurando não perturbar.
Entrei em rodopio, procurando com que escrever. A pequenina desviou a atenção.
- O que queres?
- Nada filha. Só queria escrever uma coisa.
Estendeu-me um lápis de cera encarnado…e um papel amarrotado. Tinha-os no bolso do casaco. Mordiscou antes de dizer.
- Estivemos a fazer desenhos ontem…

Cheguei muito cedo, sem atrasos. Fiquei sentado à entrada, brincando com o lápis de cera. Estava mais pequeno, por ter deixado fugir poucas palavras. Face às rugas tinha achatado o seu escrever.
Era dia de folga no circo e as portas mexiam-se mais devagar. Entravam palhaços de pés mais pequenos e domadores com gatinhos persa. Um acrobata apareceu a coxear, perseguido por duas varinhas mágicas. Iam todos almoçar.
A porta deixou dois dedos, e por isso decidi entrar! Lá dentro havia um cheiro estranho, de pipocas com novas cores, rezando poder rodar.
Ela estava à minha espera, encostada a um canhão cor-de-rosa e azul, com uma inscrição a condizer. Tinha as orelhas muito compridas, como os dedos que quisera tocar.
- Olá! Trouxe o meu lápis e não parei de pensar. Gosto de vento, há pouco tempo...
- Eu trouxe o papel e não parei de amarrotar. Tenho orelhas e dedos compridos…
- Eu sei.

terça-feira, novembro 29, 2005

Venham...

Venham voar comigo...
Sempre quis ser um super-herói! Por vezes cheguei a ver-me, frente a um espelho tosco, de capa que não servia e se atava com dificuldade. Um dia acordei...e conseguia voar!
Durante meia hora fiquei na varanda a tremer. Com medo dos cabos de alta tensão, da velocidade, de cair, de não cair, dos aviões, de tanto...
Se continuasse, envelheceria sem experimentar. Pendurei-me no corrimão...e disparei!
Os óculos voaram também, da minha cara, esborrachando-se no solo. Tinha-me esquecido deles.
Voei depressa em direcção ao céu muito negro, inclinado para que subisse. Mesmo numa noite quente de Verão, a duzentos metros de altura a temperatura desce bastante e o meu nariz percebia-o bem. Quase instantaneamente começou a pingar, ao mesmo tempo que me tentava orientar. O Mundo visto de cima e às escuras, é diferente, cheio de luzinhas amarelas. Demorou pouco para que me perdesse.
Sentei-me no campanário de uma igreja, para me assoar e descansar um pouco. Doíam-me os olhos por causa do vento, que esticara as pálpebras ao seu limite. Não estava a correr bem. Decidi regressar a casa, curvando repentinamente a cada espirro, que me afastava da rota traçada.
No dia seguinte tinha febre e a garganta arranhava-me a alma, em profunda vergonha. Um super-herói constipado!
Agora agasalho-me bem. Tenho um fato de cabedal e uns óculos de esqui. Fico nos telhados, esperando...
Se tiverem medo, numa dessas noites, olhem para cima.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Tony...

Rebento se a guardar! Se não partilhar a quase mais fantástica tarde, vivida e sentida, arqueada para sempre, escorregando...
Saí sozinho para almoçar, o que nunca faço, por insegurança de me partilhar a sós. Fugi e acelerei para a aldeia próxima, de que agora gosto. Estaciono sempre no coreto, obrigando-me ao lugar comum. Imaginei como seria escrever mais tarde e que a sua presença embelezaria o ritmo.
Na pequena povoação não existe uma única esplanada, o que a princípio me desesperou. A observação é mais eficaz daquelas posições, de um dobrar sobre o chá quente...
Que podia fazer? Adoptar a mistura das gentes, em pé frente à casa onde vendem cervejas. Espetar comigo, de mini na mão, sem beber, por desgostar, esperando que algo acontecesse. Até que acontecesse!
As raparigas que esperavam a carreira identificaram o estranho. Riam sem esconder e gozavam o jeito. Não sabia pegar numa mini! Reconheci-o rapidamente, mas duas horas sem beber deveriam ajudar à falha.
Não ia desistir, nem estava prestes a partir. Sabia para onde olhar, para vê-lo chegar. À distância ouvia-se gargalhar. Era forte o riso, acompanhado de apertos de mãos e unhas. O senhor caminhava esgueirando-se do seu lado direito, do baixinho com uma capa verde. Tentava respirá-la sem abrigo!
A garrafa começou a sentir-se bem na minha mão. Por salpicos pensou que se chegaria a beber, uma partícula de tempo antes de ser pousada. Caminhei de lábios largos para o vulto no centro. Ele que tinha parado a rir, dobrando-se sobre a capa despejada, oferecendo calor à menina. Parecia embriagado. Parecia outra pessoa.
A dois metros reconheci a expressão. À minha frente estava uma estrela, de televisão e de imaginário. De semelhanças e realidade, de uma simpatia fraternal. No meu caminho cruzava-se o Tony Ramos. Nem mais! A estrela de novelas brasileiras, competindo na “minha” aldeia! Estava mais velho, o que é normal. Com grandes patilhas e cabelo preto, pintado de muito breu. Mais gordo, de maxilar pujante, parecendo um Elvis, de golas levantadas. Era muito atraente.
Fui ter com ele, de braços esticados. Afinal conhecia-o desde sempre.
- Não imaginei ser possível!
Libertei ao mesmo tempo do abraço.
Ele retomou a capa e colocou-a nos ombros. A entoação encheu o largo.
- Como está você?
- A precisar de um chá morno, e de uma conversa.
Quando não sabemos o que esperar, olhamos fixamente. Quando não queremos saber, damos a mão, mesmo a um homem, e puxamos por ele.
Entrámos dentro do café e escolhemos uma mesa. Fiquei a olhar! Era todo de negro, puxado a brilhantina. Marcas de pente bem desenhadas. Deliciei-me, com o passado.
- Sabe, sempre fui seu admirador, atento à sua arte.
- Obrigado...
O agradecimento traía a normalidade. Pertencia a outro, e fez-me pensar. O fumo levantava-se do chá demasiado quente e passava-lhe junto à face, moldando as formas. Afastei-o para dizer.
- Você é o Tony Ramos...não é?
- ...não!

segunda-feira, novembro 21, 2005

A pergunta...

Os dias de Outono são límpidos, depois de uma chuvada. Não existe poeira no ar e podemos ver até muito longe.
Estava sentado num banco de jardim há pelo menos vinte minutos. É uma coisa que gosto de fazer! Hoje em dia, se repararmos, só os velhos e os mendigos utilizam os bancos. Os outros têm vergonha, dos primeiros e de serem confundidos. Assim preferem ficar de pé, enchendo varizes. Ou então vão para os cafés!
Eu ali estava, sentado num banco de ripas esverdeadas, quando te vi. Caminhavas em zigue-zague parando em cada encontro. Falavas uns segundos com cada pessoa, que normalmente fazia uma careta e se afastava. Tu baixavas ainda mais o olhar e recomeçavas a andar, até à próxima.
Como estava muita gente na rua, demoraste até chegar perto de mim. Reparei que eras bonita, com um sorriso lindo mas escondido. Libertava-se com as crianças, ao colo ou pela mão, momentos antes de os pais as puxarem para trás.
Era sempre igual! Educadamente aproximavas-te de uma pessoa, cumprimentavas de cabeça baixa, e fazias uma pergunta. Nessa altura a pessoa olhava com dificuldade e virava as costas apressadamente. Estavas quase ao pé de mim.
Normalmente fujo, escondo a cara, finjo atender uma chamada, o que for preciso...mas sem arte. A curiosidade acaba por me trair!
Naquela tarde foi pouco diferente. Não resisti a olhar e deixei-me fixar. Percebeste o encaixe e aceleraste o passo. À minha beira não cumprimentaste. A pergunta foi mais forte.
- Ainda vais viver muitos anos?
Depois, enfim, baixaste os olhos!
Que podia responder? Achava que sim, pela ordem da vida. Porque ainda devia faltar bastante tempo. Não sabia o que pensar e acabei por dizer.
- Acho que sim...mas não sei quantos. Tenho saúde, portanto devem ser muitos. Que pergunta difícil.
Quando fico nervoso falo sem parar, tentando não esquecer o que direi em seguida. Continuei.
- Mas não te consigo dizer quantos. É uma pergunta difícil! Se me perguntasses as horas...isso eu sei dizer. O meu nome também, com algum esforço. Se ainda vou precisar deste banco muito tempo. Essa! Essa era a mais fácil! Podia dizer-te quando podes ficar com ele.
Com um modo gentil, tapaste-me a voz com dedos muito juntos. Sossegaste-me.
- Não vim pelo banco. Precisava de alguns anos...
A rapariga tinha cores que saíam da cintura, no local destapado. Pareciam formas pintadas...gravadas na pele.
E eu posso fazer isso? Perguntei.
- Sim, podes. É muito simples.
- Então está bem! Ufa, pensava que era algo mais delicado!
Ela riu – Não, rapaz. É apenas isto! Mas...tu...?
- Eu?
- Não queres saber de quantos preciso?
- Claro que não!

quinta-feira, novembro 17, 2005

A preto e branco...

Agora acho que já posso contar. Há cerca de um ano, junto ao jardim zoológico, reparei num cartaz. Era muito pequeno e discreto, como uma publicidade em miniatura.
"Um dia no passado. Venha visitar o Zoo a preto e branco!"
A preto e branco? Fiquei o dia inteiro a pensar naquelas palavras. O que quereriam dizer? Telefonei para o jardim, mas ninguém sabia o que se tratava.
- Olhe, deve ser brincadeira. Alguém com tempo e imaginação a mais.
A senhora desligou ainda em susurros, que não percebi.
Nessa noite passei no local, procurando o mesmo cartaz. Estava muito escuro porque metade dos cadeeiros da rua não funcionavam.
Nada! Não havia cartaz, nem o pequeno suporte que o sustentava. Decidi ir para casa. Nos dias seguintes fui esquecendo aquele episódio, passando de uma dúvida romântica, para a certeza de um engano. Não seria importante.
Nos Sábados costumo dormir até tarde, lutando com as manhãs que adoro e não consigo visitar. Aquele foi diferente. Acordei antes das sete com uma horrível sensação de ansiedade. Percebi de imediato o que me esperava. Tinha que visitar o Zoo.
Como moro perto, fui a pé para inspirar e me acalmar. Na última rua apenas olhei para os andares de cima. Ganhei este hábito enquanto procurava casa, uns anos antes. Nunca olhamos para cima!
Em baixo ficam as lojas, as entradas, os cafés e algumas famílias que não puderam subir. Não há para onde olhar. E assim ignoramos o que se passa por cima. Senhoras que abrem e fecham as janelas, espreitando sem explicação. Cortinas entrabertas com tufos de cabelos brancos escondidos.
De noite é ainda mais belo. A luz convida-nos a entrar. Os jovens casais discutem, e não têm cortinados...
Cheguei por fim, ao meu destino. Dirigi-me à bilheteira ainda escura. A senhora acabava de engolir o último pedaço de pão, que tinha manteiga. Um trago num café muito escuro e lá reagiu.
- Bom dia. Veio acordar os bichos?
Acho que corei um pouco, para depois me recompôr. Que se lixe! Vamos lá descobrir.
- Quero uma visita a preto e branco!
A senhora martelou qualquer coisa no computador e entregou-me um bilhete.
- Tenha uma boa visita. Bom dia.
Nem olhou para mim. Continuou a beber o seu café.
Àquela hora ainda não nos tiram fotografias com papagaios gigantes. A entrada é mais rápida.
Conheço o jardim de cor e saltaeado. Acho que até os animais já me reconhecem. Devo-o aos miúdos do Bairro da Sé e a um Verão de tempos livres.
Sentei-me no primeiro banco. Estava tudo a cores!
O comboio parado era encarnado, os aquários em azul suave, e nos répteis muito verde. Até o bilhete era às cores. Se pelo menos houvesse um panda.
Nessa altura ouvi uma voz com melodia.
- Não me diga que está cansado! É muito novo para isso.
Um senhor sentou-se ao meu lado. Devia ter quase setenta anos, mas com pele bem cuidada. O fato era castanho e de corte moderno. Contrastava um pouco com o chapéu, forrado de novo, mas com um formato conservador.
- Não sabia que ainda faziam desses chapéus.
Calei-me logo em seguida, envergonhado por tamanho disparate.
- Desculpe! Não sei o que me deu.
O senhor de chapéu olhou-me nos olhos.
- E já não fazem. Eu sou o último! Agora preferem gorros, mas só ao fim-de-semana. Nos outros dias passam frio. E não sabem cumprimentar.
- Atrapalham-se entre o beijo e as mãos. Hesitam, percebe? As mulheres não gostam de hesitações. Mesmo na timidez!
Chegou uma visita de crianças. Deviam ser de algum bairro pobre. Conhecia-lhes os passos. O senhor sorria ao vê-los passar.
- Afinal quer ver a exposição, ou não?
- A exposição? Perguntei em dúvidas.
- Sim, a exposição de fotografias antigas. "O Zoo a preto e branco!" Vai ser o primeiro...e desconfio que dos poucos. É como os chapéus.... já ninguém liga.
Ajudei-o a levantar-se e segurei-lhe no braço. Desconfio que me amparava.
- Vou com muito prazer. Disse com voz firme. Depois ganhei coragem...
- Queria fazer-lhe uma pergunta? Posso encomendar-lhe um chapéu?

terça-feira, novembro 15, 2005

Debaixo da ponte...

Acho que já ninguém se lembra. Mesmo eu não pensava muito. E no entanto continua a ser real, e de abrigo.
Na América negra de escravos persistiu uma lenda que falava num caminho de ferro subterrâneo. Pensava-se que existia de verdade, em emaranhado de túneis e máquinas, aço e segredos. Na verdade o caminho era de fuga, simbolo de alguma América que preocupava, que percebia. Apesar do risco, muitos ajudavam os escravos a fugir, albergando-os em suas casas e celeiros, criando uma rede segura onde paravam antes da liberdade – The Underground Railroad.
Numa tarde voluntária conheci o Joaquim. Pedia que lhe chamassem mendigo, com entoação simples, despreocupada. Como se engolisse parte da expressão. Nunca com maiúsculas! Aos poucos foi permitindo a confiança, contando pequenas estórias. Até um dia.
- Diz-me Joaquim, como te tornaste mendigo?
Ele riu pela astúcia, que permitiu uma maiúscula.
- Não é essa a pergunta, senhor. A questão é como consegui manter-me.
Só pela noite começou a contar-me, apoiado numa sopa quente, embora em pó. Relatou por fim.
Começara nos anos trinta, quando uma inesperada onda de construção, fez aumentar as travessias de rios, desfiladeiros e pequenos vales. E ele foi o primeiro. Recém despejado da casa onde vivia, Joaquim olhou em volta. Onde dormiria? Não tinha frio, raramente tinham, dizia!
- Vestimos tudo o que temos e ficamos assim. No Verão é pior. Não há fechaduras, e temos medo dos roubos. De ficar sem roupa.
A primeira noite foi a única, debaixo das estrelas, de um céu frio, mas sem chuva. De manhã descobriu.
Tivera sorte, contou. Era uma ponte moderna, na altura. No local onde se unia ao solo, formava um recanto, com uma parede de um dos lados e uma rocha azulada no oposto. Ficava à entrada da cidade, em zona calma e saloia. Havia pão, que sobrava, cobertores e uma serração antiga. No mesmo dia foi lá falar com o dono, pedindo umas placas, e corticite para forrar paredes. O chefe perguntou.
- Olha lá mendigo. Não queres ir medir o teu espaço? Assim até ficas com uma porta e tudo.
Apesar de nunca os ter visto, não quis arriscar. O cheiro de roedores é incómodo e nunca desaparece da memória. Encontrou remédio, que sobrava e desenhou, numa grande roda.
Durante a noite riu sem parar. Peça após peça, teve de abandonar o que vestia. Fazia calor, debaixo da ponte!
Nas redondezas havia uma fonte. Era antiga, quase sem uso, mas de muita água, límpida e fresca. A partir de então começou a procurar outros espaços, e a partilhar. Tinha começado o movimento.
- Chegámos a ser mil e tal, ou até mais. Rodávamos muito, para caminhar. Com os viadutos voltámos à cidade, mas correu mal. São muito frios, têm luzes por baixo e nichos altos, desconfortáveis. Há dois ou três, mas não partilho!
- Joaquim, tiveste uma boa vida! Trocávas alguma coisa?
Olhou através de mim, para uma casa antiga.
- Trocava tudo...

quarta-feira, novembro 02, 2005

Reflexos na professora...

Nos dias quentes era mais difícil suportar as aulas de Português. Mas a professora era muito bonita, parecia jovem e despertava a imaginação, talvez em demasia. Entre o calor e uma figura atraente, se perdiam os meus pensamentos.
Um dia fiquei perto da janela e quando o Sol começou a subir, encontrou-me o relógio de mostrador plano e generoso. Um reflexo recortado apareceu na parede à minha esquerda.
Sem chamar as atenções passei a controlá-lo, ordenando que se movesse. A luz amarelada começou a caminhar.
Subiu um pouco para contornar a enorme janela e definiu uma rota paralela ao tecto, em direcção a um dos cantos. Teve de rodear um pequeno quadro, com o mapa de Portugal, sem perturbar o seu espaço aéreo. Continuou sem mais problemas até virar, a noventa graus, alcançando a parede do quadro. Um dia destes tenho que entrar numa escola, para confirmar que ainda existem quadros...
De triunfante perdi a noção e o concentrar, e por pouco não deixava que a luz se extinguisse. Voltei a colocar o braço em posição segura, longe da sombra.
Finalmente chegou perto da professora, descendo pela moldura do quadro até muito perto do apagador. De um salto, o reflexo chegou até à mulher, parando no seu ombro direito.
A metade da turma que não lia, logo deu conta da sua presença. Olhares começaram a cruzar-se, para encontrar o responsável. Imitei-os na demanda, para que não fosse descoberto. Escutei o segredos e risos baixinhos, silenciados pelo olhar da figura iluminada.
Devagar, voltei o relógio para o centro, dirigindo o recorte de luz. Estava agora perto de um decote sem mácula, protegido por um enorme botão castanho. O que ninguém esperava foi o que se passou então. No exacto momento em que o reflexo se anichou no botão, o mesmo abriu-se deixando o tecido recuar. A luz tremeu quando os contornos apareceram. Tive que segurar no próprio braço, para que se mantivesse no lugar. Ao ver-me perder, o meu colega de secretária veio em meu auxílio, segurando com força, mas sem nunca desviar o olhar.
A turma reteve o ar e o suspiro, enquanto descíamos, descobrindo a sombra e a pele. Pareceu-nos ver uma gota que perseguia a nossa estrela, que nos arrepiava a imaginação.
A professora falou.
- Meninos, não sei o que se passa convosco, mas fico feliz pelo súbito interesse na aula.
Acabou a frase, voltando-se para o quadro negro. A mão que não escrevia passeava pela blusa, e pelo botão, acariciando-os.
Lá fora uma nuvem tapou o Sol, levando os reflexos em que já não pensávamos. Ficámos em suspenso, muito vermelhos, esperando que ela se virasse novamente.

segunda-feira, outubro 31, 2005

A rapariga feia...

Ela nem avisou. Veio direito a mim e falou.
- Gosto de ti!
Reuni duas ou três feições que poderia usar, mas fiquei quieto, a olhar.
- A sério! Estava a observar-te e senti que não podia deixar-te ir embora. Tinha que largar tudo, entendes?
- Eu...
Continuei em pura roda vida, sem perceber o que se passava. Comecei a vê-la...
- Desculpa. Sei que não sou bonita, que o trânsito não pára à minha espera...
Não podia dizer que fosse feia. Era um pouco... Bem...era ligeiramente gorducha, com cabelo comprido, apanhado por cima do ombro direito, tinha olhos doces e se fosse mais magra...
- Olha, o problema é que me viste antes de poderes conhecer-me. E a ilusão de uma paixão pode começar de várias formas. São igualmente poderosas, se forem ajustadas a diferentes pessoas. Comigo tem mais a ver com o intelecto, com o sentido de humor, com... Percebes alguma coisa do que te digo?
Continuei sem abrir a boca, corado para a eternidade e buscando uma saída. Ao fundo começou a aparecer outro vulto. Reparei que estava parado na entrada de um museu onde não queria entrar, com quatro escadas e uma porta muito feia.
Atrás havia um corredor, onde a outra figura andava de forma elegante. Começou a aproximar-se mostrando uma linda rapariga, que tinha óculos. Quando passou por nós, ficou a olhar-me, como se me reconhecesse.
Fiquei ali, parado, com as duas mulheres na minha frente, sem uma palavra...
A primeira tinha um sorriso bonito, sabia-o agora. Envorgonhou-se com o que ia dizer.
- Vais achar-me completamente maluca, mas pouco me importa. Não quero saber! Só quero ouvir a tua voz.
Baixou um pouco os olhos e continuou.
- Por ti era capaz de tudo. Dá-me seis meses e eu faço uma dieta que nem imaginas. Vou ficar tão bonita...
Nessa altura reparou na mulher de óculos, parada a seu lado, engolindo o que preparara para dizer. Ficou ainda mais atrapalhada ao perceber a beleza da outra. Olhou para os olhos sem cor que sorriam, demorou-se em lábios de um rosa perfeito, sempre a invejar.
Depois gritou, ao mesmo tempo que a viu rodar.
- Tu não tens um braço!
E não tinha mesmo. Ao virar-se apresentou uma manga caindo vazia, e aproximou-se ainda mais. Ao perto era ainda mais bonita!
E ali estava eu! Paralisado, na companhia das duas mulheres. Uma queria emagrecer, não me conhecia e estava apaixonada. Outra reconheceu-me! Era linda, não tinha um braço...e usava óculos.
Sentei-me desamparado nos degraus. Pensei na dieta, no braço, e levantei-me. Começou a doer-me a cabeça, um momento antes de falar.
- Eu... Eu queria...Quer dizer...
Tentei uma vez mais, falando mais devagar.
Eu moro aqui perto. Gostava que viessem comigo, para conversar. A rapariga de óculos acenou afirmativamente. A outra gritou que se chamava Ana. Concluiu que se enganara a meu respeito e desapareceu furiosa.
- Bem...vamos? Perguntei com uma voz murmurada.
- Sim, vamos. Mas quero avisar-te primeiro de uma coisa.
- Podes avisar!
- Não penses que vais andar comigo!
Estava mais calmo e podia responder sem pressão.
- Está bem, eu não penso.
A sua cara ficou ainda mais bonita, enquanto os músculos começavam a baixar e as covinhas podiam adormecer. Começámos a caminhar.
- Como te chamas?
- Francisca! Olha... achas que este problema do braço pode deitar tudo a perder?

- Acho que não!

sábado, outubro 29, 2005

Pequenas coisas...

Ofereceram-me um relógio electrónico! Hoje sei que é mais correcto chamá-lo de digital, mas na altura nem pensar. Era mesmo electrónico, de um cinzento claro! Cheio de números, e esquecimento, da tradição e dos ponteiros. Tinha músicas que alarmavam, e uma deliciosa avaria, que as impedia de parar. Tocavam até ao fim!
Avançou para o braço e ali ficava, pendurado a gesticular, exibindo orgulho e modernidade. Acho que o fecho se partiu um dia, e que o tentei consertar. Há muitos anos tentávamos sempre. Até que os danos fossem demasiados.
Mais tarde arrojei na escolha seguinte. Era de outro cinzento, mais escuro e trocava o metal pela borracha confortável.
Ainda penso que foi o relógio mais bonito que tive, voltando aos ponteiros que reaprendi a decorar.
A bracelete foi partindo, até o deixar sózinho, perdido no fundo do bolso direito de todas as calças. Depois acho que fugiu, por estar tapado e não ver as horas passar.
Já não uso relógio. Nunca mais vou usar...

O caminho...

Ela caminhava à minha frente. Era um pouco mais alta do que os meus catorze anos, carregados com esforço. Tentei não ficar nervoso, olhando para os lados, procurando no caminho uma distração e alguma calma.
Tenho pensado cada vez mais no passado, tentando contrariar o tempo que, para quase todos, parece correr. Lembrei-me de mais uma estória.
O dia era daqueles de Outono, em que ainda não precisamos de muitos agasalhos, mas agradecemos os saudosos kispos, que preveniam quaisquer acidentes. Eramos seis ou sete, mas ninguém mais fazia sentido naquele lugar. Não sei se foi nesse dia que coloquei a mão no bolso do casaco, para fazer uma estranha descoberta. Tinha duas asas de metal leve e partido, que podiam ser plástico banhado a uma liga mais nobre. Não sei como foram lá parar! Pareciam as asas de um Deus ou de um capacete de super-herói louro que voava.
Pouco depois o seu braço enrolava-se no meu, despertando a certeza do que me esperava. Pensei que o amuleto tinha ajudado!
Voltando atrás, observo o caminho. Tínhamos entrado no que parecia ser um antigo leito de rio, agora seco, embora húmido. Nas margens existiam árvores pequenas, que se uniam no topo, formando um túnel onde entrava pouca luz.
Nos dias seguintes sonharia com aquele lugar, distorcendo o verde para cores mais pálidas, misturando areias movediças com o esforço para ajudar companheiros em perigo.
Acelerei um pouco o passo, começando a sentir o seu perfume. Naquela idade, o coração é vencido pelo descontrolo fácil.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Incompleto...

Não lamento…
Não choro por não ter percebido.
Era de uma flor tristonha que avançava
Na minha palma.

Se olhasse ela escondia, de terrores.
E…

Não lamento…
Não percebi e agora resta-me pensar.
Que não mais te vejo, te toco e abrando no olhar. Ela era…

Não lamento…
Não percebi e não tenho que recear…

O funeral...

O morto observava-me de uma forma familiar e muito intensa. Um dos olhos estava torto e descaído, sem vida, e apontava para o caixão que era cinzento.
Fez-me lembrar o dia anterior, do nariz, do machado e da boleia!
Eram cerca de trinta velhas que me cercavam, adorando em cantos e com lenços que me raspavam ao passar. Num deles consegui ler duas pequenas letras, bordadas num ocre quase castanho. Pouco mais tinha visto até ali, sujeito a um pequeno ângulo sem periferia.
O odor traiu a sua idade e as letras fugiram com uma mão de tremores vagos. Era a tia Arminda! Uma noite tinha encontrado o tio Armando, em roupa interior, ao colo da interna lá de casa, com um seio esborrachado na face e a vergonha em viagem sem retorno. A tia deu as boas noite e o mesmo lenço amparou uma simples fungadela, sem sentido.
No dia seguinte, quando o tio saiu para o gabinete, parou junto ao seu carro, estacionado na entrada de subúrbio. No capô, ainda a reluzir, estava cravado um machado! Tinha perfurado o metal com brutalidade e não sairia com facilidade. Ele entrou calmamente e ligou o motor, que por pouco não tinha sido atingido. Partiu devagar, sempre com o machado na frente do olhar assustado. Não se voltou a falar no assunto.
Vi parcialmente a prima Maria, que não largava a mão, agora mais pálida. Na verdade, há anos que era o seu toque a acompanhar, a dar calor, a crescer dúvidas nos versos que trocava e enviava e nunca esquecia. Não chegara a saber, porque não perguntou e ficou de dúvidas e perguntas, a que os dedos e o frio não podiam mais responder. Tinha o nariz um pouco grande, a Maria.
Há anos que ninguém dá boleias. Temos medo de ser raptados, de que um louco nos atire para uma valeta, ou nos mate de aborrecimento no meio do nada. Ontem tinha quebrado o jejum. Percebi uma camisola amarela na berma da estrada, e parei de imediato. Era uma jovem sorridente, que nem estendia o braço e continuava parada, à espera. Ao longe confundira um gasto colete, com uma camisola. O amarelo pouco florescente era habitual nos meus semáforos, como um “cais” de ofertas simples.
A rapariga chamava-se Bianca, uma bonita brasileira, com longos cabelos e um olho torto. Atirara com as revistas para o banco de trás e num murmúrio respondeu. Dormiu durante toda a viagem.
Começaram a chegar os mais velhos, alguns com medo, outros rindo pela experiência. A morte assusta até ao dia que tanto tememos. Depois transforma-se em algo parecido com um sonho de serenidade e uma música que nos toca a memória.
O senhor mais calmo era também o mais alegre. Nunca me tinha abandonado e segurava a mão que a Maria fora obrigada a largar. O padre tinha saído pela portinha acanhada, depois de ler um desejo expresso, de que comandasse a cerimónia a três quilómetros de distância, agarrado à Bíblia e rezando sem récitas.
Estava quase tudo pronto! Fiquei feliz por ninguém falar, sem tentar explicar e emendar. Sem louvar, justificando coisas e mais recados sem importância.
O Joaquim aproximou-se, com a Maria nas costas, prestes a soluçar. Inclinou-se na caixa de madeira cinza, para segredar.
- Descansa primo! Eu não a deixo chorar.
O morto sentiu o sono a chegar. O morto…era eu!

quarta-feira, outubro 12, 2005

(...)

No dia seguinte regressei! Pertinho do portão, já sentia os botões a abrir.
O grito não era demais e ela era muito loura, com dedos finos e pedacitos de terra e jardim, que iam caindo.
Agora volto sempre, para descansar.

segunda-feira, outubro 10, 2005

O segundo casarão...

Os que lêem com carinho sentiram a falta que espero e desejei. Os outros nada viram! Não planeava um regresso com tal estória. Sem que reparasse percebi o entranhar da escrita, que agora me assusta na ausência de uma falta de técnica, que embala e de outro parece.
Arredado, concentrava-me noutros afazeres, de emprego e dedicação forçada, quando me atribuíram a mais estranha das tarefas. Na sexta-feira, ao final da tarde fui surpreendido por uma chefe envergonhada, de olhos que me iam pedir, para não ordenar. Para o mês que vem temos um evento desnecessário e triste, em que o não sei quantos milionésimo cliente recebe um gorduroso cheque como prenda de acto tão vulgar, que faria de qualquer modo, sem agradecimento ou camisola vestida, que despirá na primeira oportunidade. Ideia tonta veio mais de cima, empurrando a festança para um palacete de séculos atrás, rico em história e palco de contrato antigo, já relíquia.
As meninas senhoras, de horas atrás do brilho e das palavrinhas seleccionaram cinco, que devia visitar e fotografar, e até cheirar, para garantir uma alma ou outra, presente na maldita cerimónia. As senhoras meninas, que me arrastaram por todo o distrito, em ebulição de teclas e moradas antigas, descobriram mais duas, no extremo, a duas horas de trânsito e chuva. Descoberta descabida e que me desesperou, obrigando a Domingo com serão e frio.
Parti a seguir ao jantar, porque as visitas “tinham” de ser feitas já com noite cerrada, em busca da investigação, científica e imbecil, que aconselha a verificar iluminação e ambiente de breu, esperando falhas.
Os cinco iniciais esconderam palácios, revelando em vergonha velhos casarões a cair de podre, onde nem luz, nem electricidade, nem nada…
O seguinte cumpria a recente tradição, com uma estrada de pedra muito moderna, virando de súbito para lado algum, enquanto a morada revelava uma casinha sem grandeza e espanto. De volta e meia completa preparei o último caminho, que me levaria a casa, depois de breve passagem pela esperança, quase fumo.
A segunda morada era bastante perto e deixou-me mais tranquilo. Cheguei rapidamente a um portão pequeno e parcialmente destruído pelo tempo e uma avenida larga com rumo certo ao cimo de uma colina muito escura. Se ao menos fumasse!
O casarão parecia enorme, mesmo à distância e nem uma única luz ajudava a perceber o seu contorno. Era feito de borrões cinzentos que pareciam flutuar, descendo para as grandes árvores que o ladeavam, para que se fundissem…ou misturassem.
Ninguém me convenceria, às duas horas e catorze minutos da manhã, que aquele pudesse ser o local que abriria as portas ao tal evento. Por isso entrei!
Não rangi o portão por precaução e sabia que de nada adiantaria chamar. Fui andando porque o vento era agora mais fraco e a chuva passara, a caminho da cidade. Subindo em direcção à casa podia ver milhares de luzes, em casas e estradas, nos automóveis parados por onde deveriam rolar. Haviam muitas árvores de fruto! A luz não abundava, mas podia vê-los e nem precisava. O cheiro mostrava pêssegos maduros, talvez em demasia e que não demorariam a cair. Os limoeiros não pertenciam ali, porque roubavam aos outros o odor e impediam a calma.
Nos lados, muitos bancos em madeira molhada, exalando o descolar da tinta e alguma ferrugem. Sentei-me um pouco, sorrindo ao sentir a humidade, convidada de honra de um fato estúpido e de meia estação. Não valia a pena continuar.
Um segundo depois ouvi um estrondo colossal, seguindo do mais horrendo grito que possam imaginar, abafado pela chuva torrencial que recomeçara a cair. Gelei de medo.
O despertador do meu telemóvel disparou, por já serem duas e meia, e não chegaria a tempo…
Fiquei imóvel durante vinte minutos, que controlei a cada batida de coração. Parado em gelo e terror, sem conseguir raciocinar, com músculos paralisados que gritavam para que corresse, mas sem ajudarem. Sentia as lágrimas presas, ou misturadas com a água que caía do céu. Percebi que não conseguia ouvir.
Lembro-me de me virar para o casarão, em busca de auxílio. Do local que me provocava tal terror, esperava o fim do mesmo, embrulhado em simples causa.
Nessa altura recordei a estória do meu pai. Certa noite, ficara em igual situação, enfrentando uma silhueta de bruxa, dentro de um cemitério de aldeia. Não explica a coragem, por ter sido o medo que o empurrou, sentindo-o soprando nas costas. Andou devagar, tremendo dos pés à cabeça até ao muro branco, iluminado pela Lua cheia. Tocou então a parede rugosa, onde a bruxa se transformou em sombra real, de um cipreste que dançava ao sabor do vento.
Se voltasse as costas, contrariando o mesmo empurrão, veria a bruxa até à minha velhice. E não queremos envelhecer com tal companhia. Recomecei a caminhar.
O casarão era imponente, quando as sombras começavam a perder a disformidade, para que visse os seus limites. Perto da porta olhei para cima, para uma pequena varanda que espreitava por cima dos meus ombros. O puxador era pequeno e simples, sem gárgulas de bronze e pesados ferrolhos. Só uma chave, do seu lado direito, com uma argola em couro de onde pendiam duas tiras.
Retirei-a com um movimento brusco, ao mesmo tempo que comecei a correr com todas as forças que consegui reunir. Corri por cima das poças sem parar, sem largar a argola com cheiro a molhado, largando gotas nas minhas costas.
Cheguei ao carro sem respirar, ainda com o grito cravado na memória. Guardei a chave no bolso do casaco e parti, depressa…tropeçando na estrada.

Fui trabalhar de olheiras fundas. Acabei cedo o relatório das minhas visitas, com resultado morno e sem paixão. Nenhum dos palacetes servia o nosso propósito. Nenhum dos “seis”.

É quase meia-noite quando vos escrevo. A chave está pousada na mesa à minha frente e não consigo deixar de pensar no meu pai…e na bruxa.Não vale a pena adiar…tenho de ir, agora! De voltar…ao segundo casarão…

segunda-feira, setembro 26, 2005

De férias...

Não das normais! Mas de blogs, de Internet, de escrita, de pensamentos intensos, de sofrimentos por antecipação, de barrigas apertadas, de querer demais, de colos que não chegam…e mais demorarão se exagerar!
Lá para quarta, ou quinta ou sexta, volto a voar baixinho, de vento na face...no cabedal e no frio…que me aquece...

quinta-feira, setembro 15, 2005

O jantar...

Ao anoitecer, começo sempre a ver mal e o cansaço ajuda, no cinzento, que devagar se transforma em escuridão. O convite aparecera há apenas dois dias, arrastando-me para uma pequena vila centenária.
Algures perdido, num interior de bucólico romantismo, vivia um casal com uma estória peculiar. Faziam oitenta anos de casados! Naturalmente casaram novos, e a longevidade alcançada, tornara possível o acontecimento agora festejado. À excepção de um detalhe!
Na carta que lera na diagonal, aparecia um delicioso e estranho pormenor. O casal nunca discutia! Nunca, em oitenta anos de casados, tinha existido a mais pequena discussão. Tinha que investigar!
Cheguei ao hotel e estacionei a dois passos da entrada. Um empregado veio falar-me.
- Bom noite. Vem hospedar-se no hotel? Temos lugar na garagem e sempre fica mais perto do elevador.
Agradeci e voltei a entrar no carro, contrariado. Doía-me muito as costas e precisava de me esticar. O ar começava a estar fresco.
Caminhei, já atrasado, para o local em pedaço de papel. À entrada estava uma enorme faixa, com uma frase confusa – “Oitenta anos à vossa espera”.
Deviam ser centenas ou mais convidados enchendo a sala, de brancos e muitas cores. Sentei-me numa mesa com apenas três, a quem cumprimentei de forma cordial. Eram três raparigas de calças vermelhas, ainda muito novas e que não mais pararam de me observar.
Ao fundo, um pianista enchia o ar. Tinha uma enorme nódoa na camisola, que a contra gosto tentara eliminar. De repente parou, quando um homem pequeno e de cabelo grisalho, subiu para o púlpito exagerado. As raparigas de calças vermelhas ajudavam-me a seguir o enredo. Era o Lourenço, filho do casal de velhinhos, que os meus olhos não conseguiram encontrar.
- É com muita honra que me encontro entre vós, que não conheço e agora vejo. Os meus pais não puderam vir, por velhice e mais vergonha. Mas agradecem e abraçam, todos aqui presentes, para a sua união celebrar.
O homem pequeno parou e bebeu um pouco de água, para respirar. Olhou longamente para sala e continuou.
- Como sabem, eles não falam português. São imigrantes de uma Europa velha e de Oriente, mas com segredos de pronúncia semelhante. O que talvez não saibam… é que não vêem do mesmo país! Nem tão pouco partilham o mesmo dialecto. Meus amigos! Eles não falam a mesma língua!
Perante o espanto e interrogação dos convidados, o bom filho preparou-se para nos abandonar.
Voltou porém, por um momento, só para murmurar.

- Comunicam com a pele…

sábado, setembro 03, 2005

A velha...

Já era muito tarde, quando me perdi. Uma última opção, feita ao acaso, não dera resultado. A teimosia ainda me arrastou por meia-hora, até que percebesse o fim da estrada.
Ao tentar voltar para trás vi uma pequena luz ao fundo, de uma casinha pequena. Quase disparei a imaginação, para antes sorrir e deixá-la viver na mesma, mas devagar. Comecei a caminhar!
A casa não ficava longe e a noite estava linda. Não haviam estrelas, nem Lua, nem nevoeiro, mas continuei.
Era maior do que parecia à distância, muito antiga e demasiado escura. Tinha um pequeno alpendre com uma cadeira de baloiço em madeira e uma teia de aranha. O cenário de terror era completo, empurrado colina abaixo por um estereótipo sem graça. Trocei da cena e toquei à campainha.
O som era baixinho e nada assustador. Logo em seguida ouvi uma voz, perguntando.
- Quem é?
Não respondi porque a porta se abriu rapidamente, para uma velha muito alta, tão feia, tão seca e com um cabelo cinzento brutalmente apanhado no ombro direito. Esperei uma voz agora doce, por estar mais perto e que rompesse com a normalidade. Mas não! Começou logo a falar, engasgando-se num tom medonho que custava a perceber, enquanto me desviava da simpatia e convites para entrar. Que se dane, pensei! Vou embora no próximo segundo, quando a velha parar para respirar.
Mas não consegui, porque a mão de manchas avermelhadas apertou, com a força esperada, puxando-me para dentro.
- Sente-se meu filho, que lhe vou arranjar de comer. Disse antes de desaparecer no corredor.
Fiquei sem reacção. Não conseguia sequer imaginar o que poderia trazer-me para engolir. Estava numa sala horrível, acompanhado de uma inarrável mistura de animais embalsamados, fotografias antigas, livros de culinária e um enorme conjunto de brinquedos, que pareciam ser de gato, tema aliás presente em quase toda a divisão.
Ao centro estava um suporte de livros, em madeira trabalhada, como os que vemos em muitas igrejas. Apesar de sujo e empoeirado, parecia valioso e em cima tinha um livro com uma camada de pó que escondia parcialmente o título, gravado em relevo na capa de couro escuro. Soprar era a única e impossível alternativa que me restava. Lembro em constância a asma que me acompanha, e que não resistiria aquela armadilha. Sentei-me e esperei pela velha.
Ela apareceu pouco depois com um tabuleiro, onde colocara alguns biscoitos, pão e um copo com água. O pão estava um pouco duro, mas os biscoitos eram deliciosos, lembrando-me algo distante e que não identifiquei. A água, muito fresca, acalmou-me e ajudou a que pudesse observar. A velha continuava feia e não condizia com a simpatia tentada. Ficámos uns minutos a olhar um para o outro. Até que ela perguntou.
- Está a achar tudo isto horrível não é?
- Não, minha senhora! Os biscoitos são até muito….
Calei-me de imediato e bebi um pouco de água.
- Estou! Para dizer a verdade, estou. Todo este dia foi um perfeito desastre. E não me parece que vá melhorar.
Sem que quisesse, continuei a falar.
- Aliás toda a semana devo esquecer! Não sei o que vim fazer a um fim de mundo que não conheço e onde não posso encontrar respostas. Parti para me acalmar e termino numa casa suja e feia, acompanhado por uma velha e biscoitos, que provavelmente estão envenenados ou são feitos com entranhas de gato. O livro com pó deve conter magias e feitiços terríveis, ou a lista dos que aqui morreram por um copo de água e algum abrigo. Respirei um pouco antes de terminar, mas sem olhar directamente para a anfitriã.
- E sabe que mais? Não me importo! Se quiser matar-me, não lhe guardarei rancor!
Ela não respondeu, nem se zangou…nem sorriu docemente, como quem vai fazer-me uma festa ou soprar um beijo. Mas levantou-se. Desapareceu de novo na escuridão, murmurando alguma coisa entre dentes. Levantei-me preparado para sair, irritado comigo, com a velha pouco sábia, com tudo de que me pudesse lembrar.
Ouvia-a voltar com passos lentos, carregando algo para oferecer. Nas mãos trazia uma embalagem de biscoitos, que afinal tinham marca e pouco mistério.
- Tome! Leve para a viagem. Desculpe por não serem caseiros, mas não tive tempo para os preparar.
Agradeci e voltei-me, com um boa noite envergonhado. Ela falou de novo.
- Quanto ao resto…quanto ao resto, nada tenho para contar. Porque não posso, porque não sei, porque estou velha e já me cansei. O tempo já não me acompanha e fiquei só, para pensar…
Senti a voz tremer-lhe um pouco, estendendo a mão que apertei. A pele era tão macia…

quinta-feira, setembro 01, 2005

Perfumes...

A memória de um odor traz-nos um qualquer sentir. Três cidades preencheram esse espaço, despertando alegria enquanto o seu cheiro me soprava para entrar.
Nas crianças, a mesma harmonia, com lembranças velhas de décadas e bebé dormindo nos braços.
E mulheres, ainda raparigas, inesquecíveis fragrâncias que ficarão, mesmo que dormindo. Até um dia!
Nessa metade de segundo recordamos e percebemos bem…ao receber um cheiro antigo. Não o senti e não passou por mim. Apenas o imaginei, misturado em tarde quente, parecida com a original.
Difícil de tanta delícia, é quando não sabemos, mas invade.
Senti-o chegando a casa, na palma de mão direita. Era um perfume! De mulher mais velha, em beleza segura e meiga, talvez forçada por minha vontade. Podia mesmo ser?
Refiz os toques das últimas horas, para poder explicar…mas ela não existia.
Agora desapareceu, para que desista de o procurar, sem motivo e outra estória.
Talvez não seja importante…

quarta-feira, agosto 31, 2005

O monge...

Ao procurar a origem do meu nome, fiquei a pensar. Encontrei-a nos medonhos diplomas, ainda longe do kitche e em profundo mau gosto de forma. A explicação coincidia, incrivelmente, até ao mais pequenino pormenor. Somos muito diferentes, os que se chamam assim, pelo que o texto devia referir-se apenas a mim…
Estava em plena mistura de quem luta pela consagração de um nome e o arrepio, este em desconforto, de me sentir na multidão. E fui à procura!
Num dicionário de latim estava a resposta. O tal diploma dizia a verdade, confirmando a origem, mas ocultando as outras explicações. Reparei porém, no que se escrevia quase no final. Avançava outro significado para a palavra, menos conhecida, mas presente na tradução – monge!!
O meu nome significa igualmente, monge! Monge?
Agora estava baralhado, com a mente em estranheza. Que tenho eu a ver com um monge?
Assumi a tradução com menor importância, centrando-me no principal significado, mais próximo e que se ajusta com simplicidade de luva.
Chegaram depois os duendes, felizes e misteriosos. Não era precisa a imagem, mas procurei-a ao navegar.
O meu caminho levou-me à figura que acompanha a minha escrita. Chama-se Frailecillo, sem que perceba porquê. Um pequeno e estranho duende…vestido de monge…

Só hoje fiz a associação de tudo…que estranho. Mas sinto-me calmo…

sábado, agosto 27, 2005

Começa a ser estranho...

Não escolhi a minha cama ou pelo menos não o fiz da forma habitual, correndo quilómetros em lojas demasiado cheias.
A Carla ia viver para Paris e não sabia o que lhe fazer. Eu vivia numa casa alugada, com uma mobília que não podia trocar. Mesmo assim pareceu-me boa ideia comprar-lhe a cama. E assim foi, mas com alguma luta. O prédio não tinha elevador e é difícil montar uma estratégia de transporte quando se tem a barriga a doer de tanto rir.
Mas já noite fechada, conseguimos! Ficou guardada quase um ano na cave dos meus avós, esperando a sua vez.
Um dia, conquistei as chaves do meu abrigo e lá fui buscá-la outra vez. Mais uma aventura apareceu, porque por aqui também não existem elevadores e a opção de desmontar a estrutura só foi assumida em último recurso. Afinal até uma cama tem a sua dignidade.
Finalmente repousou no quarto eleito. Ela é grande, bastante grande, para quem dorme sozinho. Mas se o fizer na diagonal, preencho o espaço e estico-me em várias direcções.
Assim foi até este Verão! Com a chegada do calor, passei a dormir destapado, sem lençóis limitando o meu sono e sonhos. No meu quarto quase não há luz, durante a noite. Apenas um pequenino ponto amarelo, de um monitor que raramente uso. Enquanto durmo, não percebendo porquê, passei a rodar sobre mim, acordando a meio da noite, sem saber para que lado me virei. É um autêntico desafio perceber onde estou, o que procuro ou em que lado está a pequena luz amarela que de pouco me serve.
Tudo termina, na maior parte dos casos, quando consigo detectar a cabeceira, único elemento diferenciador do leito que me confunde. Um dia cheguei mesmo a cair parcialmente, dando por mim de bruços no chão, tentando não rir da minha figura.
Apesar de tudo continua a ser muito confortável, a minha cama. Apenas não sei o que procuro a meio da noite. Talvez ajude se colocar uma daquelas luzes de presença, que as crianças tanto adoram. Será boa companhia!

segunda-feira, agosto 22, 2005

A descoberta...

Sexta-feira

Jantei comigo e com a calma da minha noite preferida.
Rumei a casa familiar para ver um sorriso de criança e espreitar um jogo tristonho.
Voltei e adormeci no sofá. Não tive forças para abraçar um livro.

Sábado

De tarde patinei em linha e algumas curvas. Caí e esfolei o braço direito, exactamente no mesmo local onde uma ferida igual estava a finalizar o seu processo de cura. Devemos rir de tamanho azar.
À noite atravessei o rio, para conversar e sentir amizade.

Domingo

Mergulhei na água fria, sem vontade. Esqueci-me que a praia já terminara. Regressei depressa a casa.

Dei por mim a pensar…se a vida não tem mais para dar!?
Dou por mim a responder…talvez esteja na minha mão pedi-lo!?

Compreendi então o meu erro. E continuarei a dar!
Não pela recompensa...mas porque é o que faço!

sexta-feira, agosto 19, 2005

O colo...

Há dias em que acordamos perto de um lugar distante. Em que trocávamos um tesouro com jóias às pintinhas, por um colo amigo e tranquilo.

Há dias em que ficávamos horas a respirar o sono de outros, oferecendo quase nada para tanto receber…

Hoje é um desses dias…

quarta-feira, agosto 17, 2005

O rapaz que saltava...

De novo uma notícia estranha! Ler jornais e revistas já gastos, leva-nos a um mundo maravilhoso e pouco normal, mas de delícias a que não resisto. Na cave dos meus avós, imaginada e sentida com um antigo sótão, fiz a descoberta.
Era um velho conjunto de revistas com uma particularidade interessante. Apesar de serem claramente números da mesma edição, todas tinham um nome diferente. Da número dois, à trinta e cinco, empilhavam-se as mais diferentes palavras formando um título, de resto igual na forma e nas cores. Maravilhas, Profecias, Cozeduras, ou Festivais, eram alguns dos que ainda recordo e que nunca consegui entender bem.
Deste golpe de publicidade avançado para a época, lembro uma com emoção, para que agora partilhe o seu conteúdo. Chamava-se A Competição e entrando em suas páginas descobri um único artigo.
Contava em pormenor uma competição antiga que tinha lugar numa aldeia do centro do país. A ideia era simples. Homens de várias idades competiam pelo maior salto. Bom, apesar de assim ser chamado, na realidade tratava-se mais de uma queda. Os organizadores preferiam dizer que saltavam, pela nobreza da expressão, em oposição ao que realmente acontecia. Na aldeia existia uma enorme árvore com ramos que nasciam do tronco principal em perfeitas linhas horizontais. O mais baixo tinha cerca de cinco metros e lá em cima, a quase 30 metros ficava o topo, com um único ramo magricelas, marcado com um farrapo encarnado.
Nada mais simples. Quem caísse, ou melhor, saltasse do ramo mais alto, era o vencedor!
A revista relatava décadas de competição, com as mais incríveis estórias envoltas numa mistura de crenças, lendas e alguns factos documentados.
Muitos dos que tentavam, partiam uma ou ambas as pernas, assim como todo e qualquer osso registado na anatomia. Obriguei-me a saltar algumas páginas com descrições e até fotografias das mais emblemáticas lesões que os saltadores haviam sofrido. Um deles, de nome Joaquim era lendário pelos seus recordes, de saltos e de fracturas. Já com cinquenta anos, contava com mais de 20 fracturas em cada perna e um sem número de costelas partidas. Nos braços apenas uma, quando um vento inesperado fez com que caísse desamparado em cima de um muro. Os aldeões juravam ter ouvido um médico que o tratou várias vezes, dizer que os seus ossos haviam sido tantas vezes partidos, que se formara uma camada de cálcio dupla, muito resistente e quase inquebrável. Com efeito, nos últimos anos Joaquim era o vencedor incontestável da competição, gerindo os confrontos com homens mais novos e aterrorizados. De menor importância eram os quase dez centímetros que faltavam na sua atarracada estrutura, consequência de um progressivo esmagamento dos discos vertebrais.
Algumas páginas tinham sido arrancadas da revista, que voltava ao artigo solitário já em plena competição, num ano distante, em pleno mês de Agosto.
A ausência de regras era total e o objectivo reduzido ao maior salto. O evento durava um único dia, de sol a sol e enquanto aparecesse alguém a desafiar o campeão. Tinha sido um dia calmo e faltava pouco para o seu fim. Joaquim vencia com facilidade, apenas necessitando de saltar uns modestos dez metros. O seu último oponente aterrara de costas, riscando vários nomes de saltadores inscritos, transformados em desistentes.
- O vento hoje veio com o Joaquim! Protestavam alguns, justificando o recente recuar, mas ainda de peito inchado.
Até que de repente apareceu um rapaz! Inscreveu-se junto do júri, que de nada servia, a não ser para esta função. Uma vez que todos os outros tinham desistido, avançou para junto da árvore. Era muito baixinho e coxeava ligeiramente, mas de resto era até bem parecido, vestindo um fato nada apropriado à ocasião e de cabelo muito bem penteado.
Joaquim aproximou-se, desejando-lhe as maiores felicidades, que na verdade consistiam em ver o adversário esborrachado a seus pés. A competição atraía um enorme número de espectadores e apostadores, convertendo em lucro e prémio chorudo o entusiasmo da multidão. O campeão era um homem muito rico, à custa das quedas, proporcionalmente inversas ao saldo da sua conta bancária.
Com ar sério que não escondia troça, perguntou?
- De que altura vai saltar?
O rapaz respondeu com um sorriso.
- A quantos metros está aquele lá no alto, o do pano encarnado?
O espanto de Joaquim foi absorvido por um suspiro colectivo que juntava ansiedade, ao mais puro dos horrores.
Sem esperar a resposta que não apareceria, o rapaz subiu para o guindaste que o levaria ao cimo da árvore. Noutros tempos tinham que subir a pulso, mas um generoso patrocinador oferecera os seus serviços.
O homem que operava a máquina tremia tanto que alguns temeram pelo fim da contenda, ainda em rota ascendente.
Chegado ao cimo, parou suavemente e o rapaz subiu para o último ramo.
Neste momento fechei a revista, apertando-a no colo. Durante momentos recolhi forças para continuar a ler o que agora me atormentava, prevendo um fim demasiado trágico.
Lentamente voltei a abrir a página permitindo-me olhar para frase seguinte.
«…e então o rapaz sentou-se no ramo, olhando para baixo».
Fechei de novo as páginas, agora já assustado. Por um segundo ansiei, até não mais suportar. Levantei-me de repente e juntei a revista às restantes, ordenadas cronologicamente. Reparei então que era a penúltima do monte empoeirado.
Ao sair ainda consegui ler o título do número seguinte.

“O rapaz que saltava”.

terça-feira, agosto 16, 2005

A tortura...

O calor não abrandou! Mas pelo menos a noite já tinha chegado. Seria auxílio precioso para que não mais transpirasse.
O perfume era quase tóxico. Quem me dera que fosse embora.
Ao sair reparei no fresco que se despedia da penumbra. Continuava nervoso e sem certezas. De nó que acompanha o estômago e um andar inventado à pouco tempo, entrei no carro alugado e esperei um pouco.
Nem era caro, para um desportivo negro e elegante. Hesitei nos dois lugares. Talvez fosse demasiado óbvio, mas acabei por ceder ao vendedor, empenhado em me ajudar.
Liguei a música e cerrei os lábios. Era só uma noite.
A ausência de capota era reconhecida como um erro, mas nada tinha a ver com o resto. Era genuína e permitia que respirasse. Acelerei como louco, avançando sem pensar.
Cheguei sem subtileza a uma rua muito iluminada. A enorme quantidade de pessoas obrigou-me a circular muito devagar, entre peles bronzeadas e odores confusos. Faltava pouco para que desaparecesse. Morreria à distância de uma camisola de marca, se tivesse escolhido o vermelho como transporte. Tudo estava tão errado.
Pensei na véspera. Nas horas passadas a conversar com as teclas. Ela tinha aparecido com um suave bater de porta ainda virtual. Recusou-se a partilhar o nome e passámos muito tempo a falar de estranhas músicas tocadas por grupos desconhecidos. A todos disse que sim. Sobre todos lancei comentários oportunos, enquanto procurava os seguintes plágios para opinião forçada, que jamais poderia reconhecer como minha.
Combinámos um encontro logo para a noite seguinte, enamorados pelas melodias que partilhávamos num estranho top imaginado. E era tudo mentira! Principalmente a fortuna gasta em melodias que agora me atormentavam, espalhando comentários à minha volta em quem me reconhecia como um igual. Era tão complicado o código de expressões e ginástica de mãos e dedos, que optei por pequenos sorrisos e um leve acenar de cabeça, para variar, quando os músculos da face começavam a doer.
Cheguei finalmente ao local escolhido. Era uma esquina em que ainda não acreditava e as pistas que procurava, escassas e assustadoras. Dissera que esperaria por mim num carro cinzento inconfundível, que ocuparia de certeza lugar na única esquina das redondezas. A arquitectura pouco convencional do lugar, transformou em fácil demanda a identificação do sitio e o que vi em seguida, confirmou o mergulho para a dor.
Estacionada estava uma carrinha cinzenta muito antiga e a cair de podre. Também não tinha capota, mas essa parecia ter sido arrancada por um obstáculo em considerável erro de cálculo. Lá dentro…ninguém. Parei o carro e avancei. Já não tinha nada a perder e fazia-me bem deixar de ouvir aquela música que não escolhera.
Ao perto, era uma visão ainda mais incrível. Não tinha agora dúvidas que o tejadilho havia sido serrado, ou cortado, transformando uma antiga carrinha suburbana, no descapotável mais medonho que alguma vez vira. Por momentos achei que ia começar a chorar, quando senti uma mão nas minhas costas.
- O senhor não está a pensar em assaltar-me o carro pois não?
Voltei-me para encontrá-la, obrigando aquela lágrima a regressar ao seu posto.
Tinha o cabelo muito comprido, mas apanhado de forma confusa num emaranhado de ganchos e fitas de várias cores. A pele não estava pintada e não pude reparar na roupa, antes que me dissesse.
- Vamos? Onde tens o carro?
Devolvendo três beijos consegui articular?
- Não preferes ir no teu?
Ela sorriu enquanto me dava a mão de forma carinhosa, sem responder.
O sorriso foi dando lugar a um silencio estranho enquanto nos aproximávamos do carro, agora ainda mais desajustado que podia imaginar, e que só um raro momento de demência justificaria.
Ela só conseguiu murmurar.

– Tu deves estar a brincar. Esta coisa é tua?
Não respondi. Se o fizesse seria em descontrolo total e maior vergonha. Abri as portas e convidei-a a entrar.
O simples acto de ligar o motor era um pesadelo. Empurrado por um grupo de cavalos enraivecidos, parecia querer levantar voo.
- Sim, senhor! Achas que isto tem potência suficiente?
Voltei a não responder, por mais vergonha e pelo barulho, que me deixou dúvidas se estaria a falar do carro.
Já em andamento, sabia ter chegado a altura de maior sofrimento. Na mudança correcta e sem acelerar em demasia, o ruído era bastante menor e convidava ao momento que me aterrorizava. Esperando, estavam as estranhas músicas que comprara e cujos nomes levei um dia inteiro a tentar decorar. Agora nada mais podia fazer. Passei os dedos pela consola do rádio adiando por segundos o inevitável. Então parei! Rezei em silêncio e escolhi as únicas verdadeiramente minhas e que tinha trazido por superstição. Era uma colectânea de músicas antigas, na sua maioria retiradas de filmes velhinhos e já esquecidos. Assim que os primeiros acordes se libertaram, voltei a respirar, sentido pela primeira vez o vento a passar baixinho. Sem temer olhei para o lado. No meio de um sorriso enorme pequenos versos saíram a cantarolar.
- És mesmo tolo. Espero que só tenhas pago um dia de aluguer!
- Obrigaram-me a pagar pelo fim-de-semana inteiro. Respondi baixinho.
Ela encostou a cabeça no meu ombro.
- Pelo menos não gastaste dinheiro naquelas músicas esquisitas de que me falaste ontem.

O riso chegou sem aviso e a sua mão não mais me deixou.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Tantas cores...

Cheguei muito cedo. Mas tinha a certeza. Acho que estava a tremer um pouco, do muito nervosismo, misturado com sonho. Perguntaram-me se era a primeira vez. Não basta assumir a pele como destino. Havia que esperar a dor. Se foi intensa, perdi-a nas horas e mais meia. A música levou-me bem dentro de um local que desconhecia…e suspirei pelas cores…Eram elas as mais fortes.

Ficará para sempre comigo, agora que a reencontrei.

A motoreta, o atrelado, a abóbora e o fardo de palha…

Andar à deriva é tão diferente. E podemos continuar sem preocupações…
Derretendo a memória até que fique tão fina. Que nos deixe passar…espreitar e rir…
Ontem foi um desses dias. Em que acordamos e os olhinhos não querem fechar, já sabendo que não o farão.
Ficamos a percorrer estradas que não são de terra. Ficamos a pensar na ternura e outras letras menos brilhantes. É incrivelmente belo, diria que feito de momentos, em que já só sai uma raiva tão calma e sem nexo. Depois pensamos com menos clareza, pois o cansaço não ajuda, apesar do que dizem. Lembramo-nos de que nos torce. Do que nos faz sofrer. Arriscamos uma lágrima que não chega a sair, porque percebemos que é relativa.

Era confuso, mas de gigante…poder abandonar tremores demasiado complexos. E poder saltar, mas baixinho…perante o que não é tão forte e só vive da nossa teimosia em continuar.

Depois, ainda de olhos abertos, olhei para fora de mim. Passava um ser estranho. Um homem conduzia uma motoreta com um atrelado. Dentro trazia uma abóbora e um fardo de palha.

Parecia feliz!!

sábado, agosto 06, 2005

A tatuagem perdida...

Perdi a minha tatuagem. Nem vale a pena chorar ou pensar que foi um sonho. Está perdida para sempre. Lembro-me de ver o amarelo a sair de repente. O verde resistiu um pouco mais, preso a um vermelho teimoso. Seguraram-se com raiva ao contorno que conquistou os anos.
Deve ter sido quando me voltei de repente. Nunca mudaria de direcção se não te olhasse, se não te visse em sombras.
Que posso fazer…?

terça-feira, agosto 02, 2005

Mestre...

Ao mestre tudo devo,
recordando o que ainda vou ler.

Dançando em palavras,
sorrindo com um tolo.

Recuperei a alegria de pensar.
De afastar cortinas e respirar.

O pó já nem existe,
nem me obriga a esperar.

Pequenas letras podem nascer,

para que corra no impossível.

O segredo...

Já esqueci…E até foi fácil. É sempre, quando não prendemos.
E mesmo perante o que já não lembro…fico a pensar…
Não deve existir obrigação. Até podia fingir, não dizendo a verdade.
Só ao revelar o olhar precisamos ter mais cuidado…

E agora já me deixo guiar, sempre pelo som e pelo cheiro imaginado.

Mas a confusão volta à nossa porta. É como um velho sem dentes…
Capaz de nos arrancar mais que uma verdade.
Um daqueles que faz chorar pepitas. Que não quer ir embora.
Haveria de continuar em tanta calma, se alguém deixasse.

E brilhava! Inspirado pela falta. Atirado com mais doçura.

É pura tolice enganar. Ao senti-lo devemos parar.
Não é tarefa de ciência e pouca arte. Por tal precisamos descansar.
Senti-la sair devagarinho. Não querer forçar o que se entreabre.E é tão verdade que de novo chegou…visitando-me em longos abraços…

O peito...

O peito deixa-me dúvidas
e a curva vai dobrando o espírito.

Faz-me hesitar em sair,
tocando para que pare de sofrer.

Porque abres só para mim?
Porque me sonhas e abraças?

Envio a pele como a um moinho,
Acabo por ver e nem sentir.

E termino trocando o caminho.

Junto a ti...

Até podia escrever.
Até esperava pelo sono e por mais torpor.
Por ter medo e não gozar,

Para lembrar não podia ver,
nem recordar o contorno da cor.

Os braços senti-os logo, para os saber no final de dia.
Ao perfume fico e devo memória.
Tenho que ficar mais perto.

A lua torta...

Por tradição pude vê-la espreitando pela pequena janela. Estava torta. A Lua tinha nascido tão torta naquela noite mal começada. Porque seria? Pensei na resposta e na sua intranquilidade. Devo esperar o pior.
Depois sai para a rua, para caminhar e pensar.
Continuava lá no alto. Indelicadamente inclinada, apagando as sombras que muito se confundem com um melancólica expressão.
Nessa altura vi, descendo a rua estreita, uma bicicleta pequena, mas sem criança. Era cor-de-rosa com flores e uma campainha azul claro. Consegui segurá-la quando passou por mim. Fiquei parado, à espera de uma rapariga de totós encarnados a correr pelo seu tesouro, seguida por uma mãe assustada e quase zangada. Com sorte seria jovem, esperando um seu igual, ao dobrar de uma esquina como esta.
Mas não! Quem apareceu foi um homem. Alto e bem vestido, em passo acelerado mas com tranquilidade aparente. Agradeceu-me e desculpou-se várias vezes. Ponderou a retribuição material e largou a ideia percebendo os sinais. Despediu-se com educação e partiu.
Olhou só uma vez para trás, acenando em serenidade. E eu fiquei ali. Não havia mais nada? Nem magia, nem tragédia ou qualquer curioso destino?
A normalidade doía-me como nunca. E enquanto afastava a vergonha da banalidade, ouvi um estrondo seguido se um estilhaçar de vidros. Olhei para cima e do primeiro andar do prédio onde o homem entrara, chegou a minha resposta. A bicicleta cor-de-rosa voava em direcção ao chão empedrado, depois de ter atravessado uma janela. Caiu acompanhada de milhares de vidros, a poucos metros de onde estava. Não sabia o que fazer. Apesar do barulho não havia ninguém à vista na rua e as janelas dos prédios vizinhos continuavam caladas.
Esperei uns momentos e comecei a caminhar, para logo parar. De novo o homem, que agora parecia ainda mais alto. Desta vez não estava tão tranquilo. Dirigiu-se a mim com um ar decidido mas ainda educado. Optou agora por ignorar os sinais e estendeu-me a mão com um punhado de notas. Guardei-as sem agradecer e fiquei em silêncio. Ele agarrou no que restava da bicicleta e voltou a entrar.
Liguei o telemóvel e marquei três números que não utilizaria, enquanto começava a caminhar. A porta do prédio, entreaberta, convidava-me a continuar. Aceitei sem hesitar e subi as escadas. No primeiro andar havia duas portas, mas uma delas estava em muito mau estado e com dezenas de cartas lutando por entrar no pouco espaço que ainda havia perto do chão. O imaginário obrigou-me a decidir pela opção mais óbvia e voltei-me para a outra porta.
Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado, esperando. Antes que a coragem voltasse, a porta abriu-se e o homem apareceu, ainda com a bicicleta e sem o espanto comum.
Colocou o metal retorcido no corredor, sorriu e convidou-me a entrar.
À parte do enorme estrago na janela, a casa estava arrumada e muito bem decorada. Tinha uma enorme sala com muitas portas que acompanhavam um circulo tosco de paredes com quadros coloridos. Sentámo-nos num sofá que ficava ao centro e ofereceu-me uma bebida. A recusa precipitou a conversa. Tinha quarenta e cinco anos e estava divorciado há três meses. A mulher tinha partido, levando a filha de ambos, única linha que mantinha com a paz há muito perdida. Em pleno tribunal agredira o seu próprio advogado, escapando por pouco à prisão, mas perdendo tudo o resto. A acusação de comportamento instável e potencialmente violento, foi facilmente aceite e o resto desmoronou.
Admitiu com ironia que bicicletas voando por janelas, não ajudam.
Perante a evidente encruzilhada, restava-me perguntar.
- Reparou que a Lua está torta?
Ele sorriu e confessou só para mim.
- Está assim desde que ela saiu. Entortou naquele preciso momento. Mas quase ninguém reparou. E mesmo você deve ter pensado que era por sua causa.
Tentei não corar e voltei às perguntas.
- Diga-me! Antes do tribunal, alguma vez tinha sido violento?
- Claro que não. Sabe bem que não.
A pergunta não tinha sentido. Sabia-o mesmo antes de a fazer. Fiquei mais uns minutos, sem algo acrescentar.
Desejei sorte sem convicção e saí.
Quando cheguei à rua olhei para cima. A Lua estava agora encoberta por uma nuvem. Sentei-me na entrada e esperei que passasse. Logo me levantei, com o satélite ainda tapado.Não precisei de a ver. Ainda estava torta. E nada podia fazer.